AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Tijolo é produzido a partir de plásticos retirados dos oceanos

O plástico, por estar presente em diversos produtos que usamos em nosso dia a dia, pode ser considerado um dos grandes vilões quando falamos em descarte incorreto de materiais. Ao invés de ser encaminhado à reciclagemgrande parte do material é enviado a aterros sanitários, indo parar também nos oceanos, causando danos severos ao meio ambiente.

Com o decorrer dos anos, os pedaços de plástico se fragmentam nos oceanos e, ao serem confundidos com alimentos, prejudicam a vida de todos os tipos de animais, desde seres microscópios até grandes peixes e aves. Para se ter ideia da gravidade do problema, segundo informações divulgadas no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro deste ano, em 2050, é possível que os oceanos tenham mais resíduos de plásticos do que peixes.
Sabendo disto e pensando em uma forma de fazer a diferença, a start up ByFusion criou um tijolo ecológico desenvolvido a partir de todos os tipos de plásticos retirados dos oceanosUma máquina modular comprime os plásticos em blocos duráveis que, a princípio, foram configurados no formato de um bloco de cimento comum. Porém, segundo os fabricantes, o tijolo ecológico, que foi batizado de Replast, pode ser customizado em diferentes formas e densidades.
O Replast não precisa de colas ou adesivos, possui elevado isolamento térmico e acústico e, segundo a ByFusion, sua fabricação emite 95% menos gases de efeito estufa(GHG) em comparação com um bloco de concreto. A máquina que produz os tijolos pode ser transportada em contêineres para qualquer lugar do planeta, o que facilita sua distribuição.


O tijolo ecológico vem sendo usado na construção de muros e barreiras de estradas, mas a empresa já está trabalhando para que o Replast possa ser usado na construção de casas e edifícios. Confira abaixo um vídeo que mostra o funcionamento da máquina e a construção de um muro com o tijolo ecológico.

VÍDEO


E então, o que acharam do tijolo ecológico? Será que, no futuro, ele será mais uma opção sustentável para a construção de moradias? Por enquanto, fica a reflexão sobre o consumo de plásticos em nosso dia a dia. Diminuir o consumo destes materiais é possível e uma dica bacana é reaproveitar de alguma forma o plástico que costumamos usar. Compartilhe com seus amigos e se você tem alguma dica de reutilização de plástico, conte pra gente nos comentários


Tijolo é produzido a partir de plásticos retirados dos oceanos

O plástico, por estar presente em diversos produtos que usamos em nosso dia a dia, pode ser considerado um dos grandes vilões quando falamos em descarte incorreto de materiais. Ao invés de ser encaminhado à reciclagemgrande parte do material é enviado a aterros sanitários, indo parar também nos oceanos, causando danos severos ao meio ambiente.

Com o decorrer dos anos, os pedaços de plástico se fragmentam nos oceanos e, ao serem confundidos com alimentos, prejudicam a vida de todos os tipos de animais, desde seres microscópios até grandes peixes e aves. Para se ter ideia da gravidade do problema, segundo informações divulgadas no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro deste ano, em 2050, é possível que os oceanos tenham mais resíduos de plásticos do que peixes.
plásticos-oceanosSabendo disto e pensando em uma forma de fazer a diferença, a start up ByFusion criou um tijolo ecológico desenvolvido a partir de todos os tipos de plásticos retirados dos oceanosUma máquina modular comprime os plásticos em blocos duráveis que, a princípio, foram configurados no formato de um bloco de cimento comum. Porém, segundo os fabricantes, o tijolo ecológico, que foi batizado de Replast, pode ser customizado em diferentes formas e densidades.
tijolo-ecologicoO Replast não precisa de colas ou adesivos, possui elevado isolamento térmico e acústico e, segundo a ByFusion, sua fabricação emite 95% menos gases de efeito estufa(GHG) em comparação com um bloco de concreto. A máquina que produz os tijolos pode ser transportada em contêineres para qualquer lugar do planeta, o que facilita sua distribuição.
O tijolo ecológico vem sendo usado na construção de muros e barreiras de estradas, mas a empresa já está trabalhando para que o Replast possa ser usado na construção de casas e edifícios. Confira abaixo um vídeo que mostra o funcionamento da máquina e a construção de um muro com o tijolo ecológico.

VÍDEO

E então, o que acharam do tijolo ecológico? Será que, no futuro, ele será mais uma opção sustentável para a construção de moradias? Por enquanto, fica a reflexão sobre o consumo de plásticos em nosso dia a dia. Diminuir o consumo destes materiais é possível e uma dica bacana é reaproveitar de alguma forma o plástico que costumamos usar. Compartilhe com seus amigos e se você tem alguma dica de reutilização de plástico, conte pra gente nos comentários

em rota de despedida


MULHERES PORTUGUESAS DA RESISTÊNCIA - MARIA DA PIEDADE GOMES DOS SANTOS

MARIA DA PIEDADE GOMES DOS SANTOS [I]


MARIA DA PIEDADE GOMES DOS SANTOS *
[10/12/1919-28/04/2015]

Natural da Marinha Grande.

