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quinta-feira, 5 de março de 2015

Memorial das Crianças Vítimas da Guerra em Lídice - Em 27 de maio de 1942, após passara alguns dias em sua casa de campo, o terrível oficial nazista alemão de alta patente e do protetorado nazista da Boêmia e Moravia, Reinhard Heydrich, estava sendo conduzido para o seu escritório em Praga, quando foi emboscado por soldados tchecos e britânico treinados. Um ataque com granadas fatal que deixou Reinhard gravemente ferido, resultando em sua morte oito dias depois.



Em 27 de maio de 1942, após passara alguns dias em sua casa de campo, o terrível oficial nazista alemão de alta patente e do protetorado nazista da Boêmia e Moravia, Reinhard Heydrich, estava sendo conduzido para o seu escritório em Praga, quando foi emboscado por soldados tchecos e britânico treinados. Um ataque com granadas fatal que deixou Reinhard gravemente ferido, resultando em sua morte oito dias depois.

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Memorial das Crianças Vítimas de Guerra em Lidice 01
Reinhard Heydrich foi um dos principais arquitetos do Holocausto e uma das figuras mais obscuras dentro da elite nazista. O próprio Adolf Hitler descreveu-o como "homem de coração de ferro". Livrar-se de Heydrich era uma conspiração premeditada há longa data.

Para vingar a morte de Heydrich, os alemães fizeram uma retaliação aterrorizante. Ao longo dos próximos dias, mais de 36.000 casas em 5.000 cidades e aldeias foram vistoriadas, detendo cerca de 3.000 pessoas. Dentro de uma semana, 157 pessoas foram executadas, mas as mais trágicas vítimas da represália alemã foram os moradores de uma aldeia agrícola comum chamada Lídice, localizada a cerca de 20 quilômetros a oeste de Praga, na República Tcheca.

Inicialmente, Hitler ordenou a prisão e execução de 10.000 tchecos selecionados aleatoriamente, mas a idéia foi descartada porque o território tcheco era uma zona industrial importante para a matança indiscriminada, o que poderia reduzir a produtividade da região. A Gestapo, mediante pressão para prender os assassinos de Reinhard, precisava desesperadamente de um bode expiatório e a aldeia de Lídice foi escolhida. Como um relatório falso a Gestapo afirmou que Lídice era suspeita de dar guarida e esconder os assaltantes.

Em 9 de junho de 1942, no dia do funeral de Heydrich, as forças alemãs cercaram a aldeia de Lídice, bloqueando todas as saídas. Todos os homens da aldeia foram caçados e mortos a tiros, enquanto as mulheres e crianças foram levadas para campos de extermínio para serem gaseadas. As poucas crianças consideradas racialmente adequado para "germanização" foram entregues às famílias da SS.

vila de Lídice foi incendiada e os restos das casas e pequenas instalações foram destruídas com explosivos. Mesmo aqueles enterrados no cemitério da cidade não foram poupados. Seus restos mortais foram exumados e foram parar na fogueira. E não acabou: todos os animais na aldeia foram abatidos também. No final 340 pessoas de Lídice morreram por causa da represália alemã: 192 homens, 60 mulheres e 88 crianças.

Hoje, Lídice é uma cidadezinha tranquila, com algumas ruínas de pedra de uma casa de fazenda e da igreja, e uma escultura de bronze impressionante de crianças. A escultura, intitulada "Memorial às Crianças Vítimas da Guerra" compreende 82 estátuas de bronze de crianças. A obra foi feita pela artista Marie Uchytilová  na década de 1990. O memorial foi erguido com vista para o local da antiga aldeia de Lídice.
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Pagar a lesados faz apagar crime - O Ministério Público, que produziu 500 páginas para acusar o antigo ministro da Saúde Arlindo de Carvalho no âmbito de um processo extraído do caso BPN, aceitou deixar cair o crime de abuso de confiança logo na primeira sessão de julgamento


Pagar a lesados faz apagar crime

OMinistério Público, que produziu 500 páginas para acusar o antigo ministro da Saúde Arlindo de Carvalho no âmbito de um processo extraído do caso BPN, aceitou deixar cair o crime de abuso de confiança logo na primeira sessão de julgamento. 

Arlindo de Carvalho e o ex-presidente do BPN Oliveira e Costa estão a ser julgados por burla qualificada, abuso de confiança e fraude fiscal agravada. 
 .

O procurador João Pedro Rodrigues propôs ontem a extinção do referido crime, se houver o pagamento voluntário dos arguidos às empresas lesadas pelos alegados ilícitos praticados. João Nabais, advogado de Arlindo de Carvalho e de José Neto, empresário também arguido no processo, mostrou-se satisfeito e defendeu que o crime de fraude fiscal já prescreveu. 

"Só foram confrontados em julho de 2008, cinco anos depois da realização dos factos mencionados pelo Ministério Público", referiu. Em relação ao crime de burla qualificada, Nabais alegou que com os factos descritos na acusação "não há nenhum prejuízo" causado pelos arguidos ao BPN. 

Na primeira sessão de julgamento, no Campus de Justiça, em Lisboa, Arlindo de Carvalho manifestou ao coletivo de juízes, presidido por Maria Joana Grácio, a intenção de, para já, não prestar declarações. A mesma posição foi tomada pelos restantes arguidos, à exceção de José Neto. Ricardo Oliveira, José Monteverde e os ex-administradores do BPN Luís Caprichoso, Coelho Marinho e Francisco Sanches são os outros arguidos. 

Em causa está a compra de terrenos com crédito do BPN (50 milhões de euros) que foram revendidos ao banco. O Ministério Público pede uma indemnização cível de 15 milhões de euros. 

* A justiça lenta vai libertar um "ALTO VIGÁRIO" que tranquilamente irá continuar a trabalha naquilo em que é competente, a vigarice. Arlindo de Carvalho é um homem de confiança do sr. Presidente Silva. O advogado João Nabais é um desapontamento.



apeidaumregalodonarizagentetrata.blogspot.pt

A Vida de Leonardo da Vinci - Parte 1/2 - Filme Completo -( VÍDEO)



A VIDA DE LEONARDO da VINCI

VÍDEO


COISAS VERDADEIRAMENTE SINISTRAS, OS GLADIADORES DO ALTAR - Uma coisa é certa, todo o ritual é sinistro e tresanda a intolerância e fascismo religioso.

COISAS VERDADEIRAMENTE SINISTRAS

Podia ser uma brincadeira ou apenas mais uma forma de levar o crente a aumentar o dízimo pago a troco da salvação.
Podia ser só mais uma bizarria das igrejas que proliferam e lucram no meio da miséria e do sofrimento alheio.
Mas este exército, designado de «Gladiadores do Altar», criado pela Universal em toda a América Latina onde está presente, tem na sua forma e conteúdo traços preocupantes que não poderão deixar ninguém indiferente.
Para que é que a Universal necessita de um braço armado, porque razão uma igreja cria uma organização com disciplina militar, porque precisam de uma mílicia de fundamentalistas, quais os objectivos e quais os meios?
Com um poder crescente em todos os domínios de algumas sociedades, o que querem agora os lideres destes movimentos religiosos?
Uma coisa é certa, todo o ritual é sinistro e tresanda a intolerância e fascismo religioso.

pracadobocage.wordpress.com

"O CONTINENTE E A ESCRAVATURA! - Compêndio de práticas esclavagistas no séc. XXI - Na sequência de um relato revelando abusos cometidos sobre funcionários dos hipermercados Continente, algumas dezenas de trabalhadores desta empresa usaram este blog para divulgarem a avalanche de atropelos a que estão quotidianamente sujeitos.

"O CONTINENTE E A ESCRAVATURA!


Compêndio de práticas esclavagistas no séc. XXI


 .
Na sequência de um relato revelando abusos cometidos sobre funcionários dos hipermercados Continente, algumas dezenas de trabalhadores desta empresa usaram este blog para divulgarem a avalanche de atropelos a que estão quotidianamente sujeitos. No capitalismo, a gestão empresarial não vê no trabalhador senão um capital que, em nome da performance, da eficiência, da rentabilidade e da competição, urge tornar produtivo, um custo que deve por todos os meios ser reduzido. A prática de formas modernas de escravatura é seguida pelas grandes empresas como método para garantir a obtenção de um volume sempre maior de capital, acumulável em paraísos fiscais. Por sua vez, quem está na base da hierarquia laboral sabe que, se não se dispuser a todo o género de atropelos e abusos, poderá a cada instante ser reciclado. A miséria degradante de quem trabalha por tostões tornou-se essencial para o sucesso da grande empresa capitalista, convertida num sistema gestionário sádico, cruel e, o que é deveras inquietante, cada vez mais perfeito. No seio deste, o corpo do trabalhador é alvo de uma gestão minuciosa, que garante ao patrão que com um máximo de controlo e um mínimo de investimento se retira daquele um máximo de rendimento. É assim que se fazem todas as grandes fortunas da Forbes.
grd-af95
Qualquer empresa capitalista é criada e mantida para dar lucro aos accionistas, jamais para redistribuir riqueza pelos trabalhadores – qualquer gestor o sabe. Os hipermercados Continente são por isso apenas um caso de estudo, entre tantos e tantos outros; mas um caso de estudo especial: enquanto maior empregador privado português, têm um peso diferente no contexto actual. Neste sentido, devemos denunciá-lo com todas as nossas energias, como fizeram os trabalhadores do grupo Sonae (Continente, Worten) que aqui deixaram o seu depoimento, em forma de desabafo, e do qual adiante apresentamos uma síntese, autêntico compêndio de práticas esclavagistas que nos ajuda a perceber porque é que a frustração, o stress, o sofrimento, a depressão e o suicídio se instalaram na medula desta sociedade. Transformar a relação de forças dentro do Continente ajudará a transformar todas as relações de forças no universo laboral português. Esperamos muito dos leitores, porque alguém tem que estar deste lado. Somos mais!

