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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Escravidão e liberdade no seio da antiguidade


Bem antes da invenção das máquinas a vapor, a principal fonte de energia produtiva era o corpo humano.
Isso transformava a liberdade assalariada em exceção e o uso de homens cativos, em regra





É difícil precisar quando se deu a origem da escravidão. Alguns historiadores sugerem que a escravidão humana pode ter decorrido da domesticação de animais, fato que ocorreu por volta de 8000 a.C. na região do Crescente Fértil, no Oriente. Porém, os primeiros documentos revelando a existência de escravos são posteriores, oriundos da Suméria, região meridional da Mesopotâmia, e datados de 2000 a.C..



Sociedades economicamente dependentes da escravidão,
como o sul dos E.U.A e o Brasil, até o séc. XIX,
foram consideradas genuinamente escravistas.


Embora as sociedades que se desenvolveram na Mesopotâmia e no Egito antigos tenham conhecido e praticado a escravidão, não são usualmente consideradas pelos estudiosos modernos como "sociedades escravistas", rótulo que, por sua vez, é aplicado a Itália e Grécia clássicas, além de Brasil, o Sul dos Estados Unidos e o Caribe inglês e francês, entre os séculos XV e XIX. Como se vê, trata-se de um conceito que aponta para uma linha de continuidade entre o escravismo antigo e moderno, e desvela uma tendência de longa duração histórica, qual seja, a de que o trabalho compulsório, e sobretudo a escravidão, foi a regra, não a exceção, para obtenção de mão-de-obra. Se há algo peculiar nessa história é o trabalho assalariado livre, cuja propagação e legitimação são relativamente recentes. A escravidão não desapareceu da Europa durante a Idade Média e continuou vigente até o século XIX nas colônias européias de além-mar. E ainda hoje ouvimos falar de "condições de trabalho análogas à escravidão"...

CIDADANIA FORMADORA DA ESCRAVIDÃO

De acordo com o historiador norte-americano Moses I. Finley, os três componentes da escravidão são: a posição do escravo como propriedade, a totalidade do poder do senhor sobre ele e a falta de laços de parentesco, componentes que possibilitavam ao proprietário vantagens com relação a outras formas de trabalho involuntário. Para Finley, uma sociedade é genuinamente escravista quando a escravidão torna-se uma instituição essencial para a sua economia e seu modo de vida, no sentido de que os rendimentos que mantêm a elite dominante provêm substancialmente do trabalho escravo. Para constituição de tal sociedade, menciona três fatores: a propriedade privada da terra e sua concentração em poucas mãos; o desenvolvimento dos bens de produção e a existência de um mercado para venda, e a ausência de mão-de-obra interna disponível, obrigando os agenciadores de trabalho a recorrer a estrangeiros. Essas condições teriam existido em Atenas, e outras comunidades gregas no século VI a.C., e em Roma desde o século III a.C..



Os mesopotâmios forneceram os primeiros registros de escravidão
sistemática dois milênios antes de Cristo. Abaixo, O mercado
de casamentos babilônico, de Edwin Long (1829 - 1891).



O fortalecimento da noção de cidadania foi a principal causa da ausência de mão-de-obra interna e conseqüente recurso a estrangeiros. Tanto em Atenas quanto em Roma, a abolição da escravidão de cidadãos por dívidas cortou um potencial suprimento de braços visando o trabalho para outrem. A posse da terra também passou a ser uma prerrogativa dos cidadãos: propriedade privada da terra e cidadania reforçavam-se mutuamente. Quando falamos de estrangeiros, portanto, não se trata necessariamente de uma questão étnica, mas essencialmente sociológica. Estrangeiro é aquele que está privado de participação política em uma comunidade, ainda que nela possa ter um papel econômico.

Em Roma encontramos escravos desempenhando as mais diversas funções no artesanato e na agricultura



Escrava grega, pintura do alemão
Max Nonnenbruch (1857 - 1922).



Em Atenas e nas cidades gregas, existiam poucas atividades reservadas exclusivamente a escravos, de modo que esses atuavam lado a lado com outros tipos de trabalhadores, nas cidades - em manufaturas de objetos de metal ou cerâmica - e nos campos - sobretudo na produção de azeite e vinho, artigos de valor comercial. Em geral, o serviço doméstico era reservado a escravos. O mesmo ocorria em Roma e cidades da Itália, onde encontramos escravos desempenhando as mais diversas funções no artesanato e na agricultura. Mas cabe lembrar que a exploração de terras cultiváveis em províncias do Império Romano - no Norte da África, Espanha, Gálias e Bretanha - não foi realizada predominantemente por meio de latifúndios escravistas, mas combinando escravidão e trabalho camponês dependente local. No Império Romano temos ainda uma peculiaridade: o uso de escravos e libertos pelos imperadores no serviço administrativo imperial. Em suma, embora juridicamente o escravo fosse classifi- cado como um objeto, uma coisa, do ponto de vista social, sua condição era muito variada.



Cerâmica grega do séc. V a.C. mostra Ájax, o menor, levando
Cassandra cativa, após a tomada de Tróia pelas forças gregas.


ESCADA PARA A LIBERDADE

Atualmente, é observável na historiografia sobre escravismo antigo uma ênfase na apresentação da escravidão como instituição social e não apenas como uma relação de propriedade. Um impulso nessa direção partiu da acolhida de estudos sociológicos e antropológicos que, muitas vezes, têm por foco as relações escravistas em sociedades africanas. Assim, por exemplo, o antropólogo Igor Kopytoff definiu a escravidão como "um processo de transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e inclusive estender-se para as gerações seguintes", transformação que implica em o escravo ganhar uma nova identidade social atribuída pelo senhor. De maneira semelhante, o sociólogo Orlando Patterson, em amplo estudo comparativo, afirma que "escravização, escravidão e manumissão não são meros eventos relacionados; são um único e mesmo processo em diferentes fases". Em síntese, mais importante do que o status de propriedade, que caracteriza o escravo como mercadoria, é a trajetória do escravo, da escravização à possível liberdade.

Embora o escravo fosse classificado como objeto, sua condição era muito variada 

Esta perspectiva permite lançar luz sobre um fenômeno presente na escravidão grega e romana: a manumissão, isto é, a libertação do escravo. Estamos acostumados a entender escravidão e liberdade como termos completamente antagônicos, mas na Antiguidade essa constatação talvez não fosse tão imediata. Um breve olhar sobre a figura do liberto na Grécia e na Itália clássicas ajuda a problematizar esse ponto.

