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domingo, 17 de agosto de 2014

EM ROTA DE DESPEDIDA - BOA SEMANA !


O PIOLHO - Cinemas onde vi filmes: Salão Lisboa ou o "Piolho"

Cinemas onde vi filmes: Salão Lisboa ou o "Piolho"

ATENÇÃO ! SE QUISER DIMINUIR O TAMANHO DAS IMAGENS BASTA CLIKAR NA MESMA


Cinema Salão Lisboa. 1968. Eduardo Gageiro.


O Cinema Salão Lisboa (o piolho) era um cinema de sessões continuas (dois filmes) e dos mais baratos, onde miúdo 13/14 anos gritei muitas vezes "ò marreco olha o sonoro" e apupei ainda mais vezes quando me parecia que cortavam qualquer coisa. Este cinema e o Olympia era onde passava os sábados e domingos, por serem os mais baratos e os que tinham (acreditava eu naquela altura) mais variedade de filmes.


Páginas sobre o Cinema Salão Lisboa da autoria de M. Félix Ribeiro em 
OS MAIS ANTIGOS CINEMAS DE LISBOA, edição da Cinemateca, 1978.


Cinema Salão Lisboa. 1967. Sid Kerner. 


Planta do Cinema Salão Lisboa e foto da bilheteira da autoria de M. Félix Ribeiro 
em OS MAIS ANTIGOS CINEMAS DE LISBOA, edição da Cinemateca, 1978. 


«A rua do Arco do Marquês de Alegrete hoje em dia confunde-se com a praça Martim Moniz. O nome ficou-lhe do proprietário do sumptuoso palácio, o 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais. Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o largo Silva e Albuquerque e a rua Martim Moniz, e a terceira para a rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual praça Martim Moniz.»

 Cinema Salão Lisboa. 1977. Vasques.


  Cinema Salão Lisboa. 1977. Vasques.


 Cinema Salão Lisboa. 1970. Armando Serôdio.


(Fotos do do Arquivo Fotográfico da CML)

citizengrave.blogspot.pt

RECORDAR AS CHEIAS DE 1967

As Cheias de 1967





Menino em zona de inundação perto de Lisboa 1967. Terence Spencer.

 Parentes de luto, choram vítima de enchente em aldeia perto de Lisboa. 1967. Terence Spencer.

Camponeses carregando um corpo morto após as cheias 
numa aldeia perto de Quintas.  1967. Terence Spencer.


«Noite de 25 para 26 de Novembro de 1967. Em pouco mais de 12 horas a região de Lisboa era atingida por fortes chuvas, que viriam a originar uma das maiores calamidades que se abateram sobre esta área. A subida das águas foi de tal maneira forte e rápida, perante a praia-mar, que ribeiras e esgotos ficaram sem qualquer capacidade para as escoar. Casas, pontes e pessoas foram arrastados à passagem daquela onda destruidora. Às portas da Primavera Marcelista, os dados oficiais controlados pela censura apontaram para 250 vítimas mortais. Todavia, o balanço final terá ascendido a mais de 700 mortos e ficou bem vivo na memória das populações fustigadas.»


Moradores salvam pertences após as cheias. 1967. Terence Spencer.

Um Documento Importante



RELATÓRIO DOS  SERVIÇOS  PRESTADOS POR ESTA 
CORPORAÇÃO NAS INUNDAÇÕES DE 25/26 DE NOV. 1967

A primeira chamada de pedido de socorro foi recebida pelas 21,10 horas para o lugar do Silvado, onde havia várias barracas inundadas e animais em perigo. Saiu a viatura A.P.S.T. nº 2, que embora não pudesse chegar ao local, a sua guarnição conseguiu retirar de uma das barracas 4 vitelas e 2 porcos, tendo ajudado várias pessoas a abandonar o local, visto não ser possível esgotar as aguas, pois que continuava a chover torrencialmente. Esta viatura foi depois para o Bairro Olaio para as caves que se encontravam inundadas, onde nada puderam fazer senão aconselhar os inquilinos a irem para os andares superiores.
Às 22,30 horas começaram as chamadas de socorro para gente que se encontrava em perigo nos seguintes locais: Bairro Espírito Santo, Silvado, Pombais, Póvoa de Santo Adrião, Olival de Basto, Senhor Roubado, Urmeira, Bairro de Santa Maria, Pontinha, Serra da Luz, Famões, Bairro da Barrosa, Odivelas etc. 


VEJA EM BAIXO NO FIM O RELATÓRIO


 Cheia no concelho de Odivelas.


As viaturas começaram a sair por ordem de urgência até ás 23,10 horas como se tratasse de inundações, para nós consideradas normais, mas a partir desta hora verifiquei que o nível das aguas já tinha ultrapassado o pontão dos Pombais e o de Odivelas inundando toda a área.
Às 23,40 estava consumada a grande catástrofe com todas as estradas cortadas para Odivelas, e centenas de pessoas a gritar pedindo para as salvar. Foi difícil e árduo o trabalho de todo o pessoal, e para abreviar os serviços que foram prestados, passo a descrever os salvamentos feitos e que foram possível identificar.
O primeiro salvado foi feito nas cocheiras da Câmara Municipal de Loures na Calçada do Tojal, donde retiramos uma mulher entrevada e que estava prestes a morrer afogada. 
Na Arroja, Rua A nº 20 C foram salvas de morrerem afogadas duas crianças, cuja identidade é a seguinte: Margarida Felicidade de Jesus Basílio de 3 anos e Dina Teresa de Jesus de 2 anos, filhas de Manuel Batista Basílio e de Maria Rosa de Jesus, residentes na mesma morada. Estes salvamentos foram feitos pelo Bombeiro de 3ª Classe nº 14, o qual a nado e ás escuras conseguiu retirar as crianças, pelo que sofreu vários ferimentos, tendo de ser assistido no local pelo Sr. António Ferramenta, com estabelecimento na mesma Rua no nº 10. 
Na Estrada da Arroja foi salvo de morrer afogado o menor de nome António Manuel Santos Leitão, de 15 anos, filho de António da Silva Leitão e de Maria Manuela dos Santos Leitão, residentes na Quintinha da Arroja Letras P.V. r/c. Este salvamento foi feito a nado pelos voluntários Bombeiro de 1ª Classe Nº 2 e pelo 3ª Classe nº 23. 


