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domingo, 7 de setembro de 2014

OLHÃO NA PALMA DA MÃO - JOSÉ BERNARDINO ARTUR UM ARTISTA DE MINIATURAS DA CIDADE DA RESTAURAÇÃO

Vem já de criança a paixão pelas miniaturas, mas certo dia, “há um bom par de anos”, José Bernardino Artur viu uma maquete em Faro que o impressionou. Resolveu fazer algo parecido, uma casa térrea algarvia para oferecer como prenda de Natal à mãe. “Foi a primeira que fiz”.
Depois, “fui sempre colocando desafios a mim próprio, e à medida que os superava, fui sempre aumentando o grau de dificuldade”, diz.
“Há muita gente a fazer quadros, há quem faça barcos, mas casas ainda não vi ninguém fazer”, admite. O entusiasmo teve várias fases ao longo da vida, conforme também o tempo que tinha disponível.
Este ano, este pintor de profissão viu-se sem trabalho. Com a construção civil em crise, aproveitou o tempo livre para se dedicar às miniaturas.
“Eu tenho de por isto cá para fora. Às vezes, nem almoço tão pouco. A cada passo que dou, parece que tenho de dar outro e mais outro!”, brinca. As miniaturas são feitas na mesa da sala ou na marquise, já que não tem uma oficina ou um espaço à parte no seu apartamento.
Uma das que acabou de fazer foi o balneário público, junto à estação de caminho-de-ferro de Olhão. Demorou dois meses a construir. Não usa ferramentas, à excepção de um pequeno berbequim eléctrico, “quando preciso de furar alguma coisa”.
Autodidacta, rabisca os detalhes de cada projecto numa sebenta antes de começar. Começa por erguer as paredes. O olho traça a escala. Os materiais que usa casam o engenho com o que há à mão. Peças do dia-a-dia, restos de madeiras ou coisas pequenas como dedais que serão os sinos da igreja matriz que está a construir. Cartão, “pladur” e até bagas e sementes compõem esta arquitectura de réplica, às vezes fiel ao original, às vezes com um toque imaginário para embelezar a peça.
O avô era homem rijo do mar, e a avó vendia pão e trabalhava nas conservas. Vieram de barlavento e em Olhão ficaram, no carismático bairro da Barreta, onde cresceu. O pai jogou no Olhanense, glória antiga. Aliás, um dos trabalhos que se orgulha de ter feito é a antiga sede, que se desmoronou em 2001.
“Ao lado da antiga sede havia uma casa, acho que era também um edifício notável, pois tinha uma tabuleta, na fachada. Foi derrubada para fazer um prédio. Como consequência, a sede do Olhanense ruiu”. José Artur fez recentemente essa casa, para contar a história.
E tem pena de ver este património desaparecer? “Sim, tenho. Eu não gosto nada da arquitectura moderna. As casas hoje parecem caixas, umas em cima das outras, não têm beleza nenhuma. Repare que antigamente, as coisas eram trabalhadas de outra forma, à mão. Os anos passam e as casas antigas continuam bonitas, ainda hoje”, compara.
“Não compreendo porque é cada vez que vou ao estrangeiro, vejo que há gosto em preservar o que é antigo. E nós aqui não valorizamos nada. É tudo para derrubar”, lamenta.
“Não é de admirar que os estrangeiros gostem tanto de Olhão e comprem as casas antigas que ainda restam, de arquitectura tradicional, para as manter. Não derrubam nada para fazer coisas modernas ou apartamentos”, diz.
“Há muitas casas que eu gostava de construir miniaturas, sobretudo das que já não existem. Mas é difícil, porque não há muitas fotografias e quase sempre apenas mostram a fachada principal”, revela.
Quando o Olhanense, seu clube do coração, comemorou o centenário, ofereceu uma maquete do estádio Padinha, tal como era há 100 anos atrás. Está no museu do clube. Mas é das poucas peças com tal previlégio.
À falta de espaço para guardar/ mostrar o seu artesanato, Artur têm trabalhos espalhados em sítios tão inesperados como a montra de uma lavandaria de uma familiar e o escritório onde a esposa trabalha.
Em Maio passado, a agenda Municipal de Olhão dedicou-lhe um destaque. Mas até à data da nossa entrevista, não recebeu nenhum convite para expor, nem temporária, nem permanentemente a sua colecção.
“Sem dúvida que gostaria de ter as minhas casas expostas no Museu de Olhão. Isto faz parte da cidade, da nossa memória, foi tudo feito por um filho da terra. Penso que é mais interessante ver uma miniatura do que apenas uma fotografia na parede”.
Alguns estabelecimentos comerciais fizeram-lhe encomendas de miniaturas: a conhecida tasca popular “Sete Estrelas”, a casa de mariscos “Isidoro” e o pequeno café “Búzio”.
Aprendizes? “Não digo que não apareça para aí um ou outro carola como eu, mas é difícil. A malta nova tem muita tecnologia para se entreter e isto requer muita paciência, muita dedicação, muito gosto para fazer estes trabalhos.”
Próximos projectos? “Quero fazer uma réplica do antigo matadouro de Olhão, antes que o derrubem de vez”, já que este edifício está em muito mau estado, fechado e esquecido.
O chalet João Lúcio também é um objectivo. “Não sei se consigo suportar o trabalho porque é muito intricado, vai precisar muito investimento em tempo e material. Gostava também de fazer o edifício da Câmara Municipal de Olhão”, conclui.







Suecos decepcionados com sistema de educação - Suecos decepcionados com sistema de educação Nenhum outro país europeu confiou uma fatia tão grande da educação dos seus filhos a empresas privadas como a Suécia. No entanto, à medida que o número de ‘friskola’ aumentava, a confiança da Suécia nas escolas com fins lucrativos diminuía.

