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sábado, 25 de abril de 2015

Quatro décadas de democracia: 31 mulheres ministras e 467 homens - Ao longo de 41 anos, 25 Governos e 15 primeiros-ministros diferentes, foram nomeados para funções governativas 1609 homens e 127 mulheres: 92,7% com cromossoma Y e 7,3% com cromossoma X. É assim Portugal.

Quatro décadas de democracia: 31 mulheres ministras e 467 homens

Ao longo de 41 anos, 25 Governos e 15 primeiros-ministros diferentes, foram nomeados para funções governativas 1609 homens e 127 mulheres: 92,7% com cromossoma Y e 7,3% com cromossoma X. É assim Portugal.



A ÚNICA PRIMEIRA-MINISTRA Nos últimos cinco meses de 1979, Maria de Lourdes Pintasilgo chefiou o Governo de Portugal (Pintasilgo, Eanes e a secretária de Estado Teresa Santa Clara Gomes) FOTO RUI OCHOA
Quatro décadas de democracia: 31 mulheres ministras e 467 homens
Ao longo de 41 anos, 25 governos e 15 primeiros-ministros diferentes, foram nomeados para funções governativas 1609 homens e 127 mulheres: 92,7% com cromossoma Y e 7,3% com cromossoma X. É assim Portugal.
Texto Manuela Goucha Soares Infografias Olavo Cruz

regime democrático já tem 41 anos mas os Governos portugueses continuam a ter gravatas a mais na sua composição. Mesmo sabendo que "muitos homens que participaram mostraram ter tido pouca qualidade e as mulheres terem sido quase sempre governantes de grande qualidade". Quem o diz é o ex-Presidente da República António Ramalho Eanes, que em julho de 1979 indigitou Maria de Lourdes Pintasilgo para chefiar um Governo de iniciativa presidencial. Recorde-se que Pintasilgo foi a única mulher que exerceu o cargo de primeira-ministra no nosso país.




Em declarações ao Expresso, Eanes lembra que a "participação das mulheres não só é positiva como é importante". Para o ex-Presidente, o facto de os três primeiros-ministros que chefiaram os seis Governos Provisórios, e os 12 que lideraram os 19 Executivos Constitucionais só terem feito 31 nomeações de mulheres para o cargo de ministra, mostra que o acesso a estas funções "é mais aberto aos homens. E isso facilita o aparecimento de homens com menos qualidade" para o desempenho dos desafios que têm pela frente


GOVERNO PROVISÓRIO Entre 15 de maio e 17 julho de 1974 Lourdes Pintasilgo e Lourdes Belchior (na foto) tiveram cargos de secretárias de Estado ARQUIVO A CAPITAL

Recorde-se que depois de Pintasilgo ter sido ministra nos II e III Governos Provisórios [entre setembro de 1974 e março de 1975], as mulheres que participaram nos Executivos nos dez anos que se seguiram só desempenharam cargos de secretárias ou subsecretárias de Estado [30 nomeações em 12 Governos]. Portugal só voltaria a ter uma mulher ministra quando Cavaco Silva, em 1985, nomeou para a pasta da Saúde Leonor Beleza, cargo que ocupou até 1991 nos X e XI Governos Constitucionais.
Registe-se ainda que, três anos depois da revolução, o II Governo de Mário Soares nomeou exclusivamente representantes do género masculino: 54 homens, entre ministros, secretários e subsecretários de Estado. Antes dele, Vasco Gonçalves também tinha feito uma opção semelhante no IV e V Governos Provisórios, com um peso significativo de militares.


CAVACO NOMEIA A 2ª MULHER MINISTRA Leonor Beleza assume a pasta da Saúde em 1985 FOTO DE RUI OCHOA

Atualmente, em termos internacionais, estamos a meio da tabela de um ranking publicado pelas Nações Unidas em janeiro de 2014, abaixo da Namíbia e ex aequo com o Togo, com uma taxa de participação de 21,4% de mulheres nos governos; este ranking elenca 97 posições, mas contempla bastantes mais estados porque há vários ex aequo. A Nicarágua é o país com maior percentagem de mulheres no Governo com 57,1%. Seguem-se a Suécia, Finlândia e França e, em quinto lugar, Cabo Verde com 47%1 de mulheres no Executivo.
“Em termos numéricos ainda há muito para fazer em Portugal no que toca à participação das mulheres”, diz ao Expresso Michael Baum, professor de Ciência Política e membro do conselho executivo da Fundação Luso-Americana. “Há mais mulheres licenciadas e muitas que têm doutoramento. São pessoas altamente qualificadas, mas a sociedade portuguesa ainda é muito tradicional no que respeita aos papéis familiares”, acrescenta.



