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domingo, 5 de outubro de 2014

IMPOSTOS - PASSOS COELHO X PAULO PORTAS

Lucy e Lucílio.

Lucy e Lucílio.

 
 
 
 








 

 
Logo num dos seus primeiros postseste blogue falou do casal Wagner, que todos os anos tirava uma fotografia sua e a enviava aos amigos, como cartão de Boas Festas. Anos seguidos, de 1909 a 1942. Muitas outras histórias dessas têm aparecido por aqui, como a das Irmãs Brown, que desde 1975 se fazem retratar em grupo. A nossa convidada de hoje, Lucy Hilmer, começou o ritual aos 29 anos, no dia do seu aniversário. Fotografou-se há décadas vestida apenas com um par de cuecas, umas meias e sapatos. E assim seguiu pela vida fora. A cada dia 22 de Abril, ano após ano, fotografa-se da mesma maneira. Com o avançar do tempo, apareceu um homem na fotografia e na sua vida. Depois, um bebé, que mais tarde se torna  uma menina. De seguida é já uma adolescente, que depois abandona a série, para o casal reaparecer a dois, grisalho e de mãos dadas à beira de uma estrada. Na última, surge Lucy sozinha, sem que saibamos porquê. Para o ano, fará 70 anos.
Talvez no corpo de Lucy Hilmer se notem as marcas da erosão do tempo. Em contrapartida, e por mais perfeitas que sejam, as imagens fotográficas nunca conseguirão alcançar o que esta mulher terá ganho em sabedoria e em experiência. Pelo menos, Lucy não perdeu uma coisa: o imenso íntimo querer de se apresentar assim ao mundo, desta forma inocente, desprotegida. «Da maneira mais vulnerável possível», diz ela. Assim o quis em 1974, assim continua até hoje. Entretanto, Lucy Hilmer morreu – melhor dizendo, uma parte dela. Morreu a idade jovem  e a firmeza dos seios, morreu a criança que o marido trazia nos braços e hoje é já uma adulta, morreram quarenta anos. «É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!», escreveu Séneca, há muitos anos, tantos que fazem séculos. Disse-o num tempo em que não existiam máquinas de fotografar, mas em que a sabedoria humana era igual ou maior daquela que hoje temos.
Lucy Hilmer certamente cresceu em maturidade e experiência. Evoluiu mais ela no tempo de uma vida do que a Humanidade inteira desde os tempos de Lucílio Séneca. Certezas, não temos. Só uma, inevitável: a mostrar estas imagens,  também o Malomil envelhece, assim como quem o escreve e quem agora o lê, neste preciso instante − que, aliás, acaba de passar.

malomil.blogspot.pt

JORGE PALMA -Estrela do mar

Eu so sei viver assim - Fernando Girao

O misterioso CPP... quê? - A “ongue” que o primeiro-ministro criou foi efémera, mas as suas memórias estão bem vivas. Resumimos aqui a sua história.

O misterioso CPP... quê?

A “ongue” que o primeiro-ministro criou foi efémera, mas as suas memórias estão bem vivas. Resumimos aqui a sua história.