Suecos decepcionados com sistema de educação




Suecos decepcionados com sistema de educação
Nenhum outro país europeu confiou uma fatia tão grande da educação dos seus filhos a empresas privadas como a Suécia. No entanto, à medida que o número de ‘friskola’ aumentava, a confiança da Suécia nas escolas com fins lucrativos diminuía.
Na zona comercial de Nacka, no Sul de Estocolmo, há um centro comercial que em vez de lojas tem escolas. Na aparência, a Kunskapsgalleria, ou “galeria do conhecimento”, é igual a muitos outros espaços retalhistas com café, restaurante e um átrio amplo e luminoso, visível dos cinco andares. Mas aqui não se vendem produtos, transmite-se conhecimento.
Para os arquitectos da reforma do sistema de educação sueco, esta relação entre ensino e negócio é o modelo ideal para as escolas financiadas pelo Estado, mas com gestão autónoma e independente, conhecidas como ‘friskola’. Vinte anos depois da arrojada experiência que foi abrir a educação pública ao mercado, um quinto dos alunos, ou cerca de 312 mil jovens, frequenta as ‘friskola’. Destes, dois terços estão inscritos em escolas geridas por empresas em vez de cooperativas de ensino ou instituições de caridade, e quatro das 10 maiores organizações educativas são apoiadas ou detidas por investidores em ‘private equity’.
Nenhum outro país europeu confiou uma fatia tão grande da educação dos seus filhos a empresas privadas como a Suécia. Ao longo dos anos, o sistema foi conquistando a admiração dos defensores do mercado livre um pouco por todo o mundo, em particular Michael Gove, ex-Secretário da Educação britânico, que em 2008 declarou que “o Reino Unido precisa de um sistema de educação sueco”. Para os políticos interessados em melhorar as escolas sem aumentar a carga fiscal, o modelo sueco parecia ter tudo para funcionar: além de o leque de escolha ser maior para os pais, as novas escolas ajudaram a aumentar os padrões de ensino e, indirectamente, fizeram com que as outras escolas também introduzissem melhorias.
Nos primeiros anos, as boas classificações pareciam corroborar a teoria sueca em como a concorrência de mercado é a melhor forma de melhorar os resultados, atraindo numerosas empresas para o mercado. No entanto, à medida que o número de ‘friskola’ aumentava, a confiança da Suécia nas escolas com fins lucrativos diminuía.
Os suecos sempre ocuparam os lugares cimeiros nos ‘rankings’ da Educação, mas os mais recentes resultados do Pisa, o programa de avaliação de alunos da OCDE, mostram uma queda significativa nos domínios da leitura, matemática e ciência para um lugar muito abaixo da média no caso das nações desenvolvidas. Os escândalos nas escolas geridas por empresas, a somar aos maus resultados, chocaram a opinião pública e colocaram o modelo com fins lucrativos – que também se estende à assistência social e aos cuidados de saúde – no topo da agenda das eleições legislativas de Outubro.
Jonas Sjöstedt, líder do Partido da Esquerda e potencial parceiro de coligação num futuro governo de centro-esquerda, resume a decepção da opinião pública: “Os suecos acreditavam que a desregulação era a solução para tudo, da gestão dos caminhos-de-ferro à educação dos filhos, mas isso acabou. Há partes da nossa vida que que o mercado não pode preencher”. E aponta o dedo às organizações com fins lucrativos, considerando-as responsáveis pela crise que se abateu sobre o país – a que os suecos chamam “o choque de Pisa”. “Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente.”
Cita vários exemplos de más práticas, que comprometeram a reputação das organizações por trás das ‘friskola’, mas admite que “é mais complicado” estabelecer uma ligação entre os maus resultados do Pisa e o aumento do número de escolas privadas. “Não tem só a ver com maus resultados. As escolas privadas prejudicam o sistema, porque as escolas da rede municipal têm de adaptar-se a um sistema de mercado e muitas vezes perdem os seus melhores alunos”.
Não é fácil arranjar números credíveis para comparar os resultados das ‘friskola’ e das escolas da rede municipal. Segundo a “associação das escolas livres”, a Friskolornas Riksförbund, os alunos terminam o ensino primário com uma nota 10% acima da média nacional. A análise realizada por Rebecca Allen, académica do Instituto de Educação britânico, faz uma leitura diferente: os efeitos positivos das ‘friskola’ foram pouco significativos porque os benefícios se centraram nas crianças de famílias com educação académica elevada.
Bertil Östberg, secretário de Estado das Escolas, reconhece que “a livre escolha acentuou as diferenças entre as escolas” e aponta o dedo aos políticos que introduziram as ‘friskola’, dizendo que foram demasiado ingénuos por acreditarem que essas instituições seriam geridas pelos pais e pelos professores. “Estas grandes empresas são, em muitos casos, detidas por ‘venture capitalists’ e viram na educação uma forma interessante de ganhar dinheiro.”
Um grupo de trabalho estuda a possibilidade de introduzir nova legislação para impedir os grupos de ‘private equity’ de comprarem as ‘friskola’ por não terem interesse no seu êxito a longo prazo. “Para melhorar o sistema de educação é preciso investir na formação dos professores e reforçar as suas competências, e isso leva tempo. Por que iria uma empresa de ‘private equity’ preocupar-se em melhorar os resultados a longo prazo?”.



Exclusivo Financial Times / Tradução de Ana Pina

FESTA DO AVANTE - 2014

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA !
IMAGENS DA FESTA DO AVANTE 2014






















poesia António garrochinho




GATOS - Os gatos podem ser a sombra do sonho que a insónia não nos deixa sonhar

GATOS

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Os gatos podem ser a sombra do sonho que a insónia não nos deixa sonhar

Os antigos egípcios tinham razão. Chamavam-lhes os videntes da noite, reconhecendo a divindade que eles mostram no porte. Eu não me canso de os olhar. Quando era pequeno, brincava com eles, e a minha mãe dizia que era o mais mal comportado do grupo. Depois, conheci muitas «velhas dos gatos», feiticeiras deles rodeadas, que gastam a pequena pensão que recebem em comida para lhes dar, esquecendo-se elas próprias de comer. Vi então que os gatos podem ser a sombra do sonho que a insónia não nos deixa sonhar.

