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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jerónimo de Sousa. 'O que posso dizer é que estou aqui para as curvas'

Olíder do PCP esclarece que não defende o perdão da dívida e explica por que devia o país sair do euro.
Nas vésperas de mais uma edição da Festa do Avante, num dos restaurantes do recinto ainda encerrado a visitantes, Jerónimo de Sousagarante que, se o PCP assim o entender, em 2016 cumprirá mais um mandato como secretário-geral. Acusa o Partido Socialista de ter “desaparecido do combate” e faz um apelo aos eleitores do centro e do centro-direita: “Olhem para as vossas vidas e encontrarão razões para votar na CDU.”
Alguns sectores da opinião pública e publicada apresentam o PCP como um partido de protesto, indisponível para soluções governativas. Agora assumem--se disponíveis para soluções de governação. Foi uma mudança de estratégia ou a mensagem é que não tem passado?
Fundamentalmente é a mensagem que não passa. Por experiência própria, muitas vezes, em comícios, sessões, em iniciativas do PCP, chegava a dizer: “Bom, camaradas, esta parte não vai passar na comunicação social.” Ou seja, quando chegava a altura da política alternativa e dos seus eixos centrais, eu bem repetia cinquenta vezes mas tinha sempre um corte. Não dos jornalistas que estavam na iniciativa, mas por razões de programação ou de direcção isso não passava.
E a primeira parte da pergunta?
Honra-nos muito termos estado sempre do lado daqueles que sofreram os efeitos desta política nos últimos quatro anos. Denunciando, desmascarando, mobilizando os trabalhadores e o povo português para fazerem frente a esta ofensiva, coisa que alguns não fizeram. Designadamente o PS, que desapareceu de combate. Não só desertou como, ainda por cima, no essencial comprometeu-se com a chamada da troika, com a assinatura do pacto de agressão, com os PEC. Estivemos bem e do lado certo. O que dizemos ao povo português é que a 4 de Outubro vai ter de optar entre dois caminhos: a continuidade deste trajecto de ruína e desastre, que resulta da política de direita, ou um caminho novo, rompendo com o que vem sendo executado pelos sucessivos governos; uma política patriótica e de esquerda que inclua não só a necessidade da ruptura mas a construção de uma alternativa.
Há pontos fundamentais nessa alternativa? Quais são?
Há um com o qual todos se identificam, para nós a pedra angular de uma nova política: a necessidade de um crescimento e desenvolvimento soberano. Isso passa pelo aumento da produção nacional e do nosso aparelho produtivo. Que se crie mais riqueza e que seja mais bem distribuída. Só aí se pode dar uma resposta, em primeiro lugar ao desemprego. Sem mais aparelho produtivo e sem mais produção não há crescimento sustentado do emprego. Depois, e aqui começam as diferenças, como é que crescemos e criamos mais riqueza? Defendemos que o investimento é fundamental.
Fala do investimento público?
Sim. Não descuramos nem estamos contra o investimento privado, mas não aquele que se tem verificado. Confunde-se investimento privado com as privatizações, em que o capital estrangeiro toma conta de sectores e empresas sem acrescentar um posto de trabalho nem meios de produção. Compram as empresas e depois os lucros vão direitinhos para os países de origem dos detentores desses lucros. Isto não invalida a necessidade de um investimento estrangeiro que aumente a capacidade produtiva e crie empregos. Mas o investimento público é insubstituível.
Onde vai o PCP buscar esse dinheiro?
Essa é outra componente fundamental da nossa proposta, que se prende com o problema da dívida e do serviço da dívida. Nestes últimos quatro anos a dívida aumentou 50 mil milhões de euros. Todos nos lembramos que, quando foi chamada a troika, se dizia que estávamos à beira da bancarrota, com uma dívida insustentável. Paulo Portas disse-o. Ora passados quatro anos a dívida aumentou e o serviço da dívida é hoje incomportável. No próximo ano vamos ter de arranjar 9 mil milhões de euros só para o serviço da dívida. Consideramos importante a renegociação da dívida, nos seus montantes, prazos e juros, e simultaneamente uma moratória do serviço da dívida que liberte meios a serem postos ao serviço desse crescimento e desenvolvimento económico.
Não reivindica o perdão da dívida?
Não é o perdão.
Nem parcial?
Não. É um processo de renegociação. Obviamente que os credores podem não querer renegociar, mas a questão está em saber se nós, como devedores, temos direitos, num processo que inevitavelmente tem de ser conduzido pelo governo. Tendo em conta a situação de vários países – Grécia, Itália, Espanha, Irlanda e o nosso –, há a necessidade de se promover uma conferência intergovernamental, em que se busque convergência em torno da renegociação da dívida. Com uma dívida que começa a roçar o insustentável e com um serviço da dívida incomportável, penso que é do próprio interesse dos credores que o país esteja em condições de assumir os seus compromissos.
Portanto não dizem “Não pagamos!”
Não. O que dizemos é que, sem alterar nada, corremos o risco de não poder pagar. E é nesse sentido que consideramos importantíssimo fazer esta proposta e não fazer como PSD/CDS e o próprio PS, em cujos programas essa questão parece não existir. Isso é varrer um problema desta grandeza para debaixo do tapete. Ele não deixa de existir e a falta de resposta e a omissão do PSD/CDS e PS é um problema sério. Queremos essa questão na ordem do dia.
  