Tornou-se simpatizante do Partido Comunista aos 15 anos e começou a namorar Joaquim Gomes [1917-2010], vidreiro natural da Marinha Grande e seu militante, aos 16.

Casou com Joaquim Gomes aos 20 anos e entrou para a clandestinidade em 1952.

Presa em 5 de Dezembro de 1958, foi enviada para Caxias no dia seguinte.

Apesar de condenada a dois anos, só foi libertada ao fim de quase seis anos, a 18 de Setembro de 1964, devido a "Habeas Corpus" apresentado pelo advogado Armando Bacelar.

Voltou para a clandestinidade ao fim de quinze dias, mantendo-se nessa situação até ao 25 de Abril de 1974.


  [Fotografia da polícia política tirada no dia que completava 39 anos de idade]
[in Joaquim Gomes, Estórias e emoções de uma vida de luta, Edições Avante!, 2001]

silenciosememorias.blogspot.pt

A MAIS VELHA


Esta é a árvore mais velha de Portugal... Trata-se de uma oliveira, ultimo vestígio de um extenso olival que em tempos existiu em Santa Iria da Azóia, Loures... O vetusto espécime tem um tronco de 10,15 metros, mede 4,40 metros de altura e a copa tem um diâmetro entre os 7,60 e os 8,40 metros.
Mas, o mais sensacional, é que esta árvore que, segundo os cientistas tem a bela idade de
2850 anos...ainda produz azeitonas!

(Wikipedia)

poesia: António Garrochinho - a pérola



AS DUAS MÃES DE LEONARDO




             Faço fé no que li de Siegmund Freud. Um estudo sobre o divino renascentista incluído numa obra chamada Textos Essenciais Sobre Literatura, Arte e Psicanálise.
         Leonardo nasceu em Abril de 1462, exactamente em Vinci, perto de Florença, como filho ilegítimo de Ser Piero da Vinci, notário, homem de teres e haveres, e de Caterina, presumível rapariga do povo, admissível pobre e indefesa rapariga do campo.
         Deve ter-se dado o caso (relativamente comum) de um homem de meios de fortuna e ares de grande senhor mais ou menos nobre, ter abusado de uma rapariga de mais modesta extracção, exposta ao prestígio social do seu sedutor. Não sabemos. 


         
          Ser Piero casar-se-ia mais do que uma vez e estaria ausente da vida do filho nos primeiros anos da vida deste, o que levaria Leonardo a passar sem o apoio do pai aquela complicada fase dos primeiros anos da infância. E se Leonardo não contou, nos primeiros anos de vida, com a presença do pai, também, visto de outra maneira, não se sujeitou à intimidação autoritária que pode representar para a criança essa presença. O que não quer dizer que Leonardo, na juventude, não viesse de algum modo a tomar o pai como paradigma de conduta social, encontrando na protecção mecenática do duque de Milão, Ludovico Sforza, uma espécie de substituto da figura paterna – o que, por sinal, coincidiria com um período criativo bastante fecundo.

         O pai, Ser Piero, viria entretanto a casar com uma dama nobre. Mona Albiera (e ao que parece no próprio ano do nascimento de Leonardo) não resultando filhos desse casamento. E talvez por assim ter acontecido, Leonardo, aos cinco anos de idade, ingressa na casa do pai, ou, mais propriamente, na do avô paterno, permanecendo sob a influência de Mona Albiera, quer vem a ser a sua segunda mãe.
         Leonardo sairá de casa de seu pai com indeterminada idade, quando é a altura de entrar para a oficina de Andrea del Verrochio, com o objectivo de aprender o duro ofício de génio da pintura.
        Da primeira, e real, e legítima mãe, Caterina, opinam alguns investigadores (Freud fala de um russo chamado Mereschkovski), que terá mais tarde casado com outro homem, podendo não ter voltado a aparecer na vida do grande artista seu filho; ou podendo tê-lo feito em 1493, quando de uma visita a Milão, tinha Leonardo passado já dos quarenta de idade. E ainda, e segundo opiniões abalizadas, em Milão pode Caterina ter adoecido, ou pode ter mesmo morrido, levando um funeral de estadão integralmente pago pelo seu legítimo e afamado filho.
        

        Ficou para a posteridade um intrigante apontamento redigido pelo punho do próprio Leonardo, e que reza assim: parece que já há muito esteve determinado que me ocupasse de modo aprofundado dos abutres, pois me vem à recordação algo acontecido muito cedo,  quando ainda era criança de berço: um abutre passou junto de mim, abriu-me a boca com a cauda e roçou-a várias vezes contra os meus lábios.
         E a este apontamento vai Freud prestar grande atenção  no seu estudo.

