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domingo, 10 de agosto de 2014

IMPRESSIONANTE MANIFESTAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA CHILENO EM APOIO AO POVO PALESTINIANO





veja vídeo









Impresionante manifestación del PC(AP) en solidaridad con Palestina

 
El Partido Comunista Chileno (Acción Proletaria), P.C(A.P), junto a las organizaciones palestinas y chilenas convocantes, encabezaron la marcha que exigió el fin de las relaciones diplomáticas con Israel. Nuestro partido tuvo una destacada participación, tanto en la organización, como en la participación de la misma, demostrando que el P.C(A.P) ha estado siempre, siempre está y siempre estará con la causa del pueblo palestino y los pueblos oprimidos del mundo.
 
¡Porque en la lucha antiimperialista, el P.C(A.P) es vanguardia!
 
 
¡Arriba todos los pueblos oprimidos del mundo!

¡Arriba el pueblo Palestino, que vencerá y el sionismo caerá!
 
 
 
 
 
 
 


http://formacioncomunista.blogspot.com.es/2014/08/marcha-fin-de-relaciones-con-israel.html 
 
Desde ODC expresamos nuestra más sincera felicitación a los camaradas del Partido Comunista Chileno (Acción Proletaria) PC(AP)  por el gran éxito de la marcha y el extraordinario trabajo de solidaridad internacionalista que realizan. Son un ejemplo a seguir para el Movimiento Comunista Internacional. ¡MUCHOS ANIMOS Y ADELANTE A LOS CAMARADAS DEL PC(AP)!


odiodeclase.blogspot.pt

Expedição Irmãos Villas Bôas - 1953 - CONTACTO COM OS ÍNDIOS TXUCARRAMÃE (VÍDEO)

AS FRONTEIRAS INVISÍVEIS DA HERDADE DA COMPORTA - É a maior propriedade privada do país, do tamanho de Lisboa. Agricultores não se cruzam com turistas ou famílias de linhagem

ronteiras invisíveis da Comporta

AS FRONTEIRAS INVISÍVEIS DA COMPORTA


É a maior propriedade privada do país, do tamanho de Lisboa. Agricultores não se cruzam com turistas ou famílias de linhagem

Jacinto desaparece sozinho no cimo de um pequeno monte na Lagoa dos Leites, o sol a morrer nas ondas do mar da Comporta. Leva o balde da rega na mão esquerda carregado de pimentos colhidos na horta. A menos de 100 metros da barraca com telhado de zinco onde guarda as alfaias há uma vivenda de sonho, com grandes janelas de onde se avista uma imensidão de arrozais verdes. A casa, arrendada este Verão a espanhóis, é da família Espírito Santo - dona da Herdade da Comporta, a maior propriedade privada do país. São 12500 hectares de terra, o equivalente a uma Lisboa e meia.
No pátio da casa, primeira fila para o pôr-do-sol da Praia do Pego, há uma mesa posta para oito. Camilla vem à porta. Espera convidados para jantar. "Amigos espanhóis que alugaram casa aqui perto". Não quer dizer como e por quanto arrendou a vivenda. Muda de assunto e fala do trabalho, na área do marketing, em Madrid. Este ano, os 12 quilómetros das praias da Comporta estão cheias de espanhóis, sobretudo madrilenos. Mas a herdade é ainda um segredo bem guardado. "Poucas pessoas conhecem e fazemos questão que continue a ser assim." Os turistas chegam atraídos pelas praias de areia branca, pela tranquilidade e pelo estado quase virgem das paisagens. Javier é o primeiro convidado. Cumprimenta Camilla com um abraço e entrega-lhe uma garrafa da champanhe. "É para o jantar". Jacinto passa por ali, de balde na mão, mas nenhum dos dois dá por ele. Ao pôr-do-sol, o arrozeiro é um homem invisível.

AS FAMÍLIAS QUE FICARAM Leonilde vive a dez minutos da praia, mas não vê o mar há dez anos: "Coisa de gente rica, eu cá nunca tive férias ". A vida nos arrozais foi sempre difícil. Trabalhava-se do nascer ao pôr do sol - fosse em Março, altura da sementeira, ou em Outubro, a época da ceifa. Aos 78 anos, os dias são vagarosos e passar a reforma num dos retiros de férias mais cobiçados da Europa - frequentado por Sarkozy e Carla Bruni, a rainha do Jordânia ou Christian Louboutin - poderia ser sinónimo de felicidade garantida. Ou, pelo menos, passaporte para longos banhos de sol nos areais da Comporta. Leonilde termina com a conversa. "As minhas pernas já não me deixam chegar ao mar". "Então e você já viu o que éramos nós agora na praia ao pé daquela gente?", continua o marido, José Maria.
Há dois anos, o acesso às praias a partir dos Brejos da Carregueira foi vedado. A administração da herdade mandou instalar um portão de madeira, controlado 24h sobre 24h por uma câmara de videovigilância. "Os senhores engenheiros" vieram ter com José Maria a casa e entregaram-lhe um cartão para abrir o portão. O reformado anda com ele na mota, mas raramente lhe dá uso. Pouco sai, aliás, do terreno que o sogro desbravou sozinho há décadas para construir uma barraca de telhado de colmo para abrigar a família. Na altura, viviam centenas de famílias nos Brejos da Carregueira. "A terra era fértil e todos tinham o que comer", recorda José Maria.

Uns morreram, outros desapareceram sem avisar, outros ainda venderam os terrenos à família Espírito Santo. Sobraram quatro famílias, mas multiplicaram-se entretanto as casas de férias de luxo. Leonilde e José Maria foram-se habituando à vizinhança sazonal, embora o contacto seja raro. Poucas vezes falaram, por exemplo, com vizinha do lado. "É uma francesa e diz-se que é a dona da Sapec, mas eu nunca lhe perguntei se é", conta o reformado, que anda desconfiado de que os donos da herdade o querem expulsar dali. "Nós, por sermos pobres e termos aqui as barracas, damos má impressão. Volta e meia vêm cá engenheiros a falar com a gente. Eles não dizem, mas querem-nos tirar de cá", diz José Maria, antes de começar a contar que já andou em tribunal com os Espírito Santo. "Não tinha casa-de-banho e eles não me deixavam construir uma. Construí à mesma e puseram-me no tribunal de Alcácer. Tive de me montar na mota e ir lá uma série de vezes".
A um passo da casa de José Maria está um dos restaurantes preferidos da família de Ricardo Salgado, o "Gervásio". Cristina Espírito Santo - que no Verão do ano passado incendiou a opinião pública com a ironia de que brincava aos "pobrezinhos" na Comporta - aparece, a seguir ao almoço, com um grupo de amigos. Vê o carro do iestacionado à porta do restaurante e já não entra. Desaparece no meio de uma nuvem de pó causada pelas obras que até há bem pouco tempo rodeavam a casa de Gervásio António e que, entretanto, pararam de um dia para o outro.

Na Herdade da Comporta, poucos querem falar ou ser vistos por jornalistas. Até o dono do restaurante pede desculpa, mas não pode conversar. Muito menos sobre os Espírito Santo. Gervásio, ar preocupado, queixa-se vagamente da vida e limita-se a comentar que a Comporta já não é o que era. "Antigamente as férias duravam três meses, agora duram um".
O PADRE, UM CASAMENTO E O CASEIRO Teodemiro e Armando são vizinhos de horta no Carvalhal há pouco mais de dois anos, altura em que dizem ter recebido ordens da administração da herdade para mudarem de lugar de cultivo. Teodemiro é popular na zona pelas abóboras gigantes. "No ano passado chegou a ter aí umas com mais de 40 quilos", conta Armando, que trabalha há 50 anos para os Espírito Santo. Começou por ser resineiro, ainda garoto, mas nos últimos 13 anos tem ajudado a produzir as 263 mil garrafas anuais do famoso vinho Herdade da Comporta. Conta como acompanha todo o processo, desde a poda dos 40 hectares de vinha, passando pela vindima e a entrega da uva na adega, que fica mesmo na aldeia da Comporta.