Quarenta e um anos depois de termos tido uma mulher a ser ministra, Passos Coelho nomeou até agora 12 mulheres e 75 homens para o seu Executivo. Refira-se no entanto que Passos é o primeiro-ministro que, pela primeira vez, indigita mulheres para pastas que sempre foram território masculino: Anabela Rodrigues, que assume a pasta da Administração Interna na sequência da demissão de Miguel Macedo, e Berta Cabral que é nomeada secretária de Estado da Defesa na sequência de uma remodelação do XIX Governo. Com Passos, outras três pastas tradicionalmente masculinas — Finanças, Agricultura e Justiça — são também exercidas por mulheres ministras: Maria Luís Albuquerque, Assunção Cristas e Paula Teixeira da Cruz.


Sexta-feira, 8 de novembro de 1985. O já desaparecido semanário "O Jornal" apresentava os ministros do primeiro dos três Governos de Cavaco Silva. Leonor Beleza foi nomeada ministra da Saúde, a primeira mulher a ter um cargo desta natureza desde 1975 

Curiosamente, foi outro social-democrata que governou entre abril de 2002 e julho de 2004 quem nomeou mais mulheres para o Executivo: 13 ao todo. Nos 27 meses que durou o consulado governamental de Durão Barroso [antes de trocar o cargo de PM pelo de presidente da Comissão Europeia], o então primeiro-ministro foi o primeiro a nomear mulheres para pastas de grande relevância política: Manuela Ferreira Leite nas Finanças e Teresa Patrício Gouveia nos Negócios Estrangeiros.


RECORDE DE MINISTRAS Sócrates teve cinco ministras em simultâneo no seu 2º mandato FOTO JOSÉ CARLOS CARVALHO

O recorde de nomeações de mulheres ministras pertence a Sócrates, no seu segundo mandato. Foram cinco em simultâneo: Ana Jorge na pasta da Saúde, Dulce Pássaro no Ambiente e Ordenamento do Território, Gabriela Canavilhas na Cultura, Helena André no Trabalho e Solidariedade Social e Isabel Alçada na Educação.
Na opinião da investigadora Carla Martins é mais exato quantificar as “nomeações para cargos” governativos — ministro, secretário e subsecretários de Estado — do que as pessoas individuais que os exerceram. Em consequência do provável fechamento do mercado de recrutamento para estas funções, existem vários indivíduos que exerceram/exercem cargos diversos em governos diferentes, como já antes mencionámos os casos de Maria de Lourdes Pintasilgo que foi ministra dos Assuntos Sociais nos I e II Governos Provisórios [chefiados por Vasco Gonçalves], e Manuela Ferreira Leite, a quem Cavaco entregou a pasta da Educação no XII Governo, e Durão Barroso a das Finanças no XV.


BARROSO NOMEIA 13 MULHERES Manuela Ferreira Leite foi a primeira mulher a chefiar a pasta das Finanças FOTO RUI OCHOA

Na sua tese de doutoramento “Mulheres, política e visibilidade mediática. As lideranças de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Manuela Ferreira Leite”, Carla Martins quantificou as representações numéricas dos governantes do I Governo Constitucional até à tomada de posse do atual Executivo em junho de 2011; o Expresso atualizou os dados que se referem ao Governo de Passos Coelho e contabilizou os governantes que participaram nos seis Governos Provisórios.



Em fevereiro de 2006, pouco depois de Michelle Bachelet ter sido eleita Presidente do Chile, a reportagem do Expresso “Mulheres: Política&Mérito”, concluía que “éramos o país com menos mulheres ministras no Sul da Europa”, adiantando ainda que “em Portugal — ao contrário do que acontece na vizinha Espanha — os partidos de poder, sejam eles de esquerda ou de direita, nunca tiveram uma estratégia clara de promoção do número de mulheres com cargos governamentais”. Nessa altura, o historiador António Costa Pinto, coautor do livro “Quem Governa a Europa do Sul” [publicado em Londres em 2004], dizia ao Expresso que até ao segundo Governo de Guterres só tínhamos tido “sete mulheres na elite ministerial, o que representa 4% do número total de ministros” até 1999.



Para Costa Pinto, “muitas das mulheres que chegam ao poder fazem-no por mérito da sua competência profissional, não sendo políticas de carreira”. Já para Manuela Ferreira Leite — que foi ministra da Educação de Cavaco e das Finanças de Barroso — o maior acesso das mulheres a cargos políticos é “um problema cultural que acaba por se resolver por si”, estando por isso contra o sistema das quotas em 2006. “Em termos de exercício de cargos públicos, a diferença está mais na forma como nos olham no exercício dessa atividade. E acho muito mal que as pessoas sejam escolhidas pelo facto de serem mulheres. Sempre fui contra o critério das quotas, porque acho que isso é obrigar através de um meio administrativo que as mulheres preencham determinados lugares”.
Leonor Beleza comentava então o facto de ninguém estranhar só haver “duas mulheres ministras”, apesar de Guterres, no seu segundo mandato, ter tido durante um ano um Ministério para a Igualdade atribuído a Maria de Belém.


