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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

em rota de despedida


Sismo de magnitude 2.6 com epicentro entre Monchique e Portimão foi sentido






Um sismo de magnitude 2.6 (Richter), cujo epicentro se localizou em terra, a cerca de 10 quilómetros a Sul de Monchique e 9 quilómetros a Norte de Portimão, foi registado esta tarde, pelas 16h50, nas estações da Rede Sísmica do Continente, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Ao que o Sul Informação apurou, o sismo foi sentido nas zonas de Lagoa, Silves e Portimão.
Entretanto, o IPMA, revelou, em comunicado emitido hoje pouco depois das 18h00, que o sismo «foi sentido com
intensidade máxima III (escala de Mercalli modificada) na região de Lagoa (Algarve)», mas «não causou danos pessoais ou materiais».
O epicentro do sismo situou-se a 30 quilómetros de profundidade e deu-se numa zona entre Portimão e Monchique com as coordenadas 37.30 N ; 8.50 W, segundo um site internacional sobre sismologia.
Durante o dia de hoje, já houve outros sismos no Algarve ou nas zonas marítimas próximas da região: assim, às 00h18 registou-se um sismo de magnitude 1.8 (Richter) no Mar de Marrocos, entre o Algarve e esse país; às 01h36, registou-se outro sismo, de magnitude 1.5, no mar, a Sudoeste do cabo de S. Vicente, e às 3h47 foi a vez de um abalo de magnitude 2, também em terra, a Oeste de S. Brás de Alportel. Por serem muito fracos, nenhum desses sismos foi sentido.
Se também sentiu o sismo e quiser colaborar na recolha de dados por parte do IPMA, clique aqui.

www.sulinformacao.pt

TURQUIA - Queriam render homenagem às vítimas mortais do duplo atentado suicida de Ancara de há um ano mas foram reprimidos pelas autoridades.





Nos arredores da estação de comboios da capital turca, 150 pessoas reuniram-se antes das 10 horas e 4 minutos, a hora em que há um ano se deu o atentado.
Com recurso a canhões de água e gás lacrimogéneo, a polícia impediu os manifestantes de se aproximarem alegando questões de segurançAlgumas pessoas, como familiares e amigos das vítimas, foram autorizadas a deslocar-se ao memorial.O governador de Ancara esteve presente.“Quaisquer que sejam os motivos e os autores, nós condenamos todos os ataques”.Lágrimas dos familiares e amigos das vítimas, um ano depois daquele que é considerado o pior atentado da história moderna da Turquia”, disse Ercan Topaca.




Police forces have used tear gas to forcibly disperse a protest marking the October 10 suicide bombing last year in 
Durante uma manifestação a favor da causa curda, que pretendia exigir o fim da guerra no leste do país, dois suicidas acionaram explosivos.
103 pessoas morreram e 500 ficaram feridas.

O ataque foi reivindicado pelo grupo Estado Islâmico.
VÍDEO




pt.euronews.com

A Rússia está pronta a limitar a produção de petróleo no quadro de um acordo global entre países exportadores de crude. No Congresso Mundial de Energia, em Istambul, Vladimir Putin defendeu que “no contexto atual, o congelamento ou o corte da produção são os únicos meios de equilibrar o mercado”.



Na reunião de setembro, e de forma surpreendente, a OPEP decidiu baixar ligeiramente a sua produção e dentro de dias haverá um encontro informal entre membros e não membros do cartel.

Em setembro, a produção russa de petróleo atingiu o valor recorde de 11 milhões de barris por diaNa cidade turca, o presidente russo adiantou: “Apoiamos a recente iniciativa daOPEP de congelar os níveis de produção e esperamos que a ideia se transforme num acordo específico na reunião da OPEP em novembro, para dar um sinal positivo ao mercado e aos investidores”.
Em abril, um acordo global fracassou, já que países como o Irão recusam limitar a produção e a Arábia Saudita recusa que Teerão fique de fora.
Não se conhecem os contornos de um eventual acordo, mas as palavras de Putin impulsionaram o mercado.
O barril de Brent subiu mais de 2% para 53 dólares. O crude do Texas disparou quase 3% e superou os 51 dólares.





