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sábado, 31 de dezembro de 2016

A MANADA


O BUCHA E ESTICA

Stan Laurel, o Estica


E também

Oliver Hardy, o Bucha

Uma pequena amostra da arte de Bucha e Estica.




O OLHAR DE UM CRÍTICO SOBRE A TRAJECTÓRIA DESTA DUPLA DE CÓMICOS QUE MARCOU A HISTÓRIA DO CINEMA.


«Uma espantosa capacidade de adaptação às novas exigências impostas pelo meio».
Oliver Hardy e Stan
 Laurel. Foto sem data encontrada em www.chroniclelive.co.uk

Arthur Stanley Jefferson nasceu em Ulverston, Grã-Bretanha, em 1890 e morreu em Santa Monica, Califórnia, em 1965, e Oliver Norwell Hardy nasceu em Atlanta, Georgia (EUA), em 1892 e morreu em Burbank, Califórnia, em 1957: actores sob os aliases de Stan Laurel e Oliver Hardy.
Não é despiciendo que o primeiro venha da Inglaterra e o segundo da Georgia. O início da frutuosa colaboração entre os dois deve-se ao produtor/realizador Hal Roach e ao argumentista/realizador Leo McCarey, um cineasta interessado numa comicidade realista que deriva muito mais das reacções psicológicas das personagens a determinadas situações que de fáceis efeitos visuais, caracteres disformes ou excessos rítmicos.

Oliver Hardy e Stan Laurel  em The Battle of the Century 
(1927) de Clyde Bruckman e produção de Hal Roach.

Laurel inicia a sua carreira artística na pátria (faz music-hall e circo): pertence a uma família de artistas (o pai é actor e director de teatros e a mãe actriz dramática de certa nomeada). Vai para os Estados Unidos com a companhia de Fred Karno (Chaplin também, estamos em 1910), entra no cinema em 1917, trabalha várias vezes para Hal Roach, interpreta a série «Stan Laurel Comedies», realiza filmes, alcança êxito.
Hardy, ao invés, provém das companhias que trabalham nos barcos fluviais. Quando entra no meio cinematográfico serve-se com notável desenvoltura criativa do seu aspecto físico e de uma mímica surpreendentemente comunicativa. Trabalha para a Lubin, a Pathé, a Vitagraph, e é também realizador de algumas curtas metragens de Larry Semon, um dos grandes actores da chamada slapstick comedy.
Hal Roach e Leo McCarey, homens de cinema extraordinariamente inventivos, compreendem as potencialidades da actuação conjunta dos dois — um magro, o outro gordo — em histórias que os coloquem numa oposição burlesca que faça ressaltar as suas distintas características físicas e compositivas. Estamos em 1926. Roach e McCarey organizam os argumentos que melhor se adequam aos dois actores e fazem-nos intervir numa longa série de filmes cómicos, curtas metragens que se distinguem por uma comicidade de índole aparentemente vulgar (a célebre série das «tortas atiradas à cara», das gravatas puxadas, dos fatos esfarrapados, em suma, da destruição de objectos emblemáticos) prosseguida no período sonoro, com filmes como The Brats, Below Zero, ambos de 1930, e outros, realizados, como estes, geralmente por James Parrott, em 1930 e 1931.

Oliver Hardy e Stan Laurel junto de Hal Roach. Foto encontrada em www.filmreference.com e Stan Laurel e Oliver Hardy in Wrong Again (Tudo ao Contrário, 1929) de Leo McCarey e produção de Hal Roach. Foto encontrada em benhasten.tumblr.com

Importa aqui referir que o advento do sonoro implica um nítido recuo no processo de evolução das técnicas de filmagem, recuo este particularmente notório no cinema cómico, já que a introdução da palavra na estrutura fílmica determina a crise da nuclearidade da imagem que a slapstick comedy tornara, nos anos precedentes, típica da sua organização discursiva. Esta crise atinge com rara violência muitos actores e realizadores cómicos. Ora, os que melhor resistem a este desmoronamento dos antigos modos de conceber o cinema cómico são precisamente Laurel e Hardy, que revelam uma espantosa capacidade de adaptação às novas exigências impostas pelo meio: é que, embora a sua comicidade seja baseada no slapstick, eles compreenderam a necessidade de distender as suas cadências e de atribuir um clima mais fantasioso (i.e., onírico) ao ritmo excessivo que imperava no mudo: a violência física, normalmente exibida na destruição furiosa de objectos, adquire um movimento mais vagaroso, quase de câmara lenta.