No princípio era assim: “O membro fundador Pedro Manuel Mamede Passos Coelho tomou a palavra.” Foi a primeira palavra dita em nome do Centro Português Para a Cooperação (CPPC), fundado na Avenida da Liberdade, em Lisboa, “aos onze dias do mês de Outubro”, de 1996. O acto teve lugar no escritório do advogado Fraústo da Silva, que tinha redigido os estatutos do CPPC a pedido de Passos Coelho, com o qual tinha estado, até cerca de um ano antes, nos órgãos dirigentes da JSD, na condição de presidente do Conselho Nacional de Jurisdição.
Antes do acto fundacional, foi preciso que Passos Coelho conhecesse o “principal mecenas” da organização, o homem que, afinal, tinha tido a ideia, e o dinheiro: Fernando Madeira, dono de 80% de uma empresa de formação profissional , a Tecnoforma. Madeira e Passos conheceram-se, através de amigos comuns. Sérgio Porfírio, então director da Tecnoforma, apesentou à empresa o advogado João Luís Gonçalves, que fora secretário-geral de Pedro Passos Coelho na JSD. Passos veio depois. Num almoço, em Porto Brandão, na margem Sul do Tejo.
“O objectivo era explorar as facilidades de financiamentos da União Europeia para projectos em Angola ou nos PALOPs”, esclareceu Madeira, numa entrevista à Sábado, ideia que já antes transmitira ao PÚBLICO, precisando que esses projectos seriam depois subcontratados à Tecnoforma pela ONG. Nos estatutos, os objectivos são um tudo nada mais nobres: “O apoio directo e efectivo a programas e projectos em países em vias de desenvolvimento através de acções para o desenvolvimento, assistência humanitária, protecção dos direitos humanos e prestação de ajudas de emergência.”
Passos Coelho, em resposta ao PÚBLICO, em 2012, faz a síntese entre o interesse da Tecnoforma e a mais ambiciosa proclamação dos estautos: “Promover a cooperação entre Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa.”
Talvez tenha sido essa diferença de ambição que fez com que, agora, o advogado da Tecnoforma, Cristóvão Carvalho, admita que o CPPC “fechou em 2000, porque provavelmente alguma coisa não correu bem”. Também Passos Coelho, no Parlamento, baixou, 14 anos depois do fim, as expectativas. Afinal, recorda o primeiro-ministro, o CPPC tentou criar uma universidade em Cabo Verde.
Porém, Madeira recordou, à Sábado, uma história diferente. Afinal, a tal ideia para Cabo Verde não era nem do CPPC, nem de Passos Coelho. Fora-lhes transmitida por João de Deus Pinheiro, na altura Comissário Europeu, numa reunião em Bruxelas: “Fomos lá apresentar o CPPC, o que nos propúnhamos fazer e saber da sensibilidade dele, nomeadamente que possibilidades de financiamentos havia para os PALOPs. E o João de Deus Pinheiro até nos deu logo uma ideia, dizendo que a Comissão Europeia estava a pensar num projecto para Cabo Verde, que era a criação de um instituto para formação de funcionários públicos. E que este instituto deveria servir também para formar pessoas para os outros PALOPs porque os quadros deles da administração pública eram muito deficitários. Disse-nos ainda que seria bom que criássemos um instituto em Cabo Verde e que a Comissão Europeia estava disposta a apoiar financeiramente uma coisa dessas.” Falhou…
Não sem que os dois, Madeira e Passos, acompanhados por Paulo de Carvalho (o cantor) ainda tivessem visitado o arquipélago africano e Fernando Sousa, um antigo deputado do PS que era presidente da Assembleia Geral do CPPC e a quem a Tecnoforma entregou um BMW 1600, também lá tivesse ido várias vezes com o mesmo objectivo. Contudo, os três únicos projectos daquela ONG que o PÚBLICO conseguiu identificar foram desenvolvidos em Portugal entre 1997 e 2000. Prendem-se com a “integração socioeconómica de grupos mais desfavorecidos” e foram financiados em cerca de 137 mil euros pelo Fundo Social Europeu (FSE) e pela Segurança Social portuguesa.
A passagem de Passos Coelho por esta associação não é referida nos seus currículos e não consta do seu registo de interesses na Assembleia da República. Quando essa ONG foi criada, Passos Coelho era deputado em regime de exclusividade. “Trata-se de um assunto a que, na altura, não atribuí relevância especial, mas que não constitui segredo nem pretendi que o fosse”, escreveu Passos Coelho em 2012 em resposta o PÚBLICO, para justificar a não inscrição no registo de interesses, obrigatória, das suas funções no CPPC. E acrescentou: “Desconheço qual a data da cessação da actividade do CPPC.”
Ângelo Correia, Marques Mendes e Vasco Rato também foram fundadores do CPPC. “Ai que engraçado! Então, sem querer, ou por querer, eu estou ligado à Tecnoforma. Olhe que engraçado. Não tem graça nenhuma, mas é a vida!” Foi nestes termos que o antigo dirigente do PSD Ângelo Correia expressou, ao PÚBLICO, a sua surpresa, em 2012. “Dou-lhe a minha palavra de honra que não sei o que isso é.”

"Incantation" by Adam Hurst