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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A todos os amigo(a)s e camaradas, boa noite, até amanhã !


Pioneirismo histórico perturbador

Quando ouvimos sobre "pioneirismos históricos,"  a nossa tendência é pensar em coisas boas: o primeiro homem no espaço, o primeiro homem na Lua,  o primeiro bebê de proveta e outras grandes conquistas da humanidade.  Mas há  um outro conjunto bem mais sombrio de estreias históricas: casos  de morte, de loucura, tortura e assassinato que inspiraram tendências perturbadoras. Aqui estão dez delas.

10 – O primeiro atirador em uma escola 
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As pessoas tem levado tiros nas escolas desde que as armas de fogo foram inventadas. Mas na maioria dos casos, existe um alvo óbvio e uma causa óbvia, uma relação plausível entre vítima  e atirador.  Foi somente no século XX  que se registrou o primeiro caso de um  louco invadir uma escola, percorrer  sala de aula por sala de aula, e, aleatoriamente, começar a atirar sobre as crianças.

Em 20 de junho de 1913, um desempregado de 29 anos de idade chamado Heinz Jacob Friedrich Ernst Schmidt entrou em uma escola em Bremen, na Alemanha, e matou quatro meninas. Uma quinta aluna morreu ao quebrar o pescoço enquanto  tentava fugir. Todas tinham entre  cinco e seis anos de idade. Vários adultos que tentaram parar Schmidt sofreram ferimentos graves, até que um cocheiro entrou no edifício com um tridente e conseguiu imobilizar o assassino. O verdadeiro motivo para o massacre nunca foi esclarecido. Quando foi levado para o hospício penal, Schmidt disse em meio às lágrimas: "Eu fui o primeiro, mas outros virão." A veracidade da frase pode ser contestada, mas quanto a profecia implícita, a história cuidou que se cumprisse.


9 – Os primeiros campos de concentração

Em 1896, a Espanha colonial tinha um problema. Guerrilhas armadas lutavam para arrancar Cuba do controle espanhol e entregá-lo ao povo cubano. Temendo a perda de sua ilha, a  Espanha despachou para lá o general Valeriano Weyler. O raciocínio desse homem era que não sendo possível distinguir os cubanos comuns  dos insurgentes, a solução era aprisionar toda a população em acampamentos batizados de "campos de reconcentração."
Mal conservados, sem abrigo e praticamente sem comida, os campos logo se transformaram em valas comuns. A fome assolava os presos. Doenças varriam  acampamento por acampamento. Centenas de milhares de homens, mulheres e crianças morreram. Aqueles que se recusavam a ser internados foram executados na hora. Ao todo, estima-se que 400.000 civis tenham morrido no que é conhecido como o "Holocausto Cubano." Quando fotos desses acampamentos chegaram ao resto do mundo, provocaram uma reação pública contra a Espanha. Infelizmente, o horror desses campos reviveria através das décadas posteriores  em lugares como Belsen, Gakovo, Chacabuco, Auschwitz e Guantánamo.



8 – O primeiro ataque aéreo
O primeiro ataque aéreo
No início do século XX, o conceito de guerra aérea ainda era assunto de ficção científica, o famoso escritor britânico H.G Wells escreveu vários livros usando o tema como argumento. Porém, tudo mudaria na Líbia, em 01 de novembro de 1911. Naquele dia, o Tenente Cavotti, um aviador italiano, lançou quatro bombas  de seu avião sobre posições turcas estacionadas em Trípoli.

As próximas semanas presenciaram uma campanha de "ataques aéreos" sobre toda a cidade. Bases árabes viram granadas cair sobre elas. Posições turcas foram golpeadas. Um hospital de campanha foi acidentalmente bombardeado, provocando a indignação internacional. Apenas 30 anos depois, na Segunda Guerra Mundial,  o mesmo princípio seria usado para devastar Londres, Pearl Harbor e as principais cidades da Alemanha e do Japão.




7 – A primeira campanha terrorista moderna
As raízes do terrorismo podem ser rastreadas até ao século I a.C, mas  foi somente na década de 1880 que um grupo de  pessoas, em busca de vingança e por disputas políticas,  decidiu atacar civis usando bombas. Nesse ano, a Irmandade da Republicana Irlandesa, respondeu ao que considerava ser crimes britânicos cometidos contra seu país, com uma campanha de terrorismo que tinha como alvo principal o metrô de Londres.
Em 30 de outubro de 1883, duas bombas explodiram na linha ferroviária metropolitana da cidade. Uma explodiu cedo demais e só danificou o túnel.  A outra atingiu  diretamente um carro que passava. Quatro pessoas ficaram gravemente feridas, mais de duas dezenas sofreram ferimentos leves. Era o início de uma campanha de terror que somaria mais de 80 vítimas. Além do metrô, marcos históricos e jornais também viraram alvo dos ataques.

Ironicamente,  as únicas mortes que resultaram dessas explosões foram as dos próprios terroristas: em 13 de dezembro de 1884, três deles acidentalmente detonaram uma bomba que  estava sendo armada na Ponte de Londres. Os três morreram na explosão.


6 – A primeira marcha da morte
cheorokess
Nós costumamos associar marchas da morte com a brutalidade alemã e japonesa na Segunda Guerra Mundial, porém,  a primeira marcha da morte moderna foi conduzida por soldados americanos.
O ano era 1838.  O governo dos Estados Unidos vinha relocando tribos nativas americanas durante a maior parte da década. Muitas dessas remoções resultaram em suas próprias tragédias, no entanto, foram os cherokees, sob o olhar atento do general Scott, que  seriam vitimas da primeira marcha da morte moderna.

Sempre sob a mira das armas dos soldados, os cherokees foram forçados  a marchar cerca de 2000 quilômetros para um território escolhido para eles pelos brancos. O mau tempo, a fome e as doenças mataram milhares de pessoas no caminho. Estima-se hoje que 5.000 cherokees tenham morrido nesta marcha, assassinados por um governo inescrupuloso. Aqueles que sobreviveram, se viram distantes de casa, com poucos pertences e pouca esperança para o futuro. Essa política brutal, seria usada contra os americanos nativos vez após outra vez, pelas décadas seguintes.



5 – A primeira revolução moderna
A primeira revolução moderna pode ser rastreada à uma data específica: 1688, o ano da Revolução Gloriosa da Grã-Bretanha.

De acordo com o historiador Ted Vallance, esta revolução pode ser classificada como a primeira da era moderna, não apenas por causa da violência que a acompanhou, mas também por causa do choque cultural por trás dela. Vallance defende que todas as revoluções anteriores viram progressistas se chocando contra os tradicionalistas. A partir de 1688, o que passou a se ver foram dois grupos de progressistas se chocando um contra o outro, culminando em violência e na profunda transformação do Estado. Em outras palavras, era a primeira vez que dois grupos queriam mudar a sociedade de forma tão drástica,  que era preciso eliminar o outro para fazê-lo.


4 – As primeiras armas biológicas

Peste negra
Em 1347, as forças mongóis cercavam a importante cidade portuária de Caffa, na Ucrânia moderna. À procura de novas maneiras para atacar os moradores sitiados, um general desconhecido ordenou a seus homens que colocassem corpos infectados com a peste negra nas catapultas e os jogassem para dentro da cidade. Este incidente, além de ser o primeiro registro de guerra bacteriológica da história, pode também, indiretamente, ter moldado o mundo moderno.

De acordo com a Enciclopédia Britânica, havia muitos comerciantes italianos em Caffa. Há uma boa chance de que eles rapidamente voltaram para casa quando viram a peste se espalhando pela cidade sitiada, o que resultou na doença chegar à Europa. Como sabemos, a praga então  devastou o continente, matando cerca de 25 milhões de pessoas e mudando o curso da história.



3 – A primeira guerra química

Embora seja mais associada com a Primeira Guerra Mundial, a guerra química ainda parece ser uma aberração moderna: o tipo de coisa que os nossos antepassados teriam considerado como um horror além da compreensão. Por isso, pode ser uma surpresa descobrir que há evidências científicas dela ter sido  utilizada já em 256 d.c.
Em 2009, arqueólogos descobriram restos de betume e cristais de enxofre em escavações em Dura-Europos, na Síria, no local exato onde vinte corpos de soldados romanos que morreram asfixiados foram descobertos em 1930, pintando um quadro terrível de alguma batalha esquecida.

Dura-Europos havia sido conquistada pelos romanos, que lá instalaram uma grande guarnição. Por volta de 256 d.C, a cidade foi submetida a um cerco feroz por um exército do novo e poderoso império persa sassânida.

A teoria é que os persas enfrentaram  os invasores, queimando os cristais em túneis que levavam ao forte romano, para tanto, eles utilizaram foles para soprar o ar tóxico até os seus inimigos, o que causou inconsciência em segundos e morte em minutos. Se a história  for verdadeira, seria o mais antigo relato de guerra química para o qual temos provas, ocorrido cerca de 1.800 anos antes depois da famosa Batalha em Ypres.


2 – O primeiro genocídio
Guerras Púnicas
Não foram apenas as armas químicas cuja estreia ocorreu durante a  época romana. O genocídio é registrado  primeira vez na história durante a Terceira Guerra Púnica (149-146 a.C).

Cansados de guerrear contra a cidade de Cartago, os romanos tomaram a decisão de destruí-la totalmente. E embora saibamos que o saque de cidades junto com o assassinato de seus habitantes não era incomum na época, raramente era tão feroz quanto ao que houve em Cartago. Os romanos não estavam interessados em simplesmente ganhar uma vantagem tática ou acabar com o poderio dos inimigos, eles odiavam tanto os cartagineses que desejavam aniquilá-los.

Para isso, eles cercaram a cidade, os moradores foram abatidos ou vendidos como escravos; depois, os romanos  passaram a  desmantelar  Cartago tijolo por tijolo; em seguida, queimaram o que restou, até que  sobrassem somente as cinzas. Há ainda especulações de que eles jogaram sal sobre a terra, para que nada crescesse por lá novamente, eles queriam ter certeza que seus odiados inimigos nunca pudessem voltar para casa.


1 – As primeiras câmaras de gás
Hoje nós associamos as câmaras de gás com os horrores do Holocausto. Mas os nazistas não foram os primeiros a usar esse método para exterminar os indesejáveis. Essa “honra” vai para as forças turcas e curdas durante o genocídio armênio.

Em 1915, o Estado otomano decidiu exterminar os armênios da face da Terra. Milhares de pessoas foram presas, executadas ou mandadas para  marchas da morte no deserto, sob o sol escaldante; outras foram levadas para o deserto da Síria, onde se tornaram as primeiras vítimas de câmara de gás da história. Sob as ordens de seus captores, os civis armênios foram trancafiados em uma grande caverna, as forças turcas então bombearam fumaça para dentro dela, até que todos os prisioneiros tivessem morrido por asfixia. Estima-se que milhares de pessoas morreram dessa maneira.

kid-bentinho.blogspot.pt

BALLET ROTOSCOPE

Prof da Universidade - varredor durante um mês ...