PASTAS FORTES O As mulheres de Passos: Assunção Cristas na Agricultura, Paula Teixeira da Cruz na Justiça, Maria Luís Albuquerque nas Finanças e Anabela Rodrigues na Administração Interna FOTO DE JOÃO LIMA

Quinze anos mais tarde, já noutro século e com o euro como moeda do país, no retrato que traçamos dos governos do Portugal democrático, os números valem mais que mil imagens: ao longo de 41 anos e 25 Governos foram nomeados 1609 homens para cargos governamentais e 127 mulheres. Dito de outra forma, 92,7% dos governantes são homens e 7,3% mulheres.




Como dizem os historiadores António Costa Pinto e Pedro Tavares de Almeida, “o típico ministro português é homem, a meio da década dos 40, nascido em famílias urbanas da classe média, altamente escolarizado e com um passado de trabalho em funções públicas”. Usa gravata, apesar de Portugal ter uma das taxas mais altas da Europa de mulheres trabalhadoras desde meados da década de 60.


Teresa Lobo. A governante do Estado Novo

Quinta-feira, 20 de agosto de 1970. O já desaparecido vespertino "A Capital" assinalou a nomeação de Teresa Lobo para o Governo de Caetano. A primeira mulher de sempre desde que foi implantada a República em 1910 

Num país onde há muito vivem mais mulheres do que homens, o primeiro sinal de abertura à participação das mulheres em cargos governamentais foi dado por Marcello Caetano em 1970. O último [e segundo] presidente do Conselho de Ministros da ditadura indigitou Maria Teresa Cárcomo Lobo para o cargo de subsecretária de Estado da Saúde e Assistência. A imprensa da época assinalou o facto de pela "primeira vez" uma "senhora" ser "membro do Governo". Nascida em Angola [Malanje] e de origem goesa, a licenciada em Direito com "média de 16 valores" já tinha chefiado o gabinete de Estudos Económicos e Financeiros do Banco Nacional Ultramarino; foi nomeada a 20 de agosto de 1970 e exerceu funções até novembro de 1973, altura em foi empossado o segundo Executivo de Caetano, na sequência do processo eleitoral de 28 de outubro de 1973. Retrospetivamente, este é um dos sinais da chamada primavera marcelista, já que ao longo de quatro décadas Salazar nunca chamou nenhuma mulher a participar no governo da nação.
Foi viver para o Brasil depois da Revolução de Abril onde continuou a sua atividade profissional; foi juíza Federal no de Janeiro, e aposentou-se em 1999.

Este rádio tem uma história que ajudou a mudar o país



Este rádio tem uma história que ajudou a mudar o país












Lembra-se daquele rádio velhinho que o seu pai ou avô tinham lá em casa, que tinha o napperon em crochet estrategicamente posicionado por baixo? Vamos ligá-lo para ouvir um apelo que correu Portugal inteiro há quatro décadas.







Ler mais: http://expresso.sapo.pt/

António Tereso. O homem que arriscou a liberdade para conseguir a de sete

António Tereso. O homem que arriscou a liberdade para conseguir a de sete


Como podia um simples homem ser protagonista de uma fuga da prisão? Fingindo-se passar para o outro lado, sofrendo insultos e desprezo, e oferecendo os seus dotes de motorista e mecânico. Esta é a história de António Tereso, o homem que só fugiu porque fingiu ser traidor

