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terça-feira, 5 de abril de 2016

EM RECTA FINAL


INDISCIPLINA, OUTROS ASPECTOS PARA ALÉM DO NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA/VANDALISMO E ESCOLAS





O número de alunos por turma tem estado na agenda por via das propostas apresentadas na Assembleia da República, pela intenção expressa pelo Governo e pela publicação do Estudo do CNE “Organização Escolar: As Turmas”.
Uma das dimensões mais associadas ao número de alunos por turma, hoje é a implicação no tempo gasto pelos professores no controlo da turma, dos comportamentos dos alunos.


A relação sugere que quanto maior é a turma mais tempo é gasto na gestão dos seus comportamento e, da mesma forma, quanto menor é a turma mais tempo o professor usa em actividades directamente ligadas ao ensino e aprendizagem.
O Estudo o CNE e outros trabalhos internacionais mostram que Portugal e um dos países em que os professores mais tempo gastam em trabalho de controlo de comportamentos dos alunos. É reconhecido também que turmas de maior dimensão registam mais episódios de indisciplinas.


Esta evidência não pode deixar de ser tida em conta na discussão aberta sobre o número de alunos por turma.
No entanto, creio que existe um outro conjunto de aspectos que me parecem fortemente associados à qualidade da educação e dos resultados escolares para além do número de alunos e que não devem ser esquecidos nesta equação. Sem esgotar ou hierarquizar, vejamo alguns desses aspectos.

Como várias vezes aqui tenho referido e o Estudo do CNE também aponta, parece-me que a autonomia das escolas deve ser reforçada também no que respeita à organização dos alunos de forma a acomodar as especificidades dos territórios educativos. Para além disso, existência de recursos técnicos em número e com a qualificação adequada é importante.


Creio também que a questão dos comportamentos dos alunos em sala de aula não pode ser desligada da organização e conteúdos curriculares. Se recordarmos o trabalho recentemente divulgado Health Behaviour in School-aged Childrentemos que os alunos portugueses expressam uma apreciação negativa da escola, das mais baixas entre os 42 países participantes, apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas aos 15 anos afirma gostar da bastante da escola, resultado mais baixo que em edições anteriores. Ainda de acordo com o estudo os alunos portugueses gostam dos colegas e dos intervalos e não gostam das aulas porque as consideram aborrecidas e com matéria excessiva.


Temos currículos extensos, normativos, associados a um conjunto insustentável e burocratizado de metas curriculares que tornam muito difícil aos docentes acomodar a diversidade dos alunos e, como estes dizem, reflectem-se na motivação. Como sabemos a baixa motivação é um factor fortemente contributivo para comportamentos desajustados em sala de aula.

Parece-me também de considerar o impacto da alteração do quadro de valores, por exemplo a percepção social dos designados traços de autoridade. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.

Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante, mas é outro nada.

Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente, apoiado e valorizado se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.
Neste âmbito, apoio e valorização dos professores está muito por fazer.

É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".

Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ.

Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que a 
presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.

Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do "prender" do "expulsar" até ficarem só os nossos filhos.
O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.

Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.





É sempre com forte inquietação que tomo conhecimento de episódios de vandalismo dirigidos a escolas. Agora, pela quarta vez em mês e meio, aconteceu à Escola Secundária da Ramada.
Qualquer tipo de comportamento desta natureza é sempre lamentável, acontecer com escolas é particularmente preocupante.

Nada do que a seguir escrevo pretende branquear ou minimizar este gesto delinquente que, como tal, deve ser punido e, tanto quanto possível prevenido. Do meu ponto de vista esta prevenção não passa só por um reclamado aumento da vigilância sobre as instalações.
No que li na imprensa não sei se os autores são, ou foram, alunos desta escola mas é frequente que assim seja.
Se bem se recordam dados recentes do Estudo Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS mostraram a apreciação puco positiva que os adolescentes fazem da escola.