"Um psicólogo fingiu ser varredor durante 1 mês e viveu como um ser invisível.
O psicólogo social FB da Costa vestiu a farda de varredor durante 1 mês e varreu as ruas da Universidade de São Paulo, onde é professor e investigador, para concluir a sua tese de mestrado sobre 'invisibilidade pública'. Ele procurou mostrar com a sua investigação a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente condicionada pela divisão social do trabalho, onde se valoriza somente a função social e não a pessoa em si. Quem não está bem posicionado sob esse critério, torna-se uma mera sombra social.
Constatou que, aos olhos da sociedade, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'.
Ele trabalhava apenas meio dia como varredor, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples BOM DIA, que nunca recebi como varredor, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência”, explica o investigador. Diz que sentiu na pele o que é ser tratado como um objecto e não como um ser humano. “Os meus colegas professores que me abraçavam diariamente nos corredores da Universidade passavam por mim e não me reconheciam por causa da farda que eu usava.”
- O que sentiu, trabalhando como varredor?
- Uma profunda angústia. Uma vez, um dos varredores convidou-me para almoçar no refeitório central. Entrei no Instituto de Psicologia para levantar dinheiro, passei pelo piso térreo, subi as escadas, percorri todo o segundo andar, passei pela biblioteca e pelo centro académico, onde estava muita gente conhecida. Fiz todo esse percurso e ninguém EM ABSOLUTO ME RECONHECEU. Fui inundado de uma indescritível tristeza.
- E depois de um mês a trabalhar como varredor? Isso mudou?
Fui-me habituando a ser ignorado. Quando via um colega professor a aproximar-se de mim, eu até parava de varrer, na esperança de ser reconhecido, mas nem um sequer olhou para mim.
- E quando voltou para casa, para o seu mundo real, o que mudou?
Mudei substancialmente a minha forma de pensar. A partir do momento em que se experimenta essa condição social, não se esquece nunca mais. Esta experiência mudou a minha vida, curou a minha doença burguesa, transformou a minha mente. A partir desse dia, nunca mais deixei de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe, que é importante, que tem valor.
Aprendi verdadeiramente, com esta experiência, o valor da dignidade."

FEIJÃO CARETO


A origem do Hip Hop e o seu compromisso


Hip Hop


















Era a década de 70, Estados Unidos, cenário visivelmente caótico nas comunidades negras periféricas, inúmeras pessoas pobres, em empregos mal remunerados, com baixa ou nenhuma escolaridade e muita pele preta.