Oil prices extend rise as Putin says  supports efforts to freeze and even reduce global  output.









pt.euronews.com

A UBER FRACASSA NA ALEMANHA COM ESTRATÉGIA AGRESSIVA DE EXPANSÃO. VALE A PENA LER

A UBER FRACASSA NA ALEMANHA COM ESTRATÉGIA AGRESSIVA DE EXPANSÃO.
VALE A PENA LER
SE NOUTROS PAÍSES NÃO OS QUEREM, PORQUE RAZÃO TEMOS NÓS QUE OS QUERER?
EU TAMBÉM FUI TAXISTA 12 ANOS NO ESTRANGEIRO, TAMBÉM TIVE QUE FAZER UM EXAME BASTANTE EXIGENTE DE CONHECIMENTO DA LÍNGUA, DA ZONA, DE LIDAÇÃO COM OS PESSOAS, E DE TRÊS EM TRÊS ANOS, PARA RENOVAÇÃO DA CARTA, TAMBÉM TINHA QUE TER UM CARTÃO SANITÁRIO, QUE ATESTASSE QUE NÃO ERA PORTADOR DE DOENÇAS CONTAGIOSAS, E OU ALGUM PROBLEMA CARDÍACO,DE VISÃO OU EPILÉPTICO.
A RESISTÊNCIA QUE SE ESTÁ REGISTAR EM PORTUGAL CONTRA A UBER, PODE LER-SE AQUI QUE NA ALEMANHA FRACASSOU, COMO TAMBÉM NOUTROS PAÍSES E CIDADES DA EUROPA.
O Uber está expandindo rapidamente seus serviços de carros para percursos curtos em todo o mundo. Mas em Frankfurt, uma cidade de 690 mil habitantes…
WWW1.FOLHA.UOL.COM.BR

A IDENTIDADE CULTURAL ALENTEJANA


pastor.jpg

Pastor por Dordio Gomes

*






Em primeiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a paisagem, que para Eduardo Teófilo em Alentejo não tem sombra é um:


“Plaino imenso, extensão sem fim a perder-se, lá, onde a vista mais não alcança, mar dourado ondulando de leve, num amarelo forte que se vai esbatendo pouco a pouco à medida que a extensão se esquece e acaba. Céu azul, baço, abóbada afogueada por sobre a seara madura, pare­cendo pousada mesmo sobre nós, Sol que não se pode olhar que o reflexo do seu disco brilhante cega e dói.


Não há uma sombra, não se vê viv'alma. O mundo parou, a vida parou, como que hipnotizados pela salva res­plandecente do Sol a pino, bem na vertical”.


Em segundo lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o carácter do povo alentejano, sobre o qual nos diz Vítor Santos no seu Cancioneiro Alentejano:


“Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo-nada desconfiado, que possúem a consciência da sua força e do seu valôr”.


Faz parte ainda do carácter do povo alentejano, o amor desmesurado que nutre pela sua terra. Como nos diz Antunes da Silva em Terra do nosso pão:


“Isto de Alentejanos é gente que puxa para uma banda só. Partir à aventura no rasto da fortuna, caindo aqui, levantando-se além, não é caminho que se abra às vozes da alma dos Alen­tejanos. Nem é o susto de outras paisagens vir­gens para onde os mandam, mas o amor sub­merso que têm ao seu chão e que de repente se ergue como uma força do sangue. Teimosamente agarrados à plenitude dos escampados, ao valor das suas vilas e aldeias, aprendem a ser livres com a natureza que lhes legaram seus avós.”


Em terceiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o trajo popular. Diz-nos Luís Chaves em A Arte Popular – Aspectos do Problema:


“O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.


