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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Carta aberta de Brian Eno sobre a Palestina: Israel não quer a paz


O músico Inglês envia uma carta ao público na UE questionando a sua adesão 
cega e apoio aos 
crimes de guerra que Israel 
perpetua com sua 
aventura militar e ocupação 
colonial nos 
Territórios Ocupados da 
Palestina: um apelo 
para despertar a empatia ou 
repensar a 
cumplicidade do ocidente no 
massacre palestiniano.

Uma das maiores lendas musicais do século 
XX, Brian Eno, escreveu esta carta aberta 
sobre a perda de civilização a que nos 
inevitavelmente conduz o actual conflito 
entre Israel e Palestina.



“Eu sinto que quebro uma regra não escrita 

com esta carta, mas eu não posso ficar em silêncio.

Hoje eu vi uma foto de um palestiniano que estava chorando, segurando um recipiente de plástico e um saco de carne. Era seu filho. Ele foi esmagado (segundo o hospital) para um ataque por mísseis israelenses aparentemente usando sua fantástica nova arma, as bombas flecha. Você provavelmente conhece-los: centenas de pequenos dardos de aço montados em torno de um explosivo que arranca a pele humana. O menino era Mohammed Khalaf al-Nawasra. Ele tinha quatro anos.

De repente, eu me vi pensando que um dos meus filhos podia ser aquele saco, e consegui irritar-me com essa ideia mais do que muitas outras coisas.
Então eu li que a Organização das Nações Unidas disse que Israel poderia ser culpado de crimes de guerra em Gaza, e eles queriam lançar uma comissão sobre o assunto. Os Estados Unidos não a apoiaria…

O que está acontecendo nos Estados Unidos? Eu sei em primeira mão o que são as suas notícias tendenciosas, e quão pouco o outro lado da história é ouvida. Mas – por amor de Deus - não é difícil de aprender. Por que os Estados Unidos continuam a apoiar cegamente este exercício unilateral de limpeza étnica? PORQUÊ? Eu não entendo. Eu odiaria pensar que é apenas pelo poder do AIPAC [Comité de Assuntos Públicos Americano Israel] ... bem, nesse caso, então, o teu  governo é simplesmente corrupto. Não, eu não acho que essa é a razão ... mas eu não tenho nenhuma ideia do que poderia ser.
A América que eu conheço e amo é compassiva, aberta, criativa e eclética, tolerante e generosa. Vocês, meus amigos americanos mais próximos, simbolizam tudo isso por mim. Mas porque os Estados Unidos estão apoiando esta guerra colonialista horrível e unilateral? Podemos decifrar: Eu sei que vocês não são as únicas pessoas como você, então como foi que todas essas vozes não se estão ouvindo ou sendo registrado? Por que não é o seu espírito que as pessoas pensam quando ouvem as palavras "Estados Unidos"? Quão ruim é quando o país que baseia a sua identidade, mais do que qualquer outro, em noções como liberdade e democracia, e vai colocar seu dinheiro exatamente onde não está a tua voz e suporta uma teocracia racista e furiosa?
No ano passado eu estive em Israel com Mary. Sua irmã trabalha com a UNRWA [Agência da Nações unidas para os Refugiados da Palestina no Médio Oriente) em Jerusalém. Connosco estava um palestinianoo, Shadi, marido da irmã e guia profissional, e Oren Jacobovitch, um judeu israelense, ex-prefeito da IDF [Forças de Defesa de Israel], que deixou o serviço sob  polémica  ao se recusar em bater nos palestinianos. Ao lado deles, vimos algumas coisas intrigantes: casas palestinas encurralado por arame farpado e folhas alumineo para evitar que os colonos atirem merda e mijo e toalhas sanitárias usadas para as pessoas; Crianças palestinas golpeadas em seu caminho para a escola por crianças israelenses sendo espancados com bastões de beisebol com osrisos e aplausos de seus pais; expulso um povo inteiro para viver em cavernas, enquanto três famílias de colonos se mudaram para a sua terra; um aldeamento israelita no topo da colina despejando seus resíduos diretamente em campos agrícolas palestinianos os nas encostas, o Muro; checkpoints ... e toda a humilhação diária interminável. Eu fico pensando, 'os americanos realmente suportam isso? Você realmente acha que está tudo bem? Ou simplesmente eles não tomaram conhecimento?

