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domingo, 30 de agosto de 2015

COM A DEVIDA VÉNIA E UMA PARTICULAR (E CONFESSADA) SATISFAÇÃO


Ora aqui está um “post” a que não resisto, neste dia em que estou pouco resistente (e ainda bem… por aquilo a que não estou a ser capaz de resistir). Assim, abuso da (e muito agradeço a) autorização de Fernando Campos e regalo-me ao divulgar este retrato (e a excelente prosa acompanhante – com que nem em tudo concordo, ou até discordo com a “autoridade” dos meus quase-80), retrato-não-para-rir de figurinha por que tenho particular “predilecção”, talvez por ver o meu nome próprio em tão imprópria e “fascistóide” aplicação.
«quinta-feira, 27 de agosto de 2015

RETRATO DA PRESUNÇÃO, SEM ÁGUA BENTA

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Joseph Conrad escreveu, não sei bem em que contexto, que a caricatura é “pôr o rosto de uma piada no corpo de uma verdade”. 
Como Conrad não foi propriamente um espírito conhecido pela nonchalance, deduzo que a sua referência tenha sido crítica. Na sua austera severidade (ele não usava de rodriguinhos nem paninhos quentes, escarafunchava a chaga sempre até à carne viva), a caricatura sugeria-lhe um expediente artificioso – uma espécie de máscara – com que se tentaria disfarçar a face sempre inquietante desse corpo hediondo que é averdade; ou seja, um divertimento mundano, irresponsável e escapista, apenas destinado a amenizar a dura realidade dos factos da vida.
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Penso que não é esse o caso das minhas caricaturas. Detesto o engraçadismo tanto como Conrad. O que busco nos meus desenhos (que não são “bonecos” apalhaçados pra fazer rir) não é a fácil adesão ou oentretenimento pelo riso alarve. O que neles é exagero ou parece deformação é apenas o que me parece conveniente realçar pelo desenho em vista de uma melhor apreensão da pura e dura realidade dos factos da vida.
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Ontém fiz 53 anos. Cinquenta e três. Já não tenho grande futuro. O país em que habito também não. Isto é um facto da vida. A dura realidade. A verdade.
Tenho vindo a dedicar-me à árdua e bastante desconsiderada arte da caricatura, desenhando, entre outros, os rostos de uma classe dirigente que reduziu velhacamente a esperança de um povo imbecil a este grau zero e lhe transformou a vida nesta comédia negra triste e bufa pontuada alegremente – de Maio a Outubro em Fátima e de Agosto a Junho no canal Benfica – por estranhos fervores colectivos e álacres festividades populares.  E, entre a época dos fogos, a balnear e a da sardinha, por outras delirantes e pícaras bizarrias, como a caça aos indecisos, os inumeráveis e repetitivos festivais de música ao ar livre e as privatizações a mata-cavalos.
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O rosto que escolhi retratar e editar hoje aqui é o de Sérgio Monteiro, o secretário de estado das infraestruturas, transportes e comunicações. Na prática trata-se do comissário plenipotenciário dos donos-disto-tudo para as privatizações. O senhor suápe. É dele o rosto da privataria – essa curiosa transacção de bens públicos para bolsos privados a preços módicos convencionados pelo mediador em troca de equívocas percentagens ou futuras participações.
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Os traços, a pose e a retórica são as de quem encara essa sale besogne como uma missão. Algo realmente importante. Patriótico. O mediador acha-se um decisor.
É disso que trata o desenho. De presunção. O retrato – tanto quanto possível fiel, ainda que resumido ou sintético – de um alarve entupido de auto-convencimento.

A caricatura, como a entendo, não ambiciona fazer rir. Embora, por vias travessas, talvez até o faça.
A verdade é que, como Camilo a respeito do romance, também “estou mais que muito desconfiado de quenão morigera nem desmoraliza”.
Apenas procura, modestamente, aquela inquietação que só proporciona o verdadeiro entendimento dos factos da vida.


 abrildenovomagazine.wordpress.com

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