         Acontece que nos escritos sagrados do velho Egipto cabia ao abutre a representação da figura da mãe – venerava-se uma deusa-mãe de cabeça de abutre, cujo nome seria mut
         Mas, quase com toda a certeza, Leonardo desconhecia tal simbolismo, quanto mais não fosse porque esse simbolismo só viria a ser estabelecido trezentos anos mais tarde por Champollion, depois de estudada a significação dos hieróglifos, como toda a gente sabe.
         Símbolo da maternidade era então o abutre quando no antigo Egipto se entendia que os abutres só tinham um sexo, o feminino, e não os havia machos. E o que corria nesse Egipto mítico, e se transformaria em lenda, era que os abutres, todos eles fêmeas, se detinham por uns  momentos nas alturas do seu vôo, suspendendo-o e colocando-se em postura propícia ao receber nos órgãos reprodutores a carícia e a força e o espírito do vento que os fecundava.
         O tópico da unissexualidade do abutre seria evidentemente desmitificado, muito embora, e sempre segundo Freud, as instâncias da igreja católica tenham podido apropriar-se do mito como sugestão da probabilidade de uma fecundação natural, uma fecundação pro artes da natureza bravía, conotando-a com o caso da própria Virgem Maria, a mulher que como os abutres da idade provecta da Humanidade poderia ter sido fecundada sem o contacto pecaminoso com o macho-homem, e apenas por meios tão naturais como o vento.
         E fosse por via do convívio com os padres da igreja o caso é que Leonardo se sentiu tocado pela beleza poética do mito do abutre egípcio, fantasiando a partir daí alguma ténue recordação que lhe sobraria da primeiríssima infância.
         A simbologia do abutre, porém, ia mais longe. A deusa-mãe com cabeça de abutre representavam-na os egípcios muitas das vezes como um falo: um corpo feminino, dotado de peitos femininos, mas também dotado de um membro viril. Donde se segue a ambiguidade das pistas maternais e simultaneamente masculinas e viris na fantasia concebida pelo privilegiado espírito de Leonardo.
         Leonardo era alto, bem feito de corpo, com um belíssimo rosto, e fisicamente forte, bem falante, simpático, amante da música e da boa companhia. Na sua maneira de ser, no entanto, tendia à indolência, à indiferença. Não era menino para conflitos. Não queria chatices com ninguém. Ah, e também não comia carne; e comprava pássaros no mercado (pássaros vivos, bem entendido) só para ter o prazer de os devolver ao vôo. à liberdade. Não, não achava bem que se dizimassem animais só para se lhes comer a carne.
     Leonardo costumava acompanhar criminosos ao local da execução, só para lhes registar as expressões do rosto perante a iminência da morte.

         E também abominava a guerra. O que pelo é curioso, uma vez que tal abominação não o impediu de ser engenheiro militar chefe de César Bórgia, para quem inventou algumas bem mortíferas máquinas de combate.
         Diz-se que rejeitava a sexualidade.
     Mas Freud refere expressamente a probabilidade de ter existido uma relação sexual entre Leonardo e os discípulos – os quais, como era normal na época, conviviam estreitamente com o mestre. 

                                                     
        E Freud ainda admite que o facto de da oficina e do magistério de Leonardo não ter saído nenhum pintor de génio poderá ser explicável se se presume que ele privilegiava para a condição de alunos seus rapazes bonitos, de bons dotes físicos, em lugar de alguns outros, porventura feiosos, mas de talento mais prometedor.

                                                          


         Na conformidade de ser provável que Leonardo denotasse tendências pederásticas, e depois da sua descrição do episódio do abutre, levanta-se a questão de saber se essa fantasia do abutre não estabelecerá, de certa forma, uma relação causal entre a vida de Leonardo criança com sua mãe e a homossexualidade posteriormente verificada – mesmo que idealizada, ou sublimada. Com alicerce na sua experiência clínica, Freud assevera-nos que tal relação causal seria possível, e até mesmo necessária.


         Caterina podia compensar o seu menino pela ternura e pelas carícias, em vista da falta do pai, colocando esse menino no próprio lugar do pai e desvirilizando-o pela precocidade da experiência erótica das carícias, dos beijos.
        O amor pela progenitora dificilmente acompanhava a evolução consciente do indivíduo, sendo por isso mesmo objecto de recalcamento. E dar-se-ia igualmente uma regressão para o auto-erotismo: os rapazinhos que Leonardo ia conhecendo seriam a configuração da sua própria pessoa, da sua própria imagem de criança e de adolescente, que ele amava como a própria mãe o amou em pequenino, um narcizinho enamorado da própria imagem…
            Levado do diabo este Freud…
         E outra coisa ainda: quando se apaixona por rapazes, o que faz é fugir de outras mulheres, as mulheres que o fariam infiel à imagem de sua mãe.


         Nos anos tenros da vida faltou a Leonardo o pai. Leonardo sentir-se-ia por isso mesmo como filho do abutre. Leonardo era uma criança ilegítima. Leonardo estava sózinho com sua mãe, como se esta tivesse sido fecundada pelo vento do deserto, pobre e abandonada, prodigalizando mimos à adorável criança que o vento lhe fizera gerar nas entranhas.
         Mas Mona Albiera, a mulher legítima de Ser Piero Vinci, não tinha, não teve, filhos. E, contra o que é habitual, aos cinco anos de idade, Leonardo, o ilegítimo, vai para casa de seu pai e para a companhia de uma madrasta , a mulher que é esposa legítima do pai e que ainda espera ter filhos próprios.