Sobre o processo de paz: Israel quer o processo, mas não a paz. Enquanto o "processo" está em curso, os colonos continuar a tomar a terra e construir aldeamentos... e, finalmente, quando os palestinianos lançaram seus fogos de artifício patéticos, eles são espancados e destroçados com mísseis de ultima tecnologia, cheio de urânio, porque Israel "tem o direito de defender-se "(embora claramente não os palestinianos). E as milícias coloniais estão sempre dispostos a bater em alguma coisa ou a destruir o olival de alguém enquanto o exército olha para longe. Na verdade, muitos deles não são etnicamente israelitas: eles são judeus “com direito a regressar”da Rússia e da Ucrânia e da Moldávia e da África do Sul e Brooklyn, e que recentemente chegaram  a Israel com a noção que eles tinham um direito inviolável à (divina!) terra, e que «árabe» é igual a 'praga' - racismo da velha escola exibindo a mesma fanfarronice arrogante e descarada que os velhas caras apreciavam tanto na Louisiana. Essa é a cultura que os nossos impostos estão defendendo. É como o envio de dinheiro para o[KK] Klan.

Mas, além disso, o que realmente me preocupa é o quadro geral. Goste-se ou não, aos olhos da maior parte do mundo, a América representa "o Ocidente". Assim, parece que o Ocidente está a apoiar esta guerra, apesar dos nossos grandes discursos sobre moralidade e democracia. Temo que todas as conquistas civilizacionais do Iluminismo e da cultura ocidental sejam desacreditadas -para o deleite dos loucos Mullahs- por esta hipocrisia descarada. A guerra não tem justificação moral para mim, nem tem um valor pragmático. Não faz sentido nem no kissingueriana 'realpolitik'; apenas nos faz ficar mal.



Lamento incomodar-vos com tudo isto. Eu sei que vocês estão ocupados e em diferentes níveis de alergia à política, mas isto vai para além da política. É que estamos a desperdiçar o capital da civilização que fomos construindo ao longo de gerações. Nenhuma das perguntas nesta carta é retórica: Eu realmente não compreendo e eu gostaria de compreender.”

Tradução CR

cris-sheandbobbymcgee.blogspot.pt

BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO POIS DELES SERÁ O REINO DOS CÉUS - JESUS NO facebook


ALGO ESTÁ MAL NO REINO DA DINAMARCA



Fecharam-se fronteiras, ergueram-se vedações e a Europa da livre circulação torna-se cada vez mais uma coisa do passado.
Parece que Hamlet estava certo quando premonitoriamente avisava: «Something is rotten in the state of Denmark».
O fascismo vai pondo as garras de fora um pouco por toda a Europa e muitos assobiam para o lado como se nada estivesse a acontecer, para não falar daqueles que lá vão, cantando e rindo, cúmplices do recrudescimento das forças obscurantistas e criminosas derrotadas na II Guerra Mundial.


“Alimentação digna” de casal com dois filhos avaliada em 766 euros por mês


Portugal surge como o 10.º país europeu com um valor mais elevado nesta estimativa. Valor tem em consideração a quantidade de alimentos, mas também a qualidade dos mesmos e algumas actividades sociais.
A Oikos sugere uma revisão de várias regras para incentivar 
uma alimentação mais saudáve