A saída da NATO, do euro e da UE são muitas vezes invocadas como impeditivas de um entendimento à esquerda...
Quando defendemos a libertação da submissão ao euro temos a consciência de que estamos dentro e não fora do euro, que a questão deve levantar-se não no sentido de um acto súbito, mas nesta reflexão de fundo: temos ou não direito a um crescimento e desenvolvimento económico soberano?
Desenvolvimento económico soberano?
Sim. Não estarmos agarrados de pés e mãos a compromissos e instrumentos da União Europeia, do Tratado Orçamental às questões da união económica e monetária e da governação económica. São espartilhos. Dizem-nos que podemos andar, mas amarrados e condicionados. Esta necessidade de nos libertarmos conduz-nos a uma outra pergunta que deve ser respondida: é ou não preciso estudar e preparar o país para uma eventual saída do euro, por decisão própria ou por decisão de outros?
E qual é a resposta do PCP?
Já não é só o PCP. Muito mais gente, personalidades de outros sectores da sociedade, no seu balanço verificam que a entrada no euro foi uma aventura. Sem contar com a destruição do nosso aparelho produtivo, das pescas, da agricultura, da indústria pesada, da indústria naval e siderúrgica, está demonstrado que, em termos de receitas, contando com os fundos comunitários, saiu mais dinheiro do que entrou. Entrar no euro foi uma aventura porque se fez num quadro de uma moeda única para países com economias muito diferenciadas e a moeda única não resolveu nem ultrapassou essa realidade.
E não é irresponsável sair do euro?
A saída súbita seria uma aventura, mas é de uma grande irresponsabilidade este país não estudar e preparar essa eventual saída, que não tem uma relação directa com a saída da UE. Essa questão não está posta, aliás temos os exemplos da Inglaterra e da Suécia, que têm moeda própria sem que isso tenha como condição a saída da UE.
E quanto à NATO?
Aí usamos um argumento de peso consagrado na nossa Constituição. Não é só uma proposta do PCP. A nossa Constituição aponta para a necessidade de uma dissolução dos blocos político-militares, propondo antes uma política de paz e de cooperação entre os países e os povos. E é com base neste princípio que defendemos a saída da NATO, que deve ser um processo gradual.
Mas são exigências para integrar ou viabilizar uma solução governativa com o PS?
Não temos essa perspectiva de entendimentos mínimos. O grande problema é que o PS, nos últimos 39 anos, sempre decidiu livremente fazer o encosto à direita e realizar políticas de direita. O PS esteve em minoria e teve maioria absoluta e mesmo nessas circunstâncias fez sempre uma escolha. Não foi o PCP que empurrou o PS para isso. Não, foi o PS de livre vontade. Há uma responsabilidade partilhada entre PSD/CDS e PS, nas privatizações, na submissão aos ditames da UE em relação aos direitos dos trabalhadores. O PS não foi mero espectador. Foi actor nos cortes desses direitos. Daí considerarmos fundamental uma ruptura com a política de direita. Ora, olhando para o programa do PS, pelo que lá está e não está, vemos que no essencial o PS não quer essa ruptura. Reconheço que no modo, no grau, no ritmo, há diferenças entre o que quer o PS e o que querem PSD e CDS, mas no que é estruturante o PS quer continuar a executar essa política de direita e isto é uma dificuldade objectiva.
Então está fora de questão um entendimento com o PS?
Estamos prontos e preparados para assumir responsabilidades governativas, não por favor do PS, mas por manifestação de vontade e apoio do povo português.
Qualquer solução governativa à esquerda teria de ter a presença do PS?
Essa pergunta deve ser feita ao PS. Se está disposto a resolver esta contradição de um partido de esquerda que faz uma política de direita. Nunca faltaremos a uma política que defenda os interesses dos trabalhadores, do povo e do país. Aliás, em termos de iniciativas pontuais, na Assembleia da República nunca tivemos problemas em apoiar este ou aquele projecto de lei, esta ou aquela iniciativa do PS. O que temos vindo a verificar é que o PS, à semelhança da social-democracia da UE, tem caucionado a política de direita e as orientações de quem manda na UE. Diria que a social-democracia e os socialistas até já abandonaram uma posição keynesiana. Itália, França, Alemanha fizeram claramente esse alinhamento, pelas políticas liberais, identificadas com os interesses dos mandantes da UE e do capital monopolista.
Um dos traumas recentes nas relações PS/PCP foi o voto contra o PEC 4. O PCP já conseguiu explicar aos dirigentes e militantes socialistas o seu ponto de vista?
Tenho tentado. Particularmente tenho sido questionado por militantes do PS, pessoas bem-intencionadas. À cautela trago o conteúdo do PEC 4. O que era o PEC 4? Era a perspectiva de cortes nos salários, nas pensões, nos abonos de família, na protecção social; encetar o caminho das privatizações e de ataque aos próprios serviços públicos. Não sou eu que digo, está no próprio PEC 4. E pergunto sempre a esses socialistas sinceros que se dirigem a mim: como é que votaria uma coisa destas?
E qual tem sido a resposta?
O silêncio ou a concordância.
Mas a alternativa foi a direita no poder.
A direita votou vários Orçamentos do PS, votou o PEC 1, 2 e 3, e quando julgou estarem amadurecidas as condições para derrotar o PS votou contra o PEC 4. Na altura Passos Coelho disse votar contra porque o PEC 4 visava cortar salários, pensões e direitos. Ora não podemos estar de acordo com isto. O PS tem de meter a mão na consciência e dizer que o PEC 4 era a antecâmara do Memorando com a troika. O PS não assume, e deveria fazê-lo, que aquilo que propunha, no essencial, foi o que a direita executou depois, através do chamado pacto de agressão. Ofende-se como uma donzela quando dizemos que se afirma de esquerda e pratica uma política de direita. A direita inteligentemente soube esperar pelo fruto maduro para protagonizar a concretização dessa política. Foi coerente. Quem não foi coerente foi o PS.
E o PCP foi consequente?
Então o que poderia fazer o PCP? Pode questionar-se o posicionamento ou as propostas do PCP, agora não se questione a sua política de verdade. Seria mau para o próprio regime democrático que este partido deixasse de dizer a verdade, fizesse como muitos outros que dizem uma coisa e fazem outra. No dia em que o meu partido dissesse uma coisa e fizesse outra o povo português rejeitá-lo-ia.
Onde é que o PCP quer ir buscar votos?
A CDU não tem um eleitor-alvo. Temos o objectivo de reforçar a CDU em votos e em mandatos com base, em primeiro lugar, naquilo que fizemos. Nos posicionamentos e naquilo que afirmamos. Quando o PS desapareceu do combate, esta CDU esteve do lado certo, mesmo quando se vivia o período das ‘inevitabilidades’, do ‘comam e calem’, do ‘desistam’. Quando todo o argumentário levaria as pessoas a desistir, a baixar os braços, lá estiveram sempre o PCP e a CDU na primeira linha de combate, nas horas boas e nas más, a partir das empresas, dos locais de trabalho, junto das populações, na Assembleia da República, na sua intervenção política incentivando à resistência, à luta, e simultaneamente apresentando propostas. São muitos os que se nos dirigem. Ainda na semana passada estive com a direcção de uma revista, numa conversa solta, e aproximou-se de nós uma senhora com aspecto modesto que nos perguntou se queríamos uma cautela e perante o silêncio olhou--nos e disse, apontando para mim: ‘Olhem, este fala verdade, é uma pessoa séria! Não se esqueçam disso!’ E foi-se embora sem vender cautelas. Isto é o reconhecimento pelo nosso posicionamento, ao lado deles, onde muitas vezes se demonstra que resistir já é vencer. A nossa coerência e a nossa determinação, a nossa solidariedade e as nossas propostas, dão-nos a profunda confiança de que a CDU vai crescer e vai avançar em votos e em deputados.
Passos Coelho fez um apelo aos eleitores do centro e do centro-esquerda. Que apelo faz aos eleitores do centro e do centro-direita?
Olhem para o resultado desta política nas vossas condições de vida e de trabalho e encontrarão razões para votar na CDU. Sentimos que também nessas áreas é possível aumentar a nossa influência e o nosso voto. Tenham consciência do resultado nas vossas vidas desta política, da exploração e do empobrecimento que atingiu duramente também camadas médias da população, gente que tinha a sua vida organizada, uma vida decente. Penso naqueles pequenos e médios empresários que viram arruinados os seus negócios, em todos os que na administração pública sentiram a brutalidade dos cortes. Não falamos só dos que têm o salário mínimo nacional. Membros das forças de segurança, quadros técnicos, quadros administrativos, trabalhadores da área da justiça, todos foram atingidos.