Em quarto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a gastronomia. O Alentejo é a região do borrego e este é um recurso com elevada cotação na bolsa de valores gastronómicos. Por isso, no âmbito da FIAPE – Feira Internacional Agro-Pecuária de Estremoz, decorre a Semana Gastronómica do Borrego, onde o borrego impera como rei e senhor. Então, os restaurantes locais apresentam receitas a Concurso, todas confeccionadas a partir do borrego. Eis algumas: sopa da panela, ensopado de borrego, borrego guisado com ervilhas, mãozinhas de borrego panadas, perna de borrego trufada, cozido de borrego com grão, feijão verde e abóbora, mãozinhas de borrego com molho de tomate, borrego assado à alentejana, sarrapatel de borrego, borrego de alfitete, miolos de borrego, iscas de fígado de borrego, arroz de fressura, empadas de borrego, tarte de requeijão, bolo de requeijão e queijadas.


Qualquer destes pratos é definidor da nossa identidade cultural. A gastronomia do borrego, essa é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias... Por isso, apetece dizer: - Viva o património mastigável! - Viva! - Avante com a defesa do património! - Avante!


Em quinto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a arte popular. Desde tempos imemoriais que o pastor alentejano ocupa o tempo que lhe sobra da guarda do rebanho em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre. Resumidamente referiremos: garfos, colheres, chavões, foicinheiras, esfolhadores, formas de dobar linhas, cabaças, caixas de costura, polvorinhos, cornas, etc. Naturalmente, que na arte popular e muito para além da arte pastoril, há a incluir entre inúmeras outras formas de arte popular, a barrística popular e a olaria .


Diz-nos Virgílio Correia na Etnografia Artística:


"A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”


Já João Falcato no Elucidário do Alentejo diz-nos que:


“Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.


E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos. "



Em sexto-lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cancioneiro popular. De facto, têm bastante expressão entre nós os poetas populares, muitos dos quais são pastores que criam, sobretudo, décimas e quadras que registam no livro vivo da sua memória. A quadra, essa pode ser brejeira:



Assente-se aqui, menina,


À sombra do meu chapéu,


O Alentejo não tem sombra,


Senão a que vem do céu.



Pode ser também o reflexo do grande isolamento em que vive o pastor, que lhe permite conhecer a natureza que o rodeia, muito em particular, o céu:


As árves que o mundo tem


Cubro-as c’o meu chapéu.


Diga-me cá por cantigas


Quantas ‘strelas há no céu?



Por vezes a poesia encerra uma profunda crítica social:



Sobe o rei no alto trono,


Desce o pastor ao val’ fundo;


Uns p’ra baixo, outros p’ra cima


Vai-se assim movendo o mundo."



Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.


Em sétimo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cante, que segundo a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.


No Cancioneiro Alentejano – recolha de Victor Santos, diz Fernando Lopes Graça:


“O alentejano canta com verdadeira paixão e todas as ocasiões lhe são boas para dar largas ao seu lirismo ingénito. Não há trabalho, folga, festa ou reunião de qualquer espécie, sem um rosário infindo de cantigas.”


Manuel Ribeiro na Lembrança dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Mértola, Vidigueira e Vila Verde de Ficalho, diz-nos:


“Só no Alentejo há o culto popular do canto. Ali se criou o tipo original do “cantador”. Pelas esquinas, altas horas, embuçados nas fartas mantas, agrupam-se os homens: esmorece a conversa, faz-se silencio e de subito, expontâneamente, rompe um coral. É o diálogo em que eles melhor se entendem, é a conversa em que todos estão de acôrdo.


Quem não viu em Beja, em certas ruas lôbregas, em certos recantos que escondem ainda os antros esfumados das adegas pejadas de negras e ciclopicas talhas mouriscas, quem não viu duas bancadas que se defrontam e donde se eleva um canto entoado, solene e soturno, com o quer que seja da salmodia dum côro de monges?”


Embora possa cantar só, o alentejano canta sobretudo em coros e esse canto é sério, dolente, compenetrado e mesmo solene, porque o alentejano é lento, comedido e contemplativo, por força do Sol escaldante.