1 – precariedade
  • “o ordenado é a mesma miséria, 3€ à hora e é se quero, senão põem outra pessoa no meu lugar, de momento não tenho outra hipótese senão continuar” Anónimo
  • “Trabalho há varios anos na Worten, sou permanência de loja, sou responsável de uma secção, trabalho a tempo inteiro e recebo 3€/hora” Anónimo
  • “Isto acontece em todos as insignias da sonae. Estou há 10anos na worten, atualmente sou responsável e estou a ganhar 3euros hora.” Anónimo
  • “Fiz 1 ano de contrato e meteram-me a andar… disseram-me que não poderia fazer um terceiro contrato, uma vez que passava logo a efectiva e não havia lugares disponíveis neste local – tretas!!! Fiquei um tanto desapontada uma vez que fui a operadora mais produtiva de todas (média de 14,50 a 15,50).” Cláudia
  • “Posso dizer que também fui mandada embora no final dos 3 contratos de trabalho”. 
  • “quanto aos contratos é verdade 3 e rua…uma vergonha” Anónimo
2 – disponibilidade ilimitada
  • “sair a horas é impossível” Anónimo
  • “tal como o que referem aqui saio SEMPRE depois da hora eu e os meus colegas e nunca são só cinco minutos varia sempre de 15 a 30. Quando pedimos para ir a uma pausa nunca me disseram que sim à primeira e muitas vezes esquecem-se que pedi.” Tutty
  • “Horas extras metade pagas outras no dito banco de horas que nem vê-los…” Anónimo
  • “horas extra até mais não, inventários até às tantas e no dia a seguir lá estamos outra vez”Anónimo
  • “Trabalhei a full time à 3 anos e meio atrás na Worten Mobile. Inventários. Era a quem calhava. Uma vez cada um e tinhamos de estar disponivel. Não havia bónus, se bem me lembro.” A. S. 
  • “Trabalhei em lojas da sonae em que chegava a trabalhar 10 dias seguidos, com uma folga por semana ou então umas cinco horas sem ir comer ou à casa de banho por me encontrar sozinha em loja.” Anónimo
  • Isto porque quem não entrou para a empresa com cunha tem a vida dificultada ou seja não há hora de sair” Dinossauro do grupo
  • “Também nu
  • “obrigarem-nos a trabalhar mais e mais acontecia todos os dias” Ruben Repas
  • nca havia hora para sair e se reclamássemos ainda nos falavam como se estivéssemos a agir contra a empresa. O trabalho ao domingo foi-nos imposto e não dada a opção. Os horàrios eram uma anedota, não havia dia (fàcil de comprovar pela lista de chamadas da loja) que o horário da maioria das pessoas não fosse alterado para o dia seguinte. Ficava a pergunta: “a chefe só tem de fazer o nosso horário, que cara*** é que ela faz o dia todo se tem sempre de os ajustar?” Ou seja pelos miseros 300€ as pessoas tinham de ter disponibilidade de 24/24h de 7/7 dias.” Aerdna
  • “O meu horário no contrato de trabalho era das 9:00h às 18:00h com pausa das 13h às 14h para almoçar (cumpri este horário apenas no primeiro dia de trabalho) após esse dia nunca mais houve um dia em que saísse das instalações da empresa antes das 20h, sendo que o normal era sair sempre depois das 20:30h, sempre com a justificação de que o meu esforço seria recompensado.” Tiago Lopes
  • “Trabalho num continente-modelo e subscrevo tudo que foi dito anteriormente, despediram metade dos meus colegas e faço o turno da noite sozinha, querem que faça sozinha o trabalho que faziam 3 pessoas. Devia sair às 22h mas nunca saía a horas, saía quase sempre às 23h. Relativamente às horas a mais nunca me foram pagas nem nunca foram gozadas” Anónimo
  • “Nunca saía portanto a horas. No início então quando nem tinha cartão para picar fiz imensas horas extra. De resto, o meu horário terminava supostamente às 22h, mas se já há muito que fazer quando abandonamos a nossa caixa (limpeza, arrumação de artigos e cestos, etc), fazer fecho ainda é pior porque tem que ficar tudo impecável para o dia seguinte. 22h20 era a hora mínima de saída, tirando algumas excepções. Também fiz vários inventários em dias de folga e cheguei a ser avisada de alguns no próprio dia.” Cláudia
  • “Trabalhei como operadora de caixa e repositora nos supermercados Continente Bom Dia da Avenida Almirante Barroso e no da Defensores de Chaves (Lisboa), entre Nov 2012 e Fev 2013. O trabalho não remunerado fora de horas é normal. Não nos é permitido fechar a caixa sem autorização dos supervisores e era habitual ficar entre 15 a 30 minutos depois da minha hora de saída. Se um colega faltasse ou estivesse atrasado, era “informada” que ficaria até mais tarde. Nos horários de ponta eram necessários mais funcionários e, como não contratavam pessoas novas, obrigavam os trabalhadores cujo turno já tinha terminado a ficarem até mais tarde. Estes minutos, que se tornavam dias de trabalho ao final do mês, não eram considerados horas extraordinárias. Foi-me dito que as horas extraordinárias seriam acumuladas em dias em que não teríamos de trabalhar, algo que sempre disse não querer – não tenho qualquer interesse em ser forçada a trabalhar mais para depois ser “compensada” com “dias extra” em que não recebo! De qualquer das formas, esses períodos nunca me foram pagos e nunca me foram dados dias de descanso. Também eu trabalhei em dias de folga e passei noites dentro da loja a remodelá-la. Numa ocasião, fiz o meu horário normal e foi-me pedido que ficasse mais umas horas após o encerramento da loja, de forma a ajudar um pouco na mudança da localização dos produtos (tinha terminado a época de Natal e iriam fazer novas promoções e trazer novos produtos). Aceitei que me chantageassem com a possibilidade de ter um novo contrato (de seis meses a tempo inteiro, “um contrato a sério”) e aceitei ficar um pouco mais. Acabei por trabalhar duas horas no armazém e, após o fecho da loja, das 22h00 às 06h30 dentro do supermercado, mudando a localização de milhares de produtos várias vezes e de acordo a opinião do responsável de loja. Sempre com uma atitude paternalista, de ameaça velada mas nunca de explícita, não me foi permitido sair (era necessário que o responsável me acompanhasse e abrisse o portão) e fui constantemente acusada de não querer trabalhar. Foi-me permitido jantar um bolo das máquinas que existem na sala de refeições, com o meu próprio dinheiro. Insinuaram ao longo de toda a noite que aquelas horas seriam pagas, dois dias depois informaram-me que tinha ouvido mal – nunca recebi o dinheiro pelas horas de trabalho. Com a entrada de alguns colegas às 06h30, abandonei as instalações e pude ir para casa descansar e gozar a folga que tinha nesse dia. Aos colegas que tinham turno nessa manhã não foi dada qualquer possibilidade de irem dormir ou tomar banho e tiveram de permanecer no supermercado, trabalhando de directa.” Érica Almeida Postiço
3 – fazer xixi nas calças é normal
  • “tenho que pedir para ir ao w.c. e ainda me dizem ‘se podes aguentar um pouco’ eu digo ‘sim claro’, passado 10 min ligo ‘posso ir ao w.c.’ ‘sim podes’ com aquele tom ‘despacha-te, volta rápido’, já não digo para comer pois não tenho pausa e direito para comer”. Anónimo
  • “pelos mesmos abusos passei, ao ponto de passar 6 horas numa caixa e dizerem-me que não posso ir à casa de banho porque não há ninguém para me substituir” 2yougo
  • “quando pedia para ir à casa de banho nunca podia por isto ou aquilo” Anónimo
  • “Vendo o meu trabalho há 23 anos como Operadora de Caixa num Hipermecado do Grupo Sonae . Sim, sempre pedi para ir ao WC e muitas das vezes ignorada indo á rebelia das chefias” Rosa Monteiro
4 – passar fome é normal
  • “Tenho uma anemia crónica e ainda assim insistiam em meter-me 2 dias a trabalhar 5h e sem comer…” Cláudia
  • “quanto à hora de almoço tínhamos isso marcado no horário e, tipo, estava marcada para a 1h e nunca mais nos mandavam almoçar até que lhe liguei e disseram que só ia qd eles vissem que dava … houve um dia que trabalhava das 10h às 17h. a minha hora de almoço era às 13h… deu 14h. deu 14h30 e nada … já lhes tinha avisado e nada… chegou as 15h30 e eu voltei a ligar e disse que ainda não tinha almoçado (5h30 de trabalho seguido sem pausa alguma) e disseram que se tinham esquecido…” Anónimo
  • nunca sabia a minha hora de almoço pois não correspondia ao horário” Anónimo
  • “fui ensinada se possível a comer de 5 em 5 horas ou mais” Rosa Monteiro
  • “Comer? mesmo que tenhas problemas de saúde (estômago) que impliquem comer vezes amiude não podes!!! tens que aguardar as tuas ditas 4h que é para estragar mais ainda o estômago…” Dinossauro do grupo
  • “Cheguei a fazer horários de 8 horas na caixa e só ao fim de 6 horas de trabalho ia jantar ou almoçar. EX: 12h00 às 21h00, só comia das 18h00 às 19h00 e no meu horário estava das 14h00 às 15h00; falei à minha chefe e a resposta delas era ‘não tenho operadoras suficientes, aguenta’… depois há erros de que os clientes não têm culpa…” Anónimo
5 – desidratar é normal
  • “Ao menos no seu continente ainda a deixam beber água… naquele em que trabalho não temos sequer garrafinha de água porque fica ‘mal’.”Anónimo
  • “já trabalhei no continente e olhe que nem a garrafa de água me deixavam levar … dias de muito calor, temos de estar sempre a falar com os clientes e nada de água…” Anónimo
  • “nunca tive uma garrafa de água à minha beira ‘porque não fica bem’” Rosa Monteiro
  • “Aqui por exemplo nem uma garrafa de água podíamos ter ao pé de nós.” Cláudia
  • “e não podes beber água porque faz fazer chichi e implica sair da cx para ir ao WC” –Dinossauro do grupo
  • “Peço para beber água, para ir ao wc e só me deixam quando querem!” FD
  • “trabalhei no continente há 7 anos atrás, não podíamos ter nem água” Anónima
  • “na loja onde trabalhei, o director proibiu a àgua. Qual o motivo? Não foi explicado, mas era fàcil perceber que a ideia era limitar as idas à casa de banho o mais possìvel.” Aerdna
6 – desmaiar e vomitar é normal
  • “Também trabalho no continente e concordo com tudo o que foi dito. Já tive de trabalhar quase a desmaiar por estar doente” – Anónimo
  • “uma vez estava com febre e nem o medicamente me deixaram tomar” Anónima
  • “Uma colega gravida (gravidissima) com diabetes gestacionais estava a sentir-se mal porque não a deixavam fazer uma pausa para ir sequer comer, beber ou à casa de banho.”Anónima
  • “Tive um familiar que trabalhou lá e assisti à degradação humana e falta de respeito que ali se passa. Desde ter que ficar na caixa a vomitar-se porque não podia abandonar o posto de trabalho…” Joana Cruz
7 – degradar-se é normal 

  • “isto para já não falar das colegas mulheres que estão com o período e chegam a ficar todas sujas porque não lhes permitem ir ‘mudar o penso’” – Dinossauro do grupo
  • “Uma das vezes estava com dores de barriga, pedi 3 vezes se podia ir ao wc, passado 60m da 3ª vez que pedi lá me deixaram ir, quando cheguei estava toda suja ! Somos humanos e como tal temos necessidades fisiologicas” FD
8 – ser explorado/humilhado é normal

  • “Estive 9 meses a fazer horário de fecho sem nunca rodar.” Cláudia
  • “Depois de o grupo Sonae comprar o Continente aguentei uns meses e pedi demissão. Prefiro viver pior a ser humilhada e mal tratada no meu local de trabalho. É preciso coragem para dizer BASTA.” Anónimo
  • “as chefias, diretores e administradores, andam de nariz levantado para os funcionários. Que nojo, acham que os seus colegas de posto mais baixo são escravos a quem podem tratar abaixo de cão” Dinossauro do grupo
  • “não posso ter a minha liberdade de expressão no meu local de trabalho, sou logo calada… O Diretor de minha Loja como ser humano vale zero… Agora encontro-me em casa de baixa com uma doença profissional sem cura por fazer trabalhos continuados com o mesmo braço há vinte e três anos, porra lá que sorte a minha por ser Operadora de Caixa…” Rosa Monteiro
  • “Eu trabalho num bom dia e nem todas trabalham sentadas!!! No meu bom dia nao nos podemos sentar seja qual for as horas de trabalho.” Oliveira
  • “Sem falar do constante bulling ou moobing como è caracterizado os abusos fisicos/psicologicos no local de trabalho.Tinhamos cadeiras mas eramos proibidas de estar sentadas, Nao podiamos falar nem sequer sorrir…eramos autenticas robos. Cheguei a um ponto que todos os dias as lagrimas caiam enquanto ia no carro a caminho do trabalho. Assinei por 6 meses, estive la 3. Jurei que nunca mais iria trabalhar num hipermercado. Se hoje precisasse preferia ir limpar sanitas (que è trabalho serio também mas muita gente nao gosta) do que voltar a ser empregada/escrava do grupo sonae.” Anónima
  • “Nunca trabalhei como caixa no continente, mas trabalhei nos escritórios. Fui designer gráfico na Sonae MC em Matosinhos e tive como minha chefe a Dr.ª Liliane Coutinho, no tempo em que lá estive desenhei toda a campanha de Natal, assim como a continente magazine e centenas de cartazes para colocar em loja. Caricato que passados 15 dias de lá estar pediram-me desculpa mas que o meu contrato teria que ser anulado, pois teria havido um erro com uns documentos e que em altura oportuna assinariamos novamente, qual não é o meu espanto, quando no final do mês para além das 40 horas semanais do meu contrato mais 43 horas extras que tinham sido dadas nesse mês eu recebi 533€, já com subsídio de alimentação, quando o contrato que assinei estava previsto ser 835€ mais subsídio. Reclamei de tudo isto, a minha superior com o ar mais amável de sempre disse, claro que sim vamos fazer chegar este caso por escrito ao nosso sector de recursos humanos. A resposta que tive internamente foi de que tinham analisado o meu processo que de facto eu tinha razão e que dentro de 5 dias me dariam uma resposta final face à resolução do mesmo. Conclusão, passados 5 dias chegam 3 pessoas à minha secretária, o responsável de marketing, a minha chefe e um representante dos recursos humanos, pediram-me o cartão que me dava acesso a entrar na empresa e disseram que podia ir embora, pois não ia receber nem mais um cêntimo. Neste momento ainda aguardo resolução do tribunal do trabalho face à minha queixa. Foram dois meses a trabalhar 152 horas por 533€.” Tiago Lopes
  • “sou colaboradora continente e sou operadora de caixa…. tudo o que foi escrito em cima é a pura verdade… falam-nos de um jeito em que nós não podemos dizer que não com medo de perdermos o único trabalho que temos.” Cherriesdiary
  • “Reconheço todas as queixas e ainda acrescento algumas: na loja onde trabalhei, o aquecimento era desligado e sò era ligado nos dias em que vinham auditorias à loja.”Aerdna
  • “Falta um ponto, o grupo sonae obriga a assinar formações que nem as tivemos.” Vitor

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DOUTRO SÉCULO "ONDA HIPPIE" - O movimento hippie foi um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960. Embora tendo uma relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos Estados Unidos, o movimento apenas ganhou mais força noutros países somente a partir dessa década.

DOUTRO SÉCULO
 
"ONDA HIPPIE"


O movimento hippie foi um comportamento coletivo de contracultura 
dos anos 1960. Embora tendo uma relativa queda de popularidade 
nos anos 1970 nos Estados Unidos, o movimento apenas ganhou 
mais força  noutros países  somente a partir dessa década.


Uma das frases associadas a este movimento foi a célebre máxima
 "paz e amor" (em inglês, "peace and love"), que precedeu a 
expressão "ban the bomb" ("proíbam a bomba"), a qual criticava o 
uso de armas nucleares.


As questões ambientais, a prática de nudismo e a emancipação sexual eram ideias respeitadas recorrentemente por estas comunidades.


Adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie 
de socialismo libertário, a um estilo de vida nómada e à vida 
em comunhão com a natureza.


Negavam o nacionalismo e  todas as guerras . Abraçavam aspectos
 de religiões orientais como o budismo e o hinduísmo e das religiões
 das culturas nativas norte-americanas.


Estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana e das economias capitalistas.


Opinavam sobre o patriarcalismo, o militarismo, o poder 
governamental, as corporações industriais, a massificação, 
o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais 
como parte de uma instituição única sem legitimidade.


O lema "Paz e Amor" sintetiza bem a postura política dos hippies
que constituíram um movimento por direitos civis, igualdade e antimilitarismo nos moldes da luta de Gandhi e Martin Luther King, 
embora não tão organizadamente, mantendo uma postura mais
 anárquica do que anarquista propriamente, neste sentido.


Usavam cabelos e barbas mais compridos do que era considerado "elegante" na época do seu surgimento, como real provocação 
aos comportamentos conservadores vigentes


Quanto à participação política, mostravam algum interesse, mas 
nunca de maneira tradicional. Eram adeptos do pacifismo e, 
contrários à guerra do Vietname, participaram de algumas 
manifestações antiguerra dos anos 1960. Nos Estados Unidos,
 pregaram o "poder para o povo".


Raramente eram adeptos de muitas inovações tecnológicas, 
preferindo uma vida distante de prazeres materiais.

TEXTO: WIKIPEDIA

apeidaumregalodonarizagentetrata.blogspot.pt
  

CASTELOS MEDIEVAIS (2) -Castelo de Trujillo: magnífico símbolo de heroísmo - Este é o castelo de Trujillo, localizado na província espanhola de Cáceres. É digna de nota a tática empregada na sua construção: muralhas extensas e torres enormes.

Castelo de Trujillo:
magnífico símbolo de heroísmo


Luis Dufaur


Este é o castelo de Trujillo, localizado na província espanhola de Cáceres. É digna de nota a tática empregada na sua construção: muralhas extensas e torres enormes.

Se construíram muralhas tão grandes, por que edificar torres tão salientes? Não seria melhor concentrar tudo na muralha? Qual é o papel militar da torre?

A finalidade da torre era a seguinte: os inimigos quando atacavam eram enfrentados dos dois lados. Tática que oferecia aos defensores um embasamento melhor.

Os atacantes levavam altas escadas e catapultas — aparelhos que lançavam pedras pesadíssimas sobre os que guarneciam a muralha —, também dardos incendiários e barricas com material incendiário projetados para dentro do castelo.