Quando retratou Olympia, Manet pôs-lhe aos pés um gato preto, que olha como se existisse só para isso e com cuja cauda desenha um altivo ponto de interrogação que resume todas as perguntas do mundo. Alberto Giacometti esculpiu «le chat» como se o alongasse para ele vir até nós. A arte, de Leonardo a Picasso, gosta de gatos. E, às vezes, teme-os. De Montaigne a Baudelaire e a Eliot, a literatura também está cheia de gatos. Mallarmé tinha um gato chamado Neige, que (dizia ele) com a cauda apagava os seus versos. O gato de Borges respondia ao nome de Beppo, embora me digam que os gatos devem ter «is» dentro do nome. E, de Mozart a Rossini e a Satie, ouvem-se gatos na música e vêem-se gatos no teatro, no cinema, na fotografia.
Entre nós, Stuart apanhou os gatos famintos e atrevidos do Bairro Alto e de Alfama. Milly Possoz fez deles a sua obsessão e a sua companhia. Fialho ligou-lhes o nome para sempre e Pessoa fez do gato o símbolo da felicidade autêntica, a que não se nomeia. Quem os lê nunca mais esquece aqueles versos que começam: «Gato que brincas na rua/ Como se fosse na cama,/ Invejo a sorte que é tua/ Porque nem sorte se chama.» Agostinho da Silva falava e o gesto da sua mão andava sobre o gato, como um barco sobre o mar. Cesariny, que escreveu o Jornal do Gato, tinha-os em casa e mandava pôr anúncio no jornal quando morriam. Vieira da Silva, que era chamada «bicho» pelo marido, Arpad, deixou a Cesariny um quadro intitulado Mário le Chat. Os surrealistas adoravam gatos e viam neles a liberdade livre de Rimbaud. Que o diga Leonor Fini!

Agora, conto a minha história recente. Ela começa quando uma gata fica sem a dona, que morre. Miava de saudade e de fome pelos quintais e nós demo-lhes comida uma vez. Essa vez foi-lhe esperança de mais vezes e a sua assiduidade à nossa porta passou a ser retribuída com o que ela esperava. Já se disse que não somos nós que escolhemos um gato, é ele que nos escolhe. Assim aconteceu: fomos escolhidos por ela. E por aqueles que a acompanharam. Todos os dias, à hora das refeições, ei-los ali à espera, silenciosos e eloquentes, como o Marcel Marceau que nos acaba de deixar. A gata que descobriu este filão é a única excepção ao silêncio. Mia como quem tem um grito na voz e possui o sentido trágico da vida. Se eu fosse um pouco mais antropomorfista, lembrava-me da Callas ao vê-la. É que ela faz do jardim um palco e, em cada passo, há a certeza do terreno conquistado. Mas, como na Callas, tudo nela converge para uma fuga que não podemos seguir.

Num destes dias, contei sete gatos à minha espera. Protejo-me com este número sagrado e digo que estas coisas não acontecem por acaso.

polegarverde.blogspot.pt


CURIOSIDADES DA HISTÓRIA DE PORTUGAL - A HISTÓRIA DO PAPO SECO OU MOLETE



A história do “molete”

As invasões francesas a Portugal, de que este ano se recordou o segundo centenário da 2.ª, especialmente dirigida à cidade do Porto (Março de 1809), para além da enorme mortalidade e destruição que causaram, também tiveram as suas curiosidades, e deixaram as suas marcas, até na nossa língua.
É o caso do “molete”, pão pequeno que temos agora o hábito de consumir ao pequeno-almoço, ao lanche, ou a acompanhar as principais refeições.
Só tive conhecimento da existência de tal designação no final da década de 1970, quando comecei a viajar com mais regularidade para o Norte.
Na minha região (centro do país) sempre utilizávamos a denominação de papo-seco!
Ora, cá pelo grande Porto a designação usual é molete!
Tenho duas versões, para explicar tal nome.
primeira foi-me contada um dia, num almoço com um antigo Presidente da Câmara de Valongo, que também era licenciado em História, que disse que o nome “molete” vinha directamente da aportuguesação do nome do general francês Moulet, que durante a 2.ª invasão francesa teria estacionado as tropas sob o seu comando, precisamente na região de Valongo.
Os seus serviçais, quando lhe iam comprar o pão, por imposição do General exigiam pães muito mais pequenos do que as padarias daqui tinham (pelos vistos naquele tempo só se fazia e comercializava pão grande). Já que os padeiros eram obrigados a confeccionar pães pequeninos para o general, sempre faziam alguns a mais que também colocavam para venda. As pessoas viam e começaram a questionar que pão era aquele? O vendedor dizia a verdade: é o pão do general Moulet!
Alguns fregueses ao verem, repetidamente, aqueles pães pequeninos, provaram e também se foram habituando a consumi-lo. Gostaram e foram pedindo pão do Moulet, com a repetição, ficou, simplesmente, molete!
2.ª versão, encontrei-a em qualquer sítio da web, achei também interessante e verosímil, porque aponta para a redução do peso, por razões de ordem logísitica, em tempo de “vacas magras”. Aí fica tal qual a vi:
«Apresentado por inteiro ou aos “nacos”, todos nós o comemos e faz parte dos nossos hábitos alimentares diários, com mais ou menos sal, é o pão.
 Há uma variedade imensa de tipos, uma das quais é o “papo-seco”, o qual cá por terras do Porto, é mais conhecido como “molete”.
Quem já não disse e ouviu dizer:
– “Ó Mãiee, dá-m’um molete” Tou co’fome!” – e como resposta – “Ó rapaz, bai à padaria e pede pra t’abiarem meia dúzia de moletes!”
Apesar de ser um vulgar tipo de pão, o molete pode orgulhar-se de ser o mais conhecido, embora a maior parte das pessoas que o comem, não saiba a sua história e o porquê de assim se chamar.