O coro une os alentejanos. Como diz Eduardo Teófilo em Alentejo não tem sombra:


“Há, no entanto, a ligá-los a todos, algo de pró­prio, de indefinidamente próprio e que os torna re­conhecíveis em qualquer lugar em que se encontrem.(...). Todos eles estão marcados a fogo, pelo fogo daquele Sol ardente que, mesmo quando mal brilha, entra nas almas e molda os caracteres, todos eles apresentam o seu rosto cortado por navalhadas de vida e tostados pelas ardências do Sol de Verão, como se vivessem todos, realmente, sem uma sombra a que se abrigar.”


Sobre o cante diz-nos ainda Antunes da Silva em Terra do nosso pão:


“As cotovias cantam para o céu, tresnoitadas. Os Alentejanos cantam para os horizontes, sonhando. Dessas duas castas melodias nasce a força de um povo!”



Em oitavo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a habitação popular, o monte ou a casa de povoado, ambos de planta rectangular e com chaminé aparecendo em ressalto na fachada. Os materiais de construção são a taipa e o tijolo. O telhado é de duas águas, coberto de telhas assentes em ripas. As paredes, reforçadas por vezes com contrafortes, são caiadas de branco. Lá diz o cancioneiro popular:



Nas terras do Alentejo


É tudo tão asseado...


As casas e o coração,


Sempre tudo anda lavado...



Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.


Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento.


*

(Hernâni Matos)
beja.blogs.sapo.pt

DESILUSÃO

HÁ COISAS QUE NÃO ME SURPREENDEM (HOJE) NO MEU POVO.

TIVE ESPERANÇAS LOGO A SEGUIR AO 25 DE ABRIL MAS A HERANÇA SALAZARISTA FEZ ESTRAGOS ENORMES QUE AINDA HOJE ESTÃO BEM VIVOS. A IGNORÂNCIA EMBORA DISFARÇADA É MEDONHA.

A INVEJA, A HIPOCRISIA, A DEMAGOGIA, O CINISMO E A CAGANÇA SÃO AS "QUALIDADES" QUE HOJE MUITOS APRESENTAM PARA DISFARÇAR REALMENTE O QUE TÊM DENTRO DO "COFRE"