“Alimentação digna.” Este é o conceito que está na base das contas feitas pelo projecto Rendimento Adequado em Portugal, com o objectivo de chegar ao valor médio mensal para um casal e dois filhos viverem sem dificuldades e darem resposta às necessidades alimentares numa cidade como Lisboa. Para estas contas não entram, por isso, apenas os produtos básicos.O cálculo tem em consideração a quantidade de alimentos, mas também a qualidade dos mesmos e outros factores, como algumas refeições esporádicas fora de casa e receber amigos. No total, um homem e uma mulher com cerca de 40 anos, uma filha de 14 anos e um filho de 10 precisariam de cerca de 766 euros mensais — um valor que aproxima Portugal dos países mais caros.
Os dados foram apresentados nesta segunda-feira por José António Pereirinha, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, no âmbito de uma conferência, da organização não governamental Oikos, dedicada à integração de políticas públicas na área da segurança alimentar e apoiada pela Direcção-Geral da Saúde e pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa. O investigador explicou que há dois projectos sobre este tema a decorrer, um de âmbito nacional, mais baseado na percepção de um grupo de mais de 2000 pessoas, e outro integrado com mais países europeus, sobretudo para efeitos de comparação, e que tem como base alguns estudos científicos, contando com a percepção de menos pessoas.
Os valores apresentados fazem parte do trabalho europeu, que olha para o rendimento que os cidadãos precisam de destinar a uma determinada área como aquela que “permite uma participação adequada na sociedade”. Ou seja, explicou José António Pereirinha, os montantes abarcam “tudo o que é necessário para uma pessoa ser saudável, sentir-se segura, relacionar-se com os outros e sentir-se respeitada na sociedade. Deve permitir escolhas livres e informadas”.
O processo para chegar a estes valores é complexo. Por exemplo, no campo da alimentação, antes de ouvir as pessoas, os investigadores determinam as necessidades energéticas, as proporções de macronutrientes e respectivas quantidades e, entre outras coisas, criam planos diários de alimentação que sirvam de modelo.
Solteira? 202 euros...
Além da família com dois filhos, são apresentados valores para um mulher de 40 anos que viva sozinha. Em Lisboa, para uma “alimentação digna”, precisaria de 202 euros. Para um homem da mesma idade, o valor seria de 206 euros e para um casal ficaria nos 386 euros. Já uma mulher que viva sozinha com os dois filhos menores gastaria 583 euros e o homem 587. O valor mais elevado, de 766 euros, corresponde ao casal com dois filhos e é o mais frequentemente utilizado nas comparações internacionais. Neste caso da estimativa familiar, só na Dinamarca, Finlândia, Grécia, Luxemburgo, Suécia, Eslovénia, Chipre, Malta e Letónia foram registados valores mais elevados. Pelo contrário, a “alimentação digna” regista os valores mais baixos na Hungria, República Checa, Polónia, Estónia, Letónia e Roménia.
Além do trabalho de José António Pereirinha, a conferência da Oikos discutiu estudos relacionados com a pobreza e a insegurança alimentar em Portugal — uma situação que se agravou após a crise, segundo os dados apresentados por Pedro Graça, director do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Números corroborados por Mónica Truninger, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenadora de um inquérito nacional sobre a insegurança alimentar, que demonstrou que os últimos anos privaram mais famílias de alimentos, com a classe média a mostrar ter tido mais dificuldades em adaptar-se, até por desconhecer os circuitos de apoios sociais.
A Oikos aproveitou o momento para deixar algumas recomendações para os decisores políticos, nomeadamente propondo que se defina um rendimento adequado para que as famílias portuguesas possam escolher uma alimentação saudável. Uma das ideias considera que “uma via possível é a criação de um meio de pagamento electrónico (ex: cartão pré-pago) parcialmente condicionado à satisfação de necessidades alimentares e higiene, privilegiando a compra na agricultura e comércio de proximidade”. De acordo com as propostas da organização, as cantinas sociais e todas as instituições de apoio deveriam ter um papel mais activo nestas mudanças que passariam sempre pela criação de uma Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional que “transponha para o ordenamento jurídico nacional o Direito Humano à Alimentação Adequada a que Portugal já se obrigou internacionalmente”.