Era o auge do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos, Martin Luther King, importante ativista que conseguiu reunir mais de 250 mil pessoas na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade tinha acabado de ser assassinado, juntamente com Malcolm X, ex-membro da Nação do Islã e importante personalidade que lutava pela defesa dos direitos dos negros. Naquela época entrava em ação o polêmico revolucionário Partido dos Panteras Negras. A quantidade de movimentos que lutavam pelos negros carregava um grande objetivo em comum: a emancipação do povo afro-americano, que na época ainda evidentemente sofria bastante devido as sequelas da escravidão.
Os quilombos norte-americanos, mais conhecidos como “gueto” evidenciavam a precaridade das condições dos ex-escravos somente com uma fácil e rápida observação, como ruas sujas e abandonadas, com poucos ou nenhum espaço para lazer, falta de locais para emprego e uma polícia racista que praticamente agredia quase qualquer negro que encontrava pela frente.
CENÁRIO
No sul dos Estados Unidos, região onde a escravidão foi mais difundida, políticas segregacionistas semelhante às do Apartheid na África do Sul eram implantadas. Ônibus possuíam assentos para brancos e para negros, todos separados, bebedouros e banheiros também eram separados, algumas áreas era permitida somente a entrada de brancos e até 1954 nas escolas públicas era permitido somente o ingresso de pessoas brancas ou “de cor”. Organizações fechadas como a Ku Klux Klan, assim como a polícia, agiam de forma bastante violenta contra os negros, impulsionando até a própria população a agir de forma violenta, como foi o caso de Emmett Louis Till, garoto negro que em 1955 assobiou para uma mulher branca e como vingança foi torturado e morto pelo marido da mulher. Ainda no mesmo ano Rosa Parks desencadeava um poderoso boicote aos ônibus de Montgomery depois de ter sido presa ao se recusar a ceder o seu assento a um branco.
Era época de um sistema político profundamente racista com políticas segregacionistas vergonhosas, os negros em condições precárias se rebelavam contra as diversas leis fascistas, como as de Jim Crow e passavam a se mobilizar em defesa de seus direitos civis. A população negra já somava vários milhões de pessoas, e grande parte destes em condições subalternas, vivendo em áreas totalmente periféricas, esquecidas pelo Estado imperialista. As condições impostas principalmente pelo Sul dos Estados Unidos acabaram sendo responsáveis diretas pela migração de cerca de 6 milhões de negros para o Norte até a década de 70, o que acabou acarretando a criação de imensos subúrbios com falta de infraestrutura, que acabaram sendo vítimas da profunda exploração do país que rapidamente se industrializava.
No Norte existia a promessa do Sonho Americano, no Sul o chicote ainda estalava, e em ambos o retrato era caracterizado pela degradação urbana, elevadas taxas de pobreza e desemprego. As regiões normalmente eram associadas a altos índices de criminalidade, toxicodependência, alcoolismo, elevadas taxas de doenças mentais e suicídio. Geralmente existia elevadas taxas de doenças devido as péssimas condições de saneamento, desnutrição e falta de cuidados básicos de saúde. Havia a ausência de redes formais de ruas, ruas numeradas, rede de esgotos, eletricidade, telefone e também careciam da falta de serviços básicos, como os serviços médicos e de combate a incêndios, havendo somente o policiamento, que no caso era feito para reprimi-los.
Frente aos inúmeros e intoleráveis problemas na época, muitos militantes começaram a trabalhar para de alguma forma combater as atuais dificuldades, e dois dos mais importantes foram, Malcolm X e Martim Luther King, ambos assassinados tempos mais tarde.
MILITANTES PELOS DIREITOS CIVIS DOS NEGROS
Malcolm era filho de um pastor protestante assassinado pela Ku Klux Klan (organização racista norte-americana), por defender as idéias do também pastor Marcus Garvey, que, nos anos 20, defendia que a saída para a questão da discriminação era a volta dos negros dos EUA para sua verdadeira terra, a África.
Órfão, Malcolm enveredou pelo caminho do crime e acabou condenado à prisão, onde se converteu ao Islamismo. Seu sobrenome de batismo, Little, foi trocado pela incógnita “X”, para ao mesmo tempo negar a herança escrava, a nomeação dada pelo senhor, e denunciar o vazio que deveria ser ocupado pela tradição africana, o verdadeiro nome que ele nunca pôde conhecer. Suas concepções eram Socialistas e defendia a violência como método de auto-defesa. Foi assassinado em 1965.
Martin Luther King Jr, pastor batista, também filho de pastor, defendeu desde o começo de sua militância a alternativa do diálogo e pregava o amor e a não-violência desde os anos 50. Envolveu-se com o Movimento pelos Direitos Civis e buscava a solução para os problemas da população negra dentro das normas da democracia americana. Enquanto X falava em “auto-defesa”, King, inspirado pelas idéias do líder indiano Mahatma Gandhi, preferia a “resistência pacífica”. Em 1964, ganhou o prêmio Nobel da Paz. Apesar das idéias tão diferentes das de Malcolm, seu destino foi semelhante ao dele: King foi assassinado em 1968.
Com os dois maiores líderes revolucionários negros norte-americanos mortos em uma época violentamente segregacionista em que se lutava pelos direitos civis primordiais, o povo negro norte americano se rebelou a ponto de abalar a ordem política estadunidense. Foram 3 dias de intensa revolta em 130 cidades do país, lutando por igualdade de direitos, justiça e paz. O governo para conter os distúrbios mobilizou uma tropa de 72 mil soldados, chegando a prender cerca de 23 mil pessoas durante as manifestações e ocasionando a morte de 43 manifestantes durante as repressões.
Devido a morte de Malcom X, um dos maiores ativistas políticos, e crentes de que a forma de luta de Martin era um fracasso, em 1967, fundado por Huey Newton e Bobby Seale, nasce o Partido Pantera Negra para Auto-defesa, que mais tarde foi mudado somente para Partido dos Panteras Negras. Em 1968, King é assassinado e a luta dos Panteras extremamente se radicaliza. A comunidade negra norte-americana carecia de combatentes para lutar por seus direitos, e frente a esta necessidade o grupo tomou partida, contando com o apoio de milhares de negros. De caráter Socialista e anti-capitalista, inspirados por Malcom e pelo líder comunista guerrilheiro chinês Mao Tsé-tung, foi um partido negro revolucionário cuja a finalidade inicial era patrulhar guetos para proteger seus moradores de atos brutais da polícia que eram muito comuns na época. Mais tarde se tornou um grupo guerrilheiro de vertente Marxista que defendia o armamento de todos os negros e a isenção de impostos e de todas as sanções do que chamavam “América Branca”. O grupo defendia também a libertação de todos os negros da cadeia sobre protesto de não terem tido um julgamento justo, defendia o poder de decidir o futuro da própria comunidade negra, lutavam também por uma educação que ensinasse os valores e a verdadeira história negra da sociedade americana, lutavam por moradias descentes, pelo desemprego zero e por empregos dignos, pelo fim da exploração capitalista, da brutalidade policial e do serviço militar obrigatório para o negro. Devido ao seu radicalismo através da luta armada, o partido passou a ser alvo de profundas investigações e perseguições por parte do FBI, chegando a resultar em intensos confrontos com trocas de tiro, fazendo com que a luta pelo fim dos Panteras Negras se tornasse para o Governo uma questão de honra. A ação da contrainteligência foi tão intensa que já na década de 70 o grupo estava profundamente enfraquecido, tinha perdido muitos de seus membros e perdido a simpatia do público. Devido a isso acabaram por focar-se mais desde então à prestação de serviços sociais às comunidades negras. A última grande esperança do povo negro norte-americano tinha acabado de ser derrotada.
NASCE A RESISTÊNCIA
Com a morte de Martim Luther King, Malcom X, “derrota” dos Panteras Negras e perseguição a qualquer outro militante ou grupo que se destacasse dentro do movimento negro, a comunidade afro-americana se viu quase que perdida. Ainda que tivessem conquistado algumas coisas através da luta dos que se foram, faltava mudar bastante o cenário para frear a chamada “América Branca” e dar os mesmos direitos também aos negros e a outras minorias e impor um respeito e consciência entre ambos. Na época depois da luta de inúmeros negros destacados em meio aos movimentos, a situação do povo afro-americano tinha melhorado um pouco quando se tratava das leis segregacionistas e direitos civis, entretanto, a qualidade de vida nos guetos ainda continuava profundamente precária e a violência policial ainda ocorria.
Nos anos 70, exilados da América Branca, os negros norte-americanos procuravam lazer da forma que lhes era conveniente, e naquela época, tempos de bastante agitação cultural e mudanças políticas, o Rock and roll dominava o topo das paradas musicais com Elvis Presley como mais consagrado do momento, mas como o Public Enemy versou em 1989 em sua música Fight The Power, “Elvis era um herói para a maioria, mas ele nunca significou nada para mim“, ficava evidente o que um o ritmo que mais se destacava no momento significava para os negros. Naquela época era tempos de Soul para os guetos negros da comunidade norte-americana, ritmo criado por eles mesmos e importantíssimo para a consciência do povo preto. O gênero tinha uma característica bem emotiva e era bastante melódico, possuindo uma postura leve de protesto que o colocava em um patamar meio politizado. Ainda na mesma época, derivado da mistura de Soul, Jazz e Rhythm and Blues, nasce o Funk, uma nova forma de música rítmica dançante que atingiu grande sucesso. Repleto de vocais e coros de acompanhamento cativante, o novo gênero extremamente energético explodiu mundialmente ao som de James Brown, que costumava gritar “Say it loud: Im black and proud!” (Diga alto: sou negro e orgulhoso!), frase de Steve Biko, líder sul-africano. Durante esta época a extravagância de Brown assustava intensamente a comunidade branca norte-americana que em sua grande parte, odiava negros. Então vê-los assumindo suas naturalidades e sentindo orgulho disso era demais para os racistas estadunidenses. Ainda nesta década emergia um movimento que pegaria a comunidade branca de surpresa, o movimento Black Power, que enfatizava o orgulho racial negro que era bastante discriminado e também lutava pela criação de instituições culturais e políticas negras para cultivar e promover interesses coletivos e incentivar a autonomia do povo preto. Era uma verdadeira retomada da luta, ainda que pequena, depois de tantas baixas.
A luta contra o sistema daquela época era retomada aos poucos através da consciência adquirida pelos negros depois de todo um histórico político passado e através da própria cultura que emergia. Tudo adquirido pelos negros era expresso através de suas canções, que consequentemente também acabavam conscientizando, promovendo a valorização da cultura negra e desencadeando revolta nos opressores. Porém, tanto decorrente da postura branda dos artistas de Funk, quanto pelo caráter aberto do gênero, grandes empresários acabaram diluindo e limitando a militância do gênero através de milionários que eram oferecidos aos cantores da época. Com o passar do tempo, até James Brown, conhecido como The King of Funk, se tornou comercial e teve sua expressão comercializada e enfraquecida.
HIP HOP
Com a perda do Funk para o mundo comercial e a decadência do Soul, a militância negra que retornava através da música ficou extremamente comprometida. Artistas já não cantavam mais energeticamente o orgulho negro, nem se voltavam contra o sistema político extremamente racista, ao invés disso seguiam o que os contratos milionários da indústria ditavam.
As comunidades negras na década de 70 ainda enfrentavam diversos problemas de ordem social como pobreza, violência, racismo, tráfico de drogas, carência de infra-estrutura, de educação, entre outros, e não havendo muitas opções de lazer, começaram a organizar de rua com equipamentos sonoros, onde o DJ conhecido como Kool Herc introduziu o Toasting, uma forma de cantar rimas bem feitas em cima de instrumentais, das quais continham diversos teores como político, festivo e até sexual. Normalmente em sua maioria eram rimas bastante inteligentes e politizadas, que começaram a fazer sucesso, fazendo DJscomo Afrika Bambaataa, Kool Herc, Grand Master Flash, Grand Wizard Theodore, Grand Mixer DXT, Hollywood e Pete Jones organizarem festas onde estas manifestações viessem a ter espaço. Os encontros passaram a ser conhecidos como Block Parties e ganhavam cada vez mais popularidade, servindo de entretenimento para a comunidade negra que era privada de outros tipos de lazeres. As gangues, conhecidas como um dos maiores problemas das comunidades na época, acabaram por terem suas disputas canalizadas através destes encontros, da qual foram aos poucos deixando a luta armada de lado e começaram a disputar entre si através de danças, nascendo então a dança de rua. O movimento foi cada vez mais crescendo e a medida que crescia foi introduzida a música, dança, poesia e a pintura como alternativa sociopolítica aos guetos e como forma de lazer às regiões.
DJ conhecido como Hollywood, seguindo a tendência de expansão dos encontros na época, em suas festas começou a introduzir MCs (Mestres de Cerimônia), que animavam a com rimas inteligentes que cada vez mais iam se consolidando em outros encontros. A utilização de rimas em cima de batidas começou a se tornar rotineira entre os jovens das comunidades, e além de versos energéticos em festas, passaram também a criar rimas poéticas sobre a precaridade dos locais ondem viviam e sobre a vida cotidiana.
O movimento cada vez mais crescia e também na década de 70 uma revolução artística foi consolidada. Uma misteriosa assinatura com a tag de TAKI 183 se espalhava pela cidade de Nova Iorque. A atenção voltada era tão grande que o jornal New York Times noticiou o que estava havendo, tornando-a então mais conhecida ainda. A partir daí surgiram várias outras tags e artistas como Blade, Zephyr, Seen, Dondi, Futura 2000, Lady Pink, Phase 2, Cope2, entre muitos outros, expondo suas intervenções.
A medida que o movimento se desenvolvia, a dança de rua que era comandada musicalmente pelos DJsatraía milhares de jovens, muitos ainda integrantes de gangues, mas que acabavam pacificante resolvendo todas as suas desavenças através de competições de danças que envolviam variados estilos, como o BreakingPoppingLocking, entre outros.
As manifestações artísticas que acabaram se originando de simples encontros festivos já possuíam como instrumento três grandes características firmadas na época, que era a música versada poeticamente, a arte em paredes e muros e a dança de rua. Estas plataformas arrebatavam multidões nos guetos, se tornando uma verdadeira tendência e identidade cultural. Devido ao crescimento e solidificação, Afrika Bambaataa, um dos percursores dos encontros, após perceber que todos estes elementos eram muito próximos e se dialogavam bastante, acabou por dar o nome a um novo movimento cultural que seria conhecido como Hip Hop, onde teria como pilares o Rap (Rhythm and Poetry, ou Ritmo e Poesia quando traduzido, que era a música versada poeticamente), a dança de rua, que incluía diversos estilos, o Graffiti, que seria a arte nas paredes e muros e o DJing (Disc Jockey, DJ), que seria o responsável pelas batidas, scratches e músicas para dança. Acabava de nascer sobre o nome de Hip Hop, um novo movimento de resistência através da cultura como ação política e social.
Depois da criação do nome do movimento, elaboração dos quatro elementos e da junção deles através do DJ Afrika Bambaataa, o Hip Hop se espalhou rapidamente pelas periferias norte-americanas como um vírus. O movimento se tornou uma verdadeira identidade para as comunidades periféricas. Em 73 foi criada a primeira organização totalmente voltada para o Hip Hop. Sobre o nome de Zulu Nation, a ONG fundada por Bambaataa teria como objetivo pregar a paz, o amor, a união, proporcionar a diversão, organizar também palestras que eram chamadas de ‘Infinity Lessons’, ou Aulas Infinitas, quando traduzido, eram proporcionadas aulas de sobre economia, ciência, matemática, prevenção de doenças e vários outros tipos de conhecimento. Segundo Bambaataa a organização serviria também para modificar o pensamento das gangues, um grande problema da época, apoiando o “conhecimento, a sabedoria, a compreensão, a liberdade, a justiça, a igualdade, a paz, a união, o amor, a diversão, o trabalho, a fé e as maravilhas de Deus“, de acordo com o líder. A ONG fazia também campanhas anti-racistas, chegando a contar com 10.000 membros em todo o mundo.
Como o grande sucesso e reconhecimento que o Hip Hop começou a obter, o movimento foi tomado legitimamente como uma verdadeira ação política e social dentro das periferias norte-americanas e de várias partes do mundo, onde já começava a se espalhar. Devido ao prezo pelo conhecimento, os acompanhantes foram se tornando cada vez mais politizados e começaram a militar através dos quatro elementos contra diversas questões. Lutas passadas como as de Martim Luther King, Malcom X e Panteras Negras foram retomadas com grande furor. O elemento que mais obteve destaque dentro do Hip Hop foi o Rap, exatamente por sua característica de canto poético rítmico com discursos de caráter político. A fúria e postura dos Panteras Negras e Malcom X pareciam ter sido resgatadas pelos militantes do movimento. De postura firme e versos agressivos não poupavam críticas ao governo, ao racismo, ao capitalismo e a própria realidade periférica. Questões como degradação urbana, elevada taxa de pobreza e desemprego, altos índices de criminalidade, toxicodependência, alcoolismo, doenças mentais, suicídio, prostituição, falta de infra-estrutura, serviço de saúde, falta de serviços educacionais e vários outros problemas eram violentamente rasgados através de rimas rápidas que assustavam a população branca e o governo norte-americano, deixando o Rap na mira do FBI.
O movimento acabou se tornando identidade periférica e criando um verdadeiro compromisso social com os habitantes das comunidades que eram integradas em sua maioria por negros pobres descendentes de escravos, latinos e uma pequena minoria branca precarizada. Todos através dos quatro elementos passaram a lutar juntos pela emancipação da periferia e pelos direitos civis para negros, latinos e outras minorias, culturalmente agindo na mesma linha que grandes líderes negros assassinados tinham agido.
Diferente do Funk, o Rap e todo o movimento Hip Hop tinha nascido decidido a lutar principalmente pelos negros e pela periferia, ficando longe de se tornar mais um movimento comercial, e assim como o Funk, ter sua luta comprada. A própria postura dos artistas de Rap dificultava o diálogo com autoridades como polícia e alguns políticos e com a própria mídia também, o que acabava por os tornarem alvos preferidos de diversos ataques e críticas. A maioria de suas ações eram com e voltadas às comunidades, onde reconheciam como sendo seus povos precarizados e necessitados de ajuda, e como dívida ao Hip Hopque normalmente diziam que os tinha salvado a vida, deveriam fazer o mesmo para promover ações de caráter social para salvar mais jovens. Vários artistas com o dinheiro arrecadado de suas apresentações acabavam por investir em projetos nas periferias.
O COMPROMISSO
A história do movimento Hip Hop se comparada a qualquer outro movimento cultural surgido nas periferias durante a década de 70 nos EUA e nos anos seguintes em outros países, é diferente de qualquer outro fenômeno ocorrido ao redor do mundo, principalmente pelo objetivo. O movimento Hip Hopdiferentemente de outros, nasceu com um compromisso, e este compromisso mais do claramente deixava exposta a ideia primordial de atividade cultural como ação sociopolítica em regiões onde o único órgão representativo do Estado era a polícia, lugares onde a subalternidade era presenciada em todos os setores sociais e seus residentes tinham que conviver com isso. O Hip Hop surgiu quando artistas que inicialmente militavam pelo movimento negro já não mais possuíam aquela postura firme, pois já tinham sido cooptados pela grande indústria. O movimento surgiu quando os próprios moradores se matavam através de conflitos entre a própria comunidade motivados por desavenças de gangues. Ele surgiu e conseguiu tornar branda as guerras entre gangues. O Hip Hop surgiu quando as comunidades formadas por negros pobres, latinos imigrantes, brancos precarizados e outras minorias mal possuíam uma quadra de esporte como ambiente de lazer. O movimento surgiu quando a degradação urbana, elevada taxa de pobreza e desemprego, altos índices de criminalidade, toxicodependência, alcoolismo, doenças mentais, suicídio, prostituição, falta de infra-estrutura, serviço de saúde, falta de serviços educacionais era somente o que se encontrava na periferia. O Hip Hop surgiu em uma época em que quando um negro não se levantava para dar lugar a um branco no ônibus, era considerado crime. O movimento surgiu em uma época em que ser negro era motivo para um racismo de rebaixamento profundo e até perseguição que muitas das vezes acabava em assassinato. Enfim, o movimento Hip Hop surgiu durante uma época em que muitos milhares de negros já haviam caído durante o campo de batalha após anos, dias, ou horas de luta buscando por diretos civis dos negros e melhores condições de vida. Ele surgiu não vazio ideologicamente, o movimento trouxe consigo todas as batalhas de grandes líderes negros mortos, como Malcolm X, Martin Luther King e o violentamente combatido grupo, Panteras Negras. O movimento surgiu quase que para tentar fazer em muito o papel do Estado, pois seus povos viam que para eles não tinha vez. O movimento lhes trouxe música, arte de pinturas, dança e muita consciência através do conhecimento passado que ensinou aos moradores precarizados das zonas periféricas esquecidas um punhado de coisas novas, coisas que mudariam definitivamente o rumo de milhares, ou até milhões de pessoas nos anos seguintes. Conhecimentos passados que salvariam a vida de milhares de jovens fadados ao fracasso e ao esquecimento. O Hip Hop nasceu de consequências como forma de defesa legítima contra os efeitos do/e contra o Capitalismo.
O movimento não nasceu para se capitalizar e gerar um rio de dinheiro a grandes indústrias e a empresários que não se importam o mínimo com a periferia. Não nasceu para fazer superstars que bombassem no topo das paradas e ficassem milionários através de músicas desprovidas de conteúdo lírico. Não nasceu para deflagrar a misoginia, muito menos desvirtuar o caminho de jovens já precários através de letras prejudiciais, nem nasceu para plantar a violência. Ao contrário disso tudo, o Hip Hopnasceu para salvar vidas, e carregava nas costas a vida de passados que antes dele se foram através da mesma luta. A forma era diferente, mas a luta era a mesma.
Hip Hop é arte, arte é expressão e expressão é liberdade. Ao falar de Hip Hop necessariamente falamos de expressão e liberdade, e em expressão não há enquadramento, nem limites, logo não podemos limitar artistas a seguirem uma linha somente pelo fato do princípio do Hip Hop. Mas independente de seguimento que cada um tomar, que fique o bom senso. O Hip Hop não nasceu do nada, possui um histórico anterior de militância enorme e carrega um princípio com deveres que transformam vidas, todo artista deveria recordar bem este princípio, caso contrário o que seriam deles se Hip Hop não fosse compromisso?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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Biografías y Vidas. Biografia de Malcom X. Disponível em <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/m/malcolm.htm>. Acesso em 15 de Fevereiro de 2014.
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Rimador. Historia del Hip Hop. Disponível em <http://www.rimador.net/historia-del-hip-hop.php>. Acesso em 15 de Fevereiro de 2014.
CHANG, Jeff. Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation. [S.l.]: Macmillan, 2005
Zulu Nation. Hip Hop History. Disponível em <http://www.zulunation.com/hip_hop_history_2.htm>. Acesso em 15 de Fevereiro de 2014.

