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terça-feira, 18 de outubro de 2016

SAD futebol


e elas, elas
os Jóquins as Florbelas
digladiam-se no futebol
discutem coisas mesquinhas
receitando mesinhas
bruxas fazendo pão mole
e eles ganhando fortunas
borrifando-se para as calúnias
com automóveis de milhões
são os magos da pelota
ganham mais num minuto
do que uma vida de trabalho bruto
de quem lhes lambe a bota


António Garrochinho

SYRIZA NO MARASMO






Luís Fazenda

Alexis Tsipras dirigiu-se ao 2º Congresso do Syriza, a 13 de outubro, sem se referir à direita e extrema-direita que acossam o governo grego. Por incrível que pareça, todo o discurso, a que tivemos acesso por extensas notas do gabinete de política internacional do partido, é um repositório de acusações aos adversários de esquerda. Tsipras, que aplica na Grécia como primeiro-ministro os ditames austeritários do ministro das finanças alemão, Schauble, com consequências sociais de uma brutalidade inaudita, acusa agora os seus opositores de serem cúmplices do plano de Schauble para expulsar a Grécia do euro. A esquerda helénica que se manteve fiel ao resultado do referendo que disse Não a Berlim, fiel ao programa do próprio Syriza, é considerada inimiga do país e a sua gente uma espécie de niilistas destrutivos de qualquer ideia progressista e radical, assim pensa Alexis Tsipras.
A contradição nos termos é pesada mas a agressividade empregue é ainda mais pesada. O líder do Syriza entende que perante a chantagem da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, para impor mais um resgate e respetivo memorando, a saída do euro nesse contexto teria sido um desastre de proporções históricas. Um desastre, que segundo ele, só responsabilizaria a esquerda grega e a esquerda europeia. O que é assinalável é que nesse extenso discurso há um esforço muito pormenorizado para demonstrar que o Syriza é melhor a distribuir a austeridade, já que o faz, a seu ver, protegendo as classes populares. Curiosamente, o primeiro-ministro não se refere sequer às greves e manifestações de trabalhadores que o seu governo tem enfrentado. A camuflagem que Tsipras faz da capitulação do seu governo pode parecer patética mas é com este tipo de vitimização que pretende impedir a progressão de forças consequentes à esquerda, e dar o mote para consumo interno eleitoral: o Syriza tem o salvo-conduto europeu, tem o respeito sacrificial dos delinquentes do “eurogrupo”. Por alguma razão, que não a realidade, Tsipras continua a intitular o seu governo como o único da Esquerda Radical (assim mesmo com iniciais maiuscúlas) na Europa. Sabe-se que o nome Syriza quer dizer isso mas é arrojo político, e muito.
Talvez por isso, o orador se tenha estendido na proposta da aproximação da esquerda radical à social-democracia e aos verdes. A pretensão não é nova e é sempre descrita como “frente contra a austeridade”. Dando de barato de que a credibilidade do proponente é nula, não é uma questão de convergência de governos no âmbito da UE, coisa que a Grécia tem tentado mas debalde e que seria compreensível. Aí o problema é que a França e a Itália, guiadas por sociais-liberais, como se sabe, não querem saber dos estados de alma de Atenas. A proposta de convergência com a social-democracia (assim denominada) e os verdes é nitidamente um processo ideológico e político. Mas aliança com quem? Não há nenhum partido membro do Partido Socialista Europeu que queira pôr em causa o Tratado Orçamental e toda a armadura das orientações contra o Estado social. Não há sequer unidade mínima para acolher refugiados de guerra, como tem sido dolorosamente evidente. Designadamente, o Partido Socialista francês é há muitos anos responsável por uma política colonial para com os países árabes, na origem de várias guerras. Com certeza, em algumas questões é possível estabelecer pontes com setores socialistas e isso não é negligenciável. Tal facto opera-se sem precisar de estruturar vizinhanças ideológicas. Há alguns partidos e setores verdes anticapitalistas com quem se pode lutar em conjunto, não será o caso dos verdes alemães, completamente vendidos ao capitalismo e possíveis parceiros de Merkel. A esperança Corbyn, ainda longe de se confirmar como projeto social-democrata, não chega para a amplitude dos desejos de Atenas.
O que Tsipras propugna, sem máscara, é a junção da esquerda radical em vários países aos respetivos partidos sociais-liberais. Objetivo: mudar o programa político, desistir do socialismo, abdicar da luta contra o Império. Será possível restaurar o fantasma da social democracia, o espírito de Olaf Palme? Isso é algo que a globalização capitalista arrasou pelas privatizações e pelo desarmamento fiscal dos muitos paraísos da fortuna. O reforço da esquerda europeia faz-se pelo crescimento dos seus partidos, dos movimentos sociais, das alianças progressistas que possam alargar o campo da alternativa de justiça social e paz. O perigo do crescimento da extrema-direita na Europa, e não só, não invalida o programa socialista, nem impede oposições democráticas alargadas. Certamente não dá cobertura à capitulação ideológica como campa da prévia capitulação política.

acontradicao.wordpress.com

Após aprovação de recomendações na Assembleia da República Tarifa social de água: aplicação automática não resolve problemas de fundo


O Governo quer introduzir legislação que permita a aplicação automática da tarifa social da água, mas acompanha proposta com disposições que contrariam a autonomia municipal.


http://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/jumbo1200x630/public/assets/img/dsc_0740.jpg?itok=QJVvNps7
O fornecimento de serviços de águas é da competência dos municípiosCréditos/ msaerografia.blogspot.pt
O Governo inscreveu no Orçamento do Estado para 2017 (OE2017) um pedido de autorização legislativa sobre a tarifa social da água. A ideia é fixar condições de acesso iguais para todos os municípios, tendo por base a carência económica.
O Executivo assume que a competência matéria de «instrução e decisão relativa à atribuição da tarifa social, bem como do respectivo financiamento» cabe aos municípios, no entanto pretende acrescentar regulamentação à já existente. Em vez de eliminar as disposições legais e regulamentares que têm contribuído para o agravamento das tarifas de água, o Governo aposta em retirar mais uma parcela de autonomia aos municípios., no sentido do projecto de resolução que o BE fez aprovar dias antes da apresentação do OE2017, com o voto favorável do PS e do PAN, e com a abstenção dos restantes grupos parlamentares.
A atribuição da tarifa social da água passará a ser automática, tal como já acontece com a electricidade, para quem receba prestações sociais como Complemento Solidário para Idosos, Rendimento Social de Inserção, Subsídio Social de Desemprego, Abono de Família, Pensão Social de Invalidez ou Velhice, ou «cujo agregado familiar tenha um rendimento anual igual ou inferior a 5808 euros», valor a que se somam 2904 euros por cada elemento que «não aufira qualquer rendimento».
Os municípios passam a ver as condições de acesso à tarifa social fixadas por lei, deixando de poder decidir sobre o alcance da tarifa social da água, vendo o universo de beneficiários fixado por lei.

