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terça-feira, 1 de novembro de 2016

O "Pai da Canábis". O cientista que descobriu os segredos da erva


Mechoulam dá uma aula com as estructuras químicas da canábis atrás de si, Circa 1964. Cortesia de Zach Klein, do seu documentário 'The Scientist'
Este artigo foi originalmente publicado na VICE Colômbia.
Em 1980, uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo publicou um estudo que deveria mudar a vida de 50 milhões de epilépticos em todo o mundo.
As descobertas da investigação, realizada em parceria com a Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, eram, no mínimo, encorajadoras. Os cientistas administraram doses diárias de 300 miligramas de canabidiol, o componente não-psicoativo mais importante da erva, num grupo de oito pacientes epilépticos. Quatro meses depois do começo do tratamento, quatro deles pararam de ter convulsões e três outros viram a frequência dos ataques diminuir.
Parecia promissor, claro. Por muitos motivos, porém, as coisas não avançaram na direcção esperada. "Quem é que se importou com as nossas descobertas? Ninguém!", conta-me o químico búlgaro Raphael Machoulam, franzindo a testa, sentado no seu sofá. "Isto, apesar de muitos dos pacientes serem crianças que tinham 20, 30, 40 convulsões por dia. E o que é que se fez? Nada! Durante os 30 anos seguintes ninguém usou a canábis para tratar a epilepsia".
Procurei Mechoulam durante um ano. Como qualquer pessoa interessada no uso médico da canábis, formei na minha cabeça uma imagem mítica deste cientista. Uma figura meio Karl Marx, meio Syd Barrett. Uma mente revolucionária que desafia as convenções do seu tempo e altera, para sempre, a nossa percepção do mundo.
Alguns meses atrás, Norton Alberláez, o empresário colombiano que projectou o sistema regulatório da canábis medicinal no Colorado, nos Estados Unidos, tinha-me dito que as investigações do especialista em química orgânica tinham acrescentado um peso fundamental ao seu lobbyde regulamentação em terras norte-americanas. Enquanto isso, Juan Manuel Galán, um senador do Partido Liberal colombiano, avançou-me em Novembro último, que tinha viajado para Jerusalém, onde Mechoulam mora, para se encontrar com o cientista no seu laboratório, de forma a pedir-lhe informações para o seu projecto de lei que tem como objectivo legalizar a erva medicinal – aprovado pelo Senado colombiano em Dezembro e que será debatido pela Câmara dos Representantes neste mês de Março.
Todos aqueles com quem falei sobre o cientista concordavam estavam de acordo num ponto: Mechoulam é o pai da canábis moderna.
Mechoulam no seu laboratório, na Universidade Hebraica, Jerusalém. Fotografia de Elior Rave
Raphael Machoulam, de 85 anos, mora numa casa pequena, sóbria mas elegante, no oeste de Jerusalém, onde o prédio de mármore e as árvores no jardim da frente fazem com que te esqueças que Israel está em alerta militar permanente. Todos os dias conduz o seu Peugeot prateado pelos arredores da cidade onde passou as últimas cinco décadas a decifrar os mistérios químicos da erva, principalmente o modo como o corpo humano interage com os compostos encontrados na planta. Raphie, como lhe chamam os seus colegas, isolou e especificou a estrutura molecular dos "canabinóides", os compostos químicos da erva. Em particular, decifrou o tetraidrocanabinol (THC), a molécula responsável pela moca da canábis, e o canabidiol, o principal composto não-psicoativo da planta, que carrega várias qualidade medicinais.
No começo do século XX, com a proibição gradual da canábis nos EUA, o mundo moderno voltou as costas às investigações levadas a cabo em torno da planta sagrada e poderosa usada por médicos, xamãs e druidas ao longo de três mil anos. A Pen-T'sao Ching, a mais antiga farmacopeia existente, regista o uso da cannabis na China por volta de 2700 a.C. para tratar dores reumáticas, prisão de ventre, transtornos reprodutivos femininos (como endometriose) e malária. De maneira similar, o pai da cirurgia chinesa, Hua Tuo, desenvolveu um componente anestésico de vinho e erva durante o século I a.C. Registos semelhantes estão em documentos e relatos da Índia, Oriente Médio, África e até Europa, onde em 1838, William Brooke O'Shaughnessy, um médico irlandês, publicou – após experiências com animais e humanos – um livro intitulado On the Preparations of the Indian Hemp, or Gunjan. No Tibete, em 6 a.C., a canábis era usada em rituais budistas tântricos para "facilitar a meditação", enquanto os assírios a usavam como incenso.