         Mona Albiera foi também de uma ternura muito grande na relação com o pequeno enteado. Um enteado que por causa desses afectos da madrasta também se teria dado a rivalizar com o pai. Escapado à intimidação da figura paterna nos primeiros anos de vida, Leonardo, na análise freudiana da sua evolução pessoal, dá indícios ao longo da vida madura de uma grande independência e de uma audácia acutilante, em particular no que tem a ver com as investigações científicas que empreende. O que significaria a ausência de condicionamentos psíquicos; ou  ausência de necessidade de se apoiar numa autoridade ou numa figura tutelar interiorizada, coisa normal na maior parte das crianças.
         Mas aquele que cria a suas próprias obras artísticas e científicas também é pai. E Leonardo pintava, esculpia, concebia e criava as  suas obras, mas… mas nem sempre as acabava. Quer dizer, com as suas obras, dadas ou não por concluídas, não se preocupava grande coisa após a criação, o ímpeto primeiro da criação, tal como o pai havia feito com ele nos primeiros anos.
         Ser amamentado e ser intensamente beijado pela mãe; ter tido a intima experiência, a experiência perturbante e criativa do abutre que roçou várias vezes a cauda contra os meus lábios, enfim, tudo isto realça a emergência fortíssima de uma relação erótica entre mãe e filho, e retendo-se a simbologia da actividade da mãe (ou seja, do abutre), com o sublinhado posto na zona da boca: o ser amamentado; o ser repetida e longamente beijado.
            (Este Freud…)

         Bem, mas tudo isto, por força, haveria de ter expressão nas obras artísticas maiores de Leonardo.  E dessas, aquela que primeiramente nos ilumina a larga pantalha da memória é o sorriso universal, prenhe de enigmas, irónico, redondo, todo ele sugestões, e longo, e subtil, e sensual: Mona Lisa, claro. Mona Lisa del Giocondo, quer dizer, senhora dona Lisa, mulher de Giocondo, isto é, do florentino Francesco Giocondo, e por isso chamada La Gioconda.


         Mona Lisa del Giocondo, que Leonardo, já cinquentão, leva quatro anos a pintar, e que pode ser o ápice estético de uma encruzilhada psíquica do artista. Um sorriso: Mona Lisa é um sorriso; um sorriso onde os estetas apanham em flagrante a dualidade, a reserva, a sedução, a ternura, a sensualidade. Leonardo declarou sempre esse quadro como inacabado e levou-o consigo quando emigrou para França, a expensas de Francisco I, acabando por ser o mesmo Francisco I a ficar-lhe com a tela e a pô-la no Louvre. Onde ainda hoje está, como se sabe.
                    
         Possivelmente, as belas cabeças leonardinas de criança não reproduziriam mais do que a época ideal da infância do próprio pintor. Mas entretanto, as mulheres que na obra de Leonardo, de quadro para quadro, sorriem esse sorriso repercutido e algo estilhaçado entre diversos sentimentos sobrepostos e passível de infinitas decomposições, remetem admissivelmente para Caterina, a sua primeira e verdadeira mãe. Um sorriso de mãe; um sorriso de mulher de que Leonardo nunca se teria libertado. Uma regressão do artista, que só lhe beneficiou a arte pela activação de um psiquismo, exteriorizável na confecção de sorrisos radiantes e misteriosos de mulher, evocativos de uma calma régia e poética que haveria no íntimo do sorriso da mãe tal como ele o recorda.