Alteração pode ser insuficiente sem alteração da legislação do sector

A recomendação do BE apelava aos municípios «que ainda não seguem a recomendação da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) e que não fixaram ainda sistemas eficientes de atribuição de tarifas sociais a praticar pelos operadores dos serviços de abastecimento de águas, para que apliquem aquela recomendação no mais breve prazo». O regulamento tarifário dos resíduos e a propostas de regulamento tarifário da água (ambos da responsabilidade da ERSAR) definem a tarifa social apenas como uma isenção da tarifa de disponibilidade (a componente fixa).
As recomendações da ERSAR apontam para aumentos significativos nas tarifas da água, incluindo as sociais, de forma aos gastos serem cobertos pelas receitas tarifárias. Por outro lado, a legislação aprovada pelo anterior governo obriga os municípios a aplicarem as recomendações do regulador, sob pena de ser a ERSAR a fixar as tarifas. Ou seja, estas alterações (sem mexer nos estatutos do regulador, aprovado em 2014) podem conduzir a aumentos tarifários em grande parte dos municípios.
O PCP também apresentou um projecto de resolução, onde recomendava alterações aos estatutos da ERSAR, no ponto 1, e da legislação que contraria a autonomia dos municípios, no ponto 2. Ambos foram rejeitados com os votos a favor do PCP e do PEV, a abstenção do BE e do PAN e os votos contra do PSD e do CDS-PP. O PS votou contra o primeiro ponto, abstendo-se no segundo.
O último ponto, que recomendava a agilização da transmissão de informação entre a Autoridade Tributária, a Segurança Social e as entidades gestoras dos sistemas de distribuição de água foi aprovado, com as abstenções do PSD e do CDS-PP e os votos a favor de todas as restantes bancadas. O artigo 55.º do OE2017, onde consta o pedido de autorização legislativa, replica a formulação do projecto de resolução dos comunistas.

www.abrilabril.pt

As sepulturas esquecidas




Dionísio entrara como “verde” no Santa Maria Manuela em 1960. Segundo a lei, ao completar a sua sétima viagem consecutiva na Pesca do Bacalhau, livrava-se do serviço militar obrigatório e foi com esse espírito que, aos 26 anos, partiu de Lisboa, com a bênção de Salazar e da Igreja, naquela Primavera, num dos famosos veleiros do que ainda restava da chamada Frota Branca portuguesa. Assim baptizada desde que, para assinalar a neutralidade do país, se teve de pintar de branco os navios, na II Guerra. Dionísio ainda tentou levar o irmão Fernando com ele. Mas era duríssima a vida nos dóris, esses botes de um homem só, em que os portugueses da pesca à linha trabalhavam em troca de um salário dependente de quanto pescassem ao longo de seis meses, e o rapaz de 18 anos, já homem feito e com bastante experiência de mar, mas na costa portuguesa, achava-se novo para aquilo.



Manuel Agonia Cancuja Marques, pescador das Caxinas, trabalhou no navio Santa Maria Manuela em 1960
Vitorino Ramalheira mantém viva, aos 85 anos, a memória do temporal que apanharam, entre os Açores e o Canadá, no final de Abril desse ano. Dionísio ficou gravemente ferido quando, arrastado pelo mar no convés durante uma manobra, terá embatido num ferro. “Foi na esquina do tanque do óleo do bacalhau”, precisa Manuel Agonia Cancuja Marques, o Nia Cancuja, um dos pescadores de Caxinas e Poça da Barca, Vila do Conde, que trabalhavam naquele mesmo navio. O Gil Eannes estava ainda em Lisboa. Ramalheira ponderou voltar para trás, e deixar o homem nas Ilhas, mas desconfiou da qualidade dos cuidados que ali lhe poderiam ser prestados, explica à Revista 2, justificando, assim, a opção de seguir viagem para a Terra Nova. “E na verdade também nem tínhamos noção da gravidade dos ferimentos, que eram internos”, acrescenta o capitão.
“O navio andava pouco. Ainda não tinha motor auxiliar, demoramos uns três dias a chegar a St. John’s”, contabiliza Nia Cancuja. Acompanhado por um enfermeiro, Dionísio agoniava em silêncio, “no beliche, sem dar uma fala a ninguém” — diz o companheiro, já comovido pela memória — até acabar por morrer na véspera da chegada a terra, a 5 de Maio. “O que nos botava em choque era ter de passar por ele, e ele ali, morto.” No navio, estes tensos momentos de viagem foram poeticamente captados por Rex Tasker, que escreveu e produziu o documentário de Lemieux. “À noite chega o momento da chora” — the soup of sorrow, traduz livre e apropriadamente para inglês o narrador, voz a quebrar um plano silencioso na mesa do rancho. “Diz-se que quem a come voltará aos Bancos [da Terra Nova]. Dionísio não a comerá. Recém-casado, esmagado por uma onda, o seu corpo segue num caixão.”
Nesse dia 5 de Maio, o irmão de Dionísio, Fernando Esteves, acabara de chegar ao portinho de Âncora quando o mandaram de imediato para casa, no bairro dos pescadores, ali a poucos metros, aliviando-o do trabalho de descarga do peixe. Desconfiou. “Quando cheguei, já estava tudo aos gritos”, revive. Alguém os tinha vindo avisar da capitania, para onde eram enviados os telegramas. Cristina, a mulher de Dionísio, enviuvava em seis meses, já grávida de uma filha, Cândida, que nunca chegaria a conhecer o pai. França, para onde emigraram mais tarde, deixou-as mais longe daquela desgraça que vem nas letras pequenas de qualquer contrato de casamento com um pescador, numa cláusula dependente dos humores do mar. O cemitério católico de São João da Terra Nova, onde o tripulante do Santa Maria Manuela foi enterrado, está cheio destas histórias, várias delas portuguesas.