No lugar do Senhor Roubado foram salvos de dentro do carro Austin 850 FG-58-93, o Senhor Alberto de Oliveira Pinto, sua esposa e seus filhos Lígia Maria Fernandes de 5 anos e Celsio Fernandes de 9 meses, moradores na Estrada de Benfica, 91 -3º Esq. Lisboa. Estes salvamentos foram feitos por meio de espia pelos voluntários Subchefe Arlindo e Aspirante nº 40. Estes mesmos voluntários salvaram no mesmo local de dentro doutro automóvel um casal que não puderam identificar.
No lugar do Silvado e Pombais, onde se encontravam um numero elevado dos nossos voluntários, foram salvas 25 pessoas entre adultos e crianças com o auxilio de escadas de molas e de cima do telhado dum prédio de lº andar e cerca de 25 pessoas de cima de barracas e arvores. Estes salvados foram feitos sobre a orientação do Subchefe Interino Guilherme, 1ª Classe nº 4 e Aspirantes nºs. 53-56-61-63-64 e MP 58, Auxiliares nºs 6 e 7 e Aspirantes 43, 58 e Auxiliar nº 13, os quais com risco da própria vida conseguiram estes salvamentos. Não foi possível fazer identificações, visto serem tantas pessoas a pedirem socorro.


Dezenas de crianças perderam a vida nas cheias de Novembro de 1967.


O Bombeiro de 1ª Classe nº 5 conseguiu salvar de cima de uma barraca junto ao Externato Caravela o senhor Lageira, digo António Duarte Lageira Lemos de 33 anos de idade, que perdeu a sua mulher e dois filhos que não conseguiram resistir até á chegada dos socorros. Neste salvamento colaborou o auxiliar nº 14 e o Cadete nº 5.
ás 23,40 horas com todo o pessoal e material em serviço e tendo verificado ser necessário mais material, especialmente barcos de borracha e pessoal, pedi auxilio ao B.S.B. o qual não pode comparecerem em virtude de também em Lisboa se verificar grandes inundações e ter também todo o pessoal e material em serviço. 
Como a situação continuasse a agravar-se e como o meu Quartel só tem uma linha telefónica que aliás estava sempre impedida com pedidos de socorros, resolvi ligar para o Governo Civil de Lisboa pelas 0,10 horas, pedindo ao Sr. Oficial de serviço Capitão Galhardas a quem comuniquei a situação, para solicitar á Força Aérea um Helicóptero para acudir a tanta gente que ainda se encontrava em perigo e mais solicitei para pedir aos Fuzileiros Navais para me virem ajudar. Este Oficial que me prestou um auxilio relevante, manteve-se a partir daquele momento sempre em contacto comigo.

Às 0,40 horas começou a chegar ao meu Quartel os salvados, quase todos em trajos menores, os quais em principio começaram a ser vestidos com roupas dos nossos voluntários e a quem foram prestados os primeiros socorros, dando-lhes café quente etc. etc.
Às 4,00 horas da madrugada do dia 26, começaram a chegar cadáveres de homens, mulheres e crianças, que ficaram depositados no nosso Quartel. 
Às 5,30 horas da manhã compareceram os Fuzileiros Navais, comandados pelo Snr. Aspirante Santos Silva e 45 praças que carregaram desde a Calçada de Carriche até ao nosso Quartel 4 Barcos de Borracha.
Em colaboração com o pessoal deste corpo de bombeiros, começaram a fazer pesquisas, tendo recolhido 52 cadáveres.
Às 16,00 horas estavam depositados no nosso Quartel 61 cadáveres. A identidade das pessoas salvas e assistidas no nosso Quartel é a seguinte: 
Carlos Chivita, Madalena Silva, José da Fonseca, Aurora de Jesus, Maria Júlia e Filhos, António Rosário, António Manuel, Carlos Alberto Andrade, António Silva, Rosaria Mola Capitão, Manuel da Fonseca, Aurora Ferreira e filhos, Fernando Garcia, esposa e filhos, Maria Rosa, José Ferreira, Deolinda Fonseca, João Jesus Lopes e filhos, José Porto, António Nunes, João Vareta, Joaquim Mendonça, Carlos Manuel, António Fernandes, José Firmino, João Brito, Elisa Cunha e filhos e Manuel Antunes.
Por não terem para onde ir, estas pessoas ficaram alojadas na nossa camarata e em macas no parque de viaturas, onde se fez uma divisão entre os vivos e os mortos.
O nosso corpo auxiliar feminino (que estava em organização) , montou uma cozinha e serviu durante 4 dias alimentação a todas estas pessoas, e graças ao auxilio que nos foi prestado pelo povo, foi possível vestir toda esta gente e alimenta-la até serem transferidos para a Paróquia de Odivelas, onde o Pároco Sussano montou uma camarata improvisada também.


Pombalinho, zona de Santarem.
Foto encontrada na net


No dia 26 com receio de epidemia motivada pela permanência dos cadáveres dentro do Quartel, pedi aos Serviços da Assistência para junto da Direcção Geral de Saúde providenciarem as medidas de segurança, o que foi prontamente atendido, tendo no dia 27 a Direcção Geral de Saúde enviado pessoal e material que no nosso Quartel começaram a dar as vacinas.
Dos cadáveres depositados no Quartel, só dois foram entregues ás famílias, tendo todos os outros sido transportados para o Instituto de Medicina Legal.
Nestas inundações ficamos com todas as viaturas danificadas e perdemos o nosso Auto-Pronto Socorro Tanque nº 2, que por motivo de ter ido na enxurrada em Olival de Basto, ficou praticamente sem possibilidades de recuperação.
O nosso trabalho continuou nos dias seguintes, já com a ajuda de várias corporações, na remoção de terras, viaturas, animais mortos e pesquisas de sinistrados. Tendo nestas pesquisas encontrado mais 3 cadáveres. 
Os serviços de Saúde estiveram a cargo do Exmo. Senhor Dr. Rogério Proença, Dr. Vamona Sinari e as Enfermeiras D. Ivone Patrocínio e D. Maria Eugénia e os Enfermeiros Senhores 2º Sargento da C.V.P. Manuel Caldeira, Manuel Monteiro Fernandes Palha e José da Conceição Emídio, que desde a madrugada do dia 26, prestaram assistência aos sinistrados dentro do nosso Quartel.