A mera transferência de votos entre partidos da esquerda não pode ser vantajosa para a direita?
Olhamos para as sondagens e nas leituras surge a ideia de que há uma luta dramática pela bipolarização e até há quem diga que a direita (PSD e CDS) pode vencer. Isso é um equívoco. Com todo o respeito pelas sondagens e com toda a dúvida razoável que podem suscitar, o que está demonstrado é que o PSD e o CDS – que conseguiram mais de 50% dos votos há quatro anos – não têm mais de 30 e pouco por cento. A confirmarem-se as sondagens, PSD/CDS vão sofrer uma profunda derrota. Derrotar o governo é importante, mas mais que isso é preciso derrotar a política de direita. Ficamos preocupados quando ouvimos os socialistas, como disse Ferro Rodrigues no Congresso do PS: “Precisamos do apoio do centro e dos votos da esquerda para conseguir os nossos objectivos.” Ora se o PS insistir no apoio do centro, arrebanhando votos à esquerda para continuar este rumo de alternância sem alternativa, sofrerá as consequências. Mas a minha preocupação é que as consequências maiores possam ser para a democracia.
Carvalho da Silva falou, a propósito da convergência da esquerda, na necessidade de retirar da sala um elefante carregado de incomunicabilidade e sectarismo. Concorda que, quanto maior for essa esquerda, maior é a sua capacidade negocial com o PS?
Obviamente que para uma política alternativa contar só com o PCP e o Bloco não chega, daí a nossa proposta ser mais avançada. Defendemos uma convergência de democratas e patriotas, de organizações e movimentos sociais, forças políticas em que obviamente cabe o Bloco. Seria o alicerce mais sólido para a construção dessa política alternativa que defendemos. Com todas as diferenças que existem em relação ao Bloco de Esquerda é possível essa convergência, como aconteceu muitas vezes na AR com questões concretas. O grande problema está no facto de o PS pensar no poder mais que na política. Estamos preparados para assumir responsabilidades governativas mas com o apoio do povo português.
Sem o PS, acha isso possível?
É impossível para quem tem uma visão estática da política e do mundo e da sociedade. Ninguém é dono dos votos, não existem coutadas e os portugueses podem mudar de opção. O PS que responda a esta questão. O PCP nunca faltará à manifestação de todos aqueles que queiram realizar uma política patriótica e de esquerda. Quando apelamos ao reforço da CDU falamos de uma força que transporte a ideia de que há uma alternativa. Agora, naturalmente, cada um fará pela vida.
Qual o melhor quadro pós-eleitoral?
É precipitado traçar cenários descurando esse elemento fundamental: o povo português é que vai ter de decidir.
Que futuro terá, na perspectiva do PCP, o Serviço Nacional de Saúde?
A direita, apesar do que afirma, enviou para Bruxelas um verdadeiro programa de corte de 600 milhões de euros na Segurança Social e de mais 300 milhões de cortes nos serviços públicos. A direita sempre quis destruir o carácter universal, geral e gratuito do SNS, ou tendencialmente gratuito, como o PS admitiu. Mas o PS é que encetou o processo de encerramentos e de inclusão de taxas moderadoras, medidas lesivas para os utentes. Agora diz querer defender o SNS, e ainda bem. Aí está um ponto de convergência. Resta saber como vai reagir às determinações de Bruxelas.
O envelhecimento da população aniquila a sustentabilidade da Segurança Social?
O problema da Segurança Social tem a ver com a necessidade do crescimento económico. Basta dizer que mais 100 mil novos postos de trabalho significariam 800 milhões de euros de receita da Segurança Social. Sem resolver o problema do emprego só discutimos medidas para curar os efeitos e não responder à questão central. Depois consideramos que a Segurança Social deve ter, para a sua sustentabilidade, os descontos dos trabalhadores. Mas existem novas realidades de empresas de alta rentabilidade com pouco emprego. Pensamos que é possível conseguir receitas com uma tributação que atingiria cerca de 12% das empresas a nível nacional e encontrar aí receitas que sustentem a Segurança Social. São apenas duas referências programáticas. Estamos em profundo desacordo com a proposta do PS de reduzir os descontos dos trabalhadores, através da taxa social única. Porque aí deviam dizer com toda a franqueza aos trabalhadores que descontam hoje menos que a reforma vai ser mais baixa. Na nossa opinião não é esse o caminho para a sustentabilidade da Segurança Social.
Bagão Félix diz que a tributação das empresas de alta rentabilidade pode afugentá-las do nosso país.
Não, essas empresas não largam o bife. São altamente rentáveis, com lucros fabulosos em sectores protegidos. Não vão sair do país. Ganham muito dinheiro, têm muitos lucros, muitos dividendos. No balanço da EDP só no primeiro semestre conseguiram mais de 500 milhões de euros de lucros. É perfeitamente suportável este complemento, que não significaria abandono. Mas com esta ideia é preciso proteger as pequenas e médias empresas, pois não estamos a contar com o esforço adicional de quem tem tanta dificuldade como têm as nossas micro, pequenas e médias empresas.
O PCP defende a reposição da idade da reforma ao 65 anos?
Sim. É uma proposta justa para quem tem uma vida de trabalho. Não sou exemplo para ninguém, mas já tenho 54 anos de descontos como contribuinte da Segurança Social. Sou contra essa ideia peregrina de que o trabalhador tem de ser forçado a trabalhar até mais não poder. Há sectores onde isso é possível e há outros... Penso no operário têxtil, do calçado, de trabalhos de grande exigência física. Todos concordarão que a reforma aos 65 anos é um elemento de referência fundamental e aumentá-la é impedir que esses homens e essas mulheres, depois de uma longa carreira contributiva, tenham direito a uma reforma digna.
Concorda com a transferência para os municípios da gestão das escolas?
É uma desresponsabilização do Estado daquilo das suas obrigações constitucionais. O governo o que está a transferir são fundamentalmente responsabilidades e pouca verba, mas o objectivo é a desresponsabilização do Estado.
O que pensa do mapa judiciário?
Ainda esta terça-feira foi feito um balanço no Norte em que se demonstra que o encerramento dos tribunais levou a prejuízos imensos para as populações, já por si flageladas pelos problemas da desertificação do Interior. Com menos mobilidade e menos recursos, para estas populações os tribunais e a justiça ficaram mais longe e mais caros.
Paulo Rangel questionou: “Alguém acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação” ou se “o maior banqueiro estaria sob investigação”. Acha que esta afirmação indicia a partidarização da justiça?
Relativamente às declarações do deputado Paulo Rangel estou de acordo com António Costa. Transportar para o debate político problemas que são do foro da justiça não é um bom caminho.
Em 2016 vai ter um novo congresso. Ainda se sente com forças para um novo mandato?
Isto da saúde é uma questão muito precária, ainda por cima todos morremos um dia, o que é uma chatice. Neste momento, e até pela intensidade da campanha, o que posso dizer ao i é que estou aqui para as curvas. Mas isto não é eterno. Mas o essencial é o que o meu partido decidir. Por mim estou em condições de continuar, embora com esta ideia: um dia sairei desta responsabilidade, enquanto tiver capacidade para decidir também e para fazer esse juízo de valor. Mas neste momento a opinião dos meus camaradas é a opinião de muita gente. Não é falsa modéstia, mas às vezes fico surpreendido por tanta gente fora do meu partido, que não é militante e muitas vezes nem simpatizante, me dar este incentivo surpreendente: “Continue, não se vá abaixo! Continue a sua luta!” É um incentivo de grande valor e até um prémio.
Como vê a intervenção pública do Papa Francisco e da Igreja sob o seu comando?
Algumas intervenções do Papa têm uma grande relevância e peso nos tempos que vivemos. Particularmente a denúncia das injustiças, do empobrecimento, as críticas a este capitalismo que visa através do valor supremo, de cada vez mais lucro.
Subscreve, portanto, algumas das suas declarações.
Em termos da realidade social. As preocupações sociais transmitidas pelo Papa, com todas as diferenças que existem, devem merecer reflexão e até apoio.