Como é do conhecimento geral, o Concelho de Valongo, no Porto, foi e é uma zona muito importante de panificação e moagem, como são exemplo disso os moinhos de água do Rio Ferreira, ainda existentes, e alguns recuperados. Para além disso, temos o “Pão de Valongo”, vulgarmente conhecido como Regueifa.
 Aquando das Invasões Francesas, em 1809, as tropas invasoras estiveram estacionadas em Valongo, tendo nessa altura havido falta de cereais, pelo que houve necessidade de se fazer racionamento do pão.
A forma adoptada foi a de diminuir ao peso, reduzindo o tamanho do pão para metade.
Essa medida foi tomada pelo General francês que comandava as tropas invasoras, que dava pelo nome de Moulet.
Daí o povo ter baptizado aquele pão com o nome de “molete”, aproveitando o nome do General que “decretou” a diminuição ao peso e ao tamanho do pão, para dessa forma poder alimentar os seus soldados.
E é esta a história dum tipo de pão que é conhecido por papo-seco, mas que cá pelo Porto, embora já a cair em desuso, lhe chamam “molete”.»


viajandonotempo.blogs.sapo.pt



O laboratório do futuro fica no Alentejo? - Tamera, a comunidade de energia solar e amor livre, é um laboratório da nova organização social, económica, política e afectiva, e o ponto de partida da revolução mundial. Mas antes de tudo é preciso aprender a sua linguagem.

O laboratório do futuro fica no Alentejo?

Tamera, a comunidade de energia solar e amor livre, é um laboratório da nova organização social, económica, política e afectiva, e o ponto de partida da revolução mundial. Mas antes de tudo é preciso aprender a sua linguagem.


Uma mulher descalça aproxima-se de um rapaz alto com uma trança. “Preciso de um abraço”, diz ela. O sino toca para o almoço. Três jovens explicam ao grupo que se concentrou na esplanada como cozinharam aquele cuscuz com couve-flor e salada de alface. Mais pessoas vão chegando à grande sala de refeições ao ar livre. Servem-se, antes de se sentarem nas mesas corridas de madeira. A mulher descalça agradece ao rapaz — “És tão bom abraçador.” 
A comida, totalmente cozinhada com sol, está uma delícia. Os habitantes de Tamera saboreiam-na com gemidos de prazer. É um hábito, aqui. Um arrulhar de felicidade acompanhando todos os momentos de agrado, que são muitos. Quando se sentam, quando se levantam, quando bebem um chá, quando olham em redor, os tamerianos fazem “mmmmm, nham”. É um dos elementos da sua linguagem própria, tal como dizer “ele tem boa frequência” ou “isso faz parte do campo morfogenético” ou “aquilo tem um imenso poder de cura”.
Numa mesa de oito pessoas, uma rapariga de olhos verdes faz confissões, ao rapaz à sua frente, sobre a sua vida amorosa. Não a incomoda que todos estejam a ouvir. A certa altura detém-se e depois diz, bastante alto: “E se ele amanhã de manhã me ligar e disser: ‘Tens de escolher. Ou Tamera ou eu!’ O que é que eu faço?”
Os comensais levantam os olhos dos pratos, fitam a rapariga e de bom grado a ajudariam, assim estivessem de posse de todos os dados do problema. Ela fornece-os. “Eu tinha acabado a relação com ele há meses, e pensava que era definitivo, mas ontem ele enviou-me uma mensagem, e eu fiquei tão feliz. Vejam o meu prato. Nem consegui tocar na comida.” E continua, explicando como de repente lhe ocorreu uma maneira de poderem ficar juntos de novo, apesar de ele estar na Estónia e ela aqui, em Tamera, no meio do Alentejo. A rapariga é uma visitante temporária da comunidade, pelo que ninguém a conhece, mas nem por isso deixam de produzir palpites e tiradas filosóficas a propósito do caso, enquanto mastigam alface com couve-flor. “Mmmm. Nham.”

A transparência é um dos lemas de Tamera. Tudo se discute e partilha com a comunidade, dos assuntos práticos aos íntimos. “Os problemas deixam de existir ou ficam muito mais leves, a partir do momento em que os partilhamos”, diz Isabel Rosa, 46 anos, a viver em Tamera há dois e meio. “Vamos aprendendo a tirar as coisas para fora de nós. Vamos perdendo o medo.” Trabalhou em publicidade, em algumas grandes agências, depois como freelancer. A busca de uma vida mais livre e mais autêntica levou-a a várias comunidades na Europa, onde passou temporadas, trocando trabalho por alojamento. Foi nessa fase que passou 15 dias em Tamera. Voltou mais tarde, para ficar. 
É um dos oito portugueses, entre os cerca de 150 habitantes permanentes de Tamera (quase 90 por cento dos quais são alemães). Procurava uma forma de vida alternativa e encontrou-a. Até certo ponto, é possível, num país da civilização ocidental, não estar submetido às leis do mercado, à competição, à mentira e injustiça dominantes, à exploração e à guerra. Não ser cúmplice nem vítima, nem agir contra a Natureza, a humanidade e a nossa consciência. É possível viver fora do sistema. Isabel sente-se bem, sente-se “curada”. De início, pagava os 15 euros mensais exigidos aos “noviços” e que dão direito a alojamento e alimentação. Depois passou ao regime normal, de colaboradora. Trabalha nos serviços administrativos, ajuda nos contactos com os portugueses. Não paga nada e também não recebe (para além de um simbólico pocket money). Em Tamera, não precisa de comprar coisas. Tem dormida, comida, amigos, uma vida cheia e a sensação de estar a participar numa experiência importante, que determinará o futuro dos seres humanos no planeta.