Esta não é uma história comum sobre o pré-25 de Abril. Não há apenas de um lado a PIDE e do outro os seus presos políticos. É a história de um homem que para promover uma das mais emblemáticas fugas teve de aprender a viver entre os dois lados, fingindo estar apenas de um. O disfarce de traidor custou-lhe cuspidelas, insultos, desprezo. Dia e noite. Até à manhã gelada de Dezembro em que António Tereso, o ex-mecânico da prisão de Caxias para os carcereiros, o ex-traidor e o ex-“rachado” para os prisioneiros, irrompeu no carro blindado de Salazar pelo pátio adentro e levou outros sete militantes comunistas para fora do terreno da prisão. O homem que arriscou fingir-se amigo de directores, dos guardas, da PIDE, que se queixou de ter a barriga cheia de política, que teve de fingir que virava costas aos amigos, aos comunistas, aos reclusos como ele, estava a poucos meses de cumprir a pena e sair em liberdade quando aceitou ser o protagonista de um plano impossível. Se o plano falhasse, já não haveria regresso a casa. Esta é a história pouco falada de um homem que arriscou a liberdade para conseguir a de outros sete. 
Um dia, de castigo na prisão, António Tereso cruzou-se com José Magro e Afonso Gregório, do Comité Central do partido, no forte de Caxias. Magro fez-lhe a proposta:
– Olha lá, e se tu fosses para a sala dos trabalhos?
Tereso começou por negar: como seria olhado pelo partido e pelos amigos? Como se iria fingir de zangado? Andar em pancadarias com os seus?
Acabou por aceder:
– Eu aceito e vou disposto a lá deixar a pele se for preciso.
Durante a noite, na cama, deu voltas e voltas: 
– Nunca pensei que era possível fugir. Nunca.  
Era preciso arranjar um pretexto para se revoltar contra os presos. Escolheu o Matos e o Lenine, por serem os últimos a levantar-se da mesa. Naquele dia, resolveram pedir mais arroz. O prestável cantineiro Tereso deu mas a seguir simulou que estava zangado por não terem comido tudo o que estava no prato. E logo de seguida deu uns murros para chamar o guarda.
– Quero sair daqui! Ainda dou em maluco com estes gajos! Tenho a barriga cheia de política. Quero que me leve ao chefe. 
O chefe não acreditou à primeira:
– Escreva ao senhor director. Mas como o senhor é um comunista…
– Já fui! Já fui! Agora sou é comodista!
O dia em que o guarda Jaime o ajudou a escrever a carta, pedindo ao director transferência para a sala dos trabalhos, foi aquele em que os amigos lhe viraram as costas. O Magro teve de se juntar ao plano. Quando os outros se queixavam a verdade não era revelada. Magro limitava-se a dizer:
– Que queres? O tipo é assim. Quer rachar.
Um dia foi o Vilela que trepou para o seu beliche para indagar o que lhe acontecera:
– Ó Tereso, tu que eras um tipo porreiro…
Noutro dia foi o Cartaxo. Tereso, na sua estratégia de camuflagem, limitava-se a dizer:
– Não quero conversas, quero ser livre.
A partir desse dia, muita gente nunca mais lhe falou. Viram-no sair e começaram a tratá-lo por rachado. Até do Partido Comunista chegaram ordens para todas as salas: os rachados não eram pessoas que merecessem conversa, os rachados eram gente que deixara de ser camarada, os rachados eram para desprezar.
Nova fase do plano: chegado à sala dos trabalhos, era preciso conquistar os verdadeiros vira-casacas e os carcereiros.
E, sobretudo, não deixar que alguém suspeitasse. Enquanto os guardas o espreitavam repetidamente pelas seteiras do pátrio, Tereso pintava portas e janelas, varria o átrio, usava a esfregona. Quando chegou Gomes da Silva, subinspector da PIDE, Tereso concentrou-se em cair nas suas graças.
– Quer que lhe lave o carro?
Tereso lavou-o, pintou-o e até chegou a fazer de bate chapa concertando o tejadilho. O subinspector da PIDE estava rendido: um certo dia até o levou a dar um passeio à cidade. Outro dia Tereso avisou-o de que ia sem pneu sobresselente. O subinspector berrou e esperneou: tudo teria de estar em ordem antes de sair. Tereso teve de voltar a pôr o pneu no carro. Enquanto o fazia, Gomes da Silva disse:
– Será isto sabotagem?
Tereso fingiu-se de chateado:
– Eu não confundo as minhas ideias políticas com a minha honestidade profissional. Se não confia, chame outro.
O subinspector riu-se: 
– Ó homem, não se zangue, tenho toda a confiança em si!
Quando passava pelos outros presos, nas suas rondas pelo forte, explorando galerias, divisões, buracos, janelas e portas, imaginando fugas entre galinhas e coelhos e porcos, Tereso continuava a ser renegado pelos amigos. Era assim que se tratavam os traidores. O tempo passava. Tereso via guardas em cima e em baixo. Guardas em todo o lado.
– Era impossível fugir.
Um dia encheu-se de coragem e foi falar com Gomes da Silva: agora que estava prestes a sair queria um emprego na PIDE como motorista. Ao fim da terceira insistência, o subinspector deixou de ignorar: 
– Isso é que não pode ser. O senhor tem cadastro. 
Acabou por ter como garantia um emprego de motorista no forte, a troco de 1500 escudos por mês. Estava a três meses de conquistar a liberdade.
Primeiro, Tereso ofereceu-se para arrumar uma Ford V-8, que transportava 38 passageiros. Espantado com as suas capacidades ao volante, Gomes da Silva sugeriu:
– O senhor é que me vai pôr aquele carro a trabalhar.
Ao olhar para o Chrysler blindado que fora de Salazar, que hoje está no Museu do Caramulo, Tereso acreditou pela primeira vez no plano que há meses perseguia. Ao almoço, o peixe frito, o arroz e a salada nem saíram do prato. O que era preciso era pôr o carro a funcionar. Uma máquina de 4500 quilos, com motor de 8 cilindros em linha. No último sábado de reclusão, Tereso transformou o terreno da prisão numa pista de automobilismo. O estômago ardia. Sabotou os outros carros velozes para evitar perseguições. O estômago continuava a arder. Estava tudo a postos para as 9 e 30 de segunda-feira. O histórico 4 de Dezembro de 1961.
Na segunda-feira, Tereso, o futuro ex-traidor, entrou num túnel de marcha-atrás. A missão não era fácil: tinha de ir em alta velocidade mas o carro era quase tão largo como o portão. O Chrysler de 1937, de sete lugares, totalmente blindado, tinha 5,40 metros de comprimento e 1,80 metros de largura. Pequeno percalço: a roda foi à valeta. Tereso tremeu, concertou o problema e entrou no pátio. Neste momento já mais camaradas sabiam que afinal não era um Judas. Primeiro insultaram-no porque estaria a interromper-lhes o recreio. Depois, enquanto rodeavam o carro e os guardas pensavam que vinha aí briga feia, Magro gritou: Golo! 
Nunca um golo fora tão festejado por aqueles homens. Sete entraram dentro do carro que arrombaria o portão de ferro que separava a cadeia da estrada. Sete homens em fuga, torneando disparos da GNR, em direcção à auto-estrada, a caminho de Lisboa. Num carro que esteve ao serviço oficial de Salazar, e que lhes ofereceu a liberdade. A ironia não podia ser maior. 

