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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

PAULO SÁ, DEPUTADO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS DIZ QUE NÃO HÁ QUALQUER ALÍVIO DE IMPOSTOS

Paulo Sá "Não há qualquer alívio de impostos", diz PCP

O PCP mostrou-se hoje contrário à manutenção do "enorme aumento de impostos" que considera constar da reforma do IRS e da nova fiscalidade "verde", diplomas hoje entregues pelo Governo na Assembleia da República.
POLÍTICA
Não há qualquer alívio de impostos, diz PCP
Lusa
O ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, explicou hoje que a cláusula de salvaguarda anunciada pelo primeiro-ministro "permite que até 2017 os contribuintes optem por pagar o IRS de acordo com as normas de 2014, se isso lhes for mais favorável", admitindo ainda aumentar a dedução relativa às despesas gerais familiares a partir de 2018.
"Não é uma reforma amiga das famílias. Na realidade, apenas uma percentagem reduzida das famílias - 8,5% - é que poderia, em princípio, beneficiar do chamado quociente familiar. Todas são prejudicadas pelo novo regime de deduções à coleta. É o próprio Governo a reconhecer isto quando introduz uma cláusula de salvaguarda, que é temporária", continuou o parlamentar do PCP.
Para Paulo Sá, "apesar deste agravamento, o Governo continua a favorecer o grande capital, por via da redução da taxa de IRC, que passará de 23 para 21%" e, "no próximo ano, as receitas de IRC representarão apenas 35% das receitas (fiscais)".
"Não há qualquer neutralidade fiscal do ponto de vista dos contribuintes. Por exemplo, as famílias com rendimentos mais baixos, mais pobres, não liquidam IRS, não terão qualquer benefício com o quociente familiar, mas terão de pagar os novos impostos por via da fiscalidade verde. O ambiente e as preocupações ambientais são apenas um pretexto para introduzir novos impostos sobre o consumo", concluiu, referindo-se ao outro pacote legislativo do executivo da maioria PSD/CDS-PP, que contempla, entre outras, uma taxa de 10 cêntimos por cada saco de plástico, por exemplo.

O PS sempre em boas companhias... Adelino Vera Cruz Pinto, ex-vice-cônsul de Portugal em Porto Alegre, acusado de ter desviado 2,5 milhões de reais (788 mil euros) da Arquidiocese da Igreja Católica da Capital, é notícia no Brasil, depois de ter sido visto ao lado de António Costa nas comemorações da vitória do presidente da Câmara Municipal de Lisboa

O PS sempre em boas companhias...

Observador:

Adelino Vera Cruz Pinto, ex-vice-cônsul de Portugal em Porto Alegre, acusado de ter desviado 2,5 milhões de reais (788 mil euros) da Arquidiocese da Igreja Católica da Capital, é notícia no Brasil, depois de ter sido visto ao lado de António Costa nas comemorações da vitória do presidente da Câmara Municipal de Lisboa nas eleições primárias do PS.

As imagens do abraço de Vera-Cruz Pinto ao candidato a primeiro-ministro, captadas pelas câmaras da TVI, foram notícia esta quarta-feira no Brasil: “Foragido no Brasil, em festa em Portugal”, é assim que o jornal brasileiro Zero Hora relata o aparecimento do ex-vice-cônsul em Portalegre, cujo paradeiro permanecia desconhecido até esta quarta-feira.

Apesar de ter um mandado de captura decretado pela justiça brasileira e de ser procurado pela Interpol, Vera-Cruz Pinto “segue vivendo livre em terras além-mar”, depois de ter, alegadamente, desviado fundos da Arquidiocese da Capital, num negócio que envolvia “financiamento do Governo português para restaurar igrejas de origem lusa no Rio Grande do Sul”, segundo explica o jornal brasileiro Zero Hora.




Depois do fantástico Artur Baptista da Silva, foragido à verdadeira identidade,  aparece agora um foragido à Justiça. Este PS promete...

portadaloja.blogspot.pt

ALGARVE - OLHÃO - Casa Baeta, património de Olhão em risco de ruir! Porque não é este valioso património classificado?

Casa Baeta, património de Olhão em risco de ruir! Porque não é este valioso património classificado?


  

Depois de casa de habitação, uma parte da área desta casa foi alugada à Câmara Municipal de Olhão em 1960 para instalação dos Bombeiros Municipais e em 1989 para a instalação da Galeria Adriano Baptista, Biblioteca Municipal e o Elos Clube de Olhão. Após 2006 o edifício foi entregue aos seus proprietários herdeiros, esperando estoicamente pela sua sorte: demolição, ruína lenta, ou reabilitação…
Chamo a atenção que o edifício só ainda não foi demolido porque a associação APOS elaborou em 2007 uma proposta de classificaçãopatrimonial para a Direção Regional da Cultura (ex-IPPAR). Esta Direção considerou que o edifício só poderia ser classificável num processo municipal pelo que deveria ser a autarquia a apoiá-lo. Infelizmente, a autarquia não só não apoiou como perdeu todos os dossiers de processos municipais em 2009 !!! Ou seja, a autarquia fez desaparecer, voluntariamente ou não, os processos de classificação municipal que foram chegando de outras entidades, nomeadamente o processo da casa Baeta e todos os outros!
A casa Baeta é, como já referi, um símbolo da importância de Olhão na indústria ligada às pescas e na história nacional mas, actualmente, a casa Baeta representa simbolicamente também o que de pior Olhão se transformou na década de 1980 até aos nossos dias. A colocação de portões de alumínio para transformar a casa Baeta num dos espaços “culturais” mais proeminentes da terra, em 1989, é uma metáfora caricata da “política” cultural da autarquia !!! Depois, em 2006, as quatro esferas armilares foram demolidas ilegalmente, com a total conivência da autarquia, numa primeira tentativa de demolir todo o edifício. Desde esse momento, o tempo vai passando sem que a mesma autarquia atue, na esperança hipócrita de que o esquecimento resolva definitivamente o assunto…

 António Paula Brito
2010



Porque razão desaparecem tantos documentos importantes  das instalações da CMOlhão?
Sabemos pelas rede sociais na página de Gomes João,  que os Herdeiros tentaram negociar com a CMOlhão,  para esta adquirir o edficio a troco de um preço simbólico, na condição da CMOlhão restaurar e fazer dela um museu condigno que a riqueza da Casa Baeta,infelizmente a vereação da CMOlhão recusou,tal proposta.Gostavamos de saber o  motivo.

olhaolivre.blogspot.pt

LUCY PEPPER . - Os especialistas Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos...

LUCY PEPPER

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Os especialistas

Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos...

Estamos a ver televisão, e de repente aparece o Especialista. O Especialista tem algo para nos contar e está a ser entrevistado por um jornalista ou apresentador. Não fala de astrofísica, mas de um assunto mais quotidiano, como o tempo, um problema de saúde, as necessidades educativas de uma criança de sete anos, o modo de aplicar maquilhagem, bolos reis — esse tipo de coisas.