As tarefas são divididas pela comunidade, desde "cozinheiros do dia" aos voluntários para lavar a loiça
É uma vida despojada, que muitos veriam como primitiva, mas que para ela e todos os tamerianos significa uma etapa mais avançada, superior, irreversível. Encontram-se no novo campo morfogenético. Às perguntas ignaras que o repórter, ao seu modo arcaico, vai colocando, Isabu, como lhe chamam em Tamera, responde com um sorriso condescendente: “Nós já não dizemos isso. Já não utilizamos essa linguagem.”
A sineta soa novamente para os cozinheiros do dia fazerem o pedido do final da refeição: “Hello lovely people! Precisamos de seis voluntários para lavar a loiça. Anunciamos que há um bolo magnífico como sobremesa, mas temos o dever e a honra de informar que não será servido enquanto não tivermos os seis voluntários.”
Modelo para o mundo
Tamera é uma comunidade de vida alternativa constituída maioritariamente por cidadãos alemães, situada na zona de Odemira, no Alentejo. Ocupa desde 1995 uma propriedade de 136 hectares chamada Monte do Cerro e assume-se como uma grande eco-aldeia, uma comunidade tendencialmente auto-sustentável em termos energéticos e alimentares, um laboratório de energia solar e permacultura e de novas formas de relacionamento humano, que incluem a partilha comunitária e o amor livre. É definida como Centro Internacional de Pesquisa para a Paz, Modelo para o Futuro, Paraíso em Construção e está organizada no terreno por áreas com funções determinadas, como numa cidade, ou melhor, num país. As ruas de terra batida que levantam nuvens de poeira à passagem dos veículos ligam a Cidade do Sol, a Aldeia da Luz, os reservatórios de retenção de água, o Espaço de Arte, o Ashram Político e, situado no ponto mais alto e central, o monumento e retiro espiritual e simbólico designado por Círculo de Pedras.  
Há dez anos, o Monte do Cerro era uma propriedade árida, em acelerado processo de desertificação, à semelhança do que sucede em muitas outras zonas do Alentejo. Hoje, é verde e fértil, pontilhado por lagos aparentemente naturais, que aspergem frescura a toda a volta. Produz a maior parte dos alimentos que consome e tem potencial para muito mais, segundo os especialistas que aqui investigam e trabalham.
Este é o grande exemplo que Tamera tem para mostrar. A experiência impressionante que faz deste local um modelo. “Paremos aqui. Sintam a frescura!”, diz um dos convidados de Bernd Muller, o coordenador principal da Ecologia de Tamera. O grupo de visitantes, ligado a projectos agrícolas na Índia, é levado por um passeio entre os lagos, para aprender as técnicas utilizadas. Bernd, um alemão de 52 anos e olhos azuis faiscantes, explica com rigor e entusiasmo como funcionam os ciclos da água, como a acção do homem tem contrariado esses ciclos, impedindo a permeabilidade dos solos, levando à desertificação e à miséria em muitas regiões do mundo. E como aqui se respeitou a água, devolvendo-lhe o espaço e a liberdade, para que ela possa retribuir com a sua riqueza e poder curativo.

