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domingo, 24 de janeiro de 2016

APESAR...


MAIS UM EMBUSTE

MAIS UM EMBUSTE NA VIDA DOS PORTUGUESES, UM CANDIDATO, AGORA PRESIDENTE FABRICADO AO LONGO DE DÉCADAS PELAS TELEVISÕES E JORNAIS, UM PRESIDENTE QUE FOI ELEITO COM POUCOS VOTOS ONDE MENOS DE METADE DOS PORTUGUESES NÃO FOI VOTAR DELEGANDO EM OUTROS A RESPONSABILIDADE DE COMBATER A DIREITA E O CAPITAL.
O PS FUGIU E "CAGOU-SE" NO POVO E CONTINUA NA SUA POLÍTICA DE TRAPALHADA COM LUTAS, ZANGAS E INVEJAS INTERIORES ONDE A DIREITA É QUEM MAIS ORDENA.
ESTE NÃO É O MEU PRESIDENTE NEM O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES ! É SIM UMA FIGURA SINISTRA COM LIGAÇÕES A SALAZAR E MARCELO CAETANO A RICARDO SALGADO E OUTROS CORRUPTOS QUE AGORA VAI CONSPIRAR CONTRA OS DIREITOS E AS CONQUISTAS DE ABRIL.
BELÉM ROSEIRA FOI A PRIMEIRA A FELICITAR MARCELO ! AGRADA-LHE !
O BE FESTEJA A "VITÓRIA" DE MARIZA MATIAS E PARECE ESQUECER-SE DO RESTO, DO PERIGO QUE É UM FASCISTA NA PRESIDÊNCIA.
OS OUTROS CANDIDATOS NÃO CONSEGUIRAM FAZER FRENTE AO PODER DO DINHEIRO E DO LIXO QUE SÃO OS MEDIA PORTUGUESES.
OS FACHOS, OS IGNORANTES, OS FALSOS, OS BUFOS, OS PIDES E OS LAMBEDORES CONTINUAM A MINAR A VIDA POLÍTICA DO POVO E EU ESTOU SEMPRE DO LADO DOS QUE LUTAM QUE TENTAM SEMPRE SUPERAR O QUE A CARNEIRADA IGNORANTE TEM VINDO A COLOCAR NO PODER DESTE DESGRAÇADO PAÍS.
António Garrochinho

O abraço mortal do "euro" e o impasse da economia portuguesa...

Resposta a um leitor, que, em relação a um meu comentário, deixado na revista VISÃO, afirmou: "Tenha em mente, "os mercados que nos governam" e emprestam dinheiro para pagar a nossa divida crónica. Goste ou não, é a realidade".
**
"Os mercados que nos governam" eram os credores de uma gigantesca dívida pública da Alemanha, gerada pelas pesadas indemnizações de guerra, exigidas pelos países vencedores das duas guerras mundiais. Essa dívida da Alemanha foi renegociada e reestruturada no princípio da década cinquenta do século passado, em Londres, o que levou os credores a perdoar metade do respectivo montante, a diminuir a taxa de juro e a alargar as maturidades (a Grécia até ficou a arder, pois a Alemanha deixou de pagar-lhe o que estava estipulado e até, recentemente, a "Hitler de saias" recusou a retoma do seu pagamento, da parte que estava em falta, o que ilustra bem como ela leva muito a sério o respeito pelos sagrados compromissos internacionais, tão endeusados pelo actual bacoco do Palácio de Belém). Se a Europa quer ajudar Portugal, a Grécia e, agora, também o Chipre (de quem ninguém fala), tal como a propaganda da direita alardeava em 2011, não sei como não é possível replicar o método com as dívidas soberanas destes três países. "Tenha isto em mente", s.f.f.

Por outro lado, imagine-se que Portugal tinha uma moeda nacional, com um valor monetário, alinhado com a produtividade da sua economia. Essa moeda teria um valor de cerca de um terço do valor do euro (lá se ia o BMW e o Mercedes, topo de gama). O que acontecia: A competitividade da economia subia, promovendo as exportações, e as importações diminuíam. O saldo comercial com o exterior passaria a ser francamente positivo, permitindo amealhar divisas estrangeiras, de valor significativo. É claro que, nos primeiros três anos, a "coisa" ia doer. Mas doía a todos, proporcionalmente, e não apenas a alguns, como aconteceu com a aplicação das calculistas políticas de austeridade da sinistra parelha Passos/ Paulo Portas, acolitados pelo não menos sinistro ministro das Finanças, Vitor Gaspar, de má memória (que, posteriormente, até foi premiado com um alto cargo no FMI). Este período de constrangimento seria, pois, de curta duração, uma vez que a economia iria crescer sustentadamente, a caminho da retoma e valorizando progressivamente a moeda, sempre de acordo com a taxa de produtividade da economia. O desemprego teria diminuído, o investimento interno aumentado, os salários e as pensões melhorados e haveria mais recursos para a Saúde, para Educação e para a Segurança Social, os três pilares do Estado Social. 

Ao traçar este cenário, não estou a inventar nada. Este modelo económico, ressalvando as diferenças impostas por outras realidades condicionantes, foi aplicado com sucesso na grande crise financeira de 1893/95, em que Portugal estava afogado por uma colossal dívida à Inglaterra, acumulada durante os cinquenta anos anteriores, devido ao esforço de construir as infraestruturas para a industrialização do país. Um dos mentores e executantes dessa política foi Ferreira Leite, o bisavô de Manuela Ferreira Leite. "Tenha em mente isto", s.f.f.

Imagine-se também que, em paralelo com o cenário anterior, se procedia à nacionalização dos bancos, sem indemnizações. Aquele argumento, utilizado até à exaustão, quando da sua privatização, na década de oitenta do século passado, que dizia que os privados geriam melhor os bancos do que o Estado, já caiu por terra. A boa gestão bancária, por privados, ficou amplamente demonstrada nos casos BPP, BPN, Millenium, Espírito Santo e BANIF e, também será demonstrada nos casos que virão a seguir. Com a nacionalização da banca, acabava-se de vez com a especulação bolsista, cujos ganhos não chegam à economia real, e também com a "teta" dos offshors e de todas as outras criativas formas, para proceder à imoral exportação de capitais. Os lucros proporcionados pelos créditos dos bancos nacionalizados, concedidos ao próprio Estado, às empresas e às famílias, serviriam para o Estado investir nas infra estruturas de apoio ao desenvolvimento económico. Tenha em mente também isto.