CLIENTES E LIBERTOS EM ROMA

A clientela é uma relação de dependência entre homens juridicamente livres. Esse tipo de relação social não foi exclusivo da Roma antiga, existindo em muitas sociedades antigas e medievais. Na sociedade romana, em que relações de clientelismo estabeleciam hierarquias informais entre o corpo cidadão, estar sujeito a uma série de obrigações e de costumes não era, portanto, privilégio dos libertos, de modo que se podem traçar algumas identidades com os ingênuos - os nascidos livres.

Como ressalta o historiador Fábio Faversani, "cliente e liberto são iguais no fundamental: são estimados - e se estimam - com uma posição social inferior em relação a seu patrono; estabelecem um vínculo duradouro com esse patronus ao qual deverão prestar benefícios em troca de algumas vantagens". Muda a forma de ingresso na relação: enquanto o cliente ingressa voluntariamente, o liberto o faz por necessidade.

É significativo, nesse sentido, que o grego Políbio, que escreveu no século II a.C. suas Histórias, em que narra a progressiva conquista da região mediterrânica pelos romanos, em algumas passagens traduza o termo latino clientes por apeleútheroi, que, no caso da Grécia, era aplicado aos libertos ainda dependentes de seus ex-senhores.



Gladiadores eram escravos das arenas, podendo conquistar
ao longo da vida grande status, fortuna e até liberdade.



Os gregos usavam termos específicos para os escravos manumitidos: apeleútheros(a) e exeleútheros(a), ambos derivados de eleútheros(a), "livre". Embora pareçam sinônimos à primeira vista, representam diferentes estatutos dos escravos libertados. As evidências literárias e epigráficas sugerem que o primeiro termo indicava "estar livre de (alguém)", enquanto o segundo caracterizava uma situação de liberdade plena. Estaríamos diante, assim, de gradações de liberdade, revelando resquícios de condição servil no estatuto de homem livre. O termo apeleútheros(a) revela a continuidade de relações de dependência entre senhores e escravos para além da manumissão, relações essas às vezes reguladas por leis. Por exemplo, o liberto via-se obrigado a continuar servindo o senhor ou seus familiares por um determinado número de anos antes de ser contemplado com a liberdade plena, ou seja, antes de tornar-se um exeleútheros(a). Essa prática perdurou no mundo grego para além do período clássico, como se percebe na inscrição citada abaixo, do começo do século II d.C., de Panticapaeum:

O liberto via-se obrigado a continuar servindo o senhor por um determinado número de anos antes de receber a liberdade plena

"Pereceste, Estratonico, firme em tua sabedoria e métodos sábios, deixando lágrimas para seu pai pesaroso. Amigo [philos] como que divino, estimado entre aqueles de outrora; inumeráveis gerações aprenderão tua encantadora sabedoria por meio dos livros. Sósias, o liberto [apeleútheros] erigiu esta estela em memória de seu próprio senhor, Estratonico, filho de Zeno."

O liberto aqui se refere ainda a Estratonico como seu "senhor", com o qual mantinha uma relação de amizade (philia). Em outras inscrições deparamo-nos com essa forma de apresentação de status indicando um vínculo de dependência. Mesmo depois de plenamente libertado, o liberto também deveria ter um prostatés, um cidadão que o representasse e protegesse, já que na Grécia o ex-escravo não adquiria de imediato a cidadania.

A relação entre manumissão e cidadania também foi um aspecto diferenciador da escravidão em Roma. Os romanos também tinham dois termos para designar o escravo manumitido: libertus(a) e libertinus(a). O primeiro ressalta a vinculação ao ex-senhor, agora patrono, a quem o escravo libertado devia operae (serviços) e obsequium (respeito). Já o termo libertinus qualifica o liberto do ponto de vista político, como portador de cidadania, em que pese suas gradações. Em Roma predominavam três formas de manumissão: pelo censo, isto é, inscrevendo-se o escravo entre os cidadãos no momento do recenseamento; por vindicta, quando a manumissão era intermediada por um magistrado, geralmente o pretor; e por testamento, quando o testador explicitava o desejo de ver livres seus escravos após sua morte. Todas essas formas implicavam um reconhecimento público da condição do ex-escravo, que agora passava a ser inscrito em uma das 35 tribos da cidade de Roma e tinha direito a voto nas assembléias, isto é, o liberto passava a deter não apenas uma liberdade pessoal, mas também uma liberdade cívica.

A legislação do imperador Augusto a respeito da manumissão introduziu fatores novos que passaram a determinar a condição de liberto. A lex Aelia Sentia, de 4 d.C., estipulou que o escravo que recebesse a liberdade antes dos trinta anos de idade não teria direito, mesmo se seu senhor fosse cidadão, à plena cidadania, ganhando o status de Latinus Junianus. Dessa forma, podia adquirir e transmitir propriedade, firmar contratos, mas não lhe era permitido transmitir seus bens a seus herdeiros naturais. A conseqüência dessa situação é clara: em termos de propriedade, o liberto continuava sob a dependência do patrono, para quem revertia o fruto de seu trabalho, ao mesmo tempo em que comprometia economicamente as suas gerações seguintes.


Escravidão e liberdade no seio da antiguidade  2ª parte

A escravidão começou a ser vista como instituição abominável
e desumana apenas após o Iluminismo, no séc. XVIII.
A revolução industrial no mesmo período tornou economicamente
plausível a busca por uma sociedade livre de escravos.


LIBERTOS, FORASTEIROS E LIBERTINOS

Os escravos manumitidos eram tidos como xenoi, estrangeiros, o que significava que não possuíam direitos políticos, não lhes era permitido possuir terras e casar com cidadãos e, ao menos em Atenas, pagavam um imposto especial. Libertos que se estabelecessem em Atenas eram registrados como metecos e como tais pagavam o metoikion (taxa que distinguia os metecos de outros estrangeiros e dos cidadãos), eram alistados para serviço militar e, caso fossem ricos, faziam contribuições monetárias à cidade. Se, por ventura, a polis reconhecesse a lealdade e generosidade de alguns libertos, esses podiam ganhar a isenção de impostos e até a cidadania. Registros de outras cidades gregas nas regiões de Fócis, Etólia, Tessália e Epiro indicam uma diferente condição de liberto se comparada àquela em Atenas, pois os libertos podiam ter terras e o direito à cidadania.

