sábado, 30 de abril de 2016

PCP não apoia Medina em Lisboa


Jerónimo de Sousa reconhece mérito a António Costa, ao considerar que este se está afirmar como primeiro-ministro e a mostrar capacidade de diálogo, mas afasta a hipótese de uma coligação entre comunistas e socialistas nas próximas eleições autárquicas, mesmo considerando o caso das grandes cidades.
O líder do PCP disse-o aos microfones da TSF, numa entrevista a transmitir no sábado, defendendo que a CDU “tem virtualidades e potencialidades” que o levam a “considerar a importância da sua continuação”.
Para Jerónimo de Sousa, mais que definir uma estratégia “em função deste ou daquele nome ou figura”, importa a existência de “um projeto e de um programa” para as diferentes autarquias.
Sublinhando não ter a intenção “de antecipar uma decisão coletiva”, dado que a linha estratégica para as autárquicas vai ser discuitida “em breve”, o líder comunista frisou a sua posição: “Em termos de experiência, seja em maioria ou minoria, a CDU continua a ter atualidade e validade".

expresso.sapo.pt

Razões


Eu primeiro quero ver para depois acreditar nesta "mudança" nesta metamorfose política em que muitos acreditam e eu continuo céptico apesar de estar feliz por ver pelas costas os fachos do PSD/CDS. O menu de intenções para mim nada significa pois como milhões de portugueses estou farto de promessas e de espera há já quatro décadas .
Houve quem acreditasse em governos PS, houve quem acreditasse em governos PSD, e o resultado está à vista !
Acreditaram, foram votando, e paralelamente foram perdendo o emprego, os direitos, e o pior de tudo é que os que não caíram nessa armadilha pagaram caro e da mesma forma, a ignorância, a má fé, e o carneirismo político de muita gente que errou e repetiu o erro várias vezes ao longo da nossa história política.
Nem estou virado para dar o benefício da dúvida porque dúvidas são o que me assalta há muito tempo . Gostaria de estar enganado quanto a todo este meu pessimismo mas se porventura surgirem acções governativas positivas serei sempre honesto em reconhecê-las e aplaudi-las.
Vou lutando !
António Garrochinho

O Agosto quente e a Lei da Descolonização (I)