O Especialista entrevistado pode ser meteorologista, médico, farmacêutico, assistente de loja, padeiro ou ter outra qualquer “especialidade”, mas seja esta qual for, o Especialista faz sempre uma coisa que me põe doida: fala connosco como se fôssemos crianças.
O Especialista descreve-nos o problema, a ideia, o desafio ou o bolo como se nunca tivéssemos ouvido falar de tal coisa. Faz sempre uma lista comprida, com todas as coisas que o clima é capaz de fazer, ou os cuidados que devemos tomar a propósito disto e daquilo, ou como aplicar batom esta semana, ou como é importante a tradição de fazer o buraco nos bolos reis com o cotovelo (como se não víssemos as reportagens sobre os bolos reis todos os natais). O Especialista desenrola a lista no tom de quem, todos os dias, ensina às crianças coisas importantes, num estilo pomposo e cansado:

Apresentador da TV: “A temperatura vai subir esta semana, o que avisa?”
Especialista entrevistado pela TV: “Bem,
•     Beba muitos líquidos
•     Vista roupa fresca
•     Aplique protector solar de alto factor
•     Não saia da casa
•     Não aplique batom até estar mais fresco
•     Não faça bolo rei na praia com o seu cotovelo…”
(ok, misturei uns quantos Especialistas nesta entrevista…)
Não sou a pessoa mais paciente do mundo, e já tenho saído da sala sempre que um Especialista começa a enunciar a lista do dia. Talvez seja só eu e talvez a maior parte das pessoas, de tão habituadas, não reparem no Especialismo.

A entrevista da TV a um Especialista, porém, é um só dos sintomas do Especialismo.
Especialismo é o que eu chamo ao hábito irritante, particularmente comum em Portugal, de um profissional não admitir que outra pessoa fora da profissão possa saber qualquer coisa sobre a sua Especialidade, só porque não tem o diploma certo. Geralmente, o dito profissional faz-nos sentir isso adoptando a maneira mais paternalista possível.
 
Já foi ao médico com uma opinião sobre qualquer dor, apenas para o médico lhe dizer que não é nada disso (embora, três minutos depois, lhe esteja a dizer a mesma coisa que você já sabia, mas com palavras diferentes)?

Nunca uma farmacêutica lhe dirigiu um olhar de desdém só porque, em vez de receber a grande e generosa sabedoria dela como um coelhinho fofinho, lhe disse “sim, não há problema, sei o que fazem os antihistamínicos”?

Já mencionou a um cozinheiro profissional que sim, de facto, sabe fazer pão ou fazer um guisado de coelho (fofinho), e recebeu uma resposta de “aaaaahhh, a sério?” como se você fosse uma criança de quatro anos a cozinhar com plasticina?

Nunca lhe aconteceu deixar um taxista rabugento ainda mais rabugento só porque se atreveu a notar-lhe que “não, este não é o melhor caminho para a minha casa”?

É isto que é ser sujeito ao Especialismo. Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos, “senhoras que almoçam”, cabeleireiros, arrumadores de automóveis, colunistas da imprensa, etc., etc., etc.

Estranhamente, os Especialistas de uma área parecem dispostos a submeter-se aos Especialistas de outras áreas. Bem, talvez uma advogada realmente não saiba fazer a maquilhagem dela própria, ou um médico realmente não saiba nada de cozinhar, mas duvido.

Realmente, parece-me que toda a gente tem muito mais paciência do que eu quando aparece um Especialista a tratar-nos como crianças.

IN "OBSERVADOR"
19/10/14

 apeidaumregalodonarizagentetrata.blogspot.pt

Polémica estala em França: primeiro-ministro quer que Partido deixe de se chamar Socialista

Polémica estala em França: primeiro-ministro quer que Partido deixe de se chamar Socialista

Guerra aberta e total no PS francês, no poder em Paris. Esquerda socialista contesta duramente política de Manuel Valls e este contra-ataca: quer tirar a palavra socialista do nome do partido e fazer alianças com o centro.
Nos últimos dias Manuel Valls foi violentamente criticado, designadamente por Martine Aubry, ex-líder do PS em França e filha de Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia
Nos últimos dias Manuel Valls foi violentamente criticado, designadamente 
por Martine Aubry, ex-líder do PS em França e filha de Jacques Delors, antigo presidente da 
Comissão Europeia /  ERIC FEFERBERG/AFP/Getty Images


Não é a primeira vez que Manuel Valls o propõe, mas desta feita, 
porque é primeiro-ministro francês, fá-lo com mais força. 
Acossado pela ala esquerda do partido e pelo 
"movimento dos 40 deputados rebeldes" (chamados "les frondeurs") 
Valls contra-ataca: quer mudar o nome do PSF e propõe alianças 
com a direita centrista moderada para tentar
reforçar a sua atual muito frágil maioria no Parlamento.
 
Fiel à sua imagem de agitador de ideias e de iconoclasta 
admirador do trabalhista britânico Tony Blair, o 
franco-espanhol vai mais longe. Numa entrevista à nova 
fórmula da revista "Le Nouvel Observateur" (que a partir 
desta quinta-feira se chama "L'Obs"), responde aos críticos 
dizendo-se, antes de socialista, "pragmático, reformista e 
republicano".

Valls acha que mesmo a mudança do nome do partido não 
deve ser um tabu: diz que deverão ser fundados uma 
federação ou um movimento, "uma casa comum" aberta aos 
"progressistas', nos quais inclui os centristas de François 
Bayrou, antigo ministro da Educação.

Nos últimos dias, Manuel Valls foi violentamente criticado, 
designadamente por Martine Aubry, ex-líder do PS em França 
e filha de Jacques Delors, antigo presidente da Comissão 
Europeia, bem como por Benoit Hamon, seu ex-ministro da 
Educação. Além disso, 39 deputados socialistas 
abstiveram-se, esta semana, na votação do Orçamento para 
2015, por o considerarem longe das aspirações do eleitorado 
que elegeu o Presidente François Hollande, em 2012.

No Eliseu, o chefe de Estado segue esta guerra interna no 
PS com alguma impotência. Desacreditado e com sondagens 
em mínimos históricos, Hollande não tem autoridade para 
impor calma e respeito aos militantes e dirigentes. 
Esta manhã, vários chefes socialistas surgiram a criticar Valls, 
designadamente Claude Bartolone, presidente da Assembleia Nacional.

Depois destas reações negativas, Manuel Valls, garantiu: 
"Sou socialista". No entanto, a "L'Obs" desta quinta-feira publica este diálogo:
A sua esquerda é pragmática, mais do que ideológica?
Sim, é pragmática, reformista e republicana.
Não socialista?
Repito: pragmática, reformista e republicana.


 http://expresso.sapo.pt

ESTA TARDE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA DEBATE ACALORADO COM OS FASCISTAS A QUESTIONAREM A EXISTÊNCIA NA BANCADA DE - OS VERDES - NO PARLAMENTO