Os dóris largam para a pesca MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO
Direito a uma campaPresença constante nos Grandes Bancos há vários séculos, muitos portugueses foram sendo enterrados na Terra Nova, principalmente em St. Jonh’s, e em outros portos da costa canadiana e da Gronelândia, como acontece aliás com marinheiros das muitas nações que frequentavam, em meados do século XX, aqueles mares. Em Mount Carmel, nos arrabaldes da capital provincial e cidade-abrigo da frota portuguesa, uma placa assinala por exemplo a vala comum de 11 dos 15 fogueiros lusos do SS Florizel, um ferry a vapor que se afundou a 24 de Fevereiro de 1918, quando iniciava mais uma ligação a Nova Iorque. Morreram 93 pessoas. Outros portugueses, muitos deles pescadores de bacalhau, foram sepultados no mesmo local, em número indeterminado, mas o passar dos anos, as intempéries e o abandono deixaram sem identificação as sepulturas, adornadas normalmente com uma frágil cruz em madeira. 
“Os cemitérios deles não são como os nossos. Aquilo é um campo”, descreve Fernando Esteves. Mas ainda assim, Dionísio e os que por lá foram enterrados ainda tiveram direito a uma campa. Outros foram levados pelo mar: que os engolia à socapa, ao abrigo da névoa que se abatia repentina sobre os dóris, ou que os arrastava borda fora dos lugres, como aconteceu no final da década de 50 com Armando Afonso do Águas Santas, outro pescador de Âncora, e um dos vários mortos na Faina Maior a quem o dramaturgo Bernardo Santareno dedicou o seu livro de crónicas marítimas, Nos Mares do Fim do Mundo. Escrita quando o autor viajou como médico da frota bacalhoeira, em 1957 e 1958, a obra, que foge ao registo épico das epopeias marítimas, concentra-se nos episódios quotidianos dos que viviam a bordo em condições absolutamente precárias, no limite do  “aceno da morte” e à mercê, muitas vezes, do seu “beijo gelado”.



Vitorino Ramalheira, agora com 85 anos, foi o capitão do Santa Maria Manuela 
Durante o Estado Novo, período em que a pesca do bacalhau foi submetida a uma organização corporativa que tudo controlava, sob a omnipresença de Henrique Tenreiro, um delegado-geral das Pescas com mais poderes do que os ministros do sector com quem conviveu, os pescadores, na verdade, contavam pouco. Percebeu-se isso logo em 1937. Nesse ano, milhares participaram numa greve em que contestavam as condições impostas pelo regime — por via do recém-criado Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau — que os obrigava a se inscreverem no mesmo navio da campanha anterior, o que acabava com a concorrência, entre armadores, pelos melhores pescadores e nivelava os salários para valores tabelados. A paralisação durou semanas, mas os homens acabaram mobilizados à força, após intervenção policial em várias comunidades. Alguns saíram directamente da prisão para os navios, conta o investigador Álvaro Garrido em O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau
Os navios eram, assim, uma extensão do país. Seguindo à boleia das palavras de Bernardo Santareno, nas viagens de seis meses da pesca à linha, os capitães exerciam uma disciplina férrea para conseguirem controlar os humores de dezenas de homens rudes, quase todos de proveniência humilde e com baixas qualificações, capazes de gestos extremos de solidariedade e, ao mesmo tempo, prontos para se pegarem por qualquer insignificância. Estes ansiavam por regressar a casa com o melhor salário possível, o que dependia dos conhecimentos de quem os comandava e teria de os levar aos melhores pesqueiros e, aí chegados, da sua sagacidade e destreza no manejo das linhas de múltiplos anzóis. 



Ficha de Dionísio Esteves no Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, que morreu há precisamente 48 anos 
O objectivo era encher o porão com bacalhau antes de o Inverno se insinuar, gelando o próprio mar, no caso da Gronelândia. Submetidos a jornadas de trabalho que podiam, por vezes, passar as 20 horas, que o descanso só chegava depois de escalado e salgado o peixe, os pescadores acordavam às 4h, com uma oração, para se lançarem de novo ao mar pouco depois, naquelas “cascas de nozes” que tripulavam sozinhos. Os próprios assumem que nem sempre tinham cuidado. Muitos afastavam-se demais, arriscavam por vezes demais. 
“Como capitão, a minha maior preocupação era não perder nenhum homem. Tentava mantê-los por perto, que o tempo às vezes mudava rapidamente. Mas eles iam, como se nada fosse, contentes por poderem pescar. Eles eram um heróis. Quando era novo, também tinha aquela adrenalina e fazíamos as coisas naturalmente, mas agora, passados estes anos, digo-o: eles é que eram os heróis”, repete Vitorino Ramalheira, que passou metade da sua vida profissional à procura do bacalhau e que naquele ano de 66, como testemunhou Lemieux, chegou a temer pela vida de outros dois homens, que se perderam no nevoeiro.  
Perante estes riscos, não espanta que, até meados do século XX, em várias comunidades do litoral, as mulheres destes homens tivessem por hábito vestir-se de preto quando eles partiam, e cobrir com panos todo o mobiliário do lar, dormindo, com uma enxerga, no chão. Era como se toda a casa se enlutasse, solidária com as provações deles, por seis meses. Mais do que um mau pressentimento, era uma espera sofrida, por um regresso que nem sempre aconteceu.
Quando as más notícias chegam a casaApesar de haver documentação de várias instituições envolvidas neste “desígnio nacional” que era o abastecimento do país com um dos seus alimentos favoritos e de melhor conservação, não se conhece com exactidão o número de baixas na frota portuguesa da pesca do bacalhau durante o Estado Novo. Álvaro Garrido, que é também programador do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), afirma que, da consulta de documentação do Grémio, se contam, em vários anos, três a cinco mortos por campanha. Mas explica que o nível de sinistralidade mortal até tem sido maior nos arrastões. Em todo o caso, o facto é que, se se conhecem bem os casos excepcionais, como o afundamento do Maria da Glória, por um submarino, na II Guerra, que matou 36 homens, a grande maioria deles da Fuzeta (Olhão), até hoje ninguém soube dizer quantos, quem eram e de onde partiram esses homens que ficaram nesses mares do Fim do Mundo até ao ocaso da pesca à linha, que coincidiu, em 1974, com o 25 de Abril. 
A revolução pôs os homens em alvoroço. Depois de uma greve em que exigiam que o salário passasse a ser fixo e não dependente do que pescassem, nesse ano, dois dos três últimos navios com dóris, o Ilhavense e o São Jorge, foram ao fundo ao largo da Terra Nova. Muitos dos velhos navios à vela tinham sido abatidos assim, após incêndios alegadamente provocados a mando dos armadores, em que todos, como aconteceu nestes casos, saíam ilesos. E quis a ironia da história que o último exemplar deste tipo de pesca — que no Estado Novo se manteve em paralelo com tecnologias mais modernas e predatórias como o arrasto — se chamasse Novos Mares. Símbolo do fim de uma era, este atravessou o estreito de St. John’s a 24 de Julho de 1974, a caminho de Aveiro, onde foi adaptado para a pesca com redes. Nesse ano, as imagens de dezenas de homens espalhados pelo mar, cada um no seu bote, passou a ser uma memória. Ao mesmo tempo vibrante e triste, pela lembrança dos que por lá ficaram.  
Só na terra de Agonia Cancuja, as Caxinas, ainda hoje demasiadas vezes notícia pelos seus náufragos, contam-se em mais de uma dezena os nomes que a Revista 2 foi descobrindo, numa curta pesquisa, apenas em conversa com alguns pescadores. Várias famílias têm um antepassado que não regressou vivo de uma actividade que, muito dura, era ainda assim bem mais rentável do que a pesca local, feita então com barquinhos pouco maiores do que os dóris usados nos Grandes Bancos. Lugar de recrutamento de cerca de mil bacalhoeiros, esta zona, com a vizinha Póvoa de Varzim, foi uma fonte importante de mão-de-obra, mas foi apenas uma das muitas comunidades piscatórias de norte a sul e das ilhas que, ao longo de quatro décadas, entregaram cerca de 20 mil dos seus àquela vida. 
A cada casa, as más notícias podiam chegar, choque difícil de imaginar, com o navio. Foi isso, segundo Santareno, que aconteceu com a açoriana Rosa Bailão, que lançara foguetes para dar as boas-vindas ao marido, Jorge, que só depois percebeu que se perdera no mar. Mas normalmente elas corriam mais depressa, à velocidade de um telegrama. Em 1965, criança ainda, o caxineiro José Marafona soube pelas lágrimas da mãe — revê-a de papel na mão, grávida, 12 filhos — que o pai, José Gomes Marafona, não regressaria. O corpo, admite a família numa dúvida alimentada pela distância e pelo tempo que entretanto passou, terá sido sepultado na Gronelândia. Como o do ilhavense Manuel Gonçalves Bilelo, de cuja sepultura o Museu Marítimo de Ílhavo guarda uma fotografia tirada por um antigo comandante do Gil Eannes
A história destes homens não será muito diferente da de outros que, até esse ano de 1966, eram levados para um porto próximo. Só depois de Dionísio Esteves, os corpos dos que morriam “começaram a ser trazidos de volta”, explica Fernando Esteves, facto confirmado por Vitorino Ramalheira. O Gil Eannes, que funcionava como navio-hospital mas também como capitania flutuante, “ainda não estava por perto quando se deu o acidente com o Dionísio. Tive de tomar uma decisão”, relembra este homem, natural de Ílhavo, descendente de uma linhagem de marinheiros e filho de outro famoso capitão de navios bacalhoeiros, João Ramalheira.   