Escravos libertos eram tidos como estrangeiros em Atenas e pagavam impostos especiais 


Taça de prata do século II d.C.
dedicada aos deuses Mercúrio e
Maya pelo liberto P. Aelius Eutychus.

Essa divisão da categoria dos libertos devido a diferentes combinações de escravidão e liberdade é bem ilustrada por uma passagem dos Anais, do historiador latino Cornélio Tácito (55-120 d.C.). Narra ele, que, em 56 d.C., no conselho do imperador Nero, ocorreu uma discussão sobre uma decisão do Senado de conceder aos patronos o direito de revogar a liberdade dos libertos que se mostrassem ingratos (Anais, 13, 26-27), mas prontamente um grupo mostrou-se contrário à proposta com os seguintes argumentos: "Que a culpa de poucos devia ser-lhes pessoalmente danosa, mas sem retirar os direitos do conjunto. Pois este corpo era já muito numeroso. Dele provinha a maior parte das tribos, das decúrias, dos auxiliares de magistrados e sacerdotes e dos soldados alistados nas coortes urbanas. E grande parte dos cavaleiros e muitos senadores não tinham outra origem. Caso se separasse os filhos de libertos, o pequeno número dos homens nascidos livres seria evidente. Não fora em vão que os antigos, quando estabeleceram a divisão das ordens, consideraram a liberdade como bem comum. E tinham estabelecido dois meios de conferi-la, a fim de dar tempo ao arrependimento ou a um novo benefício. Todos aqueles a quem o patrono não tivesse conferido liberdade com as formalidades legais eram mantidos sob um certo vínculo de escravidão. Antes de se conceder a liberdade era necessário examinar os méritos com vagar, mas não revogar o que fora concedido". (Anais, 13, 27)

Havia um reconhecimento positivo do passado servil para a construção da liberdade

A renovação do corpo de cidadãos a partir da escravidão era, portanto, um mecanismo social comum à sociedade romana. É, contudo, difícil quantificar a regularidade da manumissão na Antiguidade greco-romana. Seria toda sociedade escravista, no fundo, indisposta à manumissão, como crêem certos pesquisadores? Talvez a questão seja mais de ordem qualitativa. Mesmo que os índices de manumissão fossem baixos, os escravos tinham como horizonte de expectativa a liberdade, ensejando determinadas estratégias para obtê-la.


SONHO DE LIBERDADE: A manumissão fornecia ao escravo a
possibilidade de libertação e incorporação ao império. Esse vínculo
com o senhor sugere um padrão mediterrâneo de escravidão.
Acima, Mercado de Escravos, de Gustave Boulanger (1824-1888).


SERVOS DE PAI E MÃE

Embora a escravidão e a servidão sejam consideradas formas diversas de obtenção de trabalho, guardam certas similaridades. Ambas eram geralmente hereditárias, com o status transmitido aos descendentes. Ainda que sejam consideradas instituições involuntárias, há também registros de casos em que indivíduos colocavam-se voluntariamente nessas condições subalternas para fins de sobrevivência. Do ponto de vista das diferenças, o servo não é propriedade do senhor; estava preso à terra que pertencia a outrem, prestando-lhe certas obrigações. Na Idade Média, os servos não tinham plena posse de patrimônio, cuja parte é detida pelo senhor e não transmitida a descendentes, e deviam taxas, como a formariage, paga após o casamento, revelando uma limitação de liberdade matrimonial.

Se, por um lado, não podemos equiparar o servo ao escravo, há que se notar que a servidão implicava num abuso corporal comparável àquele retratado nas evidências greco-romanas relativas à escravidão. Por exemplo, nos Capítulos do Projeto de Concórdia entre camponeses e seus senhores na Catalunha do século XV registrou-se a seguinte queixa: "Em muitas partes do dito principado de Catalunha, alguns senhores pretendem e observam que os ditos camponeses podem justa ou injustamente ser maltratados à sua inteira vontade, mantidos em ferros e cadeias e freqüentemente recebem golpes. Desejam e suplicam os ditos camponeses que isto seja suprimido e não possam ser mais maltratados por seus senhores, a não ser por meio da justiça".

MEU ESCRAVO, MEU AMIGO 

Os libertos no mundo grego e romano, a despeito de diferenças no tocante à obtenção de cidadania, compartilhavam um elemento comum e importante para a compreensão da mentalidade servil, que aparece materializada nas inúmeras inscrições encontradas na bacia do Mediterrâneo: um reconhecimento positivo do passado servil para a construção da liberdade. Além da inscrição do liberto grego Sósias, citada acima, podemos transcrever a inscrição conservada na tumba de um liberto em Pompéia, cidade italiana soterrada pelas cinzas do Vesúvio em 79 d.C.:

"Publius Vesonius Phileros, liberto [libertus] e Augustal, fez este monumento enquanto vivia para si e sua patrona, Vesonia, filha de Publius, e para Marcus Orfellius Faustus, liberto de Marcus, amigo."

Esta tumba contém três estátuas - das pessoas citadas na inscrição - e Phileros aparece vestindo uma toga, atributo de um cidadão romano. O título de Augustal era conferido àqueles indivíduos responsáveis pelo culto imperial nas cidades do Império. A tumba funcionava como um túmulo familiar, com Vesonia, a patrona do liberto, representando a fundadora da família, à qual Publius manifesta seu pertencimento. Os exescravos tornavam então públicas suas identidades a partir dos laços de dependência com seus senhores. Não há vergonha no passado servil, pelo menos entre aqueles libertos que lograram galgar uma projeção em suas comunidades.

Os estudos clássicos ainda estão presos a distinções que impedem uma visão mais inter-relacionada das sociedades antigas

Essa íntima associação entre escravidão e liberdade na Antiguidade greco-romana faz-nos refletir sobre a separação que ambos os conceitos sofreram na cultura ocidental, principalmente a partir do século XVIII, com a Revolução Francesa, e com o movimento abolicionista na Europa e Américas. Também nos leva a ponderar sobre a arbitrariedade das divisões que comumente aplicamos ao estudo do passado. As modalidades de manumissão na Grécia e Itália clássicas, com seus pontos de aproximação, não seriam indicativas de um "padrão mediterrânico de escravidão"?

Enfim, os estudos clássicos ainda estão presos a certas distinções que impedem uma visão mais inter-relacionada das sociedades antigas, de modo que estudos comparados são bem-vindos para compreender a complexidade de suas modalidades de trabalho compulsório e relações escravistas.