 http://alpendredalua.blogspot.pt



Sabonetes


“Uma estação que tem 50% de share vende tudo, até o Presidente da República! Vende aos bocados: um bocado de Presidente da República para aqui, outro bocado para acolá, vende tudo! Vende sabonetes!”.»
Emídio Rangel 1997

Via: as palavras são armas http://ift.tt/1S43tuF

Evolução dos resultados das presidenciais

Portugal Continental e Regiões Autónomas
Território Nacional
2.744 freguesias apuradas de 3.092 (348 por apurar)  (1 votação não realizada)
88,75 %


 
Votantes
48,84%
2.705.731 votantes
5.539.665 inscritos



Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa
54,38%
1.439.333 votos
Sampaio da Nóvoa
António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa
21,29%
563.423 votos
Marisa Matias
Marisa Isabel dos Santos Matias
9,56%
252.982 votos
Maria de Belém
Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina
4,24%
112.326 votos
Vitorino Silva
Vitorino Francisco da Rocha e Silva
3,82%
101.079 votos
Edgar Silva
Edgar Freitas Gomes da Silva
3,52%
93.154 votos
Paulo de Morais
Paulo Alexandre Baptista Teixeira de Morais
1,85%
48.858 votos
Henrique Neto
Henrique José de Sousa Neto
0,79%
20.943 votos
Jorge Sequeira
Jorge Manuel Pais Seara Rodrigues Sequeira
0,29%
7.761 votos
Cândido Ferreira
Cândido Manuel Pereira Monteiro Ferreira
0,26%
7.000 votos



EM BRANCO
1,23%
33.361 votos
NULOS
0,94%
25.511 votos



Percentagem de votos dos candidatos é calculada sobre os votos validamente expressos (em branco e nulos excluídos).

Crise do capitalismo - Continuam as réplicas do «sismo» de 2007/2008

Crise do capitalismo - Continuam as réplicas do «sismo» de 2007/2008
por CARLOS CARVALHAS

"Todos querem sair da crise pelas exportações, procurando ganhos de competitividade através da desvalorização salarial e da liquidação de direitos laborais, a que chamam, eufemisticamente, desvalorização interna.


Mas diminuindo o poder aquisitivo das massas ficam com os mercados cada vez mais restringidos, retomando a desvalorização das moedas através das taxas de câmbio – «as guerras das moedas». Deixam à rédea solta os mercados financeiros apoiados na liquidez e apoio dos Bancos Centrais, que se encontram cada vez mais ultrapassados pelos acontecimentos."

"A fabulosa concentração de riqueza e as enormíssimas desigualdades e injustiças sociais vão acentuar os confrontos e a luta de classes, mesmo num quadro geral de grandes dificuldades para os povos e trabalhadores."




Aqueles que afirmaram que a crise iniciada em 2007/2008 estava definitivamente arrumada interrogam-se agora sobre as perspectivas da evolução da economia mundial e perguntam onde está o motor do crescimento?

Houve quem pensasse que o motor estava nos chamados países emergentes, nos países asiáticos, mas a quebra no crescimento da China e na generalidade dos países exportadores de matérias-primas e a continuação da longa estagnação no Japão (apesar dos estímulos monetários – Abenomics) frustraram todas essas expectativas.
O sistema capitalista continua enredado nas suas agudas contradições, a economia não arranca sustentadamente e a finança continua atolada em activos tóxicos e fundos especulativos.
Os chamados bancos sistémicos, que foram identificados no G20 de 2011, detêm hoje um nível de «produtos derivados» a que pertencem os «sub primes» que já ultrapassam o nível anterior à crise. Estima-se que estes atinjam os 710 biliões de dólares, cerca de 10 anos do PIB mundial.
Embora se trate de um montante nominal, o que é certo é que a detenção massiva de produtos derivados pelos megabancos é uma bomba-relógio pronta a deflagrar em propagação sistémica. Por outro lado a banca paralela (Shadow Bank – banca sombra) não tem parado de crescer e não tem praticamente qualquer fiscalização.
Os povos continuam a pagar, através dos seus impostos, reformas e pensões, a capitalização e o desendividamento da banca.1
A banca e os bancos sistémicos conseguiram travar o essencial da regulamentação avançada pelos reguladores a seguir à crise, submetendo o poder político ao seu poder económico e financeiro, e continuam a ser responsáveis pela maioria da criação monetária, sabendo-se que a moeda é um «bem público». Não só criam moeda como lhe fixam o preço, bem evidenciado no escândalo da manipulação do mercado da taxa de referência Libor.
Christine Lagarde, em Maio de 2014, afirmou: «o comportamento do sector financeiro não mudou depois da crise».
Os ditos reguladores, como a autoridade europeia dos mercados financeiros (ESMA), são, no essencial, uma fachada para permitir que tudo continue como nos bons velhos tempos. O argumento da banca é que é proibido proibir, para não matar a «criatividade financeira».
Fala-se em volatilidade e liquidez que não consegue impulsionar a actividade económica e o que se questiona é onde e quando surgirá a próxima crise financeira.
Os banqueiros que estavam em pânico e submissos em 2008, recuperaram a sua força, o seu domínio e a sua arrogância à medida que os Estados, com o dinheiro dos contribuintes, os iam amparando, isto é, à medida que a crise bancária se foi transformando em crise das finanças públicas, designadamente na União Europeia, com a prestimosa acção do Banco Central Europeu. A banca ficava com os títulos de empréstimo dos Estados (títulos de dívida pública) a juros sempre superiores a 3, 4 e 5 pontos percentuais ao que obtinha no BCE, dando por garantia esses mesmos títulos. Agora esses financiamentos a taxas próximas do zero são em montantes muito mais elevados!
Os bancos centrais detêm nos seus activos cada vez mais «lixo tóxico» e debatem – bancos centrais japonês, chinês e europeu – a necessidade e oportunidade de maiores intervenções monetárias. Mas, ao fazê-lo, injectam massas cada vez maiores de liquidez que não conseguem controlar e que alimentam as actividades especulativas.
O Banco Central dos EUA, a FED, pôs fim às injecções massivas de dinheiro, no final de 2014, reduzindo a circulação de dólares, ao mesmo tempo que vai, sucessivamente, dando a entender que aumentará as taxas de juro, com a mais que provável valorização do dólar. Esta política levou à retirada massiva de fundos dos países emergentes que, com a queda do preço do petróleo e das matérias-primas, se confrontaram com crescentes problemas orçamentais, levando os Estados e as empresas a substanciais endividamentos em dólares. Com a valorização do dólar as dívidas tornaram-se mais pesadas e os títulos de dívida pública e das empresas desvalorizaram, levando os investidores especulativos a retirarem as suas aplicações.
Nos últimos tempos, a FED tem dado a entender, com mais insistência, que vai aumentar as taxas de juro em Dezembro, embora tenha, no passado recente, adiado por várias vezes essa decisão.
Tal aumento tenderá a criar ainda mais dificuldades aos países e empresas endividadas em dólares. Se a FED ainda não o fez foi porque a economia americana continua confrontada com a ameaça da deflação, com grandes debilidades e dificuldades, apesar da melhoria apresentada nas estatísticas do emprego e do crescimento, e porque as ondas de choque, internas e externas, não são claras nem lineares quanto às suas consequências. Não atingiriam apenas os países «hostis» mas toda a economia mundial, razões pelas quais o FMI se tem oposto a tais aumentos.2
Se a FED aumenta a taxa de juro nos EUA, o dólar ficará mais atractivo, tornando mais procurados os títulos do tesouro. Com o dólar mais atractivo os capitais fugirão ainda mais rapidamente das economias emergentes e da China.
Esquemática e simplificadamente pode dizer-se o seguinte:
.1º – As moedas destes países desvalorizarão, obrigando os países a defender as suas moedas, para que estas não se afundem, através dos seus bancos centrais, delapidando milhões em divisas, muitas vezes sem sucesso, como já se verificou no passado.
2.º – Os «investidores» procuram libertar-se das acções e obrigações dos países emergentes para escaparem às perdas resultantes da desvalorização monetária.
3.º – Os «investidores», «especuladores», temendo um abrandamento destas economias e da economia mundial, vão procurar valores «refúgio», designadamente o dólar, contribuindo para a sua valorização.
4.º – À medida que o dólar se reforçar em relação às moedas dos países emergentes um círculo vicioso auto-alimenta-se. Quanto mais o dólar sobe, mais os capitais fogem, o que faz cair ainda mais as moedas nacionais, o que obriga a uma maior liquidação de títulos em moedas que se desvalorizaram...