Assim, as torres e muralhas constituíam o sistema de defesa, mas não eram inexpugnáveis. Era árduo tomar um castelo, mas uma glória tê-lo conquistado.

Entretanto, nos séculos em que as armas de fogo começaram a serem utilizadas, esses castelos perderam o significado militar para as grandes guerras, nas quais se passou a utilizar canhões e o castelo não mais conseguia resistir.

Desse modo, muitas fortificações foram arruinadas. Símbolos magníficos de heroísmo que foram assim arrasados.

Para se evitar essas ruínas, a solução teria sido haver nobres que habitassem os castelos, mas isentos de espírito de revolta contra os reis; e reis que não desejassem liquidar os nobres, nem as autonomias regionais.

A raiz do mal: os soberanos, os senhores e os povos estavam decaindo religiosamente. Era a decadência produzida pelas três Revoluções — a protestante, a francesa e a comunista, como explanadas em minha obra Revolução e Contra-Revolução.

Como consequência, nada mais funcionava bem. E, assim, chegou-se ao caos da época atual.

Afastando-se Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora e a Santa Igreja do centro dos acontecimentos, envereda-se para a via do caos.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, Excertos da conferência proferida em 5 de maio de 1984. Sem revisão do autor, apud CATOLICISMO, outubro 2014)

O castelo de Trujillo, na região de Extremadura, na Espanha, foi construído entre os séculos IX e XII sobre o morro conhecido como Cabeza del Zorro (Cabeça da Raposa).

Os fundamentos mais antigos que ficaram em pé são duas cisternas árabes. Muros e torres foram feitas com blocos de granito.

A porta de entrada com seu arco em forma de fechadura evoca reminiscências árabes.

Mas é presidida por uma imagem de Nossa Senhora da Vitória, padroeira de Trujillo, que fala de lances épicos e proteções sobrenaturais.

Originariamente possuía 7 portas, mas atualmente só ficam quatro: as de Santo André, Santiago, de Coria e do Triunfo, reformadas nos séculos XV e XVI.

As torres em pé são 17, todas de forma retangular.

A área protegida pelo recinto amuralhado é conhecida como o Bairro Velho da cidade.
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VEJA VÍDEO


ESPECIAL DESENVOLTURAS & DESACATOS - CIVILIZAÇÕES AFRICANAS (XII) A EXPANSÃO ÁRABE EM ÁFRICA

A expansão árabe na África


Existem muitos fatores que contribuíram para a incrível expansão árabe do século VII que partiu da Península Arábica em direção ao Magreb. A baixa produtividade do solo da Península e o desejo de ter uma terra cultivável, somado a uma população em crescimento; o enfraquecimentos dos reinos de Bizâncio e da Pérsia, que se encontravam devastados pelas guerras e tinham suas províncias em franco processo de declínio (o imperador bizantino Heráclio [610-641] assistiu impotente à perda das províncias que havia recentemente conquistado) (ANGOLD, 2002: 50); possíveis afinidades inter-étnicas (a Síria e a Mesopotâmia tinham tribos árabes), e até o uso de camelos nas batalhas em campo aberto por parte dos exércitos muçulmanos. (HOURANI, 1994: 40)

A expansão militar

Tudo isso pode ter contribuído para as sucessivas, rápidas e espantosas vitórias da espada do Islã, mas definitivamente o motivo maior e mais poderoso nas mentes de então foi a unidade política e principalmente espiritual promovida e realizada por Maomé (570-632).

Logo após a morte do Profeta, em 634 a Península arábica foi definitivamente unificada e os primeiros exércitos islâmicos foram enviados para o exterior. Seus sucessores, os primeiros califas rashidun (os “califas corretamente orientados”) (HOURANI, 1994: 459) – a palavra califa significa “representante” – foram os líderes militares que organizaram as bases pelas quais o império pôde crescer.


A Expansão do Islão; Atlas Histórico. Barcelona: Editorial Marin, 1992, p. 44.

As tropas árabes que realizaram essa expansão tanto para o leste quanto para o oeste eram disciplinadas e coesas. Definitivamente não eram bárbaras. Conta a tradição que Abu Bakr (623-624), o primeiro califa, sogro de Maomé, teria dito às suas tropas:

Sede justos, sede valentes; morrei antes de render-vos; sede piedosos; não mateis nem velhos, nem mulheres, nem crianças; não destruais árvores frutíferas, cereais ou gado. Mantende vossa palavra, mesmo aos vossos inimigos; não molesteis as pessoas religiosas que vivem retiradas do mundo, mas compeli o resto do mundo a se tornar muçulmano ou nos pagar tributo. Se eles recusarem estes termos, matai-os. (citado em DURANT, s/d: 171).

Assim, enquanto Khalid ibn al-Walid, general supremo de Abu Bakr, conquistava o Iraque e Damasco ao norte, o comandante Amr ibn al-As, outro recém-convertido e veterano das guerras sírias, partiu de Gaza, tomou Pelúsio, Mênfis e, finalmente, Alexandria, após um sítio de vinte e três meses, em 641. O trigo do Egito era muito necessário para Medina, e o porto de Alexandria oferecia um ponto seguro para a expansão marítima islâmica. (PREVITÉ-ORTON, 1976: 337)
Os cristãos monofisistas do Egito (que acreditavam em uma só natureza do Cristo), cansados das perseguições religiosas de Bizâncio, receberam os muçulmanos de braços abertos – de maneira semelhante como as comunidades judaicas na Península Ibérica fariam em 711. A propósito, a história que Amr ibn al-As teria ordenado a destruição da Biblioteca de Alexandria é considerada hoje uma versão completamente destituída de fundamento. (LEWIS, 1990: 63)
Amr administrou muito bem o Egito. Apesar de ter governado com base em duros tributos cobrados da população local, ele reparou canais e, a partir de seu acampamento, construiu em 642 uma nova capital, de nome al-Fustat (que significa “a tenda”): mais tarde ela se chamaria Cairo.


Representação de Abu Bakr.
De posse desse novo potentado, e preocupados com um possível ataque bizantino vindo do ocidente, a partir de 647 os muçulmanos decidiram prosseguir em seu assalto ao norte da África. Seguindo a costa africana, partiram então para o oeste, liderados por Ibn Sad, emir do Egito. Um poderoso e organizado exército marchou através do deserto até a cidade de Barka (Barca, atualmente na Líbia), tomando-a de assalto em 643-644. Dali avançou praticamente sem nenhuma resistência até as proximidades de Cartago, já na Tripolitânia.

Ao sul da Túnis moderna (na Tunísia), o comandante Okba ibn Nafi construiu um acampamento na areia, em 670, fundando assim uma das maiores cidades do Islã bem no coração da África romana, Kairuan (Karouan ou Cairuão) – o “lugar do descanso”, para sustar as contra-ofensivas dos bizantinos (observe a característica do surgimento da cidade islâmica nessa expansão militar: ela, via de regra, teve origem em um acampamento militar). Esse avanço até a Tripolitânia e a fundação de Kairuan foram muito importantes para a expansão do Islã. Dali, Okba fez incursões e massacres contra as tribos berberes, que se refugiaram nas montanhas do Atlas.

Os berberes eram tribos nativas que viviam espalhadas por toda a África do Norte. Segundo o cronista muçulmano Ibn Khaldun (c. 1332-1395), os berberes eram quase totalmente nômades:

...gentes que vivem em tendas e que viajam no lombo do camelo, e se instalam nas alturas das montanhas (...) No deserto, a maioria da população mantém suas genealogias, porque, de todos os laços que servem para vincular um povo, o de sangue é o mais próximo e de maior força (...)

Os povos que experimentam a influência desse sentimento preferem sempre a vida do deserto à das cidades... (IBN JALDÚN, 1997: 633).


Berberes tunisinos.
Em 681, Okba atingiu o Atlântico, mas os berberes se esqueceram de sua hostilidade secular contra aos romanos e decidiram combater esse novo invasor. Sob as ordens do príncipe Koceila (Kossaila ou Kossayla), uma parte dos berberes derrotou Okba ibn Nafi (683), saqueou Kairuan e fez o exército árabe retroceder de volta para Barka. Contudo, outra parte dos berberes abraçou o Islamismo, fato que enfraqueceu o exército de Koceila.

Este, recuando para Barka em 689, foi surpreendido e massacrado por uma força bizantina (PIRENNE, 1970: 136), e o exército árabe, por sua vez, perseguido pelas forças berberes chefiadas por uma misteriosa e lendária rainha-sacerdotisa zenata de nome Kahina (ou Kahena), foi obrigado a retornar derrotado de volta ao Egito – os zenatas ou zanagas eram uma etnia berbere originária do sul do Marrocos (KI-ZERBO, s/d: 129).

Hasan, governador do Egito, decidiu contra-atacar: retomou a ofensiva, reconstruiu Kairuan e apoderou-se definitivamente de Cartago, em 698. Os cartagineses fugiram e a cidade antiga foi substituída por uma nova, ao fundo do gloso: Túnis. Seu porto, Goulette, tornou-se a partir de então uma das grandes bases navais islâmicas do Mediterrâneo.

Sim, a expansão islâmica também abrangia os mares: desde o califa Moawiah (660) os muçulmanos dispunham de uma frota, e com ela também alargaram seu poder e invadiram as ilhas de Chipre, Rodes, Creta e Sicília, além de transformarem o porto de Cizico (Cyzicus), na Ásia Menor, em uma importante base naval islâmica de onde passaram a assediar Constantinopla (PIRENNE, 1970: 134-135).


A expansão islâmica por águas bizantinas.
Assim, além do avanço para o oeste pelo norte da África – e simultaneamente a ele – os muçulmanos se apoderam gradativamente de posições marítimas chaves no Mediterrâneo. A resistência berbere foi desfeita e a rainha-sacerdotisa Kahina teve a cabeça cortada e enviada como troféu ao califa no Egito.


Estátua em homenagem à Rainha Zenata Kahina.

A fragmentação do Norte da África em potentados

No final do século VII, os muçulmanos concretizaram definitivamente sua expansão no norte da África. Na região mais setentrional, outro comandante árabe, Mousa ibn Noçayr submeteu o Magreb (Marrocos) e impôs definitivamente o Islamismo às tribos berberes. Com isso, a África ficou dividida em três províncias:

1) O Egito, com sua capital em al-Fustat (próxima de Cairo);
2) Ifriqiya (Tunísia), com sua capital em Kairuan e
3) Magreb (Marrocos), com sua capital em Fez.

Durante cerca de cem anos, os emires dessas três províncias reconheceram os califas do Oriente como seus soberanos. No entanto, devido às longas distâncias e as dificuldades naturais de comunicação – que só aumentaram com a transferência da capital do Império para Bagdá, essas províncias gradativamente tornaram-se reinos independentes no século IX, cada um com uma dinastia. Foram elas:

1) Dinastia tulunida (868-905), no Egito e na Síria;
2) Dinastia aglábida (800-909), em Kairuan (dominando a Tunísia, a região oriental da Argélia e a Sicília) e
3) Dinastia idrísida (789-926) no Magreb.

No Egito, a dinastia tulunida durou apenas duas gerações de monarcas. Fundada por Ahmad ibn-Tulun (868-884), filho de um escravo turco, com ela, o Egito passou por um rápido renascimento cultural, tanto nas artes quanto no saber. Ibn Tulun construiu uma nova capital (Qatai, subúrbio de al-Fustat), palácios, banhos públicos, um hospital, um aqueduto ainda de pé e a grande mesquita Ibn Tulun, hoje uma homenagem do tempo a seu governo.


Mesquita Ibn Tulun, no Egito.
No entanto, seu filho Khumarawayh (ou Khumavaraih, 884-895) transferiu a energia que herdou do pai totalmente para a luxúria: tributou pesadamente seu povo para revestir seu palácio de ouro e construir uma piscina de mercúrio, onde sua cama com almofadas (também de ouro) e sempre cheia com seu harém pudesse flutuar... Apesar disso, Khumarawayh foi reconhecido como governador do Egito, da Síria e da Mesopotâmia do Norte, casando sua filha com o califa al-Mutadid-Mutadid. O poder dos tulunidas cai com seu filho Harun (896-904); outra dinastia turca, os ikshididas (935-969) tomou-lhes o poder. (Islamic Architecture – Tulunids)

Na Ifriqiya (Tunísia), em 800, Ibrahim ibn al-Aghlab fundou a dinastia aglábida, que governou a região até 909. Embora fossem tecnicamente submissos aos califas abássidas, os aglábidas eram independentes. Eles foram responsáveis pela construção da grande mesquita e suas muralhas, e transformaram sua capital em um importante centro cultural, onde as ciências religiosas e a poesia puderam florescer.

Os aglábidas criaram também uma marinha e desenvolveram técnicas agrícolas, de irrigação e de arquitetura, além das artes. Grande foi o florescimento das atividades intelectuais. Nesse período, destacam-se Imam Suhnun, Assad ibn al-Furat (no Direito) (SOUSA, 1986), Yahia ibn Sallam (na Exegese do Alcorão) e Ibn al-Jazzar (na Medicina). (Os Aglábidas) Os aglábidas também conquistaram e dominaram a Sicília (827-878); dali, em 846, um exército aglábida conseguiu atacar e saquear Roma. Essa ilha permaneceu sob o domínio muçulmano mais de cem anos e só foi reconquistada pelos cristãos em 1091.


Ribat de Susa, na Tunísia.
Trata-se de um clássico exemplo arquitetônico da fortaleza ribat. O núcleo dessa construção data do período 770-96 e seu último estágio dos anos 821-22. Sua construção é atribuída ao aglábida Ziyadat Allah. Consiste em um cerco fortificado com uma entrada e torres nos cantos e no meio das paredes. O pátio é cercado por dois níveis de muros. O lado do sul do segundo assoalho é ocupado por uma mesquita com um mihrab no centro (o mihrab em uma mesquita é o nicho decorado que indica a direção [qibla] de Meca. MIQUEL, 1971: 556). Para a questão do ribat, ver adiante nosso item VI.


Parte interna do Ribat de Susa, na Tunísia.
No entanto, uma força religiosa tomaria Ifriqiya de assalto: os ismaelitas. Por volta de 905, Abu Abdala surgiu naquele reino pregando uma doutrina que se propagaria por todo o mundo árabe, a Doutrina Ismaelita dos Sete Imãs. Com a adesão dos berberes, ele conseguiu depor a dinastia aglábida e saudar Obeidala ibn Muhammad como al-Mahdi (ou Madi), o “líder justo”, aquele que viria destruir a tirania e estabelecer a justiça. Contudo, assim que chegou ao poder, uma das primeiras medidas de Obeidala foi ordenar a morte de Abu Abdala.

