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terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Grande Guerra que Portugal quis esquecer

O historiador Marco Arrifes escreveu que “o soldado desconhecido de África é bem mais desconhecido que o da Flandres” e desde os dias da guerra até hoje não faltam argumentos para comprovar a sua tese. Em África combatia-se, de acordo com a ideologia e o direito da era colonial, pela defesa do território nacional. Em África, principalmente no norte de Moçambique, morreram mais soldados portugueses do que nas trincheiras da Flandres, não tanto pelo efeito das balas mas mais por causa da impreparação, da incúria, da fome e da sede, da loucura das febres, do paludismo e da disenteria. Mas nem isso bastou para que a Grande Guerra em África tivesse merecido a atenção que os historiadores, os políticos e a generalidade da opinião pública devotaram ao Corpo Expedicionário Português na Europa. Até hoje, as campanhas em África permanecem envolvidas numa relativa aura de esquecimento colectivo. Só muito recentemente uma nova geração de historiadores decidiu desenterrar o tabu e verificar a dimensão da tragédia que aconteceu em Angola e, principalmente, em Moçambique.





Velho forte alemão de Nevala, na Tanzânia, que os portugueses ocuparam durante um mês

Numa viagem de mais de 2500 quilómetros pelas zonas remotas da província de Cabo Delgado, na linha de fronteira do Rovuma ou já no outro lado do planalto dos macondes, em território da Tanzânia, o PÚBLICO foi à procura do que resta dessa guerra. Partimos de Pemba, a Porto Amélia dos tempos coloniais, subimos a Mocímboa da Praia e a Palma, as bases das principais expedições das tropas nacionais entre 1916 e 1917; visitámos Quionga que fora ocupada pelos alemães em 1894 e reconquistada sem um tiro em 10 de Abril de 1916; subimos a Namoto, na margem do Rovuma; fomos a Mueda, símbolo do orgulho dos macondes e lugar simbólico do início da Guerra Colonial, atravessámos a estrada de quase 200 quilómetros de terra batida, em plena selva, que a liga a Negomano, onde as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota em 25 de Novembro de 1917; cruzámos a fronteira através de uma ponte moderna, absurda, que liga duas picadas entre o nada e lugar nenhum e subimos ao planalto dos macondes do lado da Tanzânia para visitar o velho forte alemão de Nevala, que os portugueses ocuparam durante um mês; passámos em Mahuta onde uma emboscada a 4 de Outubro de 1916 tirou a vida a 32 soldados e regressámos a Moçambique via Kilambo e Namoto.
Ainda hoje as memórias da Grande Guerra permanecem guardadas nessas localidades pela tradição oral. Amisse Juma, 76 anos, sabe identificar o lugar onde se instalou o quartel-geral da quarta expedição, em Mocímboa da Praia. Martins Ibrahim Musse, 65 anos, sabe relatar as histórias dos soldados cujos restos mortais permanecem no cemitério de Palma e lembra-se do dia em que muitos foram desenterrados e transportados para Portugal. O mzê (senhor de idade) Assani Abdel Remani Kimombo desconhece ao certo a sua idade mas consegue detectar entre o mato as trincheiras que em 1916 as tropas portuguesas cavaram em Namoto para se defenderem das investidas alemãs que partiam do outro lado do Rovuma; Abdel Carlos John é capaz de abrir caminho entre a selva com uma catana para, a alguns quilómetros da aldeia, nos levar ao túmulo de um soldado alemão cuja cúpula, garante, foi derrubada por um elefante. E em Negomano, na fronteira entre o Cabo Delgado e o Niassa, Santos Salimo Mundogwan, 61 anos, conserva as memórias que o seu avô, o régulo Malunda, lhe transmitiu do terrível combate que em 25 de Novembro de 1917 opôs portugueses e alemães numa das orlas da sua aldeia, no preciso lugar onde o Lugenda se funde com o Rovuma. Santos Salimo Mundogwan recorda-se até do nome do major Teixeira Pinto, o comandante das tropas nacionais em Negomano que perdeu a vida com os primeiros tiros do cerco alemão.
O regresso a esses lugares e a recuperação dessas memórias ajuda a perceber o destino das expedições. Obrigadas a defender uma fronteira com 720 quilómetros, tendo de cruzar um território muito maior do que Portugal, num clima abrasador onde, no Verão, a chuva potencia níveis de humidade acima dos 90%, numa região sem estradas que obrigavam as colunas a ter de abrir caminho entre a selva, sujeitos a permanentes ataques de feras e de enxames de mosquitos, os soldados portugueses foram sujeitos a uma missão impossível. Sem treino específico, sem equipamento ajustado aos rigores do mato africano, sem linhas de abastecimento que garantissem comida e água, sem medicamentos nem hábitos de higiene, tornaram-se presas fáceis de um exército alemão com menos homens mas liderado por um génio militar, Paul Emil von Lettow-Vorbeck, cujas tácticas de guerrilha em movimento inspirariam todo o curso da guerra não-convencional do século XX, de Che Guevara a Nguyen Giap, de Amílcar Cabral a Samora Machel. 
A zona do conflito, entre os rios Lúrio e o Rovuma, era visitada pelos portugueses desde os princípios da expansão, mas a sua posse efectiva só se consumaria em Fevereiro de 1887, quando o coronel Palma Velho, governador de Cabo Delgado, conquista a baía de Tungue ao sultão de Zanzibar. De face voltada para a Índia, mas culturalmente próxima da esfera do Islão, a costa era nessa época, como hoje, um mosaico de povos que viviam da pesca e da agricultura familiar. Mais para o interior dominavam os macuas, a sul do Lúrio, e os macondes e, já nos limites do Lago Niassa, os ajauas. Para os soldados portugueses, na sua esmagadora maioria provenientes das aldeias do interior, o Norte de Moçambique aparecia-lhes como uma terra inóspita, maldita, povoada de leões que entravam noite dentro nos acampamentos e devoravam carregadores indígenas ou doentes dos hospitais de campanha, de formigas carnívoras, de gente que comia ratos dos arrozais e dançava em trejeitos hedonistas noite fora em batucadas.
Toda a área de conflito tinha sido concessionada à exploração da Companhia do Niassa, em 1890, mas a obra colonizadora desta entidade tinha sido nula. Os seus métodos “eram tudo o que havia de mais simples: nem escolas, nem missões, nem hospitais, nem estradas. A sua actividade cifrava-se na cobrança dos direitos da alfândega e no m’soco”, o imposto de palhota, constatou o médico Américo Pires de Lima na sua memória Na Costa de África. Poder-se-ia pensar que a experiência militar dos portugueses em África, coroada com missões do tenente Valadim no Niassa, onde morreu em combate em Janeiro de 1890, com a estratégia baseada na violência dos “Centuriões” comandados por António Enes, ou as façanhas de Mouzinho de Albuquerque na batalha de Marracuene, de Chaimite, ou com a prisão de Gungunhana, em 1895, colocaria as tropas portuguesas numa situação de vantagem face à curta vivência dos alemães em África, que se tinham estabelecido na região dos Grandes Lagos apenas em 1885. Puro engano.