Grandes dificuldades e debilidades que atingem a generalidade dos países

Todos querem sair da crise pelas exportações, procurando ganhos de competitividade através da desvalorização salarial e da liquidação de direitos laborais, a que chamam, eufemisticamente, desvalorização interna.
Mas diminuindo o poder aquisitivo das massas ficam com os mercados cada vez mais restringidos, retomando a desvalorização das moedas através das taxas de câmbio – «as guerras das moedas». Deixam à rédea solta os mercados financeiros apoiados na liquidez e apoio dos Bancos Centrais, que se encontram cada vez mais ultrapassados pelos acontecimentos.
A questão que se coloca é a de se é possível, a prazo, relançar o crescimento sustentado obtendo ganhos de produtividade e de inovação, sabendo-se que a inovação em que mais se investe, «robotização e inteligência artificial», tem como características criar poucos empregos e destruir muitos mais. Por isso, a luta pelos direitos, pela melhoria do poder aquisitivo das massas, pela redução dos horários de trabalho, vai estar crescentemente na ordem do dia.
A fabulosa concentração de riqueza e as enormíssimas desigualdades e injustiças sociais vão acentuar os confrontos e a luta de classes, mesmo num quadro geral de grandes dificuldades para os povos e trabalhadores.
Por agora, as estimativas vão para a travagem do crescimento mundial e as perspectivas são as de um crescimento medíocre e estagnação por um período longo de tempo.
A estratégia dos Estados Unidos na desestabilização dos países «emergentes» progressistas
Wall Street, o complexo militar industrial dos EUA, a CIA e a Casa Branca delinearam a estratégia. A Administração americana acordou com a Arábia Saudita, principal produtora da OPEP, em aumentar a sua produção de crude, diminuindo os preços para atingir os países que, de uma maneira ou outra, avançaram com medidas que ameaçam os privilégios do dólar e a dominação dos EUA.
Tal medida, no quadro de uma crise que já tinha abrandado o consumo de produtos petrolíferos, afundou os preços e criou sérias dificuldades a países para quem o petróleo era, e é, a principal fonte de rendimento, mas até à data em que escrevemos este artigo tal estratégia ainda só conseguiu alterações na Argentina, do grupo principal de governos «hostis»: Rússia, Venezuela, Irão, Brasil, Argentina, Bolívia,… Mas é uma evidência que as acções de desestabilização e provocação contra estes países por parte dos EUA, CIA e NATO não vão acabar!
No Brasil, Dilma tem conseguido aguentar-se. A Rússia fez um acordo com a China, escoando o seu petróleo e abastecendo-se neste país sem necessidade de divisas. Com os problemas que os EUA criaram na Síria, Iraque, Líbia, e a formação do Estado Islâmico, o Irão, com o apoio da Rússia e da China, forçou os EUA a levantar as sanções que impediam a venda do seu petróleo, e na Venezuela, apesar da CIA e da imprensa internacional andarem há vários meses a desestabilizar o país e a preparar o terreno para uma derrota do Chavismo, ainda não o conseguiram. Concentram os seus esforços nas eleições de Dezembro, que na grave situação de abastecimento e social do país poderá colocar Maduro em minoria no Parlamento.
A Arábia Saudita pensou que mataria dois coelhos de uma só cajadada, fazer capitular o Irão e alargar e consolidar a sua quota de mercado mundial.
Segundo as suas contas, o país poderia aguentar dois a três anos com os preços baixos.
Mas a Arábia Saudita, para além das perdas fantásticas com a baixa de preço do crude, aumentou substancialmente as despesas militares, com a guerra no Iémen e, na Síria, o apoio ao Egipto... E a China, um dos seus principais clientes, diversificou as fontes de aprovisionamento, designadamente com a Federação Russa.
A situação começa a agravar-se e já há quem afirme que o «feitiço está a virar-se contra o feiticeiro».
Não deixam de ter significado as recentes declarações da Arábia Saudita de querer colaborar com os outros produtores para estabilizar os preços.
Se a baixa do preço do petróleo é a arma para atingir um conjunto significativo de países progressistas, designadamente na América Latina, a verdade é que a baixa do crude é extremamente favorável para a China, grande importador.
Mas em relação à China e a outros países «emergentes», os EUA utilizam também outras armas de pressão e desestabilização, como o dólar, as taxas directoras da FED, a manipulação dos mercados, o FMI, as grandes campanhas de opinião pública, procurando criar o pânico nos «investidores».
O anúncio da FED de que iria diminuir as injecções monetárias nos «mercados», terminando tais injecções em 2014, e ainda o anúncio de que iria subir as taxas directoras, foi, como já se referiu, o pretexto para a retirada de milhões de fundos de investimento dos países «emergentes», atingindo também a China.
Michel Chossudovsky, no seu artigo «Desestabilização econômica, afundamento financeiro e manipulação da bolsa de Shangai», afirma que «de maneira amplamente documentada, os megabancos manipulam os mercados financeiros».
Segundo este autor, o afundamento do índice bolsista na China este Verão não tem nada a ver com as forças espontâneas do mercado ou com os actores da «economia real». Tem todas as aparências de um assalto especulativo cuidadosamente elaborado para fazer subir ao máximo as cotações, e logo de seguida fazê-las cair.
A imprensa financeira ocidental procurou desde logo difundir a ideia que foram os «investidores» chineses e não os bancos estrangeiros que estiveram por detrás da manipulação do mercado financeiro, acrescentando que os activos financeiros têm um acesso limitado ao mercado chinês. Mas, como lembra Chossudovsky, esta análise escamoteia o facto de que grandes actores financeiros, como a Goldman Sachs, JP Morgan Chase, HSBC e outros estão muito presentes e activos na China, negociando por intermédio de mandatários financeiros chineses com quem têm importantes parcerias.