SUÍNOS DA "VOZ DO DONO"

O JORNALIXO E A VARA DE SUÍNOS "A VOZ DO DONO" QUE EXISTE EM PORTUGAL TEM SAUDADES DA AUSTERIDADE POIS ELA NÃO LHE CHEGA ÀS ALGIBEIRAS JÁ QUE ANDAM DE CORPO DIREITINHO A ESCREVER MENTIRAS E A GANHAR BEM.


QUEM QUER BONS EMPREGOS QUE OS ARRANJE QUE TRABALHAR FAZ CALOS !


ESTOU INDIGNADO COM O QUE TENHO LIDO E ESCUTADO HOJE SOBRE O ORÇAMENTO DE ESTADO QUE NA VOZ DAS HIENAS AO SERVIÇO DO NEOLEBARISMO, O OE JÁ TERIA SIDO REJEITADO POR BRUXELAS.


NÃO SEI SE O ORÇAMENTO É BOM OU MAU, SEI QUE MUITO BOM NÃO DEVERÁ SER PARA A CLASSE QUE TRABALHA COMO JÁ É COSTUME HÁ MUITOS MUITOS ANOS.

O QUE ME REVOLTA É O RUÍDO DA VARA DE PORCOS QUE NEM CATEGORIA TÊM PARA HABITAR UMA POCILGA QUANTO MAIS PARA ESCREVER NOS JORNAIS E GRUNHIR NA TELEVISÃO.
AG

VÍDEO - A Tribo Kamayurá do Alto Xingu









Tribo Kamayurá do Alto Xingu

Nesta aldeia, as meninas ficam presas durante anos dentro 

das malocas até se tornarem mulheres. E se revelam 

guardiãs da cultura única de sua gente.


















VÍDEO










AS BICICLETAS MAIS LOUCAS - FOTOGALERIA






















HUMOR


NO DIA INTERNACIONAL EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO NAZI-FASCISTA.





Entre o discurso xenófobo e racista dos grupelhos de extrema-direita que se manifestam um pouco por toda a União Europeia e o cinismo dos burocratas de Bruxelas relativamente à situação das centenas de milhares de refugiados que aguardam por uma solução para as suas vidas em campos improvisados no leste e no centro da Europa a distância é muito mais aparente do que efectiva. Os fascistas querem impedir activamente a entradas dos refugiados na zona da UE; já a burocracia de Bruxelas vai adiando a solução que desde há muitos meses se impõe, talvez na expectativa de que iraquianos, sírios, líbios e afegãos se cansem das precárias condições em que se encontram aguardando uma mão que não se estende.

Na semana em que se celebra a libertação de Auschwitz pelo Exército soviético, a 27 de Janeiro de 1945, o parlamento dinamarquês aprovou legislação que envergonha o seu povo e que se destina a desencorajar quem foge da guerra, da destruição e da perseguição fanática a dirigir-se para aquele país por tantos considerado exemplar no quadro da União Europeia. A lei prevê o confisco de bens dos refugiados acima dos 1340 euros e dificulta o reagrupamento familiar, condição fundamental para o estabelecimento de famílias em países de acolhimento onde possam viver com dignidade e em paz. [1] É a versão elaborada do muro húngaro. Há até quem recorde a acção dos nazis face aos judeus, naqueles anos de má memória entre 1933 e 1945.

Perante a falta de vergonha dinamarquesa a Comissão Europeia assobia para o lado e aponta baterias à Grécia, que agora acusa de "negligenciar seriamente as suas obrigações" no que se refere à gestão de fronteiras. [2] Ironia das ironias, académicos de várias instituições (incluindo dinamarquesas) preparam a candidatura dos habitantes das ilhas gregas de Lesbos, Kos, Chíos, Samos, Rodes e Leros ao Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua acção de auxílio aos refugiados que todas as semanas chegam a solo grego. [3]

Das lágrimas de crocodilo de Barroso em Lampedusa ou das loas à senhora Merkel não restam memória suficiente para criar em torno da vergonha europeia face ao desinteresse a que estão votados os refugiados e imigrantes concentrados em campos uma cortina de fumo. Ao contrário do que se disse e escreveu no final de 2015 a palavra do ano não foi "refugiado" porque relativamente aos refugiados a atitude mais comum entre "nós", "europeus", foi a indiferença.