Mulher vestida com um polo da Frelimo junto a um monumento em homenagem aos militares que morreram no combate de Negomano 
Quando a primeira expedição comandada pelo coronel Pedro Francisco Massano de Amorim, director militar das Colónias, chega a Porto Amélia e desembarca do Durhan Castle, no dia 1 de Novembro de 1914, com 50 oficiais, 77 sargentos, 1400 soldados e 322 solípedes era já possível perceber a dimensão do improviso. A falta de objectivos, a ausência de preparação militar ou a carência de bens cruciais como medicamentos iriam comprometer o esforço das tropas expedicionárias. Massano de Amorim lamentaria mais tarde no seu relatório de campanha o seu destino: “Sem caminho-de-ferro, que aqui é considerado um bluff, sem linhas telegráficas, sem estradas, sem força militar… com ratoneiros e bandidos em vez de polícias e sipaios, sem protecção de espécie alguma aos indígenas… não é para admirar que à data de chegada da expedição do meu comando aos territórios da Companhia do Niassa os postos administrativos fossem uma vergonha, os militares uma irrisão, a ocupação uma mistificação, a cobrança de impostos uma violência, a subordinação do gentio uma utopia e a viação um esforço grosseiro”.
A expedição, baseada na actual Pemba, capital da província de Cabo Delgado, passaria um ano em Moçambique dedicada a tentar suprir as carências de mobilidade que comprometiam a acção de um exército moderno, sujeito a deslocações de centenas de quilómetros com toneladas de víveres e equipamentos. O seu legado para a expedição que se lhe seguiu consistiu na instalação de uma linha telegráfica e na construção de uma estrada que ligaria Porto Amélia a Mocímboa do Rovuma, com uns 450 km de extensão. Mas mesmo a permanência na belíssima baía de Pemba, num ecossistema e num clima apesar de tudo mais favorável que os de Palma ou de Mocímboa da Praia, não evitaram que, de acordo com o historiador António José Telo, a expedição tenha sofrido “21% de baixas por doença nos primeiros seis meses, sem entrar em combate e mesmo sem sair de Porto Amélia”.
Nem esses dados alarmantes serviram de lição. Nada mudou na preparação das expedições seguintes, que depois de Março de 1916 tinham de viver em estado de guerra declarada com os alemães. Pelo contrário, a segunda e terceira expedições, com mais de seis mil soldados da metrópole, acentuariam os erros da primeira. Numa das sessões secretas da Câmara de Deputados e do Senado da República destinadas a discutir a situação da guerra, que decorreram entre 11 e 31 de Julho de 1917, o líder do Partido Unionista, Brito Camacho, daria conta da lassidão e negligência com que as missões eram preparadas: “Não é segredo para ninguém que se têm mandado tropas para a África como se não mandam reses para o matadouro”.
“A guerra dos outros”
Mais de 2000 soldados europeus mortos, uma derrota copiosa em todas as frentes, a cedência aos ingleses do comando operacional após o desastre do Verão austral de 1917: a linha de fronteira traçada pelo curso do Rovuma tornou-se “o mais fantástico atoleiro da história militar portuguesa moderna”, na opinião do historiador francês René Pélissier, especialista no estudo do passado das ex-colónias portuguesas em África. Cada relatório, cada fonte, militar ou civil, portuguesa ou alemã, oferece visões desencontradas sobre os custos humanos da guerra entre os soldados enviados da metrópole. Mas há nesta contabilidade um valor aproximado, ao menos. O que se torna impossível em relação ao balanço das vítimas entre a população local. Na Conferência de Paz, Portugal avançou com uma estimativa de 120 mil mortos entre os habitantes do Norte de Moçambique, mas é provável que haja aqui algum exagero destinado a inflacionar o valor da indemnização que se estava a pedir à Alemanha.
Certo é que morreram muitas dezenas de milhar de nativos moçambicanos. Menos os que vestiram a farda do exército português e integraram as companhias indígenas, muitos mais os que foram capturados nas suas aldeias natais e obrigados ao trabalho forçado de carregador. Carlos Selvagem, um alferes que integrou a terceira expedição, em 1916, olhava-os “com piedade, angulosos, nus, esquálidos, tiritando de frio debaixo dos pobres farrapos da manta, aglomerados em rebanho nos seus cercados de capim, deslocando-se lentamente, em lentas filas de comboios, ajoujados sob os fardos que os esmagam, e passivos, sonâmbulos, mecânicos, o olhar ausente, a face vaga, como quem vaga no indefinido dum sonho remoto, duma remota visão de palhotas e aldeias natais”.  
No final da guerra, Gavicho de Lacerda, administrador da Zambézia, dizia que o seu prazo tinha fornecido 25 mil carregadores ao exército e desses, em 1919, havia ainda cinco mil por repatriar. Estavam "em tal estado que fazia horrores olhar para eles". Quantos terão morrido de fome, de sede, de exaustão, de maus-tratos é impossível saber. Não faziam parte da contabilidade administrativa do exército. “Não são homens porque não têm nome; também não são soldados, porque não têm número. Não se chamam, contam-se. Formam-se a varapau, põe-se-lhes uma carga à cabeça e pronto”, lamentaria o sargento Cardoso Mirão, da expedição de 1917.
Ao infortúnio dos carregadores (só no ano final da campanha foram recrutados 30 mil para apoio das tropas britânicas a operar em Moçambique) junta-se a violência e as razias feitas por exércitos famintos em marcha nos campos e armazéns dos aldeões. Com a presença do exército no Norte de Moçambique, a Companhia do Niassa tratou finalmente de cobrar impostos aos macondes, usando métodos que arrepiavam até a sensibilidade dos soldados embrutecidos pela guerra. “Um dia, em Mocímboa, vi chegar uma estranha procissão: à frente e atrás, um sipaio [polícia indígena], no meio uma longa bicha de mulheres, que foram metidas num redil de arame farpado. Surpreendido perguntei a significação daquilo. Era a cobrança coerciva do m’soco [imposto de palhota]. Como os pretos não pagavam, encarceravam as mulheres até que os respectivos maridos, saudosos, as viessem resgatar pagando o almejado m’soco”, lembraria Américo Pires de Lima, um alferes médico. As sublevações indígenas, no Barué, perto da Beira, ou no planalto dos macondes foram duramente reprimidas. No Norte de Moçambique, entre Abril e Junho de 1917 foram incendiadas mais de 150 povoações maconde, na contabilidade de René Pélissier.
Moçambique e os moçambicanos foram sem dúvida as maiores vítimas da guerra, mas nem isso motivou qualquer interesse entre a comunidade académica sobre o tema. António Sopa, historiador moçambicano da época contemporânea, explica este alheamento dizendo que a I Guerra Mundial é vista como “uma guerra dos outros”. Sem fontes escritas, com os arquivos militares e coloniais transportados para Lisboa, resta a memória oral como objecto de estudo. Ou a ficção, fácil de prosperar numa guerra entre europeus errantes pela selva. O escritor João Paulo Borges Coelho recuperou esse tempo para escrever o romance que lhe valeria o Prémio Leya de 2009,O Olho de Hertzog. E pouco mais.