    Montenegro pediu reflexão. Verdes respondem: “Tem de meter na cabecita que não é o senhor que decide como é que os verdes participam nas eleições”. Debate aqueceu
Há sempre um dia, em qualquer legislatura, que a posição parlamentar dos Verdes é questionada: nesta, foi hoje. Num debate sobre fiscalidade, depois de uma intervenção do deputado do Partido Ecologista os Verdes,  José Luís Ferreira, o PSD e o CDS questionaram a legitimidade da representação parlamentar do partido que concorre a eleições coligado com o PCP, mas no parlamento tem existência autónoma. A MAioria pediu mesmo reflexão sobre o assunto em reunião dos líderes parlamentares.
“O que fazem aqui, com a anuência de todas as bancadas, incluindo as maioritárias, é uma fraude do que é a representatividade da vontade popular”, disse Luís Montenegro. “Temos concorrido dentro da lei, Meta uma coisa nessa cabecita, não é o senhor que decide como é que os verdes participam nas eleições”, respondeu José Luís Ferreira. Montengero tinha dito mesmo que “depois do episódio” do plenário desta quinta-feira “talvez tenha de se fazer essa reflexão”, referindo-se à situação dos verdes.
Tudo começou na bancada do PSD, depois de o deputado Jorge Paulo Oliveira ter levantado a questão e atirado a acusação: “Sempre que os Verdes falam é o deputado João Oliveira [líder parlamentar do PCP] que dá a táctica”. Seguiu-se uma série de interpelações à mesa e defesas da honra (figuras regimentais que permitem aos deputados falarem fora do tempo e das intervenções estipuladas). No CDS, o líder parlamentar Nuno Magalhães seguiu Montenegro e também disse estar  “disponível para, em sede de conferência de líderes, avaliar se a reboque de alguma tolerância democrática estamos a perverter as regras de democráticas”.
Os Verdes concorrem a legislativas coligados com o PCP, na CDU, mas o acordo prevê que os eleitos na lista apresentada a eleições formem uma bancada autónoma no parlamento (bastam dois deputados para isso). Actualmente, o grupo parlamentar dos Verdes é composto pela deputada Heloísa Apolónia e pelo deputado José Luís Carneiro. De acordo com o regimento da Assembleia da República, “os deputados eleitos por cada partido ou coligação de partidos podem constituir‐se em grupo parlamentar.”.
Magalhães ainda lamentou a linguagem usada no plenário por uma “minoria de 14 deputados que utilizam expressões arruaceiras”, acusando PCP e Verdes. “Ou bem que a conferência de líderes trata disto, senhora presidente, ou bem que a democracia tratará de todos, e esse será um dia muito triste”, disse dirigindo-se a Assunção Esteves. E a presidente da Assembleia da República concordou com esta última parte, reconhecendo os argumentos de Nuno Magalhães. “Há limites” para a oratória, disse Assunção Esteves, acrescentando que “apesar de tudo, os excessos são próprios de um parlamento democrático. Precisam de ser evitados, mas quanto muito, são exageros próprios de uma dialéctica que tem na base a liberdade do parlamento”.

A GAITA DE FOLES - A Gaita de Foles A flauta, a palheta e a gaita-de-foles pertencem ao chamado ciclo pastoril, por provirem de materiais que, no campo, estão ao alcance directo do homem que se dedica à pastorícia: as canas, os paus das árvores, as folhagens, as peles de animais.

A Gaita de Foles


A flauta, a palheta e a gaita-de-foles pertencem ao chamado ciclo pastoril, por provirem de materiais que, no campo, estão ao alcance directo do homem que se dedica à pastorícia: as canas, os paus das árvores, as folhagens, as peles de animais. Tempos houve em que as sociedades estavam estreitamente ligadas à pastorícia e à terra e em que, portanto, os instrumentos musicais eram fabricados com esses materiais. Ainda nos nossos dias, não há muitos anos, algumas comunidades rurais do interior de Portugal podiam ser consideradas representantes desse tipo de economia e de vida, possuindo e praticando música exclusivamente com tais instrumentos tradicionais.
São instrumentos de fabrico artesanal, a partir dos materiais disponíveis na Natureza, cuja construção se foi aperfeiçoando ao longo dos séculos através de experimentações sucessivas, transmitindo-se os conhecimentos de construção e afinação, empiricamente adquiridos, por tradição oral para a geração seguinte.
A gaita-de-foles (...) é um instrumento de grande antiguidade consistindo num odre de pele de chibo, que tem por função ser depósito de ar, ao qual estão ligados: o "bocal", para onde sopra o tocador; o "ponteiro", que tem, na ligação com o odre, uma dupla palheta fixa que vibra e produz o som agudo à passagem do ar; e o "roncão", comprido tubo de vários segmentos, que possui, na união de dois destes, uma palheta de caniço com lamela, produzindo, dado o seu comprimento, um som grave à passagem do ar.

Depois de soprar o ar para o reservatório, o tocador pressiona o saco com o braço esquerdo contra o peito, forçando-o a sair pelo ponteiro e pelo roncão. No ponteiro, que possui orifícios para serem jogados com os dedos, faz o tocador a melodia, ao passo que o ronco, afinado na oitava inferior à tónica, faz a nota sustentada ou pedal. Encontrámos na Estremadura gaitas afinadas nas tonalidades de si e de dó. As primeiras seriam originariamente em si bemol, mas a afinação terá subido por virtude da palheta do ponteiro.

O povo estremenho dá às partes da gaita os nomes de "ponteiro" e de "ronco", sobre cuja afinação ouvimos o Tio Chico, tocador da Atalaia, Lourinhã, dizer: "O baixo tem de dar com o canto".

O gaiteiro António dos Santos Nobre, de Fonte da Vaca, Palmela, usa a seguinte nomenclatura para designar as partes essenciais do instrumento: "ronca", "ponteiro", "boquilha" e "saco". No ponteiro é colocada a "palheta" e na ronca o "palhão", referindo-se às componentes produtoras do som. António das Eiras, da Freiria, Torres Vedras, utiliza as seguintes designações: ronca, ponteiro, soprete e fole. Etelvino Ferraria, de Almoinha, Sesimbra, usa exactamente a mesma nomenclatura e Mário Quaresma, gaiteiro de Maçã, Sesimbra, só difere na designação da ronca, a que chama "vara da gaita".

Os três gaiteiros mais antigos da Estremadura cistagana no arraial da Senhora dos Remédios, em 1989 (António Malaquias, Chico da Atalaia e Joaquim Roque).
Abílio Santos, da Atalaia, Lourinhã, chama "clarinete" ao ponteiro. A respectiva palheta comprava-a antigamente em Lisboa (no Santos Beirão ou no Custódio Cardoso Pereira – "custavam sete e quinhentos") e a última comprou-a ao Roque (gaiteiro de Torres Vedras), que lha dispensou. "A palheta da ronca é a gente que a faz, duma cana dum foguete, ou dum caniço do canavial". Emídio Malaquias, do Casalinho das Oliveiras, Lourinhã, utiliza a nomenclatura mais corrente: "ponteiro", "ronca" e "assoprar".

Noutros tempos, os foles eram todos em pele de cabra, que era necessário untar, para amolecer, em azeite e vinho. Por volta de 1970 começaram a aparecer os foles em borracha, que substituíram quase por completo as peles, sendo este fenómeno comum além e aquém-Tejo. O gaiteiro Emídio Malaquias, do Casalinho das Oliveiras, por exemplo, continua a usar a pele de cabra, que comprou na Alemanha, onde esteve emigrado. Actualmente verifica-se uma tendência para o retorno aos foles de pele, incentivada por Joaquim António Silva (Caldas da Rainha), que tem fornecido indicações para construção. O gaiteiro Joaquim Roque também já tem um fole de pele.

Dada a sua persistência actual em regiões de povoamento céltico (Irlanda, Escócia, Inglaterra, Norte da Península Ibérica, sobretudo Galiza), tem conhecido acolhimento em certos meios a tese que atribui aos celtas a origem da gaita-de-foles. "Caro Baroja, porém, atentando na existência de gaita-de-foles nos povos pastoris de todo o mundo, nas estepes da Ásia como nas ilhas do Mediterrâneo, afirma a sua ascendência pastoril, mas não céltica". Sibyl Marcuse considera-a seguramente um instrumento oriental, provavelmente do Próximo Oriente, o mesmo pensando Anthony Baines, que lhe atribui origens urbanas no Próximo Oriente por volta dos princípios da Era Cristã.

