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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

isto é com um de peluche, se fosse verdadeiro era outra conversa !


Pintura de pavimentos em 3D (Julian Beever) - Provavelmente muitos de vocês já viram na Internet algumas imagens de pinturas de pavimentos em 3 dimensões. Ora bem, será mesmo esse o tema deste artigo, no entanto vou falar apenas do artista Julian Beever que trabalha como freelancer para várias empresas fazendo pinturas de pavimento em 3D.

Pintura de pavimentos em 3D (Julian Beever)



Provavelmente muitos de vocês já viram na Internet algumas imagens de pinturas de pavimentos em 3 dimensões. Ora bem, será mesmo esse o tema deste artigo, no entanto vou falar apenas do artista Julian Beever que trabalha como freelancer para várias empresas fazendo pinturas de pavimento em 3D.
Antes de mais…Sabem porque que ficamos com a sensação de que a pintura está em 3 dimensões? Porque o pintor utiliza uma técnica de projecção denominada anamorfose, em que quando observamos a pintura de um determinado ângulo ficamos com uma sensação de tridimensionalidade. Mas como uma imagem vale mais que mil palavras…
  • Até nem parece muito difícil de fazer uma pintura destas pois não? (para quem sabe pintar minimamente…que não é o meu caso)
globe
  • Agora vejam a complexicidade desta pintura. Visão lateral da pintura (tem cerca de 13 metros).
globe-wrongview
  • Olhem para aquele efeito de reflexo. Espetacular.
newt
  • Esta parece mesmo real.
coke
  • Vai um mergulho?
waterfall
  • Mais uma incrível pintura.
fountain
  • Borboleta gigante (vejam o pormenor da sombra)
butterflygd
Não deixem de visitar o site de Julian Beever para verem todas as pinturas. Infelizmente não pude colocar todas aqui por serem tantas.
linking2008.blogspot.pt

Xico Buark por Clarice Lispector - No fim dos anos sessenta já escritora consagrada, admirada e respeitada, Clarice Lispector foi convidada a fazer entrevistas. Entre maio de 1968 e outubro de 1969, publicou regularmente na revista Manchete, na seção "Diálogos Possíveis com Clarice Lispector". Entrevistou famosos do universo cultural (pintores, escultores, romancistas, músicos, atores...).

Xico Buark

por
Clarice Lispector

No fim dos anos sessenta já escritora consagrada, admirada e respeitada, Clarice Lispector foi convidada a fazer entrevistas. Entre maio de 1968 e outubro de 1969, publicou regularmente na revista Manchete, na seção "Diálogos Possíveis com Clarice Lispector". Entrevistou famosos do universo cultural (pintores, escultores, romancistas, músicos, atores...).


«Esta grafia, Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no Antônio’s. Gostei como quando brincava com palavras de crianças. Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo: um por achar engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama. Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o chamarem e lê vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso.

Ele não é de modo algum um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e sempre jovem que se chamasse Garoto, Francisco Buarque de Holanda seria da raça montanhesa dos garotos.

Marcamos encontro às quatro horas porque às cinco Chico tinha uma lição de música com Vilma Graça. Há um ano está estudando teoria musical e agora começará com o piano. Estávamos os dois na minha casa e a conversa transcorreu sem desentendimentos, com uma paz de quem enfim volta da rua.»

 Clarice Lispector e Chico Buarque.
Fotos encontradas em ieccmemorias.wordpress.com e tinho-blogtinho.blogspot.pt


Clarice Lispector: Você viveu ainda tão pouco que talvez seja prematuro perguntar-lhe se você teve algum momento decisivo na vida e qual foi?

Chico Buarque de Hollanda: Eu sou ruim para responder. Na verdade tive muitos momentos decisivos, mas creio que ainda sou moço demais para saber se eram de fato decisivos esses momentos. No final de contas não sei se eles contaram ou não.

CL: Tenho a impressão que você nasceu com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho de roça. Estou certa se para você não é muito laborioso criar?

CBH: E não é. Porque às vezes estou procurando criar alguma coisa e durmo pensando nisso, acordo pensando nisso – e nada. Em geral eu canso e desisto. No outro dia a coisa estoura e qualquer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo. E como é seu trabalho?

CL: Vem às vezes em nebulosa sem que eu possa caracterizá-lo de algum modo. Também como você, passo dias ou até anos, meu Deus, esperando. E, quando chega, já vem em forma de inspiração. Eu só trabalho em forma de inspiração.