Uma guerra ainda viva
Logo após o conflito, nos anos 20, os militares e a História ainda se dedicaram a tentar perceber as razões para o desastre na guerra do Norte de Moçambique. Outros fizeram-no em tom de ajuste de contas. Foi o caso do general Gomes da Costa, que em 1918 comandou a última expedição a Moçambique e teve a oportunidade de arrolar todas as omissões e de compilar uma síntese de todos os erros cometidos. Escreveu o militar que encabeçaria o golpe de 28 de Maio de 1926 sobre o estado de impreparação das missões enviadas para Moçambique: “Não se conhecem nem os recursos militares das colónias, nem os seus recursos económicos, nem a sua topografia; nem há cálculos feitos para a quantidade de víveres necessários para um dado número de homens; nem estudo da ração mais própria; nem contratos ou combinações para os fornecimentos a fazer com regularidade; nem fixação das formas de acondicionamento; nem estudo dos nossos navios para se conhecer o que cada um pode transportar em homens, animais e carga; numa palavra, nada há feito, nada se sabe, para nada serve". As campanhas em Moçambique desenrolaram-se "sem objectivo, sem plano, sem nexo, até à derrota".
Em 1926, uma Ordem do Exército que serviria de avaliação ao relatório do comandante da terceira expedição, o general Ferreira Gil, acentuava as responsabilidades dos políticos e desculpava os militares pelas perdas materiais e humanas e pelas derrotas. “O estudo deste período da campanha na África Oriental mais uma vez demonstra que as estações superiores não puderam ou não souberam convenientemente preparar, nem superiormente orientar a nossa intervenção militar nesse teatro de operações. Em tudo se revela uma grande desorganização, a mais completa ausência de previsão e de uma conveniente preparação, e a carência de recursos em dinheiro e em material indispensável nas campanhas coloniais, factores estes acrescidos com a falta de um plano de guerra previamente estabelecido, onde tivessem sido fixados os objectivos políticos e militares da nossa acção, como beligerantes, nesse teatro de operações. E, como se tudo isso não bastasse, foi ainda por vezes agravado com a intervenção, nem sempre oportuna, de poderes superiores aos Comandos das expedições na direcção das operações, e com o fraco apoio que, também por vezes, foi dado a estes Comandos pelo Governo central”.
Alguns dos soldados e oficiais que resistiram às agruras das campanhas africanas elevaram o tom das críticas, publicando as suas memórias nos anos finais da Primeira República. Na maior parte dos casos são relatos vívidos, pungentes, mais destinados a celebrar o milagre da sobrevivência do que em analisar as causas da incompetência do comando. São livros que nos falam dos hábitos dos indígenas, que relatam o sofrimento das grandes caminhadas, que descrevem os horrores da fome e da sede, que situam as bases ou os campos de batalha, que narram detalhes do quotidiano dos bivaques ou dos acampamentos dos indígenas. Há nesses relatos vontade de denunciar, mas é mais fácil encontrar palavras contra os hábitos dos negros ou contra os monhés (indianos) do que contra os oficiais ou contra os políticos.
Ainda que o volume de obras memorialísticas da guerra em Moçambique seja muito inferior às que se escreveram a partir da experiência na Flandres, as suas narrativas são cruciais para se perceber o que aconteceu aos cerca de 20 mil soldados que o Governo da República enviou para travar os alemães (em Angola, onde os conflitos duraram apenas entre 19 de Outubro e 18 de Dezembro de 1914, o número de praças europeias ascendeu a 13 mil). Américo Pires de Lima, um médico do Porto que se viria a destacar como professor universitário e como criador do Jardim Botânico que ainda hoje existe na Rua do Campo Alegre, deixou-nos uma ideia brutal do efeito que as doenças tropicais provocaram nas expedições baseadas em Palma e em Mocímboa da Praia, entre 1916 e 1917. Carlos Selvagem e António de Cértima relataram com detalhes a marcha pela actual Tanzânia que culminou com a conquista e abandono do forte alemão de Nevala. Cardoso Mirão, Ernesto Moreira dos Santos e José Teixeira Jacinto guardaram em texto a inenarrável odisseia da Coluna do Lago, uma viagem desnecessária de 900 km pelo interior da selva que acabou com as derrotas de Negomano e de Serra Mecula, em Novembro de 1917.
A maior parte dessas memórias foi publicada na década que se seguiu à guerra e, com excepção do livro Epopeia Maldita de António de Cértima, ainda hoje um objecto de culto para os bibliófilos, caiu depressa no esquecimento. Cardoso Mirão decidiu imprimir o seu Kináni (palavra maconde que significa “quem vem lá” ou “quem vive”) já na vigência do Estado Novo e, como seria de esperar, a obra foi censurada por instilar o “derrotismo” no país e por conter relatos considerados “desprestigiantes para o Exército Português”. O livro, emocionante, misto de tragédia e de aventura, seria publicado em 2001. A memória de Teixeira Jacinto permaneceu 70 anos guardada num invólucro de papel grosso, atado com fio do Norte, até que há três anos o seu neto Armando Jacinto, um coronel na reserva, a descobriu num baú – seria revelada em primeira mão pelo PÚBLICO em Outubro de 2011 e entretanto publicada pela Câmara Municipal de Espinho.
Com o Estado Novo, o processo de apagamento da memória avançou. As derrotas da Primeira Guerra em África seriam anotadas como um acidente de percurso, causado pela República jacobina, impreparada e carente de sentido patriótico. Os valores do nacionalismo ou a glória do Império coexistiam mal com as derrotas de Namoto ou Negomano. Os mitos africanistas de Mouzinho de Albuquerque não se podiam associar à tragédia de Nanguar ou da Serra Mecula. Craveiro Lopes, Presidente da República entre 1951 e 1958, foi ainda capaz de visitar alguns dos lugares do conflito em 1956, mandando recolher os restos mortais dos soldados dispersos por vários campos de batalha e transladando-os para Portugal ou para um ossário construído de propósito em Mocímboa da Praia – hoje ao abandono. Mas esse seu gesto fez-se mais por um desígnio pessoal do que pelo imperativo de moral pública. Craveiro Lopes fora um alferes que, aos 23 anos, fizera parte da Coluna de Massassi e participara na conquista de Nevala, em Outubro/Novembro de 1916. A sua bravura na defesa do fortim conquistado aos alemães pelo curto prazo de uma semana tinha-lhe merecido uma Cruz de Guerra. Era natural que um militar que vivera as agruras da guerra na selva africana se preocupasse em homenagear os que nela pereceram. 
A guerra colonial regressaria a muitos dos lugares por onde andaram os soldados portugueses de há cem anos. Francisco Dinis esteve em Negomano até 1974 mas não se recorda de ter ouvido falar da batalha que lá se travara 57 anos antes. Muitas das localidades que serviram de bases aos soldados das quatro expedições entre 1914 e 1918 seriam usadas pelas tropas coloniais que combateram a Frelimo quatro décadas mais tarde. Muitos dos eixos de penetração da guerrilha foram muito antes abertos pelas incursões alemãs. Entre estas duas gerações há, por isso, memórias em comum. Em Mecula, um lugar remoto do Niassa, onde Agostinho Mesquita sofreu um atentado com uma mina que o tornou deficiente, morreu o tenente Viriato de Lacerda em Dezembro de 1917 vítima dos ataques alemães.