«Os mercados financeiros podem ser manipulados com a ajuda de computadores utilizando programas de transacções de alta frequência (HFT), que constituem actualmente 70% das transacções.»
«Goldman Sachs é o campeão incontestado desta nova técnica» (…)
«Enquanto o Pentágono e a NATO coordenam as operações militares contra os países estrangeiros soberanos, Wall Street põe em prática acções de desestabilização sobre os mercados financeiros, compreendendo a manipulação sobre o preço do petróleo, do ouro, assim como o mercado de câmbios, visando a Rússia e a China». Concluindo, o autor interroga: «A manipulação “possível” da Bolsa de Shangai faz parte do conjunto de medidas dos EUA dirigidas à China para enfraquecer o seu sistema econômico e financeiro?».
Washington, com os seus lobbies mediáticos à escala do globo, tem desenvolvido não poucas campanhas de descrédito da economia chinesa, e não só. Acusação de «espionagem cibernética», de «manipulação de taxas de câmbio», tiveram grande repercussão na imprensa internacional.
Quando a China anunciou que a taxa de crescimento será este ano de 6,8%, e não 7%, os títulos e os comentários inundaram os media.3
«O crescimento chinês arrefece», «O crescimento chinês é bem inferior aos dados publicados», «A China falsifica os dados econômicos para aguentar a pressão política», «A China está endividada até ao pescoço».
Os EUA talvez não estejam interessados no afundamento da economia chinesa, que é um dos países que compra dívida pública americana, e um dos principais mercados compradores de muitos produtos americanos. A China representa, por exemplo, 30% das vendas mundiais da Apple.
Mas se não estarão interessados para já no afundamento da economia, estarão interessados em condicionar e vir a meter a China debaixo da sua asa, e a pressioná-la quando os seus interesses estiverem em jogo.
É o que têm feito em relação à moeda chinesa, jogando com «o pau e a cenoura» em relação à entrada da sua moeda como «moeda de reserva» no FMI. Existem quatro moedas de reserva agregadas pelo FMI, dólar, euro, libra e iene, sendo o dólar a principal. O estatuto de «moeda de reserva» permite aos países emissores pagar a crédito com uma moeda que eles controlam. O que lhes dá uma grande autonomia e vantagem, especialmente aos EUA.
A resposta da China ao adiamento, mais uma vez, do FMI em admitir a sua moeda como moeda de reserva não se fez esperar. A 11 de Agosto o Banco Central da China abandonou a paridade fixa do iene em relação ao dólar, em vigor desde 2005, deixando flutuar a sua moeda que, ao desvalorizar, tornou as suas exportações para os EUA mais baratas e as exportações dos EUA mais caras para entrarem na China.
Os EUA foram, aparentemente, apanhados de surpresa e manifestaram-se negativamente. Acusaram a China de «criar uma vantagem comercial desleal».
A China, neste contexto, procurou aproveitar-se das dificuldades econômicas de vários países propondo uma cooperação econômica e investimentos de grande dimensão, como é o caso da Inglaterra, que declarou o apoio à sua pretensão, prosseguindo a sua estratégia de fazer da sua moeda uma moeda de reserva. Em finais de Novembro, o FMI acabou por decidir que a moeda chinesa fizesse parte do cabaz dos DSE (Direitos de Saque Especial).4
Está muita coisa em movimento com alcance estratégico.
Qual vai ser a evolução da China, do Vietname (que assinou o acordo de parceria transpacífico – TPP, dominado pelos EUA e Japão), quais vão ser as sínteses das agudas contradições com que se debate uma Arábia Saudita e países do Golfo, um Egipto, os EUA... e a União Europeia.
Uma União Europeia que continua sem conseguir arrancar, mantendo-se enredado em sucessivas crises das dívidas públicas, apesar da baixa das taxas de juro, da baixa do preço do petróleo, da desvalorização do euro, favorecendo as suas exportações e das injecções sistemáticas de liquidez do BCE.
A política ditada pela Alemanha, o euro, o Tratado Orçamental e a oposição às renegociações das dívidas são verdadeiras amarras a tentarem perpetuar um neocolonialismo de fachada democrática, com toda a retórica do rigor, do não há outro caminho, do não há alternativa.
Mas a luta dos trabalhadores e dos povos, as contradições entre os países do «norte e do sul», a não resolução das dívidas públicas e as consequências da destruição do Iraque, da Líbia, da Síria, do Iémen, da grave situação da Palestina, que se expressa na chamada crise dos refugiados, os brutais ataques terroristas, a não resposta aos problemas do desemprego, designadamente do desemprego jovem e de longa duração, vão desfazendo os mitos da «Europa solidária», da «coesão econômica e social», do «nivelamento por cima» e criando significativas fissuras nos defensores dos dogmas do Tratado Orçamental e das políticas neoliberais.

CARLOS CARVALHAS
Notas
(1) Philippe Legrain, que foi conselheiro econômico independente de Durão Barroso, declarou ao Público que uma boa parte da explicação da crise está em que «o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro». Quando rebentou a crise «foram todos a correr salvar os bancos» e as «ajudas a Portugal e Grécia foram resgates ao bancos alemães» (Público, 11 de Maio de 2014). Por sua vez, o Banco Central Europeu estimou que os apoios dos Estados da zona euro para salvar os bancos foram de 800 mil milhões de euros! Mas este valor astronômico é ainda e só uma parte da verdade.