"HOMEM BOM, apesar de escravo, É LIVREO MAL, mesmo reinando, É UM ESCRAVO, e não o escravo de um único homem, mas - o que é pior - o escravo de tantos mestres quantos forem seus vícios."
Santo Agostinho


universodahistoria.blogspot.pt

As Contribuições de Galileu e Newton


Para compreender melhor as contribuições de Galileu e Newton, é preciso retornarmos ao pensamento anterior vigente que, como vimos na aula História da Epistemologia, era basicamente o de Aristóteles, o qual prevaleceu na Europa durante toda a Idade Média.

Aristóteles

Vale a pena lembrar que, embora Aristóteles tenha escrito um livro intitulado Física, este é, na verdade, uma coleção de estudos filosóficos sobre a Natureza, tanto sobre os seres vivos como sobre os inanimados.
plantaAdemais, na 'física' aristótelica, 'movimento' era um conceito mais vasto,metafísico, que englobava qualquer tipo de mudança, não só de posição, incluindo as noções de 'crescimento', 'alteração' e 'mudança'.

Assim, o crescimento de uma planta ou a mudança da cor de uma substância eram, também, considerados 'movimentos'.
No Física, Aristóteles investiga os princípios e as 'causas' das coisas e das 'mudanças'.

Causas Aristotélicas

Segundo ele, há quatro causas:
  • causa material: aquilo de que a coisa é feita
  • causa formal: a forma e o padrão da coisa
  • causa eficiente - ou motora: origem de uma mudança ou movimento da coisa
  • causa final: aquilo em virtude do qual se faz algo
Em seu livro Fédon, Platão afirmava que a verdadeira explicação de qualquer fenômeno físico deve ser teleológica (estudo das finalidades, não confundir com Teologia - o estudo sobre a divindade). Enfatizando a distinção entre as causas necessárias (causa material) e causas suficientes (causa teleológica) das coisas, ele dizia que o movimento e a ação dos corpos dependem destas últimas, as quais seriam determinados pelas finalidades impostas a eles pelo Demiurgo (Deus-artesão).
Aristóteles desenvolveu, então, a ideia de causa finalque ele acreditava que era explicação determinante de todos os fenômenos, ou seja, além das causas materiais, necessárias para o fenômeno, a finalidade desse fenômeno, imposta externamente, é que iria determinar se ele iria realmente acontecer ou não. 
Note-se que essa causa final, teleológica, por vezes, sugere um propósito e uma intencionalidade nos fenômenos, como se a flecha 'quisesse' atingir o alvo e a semente 'quisesse' tornar-se uma árvore.

Exemplo

estátua de ZeusUma estátua:
  • causa material: mármore de que foi esculpida;
  • causa formal: forma que o escultor realizou, p.ex., Zeus;
  • causa eficiente: escultor;
  • causa final: sua função de ser uma obra de arte

Exemplo

pedra jogadaPedra em movimento:
  • causa material: substância da pedra;
  • causa formal: forma de pedra ou forma da trajetória;
  • causa eficiente: atirador que a pôs em movimento;
  • causa final: ponto de destino do movimento, 'lugar natural', que a 'atrai'

A Física Aristotélica

Para Aristóteles, o movimento é impossível no vazio, pois falta um referencial com relação ao qual se determina o movimento.
Aristóteles estava bem consciente de que, no vazio (vácuo), sem a resistência do ar, todos os corpos, 'leves' e 'pesados' cairiam à mesma velocidade, o que para Aristóteles era absurdo; 'portanto' ele concluiu que o vácuo não pode existir (!)
Para ele, o movimento é sempre visto como um efeito, resultado de uma causa, a força:
Nullum violentum potest esse perpetuum (o movimento forçado não pode manter-se sozinho) (Aristótles, De Caelo, apud Dugas, 1955, p. 21)
Isto quer dizer que, para Aristóteles, cessada a força (causa), cessa o movimento (efeito).
Com isso, o equivalente à 2ª Lei de Newton 
F = ma,
onde
  • F é a força necessária para causar o movimento, 
  • m é a massa do objeto e 
  • a é a aceleração resultante, 
ficaria algo como
F = pv,
onde 
  • p é o peso do objeto e 
  • v é a velocidade do movimento.

A Busca do Lugar Natural

De acordo com a 4ª causa aristotélica, vista acima, o ponto de destino do movimento era considerado o lugar natural daquele objeto.
Com isso, haveria dois tipos de movimento:
  • o movimento natural, com a compulsão própria do corpo, de volta a seu 'lugar natural'
  • o movimento forçado, quando um agente externo move o corpo, para fora do lugar natural
Por outro lado, haveria dois tipos de corpos:
  • os 'graves' que têm seu 'lugar natural' na Terra
  • os 'imponderáveis' que tendem para o céu

Os quatro elementos

Para explicar essa noção de 'lugar natural', Aristóteles utilizou a teoria dos quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Segundo ela, todas as coisas seriam compostas de misturas desses quatro elementos.
Aristóteles - Quatro elementos
Ora, esses elementos teriam gaus diferentes de 'gravidade': 
  • terra na águaa terra afunda na água,
  • ar na águao ar flutua na água
  • fogo no aro fogo flutua no ar
Assim, se poderia estabelecer a seguinte hierarquia:

símboloelemento
Aristóteles - elemento fogoFogo
Aristóteles - elemento arAr
Aristóteles - elemento aguaÁgua
Aristóteles - elemento terraTerra