Estátua de Stan Laurel e Oliver Hardy do lado de fora do Coronation Hall Theatre, em Ulverston, Cumbria, Inglaterra, terra natal de Stan Laurel. Foto encontrada em wikipédia.com
A primeira longa metragem do par é Pardon Us (Bucha e Estica na Prisão, 1931), ainda de Parrott, que alcança um êxito extraordinário e permite a continuação da feliz associação. E sobretudo em Pack Up Your Troubles (1932), de George Marshall, Fra Diavolo (1933), de Hal Roach e Charles Rogers, Sons of the Desert (Os filhos do Deserto, 1933), de William A. Seiter, Babes in Toyland (Era uma Vez… Dois valentes, 1934), de Charles Rogers e Gus Meins,Bonnie Scotland (Apurados para o Serviço, 1935), de James V. Horne, The Bohemian Girl (Um Par de Ciganos, 1936), de James W. Horne e Charley Rogers, Way Out West (Bucha e Estica a Caminho do Oeste, 1936), de James W. Horne, Swiss Miss (Os Dois Tiroleses, 1938) e Block-Heads (O Cabeçudo das Tricheiras, 1938), de John G. Blystone, e The Flying Deuces (Homens… sem Asas, 1939), de A. Edward Sutherland, mas também em alguns dos filmes da década de 40, como por exemplo Chump at Oxford (Campeões de Oxford, 1940), de Alfred Goulding, Saps at Sea (Marinheiros à Força, 1940), de Gordon Douglas, e Jitterbugs (Bucha e Estica, Músicos de Jazz, 1943), de Malcolm St. Clair, que se aprofunda o contraste cómico entre os dois actores, um contraste que começava por ser físico e se tornava moral e ético, fundado na magreza e ingénua incapacidade (transparência) de «Stanley» oposta (e integrada) à manhosa e prepotente obesidade (opacidade) de «Ollie». 
(Salvato Teles de Menezes, Jornal de Letras 23-01-90)


Stan Laurel e Oliver Hardy, entretidos em um pub, propriedade da irmã de Laurel em Sunderland, Inglaterra, durante uma digressão à Europa em 1952. Foto encontrada em  www.bbc.co.uk


Foto de www.stanlaurel.com
O «Estica» deixou dito, em numerosas entrevistas, o que pensava dos seus companheiros de ofício.

O que Stan Laurel pensava dos outros cómicos

Oliver Hardy — Terrivelmente engraçado e divertido. Consegue fazer-me rir descontroladamente, mesmo ao fim destes anos todos juntos.

Charlie Chaplin — Muito simplesmente: O Maior!

Harry Langdon — Um grande cómico, que teve a preocupação de querer ser um grande actor como Chaplin.

Buster Keaton — Outro «máximo» e eu uso esta palavra muito cuidadosamente e não da forma que Milton Berle usa. Uma das razões pelas quais eu adoro Buster é porque ele, vive a Comédia e também participa nela. Algumas das suas coisas são melhores que as de Chaplin.

Billy Gilbert — Um dos quer está no cimo da roda! Pergunto a mim próprio, porque é que não há mais pessoas a darem por isso?!

Eddy Cantor — Ele e Jolson são óptimos «entertainers» e duma forma que não se vê noutros. Não são realmente verdadeiros cómicos. Mas óptimos cantores e «entertainers» no género que estou habituado a ver nos musicais ingleses. É uma vergonha que os novos Comediantes de agora não sejam tão bons como eles!

Jack Benny — Um grande espertalhão. Sabe em que consistem as características da Comédia. A única crítica que tenho a fazer-lhe é que uma vez por outra ele arrasta muito as suas graças.