jornal (i)

Novo Banco: crónica de uma fatura anunciada





VÍDEO

Crimes em série


Crimes em série
por Luís Carapinha 
"Fabius, o (socialista) titular do MNE francês e um dos grandes instigadores da guerra na Síria, afirma-se escandalizado com as cercas erguidas pelo governo (de direita) húngaro e canta o salmo dos «valores europeus». Claro está que, entre encenações grotescas de brio humanitário e lágrimas de crocodilo, nunca se chega às raízes do problema e o nome dos grandes responsáveis pela catástrofe social fica por nomear. Na narrativa dominante, as políticas do capitalismo de exploração econômica, desestabilização e guerra permanecem envoltas num manto de silêncio.
A tragédia do afluxo de imigrantes não tem deixado de aumentar nos últimos anos, proporcional ao regresso em força do neocolonialismo e disseminação da instabilidade e pobreza que ensombram o futuro de povos inteiros. O seu agravamento substancial é inseparável da espiral de guerras e ingerência do imperialismo na região nevrálgica que os estrategas da administração Bush II designaram de «Grande Médio Oriente», que se estende do Norte de África aos confins da Ásia Central. "
A vaga de refugiados na Europa é um dos temas salientes da actualidade, mas, salvo raras excepções, as suas causas profundas não são afloradas nos media. Os responsáveis da UE, ainda a digerir o recente memorandum colonial de subjugação da Grécia, dão mostras de cinismo e desatino com a agudização da crise de refugiados, avaliada como a maior vaga migratória na Europa desde a II Guerra Mundial. 
Anuncia-se a convocação de uma cimeira de emergência da UE para… meados de Setembro. Uma reunião de ministros da Justiça e Interior, confirmando que as «respostas comunitárias» continuam a apontar essencialmente para a vertente securitária e soluções de força. Entretanto, a inefável chanceler Merkel sai a terreiro para exigir aos «parceiros europeus» uma «distribuição justa» das quotas de refugiados e lançar um compungido apelo em defesa de Schengen e das normas de livre-circulação (de mão-de-obra barata e capitais, entenda-se). 
Fabius, o (socialista) titular do MNE francês e um dos grandes instigadores da guerra na Síria, afirma-se escandalizado com as cercas erguidas pelo governo (de direita) húngaro e canta o salmo dos «valores europeus». Claro está que, entre encenações grotescas de brio humanitário e lágrimas de crocodilo, nunca se chega às raízes do problema e o nome dos grandes responsáveis pela catástrofe social fica por nomear. Na narrativa dominante, as políticas do capitalismo de exploração econômica, desestabilização e guerra permanecem envoltas num manto de silêncio.
A tragédia do afluxo de imigrantes não tem deixado de aumentar nos últimos anos, proporcional ao regresso em força do neocolonialismo e disseminação da instabilidade e pobreza que ensombram o futuro de povos inteiros. O seu agravamento substancial é inseparável da espiral de guerras e ingerência do imperialismo na região nevrálgica que os estrategas da administração Bush II designaram de «Grande Médio Oriente», que se estende do Norte de África aos confins da Ásia Central. 
E quando se olha hoje o fenómeno do terrorismo do chamado Estado Islâmico (EI), percebe-se que o eixo deste grande arco de desestabilização não pára de alargar-se em direcção à África subsariana e, também, ao Cáucaso e Sudeste Asiático, rumo às fronteiras da Rússia e China. O drama dos refugiados e o presente êxodo migratório para o Velho Continente, que as intervenções dos EUA no Afeganistão e Iraque ajudaram a preparar, são pois uma consequência directa da campanha mais recente da NATO contra a Líbia (destruindo e fragmentando um país que até há pouco era um dos principais promotores da UA e da política de integração africana) e da guerra que desde 2011 fustiga a Síria, mercê do envolvimento e cumplicidade de uma «coligação» que junta os EUA, as potências da UE, as ditaduras do Golfo, Israel e a Turquia. Sem esquecer igualmente as sequelas da agressão e desintegração da Jugoslávia (e o estado miserável da população do Kosovo «independente») e o quadro de guerra civil na Ucrânia, resultante do golpe de estado de 2014.
Simultaneamente e como em política não há «espaços vazios», deve ser assinalado o perigoso aproveitamento da crise migratória por forças de natureza xenófoba e neofascista, que ganham peso e relevo na Europa. A via de saídas retrógradas, sem dúvida propiciada por condições e tendências de ordem objectiva que marcam o quadro de declínio da hegemonia do imperialismo, constituiu sempre um cavalo de guerra e instrumento de classe do grande capital em tempos de crise. Caos, terrorismo e fascismo são expressões conexas da crise estrutural do sistema dominante; da tentativa de fuga para frente das forças do grande capital transnacional. Há que estar vigilante à sua agenda encoberta. E não se venha dizer que são «teorias da conspiração»...
Fonte: Avante