Os dois primeiros, tendendo para cima, teriam no céu o seu lugar natural, enquanto que os dois últimos teriam lugar natural no chão, como, aliás, indicam seus símbolos tradicionais.
Com isso, conforme o elemento que predominasse na mistura, a substância seria mais 'leve' ou menos 'pesada'.
Por exemplo, 
  • pedrauma pedra seria uma mistura com predomínio da terra e seria, portanto, pesada('grave') e seu lugar natural seria o chão
  • nuvemas nuvens seriam formadas por uma mistura de água e ar em que predomina o último, fazendo com que fossem
  • imponderáveis e flutuassem no ar, tendo o céu como lugar natural.
Naturalmente, em a 'física aristotélica' indo além dos fenômenos físicos, como os entendemos hoje, a noção delugar natural poderia, filosoficamente, ser estendida para várias outras áreas da vivência humana.
Assim, por exemplo, numa sociedade estratificada como a grega,
  • escravos na Grécia Antigaum filho de escravos teria seu lugar natural na base da pirâmide social e, com isso, não podia almejar qualquer ascensão social, pois isso seria contra natura (antinatural, contra as 'leis da natureza')
  • mulher na grécia antigauma mulher, também em posição inferior na escala grega, teria seu lugar natural na casa, na procriação e educação dos filhos; uma mulher que conseguisse uma influência maior seria uma 'desnaturada', por exemplo, uma prostituta ou uma bruxa
  • José do Egitoum nobre, com lugar natural no topo da escala social, não poderia nunca 'cair' dela; de fato, nas lendas e narrativas, muitas vezes o 'herói' é feito escravo, mas sempre o destino se encarrega de fazer oseu 'valor' ser reconhecido, conquistar os favores de seu amo e, portanto, recolocá-lo no seu lugar natural. Veja-se, por exemplo, a história bíblica de José que foi feito escravo e, depois, se tornou chanceler do Egito.
arco e flechaEmbora essa teoria explicasse razoavelmente bem a queda e o movimento vertical dos corpos, já na época de Aristóteles, todavia, questionava-se, por exemplo, o que manteria uma flecha em movimento após deixar o arco que a pos em movimento? Para responder essa pergunta, Aristóteles utilizou a idéia de antiperistasis.
Segundo ela,
  • a flecha, ao avançar, deixaria vazio o espaço que ela ocupava antes; 
  • como, segundo ele, a Natureza não aceita o vazio, o ar à frente da flecha viria preencher o espaço vazio com violência; 
  • essa violência empurraria a flecha mais para a frente; 
  • e assim por diante.

Éter - o quinto elemento

Todavia, embora descrevessem bem os fenômenos no mundo sublunar (terrestres), formado por corpos sujeitos a geração e corrupção (criáveis e deterioráveis), a matéria celeste é constituída por um éter inextinguível e incorruptível.

A Contribuição dos Árabes

O chamado Islamismo floresceu no século VII na Península Arábica, a qual integrava territórios onde a ciência já se tinha desenvolvido, tais como o Egito sob os Ptolomeus e a Pérsia dos sassânidas.
Seu livro sagrado, o Corão, valorizava a Ciência, considerava que a Medicina era uma arte próxima de Deus. 
Inicialmente, era uma comunidade fértil, com uma grande variedade de povos e raças muito tolerante com estrangeiros e novas idéias.
Vários manuscritos gregos e de outras partes do mundo, especialmente os de Platão e de Aristóteles, foram traduzidos para o árabe e, nos finais do século IX, já tinham sido assimilados pela civilização islâmica. 
No entanto, em vez do Escolasticismo paralizante da Europa, a ciência árabe avançou: 
  • não seguiu cegamente a tradição teórica dos gregos, mas colocou os velhos mestres em dúvida e
  • atribuiu grande importância à observação e a experimentação.
Dentre seus vários pensadores, vale destacar

Abu Rayhan al-Biruni (973-1050)

Mais conhecido no Ocidente como Al-Biruni, era viajante, tolerante e eclético e deixou uma monumental obra, com cerca de 150 manuscritos, dedicada a temas de matemática, astronomia e áreas próximas,medicina e farmacologia, metais e pedras preciosas, religião, filosofia, história da Índia.

Ibn al-Haytham

Conhecido no Ocidente como Alhazen, foi um dos maiores físicos de todos os tempos. Escreveu sobre Matemática, Medicina, Fisiologia, Psicologia e percepção visual. 
Introduziu os modelos de partícula para a luz e de intromissão da visão: vemos porque a luz refletida pelo objeto entra no nosso olho. 
Precedendo Bacon e Galileu, defendeu a abordagem quantitativa e empírica da ciência. 
Formulou o que se tornaria, muito depois, conhecido como o Princípio da Mínima Ação, proposto por Maupertuis, em 1744 (conforme veremos na aula A Revolução na Matemática - Parte 2).
Sobre ele, o físico Abdus Salam, ganhador do Prêmio Nobel, escreveu: 
Ibn al-Haytham foi um dos maiores físicos de todos os tempos. Ele fez contribuições experimentais de níveis mais altos na óptica. Ele enunciou que um raio de luz, ao passar por um meio, segue o caminho que é mais fácil e "mais rápido". Aqui ele estava antecipando por vários séculos o princípio de Fermat do trajeto mínimo da luz. Ele enunciou a lei da inércia, que viria a ser mais tarde a primeira lei de Newton. A parte V de "Opus Majus", de Roger Bacon, é praticamente uma explicação da Óptica de Alhazen. (Islam and Science. In: C. H. Lai. Ideals and Realities: Selected Essays of Abdus Salam. 2nd ed.. Singapore: World Scientific, 1987, p. 179-213)

