AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

em rota de despedida


Yes, Minister




(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário



Depois de ter anunciado que o diabo chegaria em setembro (e de setembro já pouco resta) o PSD foi confrontado com dados de execução orçamental nada consentâneos com a mensagem que estava a ser passada, a de que vinha aí um descontrolo das contas públicas.

Talvez por desespero, no PSD passou-se à fase de acusar “[Mário] Centeno de “falsear” dados da execução orçamental”. Se a mensagem não convém, mate-se o mensageiro. A golpes de demagogia.

Esta acusação foi logo replicada levianamente, entre outros, por Duarte Marques, nada que surpreenda neste defensor acérrimo da ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs, que despachou as críticas públicas de François Hollande com um lapidar “É o que faltava agora um socialista francês a dar lições de moral”. Deixou, contudo, por esclarecer se a ilegitimidade de Hollande é por ser francês, por ser socialista, ou uma mescla das duas (e em que proporção). Neste caso falou apenas de pagar o que se deve, adicionando um tom populista a uma acusação demagógica.

Vão para nota de rodapé as considerações substantivas que tal merece (1), porque o ponto hoje não é esse. O ponto é este: não é Mário Centeno que prepara as dezenas de páginas que refletem os dados da execução orçamental.

Na ânsia de matar o mensageiro o PSD cria danos colaterais importantes. Desde logo a Direção-Geral do Orçamento, os seus serviços, dezenas e dezenas de servidores do Estado, e a sua responsável máxima, no caso, Maria Manuela dos Santos Proença, diretora-geral do Orçamento.

Convém ainda lembrar que estes dados são acompanhados a par e passo, por estes dias, entre outros, pela Comissão Europeia, o FMI, o BCE, duas autoridades estatísticas, a UTAO e o Conselho de Finanças Públicas.

Ora, para além de ser preciso não conhecer – de todo – a diretora-geral para a imaginar a responder a um pedido de adulterar as contas públicas com um singelo e subserviente “Yes, Minister” este é um assassinato de carácter gratuito, e muito perigoso, dela e daqueles que ela dirige.

Em abstrato o regime de nomeação dos titulares de cargos de topo na administração criado pelo PS e muito refinado pelo PSD é um desastre de proporções épicas sob vários pontos de vista: as escolhas não são políticas, mas muitas são políticas, a CRESAP serve apenas para legitimar o anteriormente escandaloso, e os mandatos por cinco anos significam que um Governo pode ter uma administração de topo politizada e hostil, recebida de herança. Na ânsia de irmos para o modelo Inglês, com uma administração com dirigentes independentes do poder político (realidade não isenta de defeitos, como a série que deu nome a este texto divertidamente ilustra) ficámos com o pior de dois mundos: não há garantia de escolha apolítica mas temos prazos longos de mandato. Muito típico do nosso país.

No caso da dirigente em causa, seria de esperar que fosse respeitada pela sua independência estatutária. Mais não fosse porque a insinuar-se, por absurdo, que ela teria sido uma escolha política encapotada, capaz de sacrificar o seu exercício do cargo e serviço ao país a ditames partidários menores, tais seriam, obviamente, os de quem a nomeou … o Governo PSD. Duas vezes. Por Vítor Gaspar em Janeiro de 2012 e por Maria Luís Albuquerque, em Junho de 2014.

Pelo caminho, os senhores deputados usam como carne para canhão da demagogia política os dirigentes e serviços da Administração Pública. Não é propriamente a primeira vez, mas a repetição só agrava a conduta.

Num tempo em que ser Funcionário Público por vezes parece pecado, lançar acusações desta gravidade é contribuir para desvalorizar ainda mais o exercício de cargos que, já agora, são menos bem remunerados do que a média do mercado privado paga para as mesmas responsabilidades.

Qualquer dia o Estado não consegue recrutar ninguém com mérito. Depois venham queixar-se da qualidade dos serviços públicos.

(1) Quanto à acusação de que o Governo está deliberadamente a atrasar pagamentos ela falece quando se lê a Síntese da Execução Orçamenta de Agosto.