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a coluna


O PASTOR SORRIDENTE




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O LIXO NEGOCEIA LIXO ! Empresa importadora de lixo italiano pertence a ex-membro do Governo de Passos




Governo suspendeu o aterro do lixo importado de Itália que chegou a Portugal há cerca de um mês. Estas imagens do lixo foram captadas pela empresa que o recebeu, o CITRI.



A análise às cerca de 2 mil toneladas que já estão em território português demonstraram níveis inaceitáveis de "carbono orgânico dissolvido".

A Inspeção Geral do Ambiente deu agora ao CITRI cinco dias para mostrar análises alternativas.

Caso as análises confirmem as mesmas suspeitas, o lixo terá de ser devolvido a Itália ou terá de ser transferido para outro centro de tratamento.

Este negócio, noticiado em primeira mão pela RTP, pode atingir mais de um milhão de euros.

A empresa portuguesa que importou o lixo italiano pertence ao ex-secretário de Estado do Ambiente do PSD, Pedro Afonso Paulo.

Se forem provadas estas irregularidades, a empresa CITRI arrisca-se a uma multa até 216 mil euros.

Contactada pela RTP, a empresa diz que até esclarecer os resultados das análises, irá manter o lixo em quarentena. Este caso está a ser investigado pelo programa Sexta às 9. 
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O SOBREIRO/ A CORTIÇA - Paisagens culturais: Paisagens de montado no Alentejo litoral