Escolástica

EscolasticismoDurante a alta Idade Média, várias igrejas católicas davam aulas no próprio salão da igreja que eram destinadas aos filhos de nobres que pretendiam seguir a carreira religiosa. Aos poucos, as escolas ganharam salas adjacentes e novos edifícios. No século 12, deram origem às universidades. (NARLOCH, 2013, p. 55).
Criadas e dirigidas por padres, começaram a surgir as primeiras universidades na Europa:
  • Bolonha (1088)
  • Paris (1150)
  • Oxford (1167)
  • Modena (1175)
  • Cambridge (1209)
  • Salamanca (1218)
  • Coimbra (1290)
Compare-se com a nossa mais antiga: Paraná (1912). Aliás, segundo Olive, 
"a criação da Universidade do Rio de Janeiro, ocorrida em 1920 por iniciativa do Governo Federal, ocorreu devido à visita que o Rei da Bélgica faria ao país, em virtude das comemorações ao Centenário da Independência do Brasil. Com isso, o governo brasileiro pretendia conceder o título Doutor Honoris Causa, porém o país carecia de uma instituição propriamente universitária." (OLIVE, 2002)
No entanto, compare-se, também, com as, frequentemente esquecidas, mais antigas do mundo:
  • Karueein (Marrocos) (899) 
  • Al-Azhar (Egito) (988)
As universidades européias foam organizadas segundo o esquema de três conteúdos iniciais (o Trívio):
  • Gramática,
  • Retórica e 
  • Dialética,
seguidos pelo Quadrívio:
  • Aritmética (Numerologia), 
  • Geometria, 
  • Música e 
  • Astronomia (Astrologia).
o trívio e o quadrívio nas universidades européias
Apesar disso, embora a Teologia fosse o curso com maior status, "exigia-se dos filósofos naturais das faculdades que se abstivessem de introduzir Teologia e temas de fé na filosofia natural" (GRANT, apud NARLOCH, 2013, p. 55).
Conforme vimos na aula Racionalismo e Empirismo, aEscolástica era o método de ensino prevalecente nas universidades europeias durante a Idade Média, com forte ênfase na dialética e na inferência, dogmático, embasado na Bíblia e nas obras de Aristóteles e de Platão como as únicas fontes de conhecimento.
cabeça de um alfineteNo método escolástico debatiam-se questões e opiniões, fundamentando-as com a razão e a retórica, sem uso da Matemática. Ficou famosa a questão "Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete?" e suas variantes, tal como aparece na Summa Theologica (ca. 1270) de Tomás de Aquino.
Com o avanço do capitalismo urbano, houve a necessidade de pessoas habilitadas para a função pública, o que contribuiu para a ascensão do Humanismo renascentista, com sua veneração à Antiguidade Clássica, expandindo-se de Florença para toda a Europa, entre os séculos XIV e XVI, com sua valorização 
  • do Humanismo, em oposição à Teologia;
  • do ensino de artes liberais, em oposição à Escolástica;
  • do Homem em oposição a Deus; 
  • das línguas vernáculas, em oposição ao latim eclesial;
  • a livre circulação da informação, em oposição ao centralismo da Igreja;
  • e até da tipografia uncial, em oposição à gótica (ou escolástica) medieval.
letras unciais
Com o desenvolvimento do capitalismo, muitos burgueses enriqueceram e tornaram-se mecenas, patrocinando artistas, literatos e atividades artísticas e culturais em geral. Segundo Roque (2012),
"Os humanistas eram, em sua maioria, autodidatas que trabalhavam fora das universidades, sob o regime de mecenato, e por isso, não aderiram ao espírito escolástico. [...] Muitos humanistas eram matemáticos da corte e alternavam suas atividades de ensino, ou literárias, com funções políticas" (ROQUE, 2012, p. 296).

Filopono (490-570)

Joannes Philoponus (do grego Philoponus, amante da labuta), também conhecido como João, o Gramático, foi um filósofo cristão e neoplatônico grego nascido na Alexandria, norte do Egito. Foi, talvez, o primeiro a rejeitar idéias básicas de Aristóteles. Escreveu cerca de 40 livros sobre Teologia e Filosofia.
Rejeitou a antiperistasis e o motor interno de Aristóteles, propondo, em seu lugar, a ideia do impetus, propriedade semelhante ao 'impulso', infusa no objeto quando do seu lançamento e responsável pela continuação de seu movimento, comparável ao calor que se infunde e acompanha um objeto que tocou uma fonte de calor.
No entanto, sua crítica a Aristóteles foi tão radical que foi negligenciada pelos Escolásticos e ignorada por séculos até o século XIV, quando Buridan as retomou e desenvolveu.

Jean Buridan (1300-1358)

Jean BuridanBuridan foi um sacerdote francês.
Foi aluno de Ockham.

Foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média.

Desenvolveu a teoria do impetus de Filopono, predecessora do conceito da inércia.

Teoria do impetus

impetus pode ser entendido como a mpressão de um poder de auto-movimento.
Buridan - Teoria do Impetus
Segundo essa teoria, a trajetória do projétil teria três fases:
  1. movimento puramente violento, em linha reta, na direção em que o motor o colocou em movimento. O impetus infuso supera o peso natural do projétil (trecho A B na figura); 
  2. movimento misto violento e natural, em trajetória curva para baixo. O impeto do projétil é continuamente enfraquecido por causa da resistência do ar e por causa do peso do projétil (trecho B C na figura); 
  3. movimento puramente natural, verticalmente para baixo. O ímpeto está esgotado (trecho C D na figura).

Renascimento

Nicolau Copérnico (1473-1543) 

Jean BuridanComo vimos na aula Realismo e EmpirismoCopérnico superou a meraacumulação de dados astronômicos e ajustes no modelo Ptolomaico e propos um novo modelo, heliocêntrico, uma explicação mais plausível para as observações.
Copérnico - Heliocentrismo
Vimos também que, segundo Roque (2012), 
"antes de 1580 quase nenhum astrônomo acreditava que o modelo de Copérnico pudesse representar a estrutura física do cosmos. [...] até os anos 1570, quando as observações realizadas por Tycho Brahe abriram novas possibilidades. Somente por volta de 1600 os astrônomos europeus pareciam estar preparados para aceitar a realidade física do sistema heliocêntrico" (ROQUE, 2012, p. 294-295).

Classicismo

"O Classicismo produziu obras que retratam um universo harmônico, onde as leis matematizáveis da natureza regulam todo o seu funcionamento." (REIS; GUERRA; BRAGA, 2006)
Newton - Machina Mundi

Renascimento (sec. XIII-XVI) 

O homem medieval via em Deus a razão de todas as coisas.
Os renascentistas acreditavam no poder humano de julgar, de criar e construir.
O Renascimento caracteriza-se por enormes progressosnas artes, nas leis e nas ciências. 

Ideais renascentistas:

  • Antropocentrismo
  • Hedonismo
  • Racionalismo
  • Otimismo
  • Individualismo
  • valorização do abstrato, do objetivo
  • visão de mundo clássica e humanista
  • ruptura com o medieval
  • dessacralização do religioso 

Artistas renascentistas

  • Leonardo da Vinci,
  • Michelangelo,
  • Botticelli,
  • Rafael,
  • El Greco,
  • Donatello,
  • Bramante,
  • etc.
Arquitetura Gótica: catedrais: homem dominado pelo espaço, olhar para cima, em busca de Deus
Gótico - Catedral
Arquitetura Renascentista: perspectiva: homem domina o espaço, olhar para a frente, para o futuro brilhante que aguarda o Homem e é construído por ele.
Renascimento - Perspectiva

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Leonardo da VinciLeonardo da Vinci foi pintor, escultor, arquiteto, físico, engenheiro, botânico e músico do Renascimento Italiano.
Foi considerado um dos maiores gênios da história da Humanidade, embora sem nenhum estudo formal na maioria dessas áreas, com um QI estimado entre 180 e 220.
Leonardo foi aluno e amigo de Luca Pacioli, de quem ilustrou o famoso livro De Divina Proportioni que tratava da proporção ideal, conhecida como Razão Áurea.
Seu Homem vitruviano, baseado na obra de Marcus Vitruvius Pollio, arquiteto e engenheiro romano do séc. I a.C., tornou-se um símbolo da Renascença e, também, um ícone da cultura pop, tendo sido reproduzido de inúmeras formas, desde o euro até em camisetas.
Leonardo - Homem vitruviano
Assim, segundo Vitrúvio, as proporções ideais de um ser humano devem ser:
  • sua altura deve ser igual a 4 antebraços, 10 mãos ou 4 ombros
  • o antebraço deve medir 6 palmos
  • o pé deve medir 4 palmos
  • o palmo deve medir 4 dedos
  • etc.