Quartel em Odivelas aos 27 de Novembro de 1967 
O Comandante do Corpo 
Fernando de Oliveira Aleixo 


In, http://www.meteopt.com/forum/eventos-meteorologicos/cheias-de-25-de-novembro-de-1967-a-1260.html

Post Original de B.V. Odivelas
RELATÓRIO DOS SERVIÇOS PRESTADOS POR ESTA CORPO - RAÇÃO NAS INUNDAÇÕES DE 25/26 DE NOVEMBRO DE 1967.



A primeira chamada de pedido de socorro foi recebida pelas 21,10 horas para o lugar do Silvado, onde havia várias barracas inundadas e animais em perigo. Saiu a viatura A.P.S.T. nº 2, que embora não pudesse chegar ao local, a sua guarnição conseguiu retirar de uma das barracas 4 vitelas e 2 porcos, tendo ajudado várias pessoas a abandonar o local, visto não ser possível esgotar as aguas, pois que continuava a chover torrencialmente. Esta viatura foi depois para o Bairro Olaio para as caves que se encontravam inundadas, onde nada puderam fazer senão aconselhar os inquilinos a irem para os andares superiores.

Às 22,30 horas começaram as chamadas de socorro para gente que se encontrava em perigo nos seguintes locais: Bairro Espírito Santo, Silvado, Pombais, Póvoa de Santo Adrião, Olival de Basto, Senhor Roubado, Urmeira, Bairro de Santa Maria, Pontinha, Serra da Luz, Famões, Bairro da Barrosa, Odivelas etc.

As viaturas começaram a sair por ordem de urgência até ás 23,10 horas como se tratasse de inundações, para nós consideradas normais, mas a partir desta hora verifiquei que o nível das aguas já tinha ultrapassado o pontão dos Pombais e o de Odivelas inundando toda a área.

Às 23,40 estava consumada a grande catástrofe com todas as estradas cortadas para Odivelas, e centenas de pessoas a gritar pedindo para as salvar. Foi difícil e árduo o trabalho de todo o pessoal, e para abreviar os serviços que foram prestados, passo a descrever os salvamentos feitos e que foram possível identificar.

O primeiro salvado foi feito nas cocheiras da Câmara Municipal de Loures na Calçada do Tojal, donde retiramos uma mulher entrevada e que estava prestes a morrer afogada.

Na Arroja, Rua A nº 20 C foram salvas de morrerem afogadas duas crianças, cuja identidade é a seguinte: Margarida Felicidade de Jesus Basílio de 3 anos e Dina Teresa de Jesus de 2 anos, filhas de Manuel Batista Basílio e de Maria Rosa de Jesus, residentes na mesma morada. Estes salvamentos foram feitos pelo Bombeiro de 3ª Classe nº 14, o qual a nado e ás escuras conseguiu retirar as crianças, pelo que sofreu vários ferimentos, tendo de ser assistido no local pelo Sr. António Ferramenta, com estabelecimento na mesma Rua no nº 10.

Na Estrada da Arroja foi salvo de morrer afogado o menor de nome António Manuel Santos Leitão, de 15 anos, filho de António da Silva Leitão e de Maria Manuela dos Santos Leitão, residentes na Quintinha da Arroja Letras P.V. r/c. Este salvamento foi feito a nado pelos voluntários Bombeiro de 1ª Classe Nº 2 e pelo 3ª Classe nº 23.

No lugar do Senhor Roubado foram salvos de dentro do carro Austin 850 FG-58-93, o Senhor Alberto de Oliveira Pinto, sua esposa e seus filhos Lígia Maria Fernandes de 5 anos e Celsio Fernandes de 9 meses, moradores na Estrada de Benfica, 91 -3º Esq. Lisboa. Estes salvamentos foram feitos por meio de espia pelos voluntários Subchefe Arlindo e Aspirante nº 40. Estes mesmos voluntários salvaram no mesmo local de dentro doutro automóvel um casal que não puderam identificar.

No lugar do Silvado e Pombais, onde se encontravam um numero elevado dos nossos voluntários, foram salvas 25 pessoas entre adultos e crianças com o auxilio de escadas de molas e de cima do telhado dum prédio de lº andar e cerca de 25 pessoas de cima de barracas e arvores. Estes salvados foram feitos sobre a orientação do Subchefe Interino Guilherme, 1ª Classe nº 4 e Aspirantes nºs. 53-56-61-63-64 e MP 58, Auxiliares
nºs 6 e 7 e Aspirantes 43, 58 e Auxiliar nº 13, os quais com risco da própria vida conseguiram estes salvamentos. Não foi possível fazer identificações, visto serem tantas pessoas a pedirem socorro.

O Bombeiro de 1ª Classe nº 5 conseguiu salvar de cima de uma barraca junto ao Externato Caravela o senhor Lageira, digo António Duarte Lageira Lemos de 33 anos de idade, que perdeu a sua mulher e dois filhos que não conseguiram resistir até á chegada dos socorros. Neste salvamento colaborou o auxiliar nº 14 e o Cadete nº 5.

ás 23,40 horas com todo o pessoal e material em serviço e tendo verificado ser necessário mais material, especialmente barcos de borracha e pessoal, pedi auxilio ao B.S.B. o qual não pode comparecerem em virtude de também em Lisboa se verificar grandes inundações e ter também todo o pessoal e material em serviço.

Como a situação continuasse a agravar-se e como o meu Quartel só tem uma linha telefónica que aliás estava sempre impedida com pedidos de socorros, resolvi ligar para o Governo Civil de Lisboa pelas 0,10 horas, pedindo ao Sr. Oficial de serviço Capitão Galhardas a quem comuniquei a situação, para solicitar á Força Aérea um Helicóptero para acudir a tanta gente que ainda se encontrava em perigo e mais solicitei para pedir aos Fuzileiros Navais para me virem ajudar. Este Oficial que me prestou um auxilio relevante, manteve-se a partir daquele momento sempre em contacto comigo.