Ao lado da adega há uma antiga igreja com uma torre sineira. O espaço serviu, durante anos, para receber arrozeiros e agricultores quando chegava a altura de pagar as rendas dos campos. Agora é o balcão do BES, o único da aldeia. As missas de domingo fazem-se nas traseiras, numa igreja que não é propriedade da diocese, mas da família Espírito Santo. A fachada, de frente para a casa principal da herdade, tem inscritas duas palavras: "penitência" e "oração". No largo está estacionado o carro da sobrinha do padre Adalberto, que não reza missa há já algumas semanas porque partiu uma anca. Está a fazer fisioterapia.
O sacerdote vive ao lado da igreja, numa casa também cedida pelos Espírito Santo e tem um único vizinho: Alberto, caseiro, homem de confiança dos donos da herdade e que às vezes até é convidado para os casamentos dos patrões. Esteve até numa das festas mais comentadas na terra. Há mais de dez anos, uma sobrinha de Ricardo Salgado casou na Comporta e o copo de água fez-se ao ar livre, ao lado da igreja. O que as más-línguas da aldeia não esquecem é que dias antes tinha morrido o "Dr. Bernardo", Espírito Santo querido pelas gentes simples da Comporta. A boda de casamento foi de arromba e muitos continuam ainda hoje a fincar pé e a defender que a cerimónia deveria ter sido cancelada por causa da proximidade com o funeral.

"Isso é as pessoas a falarem, eu cá acho que quem cá fica tem é de gozar a vida", contrapõe o caseiro. Alberto começou por ser revolucionário e empunhou bandeiras do partido comunista na juventude. A seguir ao 25 de Abril, os Espírito Santo perderam a herdade, que foi nacionalizada, e alguns chegaram mesmo a estar presos. Tornaram-se figuras impopulares na aldeia. "Dizia-se que eram fascistas e ninguém queria trabalhar para eles", recorda o caseiro. De tal forma que quando um vidro da casa da herdade apareceu partido ninguém se ofereceu para o consertar. "Qual era o mal de lá ir pôr um vidro novo?", pergunta o caseiro. Alberto nunca tinha consertado uma janela, mas ofereceu-se para ajudar e, quando entrou na casa, deu-se conta de que eram precisos mais arranjos. Perguntou se podia deitar mãos à obra. Os Espírito Santo admiraram-se: "A sério que não se importa de nos fazer o trabalho?"
Foi assim que, há 30 anos, Alberto se tornou num dos homens de confiança de umas das famílias mais poderosas do país. Deram-lhe uma casa e um salário. Primeiro junto à adega e, mais tarde, ao lado da casa da herdade, com direito a usar a piscina. Há uns meses, anunciaram-lhe que teria de se mudar porque a mansão ia ser ampliada. Com a queda de Salgado, os planos mudaram e nunca mais se voltou a falar das obras.
Quando os primeiros indícios do declínio do império Espírito Santo abriram os telejornais, as gentes da Comporta ficaram surpreendidas e multiplicaram-se versões sobre o que iria acontecer à terra. Para uns é certo que a herdade vai ser vendida ou mesmo doada para saldar as dívidas. Outros ficaram de queixo caído por saber que "os doutores" tinham casas em tantas partes do mundo. Outros ainda espalharam rumores de que a administração da herdade dera ordens aos agricultores para colherem, mas não voltarem a plantar até ver.
Há menos de um mês, entre duas cervejas numa das esplanadas da terra, um amigo garantia a Alberto que a desgraça estava eminente. "Nem ordenado havemos de ter este mês". O caseiro, homem terra a terra, enervou-se: "As pessoas só falam do que não sabem e o que é certo é que no dia 25 de Julho tinha o dinheirinho na conta." Há dias, cruzou-se com o administrador da herdade, Carloto Beirão da Veiga. Garantiu-lhe que nada vai mudar. "E ele é que sabe das coisas, não é a gente da terra."

AS OBRAS PARADAS Os sobressaltos financeiros da família Espírito Santo já fizeram o primeiro grande estrago na Comporta: as obras que decorriam em vários pontos da herdade pararam em simultâneo e de um dia para o outro. Nos pinhais, à beira das estradas e até no meio das casas de luxo encontram-se retroescavadoras estacionadas, estaleiros abandonados e montes de terra revolvida. Os donos do comércio local, sobretudo da restauração, foram apanhados de surpresa. "A aldeia estava cheia de engenheiros e de operários, eram às centenas", conta a dona de um restaurante, que facturou como nunca em almoços. Por pouco tempo: "Andavam aí uns empregados de uma empresa americana, mas assim que a primeira notícia deu na televisão foram-se logo embora. No mesmo dia".
As obras avançavam a bom ritmo quando o Grupo Espírito Santo (GES) colapsou. Em Abril do ano passado foi lançada a primeira pedra do empreendimento Comporta Dunes Hotéis e Golfe. O projecto, que iria mexer com 551 hectares de terreno, associava o GES à cadeia Aman e prometia transformar a Comporta num destino turístico de referência através de um investimento global de 92 milhões de euros, dos quais 16,4 milhões financiados pelo QREN. O então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, chamou-lhe "o primeiro grande investimento do pós-crise em Portugal". Seriam construídos quatro hotéis, um hotel apartamento, lotes para moradias e um campo de golfe de 100 hectares desenhado pelo arquitecto David McLay Kidd.
A ambição dos Espírito Santo em tornar a Comporta numa referência do golfe é antiga. Em 2010, a herdade candidatou-se à organização da Ryder Cup 2018, a terceira maior prova do mundo, aproveitando o campo de golfe construído às portas da aldeia e ao longo de 145 hectares. Apesar de a candidatura ter sido anunciada com pompa pelo então administrador Carlos Cortês, a Comporta perdeu a corrida e o torneio vai afinal realizar-se em França. Num ponto o administrador da herdade tinha razão: espaço não faltaria para acolher os 300 mil turistas esperados para assistir à competição. São 12500 hectares, 7100 com floresta (mais de 3,5 milhões de árvores plantadas), 1100 hectares de arrozal (que produzem 6500 toneladas de grão por época), 40 hectares de vinha, 100 de rega e, claro, os 12 quilómetros de praias - algumas quase em estado virgem. Os terrenos são férteis para a agricultura, há água em abundância, nas valadas pescam-se lagostins e o mar é rico em peixe.
A coroa portuguesa apercebeu-se do potencial quando, em 1836, incorporou a Herdade na Comporta na Companhia das Lezírias. Mais tarde, em 1925, os extensos arrozais foram vendidos à inglesa Atlantic Company. A família Espírito Santo só chegou em 1955. A seguir ao 25 de Abril, já em 1975, a herdade foi nacionalizada e devolvida aos ingleses. A família Espírito Santo teria de esperar até 1991 para reaver a maior propriedade privada do país.
A RECONQUISTA Alguns, como Josélia Duarte, garantem que a família recuperou e ampliou os terrenos da herdade à custa dos trabalhadores - a maioria nem saberia ler ou escrever. Josélia é filha de pescadores do Cambado e foi dona de um restaurante na Praia da Comporta. Durante mais de 20 anos serviu, no "Golfinho", as famílias mais abastadas do país - que à época já frequentavam as praias da herdade. Em 2001, assinou um acordo para abandonar a casa de madeira, onde trabalhava e dormia. Disseram-lhe que a licença de exploração tinha caducado e que o novo plano de pormenor da zona não permitia que estivesse na praia. Entregou a chave do restaurante em troca de uma casa a estrear no Carvalhal. A câmara de Grândola dava o terreno e a sociedade Santa Mónica, uma das empresas que geriam a herdade, tratava da construção.
Josélia mudou-se, mas 13 anos depois a casa continua por legalizar: "Não tinha um único documento. Achei estranho e em 2010 fui ver o que se passava. Percebi que não não tinha licença de habitação e pedi uma." Pouco tempo depois, conta Josélia, chegou uma carta com uma multa - aplicada por não ter licença. Pelo meio ficou um processo em tribunal porque quando recebeu o T3, a habitação não tinha condições. "Chovia em todo o lado, não havia luz, só ligações directas, o tecto não tinha placa", conta. A Atlantic Company foi condenada a pagar-lhe cinco euros por cada dia até que a casa estivesse finalmente em condições de habitabilidade. "Mas nunca recebi um centavo", garante Josélia, estranhando ainda que na Praia da Comporta tenham sido construídos entretanto dois restaurantes.
Na porta ao lado, vive uma viúva de 84 anos, Silvina Rosária, também realojada. Não sabe ler bem escrever, só desenhar o nome. Bastou para poder assinar, em 2004, um contrato "vitalício" com a Herdade da Comporta, conta. Trocou o terreno onde vivia, nos Brejos da Carregueira de Cima, por 27 mil euros e uma casa nova no Carvalhal. Silvina mudou-se e diz que só depois percebeu que a actual casa não vai ficar para os herdeiros: no contrato, que o consultou, lê-se que a habitação é emprestada e só enquanto a viúva for viva.
TRUFAS NA MERCEARIA Na Comporta há quem não possa com os Espírito Santo, quem os respeite e quem lhes deva a vida. Uns e outros não dão a cara e preferem manter-se longe das polémicas. No minimercado Gomes, até há poucos meses o único da aldeia e que vende foie-gras, trufas e garrafas de Moët & Chandon, os clientes acotovelam-se. O dono, Carlos Gomes, prefere chamar-lhe "mercearia" e conta que, ainda antes do 25 de Abril, os Espírito Santo mandaram fechar as três cantinas que havia na herdade. Permitiram, no entanto, que o pai ficasse com aquele espaço, transformado em minimercado. A conversa flui, até empancar quando perguntamos se se comenta na aldeia a queda dos Espírito Santo: "Não sei nada sobre isso, não quero mesmo falar sobre o assunto e por favor não me pergunte porque eu não sei nada".
AREIA BRANCA O que é certo é que todos querem saber o que se passa. Não só os que vivem na herdade, mas também os que fazem praia nos areais dos Espírito Santo. O dono do quiosque da Praia da Comporta conta que nunca vendeu tantos jornais económicos como este ano. Com ou sem escândalo, nas três estâncias mais frequentadas - a da Comporta, a do Carvalhal e a do Pego - continua a ir-se a banhos, num mar que é conhecido por variar repentinamente de temperatura. A mais selectiva é a do Pego, onde Ricardo Salgado tem uma vivenda. Ao final do dia, Duarte Salgado e os sobrinhos do banqueiro deixam o areal e regressam a casa.
É quando o calor abranda e os veraneantes deixam a praia incomodados pelos mosquitos que Jacinto, 78 anos, se faz à horta. Os seis hectares de arrozal - que lhe custam uma renda de 12 mil euros/ano - não precisam de cuidados hoje. Já a batata branca, que ainda não despontou da terra, tem de ser regada. Um destes dias, Jacinto, filho de arrozeiros e arrozeiro desde os nove anos, desiste da lavoura. Há três anos, a herdade comprava o quilo do arroz a 90 cêntimos. No ano passado, o preço baixou para 30.
Ao fim do ano, acertam-se as contas com os Espírito Santo e o dinheiro da renda é subtraído ao lucro do arroz. Antes de Março, quando arranca a sementeira, Jacinto vai ao banco pedir dinheiro. "Vou ali à Caixa Agrícola do Carvalhal para poder comprar os adubos e os pesticidas", conta. A dívida ao banco é saldada no final da época, com juros que têm variado entre os 10 e os 12%. Mesmo assim, o arrozeiro não desanima e vai-se entretendo com as memórias da mulher, morta há 28 anos. Há tardes em que lhe dá para fazer quadras. "O pobre é como a formiga/ trabalha e nunca descansa/o rico é como o sapo/ só tem barriga, cu e pança", murmura entre dentes, antes de começar a subir o monte. Invisível e com o balde de pimentos na mão esquerda.