A 1 de Setembro de 2015 o PCP divulgou uma nota "Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa" [4] na qual deixava clara a sua posição sobre as causas da crise humanitária bem como sobre a resposta a dar-lhe. Na referida nota podia ler-se, no seu ponto 4, uma observação respeitante à distinção entre "refugiados" e "migrantes" absolutamente justa a que poucos deram ênfase: (o PCP) "deplora a visão de total discriminação na resposta a dar aos problemas humanitários colocados a pretexto da distinção entre refugiados e migrantes e condena frontalmente as visões e declarações, nomeadamente de partidos políticos portugueses, que a pretexto do drama humanitário criado pelas políticas dos EUA, da NATO e da União Europeia apontam o caminho de novas aventuras militares no Médio Oriente e no continente africano.".

Meio ano passou. Das várias dezenas de milhares de refugiados que desde o Verão de 2015 se foram concentrando na Europa à espera de resposta por parte dos governos nacionais e dos burocratas de Bruxelas apenas escassas centenas viram as suas situações resolvidas. A "Europa" é também isto. Não o é todavia em meu nome.



Notas:
[1] Imune às críticas, Dinamarca aprovou confisco de bens aos refugiados, Público, 26.01.2016.
[2] "Grécia negligenciou seriamente as suas obrigações" na gestão da sua fronteira, Público, 27.01.2016.
[3] Greek islanders to be nominated for Nobel peace priz, The Guardian, 24.01.2016.
[4] Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa, 01.09.2015.
manifesto74.blogspot.pt

Ao lado do “Anjo da Morte”









Ella Lingens, numa foto de registo da Gestapo de Viena, em outubro de 1942. Embora "ariana de raça pura "foi levada para Auschwitz por esconder judeus; como médica, foi obrigada a trabalhar ao lado de Mengele, o "Anjo da Morte", e testemunhou algumas das atrocidades por este praticadas. Faleceu em 2002
D.R.

Tinha um futuro promissor à sua frente. Ella Lingens fora uma das alunas mais brilhantes da Faculdade de Medicina, casara com um colega e tinha um filho de caracóis louros que estava a aprender a balbuciar “mamã”. Acabou em Auschwitz, a trabalhar sob as ordens do “Anjo da Morte”, Josef Mengele. No dia em que passam 71 anos da libertação dos prisioneiros, e para assinalar um acontecimento histórico, o Expresso disponibiliza online um texto publicado originalmente a 28 de janeiro de 1995