Jack Paar — Uma coisa rara,nestes dias — Uma graça.

Jerry Lewis — Ele continua a imitar-se a si próprio, mas tem muito talento e penso que atempadamente fará as melhores Comédias. Espero que sim, mas terá que aprender a disciplinar-se artisticamente. (Stan faleceu em 1965).

Dick Van Dyke — Se alguém quiser fazer um filme sobre a minha vida — e espero que não queiram — eu gostaria que Dick Van Dyke fizesse de mim mesmo. Ele é um dos muitos poucos cómicos que existem por aí que sabe usar o seu corpo nas Comédias.

James Fin Lay Son — Bastava que largasse aquelas sobrancelhas, que eu aplaudiria...

Harold Lloyd — Dificilmente me fazia rir, mas admiro a sua criatividade. Um cómico engenhoso. Um dos melhores e mais honestos cómicos.
 (em, Jornal de Letras 23-01-90)


Stan Laurel na BBC provavelmente em 1952 ou 1953. 
Foto encontrada em  www.bbc.co.uk 


  
O actor Dyck Van Dyke leu este elogio fúnebre, em 
Fevereiro de 1965, homenageando Stan Laurel e a sua obra

Um elogio fúnebre


Há 30 anos atrás, quando os últimos filmes de Stan Laurel e Oliver Hardy passaram na minha cidade, no Illinois, eu aguardava as matinés de sábado, quer eram das onze da manhã às nove ou dez da noite, até os meus pais me irem buscar e me carregarem para casa. Daí por diante e durante toda a semana os meus pais ficavam entretidos e regalados, bem como os meus colegas da escola, com os meus comentários entusiásticos sobre Stan Laurel. Mas ninguém me prestava realmente muita atenção, porque muitas outras crianças também eram fãs de Stan Laurel.
Existem centenas ou milhões de pessoas por todo o Mundo que sentiram muita pena e saudades quando Stan nos deixou, é impossível a alguém conseguir falar por todas elas. O mais que posso fazer é falar por mim e dizer como sinto a sua falta. Foi a influência de Stan que fez com que eu decidisse ir para o mundo do espectáculo em primeiro lugar, além de moldar a minha atitude sobre a comédia. Claro que nunca tinha conhecido o senhor, mas há quatro anos atrás quando eu vim para a Califórnia ia fiz questão de conhecer Stan Laurel, custasse o que custasse. Depois de um ano de esforço para conseguir saber o endereço ou o número de telefone, qualquer coisa que me colocasse em contacto com ele, sabem como é que finalmente consegui? Numa lista telefónica normal... na lista telefónica do Oeste Los Angeles, que dizia: Stan Laurel, Ocean Avenue, Santa Monica. Um miúdo telefonou-lhe e recebeu um convite para o visitar e eu fiz exactamente o mesmo. 
Quando o fui visitar, a sua secretária estava repleta de cartas de fãs de todo o Mundo, que continuou a receber até morrer. Insistia em sentar-se à secretária com uma pequena máquina de escrever e a responder pessoalmente a todas as cartas. E claro que ele estava atrasadíssimo nas respostas e nunca conseguiu pôr em dia a correspondência. 
Numa das últimas manhãs que Stan passou na Terra, uma enfermeira entrou no quarto dele para lhe fazer um tratamento de emergência. Stan olhou-a e disse: «Sabe uma coisa? Adorava estar a esquiar.» A enfermeira perguntou-lhe: «Mas, o senhor esquia, senhor Laurel?» Ele respondeu-lhe: «Não! Mas preferia estar a esquiar, a estar aqui!» Uma vez, Stan disse que foi Chaplin e Harold Lloyd que fizeram «todos os grandes» e que ele e «Babe» Hardy fizeram todos os pequenos filmes e os mais baratos. «Mas eles disseram-me que os nossos pequenos filmes, foram vistos por mais pessoas durante estes anos, do que os deles. Eles devem-se ter apercebido com quanto Amor nós fizemos esses filmes.» Ele pôs nesse trabalho um «ingrediente» especial. 
Era um Mestre Cómico um Mestre Artista, mas punha um «ingrediente » que só uma pessoa muito humana podia pôr, que era Amor. Amor pelo seu Trabalho, Amor pela sua vida, Amor pelo seu Público. E corno ele amava o seu Público! Stan nunca foi aplaudido pelo seu trabalho como devia, pelas horas de trabalho árduo que tinha antes das filmagens. Ele não queria que as pessoas vissem ou notassem o seu trabalho. O que queria era que as pessoas rissem e, de facto, elas riam!(...)  
(em, Jornal de Letras 23-01-90)


