sexta-feira, 22 de julho de 2016

Paratíssima, o festival que convida à caça à obra de arte



O Largo de São Miguel vai servir de passerelle a modelos de alta costura 



Até domingo à noite, há arte contemporânea para descobrir entre o Largo do Chafariz de Dentro e a Praça do Martim Moniz, em Lisboa.

Só na segunda-feira de manhã voltará a haver lençóis estendidos no Largo de São Miguel, em Alfama, Lisboa. Até lá é tempo de Paratissima, festival de arte urbana que se estende quase por três quilómetros, entre o Largo do Chafariz de Dentro e a Praça do Martim Moniz. Iniciativa do coletivo Ebano, a ideia é partir numa caça à obra de arte enquanto se descobre o património de bairros como Alfama, Castelo e Mouraria.

O desafio lançado aos mais de 300 artistas participantes foi "usarem a cidade, mas não como se fosse uma galeria", explica Chiara Pussetti, que, juntamente com Vítor Barros e Fabrice Ziegler integram o coletivo Ebano, acrónimo de Ethnography-based Art Nomad Organization, que tem como um dos principais objetivos trazer a arte para o espaço público ligando a prática artística e a pesquisa etnográfica.


Por isso, durante meses visitaram a extensa freguesia de Santa Maria Maior com os artistas, oriundos de dez nacionalidades. "A maior parte dos artistas decidiram conduzir as pessoas à descoberta das obras de arte no percurso e assim a descobrir o próprio património da cidade. É um pouco uma caça à obra de arte completamente integrada no percurso", refere Chiara. Assim, há arte no espaço público, mas também em centros culturais, coletividades, ginásios.

A integração das obras de arte foi feita "com todo o respeito pelos moradores, pelas habitações particulares e pelos licenciamentos necessários", salienta. "Não se pode colar, não se pode pregar, não se pode fazer absolutamente nada no espaço público sem a devida autorização", explica, colocando em evidência a dificuldade da intervenção artística no espaço público.

A solução passou mesmo por muita criatividade. "Tivemos de inventar uma a uma as soluções de instalação para as quase 300 obras de arte incluídas nesta primeira edição da Paratissima em Portugal, por forma a não danificar nada e a não deixar qualquer tipo de marca no território", conta.

Na verdade, algumas marcas vão ficar. Ou melhor, obras. Como por exemplo uma pintura mural da artista Ana Cristina Dias, na parede de uma casa particular na Rua de São Miguel. As lembranças de criança e as andorinhas de Lisboa recordadas pela proprietária à artista ganharam forma e ali ficarão enquanto a casa for sua.

A mesma sorte poderá não bater à porta dos moradores das Escadinhas da Achada. Quando a artista brasileira Priscilla Bailarin visitou o local, perguntou aos moradores qual o era o desejo urbano deles. Rapidamente chegaram a uma resposta coletiva: desejavam que o maravilhoso céu de Lisboa chegasse à Terra, ao chão da sua rua. E Priscilla fez-lhes a vontade, utilizando tintas especiais, removíveis e que não alterassem a calçada. O inesperado aconteceu quando uma senhora se juntou à artista e lhe pediu para pintar cinco estrelas naquele céu, uma por cada pessoa da sua família que já tinha morrido. E outros moradores seguiram-lhe o exemplo. Agora, os moradores não querem perder aquele céu terreno das Escadinhas da Achada. A decisão, essa, está nas mãos da Câmara Municipal de Lisboa.



Um festival democrático

Sem seleção, totalmente democrático - quem se pagou os 10 euros e se inscreveu participa -, a curadoria dos três elementos do Ebano foi colaborativa com os artistas oriundos de dez nacionalidades. Fruto da visita ao espaço e das conversas com os moradores, de forma natural foram-se criando zonas temáticas. Chiara exemplifica: "a parte mais baixa de Alfama, junto ao Chafariz de Dentro, tem obras mais ligadas às questões populares e à identidade do bairro, mas com alguns momentos de rutura: vamos ter alta costura em Alfama". A razão é simples: mais uma vez, por desejo dos moradores.

Por isso, no Largo de São Miguel, o estendal ficará sem lençóis até segunda-feira. Mas mantém-se e as molas seguram fotografias. Será ali que todos os dias, às 19.00, haverá castings ao vivo e sessões fotográficas com profissionais da Vogue Portugal. E também haverá desfiles de moda, hoje e amanhã, às 21.30, com os modelos a prepararem-se ali mesmo, no balneário público.

No outro extremo do percurso, na Praça do Martim Moniz, a temática é totalmente diferente: "todos os artistas que se instalaram na Mouraria, tendencialmente estão ligados ou têm uma mensagem ligada à questão da multicultura, da imigração, dos refugiados". É o caso de Takoua Ben Mohamed, tunisina, de 24 anos, a viver desde os oito em Roma, onde a família se refugiou fugindo da ditadura tunisina. Ilustradora de banda desenhada e jornalista, com um trabalho com um cariz político muito forte, a artista confessa que é a primeira vez que expõe no espaço público. Situação que encara como "ocasião para chegar ao público em geral, para transmitir a sua mensagem na rua". Uma mensagem que brinca e ironiza com os estereótipos com que uma jovem tunisina se vê confrontada.

Para além de arte, haverá também concertos todas as noites, às 21.30, no Pátio de Dom Fradique, e um lounge, com música mais calma, no Largo da Rosa. Com a adesão dos músicos de rua ao evento, em diversos pontos haverá também música. Outra surpresa poderá ser o encontro com Monas Lisas vivas, uma cortesia do grupo de teatro de rua As Joanas.

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