A sua antiguidade, essa, é inquestionável, havendo mesmo povos que lhe atribuem significado mágico, tal como aliás também acontece com a flauta. Esse sentido maravilhoso que o povo atribui a estes aerofones parece provir do facto, em si extraordinário, de nascerem sons tão melodiosos do simples sopro de ar. O carácter mágico que o povo atribui à música em geral aparece materializado na gaita-de-foles, instrumento produtor de sons por excelência.

É conhecida a lenda galega sobre a origem da Via Láctea: em noite de Natal, desceu do Céu à Terra um Anjo para colher uma amostra do leite de Nossa Senhora e, de regresso ao Paraíso, quando passava sobre o firmamento galego, ouviu um toque de gaita-de-foles que tanto o encantou e distraiu, que ele deixou espalhar pelo universo o leite que trazia, assim se formando a Via Láctea.


António Nobre, Joaquim Godinho e António Bernardes, "gaiteiros" de Fonte da Vaca, Palmela, 1988.
A um gaiteiro português, Joaquim Roque, da Cadriceira, Torres Vedras, ouvimos nós a seguinte expressão: "É a música mais velha do mundo, é esta! [ostenta a gaita]. Foi formada por Deus Nosso Senhor!". Depois, contou a história do gaiteiro que, voltando sozinho de um arraial, noite dentro, foi perseguido pelos lobos. Para os entreter, foi-lhes dando bocados de pão, que os lobos iam comendo, mas continuando a segui-lo. Quando se lhe acabou o pão, em desespero, a única coisa de que o bom do gaiteiro se lembrou foi tocar a gaita e logo, como que por magia, os lobos se afastaram, "não se sabe se por medo, se por encanto da música" – rematou o nosso gaiteiro. Na mesa em que nos encontrávamos, gerou-se silêncio, como que em reverência às capacidades extra-musicais da gaita-de-foles, logo interrompido pelo Tio Alberto, flautista da Colaria, na altura em nossa companhia, que esclareceu peremptório, confirmando a história: "Isso foi no Alentejo!".

O mesmo Roque, cada vez que se fala do decréscimo do número de gaiteiros, faz ressaltar a importância da gaita-de-foles dizendo que é o único instrumento autorizado a entrar na igreja ao lado do sacerdote e a tocar, do altar-mor, durante os ofícios litúrgicos. E, com efeito, junto do povo, esta circunstância ajuda em muito a uma certa aura sagrada ou sobrenatural, de que desfruta a gaita-de-foles.

Ernesto Veiga de Oliveira, op. cit., assinala que já no século XI a gaita-de-foles aparece representada num capitel existente na Galiza e os outros monumentos iconográficos a que faz referência são elucidativos sobre a popularidade do instrumento entre os portugueses, desde o século XIV. Durante a Idade Média foi, com efeito, instrumento muito tocado, talvez mesmo o mais popular de todos, sendo essencialmente preferido por jograis e menestréis. É nas mãos destes que aparece representado no códice escorialense das cantigas de Santa Maria.

Existe sobre a gaita-de-foles uma notícia concreta do ano de 1394: na cidade do Porto foram pagas 150 libras a "Pedraffonso, gayteiro", porque "tangeo andando nas matynadas dos bautismos do Iffante dom Anrique". Trata-se de recibo dos pagamentos que a Câmara Municipal do Porto fez a esse gaiteiro e a outros músicos que andaram tangendo (não se sabe que outros instrumentos) nas matinadas do baptismo do futuro "Navegador". (...)


Peditório para a Festa de Nossa Senhora da Glória, em Casal do Frade, Caldas da Rainha, 1998. Gaiteiros da nova geração: Joaquim António Silva e Sérgio Pereira.
A ligação da gaita-de-foles aos pastores ainda hoje é detectável em Portugal. Como nos disse um dia um gaiteiro trasmontano, "todo o bom gaiteiro foi pastor". Já acima referimos que A. da Cunha Sotto Mayor informava em meados do século passado que o saloio, quando miúdo, tinha o hábito de tocar "gaita de cana" (flauta) enquanto guardava ovelhas e vacas. E, com efeito, verificámos, em todos os locais do país onde gravámos e inquirimos gaiteiros, que a esmagadora maioria destes foram pastores na sua infância e juventude, e que começaram por tocar flauta. Foi assim com quatro dos gaiteiros que entrevistámos na Estremadura cistagana: Joaquim Roque, da Cadriceira, Torres Vedras, António Malaquias, da Ribeira de Palheiros, Lourinhã, António das Eiras, da Freiria, Torres Vedras, e Francisco Severino, da Atalaia, Lourinhã; e, na Estremadura transtagana, também com António dos Santos Nobre, gaiteiro em Fonte da Vaca, Palmela (este guardava porcos).

Sabe-se também, por outro lado, que nos autos populares de Natal e em celebrações dramatizadas na própria Missa do Galo, que ainda no decorrer deste século muito se representaram nas nossas aldeias, os pastores que iam visitar o Menino Deus e entregar-lhe as suas oferendas, geralmente cordeirinhos que depositavam no Presépio (e que revertiam a favor do pároco e do sacristão), surgiam invariavelmente tocando uma gaita-de-foles, mesmo dentro da igreja. A gaita surge aqui como um verdadeiro ex-libris ou atributo dos pastores, pois era sempre ostentada por um deles, ainda que ninguém a tocasse. (...)

Contrariamente ao que sucede aquém-Tejo, onde a gaita-de-foles ocorre quase sempre sozinha (à excepção de um Círio à Senhora da Peninha, Sintra, onde o gaiteiro Joaquim Roque foi acompanhado por uma caixa de rufo e dos gaiteiros da mais recente geração), ali, no distrito de Setúbal, aparece sempre acompanhada por caixa e bombo e também, ultimamente, por clarinete e por vezes até saxofone (que António Nobre juntou recentemente ao conjunto com a finalidade de animar os bailes populares da região).


Beijando a bandeira de Nossa Senhora da Glória depois de dar a esmola, em Casal do Frade, Caldas da Rainha, 1998. Gaiteiro: Sérgio Pereira.
Em 1976, vimos um destes conjuntos instrumentais da "Outra Banda", em que pontificavam duas gaitas-de-foles, acompanhar os festejos religiosos a Santo Onofre, em Vermoeira, Azueira, Mafra – vide fotografia –, constituído precisamente pelos referidos irmãos Costa, dos Olhos de Água, Palmela, que por vezes se reúnem para tocar em conjunto, outras vezes tocam separadamente, tanto na região transtagana, como "nos saloios", como eles expressamente costumam dizer. O gaiteiro Mário Quaresma, de Maçã, Sesimbra, conta-nos que quando era novo costumava acompanhar o seu pai, este tocando gaita-de-foles e ele à caixa.

Noutros tempos, outros gaiteiros, entretanto falecidos, garantiam as mesmas funções hoje exercidas por estes (bailes, festas, círios e arraiais): era o Romão Bernardes, falecido nos finais da década de 70, o Zé da Costa, que morava no Poceirão e o Zé da Gaita, do Terrim, bem como os pais dos referidos Mário Quaresma (Maçã, Sesimbra) e Etelvino Ferraria (embora este, o filho, viva actualmente em Almoinha, o pai era da Cotovia, onde "assistia").

A importância da gaita-de-foles em todo o país estremenho era enorme e estendia-se aos mais variados aspectos da vida, assim religiosa como profana, das aldeias e vilas e até cidades da província e também da capital. Da sua relevante função nos peditórios em geral e nos das festas do Espírito Santo em particular. (...)