O sucesso da tomada do poder pelos ismaelitas fez surgir uma nova e importante dinastia: os fatímidas (se diziam “fatímidas” porque se consideravam descendentes de Fátima, filha do Profeta). Lá mesmo na Tunísia, os exércitos fatímidas se prepararam para a conquista do Egito, primeiro passo para se chegar ao império do Oriente. (LEWIS, 2003: 43)

Aglábidas e fatímidas devolveram à África do Norte um pouco da prosperidade dos tempos da Roma imperial. No século IX, os muçulmanos abriram novas rotas, desenvolveram o comércio tanto com o Islã Oriental quanto com a Espanha e as regiões transaarianas (como veremos a seguir), e trouxeram novas técnicas para a arte do couro, das tinturas e dos perfumes. Ao se expandirem até o Egito, tomando-o dos turcos ikshididas, os fatímidas unificaram todo o norte da África. Transferiram-se então para a cidade de Qahira (“A vitoriosa”, isto é, Cairo) ao nordeste de Qatai, chegando posteriormente a ter o controle sobre toda a Arábia e a Síria.


Maior extensão do califado fatímida (909-1171).
Os fatímidas tornaram-se rapidamente os reis mais ricos de seu tempo. No entanto, a liberdade cultural e religiosa dos primeiros tempos deixava pouco a pouco de existir: com o califa al-Haquim (996-1021), uma série de perseguições contra judeus e muçulmanos teve início – até mesmo a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, foi destruída – fato que deu início à pregação das cruzadas. Apesar disso, a dinastia ainda floresceu culturalmente com o longo reinado de Mustansir (1036-1094), filho de uma escrava sudanesa.

Mustansir construiu um belo pavilhão e viveu uma vida de música, vinho e conforto. Ele disse: “Isto é mais agradável que contemplar a Pedra Preta, ouvir o zumbido dos muezins (o encarregado do apelo à oração) e beber água impura”. (citado por DURANT, s/d: 258) Após sua morte, o império se fragmentou em várias facções (berberes, sudanesas e turcas). Ifriqiya e Marrocos já haviam se separado, a Palestina se rebelou e a Síria foi perdida.


Moeda de ouro cunhada no reinado
de Mustansir (1048-1049)

Natureza e força da civilização islâmica no Norte da África

Todas aquelas três cortes dos reinos africanos – do Cairo, de Kairuan e de Fez – protegeram e desenvolveram as artes – a música, a filosofia, a poesia, a arquitetura, a pintura e as artes menores (azulejos, estampas em tecidos, vasos de cristal, etc.). Em Kairuan, em 670 foi erguida a maravilhosa mesquita de Sidi Oqba, restaurada sete vezes. Seus claustros ainda hoje são sustentados por colunas coríntias das ruínas de Cartago. A riqueza da arte de Sidi Oqba tornou Kairuan a quarta cidade santa do Islã – chamada de “um dos quatro portões do Paraíso”.


Mesquita de Sidi Okba, em Kairuan.
Com um púlpito entalhado, o mais antigo minarete quadrado e maciço do mundo (o minarete é a torre da mesquita), e seus interiores rodeados de pilastras coríntias iluminadas com velas, a mesquita de Sidi Okba é um marco da força da arquitetura e da fé islâmica (DURANT, s/d: 258), e artisticamente contrasta maravilhosamente com a imensidão e o silêncio do deserto – observe que um dos pilares da contemplação estética é justamente observar a inserção da obra arquitetônica no espaço natural em que ela foi construída, e essa interação deve ser levada em conta quando da fruição artística.


Mesquita de Sidi Okba, em Kairuan. Interiores.

Ainda em relação às artes desse período na África do Norte, é importante destacar que os muçulmanos desenvolveram com intensa paixão e enorme paciência as chamadas “artes menores”. Azulejos envernizados, louças de barro, vidros, vasos de cristal, caixas ricamente decoradas com incrustações de marfim, osso ou madrepérola (tanto na madeira quanto no metal), tinteiros, tudo com motivos geométricos. Enfim, todas as manifestações da criatividade artística humana brotaram esplendorosamente na África do Norte islâmica entre os séculos VII-XI.

O ensino e as letras

É sabido que o mundo muçulmano na Idade Média estimulou muito a educação e o estudo das letras. No final do século X, a biblioteca de Cairo já era uma das maiores do mundo conhecido. O Islão patrocinava muito o saber: por exemplo, em 988 Iacub Qilis convenceu o califa egípcio Aziz a custear a educação para estudantes na mesquita de el-Azhar.
Era o início do ensino público – logo seguido pelas universidades européias (embora ali os estudantes custeassem os gastos). O estudo sistemático em el-Azhar atraiu universitários de todo o mundo muçulmano, processo que antecedeu em um século o movimento universitário na Europa.

O califa al-Haquim criou no Cairo uma instituição chamada Casa de Sabedoria (Dar al-Ilm), que abrigava o ensino da teologia xiita dos ismaelitas, da astronomia e da medicina. Haquim também doou sua coleção de manuscritos à Casa da Sabedoria “para que todo o mundo possa vir para ler, transcrever e se instruir”. (MANGUEL, 1997: 47) Ali ainda havia um observatório astronômico, onde trabalhou o maior dos astrônomos muçulmanos, o egípcio Abu’l Hasan ibn Yunus (†1009) (RONAN, 2001: 100-101).


Esfera de Ibn Yunus.
E de todos os nomes que brilharam dentre os doutores do Islã nesse período, o mais conhecido é o de Al-Hazin. Matemático muçulmano nascido por volta de 965 em Basra, ele tornou-se famoso por ter escrito um importante tratado de ótica (Kitab al-Manazir). O primeiro a perceber a capacidade aumentativa do vidro parece ter sido Sêneca († 65 d. C.), observando objetos através de bolas de vidro cheias d’água.

Mas foi Al-Hazin, em seu Livro de Ótica, quem deu um passo importante e definitivo ao trabalhar a ação dos “corpos lenticulares”. (FRADA) Seu problema básico fora encontrar a imagem de um ponto brilhante quando refletido fora de um círculo. Isso envolvia conseguir encontrar um ponto preciso (A) na circunferência de um círculo.


Estudo ótico de Al-Hazim.
Al-Hazin ainda observou a forma de meia-lua da imagem do Sol durante os eclipses na parede oposta a uma pequena cavidade feita nas folhas de janelas: é a primeira menção conhecida da câmara-escura, base da fotografia. Até o tempo de Kepler e da Vinci, todos os estudos europeus sobre a luz basearam-se na obra de al-Hazin (DURANT, s/d: 261).

Por fim, o efeito mais duradouro da expansão do Islã no Norte da África foi o quase completo desaparecimento do cristianismo. É bastante provável que os habitantes latinos das cidades tenham emigrado para a Sicília e Espanha. Todas as populações, especialmente os berberes, adotaram com tal entusiasmo o Islã que expandirem-no para o sul do Saara, como veremos a seguir. Assim, o Mediterrâneo deixou de ser uma rota pacífica e romana como o era no mundo antigo para se transformar em um mar de fronteira bélica de religiões e civilizações opostas. (PREVITÉ-ORTON, 1976: 337)

Civilizações ao sul do Saara: a Terra dos Maqzara e o reino de Tekrur


Feira livre em Atar (cidade a oeste da Mauritânia).
No extremo oeste da África setentrional, entre os atuais países de Mali e da Mauritânia, ao longo do rio Níger até mais a oeste, na escarpa do Tagant, com limite ao sul nos rios Senegal e Bakoy, desenvolveram-se as primeiras civilizações negras conhecidas: os Maqzara, o reino de Tekrur, e os famosos Impérios de Gana (Wagadu), ou o “Império do Ouro”, como ficou sendo chamado, e o de Songai (ou de Gao). Essas culturas negras que giravam em torno do Baixo Senegal (nome de toda essa região) foram o resultado de um desenvolvimento autóctone bastante recuado (e de natureza pagão-animista), iniciado provavelmente na era cristã, aliado ao avanço berbere-islâmico em direção ao sul do Saara no século IX.

Essa expansão berbere havia se dirigido tanto no leste ao sul do Egito, para obter o controle das minas de ouro do Sudão, quanto no oeste ao sul de Magreb, e aqui no Baixo Senegal a expansão basicamente tivera como motivação o desejo de dominar as rotas cada vez mais desenvolvidas dos tráficos de ouro, de sal e de escravos, este último um tráfico que nunca parou de crescer desde então até meados do século XIX (KI-ZERBO, s/d: 130). O tráfico de escravos – escravos que eram utilizados em sua maior parte no serviço doméstico ou como soldados – acontecia tanto no sentido do sul para o norte do Saara quanto o inverso (DAVIDSON, 1992: 146).

Apesar das dificuldades naturais de se atravessar o deserto, muitas caravanas de muçulmanos cruzavam o Saara a oeste para comerciarem escravos, sal, cavalos e metais (ouro e cobre) com as populações negras. Os berberes também compravam dos negros marfim, peles de animais, plumas de avestruz e sementes de cola (com cafeína); em troca, traziam cobre, espadas decoradas de Damasco, louças e talheres finos.

Partindo-se do Magreb (de Fez, mais a oeste, ou mesmo de Trípoli), os viajantes islâmicos utilizavam quatro rotas conhecidas através do deserto para chegar a quatro importantes pontos de comércio ao sul. Da esquerda para a direita:

1) De Awdaghost e Tekrur (na Mauritânia atual) para Tindouf, até Marrakech, Fez e Túnis;
2) De Tombuctu (no Mali) também para Fez e Túnis, mas passando por Taouden;
3) De Gao (também no Mali) para Trípoli, passando por Ghadames;
4) De Agadez, mais ao centro, no Níger, também para Trípoli, passando por Ghadames ou por Murzuk.


Mapa das rotas pré-coloniais da África Setentrional.
Graças a essas regulares rotas de comércio transaarianas estabelecidas pelos berberes islamizados é que se tem notícia escrita das civilizações negras ao sul do Saara. Um viajante e geógrafo muçulmano chamado al-Bakri (século XI) escreveu a principal fonte para essa região, um livro chamado Descrição da África (de 1087). Abu Ubayd al-Bakri, filólogo, poeta, geógrafo, historiador e erudito religioso, viveu em Qurtuba (Córdoba), Al Mariyya (Almeria) e Ishbiliya (Sevilha), onde morreu em 1094. Ele ficou conhecido por seus comentários a várias obras, principalmente o Sharth Kitav al amthal de Abu Ubayd al-Qasim ibn Sallam, e o Al 'Ali fi sharh al amáli, de al-Qali. A intenção desses comentários muito difundidos na Idade Média era esclarecer os casos em que o significado desejado por um conhecido autor não estava claro. Então o comentarista explicava as expressões pouco comuns e fazia as necessárias correções para os novos e futuros leitores. (Poetas andalusíes sevillanos)

Embora al-Bakri, da mesma forma que Tácito em sua obra Germânia (no século I), nunca tenha ido pessoalmente à região que descreve em sua obra, ele conversou com viajantes e comerciantes, além de consultar obras de geógrafos muçulmanos, e pôde assim fazer um precioso registro de segunda mão sobre aquelas culturas negras. (KI-ZERBO, s/d: 131-141; Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire)


Mapa das culturas negras de Tekrur, Awdaghost e
Gana; KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I.
Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 137.

Assim, tomando como base esse depoimento muçulmano (e de outros, como veremos), sabemos que, já a partir do século IX, uma confederação de tribos berberes sob o comando de Tilutan (836-837) – os lemtunas, os mesufas e os djoddalas – conseguiram impor sua autoridade sobre vários grupos negros e negro-berberes instalados ao redor de um povoamento chamado Awdaghost, que ficava bem no centro da região do Baixo Senegal. Todas essas culturas próximas a Awdaghost tinham uma defesa natural que as protegiam de ataques, as escarpas do Tagant, que formam um grande semicírculo natural protetor naquela região.

Outro escritor islâmico, Al-Idrisi (Abu al-Idrisi, muçulmano de Ceuta, no Marrocos, educado em Córdoba, na Espanha) (RONAN, 2001: 113) nos informa que o nome desse reino era País de Qamnuriya (Mauritânia) ou Terra do Maqzara dos Negros (Ard Maqzarati es Soudan). Bem no centro da rota do sal, de Buré ao sul até Teghazza, esse reino teria tanto no sul quanto no norte um povoamento concentrado em um cinturão de cidades: ao sul, Awlil, Sila, Tekrur, Daw e Barissa; ao norte Qamnuriya e Nighira. No entanto, na época da chegada dos berberes islâmicos, as rotas com o sul (Senegal) teriam desaparecido, restando o contato e comércio com o norte islâmico.

Um pouco à esquerda do reino de Maqzara, havia outro importante reino negro, na trilha da famosa “rota saariana do ouro” (que passava por Walata e Sidjilmasa até Fez): era o reino do Tekrur. No século IX, esse reino era governado por uma dinastia peule vinda de Hodh: eram os Dia Ogo.


Tipo de construção na área rural da Mauritânia.
O Tekrur, segundo Al-Idrisi, era um reino com um soberano independente, que possuía tropas e muitos escravos, e era muito famoso por seu senso de justiça. Com um comércio ativo, o reino de Tekrur importava lã, cobre e pérolas do Marrocos e exportava ouro e escravos para o norte berbere-muçulmano.

A escravidão

O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa.Foi o Islão, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...)

O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos (os grifos são nossos. BRAUDEL, 1989: 138).

Aqui faço um breve parêntese para a questão da escravidão negra. Muitos séculos antes da chegada dos brancos europeus à África, as tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, da mesma forma os berberes e demais etnias muçulmanas. Imaginar os portugueses, castelhanos e italianos lançando seus marinheiros em caçadas aos negros no coração das florestas africanas não resiste ao menor exame histórico.

Pelo contrário, os europeus seiscentistas tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos, ou mesmo puro seqüestro aleatório. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai, documentos que exporemos mais adiante.

Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.