 Mário Viegas idealizou um espectáculo em 1989, chamado "O Regresso de Bucha e Estica", com Juvenal Garcês e Eduardo Firmo, em homenagem a Stan Laurel e Oliver Hardy.

 Foto de "O Regresso de Bucha e Estica", noticia em O Jornal 

citizengrave.blogspot.pt

Cândido, Ribeiro dos Reis, Godinho e o Tarrafal



Chegou-me, há uma semana, às mãos e olhos, um livro que há muito desejava ler e ter, da autoria de Cândido de Oliveira: "Tarrafal - O Pântano da Morte". Muito há (haverá) a dizer acerca do livro e do seu autor.


Semanário "O Benfica"; página 3; 2 de Julho de 1953
O treinador do Benfica, Ribeiro dos Reis (à direita) entre o presidente do Benfica Joaquim Bogalho e o do FC Porto (Urgel Horta) com o treinador do FC Porto, Cândido de Oliveira (à esquerda, de óculos), no Estádio Nacional, antes da final da Taça de Portugal, em 28 de Junho de 1953, conquistada pelo Benfica após derrotar, por 5-0, a equipa do FC Porto

Um momento épico
Na final da Taça de Portugal da temporada de 1952/53 encontraram-se dois Benfiquistas que nesse dia, como treinadores, foram adversários: Ribeiro dos Reis (pelo Benfica) e Cândido de Oliveira (pelo FC Porto). Grandes amigos, Ribeiro dos Reis nunca perdoou a Cândido de Oliveira um dia, no início do Verão de 1920, ter "virado costas" ao "Glorioso", quando o Clube tanto necessitava dele que era "apenas" capitão da equipa de futebol!

Cândido infiel, Cândido fora... para sempre
Como resultado da infidelidade do seu capitão - Ribeiro dos Reis era um dos futebolistas da equipa - o seu grande amigo e antigo capitão da equipa Cândido de Oliveira nunca mais regressou ao Clube, encontrando sempre em Ribeiro dos Reis, dirigente do "Glorioso" praticamente até morrer, um obstáculo ao seu regresso. Quando António Ribeiro dos Reis faleceu em 3 de Dezembro de 1961 já Cândido de Oliveira deixara o nosso mundo em 23 de Junho de 1958.


Fotografia de Cândido de Oliveira nos ficheiros da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) Fotografia gentilmente enviada pelo dedicado leitor do blogue Victor João Carocha. Obrigado. Fotografia e legenda acrescentada às 03.05 da matina de sábado, 05 de Julho de 2014

E tantas vezes Cândido de Oliveira podia - e ao que constava queria - ter regressado ao Benfica
Cândido de Oliveira depois de futebolista tornou-se o melhor treinador português, talvez o melhor de sempre, treinando no Brasil o mítico CR Flamengo, em 1950, importante ano da fase final do Campeonato do Mundo realizado no Brasil. Durante os anos 30, 40 e 50 o Benfica necessitou inúmeras vezes de um treinador. De "um" treinador! Quanto mais do "melhor deles"! Para António Ribeiro dos Reis, um dos pilares do Benfiquismo que burilou o Benfiquismo do pioneiro Cosme Damião: Quem sai porque quer não regressa por querer...