Raphael Mechoulam não sabia nada disso quando começou sua pesquisa, há mais de 50 anos. Filho de um casal judeu búlgaro perseguido pelos nazis (o seu pai, um médico importante, sobreviveu a um campo de concentração), Mechoulam saiu da Europa em 1949, logo depois da formação do Estado de Israel. Lá estudou química, fez mestrado em bioquímica, serviu o exército, estudou pesticidas e completou o doutoramento em 1963 no Weizmann Institute em Rehovot – o mesmo lugar onde viria a descobrir os segredos da cannabis.
Mechoulam tinha descoberto o composto psicoactivo responsável pela moca da erva.
"Tinha 34 anos quando comecei a procurar temas de investigação", diz quando lhe pergunto sobre a origem do seu interesse pela canábis. Confesso que esperava que me respondesse com algo relacionado com uma fase hippie dos anos 60 – "estava a fumar uma ganza no meu laboratório, quando..." –, mas Mechoulam deu-me uma resposta bastante directa. Disse que só consumiu canábis uma vez na vida e o que o motivou foi, na verdade, o facto de ser um assunto inédito no campo científico. "Um cientista tem que escolher um tema original, um que não tenha outras 50 pessoas a trabalhar nele", salienta. O tema também tem que ter um impacto substancial e social. Nessa época, li muitos artigos em inglês, russo, francês e alemão para tentar descobrir algum problema inexplorado, até que percebi que havia poucos conhecimentos químicos sobre os componentes da canábis. Achei isso surpreendente: enquanto a morfina tinha sido isolada do ópio e a cocaína da folha de coca, ninguém tinha estudado a química da planta da marijuana. Era muito estranho".
Um dia, o jovem químico apareceu no escritório do director da Faculdade e pediu que o ajudasse a conseguir um pouco de produto. O director não pensou duas vezes. Pegou no telefone e ligou para a polícia, que doou cinco quilos de haxixe marroquino que os oficiais tinham apreendido recentemente vindo do Líbano (Mechoulam conta este facto de uma forma bastante engraçada no seu documentário biográfico, The Scientist, realizado por Zach Kelin). Pouco tempo depois isolou, um a um, todos os componentes da planta.
Quais desses componentes eram a causa de toda a estimulação mental que aterrorizou os governos e legisladores no século XX? Era apenas um, ou a combinação de todos? Para responder a essa pergunta, Mechoulam e a sua equipa testaram cada um individualmente em macacos. A primeira descoberta surpreendente foi que apenas um deles, o tetraidrocanabinol (THC), tinha efeito único. Os primatas pareciam bêbados, sedados.
Mechoulam tinha descoberto o composto psicoactivo responsável pela moca da erva. Para confirmar, levou uma grande dose de THC para casa e pediu à sua esposa, Dalia, que a colocasse na receita de um bolo. Naquele dia, o pai da cannabis ficou mocado pela primeira e única vez. Também conseguiu provar um fenómeno que hoje guia as investigações sobre canábis medicinal: cada pessoa reage de forma diferente ao THC. Ele percebeu isso quando olhou à sua volta: um dos seus amigos falava sem parar, outro parecia em transe, um terceiro não conseguia parar de rir. Um deles parecia paranóico.
Enquanto ouvia esta história, lembrei-me de um debate sobre cannabis medicinal a que assisti uma vez, integrado no Congresso Nacional de Psiquiatria na cidade colombiana de Armênia. Na ocasião, três psiquiatras disseram que estavam preocupados com como os media falavam sobre a marijuana medicinal, particularmente depois de o Ministério da Saúde colombiano ter assinado um decreto que regulamentava a droga. O crescimento da simpatia política em relação à canábis estava, segundo os membros do painel do debate, a gerar uma falsa sensação de segurança sobre a erva. Para os psiquiatras, o novo foco de atenção da comunicação social gerado por esse debate político obscurecia os estudos, que provavam que um em cada 10 adolescentes que experimentavam marijuana desenvolviam episódios psicóticos e comportamentos abusivos em relação a drogas. Falei sobre esta discussão com Mechoulam.
"Nem o THC nem o canabidiol são tóxicos. No entanto, desde o século sexto, sabemos que a erva pode causar episódios psicóticos. Além disso, há provas de que 10% dos consumidores de marijuana desenvolvem um vício, apesar de não ser tão forte quanto o da morfina, por exemplo. Mas além de transtornos psiquiátricos ou a possibilidade de vício, não há evidência de nenhuma doença causada pela canábis".