Bee Gees - For Whom The Bell Tolls (Tradução)

FORMAS DE VENDER - ANÚNCIOS ANTIGOS DE PORTUGAL - BRASIL E EX-COLÓNIAS

Formas de vender 

Anúncios em Portugal, Brasil e Ex-Colónias


«Mensagens comerciais e campanhas políticas foram encontradas em ruínas da antiga Arábia. Egípcios usavam papiros para criar mensagens de venda e cartazes, enquanto o conhecido panfleto (flyer) de hoje podia ser facilmente encontrado na antiga Grécia e Roma. Pinturas em muros ou rochas utilizadas como propagandas eram outras formas encontradas no tempo antigo e é utilizada até hoje em várias partes da Ásia, África e alguns países da América do Sul. A tradicional pintura nas paredes pode ser encontrada desde expressões artísticas em rochas feitas por populações indígenas que datam de 4.000 AC até pinturas desenvolvidas nos séculos XV e XVI que auxiliavam a divulgação de volantes na época. No século XVII as propagandas começaram a aparecer em jornais semanais na Inglaterra. Esses anúncios eram utilizados para promover livros e jornais, que patrocinavam a imprensa, e medicamentos, que se tornaram muito procurados após algumas doenças terem devastado a Europa.» (In, wikipedia.org)


Cartaz publicitário de Lourenço Marques, anos 1930, restaurado. 
Foto de delagoabayworld.worpress

Anúncio á Farinha 33 nos anos 60. Encontardo em  prosimetron.blogspot.pt

Anúncio de 1911 no Díário de Lisboa.

Anúncios de 1911 no Diário de Lisboa.

Anúncio de 1925 no Díário de Lisboa.

Anúncio de 1929 no Díário de Lisboa.

Anúncio da Eno no Brasil 1940/50. Encontrado em www.anosdourados.blog.br

Anúncio aos cigarros Antoninos em 1972 no Díário de Lisboa.

Anúncio de 1911 no Díário de Lisboa.

Anúncio ao Óleo Fígado de Bacalhau nos anos 60. Foto da net.

Anúncio á Farinha Maizena nos anos 60. Foto da net.

Anúncios aos vinhos do porto Ramos Pinto nos anos 60.
Fotos de santa-nostalgia.blogspot.pt
Anúncio do sabonete Lux com Amália Rodrigues. 1960, encontrado na net.

Anúncio de propaganda ao Café, no Brasil encontrado em www.zazzle.com.br.

Anúncio antigo da Toddy nos anos 60, encontrado na net.

Primeiro e último número do jornal A Pomba. 1976. Expresso.

Anúncio no Diário de Lisboa em 1940.

Anúncio no Diário de Lisboa em 1940.

Anúncio de bebida de chocolate no Brasil, encontrado em www.zazzle.com.br.


Anúncio no Diário de Lisboa, jornal O Momento. 1971.

Anúncio ao Ultramar da Companhia Nacional de Navegação (sem data), encontrado em caisdoolhar.blogspot.pt.


citizengrave.blogspot.pt

Cruzeiro Seixas Surrealista? "até à morte! - Isso é uma coisa que não tem cura!"

CRUZEIRO SEIXAS

Surrealista?

"até à morte! Isso é uma coisa que não tem cura!"