Uma promessa para 24 de Setembro
Deixo já a digitalização de uma fotografia (a do início deste texto) retirada de uma edição do jornal "O Benfica". Enquanto  procuro uma fotografia com melhor qualidade em que estejam estes dois amigos prometo para dia 24 de Setembro de 2014 - dia em que passam 118 anos do nascimento de Cândido de Oliveira - escrever acerca desta relação benfiquista entre dois Benfiquistas... mas "fora" do SLB.



Copiar (parte) do livro
Entretanto aqui ficam - no final deste texto - deliciosas, mas tenebrosas, páginas de um capítulo do livro de Cândido de Oliveira para quem quiser ler ou copiar para levar de férias. O tempo de ócio vai ser bem ocupado. E não vai ser tempo perdido.

E mais três notas
1.       O prefácio do livro, apenas editado em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, é de José Magalhães Godinho que foi o primeiro director do jornal "O Benfica". Por agora fica neste espaço um prefácio que valeria também um magnífico artigo. Mais tarde haverá um texto evocando esse Benfiquista de Sempre, José Magalhães Godinho, nascido em 12 de Fevereiro de 1909 e falecido em 25 de Março de 1994, aos 85 anos;


Só um clube desinteressado do Poder do Estado Novo e sem temer represálias por que também não queria benesses podia ter como primeiro director do Jornal "O Benfica" ainda com o nome inicial de "Sport Lisboa e Bemfica", entre 1942 e 1946, um oposicionista como José Magalhães Godinho que foi referenciado pela PIDE quatro vezes durante o tempo em que dirigiu o Semanário do Clube. E foi preso quatro vezes, duas em 1930 e duas nos anos 40 (1947 e 1948). A sua acção democrática anti-censura, responsável e tolerante deu ao cargo de director do Semanário um prestígio e responsabilidade que outros depois - ao ocupar o mesmo cargo - tiveram dificuldade ou incapacidade em honrá-lo! A essa função e ao pioneiro director...
2.      António Ribeiro dos Reis (10 de Julho de 1896 a 3 de Dezembro de 1961) terá também um destaque neste blogue, em princípio no último dia deste ano (31 de Dezembro) assinalando os 100 anos da sua estreia com o "Manto Sagrado" na 1.ª categoria;

3.      O Benfica nunca foi um clube que discriminasse. Era, sim, um clube agregador que acolhia no seu seio todos os que quisessem engrandecê-lo independentemente da sua ideologia, etnia, género ou classe social. Em contraponto a um democrata, anti-fascista e anti-salazarista como Cândido de Oliveira, o EDB no espírito do Benfiquismo e da Gloriosa Cultura do Clube fará também a evocação de uma outra grande figura Benfiquista, ministro de Salazar: Augusto Cancella de Abreu, presumo que também salazarista e de direita, ao contrário de Cândido de Oliveira. Mas que só exerceu cargos no "Glorioso" depois de deixar de ser ministro e estar ligado ao Poder. Em 14 de Agosto de 2014, dia em que se completam 119 anos do seu nascimento em Anadia, no ano de 1895, o EDB homenageará um antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica, falecido em 6 de Abril de 1965. E dedicará a Cancella de Abreu o mesmo fervor, dedicação e rigor que terá para com Cândido de Oliveira, praticamente um mês depois. Se bem que o tema não seja o mesmo. Para Cancella de Abreu interessa destacar a sua acção como 11.º presidente da Mesa da Assembleia Geral, entre 27 de Julho de 1956 e 26 de Março de 1964, já doente. Enquanto que para Cândido de Oliveira interessará evidenciar uma amizade "fora do Benfica" entre ele e Ribeiro dos Reis. Ribeiro dos Reis que foi o 10.º presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica antes de... Cancella de Abreu! 




Apesar de preferir destacar o Clube enquanto colectividade e não somatório de individualidades é sempre um prazer escrever acerca de Benfiquistas que sempre serviram o Clube e nunca se serviram dele!

Alberto Miguéns

Prefácio de José Magalhães Godinho ao livro de Cândido de Oliveira



Último capítulo do livro (páginas 129 a 153)
















  1. O futebol é feito em primeiro lugar pelos seus praticantes. E esses são também homens (ou mulheres), com as suas incongruências, as suas cambiantes e as decisões que tomam em função do meio onde se inserem e interagem com os seus semelhantes.