CBH: Até aí eu entendo, Clarice. Mas a mim, quando a música ou a letra vem, parece muito mais fácil de concretizar porque é uma coisa pequena. Tenho impressão de que se me desse idéia de construir uma sinfonia ou um romance, a coisa ia se despedaçar antes de estar completa.

CL: Mas Chico, aí é que entra o sofrimento do artista: despedaça-se tudo e a gente pensa que a inspiração que passou nunca mais há de vir.

CBH: Se você tem uma idéia para um romance, você sempre pode reduzi-lo a um conto?

CL: Não é bem assim, mas, se eu falar mais, a entrevistada fica sendo eu. Você, apesar de rapaz que veio de uma grande cidade e de uma família erudita, dá a impressão que se deslumbrou, deslumbrando os outros com sua fala particular. O que quero dizer é que você, ao ter crescido e adquirido maior maturidade, deslumbrou-se com as próprias capacidades, entrou numa roda-viva e ainda não pôs os pés no chão. Que é que você acha: já se habituou ao sucesso.

CBH: Tenho cara de bobo porque minhas reações são muito lentas, mas sou um vivo. Só que por os pés no chão no sentido prático me atrapalha um pouco. Tenho, por exemplo, uma pessoa que me explica um contrato e não consigo prestar atenção em certas coisas. O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim. A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar. Hoje, por exemplo, acordei com um sentimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho.

CL: Eu também me sinto perdida depois que acabo um trabalho mais sério.

CBH: Tenho uma inveja: meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa idéia muito tempo.

CL: Talvez você ainda mude. Como é que Villa-Lobos criava? Seria interessante para você saber.

CBH: Sei alguma coisa. Por exemplo, uma frase dele que Tom Jobim me contou: diz que Villa-Lobos estava um dia trabalhando na casa dele e havia uma balbúrdia danada em volta. Então o tom perguntou: como é, maestro, isso não atrapalha? Ele respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro. É isso que invejo nele. Gostaria muito de não ter prazo para entrega das músicas, e não fazer sucesso: você gostaria, por exemplo, de sair para a rua e começar a dar autógrafo no meio da rua mesmo?

CL: Detestaria, Chico. Eu não tenho, nem de longe, o sucesso que você tem, mas mesmo o pequeno que eu tenho às vezes me perturba o ouvido interno.

CBH: Então estamos quites

CL: Todas as mães com filhas em idade de casar consentiriam que casassem com você. De onde vem esse ar de bom rapaz? Acho, pessoalmente, que vem da bondade misturada com bom-humor, melancolia e honestidade. Você também tem o ar de quem é facilmente enganado: é verdade que você é crédulo, ou está de olhos abertos para os charlatões?

CBH: Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso.

CL: O que é que você sentiu quando o maestro Karabtchevsky dirigiu “A Banda” no Teatro Municipal?

CBH: Claro que gostei, mas o que me interessa mesmo é criar. A intenção de Karabtchevsky foi das melhores, inclusive corajosa. Eu quero ver ainda a coisa se repetir com outros compositores populares.


CL: Você foi precoce em outras manifestações da vida? Fale sem modéstia.

CBH: Não, tudo que fiz como garoto é de algum modo ligado com o que eu faço hoje, isto é, versinhos.

CL: Você quer fazer um versinho agora mesmo? Para você não se sentir vigiado, esperarei na copa até você me chamar.


Chico Buarque no ensaio da peça "Roda Viva" em 1968 
e Chico Buarque na Passeata dos Cem Mil (1968).
 Fotos encontradas em topicos.estadao.com.br 
e www.jornalismoeducativo.com.br


Chico riu, eu saí, esperei uns minutos até ele me chamar e ambos lemos sorrindo:

Como Clarice pedisse
Um versinho que eu não disse
Me dei mal
Ficou lá dentro esperando
Mas deixou seu olho olhando
Com cara de Juízo Final.

CL: A banda lembra música de nossos avós cantarem: tem um ar saudoso e gostoso de se abrir um livro grosso e encontrar dentro uma flor seca guardada exatamente para durar. De onde você tirou essa modinha tão brasileira? Qual a fonte de inspiração?

CBH: Não sei não, é uma coisa difícil de conscientizar. Lembro da banda mesmo não tendo vivido no interior, mas atrás da minha casa tinha um terreno baldio onde às vezes havia circo, parque de diversões, essas coisas.