Joaquina Soares
Em Portugal o sobreiro é de todas as nossas árvores aquela que se encontra mais largamente distribuída. Encontramo-la no Norte, no solar do castanheiro, do roble e do carvalho-negral; junto ao Litoral, do Tejo ao Minho, luta sem proveito nem glória com o pinheiro bravo; associa-se ao carvalho-português na Estremadura, à azinheira e ao pinheiro manso no Alentejo e vegeta a par da alfarrobeira nas quentes serras algarvias”.
J. Vieira Natividade (1950)
Introdução
O sobreiro (Quercus suber), também designado popularmente por chaparro, de copa desenvolvida e frondosa (Figs. 1-4), possui folhas persistentes ou perenes, de margens inteiras ou finamente serrilhadas, protegidas por verniz no anverso contra a perca de água por evapotranspiração. A sua altura pode atingir os 15-25m e a sua longevidade, os 150-200 anos. A casca espessa (suber ou cortiça) que reveste o seu tronco (Fig. 5), com extraordinárias qualidades de isolamento térmico e acústico e facilidade em se deixar esculpir, possui um enorme interesse económico, sendo Portugal o primeiro produtor mundial de cortiça. O seu fruto, glande ou bolota (Fig. 6), disponível entre Setembro e Janeiro foi ancestralmente o principal recurso alimentar utilizado na criação de gado suíno em regime de pastorícia. De Abril a Maio, no período de floração, os sobreiros adquirem uma cor amarelada que contrasta com o verde escuro da sua folhagem. Com uma distribuição geográfica correspondente à bacia do Mediterrâneo Ocidental, regista em Portugal a maior área de expansão.
No contexto nacional, o sobreiro tem a sua área de maior desenvolvimento no Alentejo de menor continentalidade (Fig. 5). Na Costa Sudoeste existem importantes manchas florestais com esta espécie sobretudo nos concelhos de Grândola e Santiago do Cacém. Os estudos de ecologia histórica da paisagem realizados por Paula Queiroz (1999), a partir de sequências polínicas recolhidas em lagoas litorais do noroeste alentejano, mostraram que o sobreiro surge na nossa floresta holocénica de forma expressiva a partir de há cerca de 7 500 anos em contextos bioclimáticos meso-mediterrâneos. O sobreiro alia-se a outras espécies arbóreas como o pinheiro manso (Pinus pinea), constituindo florestas mistas em regiões mais húmidas, e à azinheira (Quercus rotundifolia) em regiões mais interiores e áridas. A floresta de sobreiros, designada por montado ou montado de sobro (Figs. 7 -10) para distinção do montado de azinho, onde a espécie dominante é a azinheira, é o primeiro ecossistema florestal criado por intervenção humana sobre a floresta esclerófila meso-mediterrânea, através da substituição do sub-bosque por terras de pastoreio sobretudo para varas de porcos (Figs.11-14), mas também para ovicaprinos, e por terras de “semeadura”, ou seja, campos de cultura cerealífera.
O montado é a mais emblemática paisagem florestal de retoque antrópico, da nossa região, longamente afirmada nos últimos 5000 anos, a partir da segunda revolução neolítica ou revolução dos produtos secundários da criação de gado (Soares, 2013), é o resultado de um sistema de exploração integrado agro-silvo-pastoril.
A cortiça começou a definir-se como produto de valor económico no Séc.XIV. No reinado de D. Dinis figurava entre os produtos exportados para a Inglaterra. A evolução do valor da cortiça fez-se em curva ascendente com alguns momentos de recuo. Na 2ª metade do Séc. XVIII, começaram a ser fabricadas em Portugal rolhas de cortiça. Nos finais do Séc. XIX a industria corticeira sofreu um grande impulso e, em 1930, o número de operários corticeiros rondava os 10.000. Portugal detinha então o primeiro lugar entre os produtores mundiais de cortiça. Contudo, as exportações eram constituídas por cortiça não manufacturada. Em 1925, 90% da cortiça exportada não tinha quase nenhuma elaboração industrial.
O advento da indústria transformadora da cortiça, proporcionou evidente desenvolvimento socioeconómico de aglomerados urbanos da Costa Sudoeste, como Grândola, Santiago do Cacém, Sines. O sector corticeiro, em geral com elevados índices de rendibilidade, criou espaço para um operariado semi-urbano, que adquiriu consciência de classe, poder reivindicativo e capacidade de intervenção social nas comunidades locais (Figs. 28-34).
Residualmente, a madeira de sobro e sobretudo a de azinho foram importante matéria-prima para a produção de carvão vegetal. A sua importância económica alimentou a profissão de “carvoeiro” até aos anos 60 do século passado (Fig. 43).
Arte popular sobre cortiça
O tirador de cortiça utiliza um machado, uma escada, dois cochos, um para lavar a lâmina do machado e outro para molhar as pedras de amolar, e duas pedras de amolar (uma de grão grosseiro para adelgaçar a lâmina do machado e outra de grão mais fino para lhe dar o fio).
Ele próprio frequentemente decorava a protecção em cortiça da lâmina do seu machado (Fig. 16). Com a mesma economia de meios técnicos, dadas a pouca dureza e alguma plasticidade da cortiça, este material foi suporte privilegiado para ampla utilização no contexto da cultura material dos meios rurais, com destaque para os cochos (Fig. 35) e para o tarro, indispensável no equipamento do pastor (Fig. 36). Serviu igualmente de suporte para uma muito característica arte popular de pastores e de operários corticeiros. A título de exemplo refira-se um conjunto de pequenas esculturas que retratam tarefas agrícolas, realizadas pelo pastor e artista popular José Fernandes do concelho de Alcácer do Sal (Figs. 37-42).
O sobreiro é uma espécie legalmente protegida desde 2001, mas desde a Idade Moderna a sua protecção foi objecto de legislação. De certa forma é um símbolo da floresta autóctone portuguesa. Alguns exemplares tiveram direito a nome próprio, como a sobreira das Antas em Grândola (Fig. 1) ou a sobreira dos sapos em Sines (Fig. 3). O sobreiro dourado, no vale da Ribeira de Morgavel(Figs. 9-10) que recebe essa designação por se apresentar florido quase todo o ano, é objecto de uma lenda que explica esse estranho fenómeno pela suposta presença de moedas de ouro entre as suas raízes, que aí teriam sido enterradas por um velho agricultor cujos dois filhos não se entendiam na hora de dividir a herança. Na herdade das Ferrarias, em Grândola (Fig. 2 ), existe um sobreiro classificado de interesse público.
No montado, e em particular numa velha azinheira grandolense que já não conhecia a idade, ancorou José Afonso a sua composição “Grândola, vila morena”, hino da Revolução Democrática de 25 de Abril de 1974 e que em momentos depressivos, de restrições aos direitos, garantias e liberdades, o povo entoa na rua ou nas galerias da Assembleia da República. Em suma, ao montado alia-se uma cultura material e imaterial marcante no Alentejo Litoral.
Bibliografia
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Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
José Afonso
O montado de sobro em Grândola
 Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola (Carmen Carvalho, Germesindo Silva, Idálio Nunes, Purificação Pereira)
O montado ocupa uma parte significativa do concelho de Grândola, atingindo a densidade de sobreiros, em alguns locais, mais de 120 árvores por hectare.
Embora a extracção de cortiça e o abate de sobreiros no espaço grandolense seja comum desde a Idade Média, o montado só aumentou em dimensão a partir do século XVI, e sobretudo no século XIX.
Até cerca de 1850, o montado foi, essencialmente, relevante para a engorda de porcos), que advinham de vários pontos do Alentejo e, inclusive, da Estremadura espanhola.
Em 1766 foi acordado em reunião de Câmara que:
toda a peSsoa que uierem de fora a emgordar Porcos nos Montados do Termo desta villa paguem por cada cabeça para o concelho vinte reis, e o Escrivão lhe não passe Licença Sem lhe aprezentar Recibo do Thezoureiro do concelho
A. M. G., Livro deProvimentos do Corregedor (1722-1832)
Da História
Na Idade Média era comum a exploração de madeira de sobro e de cortiça nesta região, atestada por vários documentos.
A construção naval da época dos Descobrimentos utilizou a madeira de sobro para o cavername das naus, devido à sua dureza e resistência à humidade.
Na sequência das Cortes de Évora de 1490, D. João II tornou livre a extracção de cortiça, com excepção da dos sobreiros existentes nos coutos.
No foral manuelino de Alcácer do Sal, de 1516, há também referências ao transporte e exportação destes produtos.
Devido ao excessivo abate de sobreiros, para a construção de naus e produção de carvão, foram tomadas medidas de protecção desta espécie arbórea, designadamente, no tempo de D. João III e de D. Sebastião.
Em 1765, foi acordado entre a Câmara de Grândola e o Corregedor que:
Se pertendia evitar o inReparaueL damno que ã na facilidade Com que se cortão os Montados; E elle Menystro ouve por bem de Comfirmar E mandar por Em Sua total observância com pena dois mil Reis por cada huma Azenheyra Sobreyro e Carvalheyro que Cortasem pello pee para fazerem uso dellas para Carvão.
E quando Seja percizo aos Lauradores ou a outra qualquer pessoa o Cortarem alguma das dittas Arvores para a Sua Abogaria (sic) não ho poderá fazer Sem Lecença da Camera que aVeriguara Se he ou não justo o RequeriMento que Se fizer; o que Se não Emtendera Com os chaparros que poderão Ser desbastados para Melhor criação, E donde os OuVer Em abodancia poderá o dono daquelle Terreno fazer roça para as Suas Sementeyras Com a ReZerva Em porporcionada distanCia para Se criarem Em Montados
A. M. G., Livro de Provimentos do Corregedor (1722-1832)
As primeiras fábricas de cortiça
Embora a exportação de cortiça em Portugal remonte à Idade Média, só no século XVIII surgiu a indústria ligada à fabricação de rolhas.
No último quartel deste século, esta actividade tornou-se importante em Melides, que à época, pertencia ao concelho de Santiago de Cacém.
Num texto de uma Audiência Geral do ano 1795, refere-se que:
[…]” Por constar que os Rolheiros desta villa Custumão queimar a Cortiça para fazer Rolhas muitas uezes nas Ruas publicas e outras uezes nas estradas que saiem desta uilla de que Rezulta grande incomodo as pessoas que se derigem per ellas ou seia para uiagem ou Seja para paSseio de maneira que algumas dellas se achão na maior emdeSençia determinarão fazer a postura Seguinte =
[…] que nenhum oficial de Rolheiro desta uilla e seu termo poderá usar do seu oficio sem Carta de examinação e licença da Câmara na forma que se pratica nos mais ofícios e que aquelles oficiais rolheiros que já tem os seus lugares aSignados como acontece na ALdeia de Melides ou lhes forem aSignadas pella Câmara para queimarem as Cortiças não so os não alterem mas não se imturmetão […] a mudarem para outra parte sem licença da Câmara debacho da pena de des tostoens Referida na pustura aSima que dis Respeito aos Rolheiros que queimão cortiça nas estradas ou junto a ellas”.
A. M. S. C., Livro de Audiências Gerais de 1782 a 1801, fl 39v.
Não consta que, até à década de 70 do século XIX, tivessem existido, em Grândola, fábricas de cortiça. Desta forma, a totalidade da produção do concelho era vendida a compradores de fora, sobretudo de S. Brás de Alportel, Tavira, Loulé e Sines.
Mercê de um gradual interesse pelo negócio da cortiça no concelho, surgiu em 1871, a primeira sociedade de compra, venda e feitura de rolhas, a Nunes & Companhia, criada pelo Dr. José Jacinto Nunes, Manuel Espada, Jacinto Maria Durães e João Lagrifa.
Os Catalães em Grândola
Por volta de 1897, chegou a Grândola Ramon Granés, natural de Begur (Catalunha) região espanhola onde, durante a segunda metade do século XIX, a indústria rolheira atingiu um relevante desenvolvimento.
A vinda de Ramon Granés foi importante para o sector, uma vez que trouxe consigo além de equipamentos mais avançados, alguns operários rolheiros catalães.
Ramon criou em Grândola a firma de produtos corticeiros Granés & Companhia, e foi sócio gerente da filial, em Grândola, da firma Puig, Fina & Ribera, fundada em 1899, com sede em La Bispal, Rosendo de Pamplona, e dedicada à compra, venda e fabricação de rolhas e quadros.
Em 1900, Ramon Granés aforou, a título perpétuo, o cerrado de S. Sebastião, onde edificou a sua fábrica de cortiça, e onde residiu a comunidade catalã de corticeiros.
Em 1903, José Maria Fina y Bonet adquiriu as firmas de que Ramon era sócio, na sua totalidade.
Após a construção da via férrea do Vale do Sado e a chegada do comboio, em 1916, a indústria corticeira grandolense ganhou um novo alento, com o surgimento de novas fábricas, muitas delas nas imediações da estação do caminho-de-ferro.
Período áureo
O século XX foi a época de maior desenvolvimento da indústria corticeira no concelho de Grândola, nomeadamente no período que decorreu entre as décadas de 30 e 60.
Nesta fase, estiveram em actividade cerca de 39 fábricas possuidoras de caldeiras de cozedura de cortiça, para além de mais algumas dezenas de pequenos fabricos.
Para este surto de desenvolvimento contribuíram o aumento de produção de cortiça no concelho, a procura de produtos derivados, a melhoria das vias de comunicação e a existência de mão-de-obra disponível.
A maior parte das fábricas localizava-se no perímetro da vila de Grândola, com maior densidade nas proximidades da estação ferroviária.
Fábrica Granadeiro
De entre as fábricas de cortiça que laboraram no concelho, merece especial destaque a Fábrica I. Granadeiro, seguramente uma das mais importantes.
Depois de uma pequena fábrica na Av. Jorge Nunes, na década de 30, e de uma sociedade com Manuel Bernardino, Inocêncio Granadeiro criou, na Quinta Velha, a partir de 1942, a maior fábrica de cortiça que laborou em Grândola. Atingiu o seu apogeu na década de 60, altura em que chegou a dispor de cerca de 200 trabalhadores efectivos; a fábrica entrou depois em declínio, acabando por encerrar em 5 de Agosto de 1981.