    Cândido Oliveira foi um homem notável. Um praticante de qualidade, um mentor , um treinador de sucesso. Foi tudo o que o Dr. José Magalhães Godinho escreve nesse prefácio.

    A vida é assim, por vezes afasta-nos daqueles que foram amigos num dado tempo. Pelo que nos diz, a cordialidade e a amizade entre Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis manteve-se forte apesar da saída de Cândido que arrastou quase uma equipa inteira do Benfica com ele para a Casa Pia. Afinal fundaram o jornal "A Bola". Interessante como Ribeiro dos Reis terá então apartado o Benfica de tudo o resto, não colocando em causa a relação entre amigos mas fazendo questão de impedir qualquer regresso ao Benfica. Valores sólidos e coerência ao longo de décadas. Homem de fibra concerteza.

    Entende-se mas pelo menos do pouco que sei ainda assim lamento que não tenha havido uma reconciliação. Quando saiu Cândido era capitão do Benfica. Era treinado por Cosme Damião. Deveria pois ser o seu braço direito. Seria interessante perceber também a relação entre esses dois homens. Tanto quanto sei terão existido conversas antes da tomada de decisão. Não sei se o Alberto sabe alguma coisa sobre isso. Penso se não estou em erro que já li qualquer coisa de si a propósito de Cândido de Oliveira ter protelado por 1 ano essa decisão pois terá feito questão de sair como campeão.

    Cândido de Oliveira foi um dos maiores "ses" do Benfica. Como teria sido se não tem saído. Teriamos tido a crise de 1926 mais cedo? Teria sido diferente? Ter-se-ia Cosme afastado nessa data? Cândido era um pensador e por isso teria tido uma enorme importância na definição do Benfica como clube. Teriamos tido uma dupla Candido de Oliveira e Ribeiro dos Reis a fazer parte do pequeno núcleo de figuras-chave do clube. Parece mais do que provável.

    A parte do livro, a parte da experiência do Tarrafal é terrível. Cândido de Oliveira era um intelectual e pode - viveu para isso - racionalizar e relatar a sua experiência. Outros não tiveram a mesma sorte. É terrível perceber até que ponto um ser humano pode descer tão baixo para subjugar a este ponto um seu semelhante.

em-defesa-do-benfica.blogspot.com

O Império Diabólico do Ku Klux Klan


Nascido no imaginário de alguns oficiais sulistas ociosos, o sinistro Ku Klux Klan, tolerado durante muito tempo, incarna os demónios racistas e homicidas da América branca e puritana.
Na véspera do Natal, dia 24 de Dezembro de 1865, em Pulaski, no Estado do Tennessee, os veteranos James Crowe, Frank McCord, Calvin Jones, John Kennedy, John Lester e Richard Reed, criam uma associação de irmãos de armas cujo nome, em forma de altercação misteriosa, retoma o nome grego «kuklos» (círculo) associado ao latim «lux» (luz). Esta associação recebe o nome de Ku Klux Klan.

Durante cavalgadas nocturnas, estes homens percorrem a cidade, vestidos com lençóis brancos e máscaras pontiagudas, mostrando apenas os olhos.
O disfarce sugere o regresso dos soldados confederados mortos durante a Guerra da Sucessão.

Movidos pelo racismo, os cavaleiros-fantasmas tem como objectivo
assustar a população negra, considerados responsáveis pela derrota
dos confederados e pela crise económica que atinge a região do sul.

Rapidamente, as cavalgadas espalham-se pelas cidades de outros Estados: Alabama, Geórgia e Mississípi, hostis ao poder federal dos nortistas responsáveis pela abolição da escravatura. Os clansmen tornam-se cada vez mais agressivos, multiplicando as expedições punitivas, as pilhagens e as vinganças pessoais, em nome da superioridade da raça branca. Em pouco anos, o Império do Ku Klux Klan reúne perto de 500.000 membros, tornando-se difícil controlá-los.