Coisas boas em jornais

"(...) quando entramos num museu e vemos coisas como a «Vitória de Samotrácia», por aí fora. Coisas que nos fazem perder a cabeça. Coisas que não nos cansamos de olhar e com que não nos cansamos de fazer amor. Porque fazemos amor, violentamente, com essas coisas." (Cruzeiro Seixas)


Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949. Foto de republicadassantasbicicletas.wordpress.com

Uma Grande Grande Grande entrevista a Cruzeiro Seixas



Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas nasceu na Amadora a 3 de Dezembro de 1920. Em 1935, matriculou-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, onde conheceu, entre outros, Mário Cesariny, Marcelino Vespeira, António Domingues, Fernando José Francisco, Fernando Azevedo e Júlio Pomar. Com estes e outros artistas participou, em 1943, em tertúlias de carácter vanguardista. Depois de uma fase expressionista-neo-realista, as inquietações plásticas e os desejos de libertação estéticos e ideológicos levam Cruzeiro Seixas a abraçar o projecto perfilhado pelo Grupo Surrealista de Lisboa, tornando-se, uma das figuras de referência daquele grupo fundado em 1947. Desde que assumiu os preceitos surrealistas não mais os abandonou, mantendo-se fiel ao onirismo figurativo dessa poética que empregou também em colagens e objectos. Com Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário Henriques Leiria, Pedro Com, Fernando José Francisco, Risques Pereira, Fernando Alves dos Santos, Carlos Eurico da Costa, Carlos Calvet e António Paulo Tomás, organiza a Primeira Exposição dos Surrealistas na cidade de Lisboa (Janeiro de 1949, entre a Sé e o Aljube). No ano seguinte, participa na segunda exposição de “Os Surrealistas” (Lisboa, Livraria Francesa) e assina diversos manifestos e folhas volantes. Em 1951, Cruzeiro Seixas alista-se na Marinha Mercante, viaja até à Índia e Extremo Oriente, acabando por se fixar em África, Angola, durante doze anos. Em 1964, com o intensificar da Guerra Colonial, Cruzeiro Seixas vê-se constrangido a regressar à Europa. De volta a Portugal, participa em inúmeras exposições. Na década de 70, participa em inúmeras colectivas do movimento surrealista internacional, principalmente aquelas ligadas ao Grupo Phases (liderado pelo poeta e ensaísta Édouard Jaguer, ao qual havia, entretanto, aderido). Em 1999, doa a totalidade da sua colecção à Fundação Cupertino de Miranda, com vista à constituição de um Centro de Estudos e Museu do Surrealismo. Artista Versátil, explorou, ao longo de décadas, as infinitas poéticas do surrealismo. Animou a renovação da arte portuguesa, propiciando exposições de artistas novos e a divulgação de artistas e movimentos internacionais nas galerias onde colaborou. Actualmente vive e trabalha em Lisboa. (fonte: www.circuloarturbual.com)





Cruzeiro Seixas.
Foto de www.circuloarturbual.com
Ainda é surrealista, Cruzeiro Seixas? 

- Ah, isso até à morte! Isso é uma coisa que não tem cura.

A pergunta, se calhar, devia ser outra: ainda se pode ser surrealista no século XXI? 

- Eu acho que cada vez vai haver mais. E isso é uma coisa que se está a notar aqui em Portugal: de um momento para o outro, houve um interesse súbito pelo surrealismo.

O surrealismo ainda faz sentido como fazia há cinquenta anos? 

- Acho que sim. O surrealismo ainda vai ser descoberto. Ou redescoberto. Foi a maior filosofia - ou uma das maiores, para além do comunismo ou do existencialismo... Mas parece que tem pernas para andar, mais tarde, quando for redescoberta.

Mas pode ser-se surrealista, ainda hoje, como se poderia ser, sei lá!, cubista, Impressionista, gótico (para falar noutras correntes na área das artes plásticas)? 

- Simplesmente, essas correntes, a maior parte delas, tinham um factor que era o mais importante: o estético. O surrealismo tem, além do estético, uma filosofia de vida que é muito importante e que vai mais longe.

Não estamos a falar, portanto, apenas de estilo ou de técnicas artísticas mas de algo mais do que Isso.

- Há muito mais do que isso no surrealismo. O pensamento que está por dentro disso é muito mais importante, até, do que essa própria opção.

Falou de uma filosofia de vida: é o mergulho no Inconsciente? 

- É por aí que nós temos que encontrar o caminho. O caminho do futuro vem por aí, com certeza.

Vem do Inconsciente? 

- Do inconsciente no consciente, evidentemente. Vamos supor, por exemplo, que o Homem se divide em partes iguais: uma delas será inconsciente e a outra consciente. Realmente, temos que admitir, pelo menos, que existem as duas e que são ambas muito importantes.

Explique-me o que é o seu surrealismo. Cruzeiro Seixas? 

- Cada um tem o seu, de facto. É engraçado o modo como você põe essa pergunta. Tenho impressão que cada um faz o seu surrealismo, diferente dos outros.

E o seu...

- O meu é um surrealismo que assenta principalmente numa ideia de liberdade louca.

Louca! 

- Louca. Porque é tanta. E o desejo dela ultrapassa tanto a loucura, mesmo! E depois, posso-me gabar de ter realmente conseguido, de certa maneira, realizar essa loucura...

Viveu-a? 

-... e de tê-la vivido. Acho que sim. Hoje, com 84 anos, tenho já uma visão enorme da vida e posso espantar-me a mim próprio, não é? 

Pela liberdade ou pela loucura? 

- Pela liberdade e pela loucura que meti dentro dela. Consegui! Consegui realmente viver.

O que é que a sua vida teve de mais louco? 

- Bom, para não lhe falar nos amores, esta liberdade que nós sentimos no dia-a-dia. Sermos capazes de passar pelos perigos. Estarmos à beira do abismo e não cairmos nele.

A vertigem atrai? 

- A vertigem atrai imenso. Estive muitas vezes no abismo, enfim, à beira dele, com um pé mesmo nele. Mas sabemos realmente ultrapassar isso.

O que é artístico é conseguir acabar por não cair no abismo.

- Cair não me apetece muito. Realmente é muito bonito mas para isso acho que é preciso ser-se genial. Eu não sou genial. Ou então fica-se um desgraçado que anda a dormir pela rua.

Alguma vez correu esse risco? 

- Eu julguei que era isso que me ia acontecer na vida. Aqui há uns 30,40 anos eu supunha que o meu destino era ser um vadio.

Cruzeiro Seixas. Projecto para um Tejo à nossa medida, 1966
Serigrafia, 15 x 20,5 cm, foto em www.fcm.org.pt
Por desadaptação? 

- Por desadaptação. Por não ter o mínimo jeito para fazer contas, por exemplo. E isso é uma coisa absolutamente necessária. Se me perguntar quanto são sete vezes nove eu não sei 

Nunca chegou a saber ou esqueceu, entretanto? 

- Nunca soube. Apanhei pancadaria quando era miúdo porque isso era uma das coisas principais, nas escolas. E davam reguadas! Os outros todos saíam da aula e eu ficava mais uma hora a apanhar. Na-na-na-na-na-na... Pumba, apanhava. Nunca fui capaz de aprender.

Diz com um certo orgulho.

- Sim, sim, com muito orgulho. E com orgulho porque acho que é uma coisa absolutamente desnecessária.

O quê, fazer contas? 

- Fazer contas! Fiz a minha vida sem fazer contas e não morri à fome. Quer dizer, é estranho. Eu próprio me espanto imenso, como é que foi possível. Mas estou aqui, você vê: isto não é propriamente uma barraca! Não, pelo contrario: é uma excelente casa, no centro de Lisboa...

- É engraçado, não é? 

Não sei como é que isso foi.

Alguém lhe fez as contas? 

- Não, não. Nunca.

Não teve contabilista a zelar pelas suas contas? 

- Não. Esses só aparecem para roubar. Isso é muito perigoso. Mas a minha experiência foi esta. Mais: posso dizer-lhe que sou das poucas pessoas em Portugal que não recebeu herança nenhuma. Os meus pais deixaram-me dívidas. Quer dizer, eu não tinha nada, nada, nada. Tinha-me a mim, apenas. E com a grande dificuldade de não ter vontade nenhuma de ser um pintor a sério.

Faz até questão de dizer que nunca foi profissional das artes, profissional da pintura.

- Nunca. Felizmente não. Isso era horrível.

Mas foi da pintura que viveu a vida toda ou não? 

- Não. Durante anos e anos - e era esse o meu projeto de vida mas, depois, as coisas tomaram outro caminho - vivi de empregos. Tinha empregos sempre o mais baixos possível.

Empregos de que tipo? 

- Olhe, em África trabalhei em seguros, fiz publicidade de uma empresa de cervejas. Sabe como era? É engraçado. Realmente, o que eu queria era andar pelo interior de África. Luanda não me interessava. O que me apaixonava era, realmente, o interior. A aventura. Não havia estradas. Portanto, tudo o que acontecia era com umas campanas velhas, com lama, com areia, com rios sem pontes, a passar em jangadas que eram arrastadas pelas chuvas e que desapareciam... Tudo isso, toda essa cobóiada.