António Garrochinho

O lugar de Eusébio




O discurso do Estado Novo sobre o negro mudou nos anos 60. A retórica integracionista obrigava à representações do africano como um indivíduo plenamente integrado. Eusébio ajustava-se bem a esta imagem. Poderá um caso único ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? Este é o primeiro de uma série de textos em que reflectimos sobre a natureza do colonialismo e do racismo em Portugal.
No Portugal dos anos 60, abundavam as imagens de Eusébio da Silva Ferreira. Ele aí estava, espalhado por jornais e revistas, mas também em programas e serviços noticiosos da Radiotelevisão Portuguesa. Atleta do Benfica e da selecção nacional, sempre na sua função de jogador de futebol, era aclamado pelo seu inegável talento. No Portugal metropolitano de então, onde rareavam ainda os naturais de África, nunca um negro merecera tanto destaque e fora objecto de tamanha glória. Uma representação destas distinguia-se da imagem do africano, que proliferara na cultura popular.
Como demonstrou Isabel Castro Henriques (A Herança Africana em Portugal, ed. CTT), o negro era quase sempre ridicularizado com evidente crueldade, em livros, imagens, jornais, bandas desenhadas, campanhas publicitárias e anedotas. A construção de um outro tipo de africano, fundada numa distância que permitia as maiores efabulações, só tomou um sentido mais concreto durante a guerra colonial, onde o africano era o inimigo, o "turra".
Desde os seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado, garantindo-lhe até um carácter científico. Em exposições e congressos, nos trabalhos de diversas ciências coloniais, e em muitas publicações oficiais, expunha-se um outro africano culturalmente diferente, que fazia parte integrante do império português, mas que era colocado à parte, como se se tratasse de um todo racial e cultural discrepante.
O império afirmara o atraso civilizacional das populações africanas, legitimando assim uma conquista colonial anunciada como uma missão de desenvolvimento destas regiões e dos seus povos. Justificou-se, desta forma, que Portugal atribuísse uma cidadania específica à maioria dos povos que governava, enquadrada pelo chamado sistema de indigenato, que cessou em 1961, precisamente no ano em que Eusébio começou a jogar no Benfica, depois de chegar a Portugal em Dezembro de 1960.
É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 60 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a esta imagem. A sua autobiografia, publicada em 1966 em Portugal e redigida por Fernando G. Garcia a partir de um conjunto de entrevistas (traduzida em inglês no ano seguinte), conta a história de um "bom rapaz", narrativa mestra e memória oficial a partir daí repetida em jornais, biografias e bandas desenhadas.
A "verdadeira" história de Eusébio apresenta um conjunto de etapas, do Bairro da Mafalala na Lourenço Marques colonial, onde vivia com a mãe Elisa num contexto de pobreza honrada, os jogos de bairro e a equipa dos "brasileiros", as idas à escola, o deslumbramento com o centro da cidade colonial, que pouco conhecia, a entrada no futebol local, a transferência atribulada para o Benfica e os diversos passos da brilhante carreira profissional.
Nesta história, a lista impressionante de feitos desportivos é intervalada pelo relato do casamento com Flora e pela incorporação de Eusébio, em 1963, no Exército português, profusamente fotografada e utilizada como propaganda. A incorporação militar, o casamento e a vida familiar contribuíam para a construção quase perfeita da biografia de um indivíduo assimilado, preocupado com o trabalho e com a família e plenamente integrado no Portugal de Salazar, um jovem de origens desfavorecidas que, apesar da sua notoriedade, continuava a perceber o seu lugar social.
A apropriação oficial da imagem de Eusébio não anulava os efeitos produzidos pelo facto de um negro se ter tornado uma figura dominante da cultura popular portuguesa. Eusébio entrou, tal como a fadista Amália, num universo de glorificação cultural até aí constituído por indivíduos com origens e percursos muito distintos, consagrados em actividades oficialmente legitimadas e de onde o futebol e o fado se encontravam afastados.
Apesar do reconhecimento do seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença. A relevância de Eusébio dependia do seu valor enquanto elemento de uma economia particular, no contexto de uma troca muito específica, proporcionada pelo processo de profissionalização do futebol.
O jogador moçambicano oferecia quase todas as semanas capitais preciosos à representação nacional mas sobretudo clubista, a uma específica cidadania exercida diariamente por muitos indivíduos, quase todos homens, durante incontáveis encontros, conversas e imensas retóricas, nos quais se manifestava uma identificação, uma forma de apresentação na vida de todos os dias. Os que no campo representavam com o seu génio desportivo esta pertença (ser do Benfica, do Sporting, do Porto, ou da selecção) mereciam quase todas as recompensas, independentemente da sua origem ou da cor da sua pele. O valor de Eusébio nesta economia particular dependia da manutenção de um nível performativo constante, de um ritmo laboral intenso, com consequências físicas conhecidas, como asseveram as inúmeras cirurgias ao seu martirizado joelho.
As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Este enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual colectiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 60. Em Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colónias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à selecção nacional.
O efeito do poder mediático de vedetas populares como Eusébio foi alvo de escrutínio, as suas posições interpretadas, os resultados políticos dos seus actos avaliados. Se o Estado Novo sempre desconfiara da espectacularização do desporto assente no movimento associativo, veio depois a perceber que esta lhe podia ser útil.
Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da "situação", enquanto elemento da narcotização do povo - ao lado do fado, do chamado nacional-cançonetismo e de Fátima - e especificamente da propaganda imperial, fundada na mitologia do pluri-racialismo, num período em que Portugal lutava pelos seus territórios numa guerra travada em três frentes.
É interessante verificar que nas últimas décadas Eusébio veio a tornar-se objecto de interesse para os estudiosos do continente africano, entendido como um pioneiro do futebol em África, um exemplo de talento extraordinário e, simultaneamente, ao lado de outros grandes nomes negros da história do desporto internacional, nomeadamente norte-americanos, desde Joe Louis a Jesse Owens, alguém que vingara num mundo fortemente discriminatório.
O desejo de alguns académicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. Na verdade, o universo que ele, desde pequeno nos espaços livres da Mafalala, aprendera a dominar. Para aquele que foi considerado, depois do Mundial de 1966, como "o melhor da Europa", e de quem se falava estar a disputar com Pelé o título de "rei do futebol mundial", África e a política africana estavam muito longe.
De regresso a África
O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 60 a sua glória serviu a defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi esta que serviu de justificação à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até aos nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado, ajudando a reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.
Um ano antes do Mundial de 1966, o embaixador português Franco Nogueira, numa conferência na embaixada portuguesa em Londres (em Maio de 1965), falou sobre os princípios orientadores da política portuguesa em África: "O nosso primeiro princípio orientador é a igualdade racial - uma pequena noção que trouxemos para África há mais ou menos 500 anos". Portugal orgulhava-se do seu império se constituir como um "espaço multirracial", uma "democracia racial real" onde todos "trabalham harmoniosamente para os mesmos fins".
Falso e mitificador, o olhar de Franco Nogueira, ao incluir o império dentro da sociedade portuguesa, acabava por realçar o facto de que o mundo governado pelos portugueses na década de 60 era maioritariamente negro e africano, realidade por vezes esquecida nas análises historiográficas sobre Portugal. E qual era o lugar que a gestão colonial portuguesa atribuíra a esta grande maioria da população? Segundo a história mediatizada da vida de Eusébio existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus.
Poderá um caso excepcional ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? É que o lugar da população africana, na grande sociedade portuguesa de 60, era bem diferente do representado pelo caso de Eusébio. A sua integração estava longe de estabelecer qualquer padrão que pudesse explicar os 500 anos de colonialismo de que falava Franco Nogueira.
Mais fiável parecia ser a história da cidade onde o jogador moçambicano cresceu. Desde a sua fase moderna, iniciada no final do século XIX e projectada pela industrialização da África do Sul, que Lourenço Marques se dividira entre um centro colono, predominantemente branco, e um subúrbio precário, predominantemente negro. Pela força, afastaram-se as populações locais para a periferia. Separada fisicamente, a mão-de-obra africana que se acumulava nos subúrbios, essencial para o funcionamento do sistema colonial, foi enquadrada por leis e normas. Estas regulavam uma discriminação racial, a qual era evidente não apenas na lógica do indigenato, mas que se traduzia no quotidiano, nos espaços públicos, nas escolas, nos transportes e nos locais de trabalho, onde sofreram durante muito tempo o flagelo do trabalho forçado. O historiador Valdemir Zamparoni explicou bem este mesmo processo, na sua tese sobre a capital de Moçambique.
Já depois do fim do indigenato persistia o que, num artigo publicado em 1963 no jornal A Tribuna, o arquitecto Pancho Guedes chamava de "cinto do caniço" que separava o centro urbano da "cidade dos pobres, dos serventes e dos criados", isto é a cidade dos africanos. Lourenço Marques carecia então, segundo o arquitecto, de "uma genuína integração social - ou serão os "pretos" só para estar nas cozinhas e nas recepções?"
Os habitantes dos bairros periféricos da cidade, onde nasceu Eusébio em 1942, trabalhavam nas indústrias locais, nos portos e nos caminhos-de-ferro, nos serviços domésticos, em actividades ditas informais, dependendo de pequenas lavras, ou faziam parte da forte emigração para o país vizinho, controlada e taxada pelo estado colonial.
Esta estrutura laboral era fortemente racializada, pertencia a um sistema onde a cor da pele mostrava os contornos da organização social. Na grande sociedade portuguesa de 60, o lugar dessa maioria africana, mesmo depois do fim do indigenato, continuava a revelar a herança de um colonialismo predador e racista, não muito diferente dos outros colonialismos nos seus propósitos e objectivos, nos meios e nas estratégias, e absolutamente nada excepcional.
Explicada pela conjugação única entre a profissionalização do futebol e a procura de talentos, a força da cultura popular mediática e um regime que necessitava de defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono, a carreira extraordinária de Eusébio não belisca a imagem pérfida do sistema colonial português. Tão-pouco deve servir de modelo para descrever, hoje, as relações raciais em Portugal.
Nota da Redação:
O artigo de autoria de Nuno Domingos, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, foi pub
licado originalmente no Jornal “Público”, em 21/08/2013, como parte do Projeto “Público Mais” (http://static.publico.pt/publicomais/) na série ''Racismo e Colonialismo''. É postado em Afropress com autorização da diretora do jornal, Bárbara Reis, contatada pelo correspondente em Londres, Alberto Castro.
Crédito das fotos internas: Benfica
Nuno Domingos
Investigador de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa
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10 de Outubro de 1985: Morre o Realizador e Actor de Cinema norte-americano, Orson Welles