Uma família de portugueses no colonato de Cuanza


4 de Agosto: Comunicação à ONU

Após o 25 de Abril, os primeiros contactos com a ONU foram exploratórios. De 3 a 7 Junho, depois de uma longa entrevista com o Presidente da República, António de Spínola, e na qualidade de enviados de Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jorge Sampaio e João Cravinho tiveram, em Nova Iorque, múltiplas conversações sobre os rumos da política externa portuguesa. Concluíram ser generalizada a expectativa sobre uma definição clara da política de descolonização, em especial sobre o princípio da autodeterminação e independência – de cuja adopção se aguardavam passos que, embora difíceis e não necessariamente rápidos, teriam de ser inequívocos[1]. As declarações públicas do Secretário-Geral da ONU e, sobretudo, as pressões da Comissão de Descolonização eram semelhantes. Em meados de Junho na XII Cimeira da OUA, em Mogadíscio, Kurt Waldheim, recordou que os seus ofícios poderiam ser utilizados nas negociações de Lisboa com os movimentos de libertação, destacando ser necessário que Portugal, conforme as pertinentes resoluções da ONU, reconhecesse sem equívocos a independência da Guiné-Bissau e concedesse o direito à autodeterminação e independência aos povos de Angola e Moçambique.
Em 22 de Junho, Mário Soares reuniu em Nova Iorque com Kurt Waldheim, incitando-o a uma próxima visita a Lisboa, onde poderia “estimular” a resolução do problema da independência da Guiné-Bissau. Também Spínola, que, em 28 de Junho, conseguira impor a nomeação de Veiga Simão como Embaixador de Portugal na ONU, começara a constatar que o tempo para negociar «era curto», que a ONU desejava um «acto iniludível» e que só a resolução do caso da Guiné previamente à abertura da Assembleia Geral da ONU, em Setembro, evitaria que Portugal fosse submetido a moções drásticas[2].
Em 27 de Julho foi finalmente publicada a “Lei da Descolonização” (Lei n.º 7/74), através da qual Portugal reconhecia o direito dos povos à autodeterminação (artigo 1.º), que incluía a aceitação da independência dos territórios ultramarinos (artigo 2.º), competindo ao Presidente da República, ouvidos a Junta de Salvação Nacional, o Conselho de Estado e o Governo Provisório, praticar os actos relativos ao exercício desse direito (artigo 3.º). Tratava-se de uma forma superior de reconhecimento, pois procedia-se à recepção do direito internacional, para ele vigorar também na ordem interna, com valor constitucional. A premência da resolução do problema da Guiné-Bissau fora determinante e a Lei n.º 7/74 teve uma feitura atribulada, mas a sua versão definitiva foi votada no Conselho de Estado por unanimidade[3].
Mas, além daquela recepção, a Lei n.º 7/74 veio merecer também expressa vinculatividade internacional do Estado português. Esta última faceta resultou do novo tipo de relacionamento entre Portugal e a ONU, sobretudo quanto à questão da descolonização, e dos compromissos que, na matéria, Portugal aceitava assumir.
Estavam, assim, preenchidas as condições impostas por Kurt Waldheim para debater o futuro dos territórios portugueses em África[4]. A visita decorreu de 2 a 4 de Agosto e a reunião com Spínola foi exclusivamente dedicada aos problemas de África[5]. No seu termo foi emitido pelo Departamento de Informação Pública das Nações Unidas umComunicado conjunto das Nações Unidas e do Governo Português [6].Depois de fazer referência às entidades portuguesas com que contactou, o texto salienta que o Secretário-Geral explicou a posição das Nações Unidas e os pontos de vista que lhe foram transmitidos pelos Chefes de Estado africanos, pela OUA e pelos dirigentes dos Movimentos de Libertação. Também foram apreciadas as modalidades da possível assistência da ONU no processo de descolonização. O Governo português expôs a posição quanto a estas questões, em decorrência da nova Lei Constitucional n.º 7/74 e do discurso público do presidente Spínola, também de 27 de Julho.
A matéria originou uma Comunicação do Governo português, inserida no Comunicado Conjunto, contendo oito pontos: cooperação com as Nações Unidas (n.º 1); referência ao princípio da unidade e integridade territorial de cada um dos territórios africanos sob administração portuguesa (n.º 2); definição da posição portuguesa relativamente a cada um deles (n.ºs 3 a 7); participação portuguesa nos programas das Nações Unidas e das Agências Especializadas (n.º 8).
 Assumindo, desde o ponto n.º 1, a formulação própria do direito internacional da descolonização, o Governo português reafirmava as suas obrigações e decidia cooperar plenamente com a ONU na aplicação de todas as disposições da Carta, resolução 1514 (XV) e demais resoluções referentes, especificamente, aos territórios sob administração portuguesa. Em consequência, no ponto n.º 2, reafirmava o reconhecimento do direito à autodeterminação e independência de todos os territórios ultramarinos sob sua administração, comprometendo-se a garantir a unidade e integridade de cada território e a opor-se a toda e qualquer tentativa separatista ou de desmembramento.
Mas a Comunicação ia muito além das previsões genéricas e abstractas do articulado da Lei n.º 7/74. O regime de cada colónia era definido separadamente. O estatuto da Guiné (ponto n.º 3) era, nesta ordem, o primeiro, subdividindo-se, formalmente, em duas alíneas:
a) O governo português declarava-se pronto a reconhecer a República da Guiné-Bissau como Estado independente e a celebrar imediatamente acordos para a transferência da administração;
b) Nestes termos, daria completo apoio ao pedido de admissão da Guiné-Bissau como membro das Nações Unidas.