O ilhavense Manuel Bilelo foi sepultado na Gronelândia. DE muitos outros perdeu-se-lhes o rasto 
Um dos amigos do capitão Vitorino Ramalheira, Francisco Teles Paião, comandava o Rio Antuã em 1962 quando, a 7 de Setembro, dois ou três dias antes da viagem de regresso para Portugal, perdeu o seu melhor pescador. Chama-se José Francisco Marques, Zé da Ferrucha, este caxineiro de 39 anos que viu o seu dóri carregado afundar sem que alguém lhe desse a mão. Foi no Mar da Barrinha, na costa oeste da Gronelândia, precisa o irmão Joaquim, 77 anos bem conservados, que não esconde que a ambição que elevara o Zé da Ferrucha à condição de “special” do Rio Antuã — atribuído a quem pescasse muito mais bacalhau do que os outros — pode bem ter sido o que levou à morte. A ele como a outros, levados ao fundo do mar por uma ganância estimulada pelo sistema de remuneração variável. “Nós contribuíamos para isso, ao afixar a tabela com a classificação de cada um, ao longo da viagem”, assume hoje o capitão Ramalheira. 
Naquele dia, como habitualmente, José Francisco Marques enchera o bote. Afastara-se dos outros, como muitas vezes fazia, e aparecera depois carregado ao pé do dóri do irmão, que ainda pescava. Foi seguindo viagem para o navio-mãe, a remos, quando o tempo virou, trazendo névoa e um vento que levantou a marola da água. Confiante, o caxineiro despachara a companhia de outro pescador que se aproximou dele, mais leve de carga. Seguia sozinho, quando, de longe, o irmão ouviu os gritos, três, cuja origem só percebeu quando, chegando ao Rio Antuã, viu que só o Zé da Ferrucha não estava ainda a bordo. De pouco valera a Joaquim aquele “Oxalá não seja do meu lado” que a sua cabeça inventara minutos antes, ao ouvir o socorro longínquo, no mar. E de pouco valera a José a sua destreza. Nos mares gélidos da Gronelândia, a morte chega rápida e ele, sabendo-o, amarrou um pulso ao balão dos seus aparelhos de pesca.
Foi assim que o encontraram, ao Zé da Ferrucha — bacalhoeiro desde 1938 — naquele ano em que pela primeira vez, no Rio Antuã, não pescara com o dóri número 13, o do dia da Senhora de Fátima. Os barcos foram nessa viagem sorteados pelo capitão e calhou-lhe o 42. Anos antes, numa colecção de cromos sobre seres vivos que fez a delícia da criançada, este era o número do bacalhau, uma estampilha “marcada”, por ser difícil de encontrar. E ficou tão famosa aquela caderneta que, deste então, e como recorda o irmão, no jogo do loto, o 42 é cantado como “O Bacalhau”, nas Caxinas. Mas de nada valeu este aparente golpe de sorte ao exímio pescador. 
José Francisco Marques deixou mulher e quatro filhos. Longe de casa, o seu corpo seguiu para o navio-hospital Gil Eannes, que o transportou para o porto da localidade de Holsteinsborg, actual Sisimiut, na Gronelândia, para ser enterrado. Este porto com pequeno hospital, de difícil entrada, segundo Santareno, tinha “fama de perigoso”, por causa de várias pedras que dificultavam a navegação. Mas foi bastante utilizado pela frota portuguesa.
A memória da Grande PescaA perda do pai não demoveu Manuel Marques, então com 17 anos, da vontade de experimentar a pesca do bacalhau. E foi pela mão do tio Joaquim que, na Primavera de 1963, entrou naquele mesmo barco de onde José fora levado num caixão, sete meses antes. O capitão Francisco Teles Paião, que declinou um convite da Revista 2 para um depoimento sobre estes episódios, tê-lo-á recebido a bordo com uma amabilidade estranha ao relacionamento habitual, distante, entre oficiais e pescadores. “Ele era duro, mas tinha bom coração”, descreve o caxineiro, que, pelo Natal, mantém o hábito de contactar aquele homem de Ílhavo, outro descendente de uma linhagem de capitães cujo pai comandava então o Argus, um dos dois barcos — o outro é o Santa Maria Manuela — que Aníbal Paião, dono da Pascoal & Filhos, comprou recentemente, para o recuperar e manter, assim, na esfera da família, a memória da Grande Pesca.
Como quase todos os bacalhoeiros, Manuel Marques também mantém fresca, como que conservada em sal, a sua memória daqueles anos. Principalmente do de 1967, em que um problema grave nos pulmões o obrigou a uma cirurgia em St. John’s e posterior convalescença no Gil Eannes, onde chegou a estar em isolamento. Já quase recuperado, soube que o navio-hospital, que então navegava ao largo da Gronelândia, ia passar por Holsteinsborg, e pediu que o deixassem ir a terra, para ver a sepultura do pai. Um grupo, que incluía entre outros Jaime Pontes, outro caxineiro, pescador no Avis, e Manuel Agonia Maio, da Poça da Barca, e tripulante do Dom Deniz, foi então enviado à pequena localidade. Jaime recorda bem que lhes deram tinta e madeira, para que, se fosse necessário, recuperassem as cruzes das sepulturas de portugueses — cerca de dez, doze, Manuel já não sabe precisar. Nos últimos anos, os filhos dele contactaram a paróquia de Sisimiut, de onde lhes disseram que as campas já não estavam identificadas.