(2) Desde o início do ano (2015) o FMI reviu em baixa, por quatro vezes, o crescimento mundial. A economia mundial deverá atingir em 2015 um crescimento de apenas 3,1%, o mais baixo valor depois de 2009.

(3) O crescimento à volta de 7% é o mais baixo dos últimos vinte e tal anos. Há quem considere que, para além das consequências da crise mundial, tratar-se também da transição do seu modelo mais virado para o consumo interno e serviços.

(4) A China prosseguiu durante vários anos a estratégia de integrar a sua moeda no cabaz dos direitos de saque especial [em inglês, Special Drawing Rights (SDR)], que é, simplificando, uma espécie de moeda do FMI. Esta inclusão não faz do yuan automaticamente uma moeda da reserva mas é um passo decisivo.





Dois milhões de pobres não superam fortuna de Amorim


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O homem mais rico de Portugal tem uma fortuna acumulada de 2,5 mil milhões de euros. Para igualar Américo Amorim, seria necessário juntar, durante três meses, o conjunto do rendimento auferido por dois milhões de pobres (422 euros mensais).
 
ARQUIVO/GLOBAL NOTÍCIAS
Amércio Amorim

Um bom exemplo das desigualdades que grassa num país onde os 5% mais abastados têm um rendimento quase 20 vezes superior ao auferido pelos 5% menos afortunados.
"A proporção da riqueza líquida (sem endividamento) total auferida pelos 10% mais ricos atinge o valor de 52,7%. Porém, se à riqueza líquida subtrairmos o valor da casa própria, os indicadores de desigualdade são ainda mais expressivos: o índice de Gini [cálculo usado para medir a desigualdade social], alcança um valor de 84% e a proporção da riqueza nas mãos dos 10% mais ricos é de 74,1%", explica Carlos Farinha Rodrigues, professor do ISEG.
O atual estado das desigualdades também é consequência da forma como a crise atingiu a sociedade portuguesa entre 2009 e 2013 (ver infográfico). "Se construirmos dez escalões de rendimento, começando com os 10% mais pobres e terminando nos 10% mais ricos, podemos analisar a evolução. O rendimento dos 10% mais ricos regista um decréscimo de cerca de 8%. Os rendimentos dos escalões 3 a 7 descem menos de 7%. O rendimento dos 10% mais pobres diminui 24%", afirma Carlos Rodrigues.
A reposição dos mínimos sociais em prestações como rendimento social de inserção (RSI), o complemento solidário para idosos (CSI) e o abono de família, bem como a atualização das pensões até 628,82 euros e a reposição dos complementos de reforma dos trabalhadores do setor empresarial do Estado ajudam a minorar a desigualdade? "As reposições de apoios sociais, que o atual Governo começou a implementar, assim como os complementos remuneratórios e os aumentos do salário mínimo são, de facto, medidas efetivas de redução da pobreza e, até certo ponto, de redução das desigualdades", reconhece António Firmino da Costa, diretor do Observatório das Desigualdades (ver entrevista).
O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado pelo INE junto das famílias residentes em Portugal, indica que 19,5% da população (dois milhões) estava em risco de pobreza em 2014, isto é, tinham um rendimento igual ou inferior a 422 euros mensais. Considerando apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, 47,8% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza em 2014. Seriam 4,9 milhões de pobres. No entanto, este cálculo está a excluir as pensões, que não são prestações sociais no mesmo sentido em que entendamos o subsídio de desemprego ou o RSI, entre outras, conforme sublinha Carlos Rodrigues.
"O recuo das políticas sociais, no auge da crise económica quando elas mais se revelavam necessárias, constituiu inequivocamente um fator de empobrecimento, de fragilização da coesão social e do agravamento da distância que separa os rendimentos da população mais pobre da parte cimeira da distribuição dos rendimentos", alerta o professor do ISEG
.

A (des)União Europeia




por ÂNGELO ALVES
por JOÃO FERREIRA



"A tese de que «A gestão capitalista da crise, pela via do agravamento da exploração e o que a acompanha é, em si mesma, prelúdio de novas crises»1aplica-se também à realidade do processo de integração capitalista. A resposta da UE à sua crise, por via do aprofundamento dos seus três pilares, espoletou uma sucessão de crises, no fundo expressões diversas de uma mesma crise, que se intensificam e alimentam mutuamente.

Olhemos apenas aos últimos meses. Longe de estar superada a chamada crise da moeda única e os seus efeitos devastadores – crise que estilhaçou os mitos e a propaganda sobre o Euro e a UE, pondo em evidência a dinâmica de divergência e desigualdade que caracteriza esses processos – e ainda não refeita do chamado «caso grego» – com tudo o que significou de clarificação do carácter profundamente antidemocrático da UE e da impossibilidade de desenvolvimento de políticas progressistas no quadro do Euro – aí temos já a chamada crise dos refugiados. A propaganda do «espaço de liberdade, solidariedade, tolerância e de respeito pelos direitos humanos» é destroçada pelas imagens dos cadáveres no Mediterrâneo e pelos muros e cercas de arame farpado (em sentido literal e não figurado) erguidos ao longo das fronteiras entre Estados-membros."

"Ao contrário do que insistentemente alguns querem fazer crer, os problemas e as dificuldades com que a UE se debate não resultam de características particulares de lideranças conjunturais, mas sim da própria natureza do processo de integração, dos seus pilares políticos e ideológicos, plasmados nos seus tratados, nas suas políticas, na sua orientação e actividade."


A realidade tem vindo a confirmar o acerto e a justeza das análises do PCP relativamente à natureza e evolução da União Europeia (UE), confirmando-a como um processo de integração capitalista que tem como pilares fundamentais o neoliberalismo, o federalismo e o militarismo.

Quatro vectores de contradição

Trata-se de um processo que, como a história se tem encarregado de provar, corresponde às necessidades do grande capital «europeu» na fase imperialista do desenvolvimento do capitalismo. Daí ter sido moldado visando, como é hoje muito visível, a construção de um edifício de poder económico, político e militar cuja configuração final é a de uma potência imperialista.