Lendo o dito documento até ao fim, tarefa sempre monótona, encontramos o pouco sexy e pouco lido Anexo 16 (pp. 66) onde se vê que os pagamentos em atraso são apenas marginalmente superiores aos do ano passado na mesma data. Tirar daí uma vasta conspiração para falsificar os dados é, no mínimo, forçado. Mais, no que respeita ao passivo não financeiro, na parte sob responsabilidade do Governo (administração central), este até diminui face ao ano anterior (de 504 para 466 milhões de Euros) e face ao mês anterior (de 480 para os mesmos 466). Ora isso é sinal de que não há nenhum descontrolo.

A segunda acusação é a de que o Governo não executou despesa de investimento. Ora, se não executou, queria-se que tal constasse da execução orçamental? Como? Só se fosse falsificando a mesma. Portanto, partir daí para insinuar manipulação das contas públicas é ilógico. Coisa diferente, e bem mais importante, é discutir se não faz falta mais investimento público.

Por acaso faz (ao contrário do que o PSD tem defendido), mas há três fatores que recomendam esperar pelo fim do ano para avaliar essa execução:

O orçamento entrou em vigor só em Maio;
Como qualquer pessoa que não seja um teórico sabe o procedimento para executar despesa pública demora, muitas vezes, meses a cumprir; e
As alterações ao Programa Portugal 2020 poderão ou não vir a permitir inverter esta tendência até ao final do ano.



estatuadesal.com

Afinal o que nos oferecem as televisões privadas em canal aberto?












A SIC e a TVI deveriam rever a sua programação se querem prestar algum serviço…
Os programas da manhã são todos iguais nestes canais, até os separadores, e as mesmas noticias. Nada distingue a SIC e a TVI. Os programas todos o mesmo…
Programas da manhã totalmente desgastados, sem nada de novo e com conceitos totalmente ultrapassados.
Novelas, sem nada de novo, também com histórias desgastadas, sem interesse, com os mesmos atores, sem qualidade, atores sem reação, sem conteúdo…
Programas de Domingo direccionados para explorar os mais velhos a realizarem telefonemas para números de valor acrescentado, com intervalos eternos.
Enfim, as televisões privadas, servem somente as linhas do grande capital no embrutecimento mental das massas…

abrildenovomagazine.wordpress.com

Eleição para secretário-geral da ONU expõe tensões inter-imperialistas - Manobras de bastidores levam a mudança de apoio na corrida à sucessão de Ban Ki-moon


Os membros do Conselho de Segurança vão protagonizar a primeira votação vinculativa a 5 de Outubro

  • Entrar / Registar
O governo búlgaro retirou o apoio a Irina Bokova para o cargo de secretário-geral da ONU, transferindo-o para a vice-presidente da Comissão Europeia, Vitalina Georgieva. Diplomata russa fala em pressões da Alemanha.
http://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/jumbo1200x630/public/assets/img/conselho_seguranca_onu.jpg?itok=u6cMyM_S

O primeiro-ministro da Bulgária anunciou esta manhã a candidatura da vice-presidente da Comissão Europeia, Vitalina Georgieva, para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas. A decisão implica a retirada do apoio à actual directora-geral da UNESCO, a agência da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura.
A decisão do governo búlgaro surge após semanas de especulação em torno desta possibilidade, particularmente após a reunião do G20, que decorreu há duas semanas em Hangzhou (China). A chanceler alemã, Angela Merkel, tentou discutir com responsáveis russos a transferência de apoio de Bokova para Georgieva, de acordo com Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa.
Zakharova, em delarações à Tass, afirmou que «foi dito clara e frontalmente à senhora Merkel que a nomeação, por parte de um país, de um candidato à posição de secretário-geral da ONU é uma decisão exclusiva e soberana desse país, e que qualquer tentativa de influenciar, directa ou indirectamente, decisões desse tipo não são aceitáveis».
Georgieva é comissária europeia desde 2010, primeiro com a pasta da Ajuda Humanitária e Protecção Civil. Em 2014, com a designação de Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão Europeia, assumiu a vice-presidência para o Orçamento e Recursos Humanos. Antes de assumir estas funções, a economista fez carreira no Banco Mundial, chegando a vice-presidente da instituição.
Bokova é diplomata de carreira e assumiu o cargo de directora-geral da UNESCO em 2009. A passagem da búlgara pela organização ficou marcada pela admissão da Palestina como membro da UNESCO, em 2011, que teve como resposta norte-americana a suspensão total do financiamento à agência da ONU. A representante russa na UNESCO, Eleanora Mitrofanova, revelou à Sputniknews que os EUA «não transferem dinheiro há quatro anos» para o orçamento da organização, o que a coloca «em crise». De acordo com a responsável, a UNESCO despediu cerca de 400 trabalhadores nesse período, «um número enorme para uma organização internacional».
O próximo passo do complexo sistema de nomeação para o cargo de secretário-geral da ONU é dia 5 de Outubro, data em que os membros do Conselho de Segurança da ONU poderão «encorajar», «desencorajar» ou manifestar que não têm opinião sobre cada candidatura. Os membros permanentes – China, Estados Unidos da América, Federação Russa, França e Reino Unido – têm direito de veto, o que significa que qualquer candidatura que tenha a oposição de um destes países está condenada. De acordo com informações oficiosas, o português António Guterres foi o melhor colocado nas cinco votações informais já realizadas.
O nome que for consensualizado para suceder a Ban Ki-moon pelos 15 membros do Conselho de Segurança – para além dos cinco membros permanentes, Angola, Egipto, Espanha, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Senegal, Ucrânia, Uruguai e Venezuela – será proposta à Assembleia Geral da ONU, onde os 193 membros da organização são chamados a votar.