Além de divertirem-se com os aterrorizados negros, esta sinistra associação também atacava brancos que protegiam os negros, principalmente os professores que leccionavam em escolas para negros, temendo que os negros se instruíssem, tornando impossível a volta à escravidão. Além da prática racista, os klanistas faziam visitas surpresas aos negros, obrigando-os a votar nos democratas, acompanhadas de algumas chibatadas.

Em consequência dos excessos, o grupo foi posto na ilegalidade em 1871 pelo então presidente dos Estados Unidos Ulysses Grant. Nesse mesmo ano, o Senado vota uma lei, Anti-Ku Klux Klan Bill que leva o general Nathan B. Forrest, antigo mercador de escravos e Grande Mago do Império dos Fantasmas, a proclamar a dissolução da sua sinistra organização. A Ku Klux Klan é dissolvida, deixando atrás de si, mais ou menos, cerca de 4600 vítimas negras.

O nascimento de uma Nação
Em 1915, o cineasta D. W. Griffith dirigiu um filme intitulado "O nascimento de uma nação", baseado no romance e na peça "The Clansman", ambas de Thomas Dixon, Jr. O filme relata as vidas de duas famílias durante a Guerra de Secessão e a subsequente Reconstrução dos Estados Unidos: os Stonemans, nortistas pró-União e os Camerons, sulistas pró-Confederação. O assassinato de Abraham Lincoln por John Wilkes Booth é dramatizado no filme.

VÍDEO

O filme foi um enorme sucesso comercial, mas foi altamente criticado por retractar os afro-americanos
(interpretados por actores brancos com as caras pintadas de negro) como ignorantes e sexualmente
agressivos em relação às mulheres brancas, e também por apresentar a Ku Klux Klan como uma força
heróica. O filme é creditado como um dos responsáveis pelo ressurgimento da Ku Klux Klan.

A segunda ordem nasce então numa noite de Inverno de 1915, nas mãos de um antigo pregador metodista, o reverendo William Joseph Simmons, em Atlanta. Motivados pela película, vários racistas se reuniram e retomaram a seita, usando todos os meios para atiçar o ódio contra os negros, fustigando os judeus, os católicos, os pacifistas ou os bolchevistas, assim como os sindicatos e todos cuja moral lhes parece ímpia. Uns são considerados responsáveis pela corrupção dos costumes, outros são suspeitos, a começar pelo Papa, de querer comandar o país.

Este grupo foi criado como uma organização fraternal e lutou pelo domínio dos brancos protestantes sobre os negros, católicos, judeus e asiáticos, assim como outros imigrantes. Este grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras actividades violentas contra seus inimigos. Chegou a ter 4 milhões de membros (outros dizem serem 5 milhões) na década de 1920, incluindo muitos políticos. O Ku Klux Klan torna-se então, numa enorme máquina financeira que enriquece os dirigentes. A partir do palácio imperial de Atlanta, o Imperador e os seus comparsas orquestram a repartição das quotas: em cada 10 dólares, 4 dólares vão para o recrutador, 6 dólares para o Klan. Em poucos anos, só as despesas de propaganda atingem 35 milhões de dólares.
Marcha de integrantes da Ku Klux Klan em Washington, DC em 1928.

Pouco a pouco, a implementação política do klan ganha terreno: 11 governadores e vários senadores são iniciados.
Novamente instalada em Washington, a organização faz uma demonstração de força ao fazer desfilar 30.000 cavaleiros nas ruas da capital federal.

Uma organização esotérica-sectária
A organização Ku Kux Klan baseia-se num programa que era acompanhado de um ritual que mistura a iniciação cavaleiresca, religião e o esoterismo barato. A direcção da Ordem pertence ao Feiticeiro Imperial ou ao Imperador, apoiado pelo Klonvocatória Imperial, composta pelos kloppers. Cada Estado é governado por um Grande Dragão; cada distrito por um Grande Tirano; cada província por um Grande Gigante. Juntam-se-lhe os graus de Ciclope, Fúria e Vampiro. Uma linguagem secreta une os iniciados: os dias e os meses são baptizados de Mortal, Tenebroso, Terrível, Furioso. Os Clansmen reúnem-se em Covis ou Cavernas, onde preparam as investidas sangrentas, vestidos com os uniformes brancos com uma cruz de Santo André vermelha ao peito.