Contudo, este processo carrega no seu bojo, desde o início, contradições que são inerentes ao próprio desenvolvimento do capitalismo e das suas estruturas de articulação e integração. Essas contradições centram-se essencialmente em quatro vectores:

De classe: entre o grande capital, que dirige o processo e concentra capital e poder econômico, e o trabalho, que o perde por via do aumento da exploração, da destruição de direitos sociais e laborais, dos processos de privatização e da destruição dos sistemas públicos de redistribuição social (saúde, educação, segurança social);

Democrático e de soberania: entre um processo de concentração de poder político, da sua submissão ao grande capital e da sua centralização em centros de decisão supranacionais distantes do controlo popular, e o direito e aspiração dos povos à participação democrática, à definição dos seus próprios caminhos de desenvolvimento e ao controlo democrático das instituições de poder político nacionais. Entre um directório de potências «munido» de «instituições europeias» moldadas aos seus interesses, e os Estados nacionais, sobretudo os da chamada «periferia», amarrados em coletes-de-forças que eternizam a sua dependência, condicionam o seu desenvolvimento económico e os transformam em semi-colónias dentro da potência imperialista.

Civilizacional e de legitimidade: entre uma propaganda de décadas assente nas «liberdades e democracia», na «defesa dos direitos humanos», na «solidariedade», «coesão», «paz», «cooperação» e «apoio ao desenvolvimento» com que se tentou garantir o apoio popular ao processo de integração, e a realidade das políticas dentro do espaço da UE e desta relativamente ao resto do Mundo que se caracterizam cada vez mais por um carácter desumano, antidemocrático, intervencionista, neocolonial e belicista.

De rivalidade inter-imperialista: entre grandes potências que lideram o processo de integração capitalista, que se articulam num directório de potências mas que competem pelas suas posições de domínio dentro e fora do espaço europeu e entre o «bloco» UE e outras potências imperialistas, como os EUA. Binômios de concertação/rivalidade de dois «níveis», que se relacionam entre si, e em que, como a dita política externa e de segurança da UE comprova, prevalece a variável de concertação mas em que as rivalidades se vão aprofundando na relação directa do grau de integração e do aprofundamento da crise.

Estes elementos confluem numa crise «sistêmica», profunda, persistente e que não nasceu agora. Ao longo da história do processo de integração foram várias as crises em que este foi mergulhando pela sua própria dinâmica. Contudo, à magnitude da crise do capitalismo no plano mundial e à sua expressão no continente europeu corresponde, «naturalmente», um rápido aprofundamento da crise do processo de integração capitalista que comporta elementos qualitativamente distintos face a momentos anteriores. Estamos, portanto, perante uma crise na e da UE e são alguns dos seus elementos que este artigo tenta abordar.

«Soluções» ou desintegração?

Ao longo das últimas seis décadas, as crises foram, elas próprias, ditando a configuração e dinâmica do processo de integração. A dicotomia de impasse/superação marcou sempre a história deste processo. As «soluções» passaram invariavelmente por «saltos em frente» – ou por via do aprofundamento e/ou por via do alargamento. «Soluções» que não atenuaram os vectores de contradição, antes os aprofundaram, e que não resolveram qualquer problema, quanto muito dissimularam, mitigaram ou adiaram esses problemas, «exigindo», sempre e até agora, que a concertação entre as principais potências prevalecesse sobre divergências e rivalidades.

Foi com base nessa necessidade e capacidade de concertação – que teve expressão política e ideológica no que poderíamos chamar de «consenso de Bruxelas» entre direita e social-democracia – que se difundiu e consolidou a ideia de um processo de integração (chamado não inocentemente de «construção europeia») inevitável e irreversível.

Contudo, a realidade acaba sempre por se impor. E se a concertação inter-imperialista nunca foi, nem nunca é, por definição, um dado adquirido, os tempos que vivemos não só comprovam essa tese como nos indicam que essa concertação é a cada dia que passa, cada vez mais difícil de ser verificada, sempre e em todos os campos.

É significativo que hoje se considere abertamente a possibilidade de uma desintegração, já não «apenas» da Zona Euro/União Econômica e Monetária (UEM) mas da própria UE. Se até aqui, os impulsionadores do processo admitiam que este poderia parar mas nunca regredir, hoje vêem-se confrontados com cenários não totalmente inverosíméis de desagregação. O referendo previsto para 2017 no Reino Unido, sobre a sua permanência ou saída da UE, sendo ele mesmo um processo contraditório, é expressão desta evolução.

A gestão da crise na e da UE

A tese de que «A gestão capitalista da crise, pela via do agravamento da exploração e o que a acompanha é, em si mesma, prelúdio de novas crises»1 aplica-se também à realidade do processo de integração capitalista. A resposta da UE à sua crise, por via do aprofundamento dos seus três pilares, espoletou uma sucessão de crises, no fundo expressões diversas de uma mesma crise, que se intensificam e alimentam mutuamente.

Olhemos apenas aos últimos meses. Longe de estar superada a chamada crise da moeda única e os seus efeitos devastadores – crise que estilhaçou os mitos e a propaganda sobre o Euro e a UE, pondo em evidência a dinâmica de divergência e desigualdade que caracteriza esses processos – e ainda não refeita do chamado «caso grego» – com tudo o que significou de clarificação do carácter profundamente antidemocrático da UE e da impossibilidade de desenvolvimento de políticas progressistas no quadro do Euro – aí temos já a chamada crise dos refugiados. A propaganda do «espaço de liberdade, solidariedade, tolerância e de respeito pelos direitos humanos» é destroçada pelas imagens dos cadáveres no Mediterrâneo e pelos muros e cercas de arame farpado (em sentido literal e não figurado) erguidos ao longo das fronteiras entre Estados-membros.

A chamada «crise dos refugiados» é consequência directa das políticas da UE e da NATO de ingerência e guerra em várias regiões do globo, com destaque para o Médio Oriente e Norte de África. Mas a UE está confrontada com outras consequências da sua chamada «política externa e defesa». Os ataques terroristas de Paris, com tudo o que acarretam, são o exemplo mais eloquente e a reacção da UE acarretará pesadas consequências para os povos da Europa se não travada. Mas esse não é o único exemplo. As preocupações crescentes com a chamada «segurança energética», bem patentes nos documentos do Conselho e resoluções do Parlamento Europeu, são inseparáveis do envolvimento da UE no projeto imperialista de confrontação e cerco à Federação Russa e que tem no caso ucraniano um ponto central.

Ao contrário do que insistentemente alguns querem fazer crer, os problemas e as dificuldades com que a UE se debate não resultam de características particulares de lideranças conjunturais, mas sim da própria natureza do processo de integração, dos seus pilares políticos e ideológicos, plasmados nos seus tratados, nas suas políticas, na sua orientação e actividade.

Esses problemas e dificuldades estão longe de estar resolvidos. Ou de ter sequer uma perspectiva de resolução. Esse reconhecimento, imposto pela realidade, é hoje praticamente unânime. É neste contexto que importa travar uma decidida batalha pela consciencialização das massas acerca da natureza do processo de integração, do seu carácter irreformável e da necessidade de o derrotar por via de rupturas com esses pilares e políticas.

