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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

'Somos todas democratas, não é o véu que faz a diferença': conheça a vida das mulheres na Tunísia pós-revolução





Diferenças de condição entre as tunisianas refletem um país dividido no plano político e marcado pela oposição entre norte laico e moderno e sul tradicional e religioso: 'batalha foi ganha nos textos, não nas mentalidades', diz ativista
"Tunisianas: revolução sim, retrocesso não": protesto de mulheres em agosto de 2012
Elas tinham a imagem de mulheres emancipadas, beneficiando-se desde a presidência de Habib Bourguiba (que governou entre 1957 e 1987) de um estatuto único na região. O Código do Estatuto Pessoal (CSP), adotado em 1956, tinha feito delas uma exceção no mundo muçulmano: direito ao divórcio e proibição da poligamia, do desquite unilateral e dos casamentos forçados. Elas votam desde 1959, podem abortar desde 1973 e várias se tornaram ministras. Zine al-Abidine Ben Ali vendia por toda parte essa imagem da mulher tunisiana.
Nos dias que se seguiram à queda de Ben Ali, em janeiro de 2011, foi necessário admitir que havia um abismo entre os textos e seus usos. A alguns quilômetros de Túnis e de suas brilhantes médicas, advogadas e empresárias, lutam para sobreviver mulheres analfabetas, cujo destino tem por nome pobreza, precariedade e violência. No contexto de uma economia vacilante, de conflitos sociais persistentes e de episódios sanguinários regulares, os tunisianos tomaram a medida do conservadorismo de sua sociedade. Em Túnis, nos meios liberais, não era possível avaliar até então a amplitude do fenômeno.
Poucas coisas mudaram nesses quatro anos, mas ao menos o direito de fazer política e de se expressar foi conquistado. Fala-se, respira-se, e isso é grandioso. Todos o dizem, ainda mais as mulheres: “Enfim, vemos a Tunísia como ela é. Identificamos os verdadeiros problemas. Essa liberdade tem facetas perversas, porque ela coloca em questão algumas de nossas conquistas, mas ao menos sabemos o que nos ameaça”, explica a socióloga Khadija Cherif, em referência à libertação de um discurso machista e frequentemente obscurantista.
Ninguém esqueceu que por um momento a questão tratava de inscrever na Constituição (adotada em janeiro de 2014) a “complementaridade” das mulheres com os homens, em vez da “igualdade”. Nem os propósitos retrógrados sustentados na televisão por um deputado do Ennahda, Habib Ellouze – atualmente afastado do partido islamita –, que falou da mutilação genital feminina como sendo uma “operação estética”.
Imersa na leitura em Monastir. Foto: Dennis Jarvis / Flickr CC
Imersa na leitura em Monastir. Foto: Dennis Jarvis / Flickr CC
“Fala-se das mulheres sem conhecê-las”
Esse discurso descomplexado é acompanhado da legalização dos partidos islamitas e do crescimento dos extremistas. A maioria das mulheres resistiu ao que considerava um perigo. Na eleição presidencial de dezembro de 2014, elas votaram maciçamente em favor de Béji Caïd Essebsi, tido como melhor protetor contra a insegurança e a ameaça jihadista que seu rival, Moncef Marzouki. Caïd Essebsi foi escolhido por 56% dos votantes, mas por 75% das eleitoras, segundo o instituto de sondagem tunisiano Sigma.
“As mulheres são mais do que nunca uma questão delicada na Tunísia. A batalha não está ganha. Ela foi ganha nos textos, não nas mentalidades”, observa Souhayr Belhassen, jornalista e presidente de honra da Federação Internacional dos Direitos Humanos no país. Assim que saímos das grandes cidades, descobrimos regiões que “nunca conheceram a modernização”, ressalta Emna Mnif. Para essa professora de Medicina envolvida no desenvolvimento de zonas carentes, a elite se recusa, desde a época do então presidente Bourguiba, “a ver que há outra cultura na Tunísia, mais conservadora que religiosa, e que seria preciso enfrentá-la”.
Mesma constatação de Amira Yahiaoui, diretora da associação Al Bawsala, que acompanha de perto o trabalho dos deputados. Há quatro anos, ela nota que “entre uma elite supostamente modernista e o resto”, em vez do diálogo, praticou-se “a exclusão e o desprezo, o que agravou o abismo entre as mulheres”. Com o trauma de seus 22 mortos, o atentado no Museu Nacional de Bardo, na capital tunisiana, em 18 de março desse ano, deu a impressão de ter atenuado a bipolarização da sociedade – a favor ou contra o Ennahda. Virada ou efeito conjuntural?
Não se trata de um retorno do patriarcado, mas de um enfrentamento surdo, algumas vezes declarado, entre dois modelos de sociedade: um, laico, que predomina principalmente em Túnis e em sua periferia norte; o outro, tradicional e religioso, que tem uma espécie de desejo de revanche com relação aos anos Bourguiba e Ben Ali.