Às 0,40 horas começou a chegar ao meu Quartel os salvados, quase todos em trajos menores, os quais em principio começaram a ser vestidos com roupas dos nossos voluntários e a quem foram prestados os primeiros socorros, dando-lhes café quente etc. etc.

Às 4,00 horas da madrugada do dia 26, começaram a chegar cadáveres de homens, mulheres e crianças, que ficaram depositados no nosso Quartel.

Às 5,30 horas da manhã compareceram os Fuzileiros Navais, comandados pelo Snr. Aspirante Santos Silva e 45 praças que carregaram desde a Calçada de Carriche até ao nosso Quartel 4 Barcos de Borracha.

Em colaboração com o pessoal deste corpo de bombeiros, começaram a fazer pesquisas, tendo recolhido 52 cadáveres.

Às 16,00 horas estavam depositados no nosso Quartel 61 cadáveres.

A identidade das pessoas salvas e assistidas no nosso Quartel é a seguinte:

Carlos Chivita, Madalena Silva, José da Fonseca, Aurora de Jesus, Maria Júlia e Filhos, António Rosário, António Manuel, Carlos Alberto Andrade, António Silva, Rosaria Mola Capitão, Manuel da Fonseca, Aurora Ferreira e filhos, Fernando Garcia, esposa e filhos, Maria Rosa, José Ferreira, Deolinda Fonseca, João Jesus Lopes e filhos, José Porto, António Nunes, João Vareta, Joaquim Mendonça, Carlos Manuel, António Fernandes, José Firmino, João Brito, Elisa Cunha e filhos e Manuel Antunes.


Por não terem para onde ir, estas pessoas ficaram alojadas na nossa camarata e em macas no parque de viaturas, onde se fez uma divisão entre os vivos e os mortos.

O nosso corpo auxiliar feminino (que estava em organização) , montou uma cozinha e serviu durante 4 dias alimentação a todas estas pessoas, e graças ao auxilio que nos foi prestado pelo povo, foi possível vestir toda esta gente e alimenta-la até serem transferidos para a Paróquia de Odivelas, onde o Pároco Sussano montou uma camarata improvisada também.

No dia 26 com receio de epidemia motivada pela permanência dos cadáveres dentro do Quartel, pedi aos Serviços da Assistência para junto da Direcção Geral de Saúde providenciarem as medidas de segurança, o que foi prontamente atendido, tendo no dia 27 a Direcção Geral de Saúde enviado pessoal e material que no nosso Quartel começaram a dar as vacinas.

Dos cadáveres depositados no Quartel, só dois foram entregues ás famílias, tendo todos os outros sido transportados para o Instituto de Medicina Legal.

Nestas inundações ficamos com todas as viaturas danificadas e perdemos o nosso Auto-Pronto Socorro Tanque nº 2, que por motivo de ter ido na enxurrada em Olival de Basto, ficou praticamente sem possibilidades de recuperação.

O nosso trabalho continuou nos dias seguintes, já com a ajuda de várias corporações, na remoção de terras, viaturas, animais mortos e pesquisas de sinistrados. Tendo nestas pesquisas encontrado mais 3 cadáveres.

Os serviços de Saúde estiveram a cargo do Exmo. Senhor Dr. Rogério Proença, Dr. Vamona Sinari e as Enfermeiras D. Ivone Patrocínio e D. Maria Eugénia e os Enfermeiros Senhores 2º Sargento da C.V.P. Manuel Caldeira, Manuel Monteiro Fernandes Palha e José da Conceição Emídio, que desde a madrugada do dia 26, prestaram assistência aos sinistrados dentro do nosso Quartel.


Quartel em Odivelas aos 27 de Novembro de 1967


O Comandante do Corpo


Fernando de Oliveira Aleixo

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ARTISTA CRIA RETRATOS REALISTAS DE PESSOAS E ANIMAIS EM PILHAS DE LIVROS USADOS

ARTISTA CRIA RETRATOS REALISTAS DE PESSOAS E ANIMAIS EM PILHAS DE LIVROS USADOS


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Enquanto que muitos ilustradores colocam suas artes dentro de livros, Mike Stilkey prefere usá-los como tela. Chamadas por ele de “esculturas de livros”, as peças são formadas por diversos livros usados, que foram resgatados dos lixos de bibliotecas – por estarem velhos, duplicados ou desatualizados. Ao unir essas peças, ele tem a seu dispor uma bela tela, a qual preenche com sua arte.
Mike Stilkey cria belíssimos retratos de pessoas e animais antropomórficos, que tocam instrumentos musicais e se vestem com roupas “de gente”. As lombadas dos livros, com suas diferentes cores e inscrições, funcionam como um fundo perfeito para a pintura.
Veja o resultado logo abaixo:
mike-stilkey2mike-stilkey3mike-stilkey4mike-stilkey5mike-stilkey6mike-stilkey7mike-stilkey8mike-stilkey9mike-stilkey10mike-stilkey-internaquemequemanda.com.brFonte : Hypeness

AH AH AH AH AH AH AH ! VOCÊ PERGUNTA...MÍRIAN RESPONDE

ILUSÃO - GRAFFITIS EM 3D, ALGUNS EXEMPLOS

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ESTA MODALIDADE NÃO CONHECIA !