Apetrechada com a maquinaria necessária para o tratamento de cortiça e a fabricação de rolhas (e palmilhas) chegou a dispor de:
Máquinas existentes na fábrica Granadeiro
Máquinas
Quantidade
Funções
Máquina de rabanear
4
Corte das pranchas às tiras "rabanadas", para o fabrico de rolhas.
Broca manual
15
Perfuração das rabanadas, da qual resulta rolhas cilíndricas.
Broca
semiautomática
2
Garlopas
8
Perfuração dos quadros, da qual resulta a rolhas cilíndricas.
Escolhedora
1
Escolha das rolhas.
Lixadeiras
6
Rectificação dos topos das rolhas, com a utilização de elementos abrasivos.
Rebaixadeiras
8
Moldagem do formato da rolha, adequando-a a funções especificas.
Falangeiras
4
Fabrico de rolhas de falange, ou de "chapéu" (rolha encimada por um cilindro de maior tamanho).
Traçadeiras
2
Corte das rolhas (dividir uma rolha em duas).
Tapadeiras
2
Confecção de discos de cortiça.
Máquina de espaldar
6
Corte da costa da prancha de cortiça.
Prensa hidráulica
2
Prensagem dos fardos de cortiça.
Máquina de lavar rolhas
1
Lavagem de rollhas.
Centrifugadora
1
Secagem das rolhas.
Máquina de fazer palmilhas
1
Recorte de placas para a fabricação de palmilhas.
Os Corticeiros
No concelho de Grândola, os primeiros trabalhadores com o estatuto de corticeiros foram os rolheiros de Melides, ainda no século XVIII.
Com o crescente surgimento de fábricas em Grândola, o número de operários aumentou, sendo muitos deles oriundos de outras terras, nomeadamente, de Sines, Ílhavo, São Braz de Alportel, Évora, Silves, São Teotónio, Cercal, Aljustrel, Vendas Novas, Almendro e Pallafrugell.
Pelo seu número e activismo, os corticeiros contribuíram, decisivamente, para a dinamização do comércio e das sociedades recreativas, desportivas e culturais do concelho de Grândola.
Em termos políticos, os corticeiros distinguiram-se pela sua capacidade reivindicativa, tendo levado a efeito um elevado número de greves, e sofrido múltiplas prisões e perseguições.
Processo de extracção, preparação e transformação da cortiça
O descortiçamento
O ciclo da cortiça tem início com o descortiçamento, operação efectuada quando as árvores atingem suficiente maturidade e dimensão.
A primeira extracção ocorre quando as árvores atingem o mínimo de 70 cm de diâmetro, a que corresponde uma idade entre os 25 e os 30 anos. A cortiça então retirada toma o nome de “virgem”.
As camadas seguintes, extraídas normalmente 9 ou 10 anos depois, tomam o nome de “secundeira” na segunda tiragem, e de “amadia” nas tiragens subsequentes .
A extracção é geralmente efectuada entre os meses de Junho e Agosto, período em que a cortiça se desprende com maior facilidade.
O descortiçamento deve ser evitado em dias de chuva, demasiado frios, ou demasiado quentes e secos, e em árvores sujeitas a poda exagerada.
A operação inicia-se por um corte transversal no tronco, com a ajuda de um machado próprio, seguido de cortes longitudinais, de cima para baixo, no fuste e nas pernadas. As pranchas são depois removidas com a ajuda do cabo (do machado).
Esta actividade é, geralmente, realizada por um rancho de trabalhadores, constituído por um capataz, tiradores, um responsável pelo carrego, um pelo empilhamento, um aguadeiro e uma mulher na função de “coca” (encarregada do cozedura das refeições).
Depois do descortiçamento, a cortiça é transportada para um local plano, ligeiramente inclinado e perpendicular aos ventos dominantes. Normalmente, é empilhada junto ao monte do proprietário.
Na formação das pilhas, de onde são excluídas a cortiça virgem, os bocados, e o refugo, as pranchas da camada inferior ficam com as costas viradas para o chão. As restantes posicionam-se ao contrário, para facilitar o escoamento das águas e a diminuição das infiltrações.
Cozedura
Uma vez adquirida pelos fabricantes, a cortiça é deixada em repouso durante cerca de seis meses, para estabilização. De seguida é enfardada, para se proceder à sua cozedura.
Durante cerca de uma hora, as pranchas são mergulhadas com a ajuda de um guincho (ou de um elevador), na caldeira em água a ferver, para que aconteça uma redução da sua microflora e para o acréscimo da sua flexibilidade e elasticidade.
As caldeiras de cozedura tradicional são em cobre, com um sistema de fornalha clássica (grelha sobrelevada, cinzeiro e chaminé), em que a chama incide directamente na tina da água. O aquecimento é efectuado com a utilização de lenha.
Após a retirada da caldeira, os fardos são empilhados, em local coberto e arejado, permanecendo em repouso durante cerca de duas a quatro semanas, para a diminuição da humidade e o aumento da estabilidade da cortiça.
Escolha e o traçamento
Logo que estabilizadas, as pranchas cozidas são escolhidas e separadas, tendo em conta a sua qualidade e espessura.
Posteriormente, com a ajuda de uma faca de gume curvo, é realizado o traçamento, que consiste na remoção dos bordos e fragmentação das pranchas, caso estas apresentem diferentes classes de qualidade ou calibre.
O processo de preparação das pranchas é finalizado com o enfardamento. Este é efectuado com a ajuda de uma grade metálica articulável (“gaiola”); com a prensagem, manual ou mecânica; e com a aplicação de cintas metálicas.
Por fim, os fardos de cortiça são vendidos para o mercado nacional e/ou internacional.
Fabrico de rolhas
Pela sua universal importância, de entre os múltiplos produtos feitos em cortiça, ou derivados desta, as rolhas ocupam um lugar especial.
O processo de fabricação de rolhas, de início manual, tornou-se depois mecânico, nomeadamente com o aparecimento das garlopas e das brocas.
Ambos os processos são antecedidos pela rabaneação, que é a operação, manual ou mecânica, de corte das pranchas em tiras - rabanadas- a partir das quais se confeccionam as rolhas.
Numa primeira fase, as rabanadas eram divididas em quadros – quadração - que eram perfurados um a um pelas garlopas. Estas, embora accionadas pela energia eléctrica, implicavam um impulso braçal na aproximação da broca aos quadros, para a fabricação das rolhas.
Posteriormente, as rolhas passaram também a ser fabricadas através da utilização de brocas a pedal, semiautomáticas e automáticas– brocagem - consistindo este processo na perfuração das rabanadas, no sentido perpendicular ao seu comprimento.
Após a fabricação, as rolhas passam por um processo de escolha, com vista a retirar as defeituosas e a separar as restantes, por classes de qualidade.
Uma vez escolhidas, as rolhas são depois introduzidas em máquinas, as lixadeiras que têm por função rectificar os topos, com a utilização de elementos abrasivos.
Para finalizar o processo, as rolhas são lavadas em tanques, numa mistura de água e produtos de branqueamento e/ou coloração, e depois secas ao ar livre ou em estufas próprias.
O sobreiro em Santiago do Cacém
Câmara Municipal de Santiago do Cacém
Santiago do Cacém é, desde sempre, caracterizada pela importância do seu montado e sobreiral, sendo considerados uns dos mais valiosos do paísPresentemente possui 4ª maior mancha florestal de sobreiro e a maior do distritde Setúbal (cerca de 46.000 ha) ocupando mais de 75% da área florestal do município. A densidade do arvoredo é aqui também bastante superior ao restante do território.
A paisagem atual é o resultado das transformações operadas pelo Homem sobre a natureza para colmatar as suas necessidades e o seu desenvolvimento, esta não pode ser deteriorada para não se perderem irremediavelmente valores históricos, culturais e naturais que são a chave da identidade dos lugares e das suas populações. Apaisagens do montado desde sempre sofreram modificações, ainda mesmo antes de qualquer acção humana a acção natural dos elementos operaram transformações que criaram as realidades geográficas sobre as quais se implantaram as atividades humanas. No município de Santiago do Cacém são de especial importância as paisagens do montado de sobro e azinho e o sobreiral das encostas da serra e merecempela sua beleza, biodiversidade e importância socioeconómica, continuar a ser apreciadas e conservadas por todos.
montado de sobro e azinho deverá ser olhado não apenas pela sua importância geográfica no município mas também pela sua importância socioeconómica, biofísica, faunística, florística e, também, pela tradição e importância dos sistemas agro-siIvo-pastoris na região mediterrânica.
Os sobreirais das encostas da serra são um tipo de paisagem caracterizador da região de Santiago do CacémAsserras de Grândola e do Cercal estendem-se na direção Norte-Sul e surgem como ilhas de relevo que fazem atransição entre planície litoral e planície cerealífera do interior e que devido à proximidade do mar cria condiçõesecológicas específicas. O seu clima de influência atlântica é mais moderado e devido às diferenças de temperatura e precipitação a vegetação apresenta características próprias.
Opovoamentos suberícolas para além da sua função produtiva directa, produzem bens e prestam importantes serviços ecológicos à sociedade que, por não terem mercado no sentido económico do termo, dificilmente se podem contabilizar.
Ao nível turístico uma das apostas do município prende-se com o aproveitamento dos espaços arborizados e a sua ligação próxima ao turismo em espaço rura(TER), aoagroturismo, ao ecoturismo, a áreas transversalmenteimportantes como a gastronomiaa cinegética e o artesanato, através da valorização económica do território par do desenvolvimento sustentável dos recursos endógenos, estratégia mais eficaz do que a simples aplicação de medidas estritas de conservação das espécies e dos habitats, reunidas sob o chapéu duma ótica de engenharia turística em defesa das populações locais.
Santiago do Cacém é um dos promotores da candidatura do montado a património dhumanidade mas é também um dos parceiros para a execução das cartas do património cultural e do património natural do litoral alentejano nas quais o montado tem igualmente lugar destacado.
O município de Santiago do Cacém é, e assim pretende continuar, um defensor da cultura do sobreiro e do montado seja na promoção do seu cultivo seja na criação de condições para o estudo, defesa, classificação e promoção das atividades a eles associadas.
O sector corticeiro em Sines. Patrimónios histórico e imaterial
Serviços Culturais da Câmara Municipal de Sines
Cortiça e os corticeiros
A indústria corticeira instalou-se em Sines no século XIX, com capitais principalmente ingleses e catalães. Beneficiava da proximidade da matéria-prima (a serra de Grândola e do Cercal), da existência de um porto de mar e de mão-de-obra abundante e barata. Pidwell, Granés, Pratz, Wicander e Bucknall, Herold são os principais nomes da indústria transformadora da cortiça. Mas não faltavam pequenas e médias fábricas portuguesas, como a Corticeira de Sines, ou os pequenos fabricos familiares.
Instaladas na Estrada do Cercal (com início na Rua Pedro Álvares Cabral), na Estrada Nova (actual Rua Marquês de Pombal), São Sebastião e Largo de Nossa Senhora das Salas, as fábricas de cortiça marcaram o quotidiano da vila: o vai e vem dos operários nas horas de entrada e saída, a chegada e a saída da cortiça, as suas reivindicações, bem como a participação nos principais movimentos sociais do século XX em Sines.
Em 1911 o sector ocupa cerca de um terço da população activa. Só a fábrica Herold tem à época 147 operários e transforma 14 619 fardos de cortiça. Com a chegada do comboio a Ermidas o transporte ferroviário vai substituir progressivamente o transporte marítimo e Sines perde peso no sector. Nos anos 60 está já claramente em declínio, com várias fábricas encerradas ou bastante antiquadas.
Principais greves dos operários corticeiros
1908
Os operários corticeiros de Sines conseguiram sustentar uma greve entre Novembro de 1908 e Março de 1909, com apoio dos comerciantes da vila e num contexto nacional de reivindicações. A greve foi bem sucedida no que toca aos aumentos salariais, embora não tivesse conseguido ver atendidas as pretensões relativas à exportação da cortiça. A sua principal vitória foi ao nível da criação de uma tradição de coesão e combatividade, de um sector que se tornaria líder da contestação social em Sines, apoiando outros grupos sociais, como os marítimos.
1911
Os operários da Herold entram em greve por solidariedade com os operários da mesma empresa no Barreiro; no mesmo ano as cinco fábricas mais relevantes da vila (além da Herold, a Prats, a Francisco Bigas, a Bucknall e a Arps) encerraram em solidariedade para com os operários de Almada.
1912
Em Novembro, os corticeiros entraram em greve por dois meses pela melhoria de salários e contra o aumento do preço dos géneros.
Apesar do envio de uma força militar, a secção de Sines conseguiu manter a greve com o auxílio dos trabalhadores rurais do concelho, os quais enviam alimentos e dinheiro, assim como os trabalhadores de Almada, Belém, Poço do Bispo e Grândola.
1914
Uma nova greve despoletou-se então entre os trabalhadores da Herold, num contexto de paralisação das restantes fábricas por falta de matéria para laborar.
1916
Em Abril de 1916 e secção dos corticeiros desempenhará um importante papel junto dos operários das armações de pesca em greve, solidarizando-se com os mesmos.
1917
Em 10 de Setembro de1917, os operários corticeiros entram de facto em greve durante um dia.
1918
Criação da Liga Operária Sineense, tendo como presidente José Maria Ferreira. A Liga, em contraposição com a Associação Comercial e Industrial, é uma organização de defesa dos consumidores face ao açambarcamento, à venda dos géneros acima das tabelas de preços e à qualidade dos géneros alimentares vendidos.