Todos os debates correspondem puramente ao uso recreativo da droga, refere Mechoulam. Para ele, uma coisa é debater os riscos envolvidos em fumar erva para apanhar uma moca e outra coisa muito diferente é explorar as aplicações medicinais dos seus componentes, em particular o THC e o canabidiol. A primeira é algo que Mechoulam prefere deixar para os sociólogos. Mas a segunda ocupou uma grande parte da vida dele e dos membros da Sociedade Internacional de Investigação dos Canabinóides, uma rede crescente de académicos que, sob a sua tutela, confirmaram em laboratórios as razões por trás do uso histórico da planta.
É provável que a maior descoberta de Mechoulam não seja nem o THC nem o canabidiol. Depois de um curto frenesim nos anos 70, e enquanto todas as forças policiais do mundo perseguiam o cultivo e consumo de erva, a ciência gradualmente perdeu interesse nos canabinóides. Mas Mechoulam não parou de fazer perguntas. No final dos anos 80, começou a investigar as formas como o THC interagia com o sistema nervoso.
"Depois de descobrirmos o THC, começámos a estudar o metabolismo e as maneiras como o corpo humano reage aos seus componentes", recorda. "Uma equipa de Oxford afirmou que o THC trabalhava de uma maneira não-específica. Mas nós, com a ajuda de uma jovem investigadora, mostrámos que, na verdade, isso é muito específico".
A investigadora referida pelo cientista é Allyn Howlett, doutorada em neurociência, que em 1988 descobriu que o cérebro da maioria dos animais tem um receptor no sistema nervoso designado especificamente para interagir com o THC. Chamou-lhe CB1. Encontrar o CB1 foi como encontrar a fechadura para uma chave em particular – uma descoberta seguida por uma questão perturbadora: como era possível que o sistema nervoso tivesse um receptor designado especificamente para reagir a um composto da erva? O corpo humano evoluiu para interagir com uma planta específica? Deus (ou Darwin) estava a sugerir que homem e a marijuana foram feitos um para o outro?
Em Dezembro de 1992, Mechoulam relatou a descoberta de um composto produzido pelo corpo humano, localizado dentro e à volta do cérebro, que se ligava ao receptor que ele tinha descoberto anos antes. Foi como se, de repente, tivesse descoberto outra chave que se encaixava perfeitamente na fechadura.
A resposta que Mechoulam encontrou gerou um turbilhão científico que, até hoje, é abastecido com biliões de dólares da indústria farmacêutica. "O nosso sistema nervoso tem muitos receptores neurais e esses receptores estão ligados a algumas substâncias produzidas pelo nosso corpo [dopamina, ou serotonina, por exemplo]", explica. "Mas esses receptores não foram criados para terem uma ligação com um arbusto. Se esse fosse o caso, teríamos milhões deles, cada um para uma espécie de planta da Terra".
Por outras palavras, se o corpo humano tem receptores específicos para isso, significa que o nosso corpo produz canabinóides.
Em Dezembro de 1992, Mechoulam relatou a descoberta de um composto produzido pelo corpo humano, localizado dentro e à volta do cérebro, que se ligava ao receptor que ele tinha descoberto anos antes. Foi como se, de repente, tivesse descoberto outra chave que se encaixava perfeitamente na fechadura. A descoberta era tão importante que a molécula merecia um nome à altura. Um membro da equipa, entusiasta do misticismo hindu, baptizou-a de anandamida, do sânscrito "ananda", que significa alegria suprema.
Com a descoberta do CB1 e da anandamida (e mais tarde a descoberta de um receptor similar, o CB2), tornou-se evidente para Mechoulam e para a sua equipa que o corpo humano continha um sistema de receptores e compostos muito similares aos encontrados na erva. Deram-lhe o nome de sistema endocanabinóide. Desde então, duas perguntas não têm deixado dormir os investigadores: que função preenche esse sistema dentro do equilíbrio frágil e quase perfeito que mantém os humanos saudáveis? E como pode a erva ser usada para tratar doenças relacionadas com esse sistema?
"O sistema endocanabinóide é muito importante. Quase todas as doenças estão ligadas a ele de uma forma ou de outra. E isso é muito estranho. Não temos muitos sistemas que estejam envolvidos com todas as doenças", diz Mechoulam, explicando pacientemente o que, sem dúvida, já explicou muitas vezes antes. De que doenças estamos a falar?
"De todo o tipo! Doenças do pulmão, coração, fígado, rins: tudo depende de quão intensamente os receptores são estimulados. Veja-se a dopamina, por exemplo. Se o nosso corpo tem pouca dopamina, podemos desenvolver Parkinson; se tem muita, podemos sofrer de esquizofrenia. É a mesma coisa com os canabinoides. O receptor CB2 é um protector. Isso protege o corpo de várias coisas. O CB1 trabalha de maneiras diferentes, dependendo se a dosagem é alta ou baixa. Por outras palavras, desde que os níveis de anandamida – e outros endocanabinóides descobertos desde então – se mantenham estáveis, o corpo humano realizará as suas funções correctamente. Se esses compostos se desequilibram, a ciência pode usar canabinóides como o THC e o canabidiol para curar muitas doenças".
O professor garante que há pistas de que esse sistema está relacionado a certos tipos de cancro. "Mas não temos ainda a certeza", salienta, franzindo a testa. "Não temos provas, porque os estudos clínicos sobre isso não estão a ser feitos! Conhecemos pessoas que estão a consumir THC e dizem que se curaram de cancro. Mas além disso, não sabemos nada. Precisamos de mais investigações! Precisamos de mais estudos clínicos".
Esse é um sentimento que repete em todas as conversas, entrevistas ou aulas que dá. Mechoulam é um activista da ciência da canábis. O homem sábio, apesar de ignorado durante décadas, insiste que a humanidade não é digna do que os canabinóides têm para oferecer. Hoje, soa ligeiramente mais optimista, graças ao interesse recente de académicos e empresas farmacêuticas pelos seus estudos.
"Estou curioso", digo no final da nossa entrevista, "como é que uma máquina de lucro como a indústria farmacêutica ignorou todas essas descobertas?".
"É simples", responde, "quem quer uma primeira página do New York Times a dizer: 'Merck factura milhões com erva'?".