Um governo de destruição maciça - é bom começarmos a estar mais acordados porque já pouco resta para servir o bem comum

Um governo de destruição maciça



é bom começarmos a estar mais acordados porque já pouco resta para servir o bem comum

Isabel Cardoso Professora

Pois cá estamos nós, mais uma vez, a viver um Verão absurdo que anuncia mais daquela imoral e inútil austeridade que nos corrói o dia-a-dia. Porque nada como o Verão para dar andamento à agenda política.
É que dar cabo das funções sociais do Estado para termos uma Saúde e uma Educação do “salve-se quem puder”, perder o dinheiro da Segurança Social nos casinos da banca, retornar à servidão, vender a “preço de amigo” o património de todos, continuar a arranjar “empregos para a vida” para os filhos (os “filhos d’algo” de outras eras!) e convencer todo um povo de que não há alternativas e de que os que protestam são um bando de irresponsáveis, não é nada fácil!
 Por isso, o Verão vem mesmo a calhar. O calor dá aquela sensação de que temos o direito de andar distraídos, como se fosse o único direito que temos de defender com “unhas e dentes”.
E dos muitos Verões que me lembro, este tem sido exemplar: um banco foi à falência arrastando a desastres incontáveis, o governador do Banco de Portugal fez de conta que era governante e falou à nação, o primeiro-ministro mantém-se a banhos mas deixou sobre a mesa os cortes que se seguem, o Tribunal Constitucional sentenciou para o futuro que agora não dá jeito, o presidente da República continua escondido, passeiam-se egos inchados pela Europa dita “União” e fazem-se, evidentemente, os já tradicionais e imperdíveis arraiais profanos que isto de muito circo e pouco pão sempre é notícia e entretém o povo.
Não quero perturbar o direito ao descanso a ninguém, até porque só chegaram a esta linha aqueles a quem devo agradecer a paciência de lerem estas reflexões domésticas, mas se quisermos garantir este direito, também ele inalienável, a gozar o Verão e o sossego em família, é bom que comecemos a estar mais acordados porque já pouco resta para servir o bem comum, o cenário é do mais trágico desastre. Tudo está devastado pelas armas destruidoras dos “partidos do arco da governação” que se têm servido da subserviência do “bom povo” para arrecadar gordos proveitos e garantir o seu “direito ao descanso”. E mais não digo porque está calor!

SÁTIRA AO FALSO PONTAL - BAILE MANDADO



BAILE MANDADO

PAISANOS, GUARDA COSTAS E POLÍCIAS À CIVIL...ERAM MAIS DE MIL !

TODOS DE BARRIGA CHEIA, BRONZEADOS, DEPOIS DAS FÉRIAS LÁ VÊM ELES FAZER RENTRÉE POLÍTICA (OU SEJA ARREGAÇAREM AS MANGAS PARA O ROUBO DE MAIS UMA TEMPORADA) TENTANDO MAIS UMA VEZ (E VÃO CONSEGUINDO) ENGANAR OS PACÓVIOS COM MAIS PROMESSAS.

EM QUARTEIRA COM UMA PLATEIA DE CHULOS E DE CROMOS QUE ATÉ TIRAVAM FOTOGRAFIAS RODEADOS DE UM FALSO ECRÃ DE PAPELÃO CHAMANDO PONTAL AO CALÇADÃO DE QUARTEIRA ES
TAVAM GRANDE PARTE DA FINA FLOR DOS SACANAS LARANJAS ALGARVIOS, A COMEÇAR PELO CHULO PROFISSIONAL E GRANDE TRAIDOR DE TODAS AS ASPIRAÇÕES DO ALGARVE, O BORRA BOTAS MENDES BOTA.

PASSOS COELHO O COVEIRO MOR ESGANIÇADO FALOU DA REFORMA DA SEGURANÇA SOCIAL, BLA BLA BLA BLA ,FALOU AINDA QUE COM MENOS FORÇA ( A VIDA ESTÁ A CORRER MELHOR) DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E NADA DISSE SOBRE O ESCÂNDALO DO BES.

DO LADO DOS XUXAS O ATRASADO MENTAL SEGURO DE SI MESMO REPLICOU QUE O PS ESTÁ A TRABALHAR NA REFORMA DA SEGURANÇA SOCIAL E COM ASSINATURA ROSA VEJAM BEM !

O GORILA COSTA TAMBÉM GRUNHIU QUALQUER COISA SOBRE O ASSUNTO DA QUAL AGORA NÃO ME LEMBRO TAL A IMPORTÂNCIA QUE DOU A ESTA ALCATEIA DE ALDRABÕES SEM VERGONHA , MEDIEVAIS QUE SÓ SABEM COMER, COMER, DEVORAR AS PÔLPAS DUM POVO QUE JÁ NÃO TEM RIPA DE CARNE AGARRADA AOS OSSOS.

O PARTIDO DAS FRALDAS MERDOSAS (CDS) ESSE VAI LAMBENDO E LIMPANDO TUDO O QUE É A MERDA DOS PARCEIROS, OS DETRITOS E A SUJIDADE DEIXADOS PELA PROPAGANDA LARANJA FAZENDO O SEU TRABALHO DE FAXINA PARA ASSIM JUSTIFICAR OS TACHOS QUE PASSOS COELHO LHES ARRANJOU E A QUE FOI OBRIGADO DEPOIS DAS FACADAS QUASE MORTAIS DO PAULINHO IRREVOGÁVEL.

PREPARAM-SE PARA MAIS UMA CATRÉVA DE DIAS TRISTES NUM PAÍS QUE JÁ NÃO SE RECONHECE E ESTÁ À BEIRA DA MORTE.


António Garrochinho

Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres. Portugal está a ser uma cobaia da Europa, onde se pretende experimentar a funcionalidade de um modelo sócio-económico assente numa política de baixos salários e no atrofiamento do Estado Social.

 Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres.

