Alta, soridente e imponente, Susana Silva controla atentamente o “coração” da Santa Catarina, na ilha de São Jorge, nos Açores.
A mestra, como lhe chamam, distribui os lotes de atum pelas 90 mulheres que lidera, garante a qualidade da separação do atum em filetes e que todo o peixe é aproveitado ao máximo para as conservas em posta, pedacinhos ou paté.
Tem 30 anos, metade da idade da mestra anterior. “No início estranhavam. Há um ano que sou mestra. Sinto que gostam de mim”, diz. Há três anos veio pedir emprego à conserveira de atum, o maior empregador de São Jorge. “Não fosse a Santa Catarina, a maioria das mulheres não tinha trabalho. A fábrica emprega muitas pessoas e faz muita falta.”


Foto: Rui Vieira/Global Imagens
Não fosse a Santa Catarina, a maioria das mulheres não tinha trabalho”
No ano passado, a Santa Catarina produziu oito milhões de latas,tendo faturado seis milhões de euros, adianta Rogério Veiros, presidente do conselho de administração. A expectativa é crescer 20% neste ano. Mas nem sempre foi assim. A conserveira existe na vila da Calheta desde a década de 1940, tendo sido reativada pela câmara municipal em abril de 1995. Mais tarde foi privatizada.
“Chegou a ter salários em atraso, teve um impacto grande na ilha”, conta. A fábrica emprega cerca de 140 pessoas, numa ilha com 8500 habitantes, 3500 dos quais no concelho da Calheta, onde a Santa Catarina está localizada. O Governo Regional interveio e readquiriu a conserveira em 2009. Hoje, exportam 45% da sua produção para mercados como Itália, Reino Unido e Estados Unidos.
Em Portugal, têm no Lidl o seu principal cliente: 32% da faturação do ano passado. E neste ano deverá ser mais. Para isso contam com o contributo da Bela Aurora, a nova marca de atum de primeiro preço (o mais barato), que estão neste momento a colocar em exclusivo nas lojas da cadeia. Num ano esperam vender 1,5 milhões de latas.

Foto: Rui Vieira/Global Imagens
Cada lata é embrulhada manualmente. “É um embrulho que cada senhora faz ao cliente”, descreve Rogério Veiros
A relação com o Lidl começou em 2010, tendo a conserveira açoriana chegado a fornecer 20% do volume de vendas de atum de marca própria do Lidl. Com o Bela Aurora, o Lidl será a única cadeia a ter conserva de primeiro preço com atum português.
“A aposta do Lidl nos produtos nacionais está alinhada com a nossa missão principal de oferecer produtos com a máxima qualidade, ao melhor preço, e por isso estamos sempre ao lado dos produtores nacionais, privilegiando os seus produtos e incentivando o seu crescimento”, diz Vanessa Romeu, diretora de comunicação do Lidl Portugal.
“Cerca de 50% dos produtos à venda nas lojas são fornecidos por produtores nacionais. Nas frutas e nos legumes ascende a 70%. E a 100% nas carnes frescas do sortido.” O Lidl também exporta produto nacional para as lojas da cadeia na Europa.
Nos últimos dois anos, foram da região Oeste para Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Irlanda 12 mil toneladas de pera Rocha. Em 2015 exportaram quatro milhões de garrafas de vinho para 14 mercados. Neste ano, o objetivo é duplicar. E há planos para incluir as conservas Santa Catarina.

Foto: Rui Vieira/Global Imagens
Com o Bela Aurora, o Lidl será a única cadeia a ter conserva de primeiro preço com atum português.
Em janeiro, na reunião anual, as lojas da cadeia no exterior mostraram interesse em colocar as conservas dos Açores nas prateleiras. Para isso, a fábrica teve de investir cerca de 500 mil euros para efetuar melhorias – como um novo laboratório de controlo de qualidade e um armazém em Lisboa – para obter uma certificação (FSSC 22000) exigida aos fornecedores da cadeia alemã. “A certificação é condição fundamental na escolha do fornecedor”, diz Diogo Seco, diretor de compras Lidl.
A avançar a exportação das conservas Santa Catarina através do Lidl, será com as conservas premium: ou seja, os atuns com sabores como orégãos, manjericão ou tomilho. No dia da visita à fábrica, na cozinha três funcionárias colocam diligentemente poejos no fundo da lata, antes de cuidadosamente pousar os lombos de atum.
Numa commodity como uma conserva, “tentamos acrescentar valor ao atum”, explica Pedro Pessanha, diretor de produção. Lançaram em 2010 a nova gama, “apostando no revivalismo em torno das conservas”. Cada lata é embrulhada manualmente. “É um embrulho que cada senhora faz ao cliente”, descreve Rogério Veiros. Nesse ano, gerou 40 mil euros de faturação. No ano passado foram 800 mil.

www.dinheirovivo.pt