ESPECTACULAR - A HISTÓRIA DO ROCK EM VÍDEO - 15 MINUTOS ESPECIAIS

ALGUNS RETRATOS DE FAMOSOS DO MUNDO NA SUA INFÂNCIA



Todo o mundo gosta de rever fotos da infância, de quando todos os sonhos são permitidos (como deveriam ser sempre) e a vida é uma página em branco. 

Esse exercício se torna ainda mais curioso com fotos de pessoas que ficaram famosas nas mais diversas áreas, pela forma como as suas ações – boas ou más – marcaram a vida de outras pessoas.

É interessante ver como alguns famosos já mostravam seus traços de personalidade desde criança – prestar atenção, por exemplo, à pose rude e dura de Hitler ou ao ar desencanado de James Dean – ou como outras estão iguais passados tantos anos, como Pelé ou Madonna. Por outro lado, na época em que foi tirado cada retrato, estaríamos todos bem longe de imaginar o que seria daquelas crianças.



Marilyn Manson



Amy Winehouse


John Lennon


Marilyn Monroe


Martin Luther King


Madonna


Kurt Cobain


Adolf Hitler


Dilma Rousseff


Frank Sinatra


Jimi Hendrix


Johnny Depp


James Dean


Michael Jackson


Raul Seixas


Walt Disney


Ayrton Senna


Frida Khalo


Roberto Carlos


Andy Warhol


Caetano Veloso


Albert Einstein


Pelé



www.hypeness.com.br

O estranho caso da recusa do BE






E muito menos rompem com as convenções e com o conveniente consenso entre certas personagens e os meios dominantes, que condenam e isolam países cuja luta pela emancipação dos povos e contra a exploração que é tratada com o jargão da intolerância (regime, ditadura…) tão à flor da pele das narrativas jornalísticas.



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O BE recusou integrar a delegação para a visita institucional a CubaCréditos