www.abrilabril.pt

17 ESCADARIAS COM ARTE URBANA - VEJA COMO SÃO LINDAS !


Já faz algum tempo que a arte urbana se fundamentou como uma forma de arte legítima por expressar as mais variadas expressões e manifestações artísticas, políticas e ideológicas no espaço público. Os críticos empolados dizem que não, evidentemente porque a arte urbana está desvinculada da manifestações de caráter institucional ou empresarial e, sendo assim, não rende dinheiro para estes parasitas fazerem suas análises em revistas e publicações do gênero.

1. Escadaria da 16ª Avenida, San Francisco
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 01
Grande parte desta gente antipática diz que a urbanografia é mero vandalismo, mas parafraseando um famoso pintor que não lembro o nome: "Críticos não pintam quadros", e são incapazes de entender as novas maneiras que os artistas urbanos exploram as superfícies públicas cobrindo-as da mais bela arte.

Este post tem tudo a ver com artistas de rua e pessoas comuns que decidiram decorar algo que a maioria de nós provavelmente não pensaria em dar um aspecto artístico: escadarias públicas ao ar livre.

A maioria dessas peças só podem ser verdadeiramente apreciadas quando vistas a partir de um certo ponto de vista. Podem parecer como manchas aleatórias de tinta para alguém galgando seus degraus, mas alguém olhando para elas debaixo terá a visão completa do artista. Claro está, nem todas elas visam formar imagens, algumas são simplesmente decorações coloridas que tornam o bairro em um lugar mais edificante e colorido.

Algumas dessas obras são o resultado dos esforços de comunidades. Por exemplo, quando as escadas do arco-íris na Turquia foram pintadas, primeiro, pelo governo local, as comunidades próximas responderam pintando suas escadas também. Já as escadarias em mosaico de San Francisco foram criadas por mais de 300 pessoas locais sob a orientação cuidadosa de um casal de artistas.
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 02

2. Valparaíso, Chile
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 03

3. Museu de Arte da Filadélfia
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 04

4. Valparaíso, Chile
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 05

5. Seul, Coréia do Sul
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 06

6. Wuppertal, Alemanha
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 07

7. Sicília, Itália
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 08

8. Rio de Janeiro, Brasil
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 09

9. Beirute, Líbano
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 10

10. Escadarias do teatro musical de Seul, Coréia do Sul
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 11

11. Escadas da Paz, Síria
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 12

12. Rio de Janeiro, Brasil
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 13

13. Angers, França
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 14

14. Istambul, Turquia
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 15

15. Morlaix, França
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 16

16. Teerã, Irã
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 17

17. Beirute, Líbano
17 escadarias com as mais belas decorações urbanas do mundo 18



http://www.mdig.com.br

A arte portuguesa que mais se vende lá fora



Josefa de Óbidos. “A Penitente Madalena Consolada 

Por Anjos” foi arrematado na Sotheby's de Nova 

Iorque, em janeiro deste ano, por 269 mil dólares 

(cerca de 240 mil euros)


Para as coisas boas há sempre mercado. A arte portuguesa não é exceção mas a atenção que o mercado internacional lhe concede hoje faz com que se dê nova vida à joalharia, prataria, mobiliário e porcelana chinesa de outros séculos, ou a nomes como Josefa de Óbidos, Paula Rego, Vieira da Silva, Helena Almeida ou Joana Vasconcelos