 O regime de Cabo Verde (ponto n.º 4) era contemplado em dois parágrafos: o governo português reconhecia o direito do povo do arquipélago de Cabo Verde à autodeterminação e independência, estava disposto a aplicar as decisões internacionais e a acelerar o processo de descolonização.
Por sua vez, o regime de Moçambique (ponto n.º 5) era, no primeiro parágrafo, semelhante ao de Cabo Verde, mas, no segundo, a FRELIMO era expressamente reconhecida e afirmava-se que o governo português tomaria medidas imediatas para acelerar o processo de independência daquele território.
Quanto a Angola (ponto n.º 6), dizia a Comunicação num único e cauteloso parágrafo que o governo português, além de reconhecer o direito à autodeterminação e independência, tinha a intenção de estabelecer, em breve, contactos com os movimentos de libertação de modo a poderem iniciar-se, logo que possível, negociações formais.
Sobre São Tomé e Príncipe (ponto n.º 7), a Comunicação era absolutamente sintética: além de reconhecer o direito à autodeterminação e independência, o governo português dizia-se disposto a aplicar as decisões das Nações Unidas a este respeito.
Por fim, o governo português esperava que a Assembleia Geral reconsiderasse as decisões que o impediam de participar plenamente nos programas das Nações Unidas e das Agências Especializadas.
Apreciando-a esquematicamente, pode concluir-se o seguinte sobre o sentido e alcance desta Comunicação, de 4 de Agosto, enquanto acto unilateral através do qual o Estado português, agindo sozinho, exprimia a sua vontade e a ela se vinculava:
 a) a Comunicação inseria-se no contexto da aprovação da Lei n.° 7/74, fazendo como que a respectiva transposição para o plano internacional, pelo que o seu conteúdo e filosofia eram semelhantes: reconhecimento do direito à autodeterminação e independência pelo Estado português, tal como formulado e desenvolvido pela ONU, e previsão dos modos da sua efectivação segundo fórmulas amplas e flexíveis;
b) o regime de cada caso era enunciado em termos ponderados e significativamente diferentes, desde o (irremediável) reconhecimento da independência da Guiné-Bissau à aceleração das negociações (exclusivamente) com a FRELIMO, até ao estabelecimento de  contactos com (não identificados) movimentos de libertação de Angola ou mero reconhecimento (sem qualquer tipo de referência a movimentos de libertação) do direito à autodeterminação e independência de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe;
 c) Ausência de definição do estatuto de Timor;
 d) Referências genéricas e difusas à cooperação da ONU, quer quanto à descolonização, quer quanto ao papel das agências especializadas.



Almeida Santos fala em «desbravar de caminho» e «texto acelerador» em que «a diversidade da linguagem utilizada para cada território confirma que cada um deles era um caso»[7].
Em resumo: bastou uma semana – da publicação da Lei n.º 7/74, de 27 de Julho, à Comunicação do Governo português à ONU, de 4 de Agosto – para Portugal ficar vinculado, quer na ordem jurídica interna quer na ordem jurídica internacional, à dissolução do seu império colonial[8].
Como se verá nos dois posts subsequentes, esta Comunicação do Governo português à ONU correspondeu também ao primeiro momento do “programa de Agosto” para a descolonização, delineado por Spínola, Veiga Simão e Almeida Santos. Contudo, os casos da Guiné-Bissau e de Moçambique ficarão decididos no fim do mês, na 12.ª sessão do Conselho de Estado, e dar-lhe-ão outro rumo.

(Baseado em A Constituição Colonial Portuguesa – Das colónias, do império, do ultramar e da descolonização, a publicar).

António Duarte Silva








[1] Ver José Pedro Castanheira, Jorge Sampaio – Uma Biografia, Lisboa/Porto, Edições Nelson de Matos/Porto Editora, 2012, pp. 455 e segs.  