Produção

Leonardo, na verdade, teve poucas obras acabadas, mas dentre as mais famosas do mundo!
Leonardo - Mona Lisa
Leonardo - A Última Ceia
Leonardo - A Virgem das Rochas

Invenções

Leonardo deixou cadernos com mais de 13 mil páginas de notas e desenhos fundindo Arte e Ciência, incluindo esboços de
  • salva-vidas,
  • bicicleta ,
  • pára-quedas,
  • planador,
  • helicóptero,
  • submarino,
  • canhões,
  • tanque,
  • pontes,
  • fortalezas
  • etc. 
As folhas desses cadernos dispersaram-se em códices em várias bibliotecas e museus do mundo, alguns deles disponíveis online. Dentre eles, o Codex Atlanticus e o O Codex Leicester, o único em mãos privadas, propriedade de Bill Gates, que é exibido apenas uma vez por ano em diferentes cidades do mundo.
Leonardo - Codex Atlanticus

Anatomia

Leonardo participou em autópsias, fez desenhos do esqueleto, músculos, nervos e vasos para produzir melhores pinturas. Geralmente completava suas ilustrações com esboços anatômicos.
Leonardo - Esboços anatômicos

Sfumato

Sfumato é uma técnica aperfeiçoada por Leonardo que consiste em sucessivas camadas de cor em gradações sutis, dando a sensação de profundidade, forma e volume. Passou a ser uma técnica universal, um conhecimento básico em pintura. 
Leonardo - Sfumato
Chiaroscuro é outra técnica criada por Leonardo, uma forma de perspectiva tonal. O volume tridimensional é sugerido por luzes e sombras fortemente contrastantes. Foi muito usada por Caravaggio, como se verá a seguir
Leonardo - Chiaroscuro

Perspectiva 

Perspectiva é uma técnica geométrica de representação da profundidade no plano. Integra cor, luz, forma e espaço. Tendo por base a projeção cônica deIbn Al-Haitham (mais conhecido pelo seu nome latinizado Alhazen, como vimos na aula História da Epistemologia),  foi redescoberta por Brunelleschi, arquiteto e escultor florentino renascentista.
Perspectiva
Ela satisfaz o objetivo renascentista de precisãosolicitado pelas ciências e substitui a hierarquia simbólica que era representada pelos diferentes tamanhos relativos dos personagens, técnica usada desde os egípcios.
Perspectiva simbólica
Segundo Edgerton (1995), no entanto, "não há nenhuma naturalidade na representação espacial a partir da perspectiva. De fato, a Perspectiva foi tema de interesse Ocidental, "a utilização desta é fruto da cultura européia ocidental. A Arte Oriental a dispensou até o sec. XIX.
De fato, "os chineses não conseguiam, em um primeiro momento, reproduzir a perspectiva ocidental. Eles não conseguiam ‘ler’ os desenhos ocidentais, pois não trabalhavam com as particularidades da perspectiva geometrizada." (Edgerton, 1995)
Segundo Woortmann (1996), tanto na Ciência como na Arte, ocorreu uma nova concepção de natureza.
"A concepção tradicional era a do propósito: o propósito do Sol é o de gerar luz para os homens, o que explicava sua existência. Contra essa teleologia se manifestaram os pensadores do Renascimento e mais notadamente Galileu, com o novo significado de natureza: um nexo auto-regulado de eventos, obedecendo a suas próprias leis sem qualquer propósito para os humanos. Uma natureza desencantada." (WOORTMANN, 1996)
Para os pioneiros da pintura renascentista, alcançar um maior realismo implicava olhar a natureza,distanciando-se de seus objetos; tomar um "ponto de vista" em sentido literal. A estratégia de Distanzierung -réculer pour mieux sauter [recuar para saltar melhor] - foi comum tanto a cientistas quanto a artistas. (WOORTMANN, 1996)
Segundo Reis, Guerra e Braga (2006), 
"é importante salientar que a invenção da perspectiva e do claro-escuro foi extremamente importante, até mesmo crucial, para tornar possíveis as observações empíricas e os registros acurados que fundamentam a ciência moderna." (REIS; GUERRA; BRAGA, 2006)
Segundo Reis, Guerra e Braga (2006), o conhecimento de desenho, especialmente do chiaroscuro, que Galileu adquiriu em Florença, lhe possibilitou compreender a aparência da Lua melhor do que seus antecessores. 
Segundo esses autores, a geometrização da projeção das sombras pode lhe ter permitido perceber as irregularidades da superfície lunar, permitindo-lhe, até mesmo, determinar a altura das montanhas lunares, novamente valendo-se da perspectiva. 
Com isso,
"a Lua representada por Galileu deixou de ser a imagem da perfeição – associada, no imaginário cristão, à Imaculada Conceição – e passou a ser mais um corpo celeste com características comuns, tal como a Terra. (REIS; GUERRA; BRAGA, 2006)

Caravaggio (1571-1610)

CaravaggioA pintura de Caravaggio era dramática, com fundo raso, escuro ou totalmente negro, com focos intenso de luz sobre os detalhes da cena em primeiro plano (rostos, corpos, etc.).
Utilizava uma variante da técnica de chiaroscuro chamada tenebrismo 
Caravaggio - A Ceia de Emmaús
Caravaggio - Madona e Menino Jesus com Serpente
Atendendo a encomenda para decorar a Igreja São Luis dos Franceses, em Roma, esta primeira versão foi contundentemente rejeitada por retratar um São Mateus homem do povo, com pés sujos, segurando com dificuldade a caneta nas mãos pouco habituadas,necessitando do auxílio do anjo. Infelizmente, esta versão foi destruída na Segunda Guerra Mundial.
Caravaggio - S. Mateus e o Anjo
Esta segunda versão, muito idealizada, foi aceita.
Caravaggio - A Inspiração de São Mateus
Nesta obra, Caravaggio representou um Cristo atlético, o que chocou seus contemporâneos.
Caravaggio - Deposição de Cristo
Nesta obra, Caravaggio chocou seus contemporâneos por utilizar uma prostituta que havia morrido afogada como modelo para o rosto da virgem.
Caravaggio - A morte da virgem

vídeo sobre Caravaggio

Georgius Agricola (1494-1555)

Georgius AgricolaAgrícola é considerado o pai da geologia como ciência.