Arrear dos dóris no navio Vila do Conde MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO
Há dois anos, um canadiano com raízes nas pequenas ilhas francesas de Saint Pierre e Miquelon, no Sul da Terra Nova, foi contactado a partir de Portugal por um amigo, Pedro Pinto — antigo capitão de navios bacalhoeiros e actual coordenador de operações da Agência Europeia de Controlo das Pescas — e pelo comandante da corveta António Enes, da Marinha. De partida para mais uma acção de fiscalização nas águas da Organização das Pescas do Atlântico Noroeste (NAFO, em inglês), pretendiam ambos fazer uma cerimónia militar de homenagem aos portugueses e Jean-Pierre Andrieux, empresário e estudioso da nossa presença nesta região, pareceu-lhes o homem certo para a organizar.
A Andrieux, a parada e a deposição de flores, em Agosto de 2012, soube-lhe a pouco, mesmo que repetida anualmente, como acontece desde então. Há dezenas de anos que o canadiano acompanha os portugueses, fruto de uma amizade que nasceu nos inícios de 1980, à mesa dos oficiais do Vimeiro, que aportara em Saint Pierre. Foi ali que o empresário, dono de um hotel, e a mulher, Elisabeth, conheceram um dos seus grandes amigos, Francisco Paião, que comandava então esse outro navio. Ele é um de vários portugueses, quase todos da região de Aveiro, que fazem questão de visitar todos os anos, em longas férias que vêm repetindo há um quarto de século e que os trouxeram a Portugal em Março e Abril deste ano. Mas desta vez, para além da vontade de rever Paião, Ramalheira e outros, o casal trouxe na bagagem um propósito maior: o de garantir, este ano ainda, esperam, uma homenagem perene aos marinheiros de que tanto ouviram falar. 
“A memória daqueles pescadores tem de ser preservada”, insiste este canadiano de 66 anos que ouviu as histórias da Frota Branca nesses jantares em que provou o vinho verde e outros sabores que, terminada a moratória de pesca nos Grandes Bancos, voltaram em 2010 a atravessar o Atlântico com os (agora poucos) navios bacalhoeiros. No novo hotel que entretanto abriu em St. John’s, há colecções de peças pertencentes aos serviços de mesa de muitos dos antigos lugres e, na biblioteca, há uma miniatura à escala do Gazela Primeiro, mítico veleiro que, em 1969, fez a sua última viagem à pesca do bacalhau. Em sua casa, para além de bóias do Gil Eannes, guarda umas 40 mil fotografias de navios, centenas delas documentando a presença lusa nas águas da Terra Nova. “Isto representou uma mudança também na minha vida e na da minha família. Portugal passou a fazer parte de nós”, assume este homem que dedicou um dos volumes da sua obra Acidentes e Naufrágios na Terra Nova e Labrador ao período entre 1940-1980 e, especialmente, à Frota Branca.  



O irmão do Zé da Ferreucha, Joaquim, que com ele trabalhava quando o dóris afundou



Manuel Marques, filho do Zé da Ferrucha, pescador que morreu com o seu dóris carregado na costa oesta da Gronelândia 
Conhecido o homem, percebe-se porque se meteu Andrieux, nos últimos anos, num esforço de angariação de fundos para construir um monumento aos portugueses enterrados em St. John’s. Em Outubro, organizou um jantar, com comida e música portuguesa, e os seus conterrâneos pagaram cem dólares (quase 66 euros) por cabeça para participar. Apesar de problemas pontuais, de alguma discriminação testemunhada por vários pescadores noutros tempos, passados estes anos, “é forte e boa a memória dos portugueses, principalmente do tempo da Frota Branca, nas décadas de 50 e 60, em que eles chegavam aos milhares à cidade”, nota o empresário. O ar humilde, as camisas de padrão axadrezado, os jogos de bola com que se entretinham no cais que os abrigava das tempestades nos Bancos e o ar de museu vivo daqueles veleiros, linhas de mastros a marcar o horizonte, criaram uma aura. “Que não foi esquecida”, acrescenta, justificando assim os 7500 dólares angariados.  
A estátua, cujo desenho ainda está a ser pensado, vai ser construída nos próximos meses em Portugal e viajará para a Terra Nova como aqueles que vai homenagear: num navio bacalhoeiro. No cemitério de Mount Carmel, será uma marca perene junto de sepulturas sem nomes. “É triste não estarem identificados”, lamenta o empresário que escreveu sobre contrabandistas de álcool durante a lei seca, sobre as ilhas Francesas onde nasceu, sobre os Grandes Bancos de pesca e que, no ano passado, publicou The White Fleet — An History of the Portuguese Handliners. É o seu contributo para a história de uma saga que inspirou grandes obras como A Campanha do Argus, de Alan Villiers (livro de 1951, que acaba de ter a sua terceira reedição, uma parceria da Cavalo de Ferro com o MMI), e que apaixonou também o cinema, como se pode ver em Captain Corageous (1937), filme a partir da obra homónima de Rudyard Kipling que valeu a Spencer Tracy um Óscar de melhor actor pelo papel de Manuel, um pescador português.  
A atracção da Sétima Arte pelos veleiros portugueses foi imensa. Villiers filmou (e fotografou) uma das viagens do mítico Argus, um veleiro construído no século XIX, e, entre vários outros, George Sluizer gravou em 1967 para a National Geographic o documentário The Lonely Dorymen, passado nos navios José Alberto e Vila do Conde. Mas a película de Lemieux, filmada um ano antes a bordo do Santa Maria Manuela, acabou por ter outro significado, ao deixar para a posteridade uma imagem do lugar onde foi enterrado Dionísio Esteves, o que o retirou do anonimato a que o tempo o votara. Graças ao plano do cemitério, a homenagem aos portugueses vai ter um rosto, o do jovem bacalhoeiro de Vila Praia de Âncora que morreu há 50 anos.
O pai de Dionísio também andara nos Grandes Bancos. E Fernando acabou por ir para lá em 1967, num arrastão, escapando aos trabalhos árduos da pesca à linha e, como era benesse da legislação desde 1927, livrando-se do serviço militar. Escolheu esse outro mar para fugir ao Ultramar, onde a morte espreitava no mato. Andou por ali mais do que os sete anos que a lei equivalia à tropa, marcou o corpo com cicatrizes, perdeu o baço, mas pôde visitar o irmão, uma vez. De outras que tentou, “a neve no monte”, recorda, impedia-o de perceber onde estaria enterrado. E depois a vida levou-o para outros mares, os de África, onde correu o mapa até ao cabo da Boa Esperança, antes de se fixar de novo na pesca costeira, na terra natal.