Portugal está a ser uma cobaia da Europa, onde se pretende experimentar a funcionalidade de um modelo sócio-económico assente numa política de baixos salários e no atrofiamento do Estado Social. Se a experiência resultar, ela será expandida para os países mais pobres da UE.
Para o capitalismo europeu esta é a forma mágica para a economia europeia recuperar a competitividade perdida ao longo da última década, criando-se uma Europa económica a duas velocidades e até, possivelmente, cada uma delas com a sua moeda. O euro forte para os países ricos e o euro fraco para os países pobres. Com uma mão-de-obra disponível e de baixo custo, as unidades produtivas das grandes multinacionais europeias instalar-se-ão nos países do sul, para poderem competir no mercado global com as economias asiáticas, invertendo assim o ciclo autofágico da economia europeia, que vive essencialmente das exportações para os outros países do bloco da UE. A Alemanha, por exemplo, apenas exporta para fora do espaço europeu 40 por cento do total das suas exportações. O declínio da economia europeia, que não cresce, pode ver-se por este exemplo. Antes, a Alemanha exportava as máquinas para a China montar as suas fábricas. Depois, a China começou a construir essas máquinas, com menos custos, para o seu próprio setor industrial. A seguir, a China iniciou a venda dessas máquinas para os tradicionais mercados externos da Alemanha, fazendo-lhe uma forte concorrência, ao nível de preços. Atualmente, a China já vende essas máquinas à indústria alemã. Mas se a Alemanha deslocalizar as fábricas que produzem essas máquinas para Portugal e para a Grécia recupera a competitividade, através dos salários baixos.
Talvez assim se compreendam melhor os objetivos de longo prazo do ministro das Finanças da Alemanha, ao arquitetar os planos de austeridade para os países do sul da Europa, em que se procurou promover unicamente a desvalorização salarial, isentando de quaisquer cortes os rendimentos do capital.
Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres. É o que está a acontecer em Portugal e na Grécia.

alpendredalua.blogspot.pt

O Ministro, Salazar e o poeta

O Ministro, Salazar e o poeta


José Frota*         


1.
Quando Salazar foi empossado pela primeira vez como chefe do  Governo não nomeou qualquer responsável para a Agricultura. A lavoura ficou englobada numa pasta conjunta com o comércio e a indústria chefiada pelo engenheiro Sebastião Garcia Ramires. No âmbito da  mesma  foi criada uma sub-secretaria de Estado  para tratar  dos problemas do mundo rural que veio a ser entregue ao eborense Leovigildo Queimado Franco de Sousa. A fórmula encontrada não surtiu, porém, os efeitos desejados e encontrou mesmo fortes reparos por banda dos lavradores alentejanos. O ditador decidiu então autonomizar o respectivo sector  a nível governativo transformando –o  em Ministério a 24 de Julho de 1933 e promovendo Leovigildo Franco de Sousa ao novo cargo.

À partida pareciam reunidas as condições para a pacificação  da contestação nas terras transtaganas.  Leovigildo pertencia ao grupo dos abastados terratenentes da região. Era filho de José Inocêncio de Sousa, grande proprietário oriundo da concelho de Redondo que ainda novo viera para Évora. Herdeiro de pingues rendimentos, fez-se accionista das principais instituições regionais de crédito. Alma generosa notabilizou-se como protector da  Casa Pia de Évora de que veio a ser,  primeiro, professor e depois director. Como era usual entre os opulentos do tempo, veio a consorciar-se com Maria Ana Braamcamp de Matos Fernandes, da famosa e riquíssima família que era dona de quase metade das propriedades agrícolas do distrito.

Ideologicamente Leovigildo era seguríssimo pois o pai que,  era monárquico e apoiara a ditadura sidonista assim como a eclosão do golpe do 28 de Maio chegando em ambos os períodos à vice-presidência da Câmara Municipal de Évora, o educara na fidelidade aos princípios mais caros de um poder autoritário e musculado sem concessões à vontade ou opinião populares. Depois de ter frequentado o Liceu Nacional de Évora, o jovem rumara a Lisboa para se licenciar como engenheiro agrónomo pelo Instituto Superior de Agronomia.

Pensava ficar por mais tempo na capital quando a morte do progenitor , aos 60 anos, lhe trocou as voltas, fazendo-o regressar a Évora para tomar contar dos negócios da família. Ao tomar conhecimento do seu desejo de regressar a Lisboa, Oliveira Salazar ofereceu-lhe um lugar no Governo que de sub-secretário se converteu depois em Ministro, conforme acima se assinalou. Leovogildo, todavia, estava longe de alinhar com as teses da maioria dos seus pares que vendo as suas produções cerealíferas a declinar, exigiam o apoio e a contribuição governamental (concessão de crédito rural) para a compra de adubos químicos e outros fertilizantes similares que reclamavam por sua vez a substituição de novos equipamentos adequados às novas práticas.

O Ministro não alinhava pela introdução de novos métodos na exploração e revitalização das terras e continuava a advogar a manutenção do método tradicional, mesmo ancestral,.efectuado  a partir dos excrementos animais (boi, cavalo, principalmente), vulgarmente conhecido como estrume, censurando os lavradores por estes desdenharem dos processos naturais, descurarem a limpeza das terras, aplicarem de forma deficiente o afolhamento trienal e não terem cuidado com a selecção das sementes.
2.

A contestação ao Ministro foi-se avolumando gradualmente até rebentar  de forma insólita numa festa de Carnaval de 1934, realizada no distinto e selecto Círculo Eborense. Numa sala repleta de convidados, entre os quais o próprio Leovigildo Franco de Sousa, o poeta João Vasconcelos e Sá, interpretando as queixas dos lavradores, apresentou  ao melhor estilo pícaro  vicentino e de forma bem jocosa (é Carnaval, ninguém leva a mal como se costumava dizer), a seguinte exposição, dirigida ao «Excelentíssimo  Senhor Ministro da Agricultura:

                                    «Porque julgamos digna de registo
                                     a nossa exposição, sr. Ministro
                                     erguemos até vós humildemente
                                     em toada uníssona e plangente
                                     em que evitámos o menor deslize
                                     e em que damos conta da nossa crise.

                                     Senhor, em vão esta província inteira
                                     desmoita, lavra, atalha a sementeira,
                                     suando até à fralda da camisa.
                                     mas falta-nos a matéria orgânica precisa
                                     a terra que é delgada e sempre fraca
                                     a matéria em questão é caca.

                                     Precisámos de merda, senhor Soisa,
                                     Nunca precisámos de outra coisa.

                                     Se os membros desse ilustre Ministério.
                                     querem tomar o nosso caso bem a sério.
                                     se é nobre o sentimento que os anima,
                                     mandem cagar-nos toda  gente em cima
                                     dos maninhos torrões de cada herdade
                                     e mijem-nos em cima também, por caridade....