No passado dia 24 de Outubro, foi conhecida a informação de que o Presidente da República visitaria Cuba acompanhado por uma delegação parlamentar da Assembleia da República incompleta. O Bloco de Esquerda (BE) recusara o convite de Marcelo Rebelo de Sousa.
Note-se bem: o verbo usado em todos os meios de informação foi exactamente aquele – recusar. Poderia ter sido outro – declinar, por exemplo. Ou outra fórmula – pedir escusa, por exemplo. Recusou, portanto.
Para todos os efeitos, o BE tomou uma posição política muito concreta sobre a primeira visita de um Presidente da República português a Cuba, precisamente num raro contexto político internacional, caracterizado por um processo – aliás muito complexo – de evolução das relações entre Washington e Havana, e pela condenação esmagadora do bloqueio económico, comercial e financeiro à ilha caribenha na Assembleia Geral das Nações Unidas (191 votos a favor, duas abstenções – dos próprios EUA e de Israel).
O partido começou por confirmar a informação, «escusando-se a fazer mais comentários ou a avançar qualquer justificação para a sua decisão», segundo um despacho da Agência Lusa datado das 17:54 horas desse dia, citando uma «fonte oficial» não identificada.
A generalidade dos meios de informação em linha replicou, no mesmo dia, o «take» da Lusa. Apenas o Público acrescentou este interessante parágrafo:
«Durante o processo obrigatório de autorização da Assembleia da República para esta visita, que incluiu um parecer da Comissão de Negócios Estrangeiros, o partido não exprimiu qualquer opinião contra a viagem do Chefe de Estado».
À noite, porém, o BE apresentava as suas justificações, através de uma notícia no seu sítio oficial, Esquerda.Net, publicada às 20:20 horas, que começa por anunciar a visita do Presidente da República à «ilha, cujo regime recentemente retomou relações diplomáticas com os Estados Unidos».
Sublinhemos do jargão do imperialismo – de resto frequente na Imprensa – a expressão «regime». Só esta daria pano para mangas para indagar mais das justificações do Bloco para a recusa do convite, acerca das quais a notícia não adianta senão:
a) Que o BE «sempre limitou muito a sua participação em visitas de Estado (…) a visitas a países com fortes comunidades portuguesas ou de língua portuguesa, com poucas excepções»; e
b) «acresce que, nos dias 28 e 29 de Outubro, os deputados do Bloco encontram-se reunidos nas jornadas parlamentares do partido».
A atitude – legítima – do BE e as justificações que avançou justificariam, se tomadas por outras forças do espectro político-partidário português, um pouco mais de curiosidade jornalística, para não dizer um pouco mais de empenho profissional para explicar aos cidadãos por que razões mais exactas um partido de Esquerda recusou participar na visita em causa.
Quase todos os jornais impressos do dia seguinte assobiam para o lado, omitindo uns (Diário de Notícias), reduzindo a notícias breves – casos do Jornal de Notícias e do Público – embora o segundo acrescente a justificação oficial da escassa participação do BE «neste tipo de visitas, privilegiando os PALOP», ou tratando o assunto de forma muito ambivalente1 na rubrica «Sobe e desce», caso do Correio da Manhã, colocando Catarina Martins a «descer».