O empresário canadiano Jean-Pierre Andrieux não quer deixar morrer a memória dos portugueses que andaram na pesca do bacalhau
Reformado, Fernando Esteves acalenta agora a esperança noutra viagem, que o leve a ver de novo a sepultura do irmão. Em Março deste ano, Jean-Pierre Andrieux esteve com ex-bacalhoeiros em Caminha, a convite da câmara local — que assim lhe agradeceu o gesto em memória de Dionísio — e fez questão de o convidar a participar na homenagem que está a organizar. O canadiano garante que se arranjará maneira de custear a deslocação deste homem. Conheceram-se num almoço que terminou com um bolo, um doce em forma de bacalhau salgado-seco, e no qual não faltou, a abrir, a chora, uma sopa de bacalhau antes servida no rancho da proa dos navios e hoje transformada em iguaria gourmet. Se for verdade o que diziam os antigos, ao comê-la, Fernando talvez tenha garantido o seu bilhete de regresso à Terra Nova. 
Ao meu bisavô Abel, que em 1910 já andava pela Terra Nova e que para lá levou meia dúzia de filhos, tendo perdido um deles no mar, nessas viagens. À Cândida, que não conheço e que nunca conheceu o pai, Dionísio Esteves. Ao meu pai, Abel, que, como a maioria, felizmente, teve a sorte de ir e voltar



MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO

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5 CARROS FRANCESES QUE NÃO PODEM SER ESQUECIDOS



1. BUGATTI VEYRON SUPER SPORT

Bugatti

O Bugatti Veyron Super Sport é, sem dúvida, um dos melhores carros franceses da história. De fato, é dos melhores do mundo inteiro, e chegou a ser durante muito tempo o mais rápido do mundo, tendo sido batido recentemente – por muito pouco  pelo Hennessey Venom GT. No entanto, o carro continua a ir dos 0-100 km/h em 2,5 segundos, e continua a conseguir chegar aos 430 km/h.

Foram produzidos poucos modelos deste carro, e como tal cada um tem um valor bem acima de um milhão de euros. Este tipo de potência não é para qualquer carteira.

 

2. CITROËN DS

citroen DS

O Citroën DS, também conhecido como boca de sapo, foi produzido entre 1955 e 1975, e marcou a história automóvel em França, por ter um design futurístico e várias inovações tecnológicas, como a suspensão hidropneumática, que ajudaram a melhorar a experiência de condução - e a segurança – de vários condutores.

O Citroën DS chegou a ganhar várias competições, e foi até um carro presidencial. Um caso famoso foi o da tentativa de assassinato do presidente Charles De Gaulle, onde o motorista do carro conseguiu fugir a uma tentativa de assassinato ao presidente, em parte graças à suspensão. Como poderia o DS faltar a uma lista dos melhores carros franceses da história?
 


3. CITROËN 2CV

citroen 2 cv

Nos anos 30, em França, o meio de transporte preferido de muitos ainda eram carroças puxadas a cavalos, e a solução encontrada pela Citroën para tal foi o Citroën 2CV. O carro foi produzido entre 1948 e 1989 e era fácil de conduzir, económico, acessível e fiável, tudo para que a transição de carroças para algo com um motor não fosse assim tão má.

Por ser tão acessível e pelo plano inicial que teve, o carro tornou-se um ícone e França, e teve tanto sucesso que foi produzido durante vários anos. 

 

4. PEUGEOT 205 GTI

Peugeot 205

O carro veio ao mundo em 1984, altura em que o Volkswagen Golf dominava grande parte do mercado. Para sobreviver, o 205 tinha que ser qualquer coisa – e foi. Teve tanto sucesso que foi adorado pelos media e pelo público, que admirou o carro durante o seu tempo de produção. Ainda hoje em dia, este é utilizado como ponto de referência para vários modelos, algo que já diz muito acerca do estatuto que alcançou.



5. VENTURI FETISH

venturi fetish

Apesar de haver dezenas de carros a merecer entrar nesta lista, temos de considerar o Venturi Fetish um dos melhores carros franceses da história, por ter estado na vanguarda daquilo que os elétricos podiam fazer. Quando foi concebido, este era o único carro desportivo elétrico em todo o mundo em produção. O carro chega aos 200 km/h, vai dos 0-100 km/h em 5 menos de 5 segundos – isto além do nome interessante.


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É ISTO QUE AS CÂMARAS MUNICIPAIS ESTÃO DESTRUINDO !