Concentração de poder e crise política

Confirma-se a natureza das instituições da UE como instrumentos de domínio político do grande capital. Os escândalos «Luxleaks» e «Volkswagen» são apenas dois exemplos recentes que evidenciam o grau de promiscuidade existente entre o poder político e o poder económico, com subordinação do primeiro ao segundo.

Foi o grande capital europeu, por via do directório de potências hegemonizado pela Alemanha, quem determinou o caminho de «reação» à crise do Euro iniciado em 2010 – com os programas de intervenção UE-FMI, a aprovação do mecanismo do Semestre Europeu e da legislação relativa à Governação Económica, a elaboração e ratificação do Tratado Orçamental.

Este caminho – insiste-se e sublinha-se: proposto e vigorosamente defendido pelas organizações representativas do grande patronato europeu, em documentos que vieram a anteceder propostas legislativas da Comissão Europeia – ainda não foi concluído. Traduz-se num aprofundamento neoliberal que exigiu e exige, para poder ser imposto aos povos, uma inaudita concentração do poder político no seio da UE e um forte ataque à soberania dos Estados.

Esta constatação remete-nos para os vectores de crise da UE acima mencionados: traduz uma crise de legitimidade política, de apoio popular, e é parte de um fenómeno mais amplo de crise dos sistemas de representação política.

A concentração de poder no directório de potências, o federalismo e o ataque às soberanias nacionais visam criar melhores condições para forçar o aprofundamento do neoliberalismo. O aprofundamento da concentração e centralização do capital exige a concentração e centralização do poder político. Esta última é condição para a viabilização do primeiro. Mas esta equação tem vários problemas. Quanto mais arrogante e centralizado se torna o poder político e quanto mais violento é o processo de exploração, mais visíveis se tornam as contradições, menos espaço existe para a farsa democrática das instituições europeias, mais evidente se torna o papel dirigente do grande capital e das grandes potências e a quase total identidade de políticas entre social-democracia e direita, por mais que o tentem disfarçar.

Este lastro de degradação política tem e terá ainda mais consequências. Os impulsionadores do processo de integração capitalista já se debatem com o notório afastamento das chamadas «opiniões públicas» do chamado «projecto europeu». Os sistemas políticos nacionais são percorridos por complexos processos que, independentemente de fundas contradições e particularidades nacionais, configuram importantes abalos no tradicional status quo político da alternância convergente entre direita e social-democracia.

As expressões dessa que é no fundo uma crise dos sistemas de representação burguesa ao nível nacional e do sistema de poder transnacional são várias e contraditórias. Três dos elementos mais visíveis hoje são, por um lado, o complexo processo de reorganização e reestruturação da social-democracia (de que o processo grego será a expressão mais avançada mas não única), os contornos quase fascizantes que assumem algumas políticas da direita tradicional e o crescimento da extrema-direita e ressurgimento do fascismo.

Esta crise política e de legitimidade, que decorre – é importante sublinhar – num contexto de gravíssima crise social, é susceptível de criar e aprofundar grandes e graves contradições, cujo desfecho não é inteiramente previsível mas que poderão mesmo levar a reconfigurações na estrutura de poder da Zona Euro e da própria UE. No entanto, e apesar destas contradições, quer social-democracia, quer direita, tentam por várias formas manter o controlo, consolidar e aprofundar o processo e contrariar a tendência de desagregação – é o que tenta fazer o chamado Relatório dos Cinco Presidentes, mais uma vez com um «salto em frente».

O Euro: Que futuro?

As mais recentes previsões económicas (Outono 2015), dentro de um quadro geral de estagnação/crescimento anémico na UE, apontam para perspectivas ainda mais pessimistas dentro da Zona Euro, face ao resto dos países da UE que dispõem de moeda própria. Sinal evidente de que a crise na Zona Euro está longe de ser uma página virada.

Não há no médio-prazo perspectivas de novas adesões. Recorde-se que, com excepção do Reino Unido e da Dinamarca – que decidiram ficar permanentemente fora do Euro – todos os restantes Estados-membros que ainda não entraram no Euro – Bulgária, Croácia, República Checa, Hungria, Polónia, Roménia e Suécia –, de acordo com o Tratado de Maastricht deverão aderir à moeda única um dia (não lhes foi imposto prazo concreto todavia), sendo condição para que o façam que cumpram os chamados critérios de convergência. Ora, com uma ou duas excepções, os países em questão não cumprem os ditos critérios na sua integralidade por opção deliberada, optando assim por se manterem fora do Euro, com moeda própria e todas as prerrogativas que lhe são inerentes, incluindo a possibilidade de prosseguirem uma política monetária própria, de acordo com as suas necessidades e interesses. Aliás, alguns destes países têm mesmo vindo a utilizar activamente a política monetária para mitigar alguns dos efeitos da crise.

Mais do que nos perguntarmos se o Euro tem futuro, importa questionarmo-nos sobre que futuro espera as economias da periferia da Zona Euro, Portugal incluído, dentro do Euro.

A experiência grega foi certamente muito elucidativa, vindo confirmar a tese de que não é possível, no quadro do Euro e das regras que lhe estão associadas, suster e inverter de forma sustentada e duradoura o ciclo de dependência, subordinação e empobrecimento da periferia.

Ao longo de mais de uma década e meia, o Euro confirmou a sua natureza de classe, confirmou-se como um projecto de domínio do grande capital europeu, que serviu e serve ao capital nacional que àquele se associa numa posição dependente, e com ele converge do ponto de vista dos interesses de classe.

A nível europeu, alarga-se a consciência (ainda insuficiente) de que o Euro cria um quadro de constrangimento quase absoluto ao desenvolvimento de políticas alternativas, e em especial políticas progressistas, que dêem corpo a projectos de desenvolvimento soberano.

Forças e personalidades de vários países (incluindo algumas que eram, até há bem pouco tempo, denodados federalistas) reconhecem agora que o Euro «se tornou o instrumento de dominação política da oligarquia europeia, escondido atrás do Governo alemão (...)», afirmando que «esta Europa só produz violência dentro e entre as nações: o desemprego em massa, dumping social feroz»2. Este tipo de posições, vindas de sectores que durante largos anos pugnaram pela «reforma» e «democratização» do processo de integração capitalista, traduzem, independentemente de contradições, superficialidades e inconsistências próprias destes sectores, o alargamento da percepção sobre as consequências do Euro e sobre a necessidade de romper com este instrumento. Alguns teorizam mesmo sobre a necessidade de constituição daquilo a que chamam «Frentes de Libertação Nacional contra o Euro», capazes de conduzir, a partir de cada país, um «desmantelamento organizado» (ou uma «saída organizada») do Euro e a «reconstrução económica». Ou seja, e por outras palavras, reconhecem aquilo que há muito o PCP vem defendendo, a importância da questão nacional e do marco nacional de luta na construção de uma outra Europa.