Antigo forte muçulmano de escravos, na Tanzânia.
Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu muito para estimular ainda mais a escravidão, pois praticou-a desde cedo: antes mesmo de Maomé, já no século VI, mercadores árabes freqüentavam todos os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos. As populações negras não-muçulmanas também consideravam a escravidão um fato absolutamente normal (como veremos, normalmente os reis africanos tinham centenas de escravos como soldados – e em suas guardas pessoais).


Mercado de escravos no Yêmen (1236-1237); Manuscrito árabe
n. 5847, fol. 105, Maqâma 34, Biblioteca nacional da França,
Divisão oriental do Departamento de Manuscritos.

Por exemplo, nas minas de sal-gema de Targhaza (exatamente na rota do Tekrur em direção a Marrakech), milhares de negros morriam para prover uma caravana de camelos cada vez maior de ano a ano – por volta de 1200 eram entre cinco e seis mil camelos que transportavam esse sal para o sul.

Outro conhecido exemplo é o rei de Mali, Mansa Mussa (1312-1332): negro e muçulmano, quando chegou ao Cairo em peregrinação a Meca em 1324, trouxe consigo quinhentos escravos, também negros, cada um com uma bola de ouro na mão (tratarei mais adiante de Mansa Mussa) (HEERS, 1983: 79; DE BONI, 2003: 317-333).

Por fim, a base alimentar do povo do reino do Tekrur era o milhete (um tipo de milho pequeno), peixe e leite (ROSENBERGER, 1998: 338-358). Vestiam lã (os mais poderosos) e algodão (a maior parte da população). Seu primeiro rei a converter-se ao Islamismo foi War Jabi Ndiaye. Com ele, todos os súditos também se converteram (Jabi Ndiaye morreu em 1040) (KI-ZERBO, s/d: 133).

O Império de Gana (300-1075)


Império de Gana.
O reino de Gana é chamado assim por causa do título de seus soberanos. Era também chamado de Ugadu (país dos rebanhos). Nessa época, o clima era bastante úmido, o que favorecia a criação de gado e a agricultura. Por volta do século IX, viviam na região do Hodh e do Auker pastores de origem berbere e cultivadores negros sedentários que, com o passar do tempo, se mesclaram. Em 876, outro cronista muçulmano, Iacub, escreveu: “O rei de Gana é um grande rei. No seu território encontram-se minas de ouro e ele tem sob sua dominação um grande número de reinos” (citado por KI-ZERBO, s/d: 135).

Gana renasce na descrição de Al-Bakri

Em 970 o viajante muçulmano Ibn Hawkal viajou de Bagdá até a margem do rio Níger, e não hesitou em dizer do imperador de Gana: “É o mais rico do mundo por causa do ouro” (citado por KI-ZERBO, s/d: 133). Um século depois, outro cronista, Al-Bakri nos dá informações mais precisas, como disse, em sua obra Descrição da África (de 1087). É esse texto, essa fonte que a partir de agora abrimos espaço para descrever o reino de Gana. (Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire)

O reino de Gana

Al-Bakri nos conta:

O reino de Gana está povoado pelos povos de Soninke, que chamam sua terra de Wagadugu ou Wagadu. O nome Gana é o título do rei que governa aquele império. O Estado de Soninke é forte, e seu rei controla 200.000 soldados, 40.000 dos quais arqueiros que protegem as rotas de comércio de Gana.

O poder do rei de Gana provém do monopólio da enorme quantidade de ouro produzida em seu reino. Esta riqueza permite aos de Soninke construir e manter enormes cidades, além de uma capital com uma população estimada entre 15.000 e 20.000 habitantes. Soninke também usa sua riqueza para desenvolver outras atividades econômicas, tais como a tecelagem, a ferraria e a produção agrícola.

A capital de Gana

A capital de Gana é chamada Kumbi Saleh. A cidade consiste na reunião de duas cidades que se unem em uma planície, a maior delas habitada por muçulmanos e com doze mesquitas (ver imagem 28). Kumbi Saleh possui também um grande número de juízes e de homens instruídos. Ao redor de ambas as cidades há poços de água doce e potável, e próximos a eles, terras cultivadas com vegetais.

A cidade habitada pelo rei está a seis milhas da outra cidade (muçulmana) e é chamada de Al-Ghana. A área entre as duas cidades é coberta com casas feitas de pedra e de madeira. O rei tem um palácio e choças de formato cônico, cercadas por paredes. Na cidade do rei, não muito longe da corte de justiça real, há uma mesquita. Os muçulmanos que vêem em missões ao rei podem rezar ali. Há ainda uma grande avenida, que cruza a cidade de leste a oeste.


Figura eqüestre de terracota, Mali (séc. XIII-XV?)

O rei de Gana

O rei adorna a si mesmo como se fosse uma mulher, usando colares ao redor do pescoço e braceletes em seus antebraços. Quando se senta diante do povo, fica sobre uma elevação decorada com ouro e se veste com um turbante de pano fino. A corte de apelação fica em um pavilhão abobadado, com dez cavalos estacionados e cobertos com um tecido bordado com ouro. Atrás do rei ficam dez pajens segurando escudos e espadas, ambas decoradas com ouro.

À sua direita ficam os filhos dos vassalos do país do rei, vestindo esplêndidas roupas e com os cabelos trançados com ouro. O governador da cidade senta-se na terra diante do rei e os ministros ficam do mesmo modo, sentados ao redor. Na porta do pavilhão estão cães de excelente pedigree e que dificilmente saem do lugar de onde o rei está, pois estão ali para protegê-lo. Os cães usam ao redor de seus pescoços colares de ouro e de prata cheios de sinos com o mesmo metal.

A audiência é anunciada pela batida em um longo cilindro oco que se chama daba. Quando os povos que professam a mesma religião se aproximam do rei, caem de joelhos e polvilham suas cabeças com pó, uma forma de mostrar respeito por ele. Quanto aos muçulmanos, eles cumprimentam-no somente batendo suas mãos. (Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire).


Vila de Songo, no Mali, com uma pequena mesquita
ao centro; Os tipos de “casas cônicas” descritas por
Al-Bakri em sua obra ainda podem ser vistas no Mali,
como mostra a fotografia acima da Vila de Songo, no Mali.


A economia e a justiça em Gana

O rei cobra o imposto de um dinar de ouro para cada carga de asno com sal que entra em seu país, e dois dinares de ouro para cada carga de sal que sai. (dinar era uma moeda de ouro criada pelos califas muçulmanos; seu equivalente em peso era o mitkal - 4,722 gramas).

Os impostos são cobrados também pelo cobre e qualquer outra mercadoria que entra e sai do Império. O melhor ouro do país vem de Ghiaru, uma cidade distante da capital 18 dias de viagem. Todas as peças de ouro que são nativas e encontradas nas minas do Império pertencem ao soberano, embora ele deixe o povo ter um pouco de ouro em pó, isso certamente com o conhecimento de todos. Sem essa precaução, o ouro não só se tornaria abundante como praticamente perderia seu valor.

Quando um homem é acusado de negar um crime, um chefe pega um barril fino de madeira ácida e amarga de provar e coloca nela um pouco de água. Depois disso, ele dá essa bebida ao réu para que a beba. Se o homem vomita, sua inocência é reconhecida e ele é felicitado. Se não vomita e a bebida permanece em seu estômago, a acusação é aceita e justificada.


Mesquita de Bandiagra, Mali; Bandiagra: quatro mulheres
da etnia dos dogons, com seus trajes típicos, em frente
à mesquita, tendo à frente um sorridente homem com uma
coroa e vestido com um tecido cor de vinho. Todos estão
descalços. Observe o belo contraste entre as cores dos
personagens e o tom amarelo-tijolo do cenário.


A religião em Gana

Al-Bakri nos conta:

Ao redor da cidade do rei há choupanas abobadadas e bosques onde vivem os feiticeiros, homens encarregados de seus cultos religiosos. Ali se encontram também os ídolos e os túmulos dos reis. Estes bosques são guardados: ninguém pode entrar ou descobrir seus recipientes. As prisões dos vivos também estão ali, e se alguém é aprisionado lá, nunca mais se ouve falar dele.

Quando o rei morre, constroem uma enorme abóbada de madeira no lugar do enterro. Então trazem-no em uma cama levemente coberta e colocam-no dentro da abóbada. A seu lado colocam seus ornamentos, suas armas, e os recipientes que ele usava para comer e beber. A serpente é a guardiã do Estado e vive em uma caverna que lhe é devotada. Quando o rei morre, seus possíveis sucessores se reúnem em uma assembléia, e a serpente é trazida para picar um deles com seu focinho. Essa pessoa é então chamada para ser o novo rei.

A descrição de Al-Bakri é sucinta e clara. A população de Gana, rodeada de hortas, pepinos, palmeirais e figueiras, vivia assim em uma espécie de oásis protetor na fronteira sul do deserto. Como disse acima, a mesquita de Djenne tornava a região um importante centro islâmico, com um comércio bastante próspero. Al-Bakri nos diz a respeito: “A criação de carneiros e de bois é aí particularmente próspera. Por um simples mitkal (moeda de ouro equivalente ao dinar – 4,722 gramas) podem-se comprar pelo menos dez carneiros. Encontra-se muito mel, que vem do país dos Negros. As gentes vivem desafogadamente e possuem muitos bens” (citado em KI-ZERBO, s/d: 136).

O escritor muçulmano não se esquece da cozinha e a graça das moças da terra: “Encontramos também jovens com uma linda cara, tez clara, corpo esbelto, seios direitos, cintura fina, ombros largos, ancas abundantes, sexo estreito, etc” (citado em KI-ZERBO, s/d: 136).

Embora devamos ter uma prudência em relação aos textos dos cronistas muçulmanos, pois, como disse, alguns deles foram redigidos com base em narrativas orais e consulta a obras, não no local, a obra de Al-Bakri nos sugere um grau de islamização ainda bastante fraco das populações negras (André Miquel é ainda mais rigoroso: “No Ghâna, de resto directamente atingido pelo choque almorávida, tanto o povo como o rei ter-se-iam mantido pagãos, sòmente sendo tocados pelo Islame os intérpretes e certos funcionários...”. MIQUEL, 1971: 216).

Tanto o rei, que ainda era escolhido com base em tradições animistas – a picada da deusa-serpente –, quanto uma parte do povo teriam ainda se mantidos pagãos (embora se deva observar que a cidade com maior densidade demográfica descrita por Al-Bakri era a muçulmana, com suas doze mesquitas). Segundo Ki-Zerbo, esse era o culto do deus-serpente do Uagadu (Uagadu-Bida), antepassado-totem dos Cissés: “Segundo a lenda, saía da toca no dia da entronização dos reis e recebia em sacrifício anualmente a mais bela rapariga da terra. Um dia, diz-se, Maghan, vendo a sua noiva, a jovem virgem Sai, entregue à serpente, matou o réptil. Mas o pitão era o deus da fecundidade. Teria sido o seu desaparecimento que desencadeara a desertificação do país” (KI-ZERBO, s/d: 138). Deve-se ainda atentar para o fato de o Império ter, segundo as estimativas dos especialistas, cerca de um milhão de habitantes (DAVIDSON, 1992: 147).

De resto, Al-Bakri parece ter delimitado bastante bem a separação entre as duas culturas religiosas naquele momento: um bom exemplo disso é a saudação das pessoas quando se aproximavam do rei. Os animistas jogavam terra em sua cabeça em sinal de respeito, os muçulmanos batiam palmas, notável e marcante diferença que mostra o ainda baixo grau de penetração islâmica junto ao rei e à corte de Gana.

Em suma, sabemos da existência desse rico império negro e escravocrata graças aos viajantes islâmicos e à presença muçulmana na região, com seu grupo letrado, mas que ainda não se misturara efetivamente com a população autóctone, nem conseguira penetrar na casa real, ainda de forte tradição animista.

Para finalizar, como eram fisicamente os homens de Gana? Outro cronista islâmico que viveu duzentos anos depois de al-Bakri, o historiador al-Umari (1301-1349), nos informa que o povo era “alto, de compleição preta retinta e cabelos encrespados”. Um dos informantes de al-Umari lhe disse que “o ouro é extraído cavando-se buracos na profundidade que chegam à altura de um homem e são encontrados embutidos nas laterais dos buracos, ou às vezes no fundo deles” (DAVIDSON, 1992: 148).

Os séculos IX e X viram o apogeu do império negro de Gana. No entanto, no século XI, com o avanço almorávida, aqueles territórios foram teatro de grandes convulsões, como veremos a seguir.

A expansão árabe na África (2)

A gesta dos almorávidas (1056-1147)


O Império Almorávida em sua maior extensão (1110).
Os almorávidas, cuja dinastia começou em 448 (20 de março de 1056), eram formados por várias tribos que se diziam descender de Himyar. As mais célebres são as de lamtuna (ou lemtuna), da qual o príncipe dos crentes Ali ibn Taxufin faz parte, e os chadala. Saídas do Yêmen nos tempos de Abu Bakr Siddiq, que as enviou para a Síria, elas passaram depois para o Egito e depois se transferiram para o Magreb, com Musa ibn Nusayr. Seguiram depois para Tariq até o Tanger, mas seu gosto pelo isolamento as empurraram para o interior e ali habitaram até a época que vamos tratar (Kamil fi-l-Tarij, de Ibn al-Athir. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo II: 108).

No século XI, do Saara Espanhol ao Marrocos, surgiu um poderoso movimento berbere islâmico que varreu a costa setentrional da África até chegar à Península Ibérica, conferindo um novo caráter e dramaticidade tanto às culturas da África do Norte quanto à Reconquista Ibérica cristã. Para entendê-lo, é preciso levar em conta que, durante muito tempo, os berberes, como vimos, foram reticentes com o Islã, mas depois de terem se convertido transformaram-se em uma das etnias africanas que abraçaram a fé do Corão com mais força.
No entanto, no século X, o Islamismo ainda era praticado em muitas áreas orientais africanas de maneira bastante permissiva. Isso ocorria especialmente com muitas tribos de chefes berberes da costa atlântica da Mauritânia, como os sanhadjas. Por exemplo, eles cumpriam a obrigação da peregrinação a Meca somente como uma formalidade política. Assim, ao retornar de Meca e parar em Kairuan, Yaya ibn-Ibrahim, chefe dos djoddalas, foi se consultar com um sábio muçulmano de nome Abu Amiru (de Fez) e foi repreendido por este por sua ignorância em relação à fé.