Historia da Calçada à portuguesa

A calçada portuguesa é uma herança histórica da cultura e da tecnologia de construção dos romanos, que se impôs em Portugal no século XIV durante o reinado de D. João II.
Com as características de aspecto com que hoje a conhecemos, a Calçada Portuguesa teve como seu grande impulsionador o governador do Castelo de S.Jorge em Lisboa entre 1840 e 1846, o Tenente General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, que em 1842 transformou a fortaleza e os seus arredores em lugares de passeio onde foram introduzidas flores, arvoredo e calçada mosaico, utilizando como mão-de-obra dos presidiários do Castelo, chamados por “guilhetas”, que assentaram um tapete de pequenas pedras de calcário branco, cortado a espaços por linhas de pedras de basalto negro, num desenho em ziguezague.
O efeito obtido foi tal que em breve os lisboetas acorriam em romaria ao Castelo, o que levou a Câmara a reconhecer o excelente trabalho do engenheiro Militar Eusébio Furtado, profundo conhecedor das técnicas romanas. Em 1848, viu aprovado o seu projecto para a Praça do Rossio, uma obra com uma área de 8712 m², concluída em 323 dias, onde foi introduzido o calcetamento, usando apenas calcário “vidraço”, branco e negro, designado por “Mar Largo” em homenagem aos descobrimentos.
A Baixa de Lisboa transforma-se com a maioria das suas ruas a serem calcetadas a basalto, entre elas o Largo de Camões em 1867, o Príncipe Real em 1870, a Praça do Município em 1876, o Cais do Sodré em 1877 e o Chiado, finalizando em 1894. A abertura da Avenida da Liberdade dá-se em 1879 e em 1908 chega finalmente ao Marquês de Pombal com largos passeios onde foram introduzidos belos e deslumbrantes tapetes de desenhos, que fazem de Lisboa a cidade referência deste tipo de pavimento artístico.
Hoje, a calçada nascida em Lisboa, Portugal está presente em todo o Mundo, em cidades como Rio de Janeiro (o famoso “Calçadão”), Luanda, Maputo, Macau, Nova Iorque, entre outras.
Actualmente é reconhecida e apreciada internacionalmente como uma manifestação bem-sucedida da nossa cultura Portuguesa.









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Do bidonville ao poder


Chegaram com nada, trabalharam para fugir à miséria do maior bairro de lata francês e hoje são empresários de sucesso em França.

Construíram a pulso grandes fortunas e empresas e, nas regiões onde estão instalados, dominam mesmo os colegas franceses no seu ramo de negócios. Almoçam e jantam regularmente com as mais altas autoridades francesas – prefeitos, presidentes de regiões ou de câmaras, deputados e ministros. Têm em comum serem ricos, viverem em palacetes, possuírem barcos de lazer e conjuntos únicos, inacreditáveis, de dezenas de carros de coleção. E também o facto de terem sido emigrantes pobres e de terem começado a trabalhar quando ainda eram crianças. Muitos viveram nos anos 1960/70 no gigantesco bairro de lata português de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, que ficou para a história como o maior bidonville de sempre em França (15 mil pessoas, num terreno baldio de 45 hectares).
Alguns foram emigrantes clandestinos, viveram anos a fio a chapinhar na lama, em barracas ou casitas em tijolo, sem eletricidade, sem água canalizada, sem retrete, sem esgotos e sem serviço de recolha do lixo. Comparando a situação dos portugueses da época do bairro de lata de Champigny com as condições sanitárias, minimamente corretas, em que vivem os emigrantes e refugiados na atual “Selva”, em Calais – onde se amontoam de três a cinco mil pessoas de diversas origens –, este bairro de lata do Norte da França é um luxo que, por vezes, alguns portugueses, emigrantes de há 50 anos, invejam.

CONTO DE FADAS

Certas histórias individuais destes portugueses parecem vir diretamente de um conto de fadas. De um modo geral fadas boas, embora por vezes também as haja más. Eles explicam o seu sucesso com o trabalho, a sorte, a vontade indomável de sair da miséria, de vencer e de contrariar o destino miserável que lhes parecia traçado à nascença .







 Valdemar, humanista de 62 anos, viveu no bairro de lata durante nove anos, onde se juntou aos pais quando chegou a França em maio de 1960. Tinha seis anos, quando entrou no bidonville. “Há pessoas que têm vergonha de dizer, hoje, que viveram aqui. Eu não. No entanto, na altura, confesso que tinha vergonha. Vivíamos na miséria e com a lama à porta de casa, mas íamos à escola. Eu ia a casa de colegas franceses, mas nunca os convidava para virem a minha casa, porque tinha vergonha, não os podia convidar”, diz.

Ao lado dele, Lionel Marques, de 66 anos, vice-presidente da associação Les Amis du Plateau, que viveu 12 anos no bairro de lata, corrobora. “É uma homenagem à França e a Louis Talamoni, porque o presidente da Câmara desobedeceu, de facto, como o cônsul Sousa Mendes, em Bordéus, às ordens que tinha recebido do Estado, que eram para acabar com o bidonville. É também um dever de memória para com os nossos pais, uma homenagem a eles, que sofreram muito, na época”, explica. Lionel e Valdemar começaram a trabalhar aos 11 anos de idade, o primeiro numa mercearia árabe, o segundo a descarregar fruta de camiões, no mercado de Villiers-sur-Marne, ao lado de Champigny.

UMA ROTUNDA PARA ARMANDO

São narrativas de tempos muito sombrios, os relatos são terríveis, mas todos resultam em histórias humanas espantosas que, por vezes, terminam em finais com grande sucesso. Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas (cimentos, areias, construção civil em França e Portugal e também proprietário da rádio Alfa), não chegou a viver no bairro de lata mas começou a trabalhar aos 11 anos, ainda em Portugal, em Caxarias, Ourem, de onde é natural. Aos 17 anos emigrou, instalou-se em Saint-Maur, vila vizinha de Champigny, e começou imediatamente a trabalhar em Paris, como pedreiro. Participou na construção das autoestradas (o conhecido “periférico”), que ainda hoje envolvem a capital francesa. Foi pedreiro, hoje é patrão de pedreiros e não só.
Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas, chegou a França aos 17 anos. “Tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta
Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas, chegou a França aos 17 anos. “Tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta
HAMILTON/REA/4SEE
“Foi muito duro, no inverno estava por vezes tanto frio, nevava, que até me chegou a cair a pele das orelhas. Mas tinha de ser, tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta. Durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa, Armando Lopes, que já foi condecorado no passado pelas presidências francesa e portuguesa, estará de novo em foco – o chefe de Estado português, o primeiro-ministro António Costa e diversas autoridades francesas vão inaugurar uma rotunda com o seu nome, em Créteil, cidade dos arredores de Paris. A praça, com uma fonte luminosa no centro, está já construída e, tal como o monumento de Champigny, é delimitada por uma dezena de oliveiras portuguesas. “As oliveiras são centenárias, vieram de Alqueva”, sublinha o empresário.
Armando Lopes criou a primeira empresa aos 20 anos, Valdemar Francisco fê-lo aos 15. Em Champigny, o monumento eleva-se junto a uma rotunda, à entrada de um frondoso bosque que os próprios portugueses recentemente embelezaram. O local passará a chamar-se “Espace de l’Espoir” (Espaço da Esperança) e a construção é marcada por oito colunas revestidas com 20 mil tijolos, muitos deles com nomes de emigrantes portugueses antigos residentes do bairro de lata, gravados – e até com autógrafos de personalidades como Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Linda de Suza, Pedro Abrunhosa ou Pinto da Costa. Ao centro, assente num espaçoso pedestal de mármore, será instalada uma escultura representando um livro aberto – “um livro que pretende ser a evocação da nossa história de emigrantes”, explica Valdemar – colocado sobre um par de mãos abertas. Na inscrição que será gravada no monumento vai ler-se: “Os portugueses de França prestam homenagem a Louis Talamoni, homem de humanismo e de coragem.”
“Fomos a um tempo infelizes e felizes aqui no bidonville, tivemos de sair de Portugal à procura de uma vida melhor, mas, sobretudo, resistimos porque tínhamos muita esperança. Tenho boas e más recordações mas nunca passámos fome”, acrescenta Valdemar Francisco. “Houve momentos difíceis. A certa altura, fizeram pesquisas de petróleo no terreno e foi um desastre: andávamos, crianças e adultos, num lamaçal horrível logo à porta das nossas casitas e barracas”, exclama.