[2] António de Spínola, País sem Rumo – Contributo para a História de uma Revolução, Lisboa, SCIRE, 1978, pp. 281/282.


[3] Ver os posts intitulados A Lei da Descolonização: quatro antecedentes, de 11/04/2016, e Spínola e as três versões da Lei da Descolonização, de 24/08/2015.


[4] Sobre a programação da viagem de Kurt Waldheim a Lisboa, Luís Nuno Rodrigues, “António de Spínola e o contexto internacional da descolonização”, in Pedro Aires de Oliveira e Maria Inácia Rezola (coord.), Estudos em homenagem a José Medeiros Ferreira, Lisboa, Tinta-da-China, 2010, pp. 598 e segs., e David Castaño,Mário Soares e a Revolução, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2012, pp. 148 e segs.


[5] Luís Nuno Rodrigues, Spínola – biografia, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2010, p. 434.


[6] Apud António de Spínola, País sem Rumo, cit., pp. 426/428.


[7] António de Almeida Santos, Quase Memórias – Do Colonialismo e da Descolonização,1.º Volume, Cruz Quebrada, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2006, pp. 318/319.


[8] Norrie MacQueen, A Descolonização da África Portuguesa, Mem Martins, Editorial Inquérito, 1998, p. 121.

malomil.blogspot.pt

Passos Coelho anda infeliz. Marcelo anda feliz.