         Cronologicamente próxima da criação do retrato de Mona Lisa del Giocondo está a realização do quadro chamado Sant’Ana a Três. Aparecem Santa Ana, a filha e o neto. Melhor explicado: Santa Ana, Maria e o Menino Jesus. E nesse quadro o sorriso leonardino resplandece também no rosto das duas mulheres, menos inquietante embora, mais sereno e beatífico.
         Maria aparece sentada no regaço de sua mãe, inclinada para a frente, estendendo os braços para o Menino, que brinca com um carneirinho – o que dá aliás uma composição de grupo que nos pode parecer pouco natural.
         Na maneira de ver de Freud, o quadro Sant’Ana a Três pode ser uma síntese da infância de Leonardo, e assim pela reavaliação artística das tensões afectivas que lhe preencheram essa parte da vida. Porque, também é preciso dizê-lo, em casa do pai, a partir dos cinco anos, para além da ternurenta madrasta, Albiera, Leonardo foi acolhido pelos carinhos de Mona Lucia, sua avó, mãe de Ser Piero, seu pai – e é pelo menos engraçado verificar a similitude de sonoridade entre o nome da avó, Mona Lucia e o da mulher do florentino Del Giocondo, Mona Lisa – ainda que o “mona” sirva para as duas, porque quer dizer “senhora”.
         Acalentado pelas meiguices da mãe emprestada e da avó verdadeira, Leonardo teria sido objecto de uma super-protecção feminina, coberto de mimos, o menino na mão das bruxas, como se costuma dizer. E o que impressiona mais no quadro Sant’Ana a Três é que as duas mulheres, Santa Ana e Maria, não parecem nada mãe e filha. Santa Ana e Maria são-nos apresentadas como duas mulheres bastante jovens e bastante bonitas, como se Leonardo emprestasse ao Menino Jesus a auto-biográfica circunstância de ter sido educado, mimado, acarinhado e beijado por duas mães em vez de uma só. E dessas duas mães do Menino (ou de Leonardo) uma estende-lhe os braços, enquanto outra se deixa estar, contemplativa, rosto ornado de beato e maternal sorriso, num plano mais afastado do objecto dos seus afectos.
         No palpite de Freud, a figura que representa Santa Ana, e que se coloca no plano mais afastado, corresponderia à figura de Caterina, a primeiríssima mãe, a verdadeira. Caterina que teria recuado para o segundo plano do universo do filho ainda em tenra idade deste, suplantada pela outra, mais rica, nobre,ansiosa por conquistar o afecto  daquele coraçãozinho infantil e apropriar-se dele como o filho que não podia ter.
         E ainda no palpite de Freud, o sorriso que o artista desenha nessa figura atribuível a Caterina teria por finalidade disfarçar os traços amargos da inveja que a pobre camponesa seduzida pelo notário de Vinci sentiria por ter sido obrigada a ceder o filho a uma rival de extracção social superior à sua – obrigada a ceder o próprio filho, depois de lhe ter cedido o homem, note-se.
         E o magistral espantoso do quadro é que as duas figuras de mulher se fundem uma na outra na baralhação das pregas da roupa. Não há limites evidentes para cada uma delas do busto para baixo. É como se, para o artista, tudo fosse o afloramento de um sonho de recortes imprecisos, sem se saber onde começa Ana e onde acaba Caterina, confluindo ambas numa só forma, num só volume figurativo, as duas mães do pintor, dois bustos nascidos do mesmo tronco, duas almas encandeadas pelo pequeno sol que Leonardo era nas suas vidas.
         Mais perturbante, talvez, pode resultar a descoberta  de um crítico chamado Oscar Pfister ao estudar no Louvre o quadro Sant’Ana a Três. De acordo com Pfister – e com o aditamento que em 1919 Freud fez ao estudo original sobre Leonardo, datado do outono de 1909 – as roupas da  figura de Maria, em primeiro plano, estão escandidas de tal forma que configuram o contorno de um abutre, símbolo da maternidade, a cabeça, a curva no torso, na cintura, a linha que se lança na direcção do regaço.
         Claro está que só visto.
         E diz-nos Freud que Leonardo continuou a ser toda a vida, e em múltiplos sentidos, uma criatura infantil; continuou a brincar e a entreter-se com aparentes futilidades, o que fez dele, tantas vezes, um ser incompreensível aos contemporâneos. Freud diz-nos também que esse prolongamento da infância e dos seus jogos e mitologias é apanágio dos grandes espíritos.
       Sim, isso e mais a projecção que  no trabalho criador Leonardo fez da sua vida privada e familiar, da sua infância tremeluzente entre a consciência e a semi-consciência, e que aos cinquenta anos se resolve na feitura de obras de arte. 
E pergunta-se se não será esse o núcleo da energia criadora que está na orígem de toda a grande arte e a toda a originalidade de um génio…


A infância. A infância. O homem nunca chega a crescer muito, quer-me parecer. Ou não será o enigma da arte, a originalidade, o génio criador, irrepetíveis e incomparáveis porque irrepetíveis e incomparáveis são as nebulosas experiências íntimas de cada um, e que o maior génio será aquele que melhor e mais frequentemente convoca à consciência esses mistérios passados e esses factos irrepetíveis, e incompreensíveis,  jogando com eles da mesma maneira como no passado jogava os seus jogos infantis – e também misteriosos?
Pergunto eu.
Bom, mas também já houve quem dissesse que a Humanidade não era mais do que uma perversão da natureza.

questoes-de-moral.blogspot.pt

A clandestinidade, roubou-les a infância


Foram obrigados a um exílio forçado na União Soviética enquanto os pais lutavam contra a ditadura. Doze crianças e uma professora viveram anos a fio a poderem contar apenas uns com os outros. A história destes “filhos da clandestinidade” chegou a livro.





Alberto Costa não existiu até aos seis anos. “Demoro um minuto e meio a contar-lhe a minha história”. E contou. Só foi registado antes de ser enviado para a União Soviética, a idade escolar foi o limite para não pôr em risco a segurança dos pais, que na clandestinidade combatiam a ditadura. Diz que com o tempo racionalizou tudo, que não se lembra bem dos sentimentos que teve. Os anos apagaram as más memórias, mas não as marcas. Diz que há "traumas" que ficaram e que a melhor maneira de viver com eles foi tornar tudo racional, tudo como sendo fruto de circunstâncias - essas que não dependiam dele, mas da luta dos pais.
Odete Rito é diferente. Sorri quando conta a sua história e conta-a com orgulho. Foi a primeira criança filha de comunistas clandestinos a ser enviada involuntariamente para Ivanovo, a 300 km de Moscovo, onde havia uma escola internacional que acolhia crianças comunistas exiladas de vários países. Chegou lá aos dez anos, sem nunca ter ido à escola, e viveu lá por mais dez, longe dos pais, da família. Aculturou-se, apaixonou-se, ficou a falar em russo, a sonhar em russo, a pensar em russo. Foi também a primeira, dos treze alunos portugueses que passaram pela escola, a voltar para Portugal ainda antes do 25 de Abril, para ser ela própria clandestina. Tal como os pais, combateu o fascismo na ilegalidade, com um “sotaquezinho esquisito” e a “desenrolar a língua” para falar sem suspeitas.