Privilegiou sempre a Liberdade ao bem-estar? 
André Breton por Man Ray, 1935.
foto em chagalov.tumblr.com

- Sim. E acho que soube tirar partido desse mal-estar. Aqui há tempos dizia que, se o Breton, o pai do surrealismo, cá voltasse, cairia para o lado de espanto por ver o que se faz hoje da Liberdade. 

Um espanto satisfeito ou insatisfeito? 

- Acho que insatisfeito. E muito decepcionado, com certeza. O mau uso que hoje se faz da liberdade é uma coisa que a mim também me decepciona muito.

A que uso da Liberdade é que se refere? 

- A todos. Eu, que não sou com certeza um moralista, acho que este caminho que a liberdade deu à moral está completamente errado.

Não é um contra-senso prescrever quais são os bons e os maus usos da liberdade: isso não será uma forma já de a pôr em causa? 

- Pois, quer dizer, eu não lhe vou contar pelos dedos quais são as coisas e apontá-las...

Mas pode dar-me um exemplo.

- Acho que uma certa loucura que há hoje... Nós vemos, por exemplo, a nível da política: isto é uma vergonha. Acho que hoje há um grande fracasso no mundo. Um dramático fracasso que, de uma maneira geral, as pessoas estão a pagar caro e, particularmente, aqui em Portugal que é um país com pouca força, sem dinheiro. Não vemos, em absoluto, o que vai acontecer amanhã. As coisas só tendem a piorar.

Teme o futuro? 

- Eu já não tenho futuro. O meu futuro é o cemitério. Com oitenta e quatro anos já não há futuro. Agora, gostava de me ir embora com uma visão melhor das coisas e do mundo. Do amanhã. E isso é muito difícil.

Não viu as coisas melhorarem, apesar de ter vivido uma época de dificuldades em termos sociais, de repressão, uma época em que não existia a Liberdade que há hoje? 

- Entre as duas liberdades, a outra era muito doente, esta é doentinha. Se corresponde ao meu ideal e ao ideal de um Breton e dessa gente? Também não.

Defina-me o seu Ideal.

- O meu ideal!? Coisa complicada. É muito difícil. Mas digo-lhe que ele assenta, principalmente, na liberdade. A liberdade das pessoas. A liberdade do indivíduo é, realmente, a coisa mais bonita. Arranjarmos maneira de, todos os dias, termos consciência de que ultrapassámos as barreiras que nos queriam pôr. Se estivermos no labirinto, que conseguimos sair do labirinto. Que pusemos, pelo menos, um pé de fora. Isso é realmente o principal.

Que herança, para lá da herança artística, lhe parece que o surrealismo terá deixado? 

- É essa. O espírito de liberdade e a possibilidade de entendimento. Essa possibilidade do surrealismo vem de imensas coisas. Por exemplo, dos jogos que eles faziam uns com os outros.

Diz eles, não diz nós.

- Eles, os grandes surrealistas, os que inventaram a coisa. Quer dizer, o grupo do Breton, que surgiu logo após a guerra de 14. Eram gente genial que ainda não foi substituída.

Acontece que a palavra surrealismo, o adjectivo surrealista entrou na linguagem comum como sinónimo de disparate, de coisa sem pés nem cabeça. Incomoda-o esta vulgarização do termo? 

- Incomoda-me só deste ponto de vista: as pessoas, realmente, mostram ser incultas. Se tivessem o mínimo de cultura sabiam que o surrealismo era uma filosofia e não um sinónimo de disparate. E, depois, é gente na Assembleia da República, são ministros que usam o surrealismo como se fosse sinónimo de loucura. Ora, se forem ao dicionário não está lá como sinónimo de loucura. Em todos os dicionários está uma explicação do surrealismo como sendo um movimento intelectual. E dos mais extraordinários que o nosso século teve.

Já uma vez disse que nunca lhe interessou ser um intelectual ou um artista. O que é que desejou ser então? 

- Um homem. Acho que é a coisa mais difícil de todas. E a mais apaixonante. Ser uma pessoa, um ser humano.

Homenagem a António Maria Lisboa
foto em www.circuloarturbual.com
Qual era o seu grande sonho de infância? 

- Não sei. Acho que nunca tive sonhos de infância.

Não se recorda de querer ser qualquer coisa quando fosse grande? 

- Não. Contava-se que o meu avô, quando era pequeno e lhe perguntaram o que é que ele queria ser, respondeu: bombeiro. Naquele tempo em que as famílias todas, claro, queriam que os meninos fossem outra coisa, não é? Esta história contou-se sempre.

Não há nenhuma história familiar, dessas, a seu respeito? 

- A meu respeito não.

Teve uma infância feliz? 

- Tive uma mãe e um pai extraordinários. Sem dinheiro. Nunca havia dinheiro nenhum lá em casa. Mas realmente com um ambiente de concórdia e de respeito de uns pelos outros, de respeito por mim e pela minha liberdade. Isto claro já não é só uma recordação de  infância , é uma recordação de adolescência e por aí fora: os meus pais nunca me perguntaram o que é que eu queria fazer na vida. Tendo muito interesse por mim. Um interesse de todos os segundos. Nunca me perguntaram esta coisa que é costume os pais perguntarem: quando é que casas? quando tens uma namorada? 

Nunca lhe perguntaram esse tipo de coisas? 

- Nunca. Nunca, nunca, nunca. E isso é uma coisa que enche de luz a minha vida. É uma coisa linda. Acho uma estupidez extraordinária estarem a querer impingir uma mulher ou um homem a um ser humano. Nunca me fizeram isso.

Continua a tentar guardar uma certa ingenuidade da  infância, Já o disse.

- Eu sou um naïf.

Por opção? 

- Por opção.

O que demonstra já uma certa consciência da ingenuidade, ou seja, um pouco menos de Ingenuidade.

- Sim, você vê muito bem o problema.

Naïf ou ingénuo é aquele que não se dá conta de o ser.

- É, claro. Mas isso é tão difícil. Ainda haverá hoje alguém que seja ingénuo? Já não há. Ninguém, creio eu.

Porque é que diz ter tentado guardar sempre a sua ingenuidade com unhas e dentes? 

- Olhe, porque tenho a maior admiração pelas pessoas ingénuas. Claro que a própria pintura ingénua... Há o caso maravilhoso de um francês que construiu o palais ideal. Ele era carteiro, andava a pé, fazia quilómetros e quilómetros, fazia uns 70 quilómetros por dia a distribuir correio na província | francesa. E ia guardando pedras no saco. Para lá levava o correio e para cá trazia pedras bonitas. Com essas pedras bonitas que trazia construiu um palácio - que ele chamava o «palais idéale» - que hoje é um monumento de invenção, de imaginação de um homenzinho qualquer que era simplesmente carteiro numa terrinha de província.

É esse tipo de ingenuidade que o motiva, que o comove? 

- Se eu tivesse de invejar alguém, invejava esse homem. Quem me dera ter construído aquilo.

Qual é a principal utilidade (para usar uma palavra muito presente no nosso quotidiano, hoje) que encontra na ingenuidade? 

- Não tem utilidade nenhuma a não ser satisfazer-se a si própria. Uma pessoa ingénua, hoje, em princípio, só vai ser esmagada pela vida, pelo quotidiano.

Nunca temeu vir a ser esmagado pela vida e pelo quotidiano ao tentar manter essa dose de ingenuidade? 

- É realmente essa luta que é apaixonante. É como a formiga a fugir da pata do elefante. Claro, o elefante não sabe que vai pisar a formiga mas a formiga, naturalmente, foge, esquiva-se e depois ri-se quando o elefante passou: desta livrei-me eu! 

No dia a seguir ao nosso casamento, 1967.
foto em oeiraslocal.blogspot.pt
Sentiu muitas patas de elefante sobre si? 

- Muitas vezes. Fui muitas vezes a formiga por baixo do elefante.