1919
Greve dos quadradores.
Estão em greve os quadradores de todas as fábricas de cortiça de Sines por exigirem aumento no salário: Em vista do patronato não lhes conceder o augmento exigido teem retirado para Lisboa muitos operários em procura de trabalho. “
Sem autor, «Folha de Sines», N.º 8, 19 de Outubro de 1919
Ecos de Sines
Década de 20
A década de 20 foi, em Sines, plena de manifestações e tumultos. Apesar de não se conhecerem os acontecimentos ocorridos com segurança, um dos episódios terá gerado uma importante memória colectiva. Assim, uma greve dos corticeiros nesse período terá sido frustrada pelo industrial da cortiça Carlos Esteves, que alugou o iate Violeta para embarcar a cortiça para Lisboa.
1926
Entre 21 de Junho e 17 de Julho, houve uma paralisação das actividades económicas em Sines, em que os operários corticeiros e os republicanos tiveram um papel relevante. Exigiu-se a substituição do Administrador do Concelho nomeado pela Ditadura Militar.
18 de Janeiro de 1934
O país mobiliza-se contra a legislação restritiva do movimento sindicalista. Em Sines, a greve durou um dia, mas registou uma adesão maciça, decorrendo de forma pacífica, e não houve notícia de atentados ou violência.
1940
Sessenta estivadores do Porto de Sines elegeram uma comissão delegada constituída por Francisco Eusébio, Carlos José e José Casimiro para organizarem uma secção sindical local. O Instituto Nacional de Trabalho e Previdência considera ser “inconveniente” essa criação.
No mesmo ano organizou-se em Sines a secção do Sindicato Nacional dos Operários Corticeiros do Distrito de Setúbal. Os membros fundadores e organizadores foram José Francisco da Silva, José Francisco dos Santos Silva, Miguel Ricardo Raposo, Joaquim Roberto, Edmundo António Prata e José Alexandre Maia.
Memórias e imaginário popular. Do montado à fábrica
Depoimentos
I - Pedro Pinela de Campos
O Feitor da Provença
Pedro Pinela de Campos nasceu em 1925 no Monte da Esteveira Velha, no Concelho de Sines. Viveu toda uma vida dedicada à agricultura e à pecuária, primeiro na herdade paterna e mais tarde como feitor da Provença, dirigindo os diversos trabalhos agrícolas, de que aqui lembra em particular as tiragens da cortiça.
Fui para a [herdade da] Provença em 1948, quando era feitor o meu primo Chico Simões. Quando ele abalou tornei-me feitor, isto em 1952. Mandava em tudo menos na venda da cortiça: organizava os trabalhos, contratava os homens, comprava bois, vendia bois, enfim, tive esse cargo todo.
A tiragem da cortiça é sempre a partir de 15 de Maio até ao fim de Agosto. Em Setembro já dá mal, muitos dos lavradores já não querem tirar em Setembro porque dá em sair com bocados de casca e quando sai com casca, a casca é uma ferida na árvore e fica… nunca mais se cura.
Havia lá na Provença uma sobreira muito antiga, a sobreira dos sapos (Fig. 3). Os restos desta ainda existiam há três ou quatro anos. Quando eu fui para a Provença, em 48, ainda tiraram cortiça de uma pernada ou duas, mas só um ano. A sobreira estava velha e começou a não dar já. Era capaz de ter mil anos… Eram precisos uns três homens para a abraçarem.
A tiragem era feita por um rancho de doze homens. Quem o organizava era o manageiro. O lavrador tinha a cortiça para tirar e tinha um manageiro certo todos os anos, com quem ele contactava e esse homem é que tinha o rancho completo, lá à maneira dele. Na Provença enquanto o meu tio João foi vivo era o “Furamatões” e depois passou a ser o António Gervásio. Alguns homens vinham de longe, da Sonega, de Santiago do Cacém, das Relvas Verdes, uns daqui, outros dalém.
Normalmente eram doze machados no primeiro dia até ao almoço e depois um desses machados, que era o empilhador, tinha já cortiça para empilhar e ia para a pilha e já não saia de lá sem acabar a tiragem. E um moço, ou algumas vezes uma mulher, era o taqueiro, para juntar os tacos, que eram os pequenos bocados de cortiça que ficavam perdidos na erva, que se juntavam para dentro de uns sacos que eram postos junto dos releiros de cortiça - os montes que se faziam no campo e de onde depois se levava a cortiça para a pilha que ficava junto ao monte. Dantes a cortiça era carregada com bois, tractores havia poucos.
Dos onze machados, cada dia havia um que era aguadeiro. Quando não fazia falta ir à água ia tirar cortiça, quando a água estando acabada na quarta, ia buscar mais.
Nalguns anos aparecia um aprendiz para tirador, que tinha jeito. Nesses anos havia dois homens que eram os mestres que estavam encarregues de o ensinar.
Havia ainda um que era o marcador, um moço que andasse na escola e estava em férias, que marcava com um latinha de tinta, não usavam cal porque tinha de durar 9 anos, até à próxima tirada.
Nos tempos antigos o rancho enrregava [começava a trabalhar] com uma hora de sol e largavam com meia hora de sol. Depois das coisas irem evoluindo começaram a trabalhar oito horas. Era um serviço duro e pesado. Tiravam por ano 2 800 / 3 000 arrobas, na Provença. Eram cerca de duas semanas de trabalho.
Tinham duas horas de paragem ao meio dia, para almoçar e descansar.
O rancho tinha uma coqueira – uma mulher para fazer o comer. Os homens levavam toucinho, batatas, feijão, para entregar à coqueira para ela fazer a comida. Cada um levava uma panela com o comer já organizado que punha junto do lume e ela tomava conta.
A partir do fim dos anos 50 passou a haver mais transportes e as coisas mudaram. Deixou de haver coqueira porque traziam o comer feito de casa onde iam dormir. Até essa altura os tiradores dormiam lá nas arramadas ou no palheiro ou mais deles faziam a cama lá junto à pilha da cortiça. Dormiam ao ar livre. Levavam mantas e estendiam uma folha de cortiça, daquelas sobreiras grandes e dormiam ali em cima.
II - Mariana Maria Custódia
Coqueira
Mariana Maria Custódia nasceu em Odemira em 1940 e vive há Sines há mais de trinta anos. Actualmente reformada da Função Pública, ao longo da sua vida trabalhou também na ceifa, na monda, foi coqueira, entre outros. São imensas as memórias que guarda desses tempos algumas relacionadas com o tempo em que era coqueira dos tiradores de cortiça.
Lembro-me tão bem! Parece que estou eu vendo as malhadas que a gente fazia assim onde estavam aqueles grandes sobreiros e depois ali debaixo metíamos as nossas coisas , perto das árvores para a orvalhei ra não cair em cima da gente.
Quando íamos para aqueles sítios longe e não podíamos vir a casa partíamos logo de manhã muito cedo, ainda com escuro, e quando chegávamos lá arrumávamos as nossas coisas todas ali num sitiozinho. Fazíamos a cama num instante, ali perto das árvores. Era um tempo que não chovia, era verão, mas ali debaixo das árvores estava-se mais aconchegado.
Eu e o meu marido, ficávamos mais afastados e os que não tinham mulher iam mais para lá para estarmos todos mais à vontade, porque já se sabe eles diziam tudo uns aos outros na brincadeira.
Dormir em cima da cortiça eu nunca dormi em cima disso, dormia era numa cama de palha que agente apanhava por ali, estendia-se ali no chão e pronto. Algumas pessoas ficavam só debaixo dos sobreiros, outras faziam uma cobertura com a cortiça. Alguns queriam antes estar vendo as estrelas e não queriam nada por cima. Outros ainda estendiam uma golpelha em cima da palha, havia aquelas golpelhas nas feiras, depois uma manta de lã e faziam assim a cama.
De manhã, como eu era a coqueira o meu marido levantava-se cedo e acendia o lume para me ajudar. Era um lume como daqui além [cerca de sete metros] e depois panelas de um lado e de outro. Eu cuidava daquilo tudo, mexia numa, mexia noutra. Eles deixavam logo o arrozinho ou as batatinhas que queriam por na panelinha, ficava logo tudo orientado. Eu depois começava na primeira e era até à última. Eles punham aquilo tudo num cordão, era uma panela, outra panela, até à última e os sacos a mesma coisa. Era assim para eu não me enganar, porque escrever quase ninguém escrevia senão punham ali umas letrinhas e uma pessoa orientava-se. Eu nunca me enganei. Mas eles diziam assim: “se se enganar não faz mal, isto é tudo a mesma coisa arroz, batata, seja lá o que for a gente come “. Mas nunca me enganei.
A água era um homem do patrão que vinha trazer com uma carroça e trazia a água porque as bicas onde havia água ficavam a uma lonjura para uma pessoa ir buscar uma pinga de água para tanta gente e tanta panela. O patrão, o dono daquela propriedade mandava lá pôr água. Tínhamos sempre água e lenha à farta, mesmo os homens também arranjavam lenha, cortavam pernadas das árvores com os machados.
Os homens cantavam modas alegres, parece que estou eu vendo.
Cantavam em cima dos sobreiros. O meu marido cantava muito bem e os outros pediam-lhe ”Custódio canta lá uma modinha” e ele cantava os dias inteiros mesmo farto de trabalhar.
Porque tirar cortiça é muito cansativo e não é para qualquer um.
Eu era capaz de ainda ir dar com os sítios onde a gente dormiu e onde a gente fazia o comer.
Começavam a tirar a cortiça cedinho e depois ao meio dia paravam e tinham uma hora e meia para almoçar e descansar , eles tinham de fazer umas doze horas por dia.
Eu à tarde ia apanhar tacos e metia-os dentro de uma rede redonda e depois ia tudo não sei para onde , para as fábricas.
Não faziam logo uma grande pilha, iam deixando uma pilhazinha aqui outra mais além
E depois quando a cortiça não estando tão verde depois de apanhar sol, passado um tempo eles carregavam tudo para a eira dos lavradores , depois da debulha quando a eira já não fazia falta, empilhavam ali a cortiça toda porque se a deixassem naqueles corgos uma aqui outra ali roubavam-na.
O jantar já não era a coqueira a fazer, cada um fazia o seu.
Levávamos toucinho, batatas, feijão, grão, massa, abóbora e à vezes um bocadinho de bacalhau.
Em todas as propriedades, toda a herdade tinha um monte dos lavradores e eles iam lá muitas vezes levar fruta e presunto aos trabalhadores.
Quando eu estava lá e via as árvores sabia logo quando era o tempo de tirar a cortiça mas agora não as vejo… Porque a cortiça quando está verde não se pode tirar
Os homens para saberem os anos que a cortiça tinha faziam um corte em triângulo com o machado e arrancavam esse bocado de cortiça e depois viam quantos veiozinhos a cortiça tinha, cada ano era um e assim eles sabiam se a cortiça estava capaz de tirar. A que ainda não tinha o tempo não se tirava porque depois os compradores iam olhar a qualidade da cortiça.
A Higiene então aquilo era naquelas ladeiras, escondíamo-nos atrás dos sobreiros.
Eu ia-me lavar naquelas ribeiras, eles iam tirar cortiça e eu ia me lavar nas ribeiras.
Ficávamos ali até o trabalho acabar e depois íamos para outra herdade. Era trabalhar quase de sol a sol.
À noite não tínhamos nada para fazer pois o que é que a gente havia de fazer não havia nem sequer uma televisão nem um rádio nem um relógio sequer, só o manageiro é que tinha relógio.
III - Antero Raposo
Quadrador
Data e local da entrevista: Papelaria Raposo, 19 de Fevereiro de 2008
Antero Raposo nasceu no dia 16 de Abril de 1925. Entrou na escola oficial com sete anos e foi aluno da D. Aninhas, com a qual fez o exame da quarta classe. A partir daí dedicou-se aos trabalhos da cortiça, aprendendo a arte com os mestres e os outros operários.
Fiz o exame da quarta classe com a Dona Aninhas. E a partir daí acabou. Fui aprender a arte corticeira. Aprendi juntamente com os outros, mas quem me ensinou mais foi um fabricante de cortiças, que era o Abel Raposo, que era sobrinho da minha avó.
Houve falta de trabalho, houve aí umas complicações por causa de indivíduos que não atingiam o preço das jornas, chamava jornas. Porque a gente nunca trabalhou de jorna, trabalhou sempre de empreitada, quem mais fazia era quem mais ganhava. O trabalho era duro, muitos serões, com um candeeiro a petróleo, trabalhava-se ali até à meia-noite, onze horas, aquilo era de empreitada, o que se fizesse era o que se ganhava. Não era assim muito, era um bocadinho à rasca.
A primeira operação realizada para a preparação da cortiça consistia em cortá-la, com uma serra, pelos “inguiados” (veios). “A seguir vinham para a fábrica, era raspado. [O instrumento chamava-se] uma raspadeira. Depois era encaldeirado, era cozida a cortiça. Cada caldeirada levava dois fardos de dezoito arrobas cada um, uma hora de cozimento. Depois era empilhada, repouso de dois dias, e depois era traçado, pelos traçadores.Traçar era dividir as qualidades por calibres, [medidos através de ] um pé-de-linhas (…).Um pé de linhas é isto, é para medir os quadros. [Um quadro ] É cortado com uma lâmina, com um porta lâmina, a gente chama-lhe o burro. Pegávamos na lâmina e cortávamos, à mão, assim, e tem um encosto que é um ferro, um encosto que é aparafusado, era uma dorna para cortar ao meio, depois fazia-se uma cavidade na dorna e era pregado o ferro, com um espaço aí de trinta, quarenta centímetros, era pregado e depois era feito naquele ferro, encostava isto ao ferro e quadramos. Fazia-se a rabanada, que é isto. [As rolhas são feitas com uma garlopa]. A garlopa é uma bancada com duas tiras de ferro a que aparafusam uma folha, e à frente é uma espécie de um parafuso, depois conforme se empurra a lâmina corta, essa giratória que faz o quadro, é isso que faz a rolha. Trabalhei na Cova da Piedade a fazer mancos era quadrados de cortiça era rabanado, a gente despausava, limpava e depois quadrava. Eu nunca tinha feito aquele trabalho e quando mo apresentaram fiquei assim um bocado complicado. O dono da fábrica, que era o sr. Primo dos Santos e eu disse que nuca tinha feito aquele trabalho, que era o manco. Era o tal burro ou o porte-lâmina com o furo à frente, depois leva uma cavilha enroscada à frente (…). E depois a cavilha que é aparafusada nesse tal burro ou porta-lâmina e é tirada à medida com este pé de linhas, assim, e pôr aqui na largura de 18 linhas com 10 de altura. E depois vinham essas peças, era cortado assim, tal e qual como aqui está, assim, e depois eram colados, as duas partes coladas com cola própria para isto, e depois levava ou médios, dois médios, à cabeça, ou duas pastilhas, era conforme o calibre do quadro, da rolha que queriam fazer, eram às cabeças. Os tais mancos eram postos, ou médios ou pastilhas, era tudo colado. E depois ia a uma estufa, que era aquecido com fogo por baixo para colar melhor a cortiça. Depois ia, eu vi fazerem isto, este trabalho. Depois ia à garlopa e saía a rolha perfeita de champanhe.