A decisão de seguirem para uma terra distante, sem os pais, não foi uma decisão voluntária. Nem tão pouco consciente. Não o poderia ser. Odete foi a primeira a ir e diz que tomou a decisão por si aos dez anos. 
Os mais de cinquenta anos de distância dão às memórias de infância destes alunos uma roupagem de racionalidade. Contam a história da vida deles como se fosse uma história de outro, na primeira pessoa, mas com entoação de terceira.
Alberto condensa as experiências da infância. Nasceu, viveu seis anos com os pais na clandestinidade e um dia o pai chega e diz-lhe: “Vais ter de ir para a escola. Aqui não podes, tens de ir embora”. Levou-o ao registo civil, acompanhado da irmã de dois anos registada no mesmo dia, deram-lhe um nome e obrigou-o a decorá-lo. “Só dizes o teu nome completo quando lá chegares, até lá… nada”, disse-lhe o pai Carlos Domingos. Preparou-se, foi entregue a Jaime Serra e com o filho deste, José Serra, e um casal de comunistas, “deu o salto”. Foi para Espanha de jangada, depois foi de carro até França, até à cidade luz, e lá viveu o Maio de 68. Melhor, não o viveu, passou-o. “Não convinha passarmos por zonas esquisitas”, conta. Chegou a Moscovo e de Moscovo foi para Ivanovo.
Milhares de quilómetros contados em poucas linhas. São uma história que resiste a contar. “Não me lembro. Não tenho memória de ter ficado perturbado com isso, com algum ressentimento, talvez. Uma criança de seis anos claro que fica com um trauma, mesmo que racionalize isso, mas isso é normal”, diz Alberto ao PÚBLICO. Fala dos seis anos que lá passou como se fosse um tempo normal, mas não uma infância feliz. “Outras pessoas não passaram por isto porque, mesmo não vivendo com os pais, viviam com os avós ou com tios, viviam em casas normais, nós dormíamos em quartos de dez pessoas. Tínhamos um horário e uma relação impessoal com a instituição”, conta.





Alberto Costa foi para a Internatzionalny Dom, em 1968 e faz parte do estudo de Adelino Cunha sobre os fluxos de exilados comunistas em vários países e a relação com o PCP, agora publicado em Os Filhos da Clandestinidade. Alberto foi dos mais novos a chegar à União Soviética, enviado por decisão dos pais - foi do último lote a lá chegar. Quando finalmente chegou à InterDom já tinha uma “família” montada. Encontrou lá Maria Armanda Serra, a professora dos alunos portugueses e irmã do companheiro de viagem de Alberto, e mais uma dezena de alunos, já aculturados por viverem na União Soviética há vários anos.
Foram crianças que viveram num contexto culturalmente diferente, com uma língua diferente, um clima diferente e com rotinas diferentes. Acordavam às sete, faziam ginástica nos corredores, comiam e faziam a higiene. Tinham aulas até à hora de almoço e as tardes eram para as várias actividades. Durante aqueles anos, participaram em comícios e colóquios, muitos deles sobre as lutas de comunistas em vários países. “Apesar de a decisão do exílio ter sido tomada pelos pais, as crianças foram integradas numa dinâmica eminentemente política e passaram a reconhecer-se como membros de um colectivo”, explica o historiador e jornalista Adelino Cunha no livro.
“Esta geração de crianças clandestinas ficou condenada à separação dos pais, convictos de lhes estarem a proporcionar melhores condições de vida e de educação”, escreve o historiador. Na verdade, havia uma construção identitária forte através da Internatzionalny Dom (o nome da escola também conhecida como Interdom), em Ivanovo, para onde foram mandados nos anos 60 os filhos de comunistas clandestinos, que não tinham nenhum familiar com quem ficar em Portugal. “Era-nos incutida a amizade. Era o principal elo de ligação entre nós todos”, conta Odete Rito. Mas era uma amizade feita de silêncios.Uma identidade desconhecida
“A Cecília [uma das alunas] é que me perguntou: ‘sabemos que não somos espanhóis. O que é que somos?’ Que eram portugueses não sabiam, eram muito crianças”, conta Maria Armanda Serra, a professora que foi para Moscovo estudar aos 17 anos e chegou a Ivanovo aos 19 a pedido e Álvaro Cunhal. Os mais velhos tinham memórias que não se perderam, mas “houve muitas destas pessoas que deixaram de falar português, de saber quem era o pai e a mãe”, explica o investigador, que recusa no entanto entrar na avaliação destas histórias, uma vez que a investigação em história se debruça sobre os exilados políticos, dos quais as crianças de Ivanovo formam um subgrupo, e não nas consequências sociológicas e psicológicas nestas crianças.




