O fascismo é muitas vezes apresentado como “uma contrarrevolução preventiva” das classes dirigentes, com o objetivo de reprimir o recrudescimento da agitação social e política que se tinha seguido à I Guerra mundial (no caso da Alemanha, em novembro de 1918-janeiro de 1919 e, no italiano, 1919-1920)1 . 
Foi, sobretudo, uma réplica feroz da crise de sobreprodução que ameaçou o colapso dos lucros. Cingir-me-ei aqui ao exemplo do fascismo alemão, com um sucesso mais tardio do que em Itália (outubro de 1922), mas considerado mais “perfeito”: o alinhamento das classes dirigentes da Europa continental com este modelo e a atração considerável que exerceu sobre as dos Estados Unidos e do Reino Unido tiveram as mesmas motivações sócio-econômicas. 
A falaciosa aliança entre capital e trabalho de novembro de 1918 
O grande patronato alemão tinha digerido mal as concessões públicas que tinha sido obrigado a consentir, em 15 de novembro de 1918, para matar no ovo a “revolução” que ameaçava seguir-se à capitulação do Kaiser, Guilherme II do 9. Este fundamento do “contrato social” da República de Weimar repousava, contudo, numa capitulação falaciosa. A ADBG (Confederação geral sindical alemã), maioritária, organicamente ligada ao SPD [Partido social-democrata alemão - NT] e tão empenhada como ele no combate à revolução social, tinha, ao mesmo tempo, assinado com os delegados patronais um protocolo secreto, libertando-os dos seus compromissos: as convenções coletivas sobre os salários e as condições de trabalho não se aplicariam senão “de acordo com as condições da indústria respectiva”; “a jornada de 8 horas em todas as indústrias” apenas se “as principais nações industriais” também o praticassem.
Este acordo clandestino entre Trabalho e Capital foi o equivalente social da aliança política secreta “com as forças do antigo regime” concluída em outubro-novembro pelo SPD com o Estado-maior da Reichswher [Defesa do Império: forças Armadas Alemãs entre 1919 e 1935 – NT], porta-voz das classes dominantes em 1918. Completada com uma impiedosa caça aos vermelhos, na qual se formaram as futuras eminências nazis, este pacto “contranatura” deixava poucas hipóteses de sobrevivência à “República de Weimar [República estabelecida na Alemanha após a I Guerra mundial, entre 1919 e 1933, início do regime nazi – NT]”2. 
A dívida privada e a falência da Alemanha 
Cheios de ódio contra a referida República (contudo, tão boa filha era) nascida da sua derrota pública, a aristocracia e a grande burguesia despojaram-na do seu verniz enganador “de esquerda” inicial. A base social de “Weimar” resistiu-lhes melhor até ao furacão dos anos 1930, que devastou a Alemanha. Empresas, comunas e Estado endividaram-se maciçamente junto dos bancos internacionais, desde a estabilização do marco, em 1923-1924, realizada sob tutela americana, para desenvolver as capacidades produtivas, designadamente ao serviço da retaliação militar. 
Assim, o Reich tornou-se o maior devedor internacional dos Estados Unidos e de todos os países do “centro” imperialista. O capital financeiro estrangeiro foi, pois, um fator de primeiro plano, tal como aconteceu nos anos 1920 com o enorme devedor que foi a Itália, das medidas drásticas tomadas pela Banca das regras internacionais durante a tempestade do verão de 1931, para prorrogar a dívida alemã. Os diktats deste clube privado dos bancos centrais fundado pelo Plano Young, antepassado (ainda vivo) e pouco conhecido das instituições americanas de Bretton Woods, prefiguravam exatamente as medidas adotadas na última fase mais aguda da atual crise sistêmica, sob a tutela dos grandes bancos de cada país, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional. 