                                     O senhor Oliveira Salazar quando
                                     venha até nós, solícito, calado,
                                     busque um terreno  que estiver lavrado,
                                     deite as calças abaixo, com sossego,
                                     ajeite o cu bem apertado ao rego
                                     e, como Presidente do Conselho,
                                     queira exprimir-se até ficar vermelho...

                                     A Nação confiou-lhe os seus destinos....
                                     então comprima, aperte os intestinos,
                                     e ai, se lhe escapar um traque, não se importe
                                     quem sabe se o cheirá-lo não lhe dará sorte....

                                      Quantos porão as suas esperanças
                                      num traque do Ministro faz Finanças
                                      e também quem vive, aflito e sem recursos
                                      já não distingue os truques dos discursos...

                                     Nem precisa falar, tenha a certeza,
                                     que a nossa maior fonte de riqueza,
                                     desde as grandes herdades às courelas,
                                     provém da merda que juntarmos nelas.

                                     Precisamos de merda, senhor Soisa.
                                     nunca precisámos de outra coisa,
                                     adubos de potassa ,cal e azote,
                                     tragam-nos merda pura dos bispote
                                      e de todos os penicos portugueses
                                    durante pelo menos uns seis meses.

                                    Sobre o montado, sobre a terra campa,
                                    eles nos despejem trampa
                                    Ah, terras  alentejanas ,terras nuas,
                                    desespero de arados e charruas.
                                    quem as compra ou arrenda oo quem as herda,
                                    sente a paixão nostálgica da merda...

                                    Precisamos de muita merda, sr. Soisa,
                                    nunca precisámos de outra coisa
                                    ah, merda boa, merda fina e da boa,
                                    das inúteis retrtes de Lisboa...

                                    Como é triste saber que todos vós,
                                    andais cagando sem pensar em nós,
                                    se querem fomentar a agricultura
                                    mandem gente com muita soltura

                                    Nós daremos o trigo em larga escala,
                                    pois até nos faz conta a merda rala...
                                    ah, venham todas as merdas à vontade
                                    não faremos questão de qualidade,
                                    formas normais ou formas esquisitas.

                                    E desde o cagalhão às caganitas,
                                    desde a pequena poia à grande bosta,
                                    tudo o que vier a gente gosta,
                                    precisamos de merda, Sr.Soisa,
                                    e nunca precisámos de outra coisa.