Passos Coelho, que já não intervém na Assembleia da República de viva voz mas só através do deputado Montenegro, o seu ventríloquo de serviço, resolveu falar de novo dando uma entrevista ao Sol, para anunciar que não está disposto a consensos com o PS enquanto o PS persistir na “negação da realidade”.
marcelo_feliz
Esta declaração, que não é novidade nenhuma, é contudo, um monumento de arrogância, autismo e esquizofrenia. Vejamos.
Arrogância porque Passos fala como se fosse ele o ungido, o predestinado, o único que tem a senha que permite o diálogo com os Deuses, os tais que fazem a realidade
E quem são os Deuses? 
É a Europa financista, os senhores de Bruxelas, os eurocratas cinzentos, a D. Merkel, a quem Passos sempre beijou os pés e de quem sempre acatou servilmente as ordens. 
Como a realidade, para Passos, é determinada por tais entidades, se António Costa se recusa a reverenciar as divindades que Passos venera, claro que não pode haver consensos com um herege de tal quilate. 
Nada que tire o sono a António Costa que, afinal, apesar de todos os gritos e uivos da Direita pafiosa, lá vai conduzindo a geringonça sem se estampar nas curvas, por mais apertadas e angulosas que sejam. 
Afinal, Passos que não foi pedido em casamento em primeiras núpcias, está apenas com dor de corno (a pior dor do mundo, coitado), e limita-se despeitado a mandar recado: não me peças em casamento, porque se o fizeres eu recuso. Costa, agradece o recado e limita-se a um lacónico e curto comentário: “É a vida.”. Comentário que, se traduzido para português vernáculo que um Primeiro-Ministro não pode usar, equivale a dizer: “Ele que se trate da dor de corno”.
Autismo porque Passos não vê, ou não sabe, por deficiência de estudo, de cultura, ou menosprezo pela História, que não há realidades estáticas, nem nas coisas físicas, muito menos nas coisas humanas. 
Recomendava a Passos, um conhecido pensamento do filósofo Heráclito de Éfeso: “Nunca se toma banho duas vezes na água do mesmo rio, porque à segunda as águas já são outras e nós mesmos já somos outros”.
Esquizofrenia porque, afinal, a realidade, além de continuar em mutação - e continuará sempre -, já mudou o suficiente e Passos é o único que não deu por nada. Já não estamos em 2011, passaram quatro anos e o mundo já não é o mesmo, sobretudo naquilo que conta para que o País vá vivendo um dia de cada vez: as condições de financiamento da República. 
Na verdade, o que levou Passos ao poder, foi o facto de ser difícil e caro à época financiar a nossa economia, tendo sido necessário recorrer à malfadada troika que Passos tanto venerou e a coberto da qual pôde fazer durante quatro anos as maiores tropelias, malfeitorias, e esbulhos aos mais pobres e desprotegidos. Passos, continua preso a esse passado de desgraça: quer que venha de novo a troika, quer que o rating da república baixe, quer que ninguém nos empreste dinheiro para irmos rolando a dívida, quer que Bruxelas nos chumbe o Orçamento e o Plano de Reformas, quer, em suma que o dilúvio se abata sobre Portugal. E todas as suas ações favorecem esse cenário de catástrofe e são claramente atos de traição à Pátria, que em tempo de guerra só tinham como punição um único desenlace possível: o pelotão de fuzilamento.
Esquizofrenia também porque Passos, ainda não viu que a Europa, estando à beira do colapso económico, num cenário de deflação de que não consegue libertar-se, e estando a esgotar-se a capacidade da politica monetária não convencional – a talbazuca de Draghi -, inverter a situação, vai ter que aliviar o garrote da política fiscal dos Estados membros, por muito que pese à Alemanha e ao senhor Schäuble. 
E nesse cenário o horizonte catastrofista que ele anseia que paire sob a forma de abutre negro sobre o futuro deste Governo estará afastado em definitivo.
Acresce ainda que, na fileira interna, a Presidência da República também mudou. 
Se no Governo manda a geringonça, na Presidência da República manda o cataventocomo Passos chamou em tempos a Marcelo, querendo sublinhar desse modo a falta de perfil do professor para ser o candidato do PSD nas eleições presidenciais. Segundo Passos, Marcelo não é o Presidente da República, mas sim e apenas o Dr. Rebelo de Sousa
Mais um sintoma de esquizofrenia galopante. Passos pretende marcar as distâncias utilizando um tratamento frio e profissional em relação a Marcelo. Mas, já agora, e se quer recorrer e abusar dos tratamentos da doutorice, convinha que dobrasse a língua e tratasse Marcelo por Doutor (por extenso) Rebelo de Sousa, pois Marcelo até pode ser catavento mas é professor catedrático e tudo enquanto Passos não passa de um banal licenciado à pressa e sem brilho. E como amor com amor se paga, eu sugiro a Marcelo que passe a tratar Passos por lic. Passos Coelho, quando a ele tiver que se referir.
Parafraseando Vasco Santana, em “A canção de Lisboa”, que dizia “chapéus há muitos seu palerma”, eu digo a Passos, “doutores há muitos, seu palerma”. Ainda que Marcelo seja doutor de leis, o que Passos está mesmo a precisar é de umdoutor de doenças mentais, na Presidência da República ou noutro sítio qualquer, para lhe tratar da esquizofrenia. 
E, apesar de Marcelo ser uma espécie de homem dos sete instrumentos, não creio que tenha engenho e arte para tanto.
Até porque, como diz Passos, Marcelo anda feliz. Feliz com o cargo que conseguiu sem precisar de bajular a Direita pafiosa, feliz por ter alargado o seu espaço de comentário de uma vez por semana para duas vezes por dia.
Labilidade, ao que parece, rima com felicidade: Marcelo anda feliz e fala cada vez mais. Em contraponto, Passos Coelho anda triste e fala cada vez menos. Entre um e outro António Costa sorri e fala só o suficiente. É a vida.
estatuadesal.com

A COLUNA DE OCTOPUS – A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA ESTÁ A BLOQUEAR MEDICAMENTOS QUE CURAM, PORQUE NÃO SÃO RENTÁVEIS


by joaompmachado
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O Prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes Farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios económicos à Saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.

Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresasFarmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. 

Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas.

Farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. 

E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da Saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.

A investigação pode ser planeada?