René Pélissier considera que o facto de a guerra de libertação da Frelimo se ter iniciado no território dos macondes, onde se deram as mais duras batalhas da Grande Guerra e onde a população civil sofreu as agruras da escravidão ou da pilhagem, não é por acaso. “Não se deve esquecer que apenas 47 anos separam a ‘submissão’ de 1917 do início da guerrilha da Frelimo”, escreve o historiador francês. A verdade é que as marchas forçadas entre a selva no Niassa ou no planalto dos macondes, as razias dos bens das populações, a violência sobre as mulheres ou a escravidão da Grande Guerra dão corpo a uma linha de acontecimentos que esteve longe de se concluir quando os alemães depõem as armas, a 11 de Novembro de 1918. Por muito que em Portugal essa guerra distante tenha sido estranhamente engavetada na História, os seus efeitos perduraram no tempo. E, como o PÚBLICO pôde constatar, ainda hoje resistem na memória dos seus habitantes.
 
Notícia alterada a 29/7: Craveiro Lopes recebeu a Cruz de Guerra e não a Cruz de Ferro

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Os exércitos secretos da NATO - A guerra secreta em Portugal (I)


A rede Gládio dispôs de uma base eficaz em Portugal, segundo apurou o historiador suíço Daniele Ganser, baseando-se em investigações feitas em Itália. Conluiada com o regime fascista, a NATO serviu-se deste dispositivo militar secreto para assassinar opositores internos a Salazar, bem como líderes revolucionários africanos de primeiro plano, caso de Amílcar Cabral.
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Em Maio de 1926, o general Gomes da Costa tomou o poder em Portugal através de um golpe de Estado, aboliu a Constituição e o Parlamento e instaurou a ditadura. Uns anos mais tarde, o ditador Salazar assumiu as rédeas do País. Durante a guerra civil espanhola, apoiou o general Franco a quem forneceu tropas e material. Os dois homens aliaram-se para garantir a Hitler e a Mussolini a neutralidade de toda a península ibérica, facilitando assim consideravelmente a sua tarefa na frente ocidental. Os quatro ditadores entraram em acordo quanto à necessidade de combater e de aniquilar o comunismo na União Soviética e nos seus países.
Mas tendo a URSS saído vitoriosa da II Guerra Mundial e Hitler e Mussolini derrotados, Salazar e Franco viram-se numa posição delicada em 1945. Entretanto, os Estados Unidos do presidente Truman envolveram-se numa guerra mundial contra o comunismo e os dois ditadores da península puderam beneficiar do apoio silencioso de Washington e de Londres. Apesar do apoio de Salazar ao golpe de Franco e da sua aliança com as potências do Eixo, Portugal, para surpresas de muitos, foi autorizado a figurar entre os membros fundadores da NATO em 1949. Seguiu-se um reinado praticamente sem oposição até à morte de Salazar, em 1970.
À imagem do que se pôde observar nas ditaduras de extrema-direita da América Latina e sob o regime autoritário de Franco, o povo português era vigiado permanentemente por um aparelho de segurança que funcionava na sombra e fora de qualquer quadro legal definido pelo Parlamento. Os golpes sujos visando a oposição política e os comunistas multiplicaram-se durante o regime de Salazar. Essas operações eram efectuadas por diversos serviços e órgãos, entre os quais a tristemente célebre Polícia Internacional e de Defesa do Estado, ou PIDE, e os serviços secretos militares portugueses.

Gládio apoia Salazar

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Não tendo sido feita nenhuma investigação aprofundada sobre as organizações de extrema-direita e as operações especiais realizadas durante a ditadura de Salazar, as suas ligações com a rede secreta anticomunista da NATO não são muito claras. A existência em Portugal de exércitos secretos próximos da CIA e da NATO foi revelada pela primeira vez em 1990, na sequência da descoberta da Gládio italiana. «Em Portugal, uma rádio lisboeta noticiou que, «durante os anos 50, foram utilizadas células duma rede associada à "Operação Gládio" para apoiar a ditadura de extrema-direita do Dr. Salazar».[1] Cinco anos depois, o autor americano Michael Parenti escreveu, sem todavia revelar as suas fontes, que agentes da Gládio tinham «ajudado a consolidar o regime fascista em Portugal». [2]
Mais concretamente, a imprensa nacional revelou, em 1990, que o exército secreto de Portugal existia com o nome de código Aginter Press. Sob o título «"Gládio" actuou em Portugal», o semanário português O Jornal anunciou que «a rede secreta, concebida no seio da próprio NATO e financiada pela CIA, cuja existência acaba de ser revelada por Giulio Andreotti, dispunha de um ramo em Portugal, activo nos anos 60 e 70. Tinha o nome de Aginter Press e esteve provavelmente implicada nos assassínios em território nacional assim como nas colónias portuguesas em África.[3]
Aginter Press não tinha rigorosamente nada a ver com a imprensa. Esta agência não imprimia livros nem brochuras de propaganda anticomunista, mas treinava terroristas de extrema-direita e efectuava golpes sujos e operações clandestinas no interior e no exterior das fronteiras de Portugal. Esta organização, tão misteriosa como violenta, era sustentada pela CIA e comandada por quadros da extrema-direita europeia que, com a ajuda da PIDE, recrutavam militantes fascistas.
O inquérito feito pelo Senado italiano sobre a Gládio e o terrorismo permitiu apurar que certos extremistas italianos tinham sido formados pela Aginter Press. Enquanto em Portugal era revelado que uma subdivisão da Aginter Press, baptizada de «Organização Armada contra o Comunismo Internacional», tinha também operado em Itália, os senadores italianos descobriram que a organização Aginter Press recebia apoio da CIA e que era dirigida pelo capitão Yves Guillon, mais conhecido pelo pseudónimo de Yves Guérain-Sérac, especialista das operações de guerra clandestina, a quem os Estados Unidos tinham atribuído várias medalhas militares, entre as quais a Estrela de Bronze Americana por se ter distinguido na guerra da Coreia.

Pacto anticomunista
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«Segundo indicam os resultados do inquérito criminal», concluiu o relatório da comissão italiana, «a Aginter Pressera uma central de informações, próxima da CIA e dos serviços secretos portugueses, especializada em operações de provocação». [4]
Enquanto o governo português evitou abrir um inquérito sobre a história sombria da Aginter Press e da guerra secreta, a comissão do senado italiano prosseguiu a sua investigação e, em 1997, ouviu o juiz Guido Salvini. Verdadeiro especialista em questões de terrorismo de extrema-direita, o magistrado havia examinado minuciosamente os documentos disponíveis sobre a Aginter Press. O senador Manca interrogou-o: «A CIA americana é, na sua opinião, directamente responsável pela operações efectuadas pelaAginter Press?», a que o juiz respondeu: «Senador Manca, está a fazer uma pergunta muito importante», e pediu, dada a natureza delicada da resposta, para ser ouvido em privado. O seu pedido foi acolhido, e a partir daí todos os documentos foram classificados como confidenciais.[5]
Em público, o juiz Salvini explicou que é «difícil definir com exactidão o que é a Aginter Press», mas mesmo assim fez uma tentativa de descrição: «É uma organização que, em muitos países, nomeadamente na Itália, inspira e apoia os planos de grupos cuidadosamente escolhidos, que agem segundo protocolos definidos contra uma situação que decidiram combater». O exército secreto anticomunista da CIA, Aginter Press, prosseguiu, opera «em função dos seus objectivos e dos seus valores, que são essencialmente a defesa do Ocidente contra uma invasão provável e iminente da Europa pelas tropas da URSS e dos países comunistas».[6]
Ainda segundo o juiz italiano, o exército secreto português garantia, como a maior parte das outras redes da Europa Ocidental, uma dupla função. A rede sombra treinava-se secretamente para uma eventual invasão soviética e, enquanto aguardava essa invasão, perseguia os movimentos políticos de esquerda, seguindo estratégias de guerra clandestina praticadas em vários países da Europa ocidental.