Parece que estes lagos, ladeados por socalcos verdejantes, sempre aqui estiveram, mas não. A terra era seca, apesar de abundante em chuva no Inverno. A água esvaía-se para outros terrenos, seguindo os declives, transformando o vale numa zona seca, apesar de haver cheias no Inverno. “Esta terra só era produtiva quatro meses por ano”, diz Muller. “Por isso, era preciso importar quase tudo. E o local estava a ser abandonado, como tantos outros nesta e tantas regiões do Sul da Europa.”
Em 2009, fez-se a grande obra. É difícil imaginar o pandemónio que terá sido. Estes pacatos amantes da natureza trouxeram escavadoras, gruas e camiões, e não deixaram podre sobre pedra. Abriram valas profundas, construíram diques e socalcos. Bernd Muller vai explicando com precisão de relojoeiro. Escavado o buraco, ergueu-se o dique de cinco metros de altura, impermeabilizado, numa profundidade de mais de 3,5 metros, com o barro e pedras usados nas primeiras camadas. Por cima, recolocou-se o solo e depois a vegetação. A mesma técnica serviu para os socalcos, construídos em calculado declive, para que a água deslize para o lago, e aí fique retida pelo dique, e entretanto se vá infiltrando no solo adjacente, tornando-o húmido e fértil. “A água nunca salta o dique e encontra o seu caminho”, descreve Bernd, com forte acento poético. “Não devemos contrariar o que a água quer, o que a água gosta. É ela que desenha a forma destes lagos e os canais, sinuosos, que lhe permitem viver.”
A paisagem foi totalmente transformada, com a criação de mais de uma dezena de lagos (deve dizer-se “reservatórios de retenção de água”, porque as regras da União Europeia não permitiriam a criação de lagos artificiais), mas reconstituída segundo os seus próprios processos, com as respectivas camadas de argila, pedras e solo fértil. A água mantém-se agora todo o ano nestes charcos, permitindo o cultivo de árvores e outras plantas nas margens, sem recurso a irrigação.
A obra foi realizada sob a inspiração e supervisão do visionário austríaco Sepp Holzer, um dos inventores do conceito de permacultura, que preconiza a criação de sistemas agrícolas e comunitários sustentáveis. Mas estão presentes outras influências teóricas, como a do australiano David Holmgren, que desenvolveu a teoria dos sistemas sustentáveis, ou de Victor Shauberger, um agricultor austríaco que concebeu técnicas de irrigação baseadas na ideia de que a água é um ser vivo. Bernd di-lo várias vezes, na sua exaltação, a água é um ser vivo, tem certas formas em que gosta de viver, irrita-se se lhe coarctamos os movimentos, provocando inundações, estagna e morre se a forçamos a ficar parada. “A água tem os seus desejos. Se os respeitarmos, se lhe dermos liberdade, ela responderá com um tal vigor e riqueza, que a humanidade inteira nunca mais terá escassez de nada”, remata ele, em palavras que, esvaziadas do fervor poético, talvez deixassem também ir pelo ralo o rigor científico.
A quantidade anual de precipitação em Tamera é idêntica à de Berlim, refere Bernd. “O problema não é a falta de água.” Não há portanto razão para que uma região seja mais próspera do que a outra. “Portugal tem recursos para ser o país mais rico da Europa. E no entanto importa 80 por cento dos alimentos que consome”, acrescenta, numa alusão à eventual incapacidade intrínseca dos seus habitantes, se quiséssemos usar uma lógica reaccionária e obsoleta da linguagem. Nas palavras de Tamera, isto significa que as técnicas aqui usadas podem transformar um deserto numa terra fértil e resgatar da pobreza milhões de seres humanos.
Uma Universidade Solar
Uma riqueza ainda mais óbvia do Alentejo é o sol. Existe aqui a maior exposição solar de toda a Europa. Jurgen Kleinwachter é um cientista de 70 anos que sonha vir a mover o mundo a energia solar. Ele e o pai, Hans, criaram na Alemanha um centro de investigação de astronáutica e energia nuclear cujas invenções viriam a ser usadas nas indústrias bélica e nuclear. A partir dos anos 1980 decidiram dedicar-se apenas à ciência para fins pacíficos e à criação de uma central de energia solar.
“Todos os dias o sol produz energia 15 mil vezes superior à que a humanidade necessita”, diz Jurgen, sentado, com o seu chapéu de cowboy, numa das mesas ao ar livre da Praça do Campo Experimental. Explica como o sol é a origem de tudo, do próprio carvão e do petróleo, usados como combustíveis em fases atrasadas da evolução. Aproveitando a energia directa do sol, o desperdício é muito menor, nada se perde.
Jurgen, que vive na Alemanha e cuja empresa vende painéis solares para aquecimento da água de piscinas e outras funções pouco altruístas, montou em Tamera o seu centro de investigação, em 2001. Que “progride aqui mais rapidamente do que se estivesse ligado a uma universidade”, porque o que se inventa é experimentado e aplicado imediatamente, e exportado para outros lugares onde necessário.
Protocolos com várias universidades permitem estágios e visitas, circulação de investigadores. “O que estamos a criar em Tamera é uma Universidade Solar”, diz Jurgen. Alguns dos seus colaboradores trabalham na criação de um pequeno espelho com uma forma especial, desenvolvida por uma aplicação informática, que permite obter uma temperatura de 1500 graus Celsius.
Mas muitos dos dispositivos criados ou desenvolvidos por Jurgen têm aplicação prática quotidiana em Tamera. No Verão, as cozinhas trabalham com um forno solar. Paul Gisler, o director do grupo de investigação solar de Tamera, mostra a simplicidade de funcionamento do forno. Um grande espelho parabólico acompanha o movimento do sol com a ajuda de um relógio pendular construído com peças de uma velha bicicleta. O espelho concentra os raios de luz na cavidade aberta do forno, que faz ferver um panelão de água em dois minutos. Um pedaço de madeira apanhado do chão fica instantaneamente em chamas, quando Paul o aproxima do ponto de concentração dos raios solares.
Outros espelhos, com recurso a motores Stirling, que utilizam as diferenças térmicas para fazer mover um êmbolo ligado a um pistão, estão ligados a bombas de água ou a produtores de electricidade. O sistema usado na estufa é mais sofisticado. Uma lente em forma de tira ao longo das paredes transparentes faz incidir luz concentrada num tubo por onde circula óleo vegetal. Este óleo quente é usado em motores, ou para cozinhar à noite, ou quando não há luz solar directa. Nos fogões das cozinhas pode ainda ser usado biogás, obtido em reservatórios para onde são conduzidos os dejectos orgânicos, como os restos de comida ou fezes humanas. A fermentação liberta o gás, canalizado para os fogões, além de um líquido fedorento usado como fertilizante. Tudo sem recurso a electricidade exterior ou petróleo, mas apenas a engenho humano e labor de microrganismos na decomposição da matéria. Um verdadeiro projecto multinacional, segundo o comentário de Jurgen, que talvez na linguagem tameriana seja politicamente correcto: “É uma colaboração entre técnicos e cientistas alemães e britânicos e bactérias portuguesas.”

Refeições partilhadas na comunidade que ocupa uma herdade com 136 hectares em Odemira
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Amor e sexo discutidos em comunidade
Tamera quer ser um modelo para o mundo. Não é apenas um local onde se pode viver de forma alternativa. É um laboratório onde se experimenta uma nova forma de viver em sociedade, que pode ser mostrada como exemplo e prova de que é possível e depois imitada em qualquer lugar, até se espalhar pelo mundo inteiro
A auto-suficiência alimentar, usando a permacultura e a correcta gestão da água, e a independência energética com a luz solar são as soluções que Tamera apresenta para a crise planetária. Mas isso não chega. A revolução de que o mundo precisa não se fará apenas mudando as estruturas sociais e económicas. É preciso ocuparmo-nos também das estruturas interiores.
As raízes da violência, dos impulsos de posse e de conquista, que levam à opressão e à guerra, estão na mente humana. Se não destruirmos isso em nós próprios, não vale a pena construir sociedades perfeitas, porque estarão condenadas ao fracasso. A consciência disto é o grande contributo político-filosófico de Tamera e seus mentores, e portanto é necessário, também nesse campo, fazer experiências.
Em simultâneo com as experiências de energia solar e retenção de água da chuva, pratica-se em Tamera o amor livre. Há um paradigma alternativo para os relacionamentos entre as pessoas: a exclusividade afectiva e sexual não é um valor absoluto, a posse não é tolerada, luta-se contra o ciúme. É uma transformação na esfera privada que se consegue eliminando a esfera privada. Transparência e partilha são valores encorajados.
Os assuntos do amor e do sexo são discutidos em comunidade. Nos pequenos grupos de afinidade e também no Plenário, que se reúne todos os dias, e no Fórum, que se realiza uma vez por semana, para falar dos problemas mais importantes. Perante toda a comunidade, na tenda da Aula de Tamera, são apresentadas e discutidas questões relativas à organização, liderança e finanças, abertura ao exterior, os cursos e seminários que decorrem todo o Verão, e também questões íntimas de cada um, como, por exemplo, com quem se tem uma relação e de que tipo é.  Alguém pode comunicar que está numa relação exclusiva com determinada pessoa, ou que vai entrar num período de abertura sexual. Ou pedir conselhos sobre como vencer o ciúme numa determinada situação.
Martin Winiecki, 24 anos, é o coordenador da Escola Terra Nova, um projecto de Tamera que pretende criar as bases filosóficas para a construção da sociedade do futuro. “O nosso pensamento fundamenta-se em três nomes principais”, diz ele. “Karl Marx, na sua ideia de mudar o mundo; Sigmung Freud, no seu estudo do interior humano; e Wilhelm Reich, pela importância dada à sexualidade.”