Havia perguntas, sobretudo fora do horário das aulas, mas havia poucas respostas. Um dia, uma professora na escola leu um manuscrito que falava de “um combatente com coragem de leão e disse que o filho desse grande homem estava na sala”, conta Maria Armanda. “E o meu irmão ficou espantado porque ele não sabia”. José Serra não sabia da importância do pai, Jaime Serra, na luta comunista.
Além do conhecimento muito reduzido sobre a própria identidade – e muitos viveram anos com nomes falsos por receios do PCP de que pudessem existir infiltrados da PIDE até na União Soviética –, havia um desconhecimento sobre os outros alunos. “Eu não sabia nada dos meus colegas, os meus colegas não sabiam quem eram os meus pais, só sabiam que estavam presos, mas nem sabiam os nomes”, conta Odete. Os que chegaram à InterDom depois de 1968 já mantiveram os nomes, foi o caso de Alberto, de José, de Helena Costa, de Cecília Costa e de Luís Costa (o mais novo a chegar à União Soviética com apenas três anos). Maria Armanda era Manuela Castro. É assim que ainda hoje é conhecida pelos amigos que fez em Ivanovo.



Maria Armanda Serra, filha de Jaime Serra, foi para a União Soviética por opção. 
Foi a professora dos alunos portugueses da InterDom
A culpa pela perda da consciência da identidade própria? Maria Armanda admite: “Eu culpo a clandestinidade”. “Eu não lhes fazia perguntas, porque não queria saber respostas que não pudesse ouvir. Podia puxar pela memória deles, da vida deles em Portugal, mas não sabia se podia fazer isso, porque no partido só sabíamos aquilo que era estritamente necessário para cumprirmos as nossas tarefas”. Odete resume de outra maneira: “Quanto mais soubermos, mais tarde o diremos”.
Jaime Serra, um dos combatentes comunistas mais conhecidos, conta no livro que “houve um certo exagero conspirativo” que o levou a não viver com os filhos, entre elas Maria Armanda, que depois de viver três anos na clandestinidade com os pais foi para Moscovo, e José, que se juntou à irmã em Ivanovo em 1968, com seis anos.
Foi esse estado de medo constante que viveram durante anos, numa idade definidora da personalidade.
Traumas escondidos
O medo aparecia sob a forma de um objecto: a tranca da porta de casa. “Era aquela sensação ‘vai entrar alguém’. Dentro da gente havia aquele medo”. Receio que levou Odete a não se aproximar das cortinas de casa até aos dez anos e só sair à rua nas férias da escola dos outros miúdos, uma vez que até ir para Moscovo nunca tinha ido à escola.
E através de uma acção: a mãe, num último acto de carinho antes da viagem, levou-a ao cabeleireiro. “Sei que a minha mãe me levou para arranjar o cabelo, tirar fotografias e sei que ia sair. Não sabia para onde ia, nem que ia estar tão longe. Mas eu já vivia nessa idade com a sensação de receio, de medo daquilo que me rodeava. Sabia que os 'homens maus' podiam chegar e que não se devia falar com ninguém sobre nada”. O relato é de Odete, que só se chama assim desde 1974. Na fotografia do passaporte falso chamava-se Isabel Amado - “nome escolhido por mim” – e na União soviética era conhecida por Helena Frutuoso.
Odete Sobra Rito foi a primeira criança a chegar a Ivanovo. 
Tinha dez anos e ia acompanhada de Manuel Silva, também ele uma 
criança forçada ao exílio. 
Identidades baralhadas, já desconstruídas pela distância, pela língua e pela cultura. Chegou a Ivanovo e não havia ninguém com quem falar em português a não ser Manuel Silva, - “o meu irmão adoptivo” –, diz a sorrir sobre o companheiro da primeira viagem de crianças clandestinas até Moscovo, em 1963. De Abril até ao Verão aprendeu a desenrascar-se em russo, o passo para ser bilingue deu-se em menos de nada. Depois, os dez anos de estudos em Ivanovo fizeram o seu trabalho e entraram-lhe pelo subconsciente e pelo consciente, mudando-lhe a forma de falar: “Tinha muitos pesadelos. As minhas colegas contavam que eu durante a noite gritava porque ainda tinha os tais [pesadelos] que alguém andava atrás de mim, a correr… os maus e essas coisas assim. Depois foi desaparecendo”, diz.
Mas moldou-lhe também a forma de pensar. Odete prosseguiu os estudos na escola de quadros intermédios ainda na União Soviética, fez parte da juventude comunista e decidiu “continuar a luta” dos pais em Portugal. Voltou em 1973, com o marido, para constituírem uma casa do partido. “Eu quis voltar a Portugal por causa de uma carta do meu pai - em que ele dizia 'se eu tombar, tu continuas a minha luta’. Foi o suficiente para eu dizer 'quero voltar, quero continuar a luta, deixando mesmo os estudos para trás’”, conta Odete.
Foi sol de pouca dura. Chegou em 1973, engravidou e pouco depois o 25 de Abril arrancou-a da clandestinidade em que tinha vivido mais de metade da curta vida.