MERCADO DAS AMBULÂNCIAS É NOSSO

É uma saga extraordinária, a história da emigração portuguesa em França. Mesmo a vivida pelos chamados emigrantes de sucesso ultrapassa tudo o que se pode imaginar. “A França dá muito mais hipóteses do que Portugal às pessoas que vêm do nada. É uma evidência que o chamado elevador social funciona muito melhor em França, porque, em Portugal, quem nasce pobre dificilmente consegue sair da pobreza ou subir ao nível a que estes portugueses emigrados subiram”, diz Victor Pereira, historiador, autor do livro “A Ditadura de Salazar e a Emigração – o Estado Português e os Seus Emigrantes em França (1957-1974)”.
Carlos de Matos (grupo Saint-Germain, construção e promoção imobiliária), de 65 anos, também viveu no bairro de lata de Champigny, onde chegou aos 18 anos, em 1969. Também começou a trabalhar aos 11 anos, numa fábrica, em Portugal, e hoje é patrão de grande prestígio, com investimentos em França e Portugal. É conhecido em alguns meios portugueses de Paris como o “empresário português vermelho”, porque investe muito em cidades onde os presidentes das câmaras são comunistas. Mas, apesar disso, tal como os seus colegas emigrantes de sucesso, também tem uma valiosa coleção privada de carros fora de série.
Pelo seu lado, Mapril Baptista (60 anos, pai operário) chegou a França com seis anos. Não viveu no bairro de lata (a mulher sim, viveu), mas cresceu num subúrbio complicado de Paris, em Montfermeil, que é frequentemente notícia devido à violência e aos conflitos raciais radicais. Aos 12 anos já trabalhava e hoje é patrão de um grupo construtor de ambulâncias (Les Dauphins) que detém mais de 50 por cento do mercado do sector em França (90% na região parisiense). As ambulâncias são montadas numa fábrica em Portugal, exportadas para África e para outras zonas do globo.
Mapril diz-se “cem por cento francês e cem por cento português”. Pessoa de trato simples, politicamente gaullista, é amigo do antigo Presidente francês Jacques Chirac, que está hoje muito doente e que ele visita regularmente. Como muitos outros emigrantes de sucesso, também tem uma extraordinária coleção privada de carros e participa regularmente em corridas de automóveis. Adora a velocidade. Ainda jovem foi motorista de ambulâncias, depois decidiu lançar-se na sua construção e em poucos anos passou a dominar esse mercado em França.
“O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres”, reconhece Mário Martins, empresário
“O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres”, reconhece Mário Martins, empresário
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Já Mário Martins, 53 anos, tem 300 camiões de transporte de mercadorias. Fundou a empresa MRTI, em 1994. Emigrou aos 10 anos para França, em 1974. O pai era operário e ele tem o curso de torneiro mecânico. Como o seu amigo Mapril, foi motorista, também não esteve no bairro de lata, embora tenha muitos amigos que lá viveram. “O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres, e merecem esta homenagem que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa lhes vai fazer”, afirma.
Faz transporte internacional, mas 80 por cento da sua atividade comercial é em França. “Gosto do Presidente Marcelo porque antes de ser eleito prometeu vir cá comemorar um 10 de Junho e vai cumprir. É raro que um político cumpra as promessas e isso é de realçar”, acrescenta.

O MAIS RICO FOI PRESO

Mas nem tudo são rosas e contos de fadas boas. Mesmo no campo dos esforçados emigrantes que chegaram à fortuna e aos louros da glória, há história com final diferente. “Em todos os rebanhos há uma ovelha negra, diz o ditado”, lembra ao Expresso um dos diversos emigrantes entrevistados durante esta reportagem. Já no passado, alguns dos empresários emigrantes condecorados como comendadores por Portugal foram presos em França e, agora, está detido em prisão preventiva mais um dos chamados empresários emigrantes de grande sucesso.
Chama-se António de Sousa e é talvez o mais rico e vistoso de todos eles. Tem cerca de 40 empresas no ramo da construção e do imobiliário (700 empregados) que realizam no conjunto centenas de milhões de euros de volume de negócios. Foi detido há algumas semanas por suspeita de “corrupção, tráfico de influências ativo, abuso de bens sociais e cumplicidade de abuso de bens sociais”, segundo a procuradoria de Paris. Com ele, neste processo, estão igualmente a ser investigadas altas autoridades políticas e administrativas francesas, incluindo um prefeito (governador civil), outros portugueses seus alegados associados, e “eleitos locais” (autarcas). O prefeito implicado, Alain Gardère, presumivelmente amigo de António Sousa, é suspeito de “corrupção, peculato e abuso de autoridade”.
O grupo a que preside António de Sousa (De Sousa et Frères) é o mais importante de todos os que foram criados em França por portugueses ou seus descendentes. No caso, em investigação, encontra-se particularmente uma das suas empresas – a France Pierre (imobiliário) que, sozinha, realiza 80 milhões de euros em volume de negócios. António de Sousa tem cerca de 70 cavalos de corrida (a maioria puro-sangue) que regularmente disputam as provas francesas do PMU (corridas oficiais de cavalos com apostas presenciais, na internet e em cafés franceses especializados). Os seus cavalos já terão conquistado mais de 500 vitórias.
Tal como quase todos os emigrantes citados nesta reportagem, António de Sousa, 72 anos, chegou a França ainda criança, no início dos anos 60, no quadro da lei do reagrupamento familiar, quando ainda não havia livre circulação de pessoas na Europa e quando muitos dos emigrantes portugueses eram clandestinos. O pai era operário. Mesmo na prisão, não deixa de ser um representante do sucesso dos portugueses em França. O poder não é apenas feito de rosas e de contos de fadas.
expresso.sapo.pt