Há dois anos, na sede da leiloeira Sotheby’s, em Londres, um cliente português entrou determinado a comprar uma pintura do século XIX. Tinha refletido sobre o assunto e estava na capital inglesa para comprar o quadro. Quando passou a porta deparou-se com uma faixa gigante de um outro leilão. Nela estava impressa outra pintura, a peça principal que iria ser levada à praça nessa tarde. “Lembro-me bem deste quadro, quis comprá-lo há 30 anos em Paris”, disse ao responsável da leiloeira inglesa pelo mercado português, João Magalhães. Para serenar a memória daquela obra, acabara por comprar outro trabalho de um artista da mesma época mas não de tão boa qualidade. O colecionador saiu para almoçar com a família e voltou da parte da tarde. Comprou a peça do século XIX pela qual estava interessado e deixou-se ficar para o leilão. Quando a peça começou a ser licitada levantou a raquete. Não conseguiu deixar de licitar. “Teve de ser. Há 30 anos não conseguia, era muito dinheiro”, desabafou no final. Gastou perto de um milhão de euros.
Histórias como esta podem não ser muitas, mas colecionadores assim existem em bom número no nosso país. São elementos ativos no mercado internacional e também se interessam pela arte portuguesa de qualidade. De gosto renovado e mais internacional, estão normalmente ligados ao mercado financeiro, à medicina e à advocacia, são gente de sucesso e com poder de compra, com idades compreendidas entre os 40 e os 60 anos, como os descreve num estudo a socióloga francesa Raymond Moulin. Passam a barreira dos sete dígitos não com muita frequência mas quando querem realmente uma peça e nunca olham para ela como um mero elemento decorativo, o fator investimento está sempre presente. Têm critérios bem determinados, procuram peças de qualidade e raridade, e, por vezes, são capazes de vender obras da sua coleção para poderem adquirir um trabalho melhor. Em suma, o seu retrato não difere em nada do dos colecionadores internacionais que frequentam as praças de Londres, Nova Iorque, Paris, Hong Kong, Milão ou Genebra. Esses também cada vez mais interessados e atentos ao universo da arte portuguesa.

Paula Rego. Foi uma obra da artista, “The Cadet and his Sister”, de 1988, a peça portuguesa mais cara vendida em leilão
Paula Rego. Foi uma obra da artista, “The Cadet and 

his Sister”, de 1988, a peça portuguesa mais cara 

vendida em leilão

Para o confirmar basta olhar para os números. Nos últimos dez anos, afirma a Sotheby’s ao Expresso, os colecionadores nacionais venderam naquela leiloeira peças no valor de 135 milhões de euros, enquanto o montante que investiram em arte no mercado europeu ultrapassou os 60 milhões de euros. Esta movimentação de ativos e o crescente interesse pela arte portuguesa no circuito internacional levou a que as vendas de peças oriundas de Portugal tivesse duplicado de 2010 para 2015, só na Sotheby’s. Na Christie’s, a venda da coleção Champalimaud, em 2005, rendeu 57,3 milhões de euros, ficando apenas atrás da coleção Albert Rothschild, vendida em 1999 por 85,1 milhões.
A peça portuguesa mais cara de sempre vendida em leilão é, porém, de arte contemporânea. “The Cadet and his Sister” pertence a Paula Rego e foi vendido em julho do ano passado por 1,35 milhões de euros pela Sotheby’s. E aqui entramos verdadeiramente naquilo que é nacional e é bom. A juntar-se a Paula Rego, surge Maria Helena Vieira da Silva, Helena Almeida, Leonor Antunes, Joana Vasconcelos e, já na categoria de pintura antiga, Josefa de Óbidos. Também pela Sotheby’s, Josefa de Ayala e Cabrera, de resto, foi vendida em Nova Iorque, em janeiro de 2015 e este ano, no mesmo mês, repetiu a proeza. A primeira das obras está agora no Museu do Louvre, em Paris, a segunda foi comprada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. No entanto, é nas grandes áreas da prataria, joalharia, mobiliário, azulejaria e arte chinesa que a arte dita portuguesa mais faz mexer o mercado.