Teve uma infância lisboeta...

- Eu, quando era miúdo, era muito doentinho, muito fraquinho. O médico disse aos meus pais que eu não ia passar dos sete anos. De maneira que saímos de Lisboa, ou melhor da Amadora, e formos viver para o Estoril, para S. Pedro do Estoril. Que, nessa altura, não era chique como é hoje.

Foi uma infância com muita praia.

- A mãe ia todos os dias comigo para a praia. Tomava banhos de sol e essas coisas todas que faziam bem, que se dizia que faziam bem aos meninos.

Estava-se pelos anos 20...

- Vinte e poucos, devia eu ter uns seis anos ou coisa assim.

... que não eram em Portugal os famosos «roaring twenties", não eram, por cá, «os loucos anos vinte».

- Não, nada. Lembro-me de um ventinho que passou pela minha mãe, pelas minhas tias, quando as senhoras cortaram os carrapitos.

Lembra-se disso como uma cena de liberdade? 

- Lembro-me. Era o cabelo à garçonne. Lembro-me, por exemplo, de uma anedota que vinha nas revistas. Era daquelas anedotas que ficam mais em desenho do que propriamente em palavras. Era um homem e uma senhora com o cabelo já cortado à garçoime, como se dizia, numa cama. Então, a criada entrava no quarto com o tabuleiro do pequeno-almoço e dizia: qual dos senhores é a senhora? Isto, para a época, era extraordinário.

Lembra-se disso num desenho? 

- Era um desenho do Stuart Carvalhais.

Quer dizer que os desenhos desde cedo lhe chamaram a atenção? 

- Eram muito bonitos.

Começou cedo a desenhar? 

- Sim. Como não tinha brinquedos, a minha mãe dava-me papel e lápis. De maneira que era o meu grande entretenimento. O meu brinquedo principal foi sempre fazer desenhos. Que eram iguais aos das outras crianças. Não tinham nada de extraordinário.

Recordação de Lisboa em forma de postal, 1970.
Cruzeiro Seixas. Foto em www.fcm.org.pt
Não lhe gabaram logo o talento desde pequenino? 

- A mãe gabava mas...

Em que momento, então, é que começaram a incentivar-lhe o talento? 

- Nunca acreditei muito nisso, sabe.

Nunca acreditou muito no talento ou no seu talento? 

- Não, nos elogios das pessoas. Nunca acreditei muito. Claro que passei a tornar isso um bocadinho a sério quando isso veio, por exemplo, da parte de um Cesariny. Éramos colegas.

Na António Arroio, ainda? 

- Na António Arroio. Fez-se uma grande camaradagem entre nós, tínhamos uns 17,18 anos. E realmente ele ficava... E depois levava a minha casa outros: o António Maria Lisboa, o António Domingues... Enfim, essa gente toda. Para verem as minhas coisas. Eu ficava com uma certa vaidade mas não percebia nada do que estava a acontecer à minha volta.

O Cruzeiro Seixas foi para a António Arroio por iniciativa própria ou por incentivo de alguém? 

- Como eu fazia os tais desenhos e os pais não tinham dinheiro para me meter num liceu, acharam que aquilo era o mais barato. E também como tinha a tal habilidadezinha para o desenho, talvez conseguisse alguma coisa ali.

Foi lá na António Arroio que conheceu boa parte desses seus companheiros de percurso surrealista.

- Sim. Lá andava o Pomar, o Vespeira, lá andava toda a gente.

Quem é que o iniciou nas lides surrealistas? 

- Talvez, em grande parte, o Cesariny. Era com quem me dava mais. Era o grande camarada.

Era ele o maior conhecedor desse vento surrealista que estava a chegar cá? 

- Sim. Mais tarde, claro. O Cesariny, quando era jovem, aos vinte e tantos anos, era completamente apaixonante. Apaixonante e apaixonado. Sempre muito inteligente e muito culto. Sabia sempre muito mais do que eu.

Cruzeiro Seixas. Finalidade sem fim, 2004.
Tinta-da-china x Papel. Foto em www.guarda.pt
Sublinha «quando ele tinha vinte anos». Quer dizer que, com o tempo, ele foi perdendo esse lado apaixonante? 

- Acho que toda a gente sabe que o nosso relacionamento cessou. De maneira que hoje o que me chega é através de outros relatos que são sempre tendenciosos: uns dizem uma coisa, outros dizem outra. Como os que lhe chegam a ele também o são, com certeza.

Esse relacionamento cessou com mágoa? 

- É triste. Não me dá alegria nenhuma. Não se percebe. Para além de desentendimentos que possa haver entre nós - e que são saudáveis, acho eu - o que é bom é que as pessoas não pensem todas como carneiros.

Desentendimentos de ordem estética ou de outra ordem? 

- De ordem filosófica. À volta de tudo. À volta da vida de todos os dias, do dia-a-dia. Mas acho que, realmente, o que é bom é haver desentendimentos. As coisas ficaram assim e pronto. Agora já não há remédio.

Foi pelo lado dele que se deu esse desentendimento? 

- Não. Se calhar foi por parte dos dois. Se calhar ficámos decepcionados porque, em dada altura, quando éramos novos, a verdadeira paixão era tão grande, o entendimento era tão grande que, quando se é novo, se supõe que aquelas coisas vão durar toda a vida. Depois, começa-se a envelhecer e começa-se a ver que há grandes abismos entre as pessoas. Que somos completamente diferentes. Claro que a sabedoria está em saber ultrapassar esses abismos.

Esses abismos entre as pessoas são uma lei universal? 

- Eu creio que sim. A maior parte das pessoas não sabe ultrapassar esses abismos.

Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny.
Foto sem data encontrada na net.
Ainda recorda o primeiro impacto que o manifesto de Breton lhe provocou? 

- Não. Não tenho memória nenhuma. A minha memória não é nada do género intelectual: o número da página, saber que no livro tal está isto assim-assim. Não é nada disso. Tudo fica a fazer parte da minha própria carne.

Mas não se lembra sequer da circunstância em que o descobriu? 

- Lembro-me. Quer dizer, essas coisas entravam com muita dificuldade dentro de mim porque era nos anos 40 e, por um lado, não tinha dinheiro para comprar as coisas, para comprar livros. Por outro lado, as livrarias também estavam muito mal fornecidas. Livros desses, a PIDE não os deixava chegar cá, de um modo geral. Hoje não se pensa como tudo isso era difícil. Qualquer coisinha que chegava, nós corríamos os cafés - Lisboa estava cheia de cafés - a participar uns aos outros, de café em café.

E ainda tem memória da circunstância em que, pela primeira vez, tomou contacto com o manifesto surrealista? 

- Acho que foi através do Mário. Do Cesariny, quer dizer. Ele também o tinha conhecido acho que através do 0'Neill, que tinha trazido de Paris os manifestos do Breton. Parece-me que é isso.

Uma vez descreveu o André Breton como «a bruxa que abriu portas». Por que é que lhe chama bruxa? 

- Quer dizer, a bruxa que sabe muita coisa. É nesse sentido, não é no outro sentido do horrível. Realmente, ele sabia muita coisa. Era um homem que tinha um poder de adivinhação e uma sensibilidade extraordinárias. Poucas pessoas conhecemos no mundo com uma sensibilidade tão grande e tão autêntica para a pintura.

Mas depois aquilo também se tornou uma ortodoxia, a certa altura.

- Eu acho que quando uma pessoa ama uma coisa cegamente é ortodoxo.

Mas com expulsões e tudo - ou seja contrariando a ideia de liberdade.

- Fez muitos disparates, claro. Enganou-se muitas vezes mas toda a gente se engana. Mas tinha uma coisa espantosa. É que realmente, quando se enganava, sabia voltar atrás - um ano ou dois, ou meses depois - e emendar. Aqui é muito mais difícil. As pessoas não sabem fazer isso.

Cruzeiro Seixas Auto-retrato, 1975.
Foto em www.guarda.pt
Aqui em Portugal? 

- Aqui em Portugal tudo é muito difícil.