jornal i

Intervenção de Carla Cruz na Assembleia de República "Abril é o futuro de Portugal"

Intervenção de Carla Cruz na Assembleia de República

"Abril é o futuro de Portugal"



Senhor Presidente da República,
Senhora Presidente da Assembleia da República
Senhor Primeiro-Ministro
Senhores Presidentes do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal Constitucional
Senhoras e Senhores convidados
Senhoras e Senhores Deputados
Nestas comemorações do 41º aniversário do 25 de Abril de 1974, esse acto fundador e decisivo da democracia portuguesa, começo por saudar os militares de Abril e todos os democratas e antifascistas que lutaram para derrubar o regime fascista e devolver a dignidade e a liberdade ao povo português.
O 25 de Abril ocorreu porque muitos acreditaram que era possível vencer e derrubar o fascismo, pondo fim à repressão exercida sobre os trabalhadores e o povo.
O 25 de Abril ocorreu porque muitos acreditaram que era possível pôr fim à fome e à miséria que se sentavam à mesa da maior parte dos lares portugueses.
O 25 de Abril ocorreu porque muitos acreditaram que era possível pôr fim à Guerra Colonial e libertar Portugal do domínio imperialista estrangeiro.
O 25 de Abril ocorreu porque muitos acreditaram que era possível liquidar o poder dos monopólios e dos grandes agrários.
O 25 de Abril foi a resposta que os militares do Movimento das Forças Armadas, o povo, os democratas e os antifascistas deram às inevitabilidades daquele tempo. Também hoje é necessário e é possível romper com as inevitabilidades que nos querem impor.
A Revolução de Abril foi uma magnífica realização histórica do povo português, tornada possível pela aliança entre o Povo e o Movimento das Forças Armadas. Foi esta aliança original que possibilitou a revolução e a concretização das profundas transformações políticas, económicas, sociais e culturais que alteraram radicalmente a situação do país e a vida dos portugueses.
O medo, a repressão e as perseguições foram substituídos pela liberdade e pela alegria de viver e partilhar.
O regime fascista deu lugar ao regime democrático.
Ao domínio do imperialismo estrangeiro respondeu o povo com a afirmação da soberania e da independência nacionais.
As transformações económicas e sociais operadas não foram o resultado de um só dia, nem de um só acontecimento; foram forjadas no seio de um processo dinâmico em que o envolvimento e a participação dos trabalhadores e do povo foram cruciais.
Foi deste processo que nasceram as profundas transformações democráticas, se consagraram direitos, se impulsionou a emancipação social e nacional, se concretizou a reforma agrária, se realizaram as nacionalizações de empresas e sectores estratégicos, incluindo a banca, colocando-os ao serviço do progresso e do desenvolvimento do país. Foi este processo e não qualquer outro que abriu a Portugal as portas do relacionamento com a Europa e o Mundo.
Foi neste processo que os trabalhadores tomaram o destino nas suas próprias mãos, construindo um país mais justo e solidário. Nenhuma conquista de Abril foi oferecida ao povo; todas foram conquistadas pela luta.
As transformações empreendidas durante o processo revolucionário conduziram à elevação das condições de vida do povo e tiraram o país da miséria.
Transformações e progressos que, por acção de sucessivos governos comprometidos com o grande capital nacional e estrangeiro, têm vindo a ser seriamente atacados e destruídos, em especial nos últimos anos com a política dos PEC e do Pacto de Agressão. Uma política de dois pesos e duas medidas, que exige sacrifícios insuportáveis aos trabalhadores e ao povo para aprofundar os privilégios dos grandes grupos económicos. Cortam-se salários e pensões para continuar a pagar juros de uma dívida insustentável. Encerram-se serviços públicos e degradam-se as funções sociais do Estado na saúde, educação e segurança social, mas os encargos com as parcerias público-privadas continuam a aumentar. Os trabalhadores são esmagados com impostos para que as grandes empresas e os grupos económicos sejam ainda mais favorecidos fiscalmente. O povo empobrece, enquanto o grande capital vê crescer os seus lucros.