Separadas por apenas 110 quilômetros, Béja encontra-se a anos-luz da capital Túnis. Além de incontáveis cegonhas, essa região agrícola do noroeste tem uma reputação: “São as mulheres que trabalham duro. Os homens estão desempregados, no café ou em casa”, repete-se. Para Hosni Abdel Karim, presidente da Associação de Desenvolvimento Integrado e Sustentável de Béja, as “grandes esquecidas” da Tunísia são as mulheres das zonas rurais. E 34% da população vive no campo. “Em Túnis, fala-se das mulheres sem conhecê-las. Ninguém imagina as condições de vida das mulheres rurais, que carregam água e lenha”, dispara.
Aya_Chebbi_Photography / Flickr CC
Protesto em Túnis, capital do país, em janeiro de 2012, em defesa da revolução que tirou Ben Ali do poder 
Elas são cinco, curvadas, cavando um campo de ervilhas, a alguns quilômetros dali. Monia tem 30 anos, um irmão desempregado e uma velha mãe sob sua responsabilidade, e confessa que sua vida é dura. “Mas o que mais posso fazer, já que não sei ler nem escrever?”, pergunta em árabe, resignada. Alguns dias por mês, ela trabalha para um agricultor. Seu salário: 10 dinares (R$ 16) por dia. De pé todas as manhãs às 6 horas, ela se deita às 20 horas. “Algumas semanas, meu patrão me emprega; outras, não. Ele diz que até ele tem dificuldades.” Sua vida se parece com a das outras mulheres da região, ressalta Ichrak Gharbi, professora de Educação Física em uma escola de Béja, voluntária para dar assistência às mulheres rurais. “Por alguns dinares, elas fazem de tudo: o trabalho na lavoura, a ordenha, cuidar dos animais, o pão... Sem contar os trajetos, como o do gado, atrás de caminhões, sem proteção. Alguns homens se recusam a trabalhar por um salário tão baixo. Muitas mulheres, por sua vez, não têm escolha, mas, principalmente, elas valorizam seu emprego, pois isso lhes dá certa autonomia.”
Enquanto no sul cada vez mais meninos abandonam a escola, no norte são as meninas que são retiradas do sistema escolar para serem enviadas à lavoura. “Vejo pais venderem suas filhas de 13 anos como empregadas domésticas em Túnis”, diz Gharbi.
Mais ao sul, na região de Monastir, feudo das empresas têxteis – que representam 19% do PIB –, as mulheres também não têm sorte. As fábricas estão fechando, uma atrás da outra. Nas cidades de Ksar Hellal e Ksibet, cerca de 7.500 pessoas ficaram desempregadas nos últimos anos; em 86% dos casos, mulheres.
Depois de dez ou vinte anos, o empregador – frequentemente o grupo têxtil belga Jacques Bruynooghe Global, fornecedor principalmente da H&M e da Zara – demitiu suas operárias do dia para a noite. Muito pouco qualificadas para encontrar outro emprego, as mulheres tentam sobreviver, esperando a hora de uma aposentadoria miserável. “Tenho 42 anos, dois filhos e uma doença laboral. Dizem-me que na minha idade não sou rentável. Não tenho a menor cobertura social”, suspira uma delas. “Encontrei um novo trabalho, mas não é registrado. Eu só era paga por um mês a cada três. Como reclamei, meu patrão respondeu: ‘Você bem que aceitava ser explorada por um belga. E por mim, que sou tunisiano, você se recusa?’”, relata por sua vez uma mãe de quatro filhos. Segundo as estatísticas oficiais, as mulheres só ocupam um quarto dos empregos. Em 2014, o desemprego no país atingia 12,7% dos homens e 22,5% das mulheres. A taxa de desemprego chegava a 21,2% dos diplomados masculinos de ensino superior e a 40% das diplomadas.
Em Ksibet, localidade de 25 mil habitantes, o sentimento geral é de que “tudo regrediu depois da revolução”. Aqui também se evocam as mulheres de Túnis com ressentimento. “As burguesas de La Marsa [estação balneária chique ao norte de Túnis] nos irritam com seus belos discursos”, solta Ibtihene, 28 anos, contadora. “Elas só representam a si mesmas”, acrescenta sua amiga Nejoua, professora de francês.
Roberto Faccenda / Flickr CC
Mulheres trabalham em tecelagem em Djerba, cidade no sudoeste da Tunísia
Uma usando véu, a outra, não, as duas jovens mulheres se unem, no entanto, às “burguesas de La Marsa” para reclamar a igualdade em matéria de herança. “Não é justo que os meninos herdem duas partes, e as meninas, uma só”, estimam. Mas como o Corão é explícito sobre esse ponto, o poder nunca pode legislar sobre essa questão. Voluntária em um centro de acolhida para mulheres, Nejoua se preocupa, por sua vez, com o aumento da violência contra mulheres. “Uma em cada duas sofre violência física, segundo nossas pesquisas.”