Havia muitos operários que não sabiam ler. Um dava cinco tostões, outro dava três tostões, e juntava aquele dinheiro e comprava o jornal diário, de maneira que o que sabia ler lar para quem não soubesse, lia para todos. E depois ia, por exemplo, eram vinte operários, e destinavam a perda de tempo que esse operário tinha a ler, compensavam-no em dez quadros ou vinte quadros cada um. Eles ouviam ler, mas faziam dez quadros do calibre e juntavam aqueles dez cada um, faziam [um] cento ou dois centos e depois davam-lhe a ele.
IV -Brites Maria do Ó Sabino
Francisco José Sabino e a Fábrica de Cortiça SOCOR
Francisco José Sabino nasceu no Escoural – Évora em 1920. Chegou a Sines em 1960 para tomar posse de uma fábrica de cortiça, entregue a seu pai como pagamento de uma divida. Colocou a fábrica a laborar e fixou-se aqui até hoje. A sua história é nos contados por sua filha Brites Maria do Ó Sabino, que nasceu em Sines um ano depois e que cresceu, brincou, trabalhou e viveu toda uma vida na fábrica de cortiça SOCOR.
A fábrica já existia há muitos anos. Mas o meu pai não é de cá, tinha herdades, era um dos maiores produtores de gado e cereais em Évora e arredores. O meu avô era o manda chuva daquilo tudo. Num negócio feito em Évora na herdade da Casa Branca, não sei se de vacas ou cabras, há um indivíduo que não paga e como penhora cede a fábrica ao meu avô. Fábrica essa que ninguém sabia onde é que era, porque de lá ninguém sabia que existia Sines nem perto nem certo.
O meu avô veio com o filho mais velho, que é o meu pai, porque aquilo era hierárquico. Vem ver onde é que ficava essa tal da fábrica e eles ficaram a olhar para isto - não percebiam nada de cortiça nem nunca na vida tinham pensado em vir a entrar neste negócio. Diz então o meu avô: “ Meu filho! O menino fica, você é o primogénito, vou-lhe arranjar um sócio gerente que percebe de cortiça para o ajudar”. Vem o senhor Guerreirinho, que ficou sob a alçada e confiança do meu avô. O senhor Sabino fica cá sem perceber nada de Sines, sem saber nem para que lado ia nem para que lado vinha, com o tal do Guerreiro e começaram a fábrica.
Trabalharam aqui muitos homens e mulheres. Chegaram a ser cento e tal pessoas, que trabalhavam durante o Inverno e no Verão eram liberados para a pesca, para amanhar as redes e para os restaurantes porque era a época turística - Sines tinha uma praia lindíssima! Era também quando o meu pai ia comprar cortiça no campo e em Setembro / Outubro retomavam o trabalho.
Na altura não havia mais nada e o Inverno era rigorosíssimo. A vida na fábrica também era dura. Eu acho que especialmente para o homem da caldeira, que eu sempre o vi preto, eu chegava a perguntar se ele era mesmo preto, mas o homem era branco.
Havia a horta que se cultivava, porque isto era um sistema de sociedade em que as pessoas cultivam o que consumiam, só comprávamos o peixe. As vacas vinham inteiras das herdades eram partidas e iam para as salgadeiras que ficavam na primeira casa da entrada e conservavam-se ai e duravam o ano todo.
Os trabalhadores traziam um farnel de casa e outras vezes a minha mãe fazia um rancho normalmente nos meses de Maio e Junho. Punha-se uma mesa que tínhamos em forma de S [de SOCOR] e a minha mãe cozinhava para aquela gente toda, em grandes panelas da pensão “Beira Mar” e depois era vinho e melancias muito grandes, tudo de boa qualidade.
Os trabalhadores eram pagos à semana. Eu lembro-me de ver muitas moedas, era tudo pacotinhos de moedas e lembro-me de as contar e ajudar a por o nome nos pacotinhos: Carrasqueira, Rafael, o Sr. David, etc. O meu pai sempre foi um homem extremamente justo e honesto, não é um homem de brincadeiras, é um homem sério. Eu só conheci o meu pai a trabalhar.
A fábrica começa em grande porque faziam desde as rolhas aos tapetes e exportavam. A cortiça vinha em bruto, era escolhida, eram feitos os fardos, era prensada e a seguir ia para a caldeira. Ainda está lá a chaminé e por baixo está um buraco enorme onde cabiam dois fardos com não sei quantas toneladas. A que não era exportada passava para o lado das rolhas, onde está agora o Teatro do Mar.
Socor aparece como o renascer da industria corticeira em Sines que existiu mas estava em baixa. Esta fábrica aparece com uma grande importância para Sines em termos de mercado de trabalho e de oportunidades.
É nessa altura [1960] que é feito um desafio ao meu pai que entra por brincadeira na construção de um carro de carnaval [que representava uma fábrica de cortiça]. É o camião que ia buscar a cortiça, uma Daf azul muito grande que foi toda forrada em rolhas de cortiça e ganhou o 2º prémio.
A fábrica funcionou desde 1960 até ao 25 de Abril. Começou a haver falta de gente para trabalhar, entretanto a cortiça entra em queda vertiginosa o meu pai já estava cansado e era sozinho, os irmãos não percebiam do negócio e ele já estava com mais de sessenta anos e resolve acabar, não está para ir sozinho por esses matos fora.
Era uma vida ingrata e o camião virou-se várias vezes na estrada. Porque aquilo era assim: tinha de ir de monte em monte; escolhia a pilha; era carregada para o carro, aquilo eram alturas disparatadas, as estradas eram muito estreitas, a pilha batia nas árvores e virava o camião. Eu não sei como é que ele não morreu com os homens.
Nós brincávamos aqui eu a Lili, o meu primo Isidro, a Julieta, o João Luis era a vizinhança e brincávamos todos na cortiça. Era muito bom! Isto para mim tem muito significado: foi aqui que eu brinquei. Todos os dias acabávamos a brincadeira da mesma forma: na banheira e chorando.
E foi isto a história da fábrica que durou anos e acho que foi agradável enquanto durou. Há uma certa saudade às vezes mas os tempos mudam e a idade avança mas isto ainda está tudo igual.
V – A firma O. Herold & Companhia – Lisboa
Per aspera ad astra”
A nossa casa dá como data da sua fundação o anno de 1791, visto o seu livro de escripturação mais antigo existente ser d’este anno. Vê-se por este livro que a nossa firma existia já desde alguns annos antes, por isso que n’elle se faz por muitas vezes referencias a negócios realizados antes de 1791. Adoptámos, porem, para não basearmos as nossas declarações em terreno falso, o anno acima referido como data da nossa fundação.
Os negócios da nossa firma foram até certa data de comissão e consignação, começando posteriormente a ser de conta própria, especialmente, entre muitos outros, os ramos seguintes:
Importação: CARVÃO MINERAL.
Exportação: SAL (hoje Companhia do Sal de Portugal), CORTIÇA E ROLHAS,
trabalhando actualmente nos nossos escriptorios de Lisbôa, Barreiro, Vendas Novas e Sines,
11 chefes de secção e
46 empregados
57 pessoas total.
As exigências dos diferentes compradores de cortiça e rolhas levaram-nos a começar pouco mais ou menos em 1890 a fabricar estes artigos de que trata este álbum que tomâmos a liberdade de offerecer aos nossos amigos antigos e modernos como signal de gratidão, e como recordação da sua visita á Secção portugueza da Exposição Universal do Rio de Janeiro.
Lisboa, Março de 1908 O. HEROLD & CO.
(…)
Differentes razões levaram, no anno de 1900, os chefes da casa a adquirir em Sines, também no Alentejo, uma terceira fabrica, com uma área de 10 000 metros quadrados de superfície, e na qual já estavam interessados desde alguns annos, de maneira que a casa O. Herold & Co. é hoje possuidora de 3 fábricas com 920 empregados e operários.
Pessoal technico das fabricas (sem o pessoal dos escriptorios):
1907 / Sines :
Empregados: 1
Mestres: 5
Operarios: 141
Total: 147
A direcção technica das fabricas está actualmente confiada co Snr. ALBRECHT VON KOSS, representante da casa com procuração, que desde 1896 se dedicou no nosso serviço a este ramo, sendo auxiliado no serviço das fábricas pelos respectivos gerentes: JOHANN DANNER, Barreiro; JACINTHO ROCHA, Barreiro; ANTONIO ROCHA, Vendas Novas; FRANCISCO JOAQUIM RAPOSO, Sines
Fig. 1 – Sobreira das Antas. Herdade das Antas (Grândola). Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 2 – Sobreiro da Herdade das Ferrarias (Grândola), classificado de interesse público Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 3 - Sobreira dos Sapos (Sines). Foto de arquivo da Câmara Municipal de Sines.
Fig. 4 – Sobreiro. Santiago do Cacém. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 5 – Suber ou cortiça de sobreiro que nunca sofreu descortiçamento e distribuição do sobreiro em território português. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 6 - Ramo com folhas e landes ou bolotas. Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 7 – Montado. Grândola.Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 8 – Margem de montado. Melides. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 9 – Sobreiro dourado. Ribeira de Morgavel, Sines. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 10 – Sobreiro dourado. Ribeira de Morgavel, Sines. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 11- Engorda de porcos no montado.Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 12- Engorda de porcos no montado. Herdade da Provença, Sines. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 13- Engorda de porcos no montado. Herdade da Provença, Sines. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 14 – Transumância de varas de porcos entre os montados de Grândola e o interior ibérico (1693/1695). Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 15 – Pilhas de cortiça ainda no montado. Melides. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 16 – Machado para extracção de cortiça com proteção do gume. Colecção MAEDS. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 17 – Imagens dedicadas à actividade corticeira em Sines. InIlustração portuguesa, n. 247, 14.11.1910, p. 626.
Fig. 18 – Imagens dedicadas à actividade corticeira em Sines. InIlustração portuguesa, n. 247, 14.11.1910, p. 627.
Fig. 19 – Industrial corticeiro, Dr. José Jacinto Nunes. Grândola. Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 20 - Industrial corticeiro, Ramon António Domingo Granés Pi (1852-1913). Sines. Arquivo Câmara Municipal de Sines.
Fig. 21 – Mapa das fábricas com caldeira que funcionaram em Grândola. Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Figs. 22-23- Fábrica Manuel Bernardino (Avenida Jorge Nunes, Grândola) – 1950.
Fig. 24 - [1953] Planta do prédio e do local onde Miguel Ricardo Raposo tem instalada a sua fábrica manual de fabricação de quadros e onde pretende montar uma caldeira de coser cortiça, sítio de Tanganheira de Baixo, freguesia e Concelho de Sines. Documento nº 6 do processo nº 4/2651 da 4ª Circunscrição Industrial relativo a uma fábrica de transformação de cortiça com caldeira para recozer de Miguel Ricardo Raposo. Arquivo da Direcção Regional da Economia de Évora.
Fig. 25 - Escritório da Fábrica Granadeiro, Grândola Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 26 – Fábrica Granadeiro, Grândola. Chegada da cortiça.1955. Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 27 – Fábrica Granadeiro em laboração. Grândola, 1955.Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 28 - Trabalhadores da Fábrica I. Granadeiro - Década de 50 do século XX. Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 29 - Trabalhadores da Fábrica Socor (Sines). Arquivo Câmara Municipal de Sines.
Fig. 30 – Sociabilidades. Inauguração da sede do Sport Clube Grandolense.Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 31 – Sociabilidades. Inauguração da estação de caminho-de-ferro de Grândola.Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.
Fig. 32 – Sociabilidades. Carnaval de 1951. Carro alegórico da fábrica Socor, Sines. Arquivo Câmara Municipal de Sines.
Fig. 33 - Imprensa e luta dos operários corticeiros: “Voz do Corticeiro”, Lisboa, 10 de Junho de 1906.
Fig. 34 - Imprensa e luta dos operários corticeiros: “O Corticeiro”, Lisboa, n.17, 26 de Junho de 1919.
Fig. 35 – Cortiça e cultura material. Cochos. Coleção MAEDS. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 36 – Cortiça e cultura material. Tarro de pastor. Coleção MAEDS. Foto de Rosa Nunes.
Figs. 37-42 - Cadeia operatória da extracção da cortiça. 1: Chegada ao montado. 2: Descortiçamento de grandes pranchas do tronco. 3: Descortiçamento dos ramos da copa. 4: Pormenor do acto de separação da cortiça, já cortada, de um dos ramos da copa, com utilização do cabo do machado. 5: Composta a carrada, segue-se o caminho do monte ou da fábrica em carro puxado por “besta singela”. De José Fernandes. Coleção MAEDS. Foto de Rosa Nunes.
Fig. 43 - Forno de carvão tradicional. Foto de Arquivo do Sector do Património Cultural da Câmara Municipal de Grândola.

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