Muitos dos autores envolvidos em actos de vandalismo contra escolas são actuais alunos ou ex-alunos dessas escolas mas quase sempre com trajectórias de insucesso e abandono A escola é, por assim dizer, a face do seu fracasso.
Não que este fracasso seja culpa da escola. O insucesso educativo envolve, evidentemente, a escola mas também a qualidade das políticas educativas em múltiplas dimensões, os recursos disponíveis, as políticas sociais, as famílias que por negligência, impotência ou incompetência também falham no seu papel, etc., etc.

Por princípio, ninguém mentalmente e educativamente saudável, por assim dizer, vandaliza a sua casa ou um espaço percebido como seu. Como diz Caetano Veloso, “quando a gente gosta, a gente cuida”. A questão é muitos alunos não percebem, não sentem a escola como sua e, como disse, é o espelho de tudo o que não são.
Temos que caminhar neste sentido, reconstruir a relação de alguns alunos com a escola.

Como escrevia há algum tempo, seria muito interessante, mas não passa, provavelmente, de um romantismo não compatível com a dureza crispada, agressiva e feia, dos tempos e da vida actual, imaginar que a generalidade dos miúdos e adolescentes quisessem fugir para a escola, não porque fugissem de algo mau, o contexto familiar, por exemplo, e que em bom rigor e lamentavelmente é por vezes tão mau que obriga a fugir, mas porque os miúdos quisessem correr para a escola por nela se sentirem bem e não apenas nos intervalos e com os amigos.

Para isso, tem que caber na escola mais do que currículos fechados, extensos, normativos apenas direccionados para os saberes estruturantes que se revela incapaz de acomodar a diversidade dos alunos. Temos que ser capazes de introduzir diferenciação de trajectos e de ofertas não de natureza discriminatória, dirigida a “bons” ou dirigida a “maus” mas apenas que pela sua diferença possa atrair e ser adequada a … alunos diferentes.

Como também escrevi, nos tempos que correm também muitos professores, bons professores, mostram por cansaço ou desesperança que já não fogem para a escola, um lugar de realização, de trabalho duro mas com uma das maiores compensações que se pode ter, ajudar gente pequena a ser gente grande.

O clima institucional, a burocracia, a deriva política foram, vão, levando a que a escola não apeteça. Felizmente, muitos outros professores ainda conseguem fugir para escola, os alunos desses professores são gente com sorte.

Se não conseguirmos caminhar noutro sentido os episódios de vandalismo em escolas, de indisciplina e a delinquência infanto-juvenil dificilmente serão revertidas. Mesmo com aumento de vigilância e de dispositivos legais ou processuais de punição.


http://atentainquietude.blogspot.pt/

PUBLICAÇÃO ESPECIAL - FOTOGALERIA - Em 1969 foi assim a luta com as “capas negras”





Quando Américo Tomaz não deu a palavra aos estudantes, a luta pela democracia em Portugal começou a vestir o traje de Coimbra. No Dia Nacional do Estudante, recorde aqui a Crise Académica de 1969.


A crise académica de 1969 foi marcada por uma onda de indignação que agitou Coimbra e o país inteiro

17 de abril de 1969. A Universidade de Coimbra estava a inaugurar o Departamento de Matemática e o presidente Américo Thomaz seguiu para a capital dos estudantes com o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, numa época em que a contestação estudantil estava em alta. Quando a comitiva chegou a Coimbra foi recebida por um mar de capas negras com cartazes em protesto. Estavam nas ruas e nas faculdades e não havia forma de o regime as ignorar.
Américo Thomaz entrou no novo edifício e discursou perante um público de apoiantes, até porque os estudantes foram mantidos fora da Sala 17 de Abril, onde a reunião estava a acontecer. No final do discurso, o presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (Alberto Martins, hoje um destacado militante do PS, ex-ministro da Justiça) sobe para cima de uma cadeira com a capa aos ombros e diz: “Em nome dos estudantes de Coimbra, peço a palavra”. A palavra não lhe foi dada: o Presidente da República, mesmo atrapalhado, introduz o discurso do ministro das Obras Públicas e a sessão termina logo a seguir. Foi a gota de água: as vaias que acompanharam a saída da comitiva anunciaram o início da Crise Académica de 1969.