ADAM PIECZYNSKI
Ella Lingens era admirada nos cafés de Viena pelas suas convicções sociais-democratas, andar emancipado e provocante, e fascinantes olhos azuis. Quando escondeu, no andar onde morava, judeus perseguidos pelos nacionais-socialistas e os ajudou a sair do país, não sabia que uma cadeia de infortúnios e denúncias a levaria ao pior pesadelo da sua vida.
Como prisioneira em Auschwitz, teve de trabalhar sob as ordens do "Anjo da Morte", Josef Mengele, um médico tão brilhante como diabólico, que distribuía chocolates pelas crianças judias e ciganas, antes de as submeter a experiências e torturas atrozes ou de as conduzir pessoalmente para as câmaras de gás, no seu descapotável verde.
Agora, aos 87 anos, meio século depois da libertação de Auschwitz, Ella conserva ainda a determinação e a vontade de viver que a salvaram da morte. A sua figura frágil, encolhida num enorme cadeirão, domina suavemente o ambiente da casa rústica onde mora, nos arredores de Viena.
Ella Lingens foi obrigada a escolher entre a vida e a morte dos seus doentes, "como se fosse Deus", pois não podia desperdiçar medicamentos escassos, em casos que pareciam irreversíveis. "A quem dar os medicamentos, a uma mãe com muitos filhos ou a uma rapariga nova?" - tinha de perguntar a si mesma. "A quem administrar uma injecção, a um velho que, em qualquer caso, vai morrer, ou dividi-la por dois jovens?"
Ella Lingens era catalogada pelos burocratas do Terceiro Reich como "uma ariana de raça pura", o que lhe permitiu esconder os seus amigos judeus sem que desconfiassem dela. Na "Noite de Cristal", em Novembro de 1938, quando os judeus foram espancados nas ruas, as suas casas e lojas destruídas e os seus livros queimados, alguém tocou à porta do andar onde moravam os Lingens. Era o engenheiro Wiesenfeld, que chegou de pijama, a tremer, para se refugiar em casa deles, trazendo na mão uma escova de dentes.
Pela janela chegava um ruído insuportável, de vidros a estilhaçarem-se, bramidos e gritos das hordas nazis, e o engenheiro Wiesenfeld disse-lhes: "Invejo-vos." "Porquê?" - perguntou Ella. "Porque vocês não são judeus". O refugiado ficou três semanas e foram chegando "mais e mais". Finalmente, o andar estava tão cheio, conta Ella, "que o meu marido e eu fomos morar para o hotel".
Foram meses de tensão trágica, e por vezes absurda. Erika, uma jovem de 19 anos, a última judia que esconderam, fê-los passar o susto de vida deles, quando, farta da rotina da vida clandestina, de estar fechada e de apanhar calor, resolveu tomar banho de sol nua, no parapeito da janela do "atelier" onde moravam os Lingens. Os alunos de um liceu que ficava em frente do edifício pensaram que se tratava de uma louca suicida e chamaram a polícia. "Não nos descobriram por milagre" conta Lingens. Antes que os homens de uniforme forçassem a porta do andar, chegou uma amiga da família, "completamente ariana", que convenceu a polícia de que fora ela que estivera a tomar banho de sol.
Mas Ella confiou demais na sorte e continuou a arranjar documentos falsos para que os perseguidos pudessem partir para o exílio, acabando por ser denunciada à Gestapo.

MÉDICA À FORÇA

Chegou a Auschwitz no fim do Inverno de 1942. Aí começou, pela primeira vez, a praticar medicina, no barracão das prisioneiras alemãs e austríacas doentes. Trabalhou às ordens de vários médicos, o último dos quais foi Mengele. Recorda o Dr. Rohde, um SS, que, para suportar as escolhas de vítimas para as câmaras de gás, no pavilhão dos doentes ou no cais da estação de caminho-de-ferro, "se embebedava até quase ficar inconsciente".
Não havia camas suficientes e os doentes dormiam aos três e aos quatro nos beliches. Havia piolhos, epidemias de febre tifóide e grassava uma doença contagiosa causada pela desnutrição, que perfurava a pele até aos ossos. "A minha vida lá era como se me tivesse oferecido hoje como voluntária para combater uma epidemia no Bangladesh ou no Ruanda, um trabalho esgotante, para ajudar as pessoas, sem saber o que acontecia ao lado", diz Lingens.
Na pior época da epidemia de febre tifóide, Lingens tinha a seu cargo 750 doentes. "Foi justamente Mengele, que dividia o seu tempo entre as experiências brutais com gémeos e anões e o trabalho de organização sanitária, que travou a epidemia." Evacuou os 1500 doentes de um barracão e mandou-os para as câmaras de gás. Desinfectou a sala vazia, mandou mudar os lençóis e outros doentes, desinfectados e despiolhados, foram transferidos para o barracão. Depois desinfectaram o pavilhão vazio e assim sucessivamente. "Realmente travou a epidemia, mas não lhe passou pela ideia chegar ao mesmo resultado sem assassinar 1500 pessoas", comenta Lingens.
Nos pavilhões de judeus e ciganos, as pessoas não chegavam a morrer das epidemias. Eram assassinadas. As mulheres grávidas eram enviadas para as câmaras de gás, assim como os doentes e os sem forças para os trabalhos forçados. Foram muitas as mães que preferiram asfixiar os seus bebés, para os poupar à morte em mãos alheias, porque a maioria dos recém-nascidos eram afogados pelos guardas SS.