A fundação da Aginter Press

Embora uma boa parte dos seus membros já tivesse anteriormente prestado serviço em diversos grupúsculos anticomunistas, a Aginter Press só foi oficialmente fundada em Lisboa em Setembro de 1966. Parece que os seus fundadores e a CIA se guiaram menos pelo receio duma invasão soviética do que pelas possibilidades de acção interna. Com efeito, este período foi marcado pelas manifestações da esquerda denunciando a guerra do Vietname e o apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras de extrema-direita na América Latina e na Europa, nomeadamente em Portugal. O ditador Salazar e a sua polícia, a PIDE, temiam especialmente as consequências de um tal movimento social susceptível de desestabilizar o regime e, por isso, recorreram à Aginter Press a fim de o travar.
A maior parte dos soldados de sombra que foram recrutados pela CIA para engrossar as fileiras deste exército secreto já tinham combatido em África e no Sudeste da Ásia, onde em vão tinham tentado impedir as antigas colónias europeias de aceder à independência.
O próprio director da Aginter Press, o capitão Yves Guérain-Sérac, católico fervoroso e ardente anticomunista recrutado pela CIA, era um antigo oficial do exército francês que tinha assistido à derrota da França frente ao Reich, durante a II Guerra Mundial. Tinha igualmente combatido na guerra da Indochina (1946-1954), na guerra da Coreia (1950-1953) e na guerra da Argélia (1954-1962). Prestara serviço na famosa 11.ª Semi-Brigada Pára-quedista de Choque, a unidade encarregada de golpes sujos sob as ordens do SDECE, o serviço francês de informações externas, também ele próximo da rede sombra Rosa dos Ventos.
Em 1961, juntamente com outros oficiais aguerridos da 11.º Semi-Brigada de Choque, Guérain-Sérac fundou aOrganização do Exército Secreto (OAS), que lutou por uma Argélia francesa e tentou derrubar o governo do general de Gaulle para instaurar um regime autoritário anticomunista.

Da Argélia para Portugal 
Depois de a Argélia ter acedido à independência, em 1962, e de o general de Gaulle ter dissolvido a OAS, os antigos oficiais do exército secreto, entre os quais Guérain-Sérac, corriam grande perigo. Fugiram da Argélia e ofereceram aos ditadores da América Latina e da Europa a sua valiosa experiência da guerra secreta, das operações clandestinas, do terrorismo e do contra-terrorismo, em troca do direito de asilo. [7]
Esta diáspora da OAS veio reforçar as organizações de activistas de extrema-direita em numerosos países. Em Junho de 1962, Franco apelou aos talentos de Yves Guérain-Sérac para que se juntasse ao combate do exército secreto espanhol contra a oposição. De Espanha, Guérain-Sérac passou a seguir para Portugal, que a seus olhos era o último império colonial e, sobretudo, o último bastião contra o comunismo e o ateísmo.
Como um perfeito soldado da guerra-fria, ofereceu os seus serviços a Salazar: «Os outros depuseram as armas, mas eu não. Depois da OAS, fugi para Portugal para continuar o combate e travá-lo à sua verdadeira escala, quer dizer, à escala planetária».[8]
Em Portugal, Guérain-Sérac associou-se a extremistas franceses e a renegados da OAS. O antigo pétainista Jacques Ploncard d'Assac apresentou-o nos meios fascistas e aos membros da PIDE. Dada a sua grande experiência, Guérain-Sérac foi recrutado como instrutor no seio da Legião Portuguesa e das unidades de contra-guerrilha do exército português.
Foi neste contexto que ele criou, com a ajuda da PIDE e da CIA, a Aginter Press, um exército anticomunista ultra-secreto. A organização constituiu os seus próprios campos de treino, nos quais mercenários e terroristas seguiam um programa de três semanas de formação em operações secretas que incluíam nomeadamente as técnicas de atentados à bomba, assassínios silenciosos, métodos de subversão, comunicações clandestinas, infiltração e guerra colonial.
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Tradução de Margarida Ferreira (Resistir.info)
Revisão e subtítulos da responsabilidade da redacção doAvante!
Daniele Ganser é um historiador suíço, especialista em relações internacionais contemporâneas. É professor na Universidade da Basileia.
Este artigo foi publicado em www.voltairenet.org/a170466
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Notas
[1] John Palmer, «Undercover NATO Group 'may have had terror links», The Guardian, 10 Novembro 1990.
[2] Michael Parenti, Against Empire (City Light Books, São Francisco, 1995), p.143.
[3] João Paulo Guerra, «"Gládio" actuou em Portugal», O Jornal, 16 de Novembro 1990.
[4] Senato della Repubblica. Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabiliy delle stragi : Il terrorismo, le stragi ed il contesto storico politico. Redatta dal presidente della Commissione, sénateur Giovanni Pellegrino. Roma 1995, pp. 204 e 241.
[5] Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 12ª sessão, 20 de Março 1997
[6] Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 9ª sessão, 12 de Fevereiro 1997
[7] Jeffrey M. Bale, «Right wing Terrorists and the Extraparliamentary Left in Post World War 2 Europe : Collusion or Manipulation?» Lobster Magazine, n.º 2, Outubro 1989, p.6.
[8] Paris Match, Novembro de 1974. Citado em Stuart Christie, Stefano delle Chiaie (Anarchy Publications, Londres, 1984), p.27.

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A Guerra Secreta de Obama


Em 30 de setembro de 2011, Anwar al-Awlaki, um tipo de pregador muçulmano radical que ganhou força na turba incontrolável de acontecimentos do Pós-11/9, foi destroçado pelo míssil de um drone controlado a distância por algum jovem oficial militar. Parecia mais uma morte corriqueira em uma republiqueta com poder dividido entre tribos tão poderosas quanto o mandatário igualmente ditatorial e cruel, mas ela gerou revolta e uma ampla discussão jurídica que tomou boa parte dos ativistas dos Estados Unidos.
Al-Awlaki era considerado “a principal face do terror no Iêmen, envolvido na doutrinação e até — possivelmente, já que nunca se investigou completamente a questão — no planejamento de ataques terroristas da Al-Qaeda. Junto com ele, morreu seu filho Abdul. Mas, ao contrário do que disseram na época, o jovem de 16 anos não morreu junto com o pai, mas em um segundo ataque, também com drones. Abdul só foi identificado porque restou um único pedaço do crânio dele com uma mecha longa de cabelo, um cabelo com estilo bem diferente da utilizada no Iêmen.