O gaiteiro Joaquim das Eiras, da Freiria, Torres Vedras, c. 1960. Foto: Manuel Mucharreira.
Por outro lado, uma das mais antigas funções a que aparece associada a gaita-de-foles é a festiva. Desde os bailes de rua, no largo da aldeia, em dia de festa ou simplesmente ao domingo, desde os bailes que ocorriam nas "descarameladas do milho", até aos bailes dos círios e arraiais, passando pelas cegadas do Entrudo, maxime o cortejo do Carnaval de Torres, a gaita-de-foles estava – e ainda está – presente na vida lúdica do povo estremenho. Além dos depoimentos que colhemos, é de assinalar as informações que nos fornece, relativamente a Alcobaça, Vieira Natividade455 que inclui pautas com "trechos de arraial", para lá das gravuras e quadros já mencionados, de que se destacam os que representam bailes populares à gaita-de-foles em Cacilhas e em Lisboa, Junqueira, nos princípios do século XIX. No Arquivo Paroquial de Peniche, que tivemos oportunidade de consultar, são mencionados os gaiteiros nos arraiais do século XVIII.

Leite de Vasconcelos, narrando uma festa em Óbidos, 1914, em que era costume fazer-se uma grande fogueira, com lenha de pinho e rolheiros de vides, remata: "E, com o toque da gaita de foles e harmónios, divertem-se à volta da fogueira".

O mesmo Leite de Vasconcelos reproduz notícias de jornal de 1902 e 1903 que descrevem bailes populares na romaria de Santo Amaro, a Alcântara, e na festa de S. Vicente, ambas em Lisboa, ao som de gaitas-de-foles tocadas por imigrados galegos. Como se sabe, havia na capital uma grande colónia de galegos que serviram a cidade e os seus habitantes sobretudo na dura profissão de aguadeiros. A romaria de Santo Amaro, por ser santo de grande devoção na Galiza, era sempre muito concorrida de galegos e era mesmo conhecida como a "festa dos galegos". Os lisboetas admiravam-nos a dançar ao som da gaita, caixa e bombo. A notícia relativa à festa de S. Vicente até identifica os naturais de Tui que constituíam o grupo musical composto por tocadores de gaita-de-foles, tambor e castanholas.

Para além da função lúdica, a gaita-de-foles assume na Estremadura um importante papel cerimonial, de que, desde logo, se destaca o acompanhamento de peditórios, os mais variados, mas todos eles ligados a assuntos piedosos: reportamo-nos de novo às gravuras antigas que já citámos, nomeadamente as que representam o gaiteiro no peditório para a Sopa dos Pobres e para a Festa do Espírito Santo. Em geral, todas as festividades religiosas, designadamente como já dissemos os círios, incluíam – e incluem ainda – um peditório organizado pelo Juiz e pelos festeiros que, encabeçado pela "bandeira" ou pendão do santo festejado e ao som da gaita-de-foles, percorre, desde umas semanas antes da festa, as ruas da aldeia bem como as localidades vizinhas e, às vezes, até longínquas (como foi o caso, de termos encontrado o Círio de Almeirinho Clemente a Santa Quitéria de Meca fazendo o peditório em plena vila da Ericeira). 


in "Tradições Musicais da Estremadura",
José Alberto Sardinha - Editora Tradisom, 2000


www.gaitadefoles.net


















PUBLICAÇÃO ESPECIAL DESENVOLTURAS & DESACATOS - O CULTO DE ÍNDIOS E NEGROS QUE CHEGOU A PORTUGAL




São quase sete e meia da tarde quando chegamos à vivenda perto de Azeitão, a uns 40 quilómetros de Lisboa. Abre-se o portão, e percorremos o pequeno terreno por onde estão espalhadas várias estátuas. Há uma casa semi-construída no meio, um cabrito preso com uma corda, material de obras e de jardinagem, uma outra pequena casa de tijolos à nossa esquerda, e, ao fundo, a vivenda. Estamos no terreiro Jurema Maria de Acais.
Convidam-nos a descalçarmos os sapatos antes de entrar. À nossa espera estão já algumas mulheres vestidas de trajes brancos, saias longas e rodadas, panos coloridos por cima, turbantes amarrados à cabeça, compridos colares de contas ao pescoço. Helena, que nos acompanhou na viagem de carro desde Lisboa, desaparece para também ela mudar de roupa, e reaparece vestida de branco e azul brilhante.
Daí a pouco chega Josenildo (a quem chamam Jose), o Mestre Juremeiro que vai dirigir a cerimónia. Cabeça rapada, blusa preta com caracteres orientais debruados a dourado, sorriso simpático, começa imediatamente a explicar-nos a imensa complexidade dos altares que encontramos neste terreiro de Jurema, religião afro-brasileira que já chegou a Portugal.
“A mestra da casa é a Maria Navalha, que foi prostituta no Recife, uma mulher da vida, que não levava desaforo para casa”, conta, perante uma Mesa de Jurema, um altar completamente cheio de estatuetas, garrafas de bebidas alcoólicas, e copos de água (que são chamados “cidades de Jurema”), e outras oferendas, presidido pela imagem de uma mulher. Damos uma volta pelas duas salas que compõem este terreiro de Jurema, com Jose, rápido, a descrever-nos cada figura que vemos nas paredes e nos altares.
Malandros e mulheres da vida misturam-se no culto da Jurema com orixás do Candomblé e santos da Igreja Católica. Há uma mesa com estátuas de Pretos Velhos e de Caboclos (índios), figuras centrais do Candomblé e da Umbanda. Há uma imagem de Iemanjá, rainha do mar, com um Santo António por cima; noutra mesa um São Cosme e um São Damião, e Manuel Cadete, “um médico como o Dr. Sousa Martins”.