INTERVENÇÃO DE JERÓNIMO DE SOUSA, SECRETÁRIO-GERAL, ATALAIA, AMORA, SEIXAL - Abertura da 39ª Festa do «Avante!»


Uma saudação fraternal a todos vós, uma saudação em particular à JCP e à juventude que aqui estiveram na construção, que aqui estão participando à vossa maneira e que em si mesmo significa que a Festa do Avante! tem futuro!
Abertas as portas desta 39ª edição permitam-me que releve essa decisão audaciosa do nosso Partido em adquirir o terreno da Quinta do Cabo que será aberto na quadragésima edição que tornará a Festa do Avante! maior e mais bela. Decisão audaciosa quando sustentada numa Campanha de Fundos, na contribuição dos militantes e amigos, de democratas e patriotas. Só um Partido com uma grande confiança no futuro se lançaria na concretização desse objectivo.
E num balanço em andamento queremos dizer-vos que já fizemos mais de meio caminho; que tendo em conta compromissos, está perfeitamente ao nosso alcance chegar e passar, em Abril do ano que vem, a meta a que nos propusemos!
Esta Festa vai realizar-se num quadro político e eleitoral de grande exigência e em que o resultado das eleições legislativas de 4 de Outubro vai determinar muito da evolução da vida política nacional.
Num quadro em que o Governo PSD/CDS sob a batuta da troika e com o comprometimento e a rendição do PS, provocou danos profundos na vida de milhões de portugueses, deixando o País mais endividado, mais dependente do estrangeiro, com mais desemprego, mais emigração, mais pobreza e mais pobres, mais injustiças, mais concentração de riqueza nas mãos de uns quantos.
O que determinou e caracterizou a natureza e objectivos desta política e deste Governo não foi a austeridade, foi sim o aumento da exploração!
Balanço trágico que alguns procuram arredar da memória para pôr o conta-quilómetros a zero e, de novo, voltarem a enganar os portugueses.
Balanço trágico que só não foi mais longe porque a essa política se opuseram os trabalhadores, sectores diversos e as populações. A seu lado esteve sempre o PCP e as forças que integram a CDU, sempre do lado certo, mesmo quando o País era percorrido pela ideologia e pelos arautos das inevitabilidades. Até a esperança quiseram roubar ao povo português!
Foi esta luta que levou ao isolamento social do Governo e que nos leva à convicção da sua pesada derrota nas eleições legislativas de 4 de Outubro!
Mas, sendo tão importante derrotar o Governo, é preciso derrotar a política de direita. Pôr fim a esta alternância sem alternativa governando à vez e por turnos. Passos Coelho recentemente deixou escapar o que lhe vai na alma quando afirmou que nestas eleições não importa que a maioria absoluta seja do PSD/CDS ou seja do PS. Importaria era salvar o prosseguimento da política que tem vindo a ser executada, invocando como objectivo supremo a estabilidade governativa. Mas ao longo dos últimos 39 anos o que mais houve foram maiorias absolutas, do PS, do PSD, do PS com o CDS, do PSD com o CDS e até do PS com o PSD. Maiorias absolutas que deram estabilidade aos governos mas que desestabilizaram a vida de milhões de portugueses e que conduziram o País à situação em que se encontra!
E por isso nestas eleições há uma escolha entre 2 caminhos!
Ou o prosseguimento do trajecto ruinoso seguido por PS, PSD e CDS ou um caminho novo, com o reforço da CDU para construir e realizar uma política patriótica e de esquerda alargando a convergência com democratas e patriotas alicerçada numa profunda convicção que Portugal tem futuro!
Aos que nos questionam sobre o valor do voto na CDU nós afirmamos que, na eleição de 230 deputados – porque é para isso, para eleger 230 deputados e não para eleger um Primeiro-Ministro -, cada voto, cada deputado mais na CDU é um voto e um deputado a menos nos partidos responsáveis por esta situação, cada voto e deputado mais na CDU é a garantia de que será usado não só no combate contra a política de exploração e empobrecimento mas também na proposta e na convergência para uma política patriótica e de esquerda.
Assumindo um compromisso inquebrável: cada voto na CDU será sempre respeitado, com uma política de verdade, fazendo o que dizemos e dizendo o que fazemos, tendo sempre como referência ética de que usaremos esse mandato para servir os interesses dos trabalhadores e do povo português e não para nos servirmos a nós próprios! Também aqui a prática é o grande critério da verdade.
Eis pois, camaradas e amigos, as razões para estarmos de consciência tranquila mas, acima de tudo, confiantes para travar com êxito mais esta batalha, confiantes nos nossos candidatos e no nosso Programa, nas nossas propostas, confiantes nessa força imensa que sois vós militantes, activistas e apoiantes do PCP, da CDU.
Confiança que não é só verbalizada mas sentida. Olhando para esta Festa, sabendo como foi projectada, organizada, construída, como é participada, enquanto em simultâneo tivemos de preparar, programar a campanha e iniciar a pré-campanha eleitoral, então há razão para ter confiança!
Confiança no Partido que temos, no Partido que somos, no seu projecto, no seu ideal. Identificados com os legítimos interesses e aspirações do povo português, este povo a que pertencemos e que em qualquer circunstância com ele e por ele lutaremos!
Aqui se expressam e materializam os valores da paz, da amizade, da solidariedade, do internacionalismo, da afirmação da soberania, da justiça social, da democracia avançada e do socialismo. Afinal a Festa do Avante! é também expressão dos valores de Abril!
Está aberta a 39ª edição da Festa do Avante.