Gerolamo Cardano (1501-1576)

Gerolamo CardanoCardano (também grafado como Jerôme Cardan, Hieronymus Cardanus, Dzhirolamo Kardano, etc.) foi um médico, físico e matemático italiano.
Cardano foi o iniciador da teoria das equações algébricas.
Criou o sistema de transmissão com eixo cardã, utilizado até hoje em motocicletas e veículos 4×4.
Foi, também, o primeiro a descrever clinicamente a febre tifóide.
Cardano publicou (apropriando-se de) o método deScipione del Ferro e Tartaglia p/ resolver a equação algébrica de 3º grau.
Em 1550, discutiu em seu livro De Subtilitate as diferenças entre forças elétricas e forças magnéticas.

Tycho Brahe (1546-1601)

Tycho BraheTycho foi um nobre e astrônomo e alquimista dinamarquês. Foi o astrônomo imperial de Rodolfo II, imperador do Sacro Império Romano-Germânicorei da Boêmia e rei da Hungria.
Tycho foi o último dos grandes astônomos a praticarastronomia óptica, sem telescópio. Apesar disso, obteve dados precisos a 1/60 de grau. Seus resultados eram acurados, pois fazia a média de medições repetidas, procedimento inovador para a época.Forneceu dados astronômicos para Kepler.
Tycho foi um dos seus primeiros utilizadores dos logaritmos, inventados por Napier, que simplificaram os cálculos manuais, bem como da trigonometria esférica, como veremos na aula A Revolução na Matemática.

A Supernova de 1572

Em 1572, Tycho observou uma nova estrela na constelação de Cassiopéia, hoje conhecida como SN1572. Chamou-a de nova, cunhando o termo, usado até hoje. 
Tycho - A Supernova de 1572
Da mesma forma, mostrou que os cometas não são meros fenômenos atmosféricos, como se pensava antes. Essa descoberta abalou a fé na doutrina cristã-aristotélica da perfeição e imutabilidade da esfera celeste. O céu muda! 
No fim da vida, foi ajudado por Kepler (vide adiante), a quem, após muita insistência deste, legou seus dados sobre a órbita de Marte, ciumentamente guardados.
Em sua homenagem, há a cratera Tycho na Luaa cratera Tycho Brahe em Marte e Planetário Tycho Brahe, em Copenhague.

Johannes Kepler (1571–1630)

Johannes
KeplerKepler foi matemático, astrônomo e astrólogo alemão luterano.

O Grande Cometa de 1577

Aos seis anos de idade, observou o Grande Cometa de 1577, o que despertou-lhe o amor à Astronomia que lhe acompanhou por toda a vida.
Kepler - O Grande Cometa de 1577

Astrologia

Como tantos filósofos naturais da sua época, fazia horóscopos para clientes ricos para sobreviver. Nessa época, não se separava a Astrologia da Astronomia.
Kepler - Astrologia

Sistema planetário

Kepler considerava o Harmonices Mundi (A Harmonia do Mundo, 1619) seu maior trabalho, que foi, também, a primeira defesa publicada do sistema de Copérnico. Nele, relata suas descobertas sobre o conceito de congruência com relação a diversas categorias do domínio físico: regularidades em geometria tridimensional, as relações entre diferentes espécies de magnitude, os princípios da harmonia na música e da organização do Sistema Solar. Na última seção do livro, relata sua descoberta da então chamada Terceira Lei do movimento planetário. 
Enquanto filósofos desde Pitágoras falavam da música das esferas, Kepler procurava harmonias físicas no movimento planetário. Por exemplo, a velocidade angular máxima da Terra medida a partir do Sol varia em umsemitom (proporção de 16:15), de mi para fá, enquanto Venus varia muito pouco, 25:24.
Ele descobriu que cada um dos cinco sólidos platônicospoderiam ser unicamente inscritos e circunscritos porórbitas esféricasencaixando estes sólidos, cada umenvolto em uma esfera, uma dentro da outra, produziriaseis camadas, correspondentes aos seis planetas conhecidosMercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno, que, dentro dos limites de precisão dasobservações astronômicas, disponíveis à época, aproximavam bem os raios relativos das órbitas de cada planeta, assumindo que os planetas circulassem o Sol.
Kepler - Solução platônica
Kepler constatou que a maior discrepância ocorria na relação entre Marte e Júpiter, como se 'faltasse' um planeta nos cálculos de Kepler. Curiosamente, é nessa região que existe o cinturão de asteróides, o qual só foi descoberto em 1801.

Óptica

Kepler também estudou Óptica e o olho humano.
Kepler - Óptica e o olho humano

Marte retrógrado

De um ponto de vista na Terra, quando Marte se aproxima da oposição ao Sol, ele começa um período de movimento retrógrado, o que significa que vai parecer se mover para trás em um movimento de loopingcom relação às estrelas de fundo. 
Kepler - Marte retrógrado
A duração deste movimento retrógrado dura cerca de 72 dias e Marte atinge o seu pico de luminosidade no meio deste movimento.
Kepler - Marte retrógradofonte: Wikipédia. http://en.wikipedia.org/wiki/File:Apparent_retrograde_motion_of_Mars_in_2003.gif.
Para investigar esse problema, Kepler precisava muito dos precisos dados de Tycho Brahe que, só após muita insistência, legou seus dados ciumentamente guardados. 
Inicialmente, Kepler tentou ajustar a órbita de Marte a uma círcunferência mas não conseguiu. Teve de abandonar as 'perfeitas' órbitas circulares e supor órbitas elípticas, as quais, finalmente, deram certo. E, sobre elas, afinal, conseguiu formular suas famosas três leis, publicadas em seu Astronomia Nova, de 1609.
Leis de Kepler

Conjetura de Kepler

Kepler também estudou a teoria atômica e o efeito de ‘empacotamento’.
Kepler - Conjetura de Kepler

Cratera Kepler

Em sua homenagem, há a cratera Kepler e o asteróide Kepler.
Kepler - Cratera Kepler

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