ao José Casanova
Só em 1962 apareceram as 8 horas de trabalho nos campos do Alentejo e Ribatejo. Apareceram, isto é, lutou-se por elas. Milhares de pequenas e grandes lutas. Mondas. Ceifas. Carvoarias. Cortiça. Esgalhas. Azeitona. Arroz. Pés a carregar erva para fora dos arrozes. Os meus pés a escorrerem sangue, comidos dos arrozes. Os meus pés. A escorrerem sangue. Contra o longo desemprego, meses a fio sem ganhar um tostão. Ir buscar comer onde o houvesse. Caçada às perdizes e lebres. Luta política pela liberdade. Outro horário que não fosse o escravizante sol a sol. Abalar às quatro ou às cinco. Chegar a tempo do nascer, prontas a trabalhar. Despegávamos quando se pusesse. Horas conforme os dias. Se eles eram grandes, no Verão… Fazer o caminho a pé. Uma hora e tal de caminho todos os dias. Ir e vir. Todos os dias. Era a vida. Era mesmo assim. Todos os dias. Os nossos salários rondavam entre os treze e os dezassete escudos. Os deles andavam pelos vinte e cinco, trinta. A minha filha com dois anos. Levava-a sempre. Levantava-a cedo e íamos para o trabalho. Milhares de pequenas e grandes lutas. Resistência-repressão. Organização das praças de jorna, prisões. Comissões de Unidade, espancamentos. Reuniões. Plenários. Assembleias. Reivindicações. PIDE. GNR. Assassinatos. Alfredo Lima, Alpiarça 1950, assassinado a tiro pela GNR na praça da vila, em luta por melhores jornas. Depois começaram a aparecer uns papelinhos a dizer para a gente fazer greve, chamando-nos, mulheres, à luta pela conquista de melhores jornas. Catarina Eufémia: foi em Baleizão o crime, no começo das ceifas de 1954. Assassinada a tiro por um oficial da GNR de Beja, por lutar por melhores jornas. Queremos pão e trabalho para os nossos filhos. E ele repetiu Queres pão e trabalho para os teus filhos… E a seguir disparou. “Podes mudar de nome, carrajola, de aldeia, de vila ou de cidade – és um percevejo no lençol!”* No ano de 57 ficou mais clara a prioridade. Era a mais sentida: o horário das 8 horas de trabalho. Nesse ano uma cadela foi ao espaço. Sair de dia e voltar de dia. Quatro anos depois, Angola rebenta em luta armada libertadora e começa a Guerra Colonial. Quinhentos latifundiários detêm nas suas mãos mais terra que os outros quinhentos mil pequenos proprietários de todo o país. Em 62 começámos a ouvir a voz da menina na rádio. Em Londres, uma senhora registava uma curta invenção, inspirada no seu carro favorito. Em Março aparece por todo o lado O Camponês. Foi editado aos milhares. O mês de Maio já era falado. Tinha a força do dia do trabalhador e era mês de grande aperto das culturas. AOS TRABALHADORES AGRÍCOLAS DO SUL! NO 1º DE MAIO NINGUÉM DEVE TRABALHAR MAIS QUE AS 8 HORAS! LÁ ONDE OS CAPATAZES SE OPONHAM, SEJAM OS TRABALHADORES A IMPOR AS 8 HORAS! A voz da menina repetiu dias seguidos o apelo. Em Lisboa, a polícia de choque comemorou pela primeira vez o Dia do Estudante, em desfile no Campo Grande. Nos campos do sul, 400 000 braços trabalhavam terra que não era sua. Champallimaud, Mello, Espírito Santo, Borges e outros irmãos, reuniam-se em coutadas e pistas de aviação com piscina. Ai que eles despedem a gente! O 1º de Maio foi uma sexta-feira. Deixa despedir! Tudo em manifestação até ao Couço. Fora Salazar! Abaixo as guerras nas colónias! Queremos as 8 horas! E no Litoral Alentejano mais de 30 000 trabalhadores conquistaram-nas, nos dias 1 e 2 de Maio. A voz da menina repetiu esta vitória. Deixaram estragar culturas, despediram e prenderam. Mas a luta era a sério. Enquanto uns comiam, alguns dançavam. Nuns estúdios famosos, um grupo inglês gravava uma versão em espanhol. Outros andavam de rancho em rancho, a falar com os outros trabalhadores. Pega rija. Eles tinham falta dos serviços e tiverem que dar as 8 horas. No final do ano eram mais de 200 000 a sair de casa com sol e regressar com sol. E puderam ir ao largo. E ao café. Deixaram de ser bichos da noite! Fui presa a 27 de Abril de 62. Não nos perdoavam andar ao lado deles na luta. Fora de casa. A trabalhar como eles. A lutar com eles. Atiraram-se às mulheres com uma ânsia de dar pancada igual ao homem, não havia diferença. Posso falar por mim: estive onze dias e onze noites na tortura. A seguir mais seis dias e seis noites. Despiram-me e deixaram-me apenas em cuecas. Eu estava toda negra. Aqui e aqui. No fim de despida, nos sítios que já estava tudo pisado, é que eles batiam com o cassetete. Andei na luta até ser presa. No fim de estar presa é que então apareceram as 8 horas. Apareceram, isto é, lutou-se por elas.
* Do poema “À memória de Catarina Eufémia”, de Alexandre O’Neill

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