Quando terminou já toda a assistência ria, há muito,  rebolada de gozo. Uma prolongada salva de palma seguida de um molho de felicitações envolveu o poeta. O ministro que estoicamente ouviu até ao fim,  esgueirou-se então escarlate de vergonha, raiva  e humilhação e abandonou a sala e a festa. Entretanto o episódio chegou ao conhecimento de Salazar que até lhe terá achado alguma graça e decidiu que era inevitável a substituição  de Leovigildo Franco de Sousa. Não o fez porém de imediato . Deixou passar alguns meses e a 23 de Outubro exonerou-o do cargo. No ano seguinte, em 1935 nomeou-o porém como membro do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos onde se manteve até 1962.
3.
Perguntar-se-á, com toda a razão quem era o poeta João Vasconcelos e Sá e de que privilégios dispunha, para ousar afrontar desta forma directa e corrosiva e vexar, ainda que em lugar privado, o ministro e o próprio Oliveira Salazar sem que aliás tivesse vindo a ser chamado à responsabilidade e punido em conformidade Isto num tempo em que o Estado Novo perseguia sem dó nem piedade, os adversários do regime autoritário instituído, assim como os seus dirigentes, representantes ou mandatários?
Ora bem, João António de Vasconcelos e Sá não era de berço alentejano. Sendo filho de pais abastados, nascera no Funchal a 9-7-1880 e viera muito cedo para o Continente para ser educado no Colégio Militar, estando destinado à carreira militar .Desde miúdo que revelara um invulgar talento musical a que juntava assinalável veia poética de cariz popular. Fez-se  então compositor musical do género ligeiro, começando a ser procurado para criar quadros revisteiros pois agudeza crítica e espírito de humor eram predicados de que igualmente era possuidor.
Ao início do novo século, apenas com 20 anos. ganhou notoriedade nacional ao compor a célebre canção, ainda hoje bem conhecida, “ Margarida vai à fonte” que obteve extraordinária popularidade em todo o país. Era então um jovem alegre, bem disposto e de uma simplicidade desconcertante cujo comportamento estava longe do estilo austero e comedido de um futuro oficial do Exército que se veio a tornar em 1908.
Tudo vai mudar na vida de João Vasconcelos e Sá com a implantação da República, que não aceita de forma alguma. Alinhará nas duas primeiras tentativas contra-revolucionárias monárquicas lideradas pelo General Paiva Couceiro que serão repelidas sendo enviado como punição para Estremoz donde transitará para Évora. É aqui que vem a conhecer em 1912 Maria Clara de Mattos Fernandes, prima direita da mulher de Leovigildo e com a qual virá a casar em 1918, já em plano consulado sidonista. Entretanto aderira ao Integralismo Lusitano e colaborava assiduamente na imprensa monárquica, assinando pequenas crónicas mordazes sob o pseudónimo de Dom Tancredo 
Durante esse período conheceu e estreitou relações com os grandes monárqucos alentejanos como António Sardinha, Alberto Monsaraz, Pequito Rebelo Com eles esteve após o assassinato de Sidónio Pais e no período confuso que se seguiu, quando os monárquicos tentaram impedir o regresso dos republicanos ao poder criando a chamada “Monarquia do Norte”, movimento novamente liderado por Paiva Couceiro. No meio da instabilidade geral e no meio da confusão e divisão que reinava entre os republicanos, a insurreição conseguiu subsistir durante mais de um mês. Mas nunca  conseguiu implantar-se no Sul, onde o apoio à Monarquia tinha fraca expressão.
Apesar disso em Lisboa ainda o tentaram. Um grupo de setenta civis e militares subiram ao Forte de Monsanto e hastearam a bandeira da Monarquia encetando contactos com o norte. Perante isto os republicanos conseguiram encontraram uma base mínima de entendimento e decidiram tomar de novo as rédeas do poder. Uma força do Exército bem armada atacou Monsanto e retomou o forte. Os monárquicos, que o eram em escasso número ,foram praticamente dizimados. Pequito Rebelo e Alberto Monsaraz, gravemente feridos , preferiram a capitulação à fuga.
Entre os revoltosos encontrava-se o inevitável João Vasconcelos e Sá, já com a patente de major de Cavalaria, que foi feito prisioneiro. Como outros militares envolvidos na insurreição seria expulso do exército e deportado para a Ilha da Madeira. Por lá permanecerá até ao golpe do 28 de Maio de 1926 na sequência do qual será readmitido no exército e pouco depois reformado.
Liberto das obrigações castrenses regressa em força à actividade teatral revisteira somando êxitos nos teatros da capital, nomeadamente no Avenida e no Trindade. E em Évora assinará juntamente com o capitão Raul Cordeiro Ramos a sensacional revista “As Palhas e as Moínhas” que conhecerá um estrondoso sucesso no Teatro Garcia de Resende” onde esteve em cartaz durante meses consecutivos e foi depois apresentada noutras terras alentejanas e chegou até Lisboa onde de novo alcançou rotundo sucesso.
4.
Porque fora apresentada em privado, abrangia pessoas de uma mesma e poderosa  família afecta ao regime e as queixas eram de alguma pertinência foi decidido esquecer o conteúdo da jocosa diatribe com o assentimento um pouco forçado do próprio ministro. Vasconcelos e Sá fez o possível por recolher as diversas cópias que distribuíra, outras que lhe haviam sido solicitado e das quais se haviam feito muitas outras, algumas das quais, poucas, tinham ido parar às mãos da oposição republicana. Esta porém não lhe conferiu suma importância por considerar que se tratava de um mero arrufo de terratenentes no interior do regime e a resolução dos problemas da agricultura passava por outros caminhos, perdendo assim a oportunidade de explorar em seu favor.
Tentou-se por todas as maneiras fazer desaparecer da memória das pessoas este episódio que ensombrou a história da direita eborense e teve repercussões sérias entre muitos outros lavradores que concordando com o conteúdo discordaram frontalmente da “boçalidade e da ordinarice “ da linguagem utilizada. Inclusive entre a família Mattos Fernandes o ambiente não mais foi o mesmo. Como se costuma dizer houve quem tivesse perdoado mas não esquecido. Por fim o rolar das décadas e a morte dos que o haviam vivido (Vasconcelos e Sá morreu em 1944) ou presenciado, fê-lo  desaparecer praticamente da memória citadina. 
Curiosamente, alguém, quiçá temeroso de que o incidente não viesse a ter registo histórico nos anais da cidade, fê-lo ressuscitar, por volta de 2007, através do envio de algumas cópias, a algumas pessoas que escreviam sobre a história recente da cidade e se interessavam por todos os assuntos que a ela diziam. Eu, que nunca tinha ouvido falar do episódio, fui um dos  brindados, de forma anónima, com o envio de uma dessas cópias, a seco, sem que procedesse   ao seu enquadramento
E a partir daí procurei indagar da veracidade e da consistência do mesmo. Mas não foi fácil. Reminiscências esparsas  foi o melhor que encontrei. Mas consegui vir a saber que o fadista António Pinto Basto era neto de Vasconcelos e Sá e gosta muito de evocar tal descendência incluindo no seu repertório fados-cantigas da sua autoria como “Margarida vai à fonte”  ou “Explicador” («Terras de grandes barrigas/onde só há gente gorda/ às sopas chamam-lhe açordas, à açorda chamam-lhe migas/...) .
E em sessões mais intimistas e familiares o fadista não se exime a cantar, normalmente  de cor e a pedido, a pilhéria do seu avó para gozo e risada geral. Ele mesmo o confessou nestes últimos tempos no mural dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora. Por outro lado tive conhecimento que o prof, Galopim de Carvalho no final de 2007 tinha enviado igualmente para o programa humorístico da RTP-2 “ Sempre em Pé” uma cópia da diatribe que foi declamada pelo actor Víctor de Sá . A proverbial escassa audiência  do segundo canal reduziu-lhe o impacto. Foram muito raras as pessoas que a escutaram. Aqui fica porém o seu registo para conhecimento daqueles que se interessam por Évora  e pela sua história durante o século passado.

*Jornalista e eborógrafo.(indivíduo que escreve sobre Évora)

Fontes impressas e bibliografia

Fontes impressas

- Cópia dactilografada do original do poema transcrito .
-Relação dos 500 militares implicados na insurreição do Forte de Monsanto e posteriormente julgados em Tribunal Militar existente na Biblioteca Nacional /Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
- Revista do 1º. Centenário do Liceu Nacional de Évora, 1941.

Bibliografia

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FRANCO DE SOUSA, Leovigildo, “Subsídios para o Estudo da Cultura do Trigo no Distrito de Évora- Relatório Final de Curso, 1924, Biblioteca Digital do Alentejo.
MARQUES, A.H. de Oliveira Marques, “A Primeira República- alguns aspectos estruturais”,Livros Horizonte, 1975.
MONTE. Gil do, “ Dicionário Histórico e Biográfico de Artistas Amadores e Técnicos Eborenses”, II Volume, Évora, Gráfica Eborense, 1973.
MONTE, Gil do, “ Dicionário Histórico e Biográfico de Artistas Amadores e Técnicos Radicados em Évora, II Volume, Évora, Gráfica Eborense, 1976.
QUINTAS, José Manuel Quintas, “Filhos de Ramires”- As  origens do Integralismo Lusitano”,Lisboa, Editorial Nona Ática, 2004.
QUINTAS, “José Manuel Quintas”, “Os combates pela bandeira azul”. Revista “História”,nº. 10, II Série 1999.
ROSAS, Fernando “Lisboa Revolucionária”, Lisboa, Editora Tinta da China. 2010.
SAMEIRO, António Pedro, “Subsídios para uma História Genealógica de algumas famílias do Alentejo”, Boletim “A Cidade de Évora”, Évora, Gráfica Eborense. 1970
www.cincotons.com