Ainda a 17 de abril, Alberto Martins foi detido e passou a noite na cadeia. A comunidade estudantil estava pronta para agir, mas fê-lo a partir de 22 de abril quando oito estudantes da Universidade de Coimbra foram suspensos e proibidos de assistir às aulas. A Assembleia Magna decretou luto académico e as aulas foram substituídas por reuniões e debates precisamente na sala nova da Universidade. O governo adjetivava as iniciativas dos estudantes como uma “onda de anarquia que tornou impossível o funcionamento das aulas”. E apesar de os meios de comunicação social estarem proibidos de escrever, falar ou mostrar o que se passava em Coimbra, alguns deles conseguiram fazê-lo de modo subtil. Foi o caso do Diário de Coimbra, que usava recursos estilísticos para explicar algumas operações que os estudantes levavam a cabo no centro da cidade.

Quando José Hermano Saraiva admitiu alguma fragilidade perante a revolta estudantil, a Universidade fecha mas mantendo o calendário de exames. A Associação Académica de Coimbra lança então um documento intitulado “Carta à Nação” que pede “uma universidade nova num Portugal novo” e equaciona uma greve aos exames. Foi como colocar todos os trunfos em cima da mesa: se os universitários decidissem mesmo boicotar o calendário de exames estavam a chumbar deliberadamente e a colocar um pé em África, o que representava uma ameaça direta de serem mobilizados para as Forças Armadas e enviados para a guerra colonial. Avançaram: mais de 5000 pessoas votaram a favor do boicote e menos de 200 anunciaram que iriam fazer os exames.

A Academia dividiu-se assim entre “grevistas” e “fura greves”: a 2 de junho – uma segunda-feira e o primeiro dia de greve – vários estudantes chegaram à universidade acompanhados pelos pais. Uns iam obrigados pelos próprios, que não queriam ver as propinas investidas em Coimbra a serem perdidas em nome de uma crise; outros porque temiam as consequências no final desta onda de revolta; um grupo importante fazia-o por convicção, como o liderado por José Miguel Júdice.

Ao longo dos dias de exames os estudantes agitaram a cidade: uns distribuíam flores pelos habitantes de Coimbra, outros lançavam balões com mensagens de ordem nas praças. A profusão era tanta que a Guarda Nacional Republicana invadiu o espaço urbano e chegaram até a circundar a Sé Velha de Coimbra. Em julho chegaram os números: quase 87% dos estudantes tinha faltado aos exames. Os outros 13% viram os seus rostos espalhados na cidade com o título de “traidores”.

Entretanto, a 22 de junho, realizava-se a final da Taça de Portugal: nas meias-finais – disputadas a 15 de junho – os estudantes da equipa da Académica tinham vencido ao Sporting por 1-0. Lisboa encheu-se de capas negras e de cartazes de protesto: no estádio, onde a Académica ia jogar contra o Benfica, esperava-lhes um enorme aparato policial. Mas não o Presidente: pela primeira vez, Américo Thomaz faltou ao evento e o jogo de futebol nem sequer foi transmitido pela RTP, ao contrário do que já então era habitual. No final, os estudantes saíram derrotados por duas bolas a uma, mas não foi essa derrota que impediu os jogadores de colocar as capas aos ombros, em sinal de luto.

Apesar da persistência dos estudantes, muitos deles acabariam por ser obrigados a abandonar os estudos e a seguir para África. A Estação de Coimbra-B encher-se-ia de antigos universitários que agora iriam vestir a farda portuguesa noutro continente. Nem nesse momento os jovens se calaram: gritavam em protesto contra a guerra e contra o regime.

Em 1987 a Assembleia da República Portuguesa votou que o dia 24 de março passasse a servir de homenagem à comunidade universitária que lutou pela liberdade em Portugal: estava instaurado o Dia Nacional do Estudante.

FOTOGALERIA
















































































































observador.pt