O sábio, chocado com o baixo nível de conhecimento da Lei corânica dos djoddalas, decidiu procurar um teólogo para instigá-lo a ir até àquele povo berbere e guiá-lo à luz da verdade sagrada. Encontrou Abdallah ibn Yacine, um grande letrado da cidade de Sidjilmasa, que aceitou ir pregar entre os djoddalas.

Contudo, os berberes o receberam muito mal. Não gostaram nem um pouco das práticas ascéticas de Yacine, queimaram sua casa e o expulsaram. Yacine então se retirou (cerca de 1030) com dois discípulos da etnia berbere dos lemtunas, Yaya ibn Omar e seu irmão Abu Bakr (não confundir com o califa do mesmo nome do século VII), para algum lugar desconhecido da costa atlântica. Foi então que começaram a receber adeptos. Quando chegaram ao milhar, Ibn Yacine batizou-os de Al-Morabetin (aqueles do ribat), palavra que deu origem a almorávida.

O ribat era uma espécie de convento militar muçulmano erguido nas fronteiras do dar al-islan (a “Casa do Islã”) e que acolhia voluntários piedosos que desejavam se retirar do mundo e que ali ficavam sob as ordens de um veterano (sheikh) para se purificar e sair em missões conforme o desejo do sheikh (DEMURGER, 2002: 43). Demurger define o ribat em uma obra dedicada às ordens militares cristãs porque muitos historiadores consideram o ribat o antecessor islâmico das ordens militares e o autor discute essa tese, da qual discorda).

A idéia de posto de vigília e mosteiro fortificado foi mais tarde valorizada pelo sufismo: os sufis levavam um modo de vida que buscava a união com Deus por meio do amor, do conhecimento baseado na experiência e ascese, que levaria a uma união estática com o Criador. Essa invocação tinha o objetivo de desviar a alma das distrações mundanas para libertá-la até o vôo da união com Deus. Uma das formas do dhikr era um ritual coletivo chamado hadra: os participantes repetiam constantemente o nome de Alá, cada vez mais rapidamente, até se chegar a um transe e perda da consciência do mundo sensível (COSTA, 2002: 73-74).

No tempo dos almorávidas não se têm notícias desse sentido preciso de guarnição religiosa. Nessa época, a palavra ribat significava “sua seita, seu corpo, suas forças, sua guerra santa”. O único autor que empregou a palavra precisa de rabita (fortaleza) foi Ibn Abi Zar, em sua obra Rawd al Qirtas (de 1326), portanto, duzentos anos depois do período de Yacine (KI-ZERBO, s/d: 143).

A missão dos almorávidas era impor a verdadeira fé pela força aos não-crentes. A partir de 1042, eles se lançaram em uma furiosa jihad a partir das regiões do Adrar e do Tagant, ambas hoje no coração do Saara Espanhol, contra os djoddalas e os lemtunas, tendo Yacine como chefe espiritual e Yaya como general. Negros do Tekrur logo se juntaram a eles, desejosos de se opor ao Império de Gana. Yaya foi expulso do exército, por não concordar com os saques e violações cometidos por seus soldados.
Após um breve e novo retiro espiritual, ele conseguiu novas adesões de discípulos e se lançou novamente no deserto. Isso, somado à pregação religiosa de Yacine, fez com que as forças almorávidas ganhassem uma grande adesão de soldados (cerca de 30.000 homens armados de lanças, machados, maças, a pé, a cavalo e em camelos). Esse motivado exército religioso varreu todo o Sudão ocidental.


Mesquita de Koutoubia, Marrakech (séc. XII)
Yaya morreu em 1056 em uma batalha contra os djoddalas próxima a Atar. Yacine atacou o Marrocos (Maghreb el-Acsa) e morreu no ano seguinte, quando os almorávidas passaram a ser dirigidos pelo emir Abu Bakr. Este fundou em 1062 a cidade de Marrakech, apoderou-se de Fez, Tlemcen (capital dos zenatas) e alargou seu poder até Argel. Depois disso, Abu Bakr retornou para o sul e se instalou no Tagant, decidido a atacar e submeter o Império de Gana.

Os almorávidas na Península Ibérica

Mas antes de tratar do declínio de Gana e de sua derrota para as forças almorávidas, abro um pequeno parêntese à conquista almorávida da Península Ibérica (1092-1094), devido à sua importância para o processo da Reconquista cristã. Nas palavras do conde D. Pedro de Portugal, filho bastardo do rei D. Dinis e famoso cronista do século XIV, os almorávidas eram “os melhores cavaleiros que os mouros tinham” (Crónica Geral de Espanha de 1344, 1990, vol. IV, cap. DLXVIII: 34).

Esses monges-soldados muçulmanos haviam declarado uma guerra santa contra “os muçulmanos depravados dos reinos ibéricos” (CAHEN, 1992: 295).


O movimento almorávida – do Saara Espanhol à Península Ibérica
( 1042-1087); KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I.
Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 144.

Mesmo antes da invasão almorávida na Península Ibérica, os governantes dos reinos de taifas, mais tolerantes com a convivência e a afinidade entre moçárabes e andaluzes, já não se interessavam pela guerra santa. A palavra taifa (que significa “partido, facção”) designa os principados que se constituíram na Hispânia sobre os restos do califado omíada de Córdoba (MIQUEL, 1971: 216).

Por exemplo, o rei de Granada, ‘Abd Allãh Nãsir, conta em suas memórias que o hadjib Almançor (Muhammad ibn Abi ‘Amir) não conseguiu convencer os andaluzes a fazer a guerra, pois eles “...declararam-se incapazes de participar nas suas campanhas e alegaram (...) que não se achavam preparados para combater e, por outro lado, que a sua participação nas campanhas os impediria de cultivar a terra” (MATTOSO, 1985: 194).
Outro bom exemplo da nova mentalidade dicotômica desses invasores berberes é a obra Ódio a cristãos e judeus do pensador cordovês Ibn Abdun (séc. XII):

Um muçulmano não deve fazer massagem em um judeu nem em um cristão, nem tirar suas sujeiras ou limpar suas latrinas, pois o judeu e o cristão são mais indicados para essas atividades, que são tarefas para gentes vis (…)

Deve proibir-se às mulheres muçulmanas que entrem nas abomináveis igrejas, pois os clérigos são libertinos, fornicadores e sodomitas.
(Tratado de Ibn Abdun. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, tomo II: 219)

Curiosamente, os almorávidas praticavam a cinofagia – morte de cães – uma prática e hábito culinário pré-islâmico presente em um hadith do profeta: “Os anjos não entram em uma casa onde há um cão”:

A Hadith consiste na tradição oral das tribos que habitavam a Arábia mais os ensinamentos de Maomé que não foram para o Livro, mas que foram se formando através dos anos. Esta tradição é que conta a história do Profeta, dos santos e dos outros profetas menores, entre estes Jesus.

Os mulçumanos acreditam também nos gênios, fadas, nos espíritos bons e maus, em práticas mágicas e outras coisas que, proibidas aos fiéis, podem ser usadas pelos descrentes (KHALIDI, 2001: 16-17).

Eles também inovaram a sociedade dos nômades berberes e as das fronteiras do mundo negro, trazendo inovações táticas no modo de se fazer a guerra. Acrescentaram aos exércitos regulares três fileiras de arqueiros – precedendo a Europa cristã em quase dois séculos na superioridade da infantaria de arqueiros sobre a cavalaria. Além disso, numa revolução ideológica dos aspectos mentais do conflito, incluíram grupos com grandes tambores, com o intuito de aterrorizar os inimigos.


Exército muçulmano partindo para o ataque (1237) ; Iluminura
das “Estações de Hariri” (1237), manuscrito da Biblioteca Nacional
de Paris. Esta cena representa uma pequena paragem antes do ataque
decisivo, quando tocam as trombetas e rufam os tambores. Ela pode
estar se referindo a uma das primeiras batalhas do Islão na Península
Ibérica. No entanto, os trajes dos guerreiros e os jaezes das montadas
apontam para uma origem oriental e para a época em que a iluminura
foi elaborada. In: MATTOSO, José (dir.). História de Portugal.
Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d, p. 399.

Este novo estilo de guerra, mais agressivo, era marcado basicamente pela fundamentação religiosa (MATTOSO, 1985: 194). Isto os distinguia dos outros islamitas andaluzes da Península, desprezados pelos berberes almorávidas. Assim, aconteceu a partir do século XI uma “internacionalização” do conflito na Península Ibérica.

De um lado, cristãos peninsulares ligados ideologicamente ao restante da Europa, especialmente ao reino franco; de outro, muçulmanos ibéricos dos reinos de taifas auxiliados pelo conjunto de aliados da África do Norte, por sua vez intransigentes na ortodoxia. Nesse contexto deram-se as vitórias portuguesas do primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, na batalha de Ourique (1146), e na tomada da cidade de Lisboa (1147), com o auxílio de cruzados vindos do norte europeu.

A queda do Império de Gana (1203)

Até esse avanço almorávida, o Império de Gana conseguira suportar os ataques estrangeiros, tanto de tribos inimigas quanto dos próprios berberes, graças ao seu exército composto de guerreiros soldados, cavaleiros e arqueiros – citados por Al-Bakri em sua obra, como vimos.

No entanto, apesar de uma forte resistência, eles foram derrotados pelos almorávidas e sua capital, Kumbi Saleh, foi tomada e saqueada, por volta de 1076. Com essa vitória, os almorávidas receberam um poderoso reforço, devido às conversões dos negros de Gana. Disso nos informa o cronista Al-Zuhuri: “As gentes do Gana tornaram-se muçulmanas em 1076 sob a influência dos lemtunas” (citado por KI-ZERBO, s/d: 147).

Abu Bakr prosseguia em sua tentativa de unificar as tribos berberes e com elas atacar Gana. No entanto, morreu em uma escaramuça por causa de uma flecha envenenada (1087). Gana reconquistou sua independência, mas após a devastação e saque de sua capital, dez anos antes, o reino negro nunca mais conseguiu recuperar seu antigo poderio. Pelo contrário, as caravanas passaram a se desviar das rotas que privilegiavam o coração de Gana, e os comerciantes passaram a optar por Tombuctu, Gao e Djena.

Os muçulmanos ricos se refugiaram em Walata, especialmente depois do segundo saque da capital, Kumbi, em 1203, por parte do rei sosso Sumaoro Kanté. Paralelo a esse declínio comercial aprofundou-se o processo de islamização das etnias negras, embora sem nunca atingir todas as camadas da população – e, de resto, o islamismo negro era bastante mesclado com práticas animistas.

O Império de Mali (1235-1500)

A queda do Império de Gana abriu um vácuo de poder. A grande questão era: quem tomaria agora o controle das rotas comerciais próximas das fontes auríferas? Os almorávidas fracassaram em sua tentativa de monopolizar o tráfico. O reino que parecia mais próximo de conseguir esse intento era o reino sosso dos Kantés, ao sul de Gana.

Em 1180, surgiu um guerreiro, Diarra Kanté, de um clã de ferreiros animistas adversários do Islão. Feiticeiro famoso e de prestígio, Kanté conseguiu tomar a cidade de Kumbi Saleh, mas sem ocupar as jazidas de ouro, controladas agora por uma tribo de camponeses, os malinqués (“homem de Mali”). Kanté, após dominar o Dyara, o Bakunu e o Bumbu, apoderou-se da região do Buré.


Mapa do Império de Mali (século XIV)
Kanté foi um pequeno interregno entre dois impérios, Gana e Mali. Quanto ao segundo, não se conhecem as origens do reino de Mali (ou Mandinga). Diferentes etnias viviam naquela região. Seus chefes se diziam “caçadores-mágicos”, todos com ritos iniciatórios mais ou menos comuns. Esses clãs estavam unidos pelo chamado “parentesco de brincadeira”, isto é, um curioso direito e dever de fazer troça uns aos outros. O chefe gozava do monopólio das pepitas de ouro. A estrutura social baseava-se em uma grande família que dispunha de um campo comunitário (foroba) próximo à aldeia. Logo um dos herdeiros sosso tomou o título de mansa (ou maghan), isto é, imperador.

Paralelo a esse processo de integração por parte dos sosso acontecia a conversão ao Islamismo. Baramendana foi o primeiro rei a se converter, graças ao pai de Abu Bakr, em 1050. A tradição conta que Baramendana estava desesperado por causa de uma longa seca. Então se dirigiu a um devoto lemtuna que o levou a um monte para passar uma noite rezando. Pela manhã choveu, e o rei mandou destruir os ídolos animistas e se converteu ao Islamismo.


O Império de Mali com seus reinos “vassalos” (século XIV);
KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Lisboa:
Publicações Europa-América, s/d, p. 165.

A partir de 1150 se conhece relativamente bem a cronologia dos reis de Mali. Hamana, Djigui Bilali (1175-1200), Mussa Keita, Naré Famaghan (1218-1230) e principalmente Sundjata (ou Mari Djata, o “Leão do Mali”), todos com estórias recheadas de lendas e mitos e transmitidas também pelos griot, os “transmissores de ouvido” de cada etnia que passam de geração para geração as tradições de sua cultura.

Na época de Sundjata, Mali era um reino essencialmente agrícola. Os malinqués desenvolveram a cultura do algodão, do amendoim e da papaia, além da criação de gado. Sundjata instituiu uma associação de trinta clãs (de artesãos, de guerreiros, de homens livres – que, no entanto, eram chamados de “escravos da coletividade”, os ton dyon). Com o crescimento do reino, a categoria dos escravos se multiplicou – recorde que sempre os reinos negros praticaram a escravidão.

Com o filho de Sundjata, Mansa Ulé (1255-1270) e seus sucessores – Abubakar I, Sakura, Abubakar II – até Mansa Mussa (ou Kandu Mussa, 1312-1332), o reino de Mali passou a ser conhecido no mundo ocidental. Em 1324, Mansa Mussa realizou uma peregrinação a Meca, passando pelo Egito e com a intenção de maravilhar os soberanos árabes.


Figura sentada, Mali (século XIII); Observe as feições
alongadas do rosto do personagem, aliás, de todo o corpo.
Pode-se, assim, ter uma noção do tipo físico predominante então,
além de uma contemplação de posturas e gestos corporais.