Capitalismo em crise: um barco que afunda sem botes salva-vidas


Capitalismo em crise: um barco que afunda sem botes salva-vidas
Adam Booth
"“JP Morgan estima que a economia dos EUA se contraiu a uma taxa de 1,1% no primeiro trimestre, muito pior do que originalmente se supunha… O indicador de acompanhamento instantâneo da Reserva Federal de Atlanta – GDPnow – mostra poucos sinais de que a América [EUA] está se livrando de seu vírus misterioso… Está se tornando cada vez mais difícil argumentar que a queda se deve a um baque do inverno ou que foi causada pela paralização temporária nos portos da Califórnia”.
O sistema capitalista, então, nas palavras da própria imprensa burguesa, é um doente terminal. Breves vislumbres de crescimento – frequentemente saudadas como sinais de uma recuperação muito esperada – não são mais que os espasmos de um paciente moribundo.
O principal temor da classe dominante agora, portanto, é que o capitalismo, longe de retornar à normalidade depois da crise de 2008, entrou em uma “nova normalidade”: uma época de “estagnação secular” e de “recessão permanente”, em que as taxas de crescimento dos anos anteriores nunca serão vistas novamente. Baixas taxas de crescimento, austeridade permanente e declínio dos níveis de vida: são estas as características definidoras do próximo período."
“Atenção”, anuncia a principal manchete da revista The Economist. “É apenas uma questão de tempo antes que a próxima recessão golpeie. O mundo rico não está preparado”. A foto de capa diz tudo: um cavaleiro da classe dominante, vestindo brilhante armadura e olhando para trás em direção à fera vencida da crise financeira, não se dá conta de que está caminhando direto para as mandíbulas salivantes de um monstro ainda maior – e desta vez sem nenhum tipo de arma a sua disposição.
“Durante a crise financeira, quando a economia global enfrentava sua ameaça mais grave desde os anos 1930, os políticos entraram em ação… “… A recessão deve golpear novamente, inevitavelmente o fará, os países ricos em particular estarão mal equipados para desviá-la. “… a análise produz uma conclusão clara e preocupante. Algumas economias poderiam montar uma defesa robusta contra um novo choque, mas a maioria são alvos fáceis” (The Economist, 13 de junho de 2015).
The Telegraph – porta-voz de confiança para os Tories, o partido tradicional dos ricos na Grã-Bretanha – fez eco a tais advertências um par de semanas antes. “As autoridades mundiais ficaram sem munição… não têm nenhuma margem de erro enquanto a economia vacila” (The Telegraph, 24 de maio de 2015).
O jornal burguês prossegue citando Stephen King do HSBC, o banco multinacional gigante, que compara a economia global ao Titanic – um barco gigantesco à deriva rumo ao desastre. Ao contrário do famoso barco que afundou em 1912, “A economia mundial”, assevera King, “está navegando através do oceano sem nenhum bote salva-vidas para uso no caso de uma emergência”.
Em síntese, os capitalistas e seus representantes políticos e econômicos, em suas tentativas de arrematar a crise de 2008, já usaram todas as armas de seu arsenal necessárias para combater uma nova vaga da crise, “visto que as taxas de juros já estão zeradas na maioria do mundo desenvolvido, os níveis da dívida estão em seus máximos históricos ou próximas disto, e há pouca margem para estímulos fiscais”.
Operando no vazio
“As autoridades normalmente são capazes de repor sua munição desde que a recuperação ganhe fôlego”, continua The Telegraph. “Desta vez enfrentam o desconforto de baixo crescimento crônico… Quanto mais tempo esta situação se prolongar, maiores os riscos de que os seis anos de recuperação global se pulverizem. Enquanto as expansões não morrem de velhice, tornam-se mais vulneráveis a todo tipo de patologias”.
Nos EUA, que continuam a ser o principal motor da economia global, “Cada uma das últimas quatro recuperações tem sido mais fraca do que as anteriores”.
“JP Morgan estima que a economia dos EUA se contraiu a uma taxa de 1,1% no primeiro trimestre, muito pior do que originalmente se supunha… O indicador de acompanhamento instantâneo da Reserva Federal de Atlanta – GDPnow – mostra poucos sinais de que a América [EUA] está se livrando de seu vírus misterioso… Está se tornando cada vez mais difícil argumentar que a queda se deve a um baque do inverno ou que foi causada pela paralização temporária nos portos da Califórnia”.
O sistema capitalista, então, nas palavras da própria imprensa burguesa, é um doente terminal. Breves vislumbres de crescimento – frequentemente saudadas como sinais de uma recuperação muito esperada – não são mais que os espasmos de um paciente moribundo.
O principal temor da classe dominante agora, portanto, é que o capitalismo, longe de retornar à normalidade depois da crise de 2008, entrou em uma “nova normalidade”: uma época de “estagnação secular” e de “recessão permanente”, em que as taxas de crescimento dos anos anteriores nunca serão vistas novamente. Baixas taxas de crescimento, austeridade permanente e declínio dos níveis de vida: são estas as características definidoras do próximo período.
A China
No passado, os capitalistas esperavam que a economia mundial fosse impulsionada através das economias emergentes dos “BRICS” e de outros lugares, as quais – enquanto os países capitalistas avançados estagnavam e paralisavam – eram responsáveis pelo pouco crescimento global que existia. Mas agora também estão surgindo temores sobre a China, o anterior garoto-propaganda da economia capitalista.
“Isto importa enormemente”, declara categoricamente The Telegraph. “Andrew Roberts de RBS diz que a China foi responsável por 85% de todo o crescimento global em 2012, e por 30% em 2014. Este indicador é provável que caia a 24% este ano. ‘Se há uma só estatística que o mundo necessita saber neste momento, é esta’, disse ele”.
“Muito depende agora da China, onde a economia está começando a parecer ‘japonesa’… a economia chinesa está em uma crise muito mais profunda do que admitiram até agora as autoridades. Provavelmente ela se contraiu de forma total no primeiro trimestre”.“O consumo de eletricidade se tornou negativo. O transporte ferroviário de mercadorias tem diminuído a taxas próximas a dois dígitos.”Portanto, da mesma forma que nos países capitalistas avançados, a China, na tentativa de impedir e evitar uma crise, apenas pavimentou o caminho para uma crise mais profunda no futuro. Os métodos Keynesianos de estímulo, alimentados pelo gasto e dívida públicos, criaram uma bolha de crédito que não pode mais ser controlada.
Este é o resultado de qualquer tentativa de se resolver as contradições do capitalismo através de métodos burocráticos de cima para baixo: o investimento – ainda realizado dentro dos limites do capitalismo, da propriedade privada e da produção para o lucro – é canalizado para becos sem saída, o que leva ao aumento da dívida do governo local, a bolhas de preços dos ativos e a uma exacerbação do excesso de capacidade – isto é, superprodução – tanto em termos nacionais quanto internacionais.