As duas mortes foram parte das diretrizes especiais aprovados pelo próprio presidente americano Barack Obama. Segundo o jornalista investigativo Greg Palast em sua coluna na revista VICE, toda terça-feira Obama analisa listas de pessoas marcadas para morrer ao redor do mundo e aprova as operações secretas que as mandarão dessa para uma melhor. Tudo feito silenciosamente, sem julgamento.
O detalhe é que Anwar e Abdul eram cidadãos americanos, o que os torna privilegiados — os primeiros americanos assassinados por drones sem julgamento.
Seguido dos assassinatos, veio o cinismo. Quando questionado do motivo da morte do menino — repare que Anwar já fora considerado um alvo legítimo, já que teoricamente os Estados Unidos estavam em guerra contra o Terror e Anwar era um traidor dessa guerra — o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs na época, respondeu simplesmente:
“Eu sugeriria que ele tivesse um pai mais responsável”.
Pra que produzir relatórios e mais relatórios falsos e possíveis mentiras bem arquitetadas no melhor estilo CIA de ação, quando uma dose sarcástica de cinismo resolve tudo nesses tempos malucos? Essa é a Nova Fase da Guerra Contra o Terror, que não mais envolve os processos burocráticos rotineiros de guerra — não existem mais declarações oficiais, cuidado com prisioneiros, acordos de paz e coisas do gênero. Agora temos esquadrões de drones e grupos de operações especiais que nem mesmo constam nos registros oficiais.
al-Awlaki, que virou apenas um pedaço de carvão após ser achado por um drone
Por volta do ano 2000, Eu era apenas um moleque (ou um adolescentemoleque) com recente acesso a Internet e uma curiosidade grande. Na época, pesquisava tudo que podia sobre espionagem e guerras, especialmente a II Guerra Mundial. Até que li o livro Congo, de Michael Crichton. Em uma certa parte, o autor faz uma digressão sobre o que seria a Guerra do Futuro, toda controlada por máquinas e encerradas em questão de dias ou até minutos. A mente humana era apenas coadjuvante nesse universo meio Isaac Asimov. Lembro de ter ficado especialmente desapontado quando li aquilo.
Pra onde iriam as operações cuidadosas? As missões de reconhecimento? Momentos heroicos? Espionagem? Certamente para os livros de História. Mas obviamente a Realidade se mostrou um pouco diferente. Crichton previa um mundo polarizado como a Guerra Fria, com duas ou três superpotências rumo à tecnologias quase inacreditáveis, mas hoje temos terroristas, guerrilhas que usam a Internet para se propagar e grupelhos de poucas centenas com alcance mundial. As máquinas como última Entidade de Guerra parece uma utopia agora e a mente humana precisa novamente descer a lama da guerra para garantir a hegemonia dos Estados Unidos.
Isso ficou ainda mais claro após a CIA e a NSA e seus aparatos de espionagem titânicos não serem capazes de evitar o 11/9 e outros ataques terroristas pelo mundo.
Mas as máquinas também entraram nesse jogo sujo. De forma diferente da prevista ambiciosamente por Crichton, mas ainda lá. Ao invés de controlarema guerra, elas seriam as pontas-de-lança dos embates — guerreiros sujos que não sentem dor ou remorso.
E elas matam pra valer, sem precisarem de ordens de juiz ou qualquer tipo de licença. Após Anwar, inúmeros outros morreram pela ação de drones. No Iêmen, a guerra não-declarada ganhou dimensões ainda mais bizarras, já que fazia parte de uma espécie de consórcio de matança: os americanos matavam quem eles queriam, e o governo do Iêmen assumia a responsa. Em 2009, um míssil de cruzeiro foi disparado de um navio na costa do país e atingiu a vila de Majala, o que foi logo seguido a uma declaração bisonha do governo local, afirmando que matara supostos terroristas. Não demorou para descobrirem que os terroristas eram 14 mulheres e 21 crianças. O repórter iemenita Abdulelah Haider Shaye visitou o local, fotografou os restos do tal míssil e a farsa foi descoberta… e ele acabou na cadeia pela denúncia. Quando o presidente do Iêmen Ali Abdullah Saleh deu perdão ao repórter, Obama ligou para ele e exigiu medida um pouco menos democrática — que ele ficasse preso “por uns tempos”.
Em 12 de dezembro de 2013, um comboio de carros rumava para um casamento movimento em terras iemenitas. Era o tipo de festa tribal imperdível na região. Virou tragédia quando drones da CIA detonaram o carro e o transformaram em uma pilha de destroços retorcidos. Segundo informações, ali dentro iam “de quatro a cinco terroristas da Al-Qaeda”, mas no fim não havia nenhum. Todas as 15 pessoas do comboio morreram sem nem entenderem o que ocorreu. É, talvez Crichton devesse ser levado em consideração em planejamento de guerra…
Junto com a Somália e Paquistão, o Iêmen é uma espécie de campo de treino onde as forças americanas podem utilizar drones sem enfrentarem quaisquer obstáculos. É como se o país fosse um campo de batalhas alugado. O uso dos aparelhos é catalogado desde 2004. Foram mais de 380 ataques entre 2004 e 2013, “com entre 2.534 mil e 3.642 mil mortos”, segundo um estudo publicado pelo Bureau of Investigative Journalism. Tinham cerca de 700 civis no meio. Mais de 85% desse sangue todo derramado por máquinas ocorreu durante a administração Obama.
É bem fácil entender todo o conceito por trás da utilização dos drones de forma assustadoramente pragmática. Após Bush e suas guerras-atoleiro, sem fim e com orçamentos mamutescos, não deve ter sido difícil para Obama iniciar uma Nova Nova Era das Guerras. Saem os milhares de soldados, entram os drones e as tropas especiais. Saem as operações caras, entram os “assassinatos seletivos”. Não é difícil imaginar um Obama orgulhoso segurando uma pasta ultra-secreta com nomes para serem riscados do mapa apenas por uma ordem dele.
Em uma coisa Obama e seus asseclas estão inteiramente certos: drones são incrivelmente precisos. Dê um alvo a eles e o míssil chega silencioso e mortal, muito mais do que os nazistas podiam sonhar com os V-2. Mas humanos, especialmente os que possuem cérebros burocratas como os militares e os operativos da CIA, não são tão precisos. Afinal, a guerra não é nada precisa. Desde informantes utilizando o ato de ser X-9 para uma vingança pessoal, a escutas telefônicas quem funcionam com uma chiadeira miserável, o fato é que não dá para ser inteiramente preciso com espionagem feita em tempos tão difusos.
E aí reside exatamente a principal motivação para a existência dos drones: eles podem atacar em massa. A principal dificuldade do planejamento de uma operação militar não envolve o sucesso de alcançar o objetivo, mas fazer isso com perda mínima de vidas. Com veículos não-tripulados essa preocupação não existe. Por isso eles guerreiam por atacado mesmo. Quanto mais melhor. Para terroristas nunca saberem quando um daqueles malditos assassinos silenciosas paira sobre a cabeça deles com o bafo fumegante da morte soprando pelas ventas.