O Tarikh es Soudan! (1655), de autoria do mouro Es Saadi, nos informa que ele atravessou o deserto passando por Walata e pelo Tuat com 60.000 mil servidores (escravos), evidentemente um exagero – as cifras hoje estão por volta de 500. (HEERS, 1983: 79). Chegou ao Cairo com cerca de duas toneladas de ouro (!), em pó e em pepitas. O cronista Al-Omari (†1349) nos conta:

Quando da minha primeira viagem ao Cairo, ouvi falar da vinda do sultão Mussa (...) E encontrei os habitantes do Cairo todos excitados a contarem as largas despesas que haviam visto fazer às suas gentes.

Este homem espalhou pelo Cairo ondas de generosidade. Não deixou ninguém, oficial da coroa ou titular de qualquer função sultânica, sem receber dele uma quantia em ouro. Que nobre aspecto tinha este sultão! Que dignidade e que lealdade! (citado por KI-ZERBO, s/d: 171).

Mansa Mussa foi tão generoso que, ao sair do Cairo, foi obrigado a pedir um empréstimo a um riquíssimo mercador de Alexandria, para que pudesse manter sua largueza até chegar a Meca...

Sua peregrinação fez o Império de Mali ser conhecido por todo o mundo, e os mapas europeus passaram a citá-lo. Por exemplo, tanto o de Angelo Dulcert Portolano (1339), quanto o Atlas catalão de Abraão Cresques (1375), elaborado para o rei da França Carlos V (1338-1380), o Sábio, trazem nitidamente o nome da capital (Ciutat de Melli), além do rei de Mali, Mansa Mussa, sentado em seu trono e segurando uma pepita de ouro.


Mapa do Norte da África (manuscrito catalão de 1375);
Este mapa catalão do século XIV do Norte da África tem
quatro reis, três africanos: o rei Mansa Musa de Mali
(sentado, com uma gema de ouro na mão direita),
o rei de Organa, o rei da Núbia e o rei da Babilônia.


Detalhe do mapa do Norte da África (manuscrito catalão de 1375);
Os dois números em vermelho marcam dois textos. São eles:
1. “Toda esta parte tem gentes que ocultam a boca; só se vêem
seus olhos. Vivem em tendas e têm caravanas de camelos.
Também possuem animais de cujas peles fazem excelentes escudos”.
2. “Este senhor negro é aquele muito melhor senhor dos negros
de Guiné. Este rei é o mais rico e o mais nobre senhor de toda esta
parte, com abundância de ouro na sua terra” (tradução literal).
Observe que embaixo do globo de ouro que o imperador Mansa Musa
segura na mão direita está a representação da cidade de Tumbuctu.
DAVIDSON, Basil. “Os Impérios Africanos”, História em Revista (1300-1400).
A Era da Calamidade. Rio de Janeiro: Abril Livros / Time-Life, 1992, p. 149.

De regresso para Mali, o imperador trouxe consigo um poeta-arquiteto, Abu Issak, mais conhecido como Es Saheli. Com ele, construiu a grande mesquita de Djinger-ber, em Tumbuctu.

Os sucessores de Mansa Mussa tiveram dificuldades de manter um território tão vasto. Depois de Maghan (1332-1336), até Mussa II (1374-1387), o reino de Mali viu Tumbuctu ser saqueada, além de sucessivos assassinatos palacianos que enfraqueceram o império. Lentamente a hegemonia passava para o reino de Gao, que anexava uma a uma as províncias do leste, além de tomar a cidade de Djena, metrópole comercial.

No final do século XV o Tekrur passou para os domínios do estado wolofo. Houve um curto período confuso entre a hegemonia do Mali e do Gao. Várias etnias foram arrastadas para o movimento dos peules do Bundu, conduzido por Tenguella I (chamado de “o Libertador”). O imperador do Mali tentou até uma aliança com D. João II de Portugal, mas nenhuma das missões portuguesas parece ter chegado a seu destino.

A religião em Mali

Como todos os reinos negros islamizados desse período, a religião em Mali era um misto de várias influências, especialmente as pagãs. Por exemplo, Mussa desconhecia a interdição do Corão de ter mais de quatro mulheres, e os malinqués comiam carnes proibidas pelo Islão. Sacerdotes com máscaras de aves praticavam ritos animistas na corte. Em contrapartida, as festas religiosas islâmicas eram celebradas com grande pompa. As crianças aprendiam o Alcorão, às vezes com duros castigos – eram postas a ferro, por exemplo.

O imperador e sua corte em Mali (descrição de Ibn Batuta)


Ibn Batuta.

O cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, chegou a Mali quinze anos depois da morte de Mansa Musa, entre os anos 1352-1353. Em um belo texto medieval, esse notável cronista muçulmano nos informa o fausto da corte do imperador de Mali (o texto explicativo em parênteses é de Ricardo da Costa):

O sultão tem uma cúpula elevada, cuja porta se encontra no interior de seu palácio e onde ele se senta com freqüência. Tem do lado das audiências três janelas em arco, de madeira, cobertas de placas de prata, e por baixo delas três outras guarnecidas de lâminas de ouro ou de prata dourada. Estas janelas têm cortinados de lã que são levantados no dia da audiência do sultão na cúpula (...)

Da porta do castelo saem trezentos escravos, uns com arcos na mão, outros com pequenas lanças e escudos. Uns estão sentados, outros de pé. À chegada do rei, três escravos precipitam-se para chamar o seu lugar-tenente. Chegam os comandantes, assim como o pregador, os sábios juristas, que se sentam à esquerda e à direita, diante dos homens de armas. À porta, de pé, o intérprete dougha em grande aparato.

Está soberbamente vestido, em seda fina. O seu turbante está ornado de franjas, que estas gentes sabem fazer admiravelmente. Tem um sabre a tiracolo, cuja bainha é de ouro. Nos pés botas e esporas (...) Tem na mão duas lanças curtas. Uma é de prata, a outra é de ouro. As pontas são de ferro. Os militares, o governador, os pajens ou eunucos e os mesufitas (mercadores berberes e sarakholés) estão sentados no exterior do lugar das audiências, numa longa rua, vasta e com árvores.

Cada comandante tem diante de si os seus homens, com as suas lanças, os seus arcos, os seus tambores, as suas trompas, enfim, com os seus instrumentos de música feitos com caniços e cabaças, em que se bate com baquetas e que dão um som agradável (as trompas eram feitas de marfim das presas de elefantes). Cada um dos comandantes tem sua aljava às costas. Tem o seu arco à mão e anda a cavalo (...) No interior da sala de audiências e nas janelas vê-se um homem de pé. Quem desejar falar ao rei dirige-se primeiro ao dougha. Este fala ao dito personagem que está de pé e este último ao soberano.

Instala-se então um grande estrado com três degraus debaixo de uma árvore. É o pempi. (segundo Al-Omari, o pempi era uma grande cadeira de ébano, parecida com um trono, com as medidas adequadas a uma personagem alta e gorda. De cada lado, uma defesa de elefante a cobri-lo, uma em frente da outra). É coberto de seda e guarnecido de almofadas. Por cima instala-se o guarda-sol, que parece uma cúpula de seda, no alto da qual se vê uma ave do tamanho de um gavião.

O rei sai por uma porta aberta num ângulo do castelo. Tem o seu arco à mão e a aljava às costas. Traz na cabeça um solidéu de ouro, fixado por uma pequena faixa também de ouro, cujas extremidades são pontiagudas como facas e com mais de um palmo de comprimento. Na maioria das vezes, traz uma túnica vermelha e felpuda, feita com tecidos de fabricação européia chamados mothanfas. Diante dele saem os cantores, tendo na mão um kanabir de ouro e de prata (O kanabir era uma calhandra, isto é, uma espécie de cotovia, sabiá-do-campo).

Atrás dele encontram-se cerca de trezentos escravos armados. O soberano caminha lentamente. Aproxima-se devagar e pára mesmo de vez em quando. Chegado ao pempi, deixa de caminhar e olha para os assistentes. Em seguida, sobe lentamente o estrado, como o pregador sobe ao púlpito. Uma vez sentado, tocam-se os tambores e fazem-se soar as trompas e as trombetas. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 176-177.)

Alguns dos pajens escravos do rei eram comprados no Cairo. Era expressamente proibido espirrar em sua presença. Os cortesãos vestiam-se de branco, com tecidos de algodão cultivado na própria terra. As jovens e mulheres escravas, em contrapartida, andavam completamente nuas, para escândalo de Ibn Batuta. Ele ainda estranhou a comida: “Dez dias depois de nossa chegada, comemos um mingau que eles preferem a qualquer outra comida. Na manhã seguinte, estávamos todos doentes”. (citado por DAVIDSON, op. cit.: 150)

A organização política e a vida económica

No século XVI, tempo de Mahmud Kati, historiador e conselheiro do Askia Mohammed, o império tinha cerca de quatrocentas cidades e vilas. O sistema de governo era descentralizado. Era dividido em províncias, administradas por um dyamani tigui (ou farba). As províncias eram subdivididas em conselhos (kafo) e aldeias (dugu).

A autoridade da aldeia poderia ser bicéfala: um chefe político, outro religioso. O farba recolhia impostos e requisitava tropas, caso necessário. Havia ainda reinos subordinados que reconheciam a hegemonia do imperador, enviando regularmente presentes.

Um dos segredos do Império de Mali foi a maleabilidade de seu sistema político, única lógica possível em uma estrutura sem burocracia, além da tolerância religiosa. Povos tão variados como os tuaregues, os songais, os malinqués e os peules, reconheceram, durante mais de cem anos, a soberania do imperador de Mali. Há um elogio do cronista Ibn Batuta que expressa bem esse sentimento de confiança no funcionamento da estrutura do império:

Não é necessário andar de caravana. A segurança é completa e geral em todo o país (...) O sultão não perdoa a ninguém que se torne culpado de injustiça (...) O viajante, tal como o homem sedentário, não tem a temer os malfeitores, nem os ladrões, nem os que vivem de pilhagem.

Os pretos não confiscam os bens dos homens brancos que venham a morrer nas suas terras, ainda mesmo que se trate de tesouros imensos. Depositam-nos, pelo contrário, em mãos de um homem de confiança dentre os brancos, até que se apresentem aqueles a quem revertam por direito e tomem conta deles.
(citado por KI-ZERBO, op. cit.: 180).

Esse é um belo testemunho da grandeza do Mali, feito pelo maior viajante da época.

O Império Songai (de Gao)


Máxima extensão do Império de Songai (século XVI).
Uma das características mais perenes das sociedades pré-industriais e iletradas (ou semiletradas) é a existência de mitos de origem relacionados à cultura e especialmente ao poder monárquico, além de suas manifestações sociais, todos mitos originários das tradições orais africanas (Controversial Origins). Além disso, os homens das sociedades pré-industriais também tinham uma forma bastante distinta de se relacionar com o mundo (a natureza) e com seus animais.

O caso do Império de Songai (ou de Gao) é um deles. Sua estória começa com o mito do feiticeiro Faran Makan Boté. Ele nasceu de um pai sorko e uma “mãe-fada ligada aos espíritos das águas”. Ao subir o rio, Makan Boté se aliou aos caçadores gows e pescadores sorkos, e passou a exercer as funções de grande sacerdote (kanta) junto a camponeses na região de Tillabery. Assim teriam nascido as energias mágicas do Songai. (KI-ZERBO, op. cit.: 181)

Mas a lenda não pára aqui. Por volta do ano 500, príncipes berberes chegaram às margens da curva do rio Níger e libertaram os pescadores sorkos e camponeses gabibis do terror de um peixe-feiticeiro (seria um descendente de Makan Boté). O autor da façanha teria sido Za Aliamen, e a partir de então sua dinastia reinaria em Kukya até 1335 (no mapa acima, a região assinalada entre Tumbuctu e Gao). Por volta de 1009, Diá Kossoi, décimo-quinto rei da dinastia fundada por Za Aliamen, fixou sua capital em Gao. Ele foi o primeiro rei a se converter ao Islamismo. Já no século XI, Gao rivalizava com a cidade de Kumbi, capital de Mali.
Esse surto de desenvolvimento despertou a cobiça dos malinqués: em 1325, Gao foi conquistada pelo Império de Mali, mas em 1337, dois irmãos e príncipes songaleses – Ali Kolen (ou Golon) e Suleiman Nar – conseguiram se desvencilhar da dominação mali, e Ali Kolen fundou a nova dinastia dos Sis (ou Sonnis).

Suleiman Daman (ou Dandi), décimo-oitavo rei da dinastia Sonni, teria conquistado a cidade de Mesma, mas foi com Sonni Ali (1464-1493), ou Ali Ber (o Grande), ou ainda Dali (o Altíssimo), imperador songai e grande feiticeiro, é que o império se afirmou definitivamente. Sonni Ali conquistou Tumbuctu – então sob o domínio tuaregue –, realizando um verdadeiro massacre (1468), motivo pelo qual os escritores muçulmanos terem-no apresentado como um tirano sanguinário, um ímpio.

Ali também conquistou Djenne (1473), após noventa e nove tentativas dos malinqués de se apoderar de volta da cidade, além do centro de Macina, um pouco mais ao norte. Abriu ainda um canal d’água a oeste do lago Faguibine (ver imagem 42) e ordenou a redação das atas oficiais do reino. Com sua morte, em 1492, seu filho Sonni Bakary assumiu a coroa, mas reinou somente um ano.

Em seguida, houve uma tomada do poder: o filho de Sonni renegou a fé islâmica e um lugar-tenente chamado Mohammed Torodo, assumiu o trono, com o nome de Askia Mohammed, com a ajuda dos ulemás, corpo de estudiosos. (HOURANI, op. cit.: 77)

Como Mussa, Askia também realizou uma luxuosa peregrinação a Meca em 1496, com quinhentos cavaleiros e mil homens a pé. Esse mini-exército de escravos e homens livres levava consigo 300.000 peças de ouro, um terço distribuído em esmolas durante a viagem. No Hedjaz, Askia conseguiu do califa o título de “califa do Sudão”: Khalifatu biladi al-Tekrur.