Considera Breton um génio, claro.

- Sim. Toda aquela geração. É isso que nos falta hoje, sabe.

O génio? 

- Em absoluto. A todos os níveis.

O que é que define o génio? 

- Isso é muito difícil. Naturalmente, é aquele que nos espanta por aquilo que faz e que diz. Que é completamente diferente daquilo que estava antes dele. E depois, que isso que ele diz e que faz não seja apenas uma gracinha para nos espantar. Que seja, realmente, uma coisa que vá tocar e interessar a todos os homens de uma maneira geral.

Disse uma vez: «é pelos olhos que quase tudo penetra em mim». Dá mais importância à sua obra plástica do que à sua obra escrita? 

- Ora aí está uma pergunta que não me tinha ocorrido. Eu creio que sim.

Pergunto-lhe isto porque o sentido mais forte associado à poesia não é o da visão.

- Pois. Eu creio que as coisas se encontram, sabe. Na minha poesia há muita arte plástica, se quiser, e naquilo que se considera arte plástica há muito da minha poesia escrita. As imagens dão saltos de uma coisa para a outra. Para mim é tudo a mesma coisa.

Já houve até alguém que disse que a pintura é poesia muda.

- Sim, isso é uma frase que está dita por muita gente. Aliás, também entre essa gente genial houve imensos que não se sabe bem ao certo se foram poetas se foram pintores.

No seu caso também as duas coisas se misturam.

- Acho que sim. Acho que é a mesma coisa, ao fim e ao resto. É o caso de um Henri Michaux, por exemplo, que fez poesia tão boa como fez boa pintura. Sem ser um pintor. O que há em mim que considero quase a minha coroa de glória é realmente não ter andado em escolas superiores. Não saber desenhar. Ter uma inabilidade natural.

Inabilidade?! 

- Uma inabilidade natural para o desenho e para essas coisas todas. Chumbei durante três anos em desenho, na António Arroio. De maneira que é muito engraçado! Durante três anos com notas negativas: cincos e seis.

Então e aquele talento de infância que o levou para a António Arroio foi contrariado pelos professores? 

- Sim. Os professores eram ainda mestres, com laçarotes e com pera. Ainda com todo aquele aspecto que era próprio do artista. O artista tinha que ser diferente. Hoje, também há outros. Só que é completamente diferente: as grandes cabeleiras, o andar quase que em farrapos. Também há essas coisas que distinguem as pessoas.

Cruzeiro Seixas - A Grande Refeição, 1972.
foto em ofuncionariocansado.blogspot.pt
E, no seu caso, nunca quis distinguir-se por nenhum desses adereços de artista? 

- Não. Não estou nada interessado. Acho uma boa idiotice as pessoas usarem esses estratagemas. Acho pouco honesto. O andar com os sapatos desapertados ou com as orelhas sujas ou a fumar muito... Quer dizer, há pessoas que se agarram a pequeníssimas coisas: falar muito baixinho ou falar muito alto. Coisas que, para mim, realmente, são desconsoladoras. São tristes.

Pergunto-lhe se dá mais importância à obra plástica do que à poesia porque os seus poemas estiveram muito tempo escondidos. Porquê? 

- Só no ano passado é que começaram a ser editados. E foi uma editora que se ofereceu. Nunca pedi nada a ninguém. Foi uma amiga minha que vive em Paris, a Isabel Meyrelles, que se encarregou de pôr ordem aos milhentos poemas que estavam todos a monte dentro de gavetas.

Porque é que os escondeu durante tanto tempo? 

- Porque julgava que não tinham interesse nenhum. Tinha havido um vago interesse do Cesariny, quando éramos muito novos, e que tinha cessado. Foi, depois, a Isabel Meyrelles que se interessou e que deu a ordem àquela papelada toda que eu nunca seria capaz de lhe dar. Já saíram três volumes, grossíssimos, e ainda está mais um para sair. Coisa que me espanta imenso.

Não sabia que tinha escrito tanto? 

- Quando recebi aquele volume pus-me a olhar para aquilo e a pensar, não tenho a menor recordação de estar sentado a uma mesa a escrever poesia. Não me lembro de ter feito nada daquilo. Claro que, se leio os poemas, encontro num e noutro alguma coisa que me vem à memória. Agora, a maior parte são surpresa mesmo para mim. Quase podiam ser de outra pessoa.

Quais são os seus versos que melhor o retratam? 

- Por muito impossível que lhe pareça, não sei um único verso meu de cor. E isto também não é tão impossível como isso porque, por exemplo, da poesia do Cesariny, que foi feita quase toda ao meu lado, eu também não sei versos de cor. Ou sei duas coisas muito antigas e que, possivelmente, ele até já esqueceu.

Por que é que põe datas fictícias nos seus poemas? 

- É para transtornar o caminho aos académicos.

Cruzeiro Seixas, sem titulo, 1960. Foto em saomamede.com e 
Cruzeiro Seixas. Sonho, 2001. Foto em divasecontrabaixos.blogspot.pt


Deliberadamente? 

- Deliberadamente. Fazê-los tropeçar e nunca escreverem um estudo sobre mim a dizer na época tal ele fazia não sei que mais.

Quer dizer, baralhou os papéis todos para aquilo sair com uma ordem que não tem nada a ver com a ordem pela qual os poemas foram escritos.

- Nada. Que eles não possam fazer isso. Ou se fizerem têm de ter muito trabalho. Mas realmente não estou nada interessado nesses estudos.

Grande parte dos seus poemas tem como legenda «África» ou «Áfricas» e depois, à frente, o ano. É só a data que é fictícia ou também, nalguns casos, a indicação da origem? 

- O ano é sempre fictício. «África» poucas vezes aparece. Aparece muito mais «Áfricas». E Áfricas era realmente um jogo. Eu tinha a consciência de que Africa era um sitio de grande infelicidade e de grande horror. Desde as Descobertas que aquela gente era escravizada. Depois, quando o colonialismo assentou bases, continuavam a ser escravizados e depois da liberdade viu-se a desgraça que aquilo tem sido. Vendo tudo isso e tendo o conhecimento das minhas próprias desgraças, eu realmente ligava as coisas e a «Áfricas». Era a África África e a minha própria África. Aquela que vive dentro de mim.

As suas desgraças pessoais, também? 

- Sim. Comparo-me, de certa maneira, a África. Porque a liberdade é sempre insuficiente. É sempre pouca.

Há poemas onde coloca essa designação, Áfricas, que podem ter sido escritos aqui em Lisboa, na Europa? 

- Alguns já foram escritos aqui. Mas África continua dentro de mim. Por paixão, também.

Por que é se veio embora ao fim de 14 anos em Angola? 

- Foi a guerra. E quiseram-me meter uma arma na mão para eu combater.

O Exército quis mobilizá-lo? 

- Não era o Exército. Era a própria população branca que estava aterrorizada - e tinha razão - e fizeram-se milícias que defendiam Luanda. Essas milícias eram senhores doutores, senhores engenheiros, pais de família, mas matavam tudo quanto mexia.

Anuncio da galeria São Mamede em 1972.
Exposição de Cruzeiro Seixas entre outros.
Isso em que ano: em 64? 

- Eu para datas sou muito mau. Vim-me embora, mais ou menos um ano depois daquilo ter começado. Quando vi que não podia fugir a ser mobilizado numa dessas milícias. Era insuportável.

Ainda chegou a pegar em armas? 

- Não. Neguei-me desde logo.

Quando partiu para África, em 1950, já saiu de Lisboa com um destino definido? 

- Ia com o destino de ficar lá para sempre.

A meta já era Angola, logo à partida? 

- Era África toda. Toda a África me parecia apaixonante.

Saiu de Portugal como marinheiro.

- Sim. Não tinha ganha-pão e não tinha dinheiro para viajar. Apareceu uma pessoa no mesmo prédio onde nós morávamos - eu morava com os meus pais - que era da Companhia Nacional de Navegação. Um dia encontrei-o na escada e pedi-lhe se me arranjava um emprego lá na Companhia. Ele disse: sim, senhor, vá lá. E pronto.