A guerra aos salários e a política do SPD do “mal menor” 
O desmoronamento dos mercados e dos lucros e o imperativo de regularizar “a dívida internacional privada” exigiam a “quebra”, não só dos salários, mas de todos os lucros não monopolistas: este objetivo mobilizou as classes dirigentes nacionais e os seus credores americanos, ingleses, franceses, etc. Entre as condições postas, em julho de 1931, para o “resgate” do Reich, figurava o envolvimento do NSDAP [Partido nacional-socialista alemão, nazi – NT], vencedor eleitoral de Setembro de 1930, graças ao apoio de longa data (sobretudo depois de 1923 e da ocupação do Ruhr) [A ocupação do Ruhr entre 1923 e 1924 pelas tropas francesas e belgas, foi a resposta ao fracasso da República de Weimar em cumprir a sua obrigação de assumir a compensação financeira aos Aliados, após a derrota do Império Alemão na Primeira Guerra Mundial – NT] do patronato mais concentrado da indústria pesada, que foi seguido pelo resto do patronato: esta fórmula de direita sem exceção permitiria, com os seus métodos de terror (e de sedução), baixar os rendimentos das vítimas sem temer a reação.
Antes de o NSDAP ser empossado como partido do governo, em fevereiro de 1933, a par da direita “clássica”, a missão foi atribuída às organizações operárias “compreensivas”. Estas apelaram aos seus aderentes a participarem nos sacrifícios apresentados como indispensáveis ao interesse nacional, reduzindo os seus salários: o ultradireitista chefe (SPD) do sindicato das madeiras e um dos chefes nacionais da AGBD [Central sindical alemã – NT], deputado do SPD (1928), Fritz Tarnow, propagandeava em 1931 «“um casamento de conveniência” com os patrões» (“não deveremos nós ser o médico à cabeceira do capitalismo?”). O SPD apoiou o seu chanceler Hermann Müller que, tendo tomado posse depois do sucesso eleitoral da esquerda, governou com a direita “clássica” e tentou uma primeira “reforma” (por baixo) do subsídio de desemprego (junho de 1928-março de 1930). 
O SPD apoiou também o sucessor de Müller, Brüning (maio de 1930-maio de 1932) e a reeleição de Hindenburg para a presidência do Reich (abril de 1932), e ficou indiferente ao golpe de Estado da direita aliada aos nazis, dizendo que contava com as eleições seguintes (novembro de 1932). Tudo em nome do “mal menor” contra Hitler, enquanto a direita, com Brüning e Hindenburg à cabeça, preparava abertamente a chegada do NSDAP. Os adeptos da “frente republicana” do século XXI deveriam debruçar-se sobre a experiência política dos anos 1930. 
A esquerda alemã e o nazismo 
A conversa sobre as culpas do KPD [Partido Comunista Alemão – NT] “esquerdista” dissimula as responsabilidades esmagadoras, e entendidas como tal desde 1933, das direções do SPD e das suas organizações, entre as quais a AGDB 3. A passividade perante o patronato e a sua solução nazi, levada até à oferta de serviços, serviria de sésamo para as “carreiras ocidentais” do pós-guerra, como a de Tarnow: perseguido em 1933, mas rejeitado pelos hitlerianos e obrigado a exilar-se, regressou da Suécia em 1946 a pedido dos americanos, que o tinham escolhido para dirigir, contra qualquer risco de aliança com os comunistas, na Bizona, em 1947, e na Alemanha ocidental, em 1949, a velha central sindical que então passou a chamar-se DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund). 
Não foi a agitação social que permitiu, em 1933, a chegada dos hitlerianos ao poder: foi a recusa maioritária das classes lesadas de rejeitar este assalto contra os seus rendimentos, ou a sua passividade face a esta “estratégia de choque”, para retomar uma expressão posterior de Naomi Klein. Contra esta linha, que as organizações maioritárias da “esquerda de governo”, os combatentes isolados, essencialmente operários, do KPD e da sua “Organização Sindical Vermelha” (RGO), combateram corajosamente, quer depois quer antes de fevereiro de 1933, mas em vão. É urgente que se reflita sobre isto na presente crise sistêmica do capitalismo, em que os «médico[s de “esquerda” à moda de Tarnow] à cabeceira do capitalismo» fingem acreditar na magia dos encantos “antifascistas”4
.DOIS TEXTOS INÉDITOS ILUSTRATIVOS 
Descoberta e transcrição, Annie Lacroix-Riz 
A esquerda alemã e o triunfo do nazismo : um julgamento policial francês 
Fonte, RG Segurança nacional SN JC5. A. 4509, Paris, 18 de maio de 1933, F7 (fundos polícia geral), vol. 13430, Alemanha, janeiro-junho de 1933, Arquivos nacionais, datilografado, 7 p., in extenso, passagem em itálico sublinhada no texto. 