Se eu fosse Ministro da Saúde ou o responsável pelaCiência e Tecnologia, iria procurar pessoas entusiastas com projectos interessantes; dar-lhes-ia dinheiro para que não tivessem de fazer outra coisa que não fosse investigar e deixá-los-ia trabalhar dez anos para que nos pudessem surpreender.

Parece uma boa política.

Acredita-se que, para ir muito longe, temos de apoiar a pesquisa básica, mas se quisermos resultados mais imediatos e lucrativos, devemos apostar na aplicada …

E não é assim?

Muitas vezes as descobertas mais rentáveis foram feitas a partir de perguntas muito básicas. Assim nasceu a gigantesca e bilionária indústria de biotecnologia dos EUA, para a qual eu trabalho.

Como nasceu?

A biotecnologia surgiu quando pessoas apaixonadas começaram a perguntar-se se poderiam clonar genes e começaram a estudá-los e a tentar purificá-los.

Uma aventura.

Sim, mas ninguém esperava ficar rico com essas questões. Foi difícil conseguir financiamento para investigar as respostas, até que Nixon lançou a guerra contra o cancro em 1971.

Foi cientificamente produtivo?

Permitiu, com uma enorme quantidade de fundos públicos, muita investigação, como a minha, que não trabalha directamente contra o cancro, mas que foi útil para compreender os mecanismos que permitem a vida.

O que descobriu?

Eu e o Phillip Allen Sharp fomos recompensados pela descoberta de intrões no DNA eucariótico e o mecanismo de gen splicing (manipulação genética).

Para que serviu?

Essa descoberta ajudou a entender como funciona oDNA e, no entanto, tem apenas uma relação indirecta com o cancro.

Que modelo de investigação lhe parece mais eficaz, o norte-americano ou o europeu?

É óbvio que o dos EUA, em que o capital privado é activo, é muito mais eficiente. Tomemos por exemplo o progresso espectacular da indústria informática, em que o dinheiro privado financia a investigação básica e aplicada. Mas quanto à indústria de Saúde… Eu tenho as minhas reservas.

Entendo.

A investigação sobre a Saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.

Explique.

indústria farmacêutica quer servir os mercados de capitais …

Como qualquer outra indústria.

É que não é qualquer outra indústria: nós estamos a falar sobre a nossa Saúde e as nossas vidas e as dos nossos filhos e as de milhões de seres humanos.

Mas se eles são rentáveis investigarão melhor.

Se só pensar em lucros, deixa de se preocupar com servir os seres humanos.

Por exemplo…

Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença …

E por que pararam de investigar?

Porque as empresas Farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.

É uma acusação grave.

Mas é habitual que as Farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira daindústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.

Há dividendos que matam.

É por isso que lhe dizia que a Saúde não pode ser um mercado nem pode ser vista apenas como um meio para ganhar dinheiro. E, por isso, acho que o modelo europeu misto de capitais públicos e privados dificulta esse tipo de abusos.

Um exemplo de tais abusos?

Deixou de se investigar antibióticos por serem demasiado eficazes e curarem completamente. Como não se têm desenvolvido novos antibióticos, os microorganismos infecciosos tornaram-se resistentes e hoje a tuberculose, que foi derrotada na minha infância, está a surgir novamente e, no ano passado, matou um milhão de pessoas.

Não fala sobre o Terceiro Mundo?

Esse é outro capítulo triste: quase não se investigam as doenças do Terceiro Mundo, porque os medicamentos que as combateriam não seriam rentáveis. Mas eu estou a falar sobre o nosso Primeiro Mundo: o medicamento que cura tudo não é rentável e, portanto, não é investigado.

Os políticos não intervêm?

Não tenho ilusões: no nosso sistema, os políticos são meros funcionários dos grandes capitais, que investem o que for preciso para que os seus boyssejam eleitos e, se não forem, compram os eleitos.

Há de tudo.

Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais Farmacêuticasque financiam as campanhas deles. O resto são palavras…

Fonte : paradigmatrix
aviagemdosargonautas.net