Jose prepara a comida que vai oferecer aos espíritos
Mais à frente, uma Santa Bárbara com a espada na mão, ali está a mestra Ritinha, a Maria do Bagaço, a mestra Maria Luziara, “uma das mais antigas que tem”, e o mestre Galo Preto, “que gostava muito de beber e botava galo para brigar”, explica Jose, apontando para o boneco de um galo num dos cantos da sala. “Ali é onde se faz um trabalho mais pesado, convocam-se as energias positivas, mas também as mais negativas, que às vezes é preciso para conseguir ajudar as pessoas.”
Estes são cultos com rituais muito complexos e todo um elaborado panteão de entidades que convivem com os humanos, utilizando alguns deles — os que afirmam ter capacidades mediúnicas e conseguem entrar em transe — para incorporar e virem assim dar consulta a quem precisa, dar conselhos ou, simplesmente, como vai acontecer hoje um pouco mais tarde, para dançar, cantar e beber.
No caso específico da Jurema, “as entidades são pessoas que viveram na terra, mas que hoje são espíritos mais elevados, e cada um tem o seu ritual e a sua forma de trabalhar”, continua Jose. Mas também, cada terreiro tem os seus mestres da casa, e aqui eles são o Zé da Risada — Joaquim José de Santana, de seu nome, sublinha Jose —, que “é o anfitrião”, e a Maria Navalha, “que é quem toma conta”.
“A gente não escolhe a espiritualidade”, explica o mestre juremeiro. “São os espíritos que escolhem a gente”. E ele, que desde pequeno, no Brasil, cresceu no meio deste universo mágico, foi escolhido por estes dois mestres, e veio com eles primeiro para Espanha, e depois para Portugal, onde trabalha num supermercado, ocupando muitas das horas livres neste terreiro que fundou há quatro anos. Já tem vários filhos e filhas-de-santo (os iniciados pelo mestre), e com isso vai aumentando a responsabilidade.
No centro da Jurema está a árvore com o mesmo nome, da qual se faz um licor que é ingerido durante a cerimónia (antigamente teria efeitos alucinogénios, hoje, pelo menos aqui, é um simples licor). E os iniciados têm nos pulsos sementes de Jurema — Jose mostra-nos as marcas feitas nos pulsos com uma queimadura que abre uma ferida no interior da qual é colocada a semente.
“Deixo muito claro para os meus filhos que a espiritualidade não é um meio de vida. Todos temos os nossos trabalhos”, frisa. “Há uns quatro anos, Seu Zé [da Risada] não me deixava receber dinheiro de ninguém”. Mas manter uma casa como esta tem um custo, e hoje o mestre aceita os donativos que quem vier consultar-se com as entidades aqui quiser deixar. E diz que entre os seus planos para o futuro está o de começar a dar cestas básicas para ajudar quem precisa.
Está a fazer-se tarde, os médiuns e outros assistentes convidados para esta noite estão à nossa espera, a sala está preparada e é tempo de começar a cerimónia. Um frasco de água de cheiro é passado por toda a gente — “é perfume, para fechar os corpos” — e Jose prepara um grande cachimbo com várias saídas de fumo, que vai usar para lançar fumaça pela sala — um ritual fundamental no culto da Jurema, porque é através do fumo que se processa a comunicação com as entidades.
“Vamos invocar Malunguinho, que é rei em qualquer Jurema, se não for invocado a Jurema não se abre [ou seja, a cerimónia não começa], é ele que guarda a porta”, explica. E todos começam a cantar: “Malunguinho tá de ronda/ Quem mandou foi o Jucá/ Malunguinho tá de ronda/ Que a Jurema manda/ Ô que a Jurema manda…”. A cidade de Jucá, referida no cântico, é uma das sete cidades encantadas, reinos espirituais da Jurema, e o Malunguinho (o nome vem da palavra malungo, que significa ‘companheiro’, na língua quimbundo, de Angola) é uma personagem histórica, um líder dos escravos negros do Brasil, muito respeitado.
É assim, numa sala já cheia de fumo, que Jose prepara o primeiro prato de comida para as divindades, o padê. Para o orixá Exú (muitas vezes mal identificado com o Diabo, e que é uma entidade muito mais “humana”, com um lado bom e um lado mau), cachaça num prato de barro, farinha de mandioca, óleo de palma, malagueta. E depois, para Malunguinho, moelas com laranja, farinha e muita cebola. Seguem-se louvores a “Nosso Senhor Jesus Cristo” e, ao mesmo tempo, pedidos a Exú para que permita a abertura dos trabalhos. O mestre toca maraca e lança os búzios várias vezes. Todos cantam.


Ema, a mais velha das mulheres presentes, faz a primeira incorporação da noite
E, subitamente, Ema, a mais velha das mulheres presentes, começa a agitar-se, todo o corpo abana, os que estão ao seu lado amparam-na e tiram-lhe o turbante da cabeça e os colares do pescoço. De cabelo já solto, ela lança a cabeça para trás, e dá uma gargalhada. “Ema é uma das médiuns mais antigas em Portugal”, explica Jose. Alguém sussurra: “Chegou o Tranca Ruas”. Esta entidade, que abre e fecha os caminhos, veio através de Ema, que já não parece ela, faz várias caretas e percorre a sala, sorrindo com um ar malandro para cada um dos presentes, pedindo cachaça, bebendo e oferecendo a quem quiser. Foi a primeira incorporação da noite.
O som dos maracás enche a sala, acompanhado pelos cânticos que vão invocando diferentes entidades. Uma jovem, a filha de Ema, que andara por ali com um ar discreto e um sorriso tímido, começa também a agitar-se, o corpo percorrido por espasmos. Os outros identificam rapidamente a chegada dessa entidade muito popular conhecida como Pomba Gira (existem muitas Pombas Giras, cujo nome é uma corruptela de Pambu Njila, “caminho com encruzilhada” em bantú). Tiram a blusa à jovem, que puxa a saia colorida para cima, prendendo o elástico da cintura debaixo dos braços e começando a dançar com gestos largos, atirando o cabelo, agora solto, de um lado para o outro. O rosto está transformado, o sorriso doce foi substituído por uma cara dura, intensa.
Mas a nossa atenção continua a dispersar-se, porque enquanto duas das participantes já incorporaram, há agora sinais de que Jorge, um dos homens presentes, também está a receber uma entidade. Alguém corre para ir buscar um velho chapéu de palha e um cachimbo, o corpo de Jorge curva-se, e oferecem-lhe um banco para se sentar. Chegou um Preto Velho, e neste caso muito velho mesmo, porque mal consegue endireitar-se e durante uma meia hora Jorge vai ficar assim, dobrado, com outros dos presentes a segurarem-lhe a mão e a ouvirem as palavras que ele vai dizendo baixinho.
De repente, chega o Zé da Risada, que incorpora em Jose. Também ele precisa de um chapéu de palha e de uma bengala, mas, ao contrário do Preto Velho, está cheio de energia, pede vinho e cachaça (há-de beber imenso durante o tempo que está presente), canta e dança, batendo com os pés no chão, e fumando ao mesmo tempo. É o senhor da casa, e por isso domina todas as atenções. Fala muito, explica quem é, dá informações e indicações, promete que depois dele virá a Maria Navalha.
Por esta altura, a pequena sala virou uma autêntica confusão. Há uma enorme energia ali concentrada, e todos parecem possuídos por essa energia, que os faz cantar e dançar. Finalmente, chega a entidade mais aguardada. Zé da Risada avisa que vai embora, mas que deixa um pouco de vinho para Maria Navalha. E eis que ela faz a sua aparição.
Alguns dos presentes limpam o rosto afogueado e suado de Jose, ele senta-se na sua cadeira habitual, num dos cantos da sala, o corpo é percorrido por um estremeção, e é rapidamente auxiliado a mudar de roupa. Maria Navalha exige roupas muito especiais, por isso vem uma saia florida, que Jose prende também debaixo dos braços, e panos coloridos para amarrar à cabeça. Pega numa rosa vermelha e prende-a na borda da saia, junto ao peito. Pede perfume. Os gestos mudam, a voz também. O show de Maria Navalha vai começar — e ninguém sabe quando irá acabar.
Ela não dança tanto como os outros. Prefere ficar sentada na cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro (às vezes três de cada vez, virando-os ao contrário e metendo-os acesos na boca), fala muito, conta coisas sobre a sua vida passada, fala de cabarets e marinheiros, dirige-se a cada um dos presentes e cumprimenta-o. Alguém diz que o facto de a entidade reconhecer as pessoas revela um “estádio superior” de incorporação. Maria Navalha vai ficar bastante tempo, pede para falar a sós com vários dos presentes, avalia as personalidades, faz considerações sobre os desejos e problemas de cada um. Fuma continuamente. E bebe cachaça.
Passa-se talvez uma hora (por esta altura já ninguém tem bem a noção do tempo), e por fim Maria Navalha anuncia que vai preparar a sua saída. Alguns dos participantes foram até lá fora, a um pequeno espaço construído recentemente, mas com os tijolos de betão ainda à vista (a tal pequena casa à esquerda que víramos à chegada). É a Casa de Exú, geralmente usada no final dos rituais. Jorge, que entretanto desincorporou o Preto Velho, é agora uma Pomba Gira das Sete Encruzilhadas, que, no interior, lança álcool contra as paredes, pegando-lhes fogo de seguida.
Aqui temos apenas a luz das velas, através da qual vemos as estátuas de mais algumas entidades, paus, garrafas e outros símbolos espetados numa espécie de canteiro elevado com terra. O espaço é apertado e mal cabemos todos lá dentro. As velas que cada um passou pelo corpo, para levar as energias negativas, são postas a arder, e as garrafas que também foram passadas pelo corpo de cada um são partidas contra a parede.
É daqui que Maria Navalha vai partir. Mas neste momento ainda está na casa grande, onde espalhou álcool pelo chão, queimando a imagem de um galo, e passando com os pés sobre as chamas, enquanto canta. Depois sai para o exterior, seguida pelos outros, e na Casa de Exú lança o conteúdo dos últimos frascos de álcool nas paredes, pega fogo, fuma um último cigarro, despede-se e desincorpora. Duas pessoas amparam Jose. A cerimónia terminou. É quase meia-noite.