São posições e evoluções que importa acompanhar, num quadro em que se mantém a importância de promover o diálogo e a cooperação, no plano institucional, designadamente no âmbito do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu, das forças que são susceptíveis de serem chamadas à luta por uma alternativa progressista, de esquerda, e pela derrota dos intentos dos sectores mais agressivos e reaccionários do capital.

Para lá do Euro

Pese embora a sua importância e papel central no processo de integração capitalista, seria errado confinar a análise crítica da integração capitalista à moeda única.

No campo económico pelo menos dois outros instrumentos (que aqui não cabe desenvolver) assumem um papel determinante: o mercado único e a desregulação e liberalização crescente do comércio internacional. Um e outro estão intimamente inter-relacionados. De tal forma que a liberalização do comércio mundial – e, em particular, o passo de gigante que nesse domínio se quer dar com o acordo transatlântico de livre comércio entre a UE e os EUA (o TTIP) – é apontada como um impulso para completar o que falta ainda fazer no mercado interno, nomeadamente no domínio dos serviços. Travadas que foram as intenções de liberalização dos serviços no mercado interno com a derrota da famigerada Directiva Bolkestein, pretende-se agora que entre pela janela atlântica o que pela força da luta dos trabalhadores e dos povos não entrou pela porta de Bruxelas.

Alargamento?

Como vimos, a resposta à crise na e da UE está nesta fase a ser feita pela via do aprofundamento. Já quanto ao alargamento – objectivo nunca abandonado, prosseguindo a velha consigna da «Europa do Atlântico aos Urais», e até agora sempre coordenado com a expansão da NATO, tudo aponta para que esse processo se mantenha em «banho-maria», como aliás o reconheceu o próprio presidente da Comissão Europeia no seu programa 2014-2019.

A recente cimeira UE-Turquia merece certamente cuidada atenção e análise. Mas quanto ao alargamento, apesar de o assunto ter sido abordado e de se ter acordado imprimir um novo impulso no processo de adesão da Turquia, tal dever-se-á mais à necessidade de justificar no imediato a «cooperação reforçada» UE-Turquia do que propriamente a uma perspectiva realista de concretização dessa adesão a médio prazo.

Essa cooperação projecta-se em domínios como a gestão das migrações ou, em termos genéricos, no alinhamento turco com a política externa e de vizinhança da UE, incluindo nas suas vertentes de «segurança e defesa», que acentua o pilar militarista da UE e a sua articulação com a NATO.

Paz, democracia, direitos, uma outra Europa

À deriva neoliberal e federalista da UE associa-se, no plano interno, uma deriva securitária e autoritária e, no plano externo, uma deriva militarista e intervencionista. Os recentes atentados terroristas de Paris servem esta estratégia de cerceamento das liberdades no plano interno e de crescente agressividade no plano externo. Evolução indissociável do ascenso da extrema-direita e de forças de cariz assumidamente fascista em vários países.

O caso francês é exemplar e alarmante, com a Frente Nacional a ser guindada a primeira força na primeira volta das últimas eleições regionais. Situação que é indissociável do posicionamento e actuação do presidente Hollande e do Partido Socialista Francês, da profunda crise social em França ou, num quadro mais geral, da já referida profunda crise da social-democracia europeia.

Mas o caso francês está longe de ser único, ele remete para a necessária reflexão, prevenção e luta contra o fascismo como «saída» violenta, associada à guerra, da crise do capitalismo. O lastro para o reforço da extrema-direita foi criado durante anos e é agora acentuado com a crise social e a generalização de conflitos. Políticas económicas, de exploração, neocoloniais, de guerra e ingerência estão na base do crescimento da extrema-direita. A forma como a UE lida com o tema da imigração demonstra muito bem a forma como paulatinamente concepções de extrema-direita foram ganhando «espaço institucional». Os imigrantes são tratados como suspeitos, potenciais criminosos, cidadãos a expulsar, dando espaço, crédito e força aos sectores fascizantes mais agressivos que ganham expressão eleitoral, em países como a França, Holanda, Grécia, Hungria, Áustria, Suécia, Finlândia, entre outros. Aliás, a União Europeia não só permite a criação do lastro para o crescimento da extrema-direita, como estimula e apoia, na sua «vizinhança», forças abertamente fascistas, como é o caso da Ucrânia.

Confirma-se a tese de que o «aprofundamento da exploração e opressão capitalistas alimenta a acção das forças e grupos fascistas»3 e que este tipo de forças encontra no retrocesso e desestruturação social, na opressão dos sentimentos nacionais e no carácter abertamente reaccionário das políticas da direita e da social‐democracia, campo fértil para a propagação da sua ideologia de ódio racial e social.

Neste contexto, a luta contra o fascismo e a luta pela paz caminham lado a lado. A Europa está traumatizada pelos atentados terroristas de Paris e com razão. Eles são um terrível símbolo, uma espécie de síntese, da profunda crise de civilização que se vive na Europa e no Mundo. Para combater o terrorismo é necessário ir às suas causas. É necessário denunciar as suas verdadeiras razões e o apoio que vários países europeus (como a França) têm dado ao terrorismo, nas suas múltiplas formas, incluindo o terrorismo de Estado.

Mas não só, a verdadeira luta contra o terrorismo passa por profundas transformações sociais, pela democracia, contra a UE do grande capital, da guerra, da intolerância, da exploração e da opressão dos povos. Passa pela construção de um outro quadro de cooperação na Europa, pela construção de uma outra Europa, dos trabalhadores e dos povos, de paz, cooperação, progresso e justiça social. Isso pressupõe, obrigatoriamente, rupturas profundas que confluam na derrota do processo de integração capitalista consubstanciado na União Europeia e a afirmação soberana do direito ao desenvolvimento económico e social dos Estados e povos europeus.


Notas:

(1) Resolução Política do XIX Congresso do PCP.

(2) Manifesto «Por um Plano B para a Europa».

(3) Resolução Política do XIX Congresso do PCP.

(*) Artigo elaborado pelos camaradas Ângelo Alves, membro da Comissão Política do Comité Central, e João Ferreira, membro do Comité Central e deputado ao Parlamento Europeu