Cruz sendo queimada, actividade introduzida por William J. Simmonk, o fundador da segunda
Klan em 1915.

Os candidatos 100% norte-americanos, nascidos nos Estados Unidos, brancos e protestantes, são recebidos de noite, diante de uma cruz alta, incendiada, que ilumina um altar envolto numa bandeira estrelada e sobre o qual estão colocados uma Bíblia aberta e um punhal. Aí, rodeados por uma multidão de homens encapuçados que rezam pela salvação do Imperador, respondem a um questionário para depois prestarem um juramento, no final do qual lhes dizem: «Lembrai-vos sempre de que a fidelidade ao juramento prestado é honra, vida, felicidade, e de que a sua transgressão, pelo contrário, significa vergonha, infelicidade e morte». O Grande Ciclope baptiza-os com um pouco de água vertida sobre a testa e os ombros, pronunciando a seguinte fórmula: «in mind, in body, in sirit and in life». Depois de integrados no grupo dos clansmen, podem desde logo, participar nos crimes dos vingadores de direito.

O fim do Ku Klux Klan
Entretanto, as suas vítimas eram marcadas com três letras K na testa. A perda de respeitabilidade da Ku Klux Klan devido aos métodos brutais, ilegais ou meramente arbitrários, e as execuções sumárias de inocentes, unidas as divisões internas, levou à degradação de seu prestígio, apesar de a organização continuar a realizar expedições punitivas, desempenhando, por exemplo, o papel de supervisora de uma agremiação de patrões contra os sindicalistas, cuja cota estava em alta depois da crise de 1929.

Na década de 1930, o nazismo exerceu uma certa atracção sobre a Ku Klux Klan. Mas na Segunda Guerra Mundial, depois do ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, os klans cortaram as relações com os alemães. Muitos membros se alistaram no exército para lutar contra o "perigo amarelo". Em 1944, o serviço de contribuições directas cobrou uma dívida da Klan, pendente desde 1920. Incapaz de honrar o compromisso, a organização morreu pela segunda vez. O clã foi perdendo forças, alguns integrantes foram amadurecendo, e a mentalidade foi mudando até que o clã se desfez novamente. A popularidade do grupo caiu durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, já que os Estados Unidos se posicionaram ao lado dos aliados, que eram contrários às ideias totalitárias, extremistas e racistas, como as nazis.

A tentativa do ressurgimento do Klan
Após a Segunda Guerra Mundial, apesar de ter perdido muitos adeptos, a organização goza de simpatia de muitos americanos cuja xenofobia é reavivada devido à chegada de novos imigrantes. Na década de 1950, a promulgação da lei contra a segregação nas escolas públicas despertou novamente algumas paixões, e cruzes se acenderam. Seguiram-se batalhas, casas dinamitadas e novos crimes (29 mortos de 1956 a 1963, entre eles 11 brancos, durante protestos raciais). Os klanistas tentaram se reciclar no anticomunismo, combatendo os índios ou atenuando seu anticatolicismo fanático. Em 1966, o Klan que conta com perto de 60.000 membros, é finalmente proibido.

A Ku Klux Klan entra para a história negra da América, denunciada em 1989, no filme de Alan Parker, "Mississípi em Chamas, 1964".

VÍDEO

Mississipi, 1964. Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (Willem Dafoe), dois agentes do
FBI, investigam a morte de três militantes dos direitos civis numa pequena cidade onde a segregação
divide a população em brancos e pretos e a violência contra os negros é uma tónica constante.

Nos dias actuais, alguns racistas ainda se reúnem em grupos, promovendo a superioridade dos arianos. Mas em termos de contingente, não se compara com o auge do clã, no século XIX.

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