É na Casa de Exu que, no meio do fogo, a cerimónia termina
Quem acompanhou tudo, e quem convidou a Revista 2 para estar presente neste ritual, foi o antropólogo brasileiro Ismael Pordeus Jr., o maior estudioso da passagem das religiões afro-brasileiras para Portugal, e daí para outros países da Europa, onde estão também a ter grande sucesso, e autor dos livros Uma Casa Luso-Afro-Brasileira com Certeza (publicado em 2000), ePortugal em Transe, editado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa em 2009.
Nestas obras, Pordeus, que foi professor na Universidade Federal do Ceará, no Brasil, debruça-se sobretudo sobre a chegada da Umbanda a Portugal e conta a história do nascimento dos primeiros terreiros. Mas nos últimos tempos, a atenção do investigador tem-se centrado na chegada — bem mais recente — do culto da Jurema, sobre o qual foi lançado no Brasil o livro Jurema Sagrada do Nordeste Brasileiro à Península Ibérica, de Arnaldo Burgos/ Obá Tòwgún, organizado e apresentado por Ismael Pordeus.
Para conseguirmos entender o que acabámos de ver, é importante perceber o que distingue Candomblé, Umbanda e Jurema, sendo que todas elas se entrecruzam e influenciam mutuamente. O Candomblé tem origem nos cultos animistas de África, faz o culto dos orixás, e foi levado para o Brasil pelos escravos africanos a partir do século XVI, tendo ganho uma enorme difusão depois do fim da escravatura.
Já a Umbanda é uma religião que tem dia e local de nascimento: surgiu no dia 15 de Novembro de 1908 durante uma sessão da Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, através de um médium, Zélio Fernandino de Moraes, que, dizendo ter encarnado o Caboclo das Sete Encruzilhadas, estabeleceu as bases do novo culto, que mistura orixás e santos.
Por fim, temos a Jurema, muito baseada nos estados brasileiros de Paraíba e Pernambuco, e que tem no centro o culto feito primeiro pelos índios (muito antes da descoberta do Brasil) e depois pelos caboclos (descendentes do cruzamento dos índios com os brancos) à árvore da jurema. Nasce neste contexto um culto do caboclo que é apropriado também pelos negros, e que tem características particulares no meio deste universo, relacionado, entre muitas outras coisas, com a existência de sete cidades encantadas, o uso do fumo para a comunicação com as entidades, e ingestão de uma bebida sagrada feita com a casca da jurema.
À medida que esta religião indígena se espalha, vai ganhando elementos de outras, nomeadamente da católica, incluindo nos seus cultos santos, santas, Jesus e outras figuras do universo católico (diz-se até que a árvore da Jurema terá protegido a sagrada família dos soldados de Herodes na fuga para o Egipto), e também práticas espíritas vindas da Europa. Ganha também elementos das religiões africanas. Surgem assim no culto da Jurema, para além dos Caboclos iniciais, os Pretos Velhos, e os Exus e Pombas Giras.
A primeira destas religiões a chegar a Portugal foi a Umbanda, conta Ismael Pordeus, cuja investigação se centra nesse processo de transnacionalização das religiões afro-brasileiras. Ainda hoje é a mais forte, com cerca de 40 ou 50 terreiros espalhados por todo o país, enquanto o Candomblé tem vindo a crescer mas tem apenas uns 12 ou 15 terreiros, e a Jurema — que chegou em 2004, via Espanha, com a instalação de um terreiro no Cadaval — tem apenas dois. (Também no Brasil a Jurema tem uma dimensão muito menor do que a Umbanda, que é praticada em todo o país).
“A Umbanda é montada no Brasil no início do século XX, se separando da tradição afro, e se mesclando com todas as migrações do final do século XIX, dos restos da revolução industrial na Europa, polacos, franceses, irlandeses, que chegam ao Brasil com as suas crenças”, explica o investigador.
“Esta nova religião vai tomando um grande impulso, mas durante o tempo da ditadura é objecto de grande repressão, que nenhum antropólogo relatou tão bem como Jorge Amado em A Tenda dos Milagres. Aí pelos anos 40, começam a ter teólogos, e embora deixando de lado a memória tradicional africana, ainda pegam elementos dessa prática religiosa e misturam-nos com o espírito kadercista [espiritismo vindo da Europa], e a umbanda torna-se também uma prática filosófica e uma caridade. Nos anos 50, já têm programa de rádio, editam uma revista de Umbanda e criam uma união-federação de vários terreiros.”