Recordemos a animosidade do aparelho de Estado policial em relação ao comunismo. 
«O papel e a sorte dos comunistas e dos socialistas alemães. 
O apagamento total das organizações marxistas alemãs em presença do hitlerismo triunfante é um facto sem precedentes. Não há ditadura que não tenha encontrado, pelo menos no momento do seu estabelecimento, algumas tentativas de resistência ou de reação. Nada parecido na Alemanha. Se os confrontos, por vezes sangrentos, se registravam normalmente entre racistas e revolucionários de esquerda – quase sempre comunistas – enquanto o NSDAP foi um partido de oposição, estes conflitos cessaram radicalmente, desde que Hitler tomou o poder. Contudo, neste momento, os apoiantes do novo Chanceler e os dos seus aliados nacionalistas não chegavam a representar mais de metade da população do Reich. Para as forças revolucionárias, a sorte, se bem que difícil, podia ao menos ter sido tentada e, em todo o caso, depois dos apelos à confiança feitos no estrangeiro pel’ “A Alemanha republicana”, havia a honra a salvar. Nada se fez, nada se tentou. Esta questão não tem apenas um interesse histórico. Porque podemos questionar-nos sobre o que aconteceu às massas que os partidos socialista e comunista pretendiam enquadrar; quais são os sentimentos desta massa depois da ausência ou desaparecimento dos chefes. 
Mas convém distinguir entre socialistas e comunistas. Em primeiro lugar, constatamos que nenhum dirigente do partido comunista fez vénia à revolução nacional. Estão todos presos, em fuga, ou escondidos. Foram sobretudo os comunistas que encheram os campos de concentração. Nestes campos, estima-se atualmente, estariam 50 000 revolucionários. Entre os chefes presos citemos: 
Ernst Thaelmann, líder do partido comunista;
Ernst Torgler, chefe da fração comunista no Reichstag [um dos raríssimos futuros renegados, com quem o KDP pouco contou, Annie Lacroix-Riz]; 
Wili Kasper, chefe do grupo parlamentar do Estado da Prússia; 
Ernst Scheller, Anton Jadasch, [Fritz] Selbmann, Willi Kunz, etc. 
Outros procuraram ganhar o estrangeiro. A sua conduta foi severamente julgada pela Terceira Internacional, que vê neles “desertores”. Os que se refugiaram na Rússia foram aconselhados a voltar ao seu posto e a continuar a luta ilegalmente. Outros conseguiram passar as fronteiras ocidentais do Reich e foram convidados a voltar à Alemanha. Os que se recusaram foram expulsos do partido. Assim, no fim de abril, o Arbeiter Zeitung, órgão comunista de Sarrebruck, publicou este aviso: “O distrito de Bade-Palatinat pede-nos a publicação da expulsão seguinte: o deputado do Reichstag Bennedom-Kusel, a residir há algumas semanas no Sarre [O Sarre (em alemão Saarland) é um dos 16 estados federados (Länder) da Alemanha, no sudoeste do país. O rio Sarre atravessa sua capital Saarbrücken. – NT], tendo recebido da direção do distrito a ordem de regressar à Alemanha, não acatou este convite. Foi expulso do partido comunista alemão por cobardia perante o inimigo de classe”. 
Quais são, então, as tarefas propostas aos chefes que ficaram nos seus postos? Ei-las, tal como foram definidas pelo Comité executivo da Terceira Internacional: a) Criar organizações ilegais; b) Alargar a rede de difusão da imprensa ilegal do partido; c) Infiltrar ao máximo as organizações dos partidos adversários; d) Trabalhar principalmente nas fábricas. 