Ainda que o sul não seja rico, as mulheres estão convencidas de que ali vivem melhor. “Aqui, os homens são trabalhadores”, dizem sorrindo. Em Zarzis, cidade costeira no sudeste do país, como em Medenine ou Djerba, na mesma região, os véus e os vestidos longos são a norma. Todas comemoram o fato de poderem usar livremente o véu islâmico, sem que ele seja arrancado à força pela polícia, como na época de Ben Ali. “Um sofrimento”, recordam-se, antes de lembrar o assédio sofrido pelas famílias de islamitas e os controles na delegacia, até oito vezes por dia. Nas eleições legislativas, a região se manifestou. Enquanto a Tunísia em sua maioria repudiava o Ennahda, o sul conservador votava maciçamente no partido islamita.
Presidente de dezembro de 2011 a dezembro de 2014, Marzouki, cujo simples nome suscita em Túnis o rancor e a raiva por causa de sua suposta frouxidão em relação aos islamitas, é adulado no sul. “É um doutor, um homem honesto. Sentimos sua falta”, afirma Nafissa, cerca de 40 anos, de jeans, véu roxo nos cabelos. Essa professora de Medenine, divorciada, é feliz, a despeito de um ambiente difícil: clima rude, sol desértico, ausência de transportes... “Eu me sinto bem aqui, tenho o apoio de meu pai. A solidariedade familiar compensa o resto”, diz.
Em Djerba, não muito longe do vilarejo de El May, é dia de festa na casa de Nour el-Houda. Sua prima está se casando. As mulheres e meninas vestiram suas roupas tradicionais. Todas estão de véu. “Antes da revolução, nada me interessava. Agora, trabalho no ateliê de tecelagem do meu marido e logo vou me tornar a chefe!”, clama Ferdaous, 30 anos, gargalhando. Até 2011, os maridos temiam a mínima iniciativa de suas esposas, por medo de atrair represálias do poder. Usar o véu ou militar em uma associação eram audácias proibidas. Ferdaous insiste: “Agora tenho carta branca, e tenho orgulho disso!”. El-Houda, cerca de 40 anos, também se impôs a seu marido, envolvendo-se com paixão no meio associativo. Ela se iniciou na internet e agora propõe às mulheres formações “para aproximá-las de seus filhos”. Aqui, como em todo o país, as mães temem a tentação jihadista para seus filhos. Cada localidade forneceu seu contingente ao Estado Islâmico. Ferdaous conhece pessoalmente quatro jovens que partiram para a Síria. Um deles morreu. “Não entendemos. Eram pessoas ‘normais’, não extremistas.”
Durante os 24 anos em que Ben Ali esteve no poder, Besma Jebali recusou-se a votar. Hoje, ela é deputada pelo Ennahda de Djerba. Se alguma coisa irrita essa mulher dinâmica, diplomada em Gestão de Recursos Humanos, são as etiquetas distribuídas em Túnis: de um lado, as mulheres “ditas democratas, que não usam véu”; do outro, as de véu, acusadas de defender um “projeto de sociedade atrasada”. “Somos todas democratas, e não é o véu que faz a diferença”, indigna-se. “O véu? É um hábito religioso que se tornou legal, não uma obrigação.”
Para ela, está fora de cogitação deixar às mulheres de Túnis o monopólio da identidade tunisiana. “Se uma mulher levanta sua taça de champanhe e declara: ‘Represento a mulher tunisiana’, eu respondo: ‘Não, você faz parte de uma minoria. Você tem o direito de beber álcool e de viver em concubinagem, mas não imponha seu modelo!’.”
Essa linguagem preocupa em Túnis, onde o Ennahda é frequentemente relacionado – de boa ou má-fé – aos extremistas salafistas. Poucos imaginam que o partido islamita possa ter evoluído. “São mentirosos. Eles têm um duplo discurso”, acusam.
Qual é o remédio contra o obscurantismo? Em Túnis, todos salientam a urgência de reformar a educação, setor abandonado depois dos anos Ben Ali. “Minha prioridade? A infância! Noventa por cento dos jardins de infância hoje são do setor privado, mais frequentemente associações ou escolas corânicas, sem inspeção nem controle”, declara Samira Maari, ministra da Mulher e da Família.
Ainda há um trabalho considerável por fazer, em todos os níveis do ensino escolar e universitário. “A força do país, nos anos 1970, se devia a seu nível de educação. Hoje, o patamar de degradação de nossas universidades constitui minha principal angústia”, confessa o ex-presidente Marzouki.
Nesse contexto, muitos temem que o modelo de sociedade tradicional persista. “As mulheres desenvolveram um modo de vida que se acomodou às exigências islamitas. Não vejo isso como um modo ou como algo que oculta a miséria, mas como algo de profundo, que não vai desaparecer com o tempo”, preocupa-se Neila Chaabane Hamouda, antiga secretária de Estado da Família. É preciso combater esse modelo de frente, em função do risco de recaída no sistema salafista? Em Túnis, a resposta é sim. Em outros lugares, considera-se essa abordagem contraprodutiva, em razão das crispações que ela provoca.
Por enquanto, as tunisianas concordam em um ponto: “Somos lutadoras e não deixaremos nos impor o que quer que seja”, afirmam de norte a sul.
Matéria original publicada na revista Le Monde Diplomatique.

operamundi.uol.com.br

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