É esta política que os executantes da política de direita querem perpetuar, recorrendo aos mecanismos da chamada Governação Económica e ao Tratado Orçamental para amarrar Portugal à política da troica.
Disputando entre si pequenas diferenças de ritmo e intensidade, a troica interna dos executantes da política de direita confirmou nos últimos dias não ter para oferecer aos portugueses outra coisa que não seja a continuação da mesma política de exploração, empobrecimento e declínio nacional que priva o povo português do direito de decidir de forma soberana o seu futuro colectivo.
A solução dos graves problemas nacionais não está na continuação da política de direita.
É na afirmação das conquistas de Abril consagradas na Constituição que o país encontrará as respostas para enfrentar os problemas actuais e futuros.
Afirmar os valores de Abril é a resposta para a recessão económica, para a destruição da produção nacional, para a dívida insustentável, para o desemprego e para a pobreza.
Afirmar os valores de Abril é garantir aos desempregados o direito ao trabalho e à protecção social, é garantir aos jovens o direito à educação de qualidade.
Afirmar os valores de Abril é garantir que todos os portugueses, independentemente da sua condição económica, tenham direito à protecção da saúde e à prestação de cuidados de saúde de qualidade, é garantir a todas as crianças a protecção a que têm direito, é garantir condições para o exercício dos direitos de paternidade e maternidade.
É com a afirmação dos valores de Abril que defendemos o futuro de Portugal!
Senhor Presidente da República,
Senhora Presidente da Assembleia da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
Neste ano em que se comemora o 40º aniversário das eleições para a Assembleia Constituinte, as primeiras eleições livres e universais da nossa História, saudamos os deputados constituintes que, sabendo interpretar e acompanhar o rumo do processo revolucionário e das lutas dos trabalhadores e do povo, deram corpo àquele que viria a ser o pilar do Portugal livre, democrático, de progresso e independente - a Constituição da República Portuguesa de 1976.
Esta Constituição teve, desde a primeira hora, inimigos declarados que em sucessivas revisões a amputaram e empobreceram, limitando o seu alcance e conteúdo progressista. A este processo acrescem ainda as práticas inconstitucionais levadas a cabo ao longo de quatro décadas por sucessivos governos, com particular incidência nos últimos anos.
Os grandes interesses económicos e financeiros e os seus representantes políticos nunca aceitaram o projeto libertador e emancipador contido na Constituição da República Portuguesa.
Aqueles que querem impor o retrocesso social e civilizacional encontram na Constituição, no que ela consagra e garante, um sério obstáculo à concretização de tais intenções, tentando por todos os meios a sua subversão.
Com consciência de que a Constituição não se defende por si, de que é preciso que os trabalhadores e o povo a defendam exercendo os seus direitos, a todos os seus inimigos dizemos que encontrarão no PCP e em muitos outros democratas e patriotas uma firme resistência a novas tentativas de desvirtuar a Constituição da República Portuguesa.
Senhor Presidente da República,
Senhora Presidente da Assembleia da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
Garantir a independência nacional e os direitos e liberdades fundamentais, promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses são tarefas fundamentais do Estado que os órgãos de Soberania têm o dever indeclinável de cumprir.
Celebramos o 41º aniversário da Revolução de Abril conscientes das dificuldades que o país atravessa mas imbuídos de uma grande esperança e confiança de que, num futuro próximo, o nosso país retomará o projeto de construir uma sociedade melhor, mais justa e mais fraterna, uma sociedade que recupere os valores de Abril e os projete no futuro.
Celebramos o ato e o processo mais moderno e avançado da nossa época contemporânea projetando-os no futuro, com a certeza de que as suas conquistas e os seus valores continuam presentes no coração, nos sonhos, nos anseios e na luta do povo português.
Com a certeza de que Abril é o futuro de Portugal.
Sim, que viva Abril e os seus valores!