Mas, neste mundo altamente interconectado de capitalismo globalizado, o problema não termina aí. “Os efeitos estão sendo sentidos por toda a Ásia”, explica The Telegraph. “Rússia, Brasil, Argentina e Venezuela estão todos contraindo acentuadamente, vítimas da rebaixa dos produtos básicos impulsionada pela China.
Águas desconhecidas
Para ampliar a metáfora do Titanic de King, afigura-se que, com todas as ferramentas tradicionais de política fiscal e monetária esgotadas, a burguesia navega em águas desconhecidas. O resultado é a crescente dependência em relação aos métodos não testados de Flexibilização Quantitativa (QE, em sua sigla em inglês), cujos impactos são desconhecidos para os próprios capitalistas que os implementam. O terrível fantasma da incerteza espreita a terra.
“A grande esperança – e o resultado mais provável – é que a recente expansão monetária nos EUA e na Zona do Euro comece a ganhar tração no final deste ano… Mas ninguém sabe ao certo se os mecanismos monetários normais estão funcionando”.Enquanto a QE manteve uma nova recessão encurralada nos EUA e no Reino Unido, só o fez exportando a crise, com dinheiro barato vazando para o exterior e inflando bolhas de ativos em outros lugares. O efeito doméstico, enquanto isto, foi o de enfraquecer as moedas daqueles que aprovaram programas de QE, ajudando a impulsionar as exportações. Essencialmente, se converteu em mais uma nova forma econômica de “empobrecer o vizinho”. A estabilização temporária para alguns apenas serviu para criar mais instabilidade para o sistema como um todo.
Ao mesmo tempo, como um viciado em drogas cujos desejos crescem à cada dose aplicada, os capitalistas estão constatando que cada nova injeção de dinheiro QE ou estímulo do governo, alimentados pela dívida, tem menos efeito do que a última. A lei dos rendimentos decrescentes se impõe com a mesma força tanto dentro do capitalismo quanto dentro do corpo do viciado. Nas próprias palavras de The Telegraph: “a ‘doce corrida’ da Flexibilização Quantitativa pode desaparecer”. Ou, como o próprio Marx colocou em O Manifesto Comunista, a classe dominante sempre pode sair de uma crise, mas somente “pavimentando o caminho para crises ainda mais extensas e mais destrutivas, e reduzindo os meios para evitá-las”.
A lista de opções disponíveis para a classe dominante está encolhendo rapidamente. Mas tempos desesperados requerem medidas desesperadas. Enquanto os motores da economia mundial vacilam e param, o que antes era impensável se torna pensável.
“Mr. King do HSBC disse que as autoridades globais enfrentarão escolhas terríveis se a economia mundial se chocar com os recifes nas condições atuais. O último recurso pode ter que ser o ‘dinheiro helicóptero’, uma forma radicalmente diferente de QE que injeta dinheiro diretamente nas veias da economia através do financiamento dos gastos do governo.“É um Rubicão que nenhum banco central deseja cruzar, embora o Banco do Japão já esteja de joelhos.“… Como Mr. King coloca acidamente, ‘Muitos – incluindo o proprietário do Titanic – pensaram que ele era impossível de naufragar; seu projetista, contudo, se apressou em assinalar que ‘Ele é feito de ferro, senhor, asseguro que pode’”.
Iceberg à frente
Apesar das ocasionais bravatas e da arrogância demonstrada pelos representantes políticos da classe capitalista, os comentaristas burgueses mais sérios podem ver os riscos iminentes dentro da economia global. De fato, mesmo o normalmente arrogante David Cameron revelou uma disposição incomum de previsão no final do ano passado, falando sobre as “luzes de advertência piscando no painel de comando da economia global”.
Na verdade, a faísca que acenderá as chamas da crise pode vir mais cedo do que o esperado, com a ameaça de contágio pairando sobre a Europa enquanto se desdobram os últimos desenvolvimentos da saga grega.
Como The Economist procurou lembrar aos seus leitores esta semana:
“Inevitavelmente permanecem fragilidades. A Europa está afundada na dívida e depende das exportações. O Japão não pode usar a inflação para se fortalecer. O crescimento dos salários poderia rapidamente melar os lucros das empresas e as valorizações nos EUA. As economias emergentes, que representaram a maior parte do crescimento nos anos posteriores à crise, já viram dias melhores. Espera-se que as economias do Brasil e da Rússia encolham neste ano. Os pobres dados do comércio sugerem que o crescimento chinês pode estar diminuindo mais rapidamente do que deseja o governo. “Se qualquer uma dessas preocupações provocar uma crise, o mundo ficará em uma posição malíssima para fazer qualquer coisa a respeito. Raramente tantas grandes economias se viram tão mal equipadas para administrar uma recessão, seja qual for a sua origem…” (The Economist, 13 de junho de 2015).Contudo, a questão não é que os países capitalistas avançados estejam simplesmente mal preparados para a próxima recessão; na realidade, eles em nenhum momento se recuperaram da última. Os acadêmicos, comentaristas e representantes políticos burgueses, incapazes de explicar a verdadeira causa da última crise, são igualmente incapazes de resolver o problema que a economia mundial enfrenta. De fato, como pode um médico esperar curar um paciente quando nem mesmo é capaz de diagnosticar corretamente a enfermidade?
Como os marxistas explicaram em outras ocasiões, a crise de 2008 não foi meramente produto de uma crise financeira ou bancária, e sim a expressão de uma crise orgânica do capitalismo – um ponto de inflexão qualitativo no sistema depois de décadas de contradições se acumulando umas sobre as outras.
Em última instância, apesar de anos de esforço para resolver o problema, nenhuma dessas contradições fundamentais na economia mundial foi resolvida pela ação dos capitalistas. No fundo se encontra a enorme contradição da superprodução dentro da economia global, cujos sintomas podem ser vistos de forma crescente em todos os cantos: desde a vasta acumulação de dinheiro ocioso pelas grandes empresas em todo o mundo, aos extraordinários baixos níveis de utilização da capacidade nos países capitalistas avançados, e à acumulação da dívida pública e privada em todos os países.
Sem um mapa e uma bússola, a classe dominante vem tropeçando empiricamente de uma etapa da crise à outra, apenas chutando constantemente a lata pela estrada e adiando o inevitável Dia do Julgamento Final. De fato, o atual impasse e ponto morto, entre a Grécia e a Troika – do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – é um claro lembrete de que, apesar de tudo, nada foi resolvido; e, o que é mais importante, que nada será ou pode ser resolvido dentro das fronteiras do capitalismo.
“Socialismo ou barbárie” – são estas as únicas opções que a sociedade enfrenta. Nunca antes o aforismo revolucionário de Rosa Luxemburgo foi mais correto.
Texto postado originalmente em:

Já está ! o crime compensa

ÚLTIMA HORA
JÁ ESTÁ !!!! O CRIME COMPENSA !
JOSÉ SÓCRATES VAI SER LIBERTADO E PODERÁ SAIR DA PRISÃO AINDA HOJE.
A MEDIDA DECRETADA PELO JUÍZ ACONTECE POUCOS DIAS ANTES DE TERMINAR O TEMPO DA PRISÃO PREVENTIVA DECRETADA NA ÚLTIMA DECISÃO DO TRIBUNAL


CRIMES DO IMPERIALISMO - ” Recusou o asilo: Abdullah regressa à Síria para enterrar a mulher e os filhos que lhe vimos morrer.



Recusou o asilo: Abdullah regressa à Síria para enterrar a mulher e os filhos que lhe vimos morrer



Abdullah Kurdi, pai do menino sírio que morreu no Mediterrâneo e cuja imagem correu o mundo, fala e explica porquê: “Vivo um grande sofrimento. Faço esta declaração para evitar que outras pessoas vivam o mesmo”. O Canadá ofereceu-lhe asilo, mas recusou: quer regressar a Kobane, de onde fugiu com a família e aonde regressará desamparado. “As mãos dos meus filhos escaparam das minhas”

A Europa era só ponto de passagem para os Kurdi chegarem ao Canadá. Do outro lado do Atlântico, aguardava-os um familiar. Não chegaram onde queriam, nem vão chegar. Da Síria saíram quatro: o pai, a mãe e os dois filhos, de três e cinco anos. O pai, Abdullah Kurdi, foi o único que sobreviveu a um naufrágio junto à costa turca e, esta quinta-feira, decidiu que não quer prosseguir viagem: volta a casa, a Kobane, para enterrar a mulher e os filhos.
“Depois do que aconteceu, não quero ir [para o Canadá]. Vou levá-los primeiro a Suruç (cidade turca na fronteira com a Síria) e depois a Kobane, na Síria. É lá que vou ficar o resto da minha vida”, disse Abdullah Kurdi, citado pela agência EFE.
O sírio é pai do menino fotografado na imagem que têmcomovido o mundo. Em junho, a família tentou pedir asilo ao governo canadiano. Não foi aceite. Agora, depois da tragédia e das imagens que correram o mundo, o Canadá ofereceu-se para receber Abdullah Kurdi.
“Quero que o mundo inteiro nos ouça e veja onde chegamos para tentar escapar da guerra. Vivo um grande sofrimento. Faço esta declaração para evitar que outras pessoas vivam o mesmo”, explicou o sírio aos jornalistas.
Abdullah Kurdi falava aos órgãos de comunicação social à frente do Instituto de Medicina Legal, em Mugla, Turquia. Tinha acabado de identificar os corpos dos dois filhos e da mulher.

“NÃO CONSEGUI QUE OUVISSEM A MINHA VOZ”

Esta era a segunda tentativa da família Kurdi para chegar à Europa. Anteriormente, já tinham pago a um traficante para levá-los até à ilha grega de Kos, mas foram resgatados pela Guarda Costeira turca. “Depois libertaram-nos e nós próprios conseguimos arranjar um barco de borracha para remar até Kos.”
A eles juntaram-se mais refugiados que procuravam encontrar na Europa a paz que a guerra civil lhes tirou. A cerca de 500 metros da costa da Turquia, o bote começou a meter água. “À medida que a água aumentava, o pânico crescia. Algumas pessoas puseram-se em pé e o barco acabou por virar. Agarrei logo a mão da minha mulher, Rehan.”
No meio do mar e da escuridão, todos gritavam. Foi aqui que os Kurdi se separaram: “As mãos dos meus filhos escaparam das minhas. Não consegui que a minha mulher e os meus filhos ouvissem a minha voz”.
Guiando-se pelas luzes, Abdullah Kurdi conseguiu nadar até à costa. Começou a procurar pelos seus. Não os encontrou. “Pensei que se tivessem assustado e fugido. Cheguei ao nosso ponto de encontro, no porto de Bodrum, e não os encontrei. Corri para o hospital, onde me deram a notícia”, relatou, citado pela agência EFE.
Abdullah Kurd ficou sozinho e vai regressar a Kobane, na Síria para enterrar a mulher Rehan e os filhos Galip e Aylan junto aos outros 16 familiares que já lhe morreram no combate ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh).

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