CL: Vi você na primeira passeata pela liberdade dos estudantes. Que é que você pensa dos estudantes do mundo e do Brasil em particular?

CBH: No mundo é para mim difícil falar, mas aqui no Brasil eu sinto em todos os setores um apodrecimento e a impossibilidade de substituição senão por mentalidade completamente jovens e ainda inatingidas por essa podridão. Aqui no Brasil só vejo esta liderança. Um rapaz do “New York Times” entrevistou-me e perguntou: está bem, vocês não querem censura nem repressão nem os métodos arcaicos de educação: mas se vocês ganharem, quem vai substituir as autoridades? Por incrível que pareça, o mundo político está envolvido por essa decadência e acomodação. E você? Eu também te vi na passeata.

CL: Fui pelos mesmos motivos que você. Mudando de assunto, Chico, você já experimentou sentir-se em solidão? Ou sua vida tem sido sempre esse brilho tão justificado? Chico, um conselho para você: fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

CBH: Também acho e sempre que posso faço a minha retirada.

CL: Na música chamada clássica, apesar dela englobar compositores aos quais o classicismo não poderia ser aplicado, nessa música o que você prefere?

CBH: Aí não é questão de preferência, é costume para mim. Tenho sempre à mão um Beethoven.

CL: Sua família preferia que você seguisse a vocação de outros talentos seus que em aparência, pelo menos, são mais asseguradores de um futuro estável?

CBH: No começo sim. Logo que entrei para a arquitetura, quando comecei a trocar a régua “T” pelo violão, a coisa parecia vagabundagem. Agora (sorri) acho que já se conformaram.

CL: Você está compondo agora alguma coisa e com letra sua mesma? Sua letra é linda.

CBH: Estou na fase de procura. Ontem acabei um trabalho que era só de música, que exigia prazo. Para uma canção nova, eu estou sempre disponível.

CL: No domínio da música popular, quem seria por sua vez o seu ídolo?

CBH: Muitos, e é por isso que é difícil citar.

CL: Seu pai é um grande pai. Quem mais na sua família eu chamaria de grande, se conhecesse?

CBH: Minha mãe, apesar de ter um metro e cinqüenta e poucos de altura. Eu li muito e papai sempre me estimulava nesse sentido.

CL: Qual é a coisa mais importante do mundo?

CBH: Trabalho e amor.

CL: Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?

CBH: A liberdade para trabalhar e amar.

CL: O que é o amor?

CBH: Não sei definir, e você?

CL: Nem eu.

Clarice Lispector. Entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, pp.99-104.
Entrevista encontrada em cafemargoso.blogspot.pt

Em 1968, contracultura, música e artes em alta, revoluções acontecendo no mundo todo, e uma luta contra a ditadura, mesmo sabendo do final, gostaria de estar lá. Carlos Scliar, Oscar Niemeyer, Clarisse Lispector, Glauber Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento, na passeata contra a ditadura em 1968. texto e foto de click-click-pose.blogspot.pt

citizengrave.blogspot.pt

A PALHAÇADA DO BANCOBOM DO BANCOMAU O Novo banco não é o BESbom nacionalizado? De quem são os 4,5 mil milhões de euros do capital do NovoBanco? Não fazem parte do empréstimo que a ‘troika’ ao Estado Português? Não é dinheiro do Estado? Quem paga esse empréstimo da ‘troika’?