Outro motivo envolve a remoção de burocracia inútil da frente. Guerras necessitam de aprovação do Congresso, apoio da população, empresas vampirescas a bordo para lucrarem astronomicamente após o fim do conflito. Enfim, um aparato completo para matar, pilhar e lucrar. Com os drones e sua própria tropa particular de operadores é possível entrar em praticamente qualquer país do mundo e eliminar alvos com problemas diplomáticos mínimos.
Em suas batalhas rotineiras contra terroristas perigosos, a CIA e o Exército americano possuem um aliado recentemente dissecado na mesa de cirurgia da opinião pública: a NSA, a Agência de Segurança Nacional. Ao contrário de outras agências de espionagem, a NSA não utiliza gente no campo, mas uma vasta rede de análise de dados. É tudo realmente vasto, cada dia mais, para deixar qualquer um que achava que o sistema Echelon era o ápice da espionagem mundial se sentindo pateta.
Em uma guerra não convencional como essa contra o Terror, a NSA processa Gigas e Gigas de bytes de metadados, ligações, emails e tudo mais para armar tocaias para terroristas e torná-los alvos fáceis de drones. Essa frieza leva os espiões a planejarem operações da forma mais desatenta: ao invés de confirmarem a identidade dos alvos, a NSA e a CIA atacavam o celular utilizado em ligações suspeitas. Quem quer que coloque o aparelho na orelha no momento errado pode ser presenteado por um míssil vindo do céu.
Um dos maiores críticos desse esquema é Brandon Bryant, que operou drones de 2007 a 2011, se revoltou com a frieza do esquema e virou crítico dele. Bryant fala com a propriedade de ter pertencido a um dos esquadrões de drones mais mortais a serviço de Obama — o grupo dele ganhou uma condecoração especial por ter matado mais de 1.500 pessoas no campo, muitas delas eles nem sabiam os nomes ou o motivo de estarem na linha de fogo. Como vários outros pilotos de drones, Bryant desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático (PTSD, em inglês).
Segundo ele, em entrevista ao The Intercept, utilizar metadados é uma faca de dois gumes. Enquanto ela pode ser mais precisa que ataques de pequenos grupos de forças especiais, também é responsável pela morte de vários inocentes. A fácil adoção da tática a tornou ainda mais massiva do que se esperava. O resultado é uma política ostensiva de tentativa e erro na matança de terroristas. E, finalmente, terroristas não demoram a tomar consciência da técnica e passam a contar com até 16 cartões SIM para fazer e receber ligações, com agendas que mudam todos os dias entre eles. Os Talebans e integrantes da Al-Qaeda também se reúnem semanalmente e colocam os chips dos telefones deles em um saco e depois cada um sorteia um diferente para si próprio, em uma espécie de roleta russa terrorista.
Bryant é claro ao dizer que isso é particularmente dramático em missões noturnas, quando os pilotos sabem basicamente que o chip está na área, mas não fazem a mínima ideia de quem está com ele. O resultado de todas essas incertezas nas missões é a morte de civis por atacado. Enquanto o Bureau of Investigative Journalism, que afirma utilizar “a metodologia mais conservadora possível”, diz que cerca de 273 civis morreram no Afeganistão, Iraque e Iêmen vítimas de ataques de drone, um dos conselheiros militares de Obama estimou que “drones matam 10 vezes mais civis que aeronaves tripuladas”.
Quando os pilotos e operativos começam a entender como funciona o jogo, geralmente não demora para os cérebros deles desmoronarem e todos enfrentarem uma onda de psicopatia ou mais transtornos traumáticos. Atrapalha muito os planos da Força Aérea esse tipo de piloto precisar ter uma mistura de dureza e inteligência quase única — se eles forem muito duros e insensíveis, é provável que não sejam devidamente cuidadosos com as missões e estraçalhem qualquer um, e os mais inteligentes têm a tendência a se traumatizarem rapidamente.
Em 2013, o repórter Jeremy Scahill e o câmera/repórter investigativo Richard Rowley descobriram uma faceta ainda mais sinistra da Guerra Secreta empreendida pelos americanos. Ela não é apenas empreendida por drones, mas por militares letais de alto calibre. E não apenas em uns poucos países com integrantes da Al-Qaeda, mas em todo o globo, seja com pequenos efetivos ou aliciando militares corruptos locais para se tornarem uma espécie de mercenários a serviço de Tio Sam. O resultado é o documentário chocanteDirty Wars.
A dupla começa investigando um ataque americano a uma cidade quase inacessível no norte do Afeganistão chamada Gardez, na província de Paktia. Toda a notícia acerca do ataque envolveu um curto relatório da OTAN informando o horário e o número de mortos. A área ficava muito longe do que a organização classificava como segura, o que afugentou praticamente todos os repórteres. Mas Scahill foi lá. Por mais que tenha fuçado, não descobriu qualquer ligação terrorista entre os 11 mortos. E quando pediu informações mais específicas sobre o ataque — de que base ele partiu, por exemplo? — a OTAN parecia estar tão no escuro quanto ele.
Quando conseguiu coletar os detalhes com os moradores e a polícia local e cruzar os dados com outros ataques, Scahill encontrou um padrão sinistro: uma unidade não identificada das tropas americanas entrava em vilas distantes e matava diversos moradores aparentemente inocentes. Nunca levavam prisioneiros, segundo os relatórios.
Meses depois, quando americanos e tropas afegãs admitiram a culpa no massacre de Gardez e visitaram o local, a verdade começou a aparecer. Entre os que foram a visita estava o Vice-Almirante William McRaven, que com um pouco de pesquisa se revelou o chefe de uma unidade militar obscura chamada JSOC (ou Comando de Operações Especiais Conjuntas, em bom português).
O JSOC é o que há de mais secreto entre os militares americanos. Ninguém de fora tem controle sobre as ações do Comando — apenas o presidente e suas conversas sobre listas da morte evocadas toda terça-feira poderia receber informes dos homens de McRaven. Ninguém de fora sabe o orçamento anual dos caras e Leis de Acesso a Informação não têm privilégios sobre esse segredo — apenas se estima vagamente que esteja “na casa dos bilhões”. E eles fazem valer seu status de tropa eficiente: no espaço de três meses, mais de 1.700 ataques noturnos foram feitos pelo JSOC. Esses caras simplesmente não dormem!
Como parece claro, o JSOC é mais eficiente que drones. E por isso eles não entram apenas em currais geopolíticos como o Iêmen. Segundo Scahill descobriu, o JSOC já operava de forma ostensiva ou passiva em mais de 70 países. E o número tendia a subir. Como o nome deixa claro, no campo a JSOC age como um híbrido dos Rangers (do Exército), os SEALS (do Team Six dos Fuzileiros Navais) e unidades secretas de espionagem da NSA. No Afeganistão eles eram chamados de “Talebans americanos” e no Iraque de “Guarda Republicana dos Estados Unidos”.
Apenas o poder executivo — o presidente Obama, em outras palavras — tem controle sobre as ações do JSOC, e não é preciso entender muito de democracia para taxar isso de uma protoditadura com relação a política externa. Teoricamente cada ação do grupo exige um protocolo especial que deve ser encaminhado ao Congresso, mas na prática essa burocracia é removida. Um operativo da JSOC falando sob o pseudônimo Hunter a Scahill, afirmou que as operações do grupo são fiscalizados apenas por um oficial militar, o comandante da JSOC e o próprio presidente.