O jornal i é o único a desenvolver o tema, com título «BE não vai a Cuba. Tem mais que fazer» e rendendo-se às justificações oficiais, citando apenas «fonte oficial» e sem que nenhuma das deputadas, ou nenhum dos deputados, omnipresentes nas páginas dos jornais e nos canais de televisão e estações de rádio, desse a cara por elas, mesmo quando escreve:
«Não se trata aqui, afirma o Bloco de Esquerda, de uma tomada de posição política semelhante à que o partido fez quando recusou participar na visita oficial a Angola, cujo regime é abertamente combatido pelo Bloco. Apesar da forma crítica como o partido vê o regime cubano – que sempre foi considerado modelo pelo Partido Comunista –, fonte oficial garante que não é isso que está em causa».
O que estará afinal em causa? Se esperávamos uma resposta (consta que é para dar respostas que os jornalistas trabalham e os media servem), os jornais contentaram-se com as explicações sumárias e superficiais e renunciaram ao seu papel de procurar ir mais longe.
Na verdade, seria muito importante saber que outras deslocações de presidentes da República o BE acompanhou e que interesse relevante revestiam; que falta faria nas jornadas parlamentares um – apenas um – deputado, se o BE tivesse integrado a comitiva, e se nas jornadas parlamentares anteriores todos os eleitos estiveram presentes.
Também seria muito importante que, a pretexto deste caso, os media explicassem as razões pelas quais o BE é o único partido que não integra o Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Cuba e como trata Cuba no quadro das suas relações internacionais.
Seria ainda muito importante que os media ajudassem a compreender o que pensa e como age o Bloco em relação ao criminoso bloqueio imposto pelos Estados Unidos, com a complacência, durante décadas, da chamada comunidade internacional, que há mais de meio século asfixia e faz sofrer o povo cubano.
Tão preocupados com a geografia das simpatias do Partido Comunista Português e dos seus membros, escrutinadas até à náusea em cada entrevista, em cada «análise» e, com frequência a despropósito, em inúmeras notícias e reportagens, os media pouco ou nada importunam outras forças sobre «modelos» e experiências apreciadas noutros países.
E muito menos rompem com as convenções e com o conveniente consenso entre certas personagens e os meios dominantes, que condenam e isolam países cuja luta pela emancipação dos povos e contra a exploração que é tratada com o jargão da intolerância (regime, ditadura…) tão à flor da pele das narrativas jornalísticas.
______
1 Na edição do dia 25 de Outubro, o posicionamento editorial do Correio da Manhã sobre o assunto (a «descer») é justificado por o BE ser «o único partido com assento parlamentar que não envia um representante» com Marcelo Rebelo de Sousa. Contudo, no espaço «Dia a dia» da edição do dia 28, o mesmo jornal destila o seu ódio contra Cuba e critica acidamente a boa-disposição exibida por Marcelo Rebelo de Sousa no encontro com Fidel Castro: «Chegar aos 90 anos com saúde bastante para ver como as democracias continuam a praticar a genuflexão perante uma ditadura que tenta exportar-se para países vizinhos é para lá de divertido». Eis como o CMexime o BE de tal pecado: «Escapou o Bloco de Esquerda, capaz de encontrar desculpa airosa para não integrar a comitiva presidencial».