Do califa Mohammed até Askia Ishak I (1539-1549), o império adquiriu cada vez mais territórios, graças às guerras – e apesar das intrigas e assassinatos políticos palacianos. Por exemplo, no tempo de Askia Mohammed Bunkan (1531-1537), o imperador de Songai tinha uma grande corte com um harém, seus cortesãos recebiam roupas de fazenda e braceletes (mantendo a tradição medieval do soberano vestir, literalmente, seus convivas) e uma orquestra, com novos instrumentos (trombetas e tambores) acompanhava o príncipe em suas viagens. A guarda pessoal do soberano era composta de 1.700 homens. O império então se estendia por mais de dois mil quilômetros, de Teghazza ao país dos mossi (norte a sul), de Agades a Tekrur (leste a oeste).


Mapa do Império de Songai (Gao) e de seus vassalos (século XVI).
Mais bem organizado e estruturado que o império de Mali, Songai estava fundado em torno da pessoa do imperador. No dia de sua entronização, ele recebia um selo, uma espada e um Corão, além de conservar dois atributos mágicos antigos: o tambor e o fogo sagrado (dinturi). A corte obedecia a um rígido protocolo: por exemplo, o cuspe do príncipe não podia cair no chão, sendo recolhido nas mangas de qualquer um dos setecentos homens vestidos de seda que o acompanhavam. Como em Mali, todos os que se aproximavam dele deveriam cobrir a cabeça de pó, com raras exceções (no caso do general do exército, este utilizava farinha).
A formação do exército, dividido por sua vez em vários corpos, reestruturou a sociedade: isento de ir à guerra, o povo trabalhava na terra, na produção artesanal e no comércio. A “burocracia” era muito estratificada (citemos apenas alguns cargos): os altos funcionários (os koy, os fari), ministros e governadores das montanhas (tondi-fari), feiticeiras (que tinham a permissão de dirigirem-se ao imperador pelo nome), o governador da província (gurma-fari) que era o celeiro agrícola do império, o ministro da navegação fluvial (hi-hoy), o chefe dos cobradores de impostos (fari-mondyo), o sacerdote do culto aos antepassados (horé-farima), o inspetor das florestas (sao-farima), o chefe dos pescadores (ho-koy), e ministro encarregado dos homens brancos residentes no império (korey-farima). Todos eram nomeados e demitidos pelo imperador a seu bel-prazer.

A economia songai é hoje calculada com base no número de escravos disponíveis para o trabalho no campo. Por exemplo, uma terra com duzentos escravos deveria produzir cerca de 250 toneladas de arroz por ano (1.000 sunus). O historiador Ki-Zerbo descarta a possibilidade de comparação desse sistema escravocrata com o feudalismo europeu, embora defenda um princípio semelhante para o caso africano: a existência do sistema religioso-simbólico de dádiva e contra-dádiva atenuava a opressão escravocrata. Pois o que interessava ao senhor da terra era ter o maior número de famílias e aldeias de servos, não apenas a exploração econômica (KI-ZERBO, op. cit.: 187-188).

Isso certamente é um caráter análogo ao sistema sócio-econômico vigente cerca de quatrocentos anos antes na Europa medieval. Esse sistema, também chamado de dom e contra-dom, está bem expresso em um documento, escrito pelo historiador soninké de Tumbuctu, Mahmud Kati (Tarikh el-Fettach – a Crônica do Buscador – obra escrita em 1520). Nele, há um interessante e expressivo diálogo em que o imperador Askia Daud concede a liberdade a uma escrava. Ela, por sua vez, sentindo-se presa a ele, declara:

É necessário que eu te traga um tributo para que, com ele, te lembres de mim. Será de duas barras de sabão no princípio de cada ano.

Então o imperador respondeu:

E eu também quero, para obter o perdão do Altíssimo e a Sua indulgência, mandar-te pagar um tributo, que receberás de mim no princípio de cada ano e que será constituído por uma barra inteira de sal e por um grande pano preto. Aceita-o, pelo amor de Deus. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 188)


Página de um manuscrito de Mahmud Kati (1485);
Observe os comentários do próprio autor escritos nas margens.

O ouro e o sal serviam de moeda corrente em Songai, mas a principal moeda eram os cauris, conchas de moluscos utilizadas como moeda de troca até meados do século XIX – e isso do Sudão à China. De qualquer modo, os imperadores Askias procederam a uma unificação de pesos e medidas para evitar fraudes.
As cidades do império eram bastante populosas, e parece que suas gentes se orgulhavam disso. Um trecho da mesma obra de Mahmud Kati ilustra muito bem esse sentimento de auto-estima:

Tendo surgido uma contenda entre as gentes de Gao e as de Cano quanto a saber qual das duas cidades era a mais populosa, frementes de impaciência, jovens de Tombuctu e alguns habitantes de Gao intervieram e, pegando em papel, em tinta e em penas entraram na cidade de Gao e puseram-se a contar os grupos de casas, começando pela primeira habitação a oeste da cidade, e a inscrevê-las uma após a outra, “casa de fulano”, “casa de sicrano”, até chegarem às últimas construções da cidade, do lado leste. A operação levou três dias e contaram-se 7.626 casas, sem incluir as cubatas construídas de palha. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 189)

Esse certamente é um dos primeiros censos conhecidos em África, talvez mesmo um dos primeiros do fim da Idade Média européia. Com ele, os historiadores puderam calcular uma população citadina de cerca de 100.000 habitantes.

Tumbuctu renasce na pena de Al-Hasan (1483-1554)


Mesquita songai de Tumbuctu (séc. XVI).

Todas essas cidades eram grandes centros de estudos, especialmente dos textos religiosos e de Direito (notadamente a jurisprudência). Em sua obra Descrição da África (1526), o granadino Al Hasan, chamado de Leão, o Africano (al-Hasan ibn Muhammad al Wazzân az-Zayâtî, 1483-1554), nos dá preciosas e claras informações sobre a cidade de Tumbuctu (os comentários em parênteses são de Ricardo da Costa):

O reino recebeu recentemente esse nome, depois que uma cidade foi construída por um rei chamado Mansa Suleyman, no ano 610 da Hégira (1232), próxima doze milhas de uma filial do rio Níger (Mansa Suleiman reinou nos anos 1336-1359. Na verdade, a cidade de Tumbuctu foi provavelmente fundada no século XI pelos tuaregues, e antes foi capital do reino de Mali em 1324).

As casas de Tombuctu são choupanas feitas de pau-a-pique de argila, cobertas com telhados de palha. No centro da cidade há um templo construído de pedra e de almofariz por um arquiteto de nome Granata. (Ishak es Sahili el-Gharnati, trazido para Tumbuctu por Mansa Suleiman)

Além do templo, há um grande palácio também construído pelo mesmo arquiteto, onde o rei vive. As lojas dos artesãos, dos comerciantes, e, especialmente, as dos tecelões de pano de algodão, são muito numerosas. As telas são importadas da Europa para Tombuctu, carregadas por comerciantes da Barbária. (Por caravanas de camelos que passavam pelo deserto do Saara vindas da África do Norte)

As mulheres da cidade mantêm o costume de vendar seus rostos, com exceção dos escravos, que vendem todos os gêneros alimentícios. Os habitantes são tão ricos, especialmente os estrangeiros que se estabeleceram no país, que o rei atual deu duas de suas filhas a dois irmãos, ambos homens de negócios, pois era ciente de suas riquezas. (O autor se refere a Omar ben Mohammed Naddi, que não era de fato o rei, mas um representante do rei de Songai)

Há muitos poços que contêm água doce em Tumbuctu. Além disso, quando o rio Níger está cheio, canais levam a água para a cidade. Grãos e animais são abundantes, de modo que o consumo de leite e de manteiga é considerável. Contudo, o fornecimento de sal é fraco, porque ele é levado daqui para Tegaza, que fica cerca de 500 milhas de Tumbuctu.

Eu mesmo estava na cidade no momento em que uma carga de sal foi vendida por oito ducados. O rei tem um rico tesouro rico de moedas e pepitas de ouro. Uma dessas pepitas pesa 970 libras. (Como vimos, os escritores muçulmanos mencionam freqüentemente as fabulosas pepitas de ouro africanas, mas atualmente há a tendência de se considerar os tamanhos descritos por eles um exagero)

A corte real é magnífica e muito bem organizada. Quando o rei vai de uma cidade a outra com as gentes de sua corte, monta um camelo e os cavalos são conduzidos manualmente por servos (escravos). Se a luta é necessária, os servos montam os camelos e todos os soldados montam nas costas dos cavalos. Quando alguém desejar falar com o rei, deve ajoelhar-se diante dele e curvar-se ao chão; mas isto é exigido somente daqueles que nunca falaram nem com o rei, nem com seus embaixadores.

O rei tem aproximadamente 3.000 cavaleiros e uma infinidade de soldados de infantaria, todos armados com arcos feitos de funcho selvagem, e com o qual disparam setas envenenadas. (Funcho é uma planta aromática e ramosa, de grande importância medicinal)

Este rei faz a guerra somente contra os inimigos vizinhos e contra aqueles que não aceitam lhe pagar tributo. Quando obtêm uma vitória, ele vende todos os inimigos, inclusive as crianças, no mercado em Tumbuctu.

Os pobres cavalos nascem pequenos neste país. Os comerciantes usam-nos para suas viagens e os cortesãos para mover-se na cidade. Os bons cavalos vêem da Barbária. Chegam em uma caravana e, dez ou doze dias mais tarde, são conduzidos ao soberano, que, caso goste, os examina e paga apropriadamente por eles.

O rei é um inimigo declarado dos judeus. Ele não permitirá que nenhum deles viva na cidade. Caso ouça que um comerciante da Barbária anda ou faz negócio com eles, o rei confisca seus bens. Há numerosos juízes em Tumbuctu, professores e sacerdotes, todos bem nomeados pelo rei, que honra muito as letras. Muitos livros escritos à mão e importados da Barbária são vendidos. Há mais lucro nesse comércio do que em toda a mercadoria restante.

Ao invés de dinheiro, são usadas pepitas puras de ouro como moeda de troca. Para compras pequenas, escudos de cauris trazidos da Pérsia; quatrocentos cauris igualam um ducado. Seis ducados e dois terços correspondem a uma onça romana de ouro. (Como vimos, os cauris eram conchas de moluscos utilizadas como moeda, desde o Sudão até a China; um ducado de ouro sudanês deveria pesar cerca de 15 gramas)

Os povos do Tumbuctu são de natureza calma. Têm um costume quase regular de caminhar à noite pela cidade (com exceção daqueles que vendem ouro), entre dez e uma hora da madrugada, tocando instrumentos musicais e dançando. Os cidadãos têm muitos escravos a seu serviço, tanto homens quanto mulheres.

A cidade corre muito perigo de incêndios. Quando eu estava lá em minha segunda viagem (provavelmente em 1512), metade da cidade queimou no espaço de cinco horas. Com medo de o vento violento levar o fogo para a outra metade da cidade e também queimá-la, os habitantes começaram a tirar seus pertences.Não há nenhum jardim ou pomar na área que cerca Tumbuctu. (Leo Africanus: Description of Timbuktu, from The Description of Africa [1526])

A educação no Império de Songai

Como em todo o mundo urbano islâmico, a educação era muito incentivada pelos potentados locais. Tumbuctu e as demais cidades do Império de Songai tinham muitos professores e uma antiga tradição de centros de estudos. Em Tumbuctu, por exemplo, a universidade de Sankore, organizada em torno de três mesquitas (Jingaray Ber, Sidi Yahya e Sankore), abrigava já no século XII cerca de 25.000 estudantes, isso em uma população de cerca de 100.00 pessoas, como vimos.


Universidade de Sankore, construída por volta do século IX.


Doutores atravessavam o deserto para ministrar seus cursos ou assistir a alguma disciplina de um colega. O cádi (juiz) de Tumbuctu, Mahmud, inspirava reverência dos Askias e de seus ministros - suas funções eram distintas das do governador, pois não tinha deveres políticos ou financeiros, cabendo-lhe somente decidir conflitos e tomar decisões à luz do sistema islâmico de leis (HOURANI, op. cit.: 56)

Muitas vezes o cádi censurava abertamente o imperador nos conselhos, quando se sentavam ao lado dos generais. Por exemplo, novamente segundo Mahmud Kati em sua obra Tarikh el-Fettach (1520) – e se acreditarmos na sinceridade de seu relato - ele teria dito pessoalmente ao Askia Mohammed, de quem era conselheiro:

Esqueceste ou finges esquecer o dia em que me foste procurar em casa e me pegaste pelo pé e pelas roupas, dizendo-me “Venho colocar-me sob a tua proteção e confiar-te a minha pessoa para que me livres do fogo do Inferno”? Foi por esse motivo que pus fora os teus enviados. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 190)

Como se vê – e Ki-Zerbo destaca muito bem isso em sua obra – a soberba universitária tem longa tradição mundo afora, e aqui se misturava ao clericalismo vigente no século XVI.

Desse celeiro de estudiosos de Songai, o mais ilustre sem dúvida foi Ahmed Baba (c. 1556-1620). Nascido em Arauane (dez dias de marcha de Tumbuctu a Tuat), Baba teria escrito setecentas obras (!), dentre elas um dicionário dos sábios do rito malekita e um tratado sobre as populações do Sudão ocidental. Seus estudos abrangiam praticamente todo o campo dos estudos islâmicos da época: Língua Árabe, Retórica, Exegese corânica e Jurisprudência. Sua biblioteca tinha cerca de 1.600 obras.

Mahmud Kati escreveu com entusiasmo sobre esse ambiente cultural efervescente no Império de Songai, e com ele termino minha narrativa da expansão muçulmana na África e o surgimento dos impérios negros ao sul do Saara:

Naquele tempo, Tombuctu era sem igual entre as cidades do país dos Negros pela solidez das instituições, pelas liberdades políticas, pela pureza dos costumes, pela segurança das pessoas e dos bens, pela clemência e compaixão para com os pobres e os estrangeiros, pela cortesia em relação aos estudantes e aos homens de ciência e pela assistência prestada a estes últimos. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 191)

Assim, até o século XVI, o Império de Songai, como o restante da África negra, conheceu um grande desenvolvimento e expansão. No entanto, a partir de então, os estados muçulmanos passariam a um expansionismo brutal (o primeiro deles o reino de Marrocos, muito interessado nas minas de sal do outro lado do deserto). Somado a isso, a Europa passou a conhecer a África e utilizá-la para seus fins igualmente expansionistas. “É o começo de uma aventura sombria”, afirma Ki-Zerbo. (KI-ZERBO, op. cit.: 251)


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