www.pcp.pt

NOTAS - HIPOCRISIA E FINGIMENTO


HIPOCRISIA E FINGIMENTO
CRAVO VERMELHO AO PEITO...A MUITOS FICA BEM, SOBRETUDO FAZ JEITO A CERTOS FILHOS DA MÃE !
A REFORMADA REACCIONÁRIA QUE OCUPA O LUGAR DA PRESIDÊNCIA DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA NUM DISCURSO CHEIO DE PALAVRAS DE SETE E QUINHENTOS E FALSIDADE (SABE-SE O ÓDIO QUE TEM A TUDO O QUE CHEIRE A 25 DE ABRIL E AO POVO NAS BANCADAS DA AR) A DETERMINADA ALTURA NUM FLASH RÁPIDO E TÍMIDO ATRIBUIU ALGUMA CULPA DA CRISE AO "CAPITALISMO FINANCEIRO".
NOS APLAUSOS HOUVE GENTE DO PSD QUE NÃO APLAUDIU MAS AMIGOS DESTES TEATROS ESTÁ CÁ O ANTÓNIO CHEINHO SABENDO BEM A ESTIRPE E O ESTOFO DOS DEPUTADOS DA MAIORIA.
A SENHORA DOS IN-CONSEGUIMENTOS QUE VÁ DAR BANHO AO CÃO !

António Garrochinho

25 de Abril: Museu do Aljube é inaugurado hoje Apresentado pela Câmara de Lisboa como "um espaço de memória e de evocação da luta pela liberdade", o Museu do Aljube abre as portas este sábado, às 19:00.

25 de Abril: Museu do Aljube é inaugurado hoje




Apresentado pela Câmara de Lisboa como "um espaço de memória e de evocação da luta pela liberdade", o Museu do Aljube abre as portas este sábado, às 19:00.A vereadora da cultura da Câmara de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, espera que o museu seja evocação de memórias, um gesto de gratidão a todos os que lutaram contra a ditadura


A inauguração do Museu do Aljube esteve inicialmente prevista para as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, no ano passado.
Em declarações à TSF, a vereadora da cultura da Câmara de Lisboa Catarina Vaz Pinto admite que "qualquer obra no centro de Lisboa, no centro histórico, nunca demora o tempo que é suposto demorar porque há sempre escavações arqueológicas a fazer, recolha dos achados, e isso tudo também aconteceu no Museu do Aljube. O que é importante é que as coisas fiquem com qualidade".
O edifício foi entregue pelo Ministério da Justiça à Câmara de Lisboa em 2009, por iniciativa do então ministro Alberto Costa. O projeto de adaptação da antiga prisão é dos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira.
O espaço onde agora vai funcionar o Museu recebeu, durante a ditadura, presos políticos durante a fase de interrogatório, que decorria geralmente na sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso.
Para a inauguração de logo à tarde a Câmara de Lisboa convidou Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Ramalho Eanes.

OUÇA AQUI CLIK NO LINK

25 de Abril: Museu do Aljube é inaugurado hoje - TSF

www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=4532189

Catarina Vaz Pinto explica os motivos do atraso da inauguração.

25 de Abril - Filme "O medo à espreita" recorda repressão do Estado Novo A realizadora Marta Pessoa estreia hoje o filme "O medo à espreita", sobre o ambiente de repressão no Estado Novo e que, segundo a autora, merece reflexão, porque se notam hoje "sinais sub-reptícios de incentivo à denúncia".