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01 de Novembro de 1755: Terramoto de Lisboa

Na manhã de 1 de novembro, dia de Todos os Santos, ocorreu um violento terramoto em Lisboa, Setúbal e no Algarve. Na capital, onde se fez sentir mais intensamente - estudos posteriores levaram os geólogos a concluir que teria atingido uma intensidade de cerca de 9 graus na escala de Richter - foi acompanhado por um maremoto que varreu o Terreiro do Paço e por um gigantesco incêndio que, durante 6 dias, completou o cenário de destruição de toda a Baixa de Lisboa.

Este trágico acontecimento foi tema de uma vasta literatura, que se desenvolveu um pouco por toda a Europa ede que é exemplo o poema de Voltaire Le Désastre de Lisbonne (1756).

Lisboa já havia sentido, recentemente, alguns terramotos, como o de 1724 e o de 1750, este último precisamente no dia da morte de D. João V, mas ambos de consequências menores.Em 1755, ruíram importantes edifícios,como o Teatro da Ópera, o palácio do duque de Cadaval, o palácio real e o Arquivo da Torre do Tombo cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com as bibliotecas dos Dominicanos e dos Franciscanos.Ao todo, terão sido destruídos cerca de 10 000 edifícios e terão morrido entre 12 000 a 15 000 pessoas.

Foi neste contexto de tragédia e confusão que Sebastião José de Carvalho e Melo, então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, revelou as suas grandes capacidades de chefia e organização ao encarregar-se da restituição da ordem; enquanto as pessoas influentes e a própria família real se afastavam de Lisboa, Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) passou à prática a política de enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Impediu a fuga da população ao providenciar socorros e ao distribuir alimentos. Puniu severamente os que se dedicavam ao roubo de habitações e de imediato começou a pensar na reconstrução de Lisboa.Neste mesmo ano, Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, já se encontrava a estudar o problema da reconstrução e levantava a questão de construir uma nova cidade sobre os escombros da antiga ou construir uma nova cidade em Belém, zona menos sujeita a abalos sísmicos. Escolhida a primeira das soluções, foi adotado um modelo em que eram proibidas as obras de iniciativa particular; os proprietários dos terrenos foram obrigados a reconstruir segundo o plano geral num espaço de 5 anos, sob pena de serem obrigados a vender os terrenos.

De um total de 6 plantas traçadas pelos colaboradores de Manuel da Maia, a escolhida foi a de Eugénio dos Santos, arquiteto do Senado da cidade, que chefiou os trabalhos até 1760, altura em que faleceu e foi substituído por Carlos Mardel, arquiteto húngaro imigrado em Portugal.À cidade medieval de ruas estreitas deu lugar um traçado racional de linhas retilíneas em que os prédios têm todos a mesma altura. De toda a cidade pombalina,assim designada por ter resultado da iniciativa do marquês de Pombal, destaca-se a praça do Comércio,majestosa "sala de entrada" na cidade, com a estátua equestre de D. José I, monarca da altura, da autoria do escultor Machado de Castro.

Terramoto de 1755 e Reconstrução Pombalina. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Wikipedia (Imagens)


Gravura em cobre de 1755 mostrando Lisboa em chamas e o tsunami varrendo o portoFicheiro:1755 Lisbon earthquake.jpg
Ruínas de Lisboa. Após o terramoto os sobreviventes viveram em tendas nos arredores da cidade, como ilustra esta gravura alemã de 1755



Ficheiro:Lisbon1755hanging.jpg

Resultado de imagem para relatos do terramoto de 1755

Ficheiro:Convento do Carmo ruins in Lisbon.jpg
Ruínas do Convento do Carmo

VÍDEOS
Lisboa antes do terramoto de 1755