Em campo, os integrantes da JSOC geralmente dão aos seus próprios grupamentos nomes inexpressivos, como a hoje conhecida Força-Tarefa 121, Força-Tarefa Verde, Exército Secreto do Nordeste da Virgínia e por aí vai. Quando chega a hora da ação, recebem as listas gordas de pessoas que devem ser capturadas ou mortas. Para quem acompanha regularmente histórias relacionadas às atividades secretas do governo como Scahill, a descoberta do JSOC era a peça que faltava nas recentes descobertas na escalada de segredos nas estruturas da administração do país na esteira da aprovação da Lei Patriótica, ainda nos tempos de Bush Filho. Com Snowden descobrimos tribunais secretos que decidem a portas fechadas que telefones ou computadores devem ser grampeados, secretamente Obama aprova orçamento para sua própria tropa paramilitar e revisa as listas de cabeças que devem ser cortadas.
A evolução da tropa de Obama pode ser vista pelos números. O grupo foi criado nos anos 80, após os problemas com a Crise de Reféns do Irã e chegou ao 11/9 com dois mil homens. Em 2013 contava com mais de 25 mil. Não parecia muito diferente da unidade de paramilitares da CIA, que também driblava o assédio de integrantes do Comitê de Inteligência do Senado com relatórios falsos sobre suas operações.
O JSOC também é uma espécie de microcosmo de todo Exército — tem campos de tortura e interrogatório (como o Campo Nama), uma unidade própria de inteligência para diminuir a dependência de NSA (chamada Atividade de Suporte de Inteligência, ou simplesmente Atividade) e ganhou bases próprias no Quênia e no Catar — além do Amor Incondicional de Dick Cheney, que a tornou uma tropa internacional especialista em assassinato. Em 2008, o que coincidiu com a nomeação do Almirante McRaven como comandante dos caras, a JSOC ganhou autorização especial de Bush para empreender operações independentes no Paquistão — isso significava que eles estavam livres de qualquer amarra na região, podendo matar quem bem entendesse com o carimbo presidencial embaixo. Essa ordem foi expandida e endossada por Obama anos depois: na prática, o mundo se tornou um imenso campo de batalha pronto para ser desbravado pelas Operações Especiais americanas.
A publicidade chegou ao JSOC apenas com aquela que foi a missão mais bem sucedida e alardeada do grupo: o assassinato de Osama bin Laden, em maio de 2011. Na foto que ficou célebre e mostra a sala de controle da missão, onde altos oficiais americanos aparecem — incluso Obama — acompanhando cada passo da unidade SEAL que invadiu a fortaleza do terrorista, surge em posição central o próprio Almirante McRaven. Com a pequena publicidade em cima do JSOC, jornalistas tentaram aproveitar o momento para descortinar todos os segredos da organização.
Deram com a cara na porta: Obama deixou claro que apenas deu nome aos heróis, ninguém precisava conhecer o caráter deles. Não é pra menos, após a nova forma que o grupo ganhou — de uma unidade para missões de resgate de reféns, a uma tropa de elite e assassinatos em qualquer lugar do globo — sob as mãos do ex-vice presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld, o grupo deveria ser “tão secreto e letal quanto os operativos da CIA”.
As regras frouxas foram fruto da decepção de Rumsfeld quando enviou os operativos da CIA — que não passavam de 700 — para o Afeganistão e constatou que eles eram lentos e mal treinados. Por isso ele fez o óbvio para qualquer viciado em guerra: retirou as amarras dos vários grupos de operações especiais americanos e os mandou para o campo.
(Uma história particularmente importante desse período envolve a trajetória do General Stanley McChrystal, que chegou a ser comandante de todas as forças da OTAN no Afeganistão e foi um dos responsáveis pela integração entre diferentes tropas e agências na guerra e sua modernização no campo de batalha. Sua inteligência também foi sua ruína: ele odiava a burocracia de Washington e esse ódio foi revelado por um artigo seminal de Michael Hastings, para a revista Rolling Stone, chamado Um General com Ideias Muito Próprias e resultou em sua demissão, anunciada por Obama assim que o texto foi publicado.)
Ironicamente, o estouro da bolha do pontocom ajudou secretamente a JSOC. Em 2001, quando centenas de empresas de tecnologia sofriam com fuga de capitais e falências, surgiram os chefes de espionagem do grupo com seu orçamento ilimitado e compraram satélites, especialistas em criptografia e análise de informações e toda a gama e traquitana para ampliar o poder de observação global. Foi nesse contexto que surgiu o Atividade. A banda disponível para os operativos cresceu “mais de 100 vezes” segundo um dos comandantes da equipe, tudo para compartilharem informações secretas com velocidade altíssima, antes que elas perdessem a validade.
Um exemplo de como a coisa funciona na prática: em 2006, durante a Operação Arcadia, no Iraque, as unidades da JSOC combateram por 17 dias integrantes da Al-Qaeda na região. O mais importante não são os combates em si — como dizem os operativos: “Matar é fácil, difícil é localizar o alvo” — mas a quantidade de informações que eles podem recolher sobre os próximos alvos. Só na Operação foram coletados 662 horas de tiroteios ininterruptos, mais 92 DVDs e barris cheios de documentos, o que resultou em ataques em mais 14 localidades, que geraram mais pendrives, mais 704 DVDs e, no fim, a morte do líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi.
Mesmo com tanta informação, a precisão da JSOC nos tempos de caos do Iraque não é lá muito aceitável: cerca de 50%, segundo dois comandantes do grupo em entrevista ao Washington Post. Isso significa que os outros 50% dos mortos são formados por civis e inocentes. Segundo eles, essa taxa é considerada boa para os padrões de guerra.
Mas, fora matar, o JSOC tem muitas outras atribuições. Eles possuem seu próprio grupo de articulação que se envolve em escaramuças com outras agências e grupos secretos, numa tentativa de reforçar o poder do Exército. E como Obama é um especial admirador dos esforços do grupo, eles parecem não ter limites para crescimento nos próximos anos. Entre as pretensões mais fortes estão “ajudar” o governo mexicano no combate ao narcotráfico, o que esbarra em ordens constitucionais que proíbe a presença ostensiva do Exército Americano no território do país; reforçar a “colaboração” com o governo colombiano no combate as FARC, continuar suas missões no Panamá e na Guatemala, além de estreitar sua colaboração com gente da estirpe de Indha Adde e seu exército de mercenários da Somália, e, quem sabe (quem né?), dar uns passeios no leste da Ucrânia e treinar soldados dos países bálticos para mostrar a Putin como que se domina o mundo direito, e logo depois dar um passeio na Arábia Saudita e garantir que o petróleo por lá está seguro, assim como os maiores financiadores do terrorismo internacional e do fanatismo islâmico. Sabe como é, né: para continuar em guerra, é preciso ter um inimigo e é melhor manter o maior ninho deles sob controle.
E onde o JSOC não vai, os drones sobrevoam e atiram mísseis com precisão cirúrgica.
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