Tudo isto, evidentemente, está certo. Mas os resultados não foram o que tais orientações poderiam fazer crer. A necessidade de os dirigentes, que ficaram nos seus postos, terem de trabalhar clandestinamente reduziu a sua ação a muito pouca coisa, e é mesmo duvidoso que o seu trabalho se pudesse prolongar por muito tempo na presença da atividade de uma polícia extremamente desenvolvida. Sem dúvida que a imprensa comunista estrangeira considerou um grande fracasso que os Serviços hitlerianos tenham apanhado alguns exemplares de jornais ou brochuras editadas clandestinamente, o que mostraria que uma abundante literatura revolucionária circulava por debaixo da mesa. Mas a maior parte destas apreensões remontam aos primeiros dias de abril, e o último número da Rote Fahne (jornal do KPD) ilegal data de 15 de abril. Se foi imprimido, é muito duvidoso que tenha sido muito divulgado. Assinala-se também que se realizaram algumas manifestações de fábricas, mas as últimas são do mês de março. Por fim, no final dos respetivos mandatos teriam sido reeleitas algumas “comissões de trabalhadores” (Betriebsraete), compostas por elementos de esquerda, mas essas reeleições teriam tido lugar apenas no mês anterior e não se produziu nenhuma reação perante as medidas de polícia que se tomaram contra essas comissões. 
Além disso, os chefes comunistas não conseguem dissimular completamente que uma grande parte das suas tropas os deixou ou se desmobilizou. O militante Erich, um dos dirigentes da Rote Gewerkschaft (organização sindical vermelha) escreveu na Rundschau (boletim agora editado em Basileia): “A Rote Gewerkschaftsorganisation [RGO] sofreu muitíssimo com o terror fascista. Este terror teve como efeito que uma parte dos nossos camaradas abandonassem a nossa bandeira e outros adotassem uma posição completamente passiva”.
Se os comunistas, é preciso repetir, que mostraram uma coragem incontestável até ao último mês de março, estão lá, facilmente se imagina onde foram os socialistas. Os comunistas sempre censuraram os socialistas de terem um espírito pequeno-burguês e, em certo sentido, conservador. Não há nada de mais verdadeiro. Depois de terem colhido sem vergonha, em 1918, os frutos de uma revolução que tinha alcançado a maturidade, os socialistas alemães nunca souberam senão erguer construções burocráticas que poderiam provocar ilusões no estrangeiro e de cuja propaganda a II Internacional não deixou de se servir, mas que, na realidade, não tinham alma e eram perfeitamente incapazes de pôr em causa o curso dos acontecimentos muito previsíveis. 
Estes acontecimentos, de resto, demonstraram que os chefes, nas declarações dos quais se fundavam as esperanças de uma grande parte da opinião estrangeira no futuro da República alemã, não tinham fé. Não souberam senão vergar-se ou fugir, como Braun, Grzesinski, Breitscheid, Dittmann, Crisprein, Noske, Bergemann e, mesmo, levar o seu apoio mais ou menos velado ao novo regime, como Leipart, Grassmann, Tarnow, Wels, Stampfer, Hilferding. Ainda é recordada a submissão escandalosa do chefe socialista Wels e a declaração, em 21 de março, do comité dirigente da Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund (Confederação Geral do Trabalho) consentindo na sua adesão – empurrada com desprezo - na organização sindical do III Reich. A Federação dos empregados socialistas (Afa Bun) e a Federação dos funcionários socialistas (a Allgemeiner Deutscher Beamter Bund) seguiram o mesmo caminho e o milhão e trezentos mil membros das organizações desportivas operárias foram entregues pelos seus chefes ao regime hitleriano. Até mesmo a Reichsbanner [Organização política e paramilitar criada na República de Weimar, em 1924, para defesa do regime republicano burguês. Era formada por membros do Partido socialdemocrata e outros partidos burgueses para combater o “extremismo” de direita e de esquerda (o Partido Comunista Alemão) – NT], feita para defender a República, caiu espontaneamente em pedaços. Ela representava, porém, um milhão de membros organizados. Mas os que conheciam os assuntos alemães sabiam muito bem que a combatividade destas tropas, conduzidas por burocratas, era praticamente nula e que era imprudente tirar partido delas. A Reichsbanner tinha recebido dos seus adversários a alcunha de Papenhelm (capacetes de cartão). Quanto às secções da Juventude Socialista, foram transformadas em inocentes associações de turismo, apesar de uma meritória oposição de Erich Schmitt, chefe da secção de Berlim. 