RECORDAÇÕES ANGUSTIANTES

Auschwitz foi a experiência central da vida de Lingens, e os fantasmas das pessoas que conheceu na fábrica da morte acompanhá-la-ão até ao fim dos seus dias. Havia médicos pouco escrupulosos que exigiam que os doentes com malária lhes dessem a sua porção de pão, a troco de quinino. E houve mulheres que se transformaram em prostitutas no bordel de Auschwitz, porque assim tinham direito a uma melhor ração alimentar, a um duche diário e a uma habitação mais confortável.
Ainda hoje é assombrada pelo fantasma da fome, ou pelo da jovem que não pôde ajudar, porque recebera 25 chicotadas e fora obrigada a ficar de pé durante três dias e três noites, com água fria até à cintura. Era o castigo para os que se atreviam a fazer amor em Auschwitz e eram surpreendidos. Como também não consegue esquecer o grito colectivo de 100 pessoas encerradas nas câmaras de gás e, "após 15 minutos", o silêncio absoluto. "Outra vez os gritos, depois o silêncio, uma, duas, três vezes."
Numa noite, Ella Lingens e as suas companheiras contaram 60 viagens de um camião carregado de cadáveres, das câmaras de gás até aos crematórios. Depois começava a sair fumo pelas chaminés e o cheiro inconfundível dos corpos queimados espalhava-se por todo o campo de Auschwitz.
Enquanto centenas de milhares de pessoas se transformavam em cinzas, Mengele continuava as experiências como um possesso,no seu pavilhão de horrores, uma antecâmara da morte. Sessenta pares de gémeos foram abertos pelo seu bisturi e, de todos eles, só sobreviveram sete pares.
O "Anjo da Morte" era para Lingens "um cínico incrível", com uma inteligência superior à do resto dos médicos SS, que tinha a preocupação de fazer com que os irmãos morressem à mesma hora, pela mesma causa. Assim podia comparar os órgãos, que enviava depois, conservados, para o Instituto de Biologia Genética de Berlim, em pacotes com a inscrição "Urgente, Material de Guerra".
Mengele achava que as condições do campo eram más e introduziu, inclusive, algumas melhorias, mas "assassinava a sangue-frio, sem nenhuns problemas de consciência". Olhava com orgulho os "dossiers" com os resultados das suas investigações e só lamentava que, no futuro, pudessem cair"nas mãos dos bolchevistas".
Ella Lingens teve a sorte de não ser colocada no Pavilhão das Experiências, porque não teria resistido. Para experimentar métodos de reanimação em pessoas congeladas, Mengele baixava a temperatura do corpo das vítimas até aos limites da paragem cardíaca, e depois tentava aquecê-las com cobertores ou cobrindo-as com mulheres nuas.
Dava só água do mar a beber aos prisioneiros, até morrerem de sede, para comprovar a resistência do ser humano em caso de naufrágio. Os esqueletos das pessoas com anomalias eram enviados como troféus para a colecção da Reichsuniversitât, em Berlim. Ligava o peito das mulheres que tinham acabado de parir, proibindo-as de amamentar os filhos, para determinar quanto tempo os recém-nascidos podiam viver sem se alimentarem.