Maria Navalha caminha sobre o fogo
Já com uma enorme força, a Umbanda atravessa fronteiras, para o Uruguai e a Argentina, mas também para Norte, em direcção aos Estados Unidos. E nos anos 70 atravessa o Atlântico, chegando a Portugal. É essa história que Ismael Pordeus conta no seu livro Portugal em Transe, onde explica que são sobretudo as mulheres, portuguesas que tinham imigrado para o Brasil e que regressam a Portugal, que trazem o culto. O primeiro terreiro de Umbanda abre em 1974, na Calçada Salvador Correia de Sá nº 1, em Lisboa, pela mão de Virgínia Albuquerque. “Tive a honra de conhecer essa senhora, de Vila Nova de Gaia, que nos anos 50 imigrou para o Brasil, onde foi iniciada, casou-se com um português, e pelos estados de aflição convergiu para essa religião. Abriu, com o marido, uma ervanária, acumularam capital e transferiram-se para Portugal”, recorda o antropólogo.
“Quando abri o meu terreiro e comecei a fazer sessão de Pretos Velhos, todas as quartas-feiras, a notícia logo se espalhou e vinha gente de todos os lados para ver a novidade”, contou a Pordeus esta mulher que fez a iniciação das quatro primeiras mulheres em Portugal, Mariazinha, Conceição, Mariana e Albertina. Entre as primeiras iniciadas estava também Ema Casimira — a mesma Ema de que falamos no início deste texto, que na casa de Jose, em Azeitão, incorporou o Tranca Ruas. Mais tarde, Virgínia Albuquerque mudou-se para uma cave em Benfica, onde instalou o Terreiro de Umbanda Ogum Megê.
“Fui conhecer esse terreiro onde ela tinha sessões à quarta-feira, e recebia uma Maria Conga, uma Preta Velha. Tocava-se o atabaque [tambor] e cantava-se, ela recebia a Maria Conga e as pessoas da plateia vinham-se consultar com ela, sentadas num banquinho. Acompanhei pessoas que se submetiam aos rituais de limpeza, aos banhos”, descreve Pordeus.
“Para poder existir um terreiro tem que haver um líder religioso, que tem que formar uma comunidade”, continua. “Os membros passam por rituais de iniciação, que se vão dar a partir da descoberta dos arquétipos que cada pessoa conduz”. Ou seja, para cada pessoa são identificadas as entidades guias a partir de um complexo panteão, que é diferente no Candomblé, na Umbanda ou na Jurema.
Os primeiros níveis deste panteão estão estabelecidos, mas a partir de um determinado nível “fica por conta da criatividade de cada um”. Vão surgindo entidades, que podem só aparecer num determinado terreiro, por exemplo. O que é muito curioso, sublinha Ismael Pordeus, é que já surgiu em Portugal um panteão próprio, com entidades que não existem nos terreiros brasileiros. “Eu conheci aqui em Portugal uma figura que não existe no Brasil, que é o marinheiro Agostinho, que entrevistei durante um transe. É um marinheiro que foi para a pesca do bacalhau, era alcoólico, passou anos na pesca, fez a costa brasileira, e que diz que quando a matéria subiu, ou seja, quando ele como pessoa morreu, Iemanjá, aquela grande mãe maravilhosa, o pegou e disse ‘você agora vai trabalhar para mim’. E ele vem a Portugal para trabalhar num terreiro e ajudar as pessoas com problemas de alcoolismo. Esta já é uma personagem da Umbanda portuguesa, o que prova que se está montando um panteão português.”
E como se dá o aparecimento de uma nova identidade? Quem a legitima? “Se você chegar dizendo ‘eu sou a Maria da Pedra’ e entrar em transe, e começar a cantar ‘eu sou a Maria da Pedra, eu venho trabalhar, eu jogo pedra em quem me atacar’, uma frase dessa poesia quebrada, todo o mundo aceita e acha legítimo”, afirma. “Fascina-me esse imaginário e essa aceitação do que é diferente. E é isso que faz com que a religião prolifere muito.”
A maioria das pessoas que se aproxima das religiões afro-brasileiras vai à procura de solução para problemas, geralmente ligados à saúde, dinheiro ou amor — os chamados estados de aflição. Depois, há algumas que querem envolver-se mais profundamente, e começam um processo de iniciação, que no caso da Jurema passa por um baptismo e mais adiante, o Tombo de Jurema.
Jose já tem vários filhos-de-santo e está a preparar o Tombo da Jurema para mais três — a cerimónia deverá acontecer ainda este ano, e é feita no exterior, na mata, de preferência junto a uma cachoeira, e pode incluir o sacrifício de um animal. É a consagração máxima depois do baptismo e do calço, as duas primeiras etapadas da iniciação.
Também é no exterior que se celebram, por exemplo, casamentos. Na parede do templo de Jurema está uma fotografia do casamento entre dois homens celebrado por Jose, na praia do Meco, à noite. Na imagem vêem-se os noivos e, junto a eles, uma espécie de luz que parece representar outros dois corpos. Jose diz que este é o maior testemunho da presença dos espíritos que acompanharam a cerimónia.


A filha de Ema momentos antes de desincorporar a Pomba Gira
No livro Jurema Sagrada do Nordeste Brasileiro à Península Ibérica, Pordeus explica o que lhe despertou grande interesse na Jurema: “Um dos aspectos fascinantes são os pequenos versos, as orações cantadas pelos personagens do panteão, onde são narrados feitos, exaltadas personalidades, feitas referências à fauna, à flora, evidenciadas qualidades mágicas e relatadas acções do quotidiano. […] Estes versos, no mais das vezes, se aproximam do quotidiano, da visão de mundo tradicional, e lembram as rimas dos versos encontrados na literatura de folhetos, tão comum nas feiras do Nordeste brasileiro.”
A grande diferença da Jurema é o tal panteão de personagens da má vida. “São prostitutas, ladrões, criminosos, mas sempre numa linha de Robin Wood, que tiram aos ricos para dar aos pobres”. E são representados pela imagem típica do malandro, ele de fato branco, sapato brilhante, passo de dança, dois dedos na borda do chapéu, ela provocante, longos cabelos negros, vestidos vermelhos com grandes decotes, rosa no peito e faca na liga.
E como é que este imaginário, a par dos do Candomblé ou da Umbanda, se integra na cultura portuguesa? É muito interessante a interpretação que faz, a esse respeito, a investigadora portuguesa Clara Saraiva, da Universidade Nova de Lisboa, no seu trabalho Religiões Afro-Brasileiras em Portugal: bruxos, padres e pais de santo. Sublinhando que “a Umbanda coexiste de forma harmoniosa com o Catolicismo”, Clara Saraiva defende que o sucesso destes cultos “pode ser entendido no contexto da atracção por uma nova religião que permite uma maior visibilidade individual, mas ao mesmo tempo não choca com crenças anteriores e formas de resolver crises na vida” (traduzido do trabalho citado, a partir do inglês).
Além disso, escreve ainda a investigadora, ao contrário do Brasil, em que o debate se centrou muito na “pureza” dos cultos (o Candomblé mais negro, a Umbanda mais branca), “em Portugal, a preferência tende para o paradigma da versão ‘ideal’ portuguesa, em que as representações e práticas ligam os três pontos do Atlântico — Portugal, África, Brasil – numa unidade simbólica, criando aquilo a que Pordeus Jr. chama a variante portuguesa dos cultos afro-brasileiros”.
No final da longa noite no terreiro de Azeitão, Jose e os outros participantes despem as roupas usadas no culto, refrescam-se, sentam-se a conversar e a apanhar o fresco da noite nas cadeiras no exterior da casa, enquanto lá dentro se acaba de preparar o jantar. Jose conta que Helena é uma das suas primeiras seguidoras, que o conheceu ainda em Espanha, e que o incentivou a mudar-se para Portugal.
Entre a comunidade que aqui se foi formando, há vários casos diferentes. Jorge, que é médium, conta que sentiu sempre presenças ao seu redor, mas só mais tarde na vida compreendeu e aceitou a sua espiritualidade. Já a filha de Ema, que também é médium, tentou recusar. “Não admitia”, diz. Até que resolveu ceder, e hoje acompanha a mãe na Jurema.
Todos estão calmos e descansados, o que parece improvável depois do que se passou nas horas anteriores. Mas todos garantem que “quando os espíritos vão, levam tudo com eles”. Jose, que tem 44 anos e diz “trabalhar com o Seu Zé [da Risada] desde os 15 ou 16”, conta que às vezes percebe que tem uma queimadura, mas que não se lembra de nada do que lhe aconteceu durante o transe. “Consigo estar 24 horas sem parar e sem comer. Nunca se sabe quando a entidade vai partir, ela não marca relógio. O tempo que a gente está trabalhando lá dentro [no terreiro], é o tempo que estamos descansando. A gente anda como se fosse numa estrada sem fim, anda, anda, anda. Só volto cansado porque é uma estrada longa, de resto não sei mais nada. Dá um vento, eu entro naquele vento, e vou nele.”
É hora de comer o arroz de cogumelos e o frango com limão que a comunidade preparou. O ambiente é de boa disposição e descontracção. No final, pegamos nas rosas vermelhas que Maria Navalha distribuiu por todos, e despedimo-nos ao portão.
De regresso a Lisboa, relemos uma frase de Ismael Pordeus no livro sobre a Jurema Sagrada: “Os homens constroem, no processo do imaginário, os deuses que passam a existir no quotidiano de suas experiências sociais, transformando e reorganizando a sociedade. O imaginário é uma fábrica de deuses.”     


Jose incorpora Maria Navalha, a mestra do terreiro

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