Peça rebuscada do século XVI, em prata, vendida em Londres por 668 mil euros
Peça rebuscada do século XVI, em prata, vendida em 

Londres por 668 mil euros

“São peças que datam dos séculos XVII e XVIII, algumas até do século XVI que retratam a arte da expansão portuguesa. Trabalhos que denotam todos os sítios e lugares do mundo por onde andámos, com características exóticas e extraordinárias”, conta João Magalhães. O responsável da Sotheby’s pelo mercado de arte português revela que a maioria dessas peças que agora estão sob o olhar atento da Europa e dos EUA (sobretudo da costa leste) andou perdida um pouco por todo o lado, tendo regressado em larga escala a Portugal durante os anos 80. Sem deixarem de fazer parte do gosto tradicional dos colecionadores portugueses, elas têm protagonizado um crossover interessante nos últimos anos, num vai e vem entre vendas e compras. É ele quem faz a triagem do que é mais interessante e existe em Portugal, separando aquilo que é potencialmente mais valorizado no mercado internacional daquilo que só poderá ser vendido localmente. “99% do que é vendido internamente não têm qualidade suficiente para estarem presentes num leilão de monta da Sotheby’s”, frisa.

Salva portuguesa do início do século XVI, com marca do artesão, vendida por 328 mil euros
Salva portuguesa do início do século XVI, com marca 

do artesão, vendida por 328 mil euros

João Magalhães vem uma vez por mês a Portugal para fazer avaliações gratuitas e tem sempre surpresas. Há duas semanas esteve cá com o diretor do departamento de arte chinesa da leiloeira e foram muitas essas agradáveis surpresas. Sem poder ser preciso, aponta-nos como exemplo, uma garrafa de porcelana chinesa raríssima, que a casa de Nova Iorque vai vender em leilão por uma estimativa de 120 a 150 mil dólares este mês. “Trata-se de uma peça datada de 1552, atribuída à coleção de Jorge Alvares, um aventureiro na China que viveu em casa de S. Francisco Xavier, onde acabaria por morrer, exatamente no mesmo ano da feitura da garrafa.” Já no mobiliário, é o look colonial que mais desperta a curiosidade e as bolsas dos colecionadores internacionais. Os bufetes de pau santo dos séculos XVII e XVIII são muito procurados, aquelas mesas de torcidos e tremidos — a mesa onde o governo toma posse no Palácio de Belém —, bem como os contadores e as cadeiras de couro lavrado têm muita saída. “Há muita oferta proveniente de uma produção forte quase até ao início do século XX. As características barrocas parecem ser muito estimadas lá fora e não é difícil estas peças chegarem aos 14 ou 17 mil euros. Este gosto exótico já não é de agora. Lembram-se da mesa em que o cruel Herr Flick da Gestapo recebia a Helga no famoso ‘Allô, Allô’?”
Trabalhos desta categoria são vendidos sobretudo no Treasures, um evening sale da Sotheby’s que só acontece em Londres e uma vez por ano. Estão lá as melhores peças, objects d'art, mobiliário, prataria e escultura. Foi num desses leilões que, há três anos, um conjunto de peças da coleção do rei D. Fernando, colocadas à venda pelos descendentes da família que a detinha, fizeram furor. E foi noutro desses Treasures que apareceu uma peça de escultura pertencente aos duques de Loulé. Em Genebra, o mercado joalheiro por excelência são as joias provenientes das famílias reais que chamam os compradores, as portuguesas estão incluídas nos lotes com melhores performances. E na Sotheby’s de Hong Kong também não têm feito má figura. De resto, a preferência dos colecionadores de todo o mundo vai para as peças portuguesas com cunho oriental, Cristos feitos em Goa, arte Nanban, Companhia das Índias, lacas e madrepérolas...
“Há ainda muito para fazer. O colecionador português precisa de apoio e a arte portuguesa de muito mais divulgação”, avisa João Magalhães. “Mas já se evoluiu muito no domínio do conhecimento do mercado”, garante. “É preciso sobretudo que as pessoas tenham mais consciência do valor real daquilo que têm. As expectativas são sempre muito elevadas e é necessário a correção sistemática dessas expectativas em relação ao mercado internacional do leilão.” João Magalhães fala em nome da Sotheby’s e da sua estratégia global: “Portugal é um dos mercados que já merecia mais atenção. Está nas mesmas coordenadas que São Francisco, Los Angeles, Bombaim, e Escandinávia.”