OS MÉDICOS E OS "OUTROS"

Um dia, Mengele chamou Ella Lingens o seu gabinete e disse-lhe que tinha uma informação decerto surpreendente para ela. "Sabia que no seu pavilhão há relações entre lésbicas?" perguntou. "Claro que eu sabia", lembra a prisioneira. "E não faz nada para o impedir?" insistiu. "Era uma situação impossível, fechavam mulheres jovens durante anos num ambiente onde não havia nada que pudessem amar, uma criança, um animal, um flor, era tudo tão asqueroso que qualquer ser humano se degradava", lembra Lingens.
Noutra ocasião, o carniceiro de luvas brancas e botas de cabedal perguntou-lhe as razões por que a tinham enviado para Auschwitz. Lingens respondeu que fora denunciada por ter ajudado a tirar judeus do país. "Como é que se pode ser tão imbecil ao ponto de pensar que isso é possível?" Ella atreveu-se a responder que havia casos em que tinham conseguido, com dinheiro. "Naturalmente que vendemos judeus", respondeu Mengele. "Seríamos estúpidos se o não fizéssemos."
"Não tinha razões para ter medo de Mengele", diz Lingens. Para ele havia duas categorias de pessoas, "os médicos e os outros". Mengele representava as duas caras de Mefistófeles. No meio dos corpos raquíticos e humilhados dos prisioneiros, era um homem bem parecido, elegante, impecável, de uma cortesia imperturbável para com as suas vítimas. Tão depressa salvava um judeu, porque era médico, como atirava um recém-nascido para o lume, porque chorava demais, com a mesma indiferença. Lingens não conseguia suportar Auschwitz, e pediu para ser transferida para o campo de concentração de Dachau, outro inferno; mas se algum dia a libertassem, ficaria mais perto de casa, para regressar. Mengele não queria que ela saísse de Auschwitz, mas perante os rogos da prisioneira, aprovou o pedido com indiferença. "Não quero entravar o seu caminho para a felicidade", disse-lhe, como se Dachau fosse um paraíso.
Em Auschwitz, Ella Lingens perdeu a dignidade, passou fome e frio. Regressou a Viena com o cabelo todo branco e foi um dos momentos mais duros da sua vida. "Soube que o meu marido, julgando-me morta, tinha casado com outra, o meu irmão tinha morrido, combatendo ao lado da Resistência, na Jugoslávia, a casa dos meus pais fora bombardeada. O meu filho não me reconheceu e os meus vestidos...", diz com um olhar fixo e um suspiro, "...estavam comidos pelas traças".
Tradução de Maria do Carmo Cary / texto originalmente publicado no Expresso a 28 de janeiro de 1995, por ocasião do 50º aniversário da libertação de Auschwitz

MENGELE O ANJO DA MORTE


IMAGENS E VÍDEO RECOLHIDAS NA NET POR: ANTÓNIO GARROCHINHO




O médico fugiu da Alemanha logo após a Segunda Guerra Mundial e passou a viver clandestinamente na América do Sul. Depois de viver em uma colônia alemã no Paraguai, passou a fazer viagens constantes a Cândido Godói, também uma comunidade fundada por descendentes de alemães, perto da fronteira com a Argentina. “Há testemunhas de que ele fez o tratamento de algumas grávidas, acompanhou as gestações e deu a elas novos tipos de drogas”, diz o historiador.

No começo, ele se apresentou na cidade como veterinário e até fez alguns experimentos de inseminação artificial em vacas, mas depois tornou-se uma espécie de médico rural. “Todo mundo se lembra de que ele costumava tirar sangue das pacientes e guardar amostras’, afirma Anencir Flores da Silva, médico e ex-prefeito de Cândido Godói que se dedicou a investigar a passagem de Mengele pela cidade. O agricultor Aloísio Finkler diz que se lembra das visitas do médico. “Ele parecia ser um homem culto e digno”. Mengele morreu no Brasil, em 1979, sem ter sido julgado por seus crimes cometidos durante o nazismo.












VÍDEO - O ANJO DA MORTE - em francês