Andou muito tempo embarcado? 

- Andei quase dois anos. Foi uma coisa realmente muito interessante por toda a aprendizagem. Bem distante daquilo em que eu tinha sido educado pelos meus pais. Era uma vida muito dura. Mas para além disso tudo tive a oportunidade de conhecer todas as colónias portuguesas ainda com ligações a Portugal: a Índia, Macau, Timor. Tudo isso. O que era realmente a revelação da loucura daqueles tipos que tinham chegado ali nos anos das Descobertas.

Já era surrealista quando se fez ao mar? 

- Sim. A minha visão foi sempre, ao meu nível, tanto quanto possível, surrealista.

Essa viagem, a aventura, adensou esse lado surrealista? 

- Ficou para sempre ligada a mim. Há qualquer coisa que eu sentirei sempre, enquanto viver, que falta fazer em Goa. Essa coisa seria algo que estava ligado à nossa permanência aqui e ao surrealismo. Não sei como é. Claro que era algo completamente impossível de realizar. E continua a ser. Cada vez mais. Mas há qualquer coisa para ali, naquele lado, que me continua a atrair.

A sua vida foi sempre assim, ao sabor do improviso? 

- Sim. Completamente. Sei sempre vagamente o que vai acontecer amanhã.

Já disse uma vez que foi uma vida, toda ela, «um disparate». Em que sentido é que o diz? 

- Disparate porque fiz muito poucas das coisas que as outras pessoas fazem todos os dias. Apenas o que é absolutamente necessário para subsistir. Foi muito complicado, sabe.

Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, Natália Correia e
Mário Cesariny. Foto sem data, (talvez do fim dos anos 70,
M. Henrique Leiria faleceu em 1980) encontrada na net.
Há alguma coisa de que se arrependa? 

- Naturalmente não fui sempre, tanto quanto possível, amante, próximo, das pessoas de quem o devia ter sido. Nessa perspectiva vejo que errei, às vezes. Quem me dera que não tivesse acontecido. Aconteceu com certeza algumas vezes.

Hoje diz que se sente ofendido, é a expressão que usa, pelos seus próprios sinais de velhice. É-lhe difícil aceitar a idade? 

- Muito. Acho que é uma coisa horrível. Não há nada a fazer, mas realmente é revoltante envelhecer e sentirmos que já não temos a mesma força para resolver os problemas. Felizmente, julgo que ainda estou lúcido. Deixar de ficar lúcido é uma coisa que me mete um medo atroz.

Como é que encara a ideia de morte? 

- Agora, nesta altura e a qualquer momento em que este estado se agrave, acho que é um alívio. Desejava-a imenso. Mas ainda estou vivo e ainda tenho que me mexer como um tipo que está vivo, claro. Mas já estou meio como a formiga pisada pelo tal elefante. Só uma parte de mim a remexer. Há muita coisa que já pertence à História, que já não me pertence a mim. Por exemplo, o viajar. Amar nós nunca nos cansamos de amar, não é? E isso realmente é uma coisa de que se tem muita saudade quando se chega a velho. Pelo menos no meu caso. Mas as coisas não podem ser como nós queremos, claro.

É um homem desencantado, de alguma forma? 

- A vida tem duas partes iguais. Há uma que é realmente apaixonante e outra que é decepcionante. O desencanto também é muito forte. E, claro, numa vida vivida intensamente há as duas partes muito intensas, também.

Qual foi o maior encanto que viveu ao longo da sua vida já de 84 anos? 

- Bom, eu sou um apaixonado pela pintura. Mas também recordações de amor pessoas que amei, duas ou três pessoas extraordinárias que não esqueço mais. O encontro, o coup de foudre, como dizem os franceses. Aquela coisa espantosa que é encontrarmos uma pessoa, cruzarmos o olhar e, daí a bocado, estarmos na cama, por exemplo, como acontecia na Lisboa de aqui há uns anos. Isso são coisas muito bonitas. Quer dizer, há tanta coisa admirável. A Natureza. Ou quando entramos num museu e vemos coisas como a «Vitória de Samotrácia», por aí fora. Coisas que nos fazem perder a cabeça. Coisas que não nos cansamos de olhar e com que não nos cansamos de fazer amor. Porque fazemos amor, violentamente, com essas coisas.

(Entrevista de Carlos Vaz Marques a Cruzeiro Seixas para o Diário de Notícias em 1 de Abril de 2005)


Cruzeiro Seixas. Foto encontrada na net.


 A Vitória de Samotrácia em fotos de Dmitri Kessel (1950) e Gjon Mili (1962) da LIFE Archive.




"Coisas que não nos cansamos de olhar e com que não nos cansamos de fazer amor. 
Porque fazemos amor, violentamente, com essas coisas."
(Cruzeiro Seixas) 


citizengrave.blogspot.pt

Cruzeiro Seixas

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

1º Estudo para futuros encontros, 1954, grafite e guache sobre papel, 22,7 x 26,5 cm
Cruzeiro Seixas, de nome completo, Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas (Amadora3 de Dezembro de 1920) é um "homem que pinta" (a designação de pintor (artista) aborrece-o ) e poeta português.

Biografia / Obra

Em meados da década de 1940 aproxima-se do neorrealismo, de que se afasta quando adere aos princípios do surrealismo. Juntamente com Mário Cesariny ,António Maria LisboaCarlos CalvetPedro Oom e Mário-Henrique Leiria, entre outros, integra o grupo Grupo Surrealista de Lisboa, resultante da cisão do recém formado movimento surrealista português. Participa na exposição desse grupo em 1949 (1ª exposição dos Surrealistas, Lisboa). 2
Em 1950 alista-se na Marinha Mercante e viaja até África, Índia e Ásia. Em 1951 fixa-se em Angola, desenvolvendo atividade no Museu de Luanda. Data desse tempo o início da sua produção poética 3 . Realiza as primeiras exposições individuais, que levantam um acalorado movimento de opinião (a primeira de desenhos sobre a evocação de Aimé Cesaire, em 1953; a segunda principalmente de «objectos» e «colagens», 1957).4
Regressa a Portugal em 1964. Recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian em 1967. Nesse mesmo ano realiza uma pequena retrospetiva na Galeria Buchholz (com folha volante de Pedro Oom e prefácio de Rui Mário Gonçalves) e expõe na Galeria Divulgação, Porto. Em 1970 expõe individualmente na Galeria de S. Mamede, Lisboa, um conjunto de desenhos "de uma imagética cruel, ilustrações possíveis de Lautréamont". 5 2
Trabalha como programador nas Galerias 111 e S. Mamede, Lisboa. Viaja pela Europa; entra em contacto com membros do surrealismo internacional. Radica-se no Algarve na década de 1980, trabalhando como programador de diversas galerias. Colabora em revistas internacionais ligadas ao surrealismo, a que sempre se manteve fiel. 2
O traço certeiro de Cruzeiro Seixas, "de limites apurados e atmosferas de vertigem[…] edifica um mundo desolador em que a face onírica e literária não esconde a violência do conjunto, destruindo toda a possibilidade de quietude". Mas essa noite primordial e inquietante "soube coexistir com paisagens mais ligeiras e felizes, como algumas das pintadas nos anos de Angola, e com citações plásticas da história da arte, num jogo de grande prazer plástico, bem como com objetos dotados de flagrante poética, na sua simplicidade de materiais, de técnicas e no sobressalto imaginativo". 2

Referências

  1.  Vladimiro Nunes (entrevistador). (2008-11-15). "A minha vida foi uma experiência muito bonita". Revista Tabu: 40 a 46. Semanário Sol.
  2.  Ferreira, Emília – "Cruzeiro Seixas". A.A:V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 86, 87. ISBN 972-635-155-3
  3. Ir para cima ↑ A.A:V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 86. ISBN 972-635-155-3
  4.  Galeria de S. Mamede. Cruzeiro Seixas. Página visitada em 21-05-2013.
  5.  França, José Augusto – A arte em Portugal no século XX. Lisboa: Livraria Bertrand, 1991, p. 397.