A submissão total da social-democracia, de resto, não impediu totalmente, as represálias e as sanções. O ex-ministro Sollmann foi seriamente maltratado em Colónia. Os líderes sindicalistas Leipart, Grassmann e Wissel foram presos, apesar de terem aderido aos projetos hitlerianos. O chefe da Reichsbanner, Holtermann, em fuga, é procurado. É, porém, sob a sua administração, exatamente em 6 de abril, que o distrito Berlin-Brandeburg da Reichsbanner define a posição da organização de uma forma que devia, com toda a evidência, satisfazer os nazis. Com efeito, este distrito, em 6 de abril, tinha dirigido uma circular às suas secções em que se dizia particularmente: “Temos três possibilidades:
- O emprego dos métodos violentos dos comunistas. Mas está claro para cada um dos camaradas que estes métodos são criminosos e que se devem pôr de lado. 
- A abstenção. 
- A busca de uma colaboração no quadro da vida prática. 
Há muitos anos que transportamos nos nossos corações a fé na Alemanha e no futuro da Alemanha. É por isso que reclamaremos o nosso lugar na nova vida do Estado alemão e que faremos pela Alemanha tudo o que ela espera de nós: o nosso dever. O comité dirigente negocia com os serviços competentes as questões da atividade da nossa associação. Os pontos seguintes são fundamentais: cultura da amizade; ajuda aos antigos combatentes; educação da juventude, preparação militar; trabalho voluntário”. É isto que uma organização de autodefesa socialista para proteger o regime republicano consegue encontrar no momento em que este regime se afunda. 
A mesma atitude tem a organização desportiva operária. A Zentral Kommission für Arbeitersport und Koerperpflege publicou a seguinte declaração: “A Comissão central desportiva operária afirma que está pronta para colaborar lealmente com o regime nacional, a bem do povo. Esta comissão é de opinião que esta colaboração deve ter lugar numa base neutra. As associações desportivas operárias estão dispostas a incorporar-se, sem reservas, na organização desportiva do Estado e, para isso, fazer todos os sacrifícios necessários. Apelam ao espírito cavalheiresco do novo governo, sem renegar cobardemente a sua antiga posição. Para elas, fazer desporto era servir o povo. E sê-lo-á ainda no futuro”. 
Tanta lamechice não iria servir de nada. A colaboração oferecida foi desdenhada, as organizações varridas, os chefes descartados e desprezados. O novo regime faz tudo sozinho e constrói tudo a partir da sua base. Mas, as tropas socialistas? Poderiam as tropas ir contra as ordens superiores? Que a atitude dos chefes irritasse alguns militantes, isso é possível. Mas estes foram impotentes no meio do desencorajamento e da cobardia universais, e nenhuma reação, por pequena que fosse, se deu. É evidente que a traição dos chefes destruiu todas as energias dispostas a intervir. Destruiu-as também para o futuro e foi ainda mais nefasta para o republicanismo e o liberalismo alemães do que quaisquer batalhas perdidas que pudessem ser sido travadas.» 
A sobre-exploração operária na Alemanha, fevereiro 1933- fevereiro 1939 
Fonte: RG Prefeitura da polícia, Informação, 20 de fevereiro de 1939, BA 2140, Alemanha, 1928-1947, 
Arquivos da Prefeitura da polícia 
«Os operários alemães a trabalhar nas indústrias de guerra são submetidos a uma disciplina particularmente severa. 
Os operários das fábricas de produtos químicos estão sujeitos à lei militar e aos regulamentos das grandes empresas da IG Farben. Nas fábricas Leuna, um verdadeiro exército de agentes da Gestapo e espiões profissionais vigiam os operários durante e depois do trabalho. É proibido aos operários entrarem noutros locais, além daquele onde trabalham. Alguns locais estão mesmo interditos aos capatazes e aos engenheiros. Cada trabalhador tem de assumir o compromisso, por escrito, de nada dizer sobre o seu trabalho na fábrica. O regulamento da fábrica contém um sistema de sanções que vai até a pena de morte. 
A indústria química teve uma enorme expansão, por causa dos preparativos do fascismo hitleriano para a guerra, como provam as imensas construções de oficinas e fábricas concretizadas. Desde 1935, o número de empresas da indústria química aumentou em 2 520, o número de operários aumentou em 131 415, de tal modo que em 1938 esta indústria ocupou mais de 500 000 pessoas. 