25 de Abril 


Filme "O medo à espreita" recorda repressão do Estado Novo

A realizadora Marta Pessoa estreia hoje o filme "O medo à espreita", sobre o ambiente de repressão no Estado Novo e que, segundo a autora, merece reflexão, porque se notam hoje "sinais sub-reptícios de incentivo à denúncia".
CULTURA
Filme O medo à espreita recorda repressão do Estado Novo
Lusa

Marta Pessoa explicou à agência Lusa que este não é mais um filme português sobre tortura, prisão ou sobre a PIDE. É um olhar sobre o passado a partir da atualidade, por verificar que, na sociedade, parece estar a "surgir devagarinho e sem se dar por isso" uma mesma sensação de medo.
"Ou por causa dos empregos, por razões sociais, as pessoas não se chegam à frente, ou não arriscam ou não fazem greve. Há coisas que parece que ainda perduram", disse.
Para este documentário, a autora recorreu aos arquivos da Legião Portuguesa, depositados na Torre do Tombo - alguns nunca tinham sido abertos e consultados -, selecionando excertos de depoimentos de pessoas que eram informadoras do regime, que vigiavam sobretudo comunistas.
Esses relatos, feitos em vários locais do país, de vigilância em cafés e nas ruas, sobre movimentações de pessoas por suspeita de serem "perigosos comunistas", são lidos no filme pelos atores Vítor d'Andrade, Francisco Nascimento, Miguel Loureiro e Miguel Melo.
"Quem eram os agentes? Porque é que não houve medidas mais radicais, porque é que foram condecorados e tiveram direito a pensões? O que é a polícia política?", pergunta Marta Pessoa para explicar o interesse em fazer este filme.
Sobre a relação entre vigilante e vigiado, Marta Pessoa entrevistou ainda mais de uma dezena de pessoas que estiveram na mira do regime ou foram presas, torturadas e ficaram com ficha na PIDE. Entre elas estão Helena Pato, Teresa Dias Coelho, Raimundo Narciso, Margarida Tengarrinha, Artur Pinto e Custódia Chibante.
Do ponto de vista formal, o documentário alude aos filmes de terror, explica a realizadora. Rodado a preto e branco, o filme inclui vários momentos de silêncio, ecrã negro e testemunhos como em registo de interrogatório, enfatizando essa imagem de repressão, vigilância e medo.
"Há aqui um jogo de espelhos perverso. O próprio regime [de Salazar] tinha medo, sobretudo depois da guerra [II Guerra Mundial], porque a Europa estava a mudar e Portugal não. Havia o medo da revolução e medo quando a oposição deixou de ser o comunismo", disse.
Marta Pessoa passou dez meses de volta dos arquivos históricos e, não sendo historiadora, reconheceu as dificuldades em fazer trabalho de investigação.
"É impossível fazer-se esse trabalho [de investigação em Portugal] se não há apoio nem estruturas", disse.
O festival IndieLisboa começou na quinta-feira e termina a 03 de maio.

NO PROPRIO DIA 25 ABRIL OS QUE HOJE OS NEO-LIBERAIS HOMENAGEIAM E TENTAM BRANQUEAR (PIDE/DGS) ASSASSINARAM GENTE DO POVO - 25 de Abril A história dos que morreram na revolução sem sangue

25 de Abril 


A história dos que morreram na revolução sem sangue

Fernando dos Reis, Fernando Gesteiro, João Arruda e José Barnetto morreram no dia mais feliz das suas vidas: 25 de Abril de 1974.
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A história dos que morreram na revolução sem sangue
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A revolução “com cravos em vez de balas, com tanques onde soldados partilharam uma ideia de futuro com a população, em vez de confrontos” é conhecida como a 'Revolução Sem Sangue'. Mas isso não é verdade, como lembra o jornal i. Morreram quatro pessoas. Fernando dos Reis, Fernando Gesteiro, João Arruda e José Barnetto são os heróis involuntários e esquecidos daquele que foi o dia mais feliz das suas vidas.
Ao que se sabe, como apurou o i, saíram do lugar onde dormiam com o entusiasmo próprio dos que sentem viver um momento histórico. Dirigiram-se para o Chiado, Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE. Dezenas, talvez centenas, de pessoas tiveram a mesma ideia. Já depois de ter sido conhecida a rendição de Marcello Caetano, os agentes da PIDE/DGS, sentindo-se cercados pelo povo, abriram fogo.
“Quem lá esteve fala de gritos, pânico, confusão”. Muita gente ficou no chão, ferida. Entre esses, as quatro vítimas mortais da revolução, que viram a liberdade morrer no dia em que nasceu. O mais novo tinha 18 anos e o mais velho 37.
Apesar de não se saber muito sobre estes jovens, o i conta que, João Arruda (20 anos) era um jovem açoriano a estudar em Lisboa e era admirador de Martin Luther King.
O mais novo, Fernando Gesteiro, era transmontano e trabalhava como empregado de escritório. Gozava ainda da proteção do núcleo de Montalegre, “terra de gente que se jura íntegra e corajosa”.
Fernando Reis, soldado da primeira companhia de Penamacor. O mais velho, José Barnetto, natural de Vendas Novas. Entre os esquecidos, a quem o tempo fez ocultar, ficam também os muitos feridos.