Os fundamentos ideológicos da nova revolução estão nestes três filósofos, de que os pensadores de Tamera destilaram uma síntese teórica e operativa. “Todas as revoluções precisam de uma teoria”, diz Martin. “Mas ainda não temos um conhecimento definido, acabado. Criamos plataformas de consciência, em que aceitamos diversos contributos. O segredo é integrar num todo linhas que pareciam contraditórias. Por exemplo, convidamos xamãs da América Latina, para fundir conhecimento tribal e científico e tecnológico.”
A mudança vai fazer-se de forma diferente de todas as revoluções do passado. Não se tentará derrubar governos nem combater exércitos. “O conceito é criar Biótipos de Cura. O mundo é uno, holístico e baseado em informação, e a evolução dá-se por saltos, campos de informação…” começa Martin a explicar.
A teoria, desta vez, é do biólogo inglês Rupert Sheldrake, que criou a hipótese dos campos morfogenéticos e da ressonância mórfica. Um dos exemplos clássicos da teoria é este: os macacos que habitavam num certo arquipélago do Pacífico alimentavam-se de batatas. Um dia, um dos macacos lavou a batata antes de a comer, constatando que ela sabia bem melhor assim. Os outros macacos viram a sua satisfação e começaram a fazer o mesmo. Mas quando o centésimo macaco lavou a sua batata, os macacos das outras ilhas, com as quais não havia qualquer contacto, adoptaram o mesmo procedimento. Segundo Sheldrake, existe um campo organizador invisível que faz com que, quando um fenómeno, ou um comportamento, se repete um certo número de vezes, passa a ser regra em todo um universo, ou entre os elementos de uma mesma espécie.
Estações de paz espalhadas pelo mundo
A mudança social vai fazer-se assim, por um fenómeno de ressonância mórfica, em vários aspectos idêntico ao conceito de consciência colectiva, de Karl Jung. É preciso criar biótipos onde se ponha a funcionar o novo paradigma. Quando esses biótipos, como Tamera, forem replicados em número suficiente, o resto da sociedade humana olhará para si própria como anacrónica e absurda, e converter-se-á ao novo modelo.
Em função deste objectivo, Tamera desenvolve várias maneiras de se mostrar ao mundo. Recebem delegações estrangeiras, foi criado um projecto de intercâmbio de conhecimento designado como Campus Global e uma fundação intitulada Grace. Grupos de elementos de Tamera deslocam-se a pontos críticos do planeta, como a Palestina ou a Colômbia, para ajudar a resolver problemas e conflitos. Por todo o mundo estão a ser criadas comunidades idênticas e estações de paz.
Mas Tamera, esta quinta entre a aldeia de Relíquias e Colo, é o Biótipo de Cura I. O novo mundo é suposto começar nesta experiência e nas teses do seu pai fundador, o sociólogo e psicanalista Dieter Duhm, hoje com 72 anos. Foi um dos líderes do movimento estudantil na Alemanha, em 1968, mas cedo se começou a desentender com os companheiros da esquerda marxista. Achava que eles queriam mudar o mundo, mas não eram capazes de se mudar a si próprios. Por isso falharam. Dieter começou a concentrar-se na libertação do indivíduo, antes da emancipação social. Escreveu um clássico: O Medo no Capitalismo, sobre as estruturas da opressão enraizadas em cada um de nós.
Em 1978, Dieter Duhm, com a teóloga Sabine Lichtenfelds e o engenheiro Charly Rainer Ehrenpreis, criaram uma comunidade na Floresta Negra, na Alemanha, baseada no “amor livre”, “ecologia espiritual”, “técnica da ressonância”. A raiz dos males sociais estava no medo e ódio que temos dentro de nós, que se manifesta na violência das relações amorosas e sexuais. 
Irma Knittel, de 70 anos, que é hoje uma das habitantes da Aldeia da Luz, um projecto de arquitectura sustentável à base de barro e palha, era uma dessas militantes de extrema-esquerda que se converteram à ideologia de Duhm. “Eu estava cheia de ódio. Queria destruir tudo. Mas percebi que éramos perdedores, nunca conseguiríamos transformar o mundo”, diz ela, que chegou a ser simpatizante dos terroristas Baader-Meinhoff.
Com base no novo paradigma amoroso, Dieter, Sabine e Charly criaram várias comunidades na Alemanha, até que se levantou, por parte da Igreja, mas principalmente dos movimentos de esquerda, uma onda de criticismo contra eles.