O plano quadrienal, em particular, levou a um aumento do fabrico de produtos de substituição, graças às subvenções extraordinárias do Estado. Em 1938, a Alemanha produziu 165 000 toneladas de lã vegetal, o Japão 130 000 e a Itália 100 000; isto significa que as potências do Eixo totalizaram 81% da produção mundial, que ascendeu a 440 000 toneladas. 
Não é de surpreender que a indústria química tenha podido registar, nestes últimos anos, lucros muito consideráveis, apesar do facto de os produtos de substituição não serem rentáveis. A IG Farben apresentou um lucro líquido [declarado] de: . 
49,14 milhões em 1933; . 
50,98 milhões, em 1934; . 
51,44 milhões, em 1935; . 
55,40 milhões, em 1936. 
Tendo em conta algumas outras posições camufladas, chega-se a um montante de 1.500 milhões de marcos para os primeiros quatro anos do regime hitleriano. 
Apesar do aumento da produção e do esforço muito maior que se exige aos operários, estes viram cair o salário real. As estatísticas nazis fazem o cálculo de que o salário anual de um operário na indústria química, em 1930, era em média de 2 543 RM, contra 2 193 em 1936. Mas estes são apenas os salários brutos. Deve-se deduzir as retenções de 20 a 25%, e as “doações voluntárias” que eram impostas aos operários. Com estes salários não se conseguia fazer face às despesas. Os tribunais constataram que muitos operários das fábricas de explosivos, em Coswig-Anhalt, eram obrigados a trabalhar nas horas livres como “garçons” ou como músicos. O chefe da empresa declarou no mesmo tribunal que os “operários vieram para o trabalho depois de terem trabalhado noutros locais”, isto é, eles trabalhavam 16 horas seguidas.
[Num discurso em Essen, em 30 outubro, o Dr. Ley reconheceu:] “Até agora, o esforço em cada empresa teve um aumento de, pelo menos, 30%. Um dos maiores verificou-se numa grande fábrica de borracha, com um aumento na produção de 60%. As pessoas estavam fatigadas e sucumbiam ... Tratava-se da fábrica de Phoenix, em Hamburgo”. 
Esta exploração acrescida, esta cadência exagerada, assim como os baixos salários, as más condições de trabalho e a falta de alimentos provocam um aumento dos acidentes de trabalho. A Frente do trabalho da secção de química admite que desde 1933 o número de acidentes de trabalho não parou de crescer. Contaram-se, em 1936, 32 453, com 144 mortes; em 1937, 40 225, com 188 mortes; e estes números ainda aumentaram em 1938. Houve, na verdade, mais de 200 acidentes mortais. Apesar desta situação, queria-se obter um aumento do rendimento com novas medidas de racionalização. Esta vergonhosa exploração choca-se, no entanto, com uma crescente resistência.» 
*Annie Lacroix-Riz - Professora emérita de história contemporânea, Universidade de Paris 7
1 Pierre Milza, Les fascismes, Paris, Points Seuil, 1991.
2 Gerald Feldman, Army, Industry and Labour in Germany, 1914-1918, Princeton, 1966, obra-prima não traduzida em francês; Gilbert Badia, Histoire de l’Allemagne contemporaine 1933-1962, Paris, Éditions sociales, 1962, et Les spartakistes, 1918: l’Allemagne en révolution, Paris, Julliard, 1966. 
3 RG Prefeitura da polícia, sobre “Les événements d’Allemagne”, 8 de maio, e RG Segurança national SN JC5. A. 4509, Paris, 18 de maio de 1933, F7 (polícia geral), vol. 13430, Alemanha, janeiro-junho 1933, Arquivos nacionais, conforme documento publicado abaixo; e Derbent, La résistance communiste allemande, Bruxelles, Aden, 2008 (e transcrição em linha).
4 Badia, Histoire de l’Allemagne; Lacroix-Riz, Industrialisation et sociétés (1880-1970). L’Allemagne, Paris, Ellipses, 1997; comparação entre fascismo francês e alemão, Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930, Paris, Armand Colin, 2010, e De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938- 1940, Paris, Armand Colin, 2008; sobre Tarnow, Scissions syndicales, réformisme et impérialismes dominants, Montreuil, Le Temps des cerises, 2015, pp. 172, 207-209 e 232. O documento de 1939 que se publica abaixo mostra o efeito devastador do triunfo patronal de 1933 sobre os salários e as condições de vida populares.

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