Caixa em ouro e vitrina de ourivesaria europeia que foi à praça em Paris em junho de 2013
Caixa em ouro e vitrina de ourivesaria europeia que foi 

à praça em Paris em junho de 2013

O reconhecimento do potencial do mercado português é geral e é-o também internamente, apesar de falarmos de valores diferentes. Estima-se que o mercado leiloeiro nacional ultrapasse os 50 milhões de euros ano e que o mercado primário, o das galerias, ronde a mesma ordem de grandeza, diz-nos Adelaide Duarte, coordenadora do curso de pós-graduação em Mercado de Arte e Colecionismo da Universidade Nova de Lisboa. Já a peça mais cara vendida num leilão em Portugal rendeu 620 mil euros: “Shechina”, de Anselm Kiefer, vendida pela Veritas. À parte os valores, o mercado renova-se pela chegada de outros colecionadores, tanto estrangeiros como portugueses. Os brasileiros, os chineses, os ingleses e os franceses são os que mais compram cá dentro e as suas preferências vão sem exceção para a arte nacional de outros séculos. A arte contemporânea não lhes suscita interesse. São os portugueses que a querem e estão cada vez mais contemporâneos. Os naturalistas — Malhoa, Silva Porto, Columbano e por aí fora — já não são os artistas no top 10, apesar de a procura ser grande sempre que aparece alguma obra destes autores, nem tão pouco os Cutileiros e Cargaleiros. O gosto e o interesse financeiro chega já a nomes como Francisco Tropa, Paiva e Gusmão, Rui Chafes, explica Igor Olho-Azul, da Veritas, e mantém-se em Paula Rego e Vieira da Silva. A artes decorativas e o design são outras das apostas fortes dos compradores nacionais, sempre muito ponderados e académicos nas suas escolhas, adeptos de tudo o que está catalogado e tem a aprovação generalizada de quem escreve sobre arte, mas também pessoas cada vez mais informadas.

Prato em madrepérola de origem indo-portuguesa datado do século XVI, vendido por 11,8 mil euros
Prato em madrepérola de origem indo-portuguesa 

datado do século XVI, vendido por 11,8 mil euros

No entanto, é ainda no domínio das chamadas antiguidades que o mercado está mais ativo. Objetos provenientes de coleções antigas já com critérios de seleção muito bons, de heranças como a dos duques de Palmela ou do Cadaval, são tão procurados pelos clientes nacionais como pelos estrangeiros, que hoje em dia estão cada vez mais preocupados em adquirir peças diferenciadoras para colocar em casa. A arte da expansão portuguesa também é mais procurada internamente e até museus da Ásia, dos EUA e da Europa a vêm cá comprar, afiança João Pinto Ribeiro, presidente do Palácio do Correio Velho, que garante que todo esse tipo de obra é mais barata no nosso país, incluindo os azulejos, também muito apreciados. Mas a tónica está mesmo nas peças relacionadas com o cristianismo mas trabalhadas em marfim no Ceilão, por exemplo. Mercado sempre em alta é o dos diamantes a partir de dez quilates, afirma ainda o responsável do Correio Velho. Já Pedro Alvim, um dos sócios da leiloeira Cabral Moncada, acredita que nos últimos dez anos existe uma mudança significativa no mercado da arte em Portugal. Trata-se, segundo ele, de uma mudança “cultural e sociológica”, que reflete a realidade do país: casas mais pequenas, mais baixas, mais provisórias e mais claras, onde já não há lugar para louceiros de pau santo porque se prefere ir jantar fora a receber. “O que as pessoas querem hoje é o plasma e as viagens. À parte disso, estão interessadas em casas despojadas mas com apontamentos de arte antiga, alguma arte moderna e contemporânea e objetos de design”, afirma Pedro Alvim.

Jarra raríssima do período Jiajing, marcada e datada de 1552, vai à praça esta semana em Nova Iorque com uma estimativa de venda na ordem dos 134 mil euros
Jarra raríssima do período Jiajing, marcada e datada 

de 1552, vai à praça esta semana em Nova Iorque com 

uma estimativa de venda na ordem dos 134 mil euros

Com um mercado estável e um volume de negócios a rondar os 10 milhões de euros, o que estas três leiloeiras portuguesas hoje procuram é alargar a sua clientela. E a aposta aí é unânime, todas propõem uma oferta maior e mais dinâmica através dos leilões online. Aos quais, de resto, os grandes colecionadores mundiais já aderiram há muito.


expresso.sapo.pt