Com a desagregação familiar que viveu na clandestinidade contrastou o facto de ter começado a sua própria família lá e a compensação dada pela união do grupo de Ivanovo. Essa desestruturação das famílias era remendada volta e meia pelas cartas (com atrasos de meses ou mesmo um ano) que recebiam dos pais. As de Odete eram especiais. Eram cartas em papel de tabaco de enrolar para poderem passar na prisão de Peniche (onde estava o pai, José Carlos) e de Caxias (onde estava a mãe, Olívia Sobral).
Era nessas alturas que Odete “desabava”. “Não sou torta, sabia que estava a cumprir alguma missão e nunca fui de chorar, de mostrar, principalmente de mostrar. [Depois] no meu cantinho eu lá descarregava para ninguém ver”. Porque chorava Odete? “Eram saudades. Quando ia ler as cartas, não tinha fotografias, mas tinha na memória as caras dos meus pais. Essa parte eu não esqueci”. Mas volta e meia a alegria de dançar, cantar, costurar, tudo actividades que aprendeu na escola, dava lugar ao choro na almofada. “Havia alturas em que ficava mesmo abatida. E depois toda a gente dizia que eu era muito sorridente, mas que os olhos estavam sempre tristes”.
As cartas faziam a ligação a Portugal, mas eram sempre pouco elaboradas. “A mim também me custava, não podia escrever nada sobre o que estava a fazer, não podia dar informações a ninguém. As cartas eram pró-formas: ‘estamos vivos’”, conta Maria Armanda.
Alberto sente que a desunião familiar aos seis anos deixou marcas, mas não foi o momento que mais o perturbou. “Comecei a perder muito tempo na biblioteca. Isolei-me um bocado. A ida dos meus pais lá - a única vez - mais ou menos dois anos depois, tenho impressão que me traumatizou mais”. Não reconheceu logo a mãe “que estava de pé, de braços abertos”. “Depois disso comecei a ter mais problemas de isolamento. Escondia-me em cantos... Devo ter feito o tal clique, sentido o tal sentimento de abandono que aos seis anos consegui ultrapassar, mas que se eles não tivessem ido, se calhar isso não tinha vindo ao de cima”, conta. Alberto sentiu as marcas do abandono aos oito anos, mais do que aos seis e acabou por ser internado num sanatório psiquiátrico, conta no livro. Mas mesmo assim, diz que “não sentia que as coisas estivessem desestruturadas”.
À semelhança de Maria Armanda, dois anos depois da quebra emocional, também Alberto iria ter companhia familiar em Ivanovo, a irmã Helena, quatro anos mais nova, a última criança exilada portuguesa a entrar na InterDom. “Era uma bonequinha”, conta Alberto. Não conhecia o irmão, apenas sabia que ele existia.
O regresso a um filme passado e desajustado
Antes da partida para Lisboa, em julho de 1974, os alunos e a professora fizeram 
um passeio por Ivanovo. Esta é uma das fotografias desta tarde. 
FOTO CEDIDA POR MARIA ARMANDA SERRA

Odete chegou a Portugal mais cedo para continuar na clandestinidade. Alberto aterrou com o resto do grupo de alunos de Ivanovo em Julho de 1974, com Maria Armanda. “Adormeceram todos, estavam muito cansados e estava com medo de deixar alguém”, uma vez que o avião continuava para o Brasil. “Quando chegámos eram tantos holofotes… vimos tanta gente e parámos”, conta.
Mas o glamour mediático da chegada das crianças comunistas clandestinas escondia o que iria ser o seu futuro. A realidade do país era outra. A familiar também. “Para mim, foi mais complicado em termos sociais, não só porque dentro da mesma faixa etária o ambiente era outro. Lá, eu vivia numa instituição, cá com os pais. Aqui já há duas desadaptações. Não foram tempos simpáticos”, conta Alberto. Tanto não o foram que voltou para a Rússia para continuar a estudar e só regressou de vez para Portugal em 1987. Hoje, é bilingue e dedica-se a traduções técnicas.
Odete também sentiu o desajustamento da sociedade e da família, mas começou a preparação quando viu os pais em Moscovo pouco antes de regressar, dez anos depois de os ter visto pela última vez. “A única coisa que tivemos foi, com o tempo, um choque de sociedades, porque passaram muitos anos na prisão, não conheciam. Estavam em 70, mas a vivência deles era como se tivessem nos anos 50.  As mulheres vão-se pintando, usando mini-saias e antes de os encontrar disseram-me: ‘Quando tiveres com os teus pais, tem cuidado não te pintes para não chocar’”. Assim fez, mas as consequências estavam lá: “Tínhamos dificuldade em falar”.

Apesar de a infância deles ser consequência de uma escolha dos pais têm dificuldade em atribuir-lhes a culpa. Chamam-lhe “circunstâncias”, falam de responsabilidade, mas não de culpa. Mas não foi assim com todos. “Não sei se não sou a única que nunca pus a questão”, diz Odete.
Maria Armanda tem sentimentos mistos. Foi para Moscovo por opção própria, com 17 anos, uma idade diferente das crianças que foram forçadas. A professora defende que os pais não podem ser culpados: “Não temos o direito de culpar os nossos pais (…). Eles acharam que era melhor assim (…). Eles podem culpar, mas eu acho que não, porque tiveram uma infância feliz, ao contrário de mim. Estavam todos juntos, eram todos iguais. Eles é que eram uma família”.
Mas quando desabafa, deixa transparecer que a diferença da infância não a tornou melhor, antes menos normal, menos feliz: “Porque é que não pudemos estar com os nossos pais? Somos todos infelizes. Não tivemos infância. Aquela infância em que se está com os pais, que nos contam histórias. Não tivemos isso”.