Nasceu em Kenosha, no Estado de Wisconsin a 6 de maio de 1915 e faleceu em Hollywood a 10 de outubro de 1985, vítima de enfarte do miocárdio. Filho de uma pianista e de um inventor, já em criança "devorava" Literatura, especialmente obras de William Shakespeare e de Cervantes. Aos 12 anos, assistiu à morte quase simultânea de seus pais que lhe deixaram uma herança considerável. Depois de ter passado por diversos colégios internos e de ter viajado pela Europa, resolveu seguir uma carreira de ator. Em 1931, juntou-se ao grupo teatral Dublin's Gate Players, tendo atuado na Broadway. Em 1936, juntamente com John Houseman, fundou o grupo Mercury Theater que atuaria muitas vezes em radionovelas. Numa delas, em 1938, protagonizou um momento histórico: na noite de Halloween, Welles representou aos microfones da rádio a peça A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Um pouco por todo o país, houve momentos de pânico porque os ouvintes convenceram-se de que os marcianos tinham invadido a Terra. Em 1941, Hollywood convidou o elenco do Mercury Theater para participar num filme. Orson Welles tomou as rédeas do projeto, escrevendo, produzindo, realizando e protagonizando aquele que viria a ser considerado como o maior filme da História do Cinema: Citizen Kane (O Mundo a Seus Pés, 1941). Welles imprimiu uma nova linguagem fílmica, mas viu o seu trabalho boicotado pelo magnata William Randolph Hearst que achava que a personagem principal era baseada na sua figura. Daí para a frente, Hearst procurou não poupar esforços para fechar as portas de Hollywood a Welles. Dado que Citizen Kane não fora um sucesso, os produtores propuseram a Welles contratos onde lhe era retirado todo e qualquer controlo criativo. Contudo, tal não impediu que Welles continuasse a produzir obras de grande qualidade: seguiram-se The Magnificent Ambersons (O Quarto Mandamento, 1942) um drama centrado num conflito entre duas famílias, The Stranger (O Estrangeiro, 1946) sobre um criminoso de guerra nazi que se esconde numa pequena cidade americana e o film noir The Lady From Shangai (A Dama de Xangai, 1947) protagonizado por si e por Rita Hayworth. Após o fracasso deMacBeth (1948), decidiu ir para a Europa, fechadas que lhe estavam as portas em Hollywood. Aí marcou presença em diversos filmes de aventuras e pepluns, não se importando de protagonizar filmes de qualidade duvidosa para angariar dinheiro para realizar projetos pessoais. Um deles, o famoso Don Quixote, ficou inacabado e só seria lançado em 1992, sete anos após a sua morte. Regressou a Hollywood para realizar outro clássico: Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958), um policial em que também participou como ator secundário, no papel de um obeso polícia corrupto. Voltou à Europa, onde assinou mais trabalhos de qualidade: Le Procès (O Processo, 1962), Falstaff (As Badaladas da Meia-Noite, 1966) e The Immortal Story (História Imortal, 1968). Como ator, associou-se a A Man For All Seasons (Um Homem Para a Eternidade, 1966), Casino Royale(1967) e The Kremlin Letter (A Carta do Kremlin, 1970). Os seus últimos trabalhos foram feitos para televisão e para anúncios publicitários, onde emprestou a sua voz característica.

Fontes: Infopédia
wikipedia (imagens)

Orson Welles fotografado por Carl Van Vechten, Março de 1937.
Orson Welles em "Citizen Kane"

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