Sabine Lichtenfelds sentada numa das pedras do monumento que mandou construir à imagem do Cromeleque dos Almendres
“Os esquerdistas achavam que Dieter tinha ficado obcecado com a espiritualidade e o amor livre, e deixara de lutar contra a injustiça social e o capitalismo”, conta Monika Alleweldt, 60 anos, responsável pela editora de livros de Tamera, a Verlag Meiga. “Começámos a ser considerados um culto. Os media tiveram nisso um papel determinante. Foi por essa razão que era preciso sair da Alemanha.”
Dieter e Sabine viajaram por todo o mundo, para encontrar um novo lugar. Estão juntos desde sempre, apesar de ambos terem tido casos amorosos no percurso. “Quando aqui cheguei, soube que era o local certo”, diz Sabine, 59 anos, sentada ao crepúsculo numa das pedras do monumento que mandou construir à imagem do Cromeleque dos Almendres, na zona de Évora. “Queríamos um sítio que pudéssemos construir do zero.”
A propriedade Monte Cerro estava à venda e o dono tinha pressa, porque, devido à seca e improdutividade da terra, contraíra dívidas. Sabine falou com um pastor que lhe disse: “Dantes, havia aqui muita água.” Foi preciso decidir rapidamente. Em 1995, nascia a comunidade de Tamera, nome ligado, segundo Sabine, à espiritualidade feminina primitiva da região. “O objectivo de Tamera é mudar o mundo, construindo um novo campo. Provámos que é possível tornar a terra fértil, mas agora temos de mostrar que as novas formas de relacionamento amoroso são a solução. Os esquerdistas não conseguiram nada e o slogan ‘amor livre’, dos anos 60, não era sério”, diz Sabine, que estudou a Bíblia, discutia com Dieter os socialistas utópicos como Charles Fourier e agora dirige o projecto Escola do Amor Global.  “As coisas têm de mudar a partir de dentro. Queremos atrair para cá os jovens da esquerda, para que compreendam. Porque eles manifestam-se para mudar o mundo, mas não têm soluções alternativas. Aqui, temos uma para mostrar”, diz Sabine.
Como se governa Tamera
Dieter e Sabine são a autoridade moral em Tamera, mas não o Governo. Fazem parte do Conselho da Visão, que todos os dias se reúne com o Conselho de Planificação, o Conselho Tecnológico, o Conselho Económico, o Conselho Político, o Conselho da Mulher, etc. Cada um destes conselhos é constituído por três elementos, mas não há eleições para nenhum deles. Nem para os três elementos do Governo, a quem cabem as decisões executivas. Benjamin von Mendelssohn, 41 anos, é o chefe do Governo. Chega de bicicleta para a entrevista. “Sim, chamamos a isto ‘o Governo’, mas há um sorriso no campo da palavra ‘Governo’”, explica ele. A estrutura foi criada há dois anos e meio, porque o Plenário achou que era necessário. Benjamin foi o único que se ofereceu para o cargo.
“Aqui, como o poder não traz dinheiro nem quaisquer benefícios, ninguém o deseja”, explicara Martin. Um pouco como o axioma comunista de que numa sociedade sem classes não faz sentido haver partidos, dir-se-ia numa linguagem desadequada ao novo campo morfogenético. Partidos também não há em Tamera, aliás, embora seja permitido discordar das decisões do Governo. Este anuncia as medidas, no Plenário, e quem discordar, ou tiver uma melhor ideia, põe o braço no ar. “As decisões só avançam quando há consenso. Se eu sinto que há dúvidas, volto a trazer a questão no próximo Fórum”, diz Benjamin. A “oposição” está portanto dependente do que o líder “sente”. O que funciona bem, porque tudo acontece na base da confiança.
Quando, por exemplo, foi decidida a grande obra dos lagos, a maior parte da comunidade não concordava, diz Martin. Mas não fez nada para se opor, porque confiou nos líderes esclarecidos, explica Benjamin. Depois ficou convencida. Ou não tinha como se opor, obstaria quem não domina a nova linguagem.

Teoricamente, é possível formarem-se partidos, ou grupos de pressão a defender determinadas posições, diz o chefe do Governo. Na prática, isso não acontece, porque os consensos e a unanimidade surgem naturalmente no convívio da comunidade. Como todos querem o mesmo, têm as mesmas opiniões. Diz Benjamin: “É uma ilusão acharmos que as pessoas pensam de forma autónoma.” É o corolário da teoria de Duhm. As pessoas têm a violência dentro de si, o ódio e a discórdia, provocado pelos traumas da sua vida e da história da sua sociedade. Por isso entram em conflito umas com as outras. Porque estão condicionadas para isso. “É preciso libertá-las disso. Descondicionar as pessoas”, diz Benjamim. “É isso que fazemos aqui.” Faz sentido, para quem está dentro da linguagem. Os outros membros do Governo são Robert Gasse, o director musical de Tamera, e Vera Kleinhammes, de 30 anos, que é a companheira de Benjamin. E que também é, por coincidência, filha de Sabine e Dieter. Nepotismo? Monarquia? Palavras da velha linguagem. Vera, que dirige o projecto Campus Global, tem viajado por todo o mundo, do México ao Quénia, mas está particularmente concentrada em organizar uma rede de “estações” no Alentejo. “Organizei os vários grupos na região, partindo deste pensamento: quem teríamos de conhecer, para tornar a região autónoma e independente de uma forma muito rápida, se de repente se desse o colapso do sistema político-económico?”
Vera nasceu na comunidade. Para ela, as energias alternativas são uma coisa natural. E o modelo amoroso, também o interiorizou? “Ainda luto contra os ciúmes. Não é fácil. Ele teve outras mulheres, mas eu tenho de aceitar isso. É natural, sendo um homem tão fascinante, que outras mulheres se apaixonem por ele. Mas não tenho medo de o perder, porque passámos por tanta coisa juntos. E o facto de nunca escondermos nada dá segurança.”
Naila von Mendelssohn, de 17 anos, é filha de Benjamin (não de Vera). Naila e Maria Kessler, da mesma idade, apaixonaram-se quatro vezes pelos mesmos rapazes. Nunca se zangaram por causa disso. Levaram o assunto ao Plenário, e aceitaram. “Ambas seguimos a nossa verdade”, diz Naila. “Não é porque ela teve um certo contacto com ele que isso retira valor ao contacto que eu tive.” Maria acrescenta: “Percebi que não tinha razões para me zangar com ela, nem para ter ciúmes. E que devia continuar a seguir os meus impulsos para com esse homem.”
Naila, Maria e Jan Regelansen, de 18 anos, não foram à escola. Estudaram em Tamera e agora não querem ir para a universidade. Não se vêem a viver fora da comunidade. Naila quer ser cineasta, tenciona aprender na Internet. Não é capaz de nomear nenhum realizador de que goste, mas sabe o que quer fazer: “Vivo num mundo tão diferente! Se tivesse um instrumento para mostrar isso…” Numa linguagem imprópria, poderia dizer-se que ela sonha fazer filmes de propaganda do regime. Jan diz que tem passaporte alemão, mas a sua nacionalidade é Tamera.

Paulo Moura (Texto) e Miguel Manso (Fotografia)