A PALHAÇADA DO BANCOBOM DO BANCOMAU

O Novo banco não é o BESbom nacionalizado? De quem são os 4,5 mil milhões de euros do capital do NovoBanco? Não fazem parte do empréstimo que a ‘troika’ ao Estado Português? Não é dinheiro do Estado? Quem paga esse empréstimo da ‘troika’? não são os portugueses, com cortes nas pensões, nos salários, pagando brutais impostos, com a perca de direitos sociais, económicos? Este grupo de gangsters legalizados que nos (des) governa entrega dinheiro do Estado a uma entidade privada, que iremos mais uma vez pagar com língua de palmo.Ainda gozam connosco, fazendo afirmações grandiloquentes garantindo que a solução  encontrada é a que ‘melhor protege os contribuintes’. Devem considerar que somos todos estúpidos a quem eles ; espertalhões suburbanos, vendem vigésimos premiados com displicência.
Ontem a palhaçada teve um número esperado protagonizado pelo Governador do Banco de Portugal, repetindo várias vezes que foi enganado pelo padrinho da famiglia Espírito Santo, que raio o homem é um regulador supostamente competente que, ainda há muito pouco tempo dizia que o BES agora o banco mau, era um banco sólido, permitiu que fizesse um aumento de capital de quase 2 mil milhões de euros, tinha uma almofada financeira que suportava quaisquer prejuízos. Afirmava isso com enorme confiança no seu saber, tanto à comunicação social como na AR. Agora para tapar o buraco são necessários 4,9 mil milhões. Que credibilidade pode ter esse senhor,  mesmos se os papagaios de serviço na comunicação social o apoiem sem uma ruga de dúvida. Todos farinha dos mesmos sacos.
É este personagem de opereta que afirma que o dinheiro vai ser de um Fundo de Resolução, constituido que ele sabe não ter dinheiro suficiente menos de 10% do que entrou tapar o buracão, para completar o capital do NovoBanco, o BESbom, portanto que o Estado vai entregar aos privados 4,5 mil milhões de euros. Quer dizer 91,83% do capital do NovoBanco é dinheiro público, dinheiro nosso!!! Se isto nâo é uma nacionalização, o que será uma nacionalização?
A negação de que isto não é uma nacionalização encapotada, com aquele pinguim que é ministra das finanças na primeira linha, é feita por esses frenéticos e patéticos defensores das excelsas virtudes da gestão privada, como estão a ser exibidas na praça pública pela administração do BES. Como se tem visto noutros lados.
Mentem como sempre mentiram e continuarão a mentir quando se chega a uma solução como esta que só é um magnífico triunfo de uma solução com os privados que só funciona com milhares de milhões de euros do dinheiro público. Dinheiro que é do Estado, de todos nós.
É esta a verdadeira superioridade da gestão privada. Da sua perfeição, da sua excelência. Com essa pipa de massa entregue de mão beijada à administração liderada por Vitor Bento vamos ouvir cantar imensas loas a esses  gestores, todos eles defensoras do Pacto de Agressão e do empreendedorismo. Assim…gestores há muitos seus palermas.
E se lhes esfregassemos as mimosas e betinhas caras com uns panos encharcados de m****!

image
pracadobocage.wordpress.com

ALEXANDRA LUCAS COELHO . Gaza-Sines-Brasil

ALEXANDRA LUCAS COELHO

.





Gaza-Sines-Brasil


1-Sete tirinhas de Skype no telefone: “Desculpa não ter respondido mais cedo, quando não é o problema da electricidade é o problema da Internet / estamos bem querida / hoje o cessar-fogo começou às 7 da manhã / vai acabar daqui a uma hora e meia / consegui trazer água e comida / toda a gente manda amor e respeito.” Ayman Nimer, de Gaza para Sines, sábado, 26 de Julho, último dia do Festival Músicas do Mundo.

2-A última vez que me lembro de estar em Sines foi numa noite deste festival, há uns 15 anos. Antes disso, Sines era o Al Berto, mas nunca estive lá com ele, nem de dia. E antes ainda era a Petroquímica, chaminés, aquele cheiro quando se ia de Lisboa para o Algarve e a viagem demorava um dia, por alturas do 25 de Abril ou ainda antes de eu entrar para a escola, quando morei um ano em Santiago do Cacém.

3- Este Verão tive a sorte de ser pára-quedista. O apache que dirige o festival resolveu incluir na programação duas sessões sobre livros, uma com o Afonso Cruz, outra comigo, o que fez de mim a única pessoa com uma pulseira de participante que não tinha uma banda, porque, além de ter publicado 15 livros (30, contando com as ilustrações), ser pai de família, um encanto de pessoa, morar no Alentejo e desenhar, o Afonso compõe, canta, toca guitarra, harmónica, ukelele e actuou em Sines com a sua banda. Já eu, bem vi a cara do alentejano no bar dos artistas quando lhe pedi uma água. A pulseira não o enganou por um segundo: “Atão, tem alguma banda?”

4- O apache que dirige o festival chama-se, claro, Carlos Seixas. Índio de Viseu e não do Texas, confidenciou-me o livreiro local ao jantar. Éramos 17 à mesa, incluindo a banda do Afonso, The Soaked Lamb. Belo nome, disse eu, mas o Afonso diz que não, porque as pessoas não pensam logo em ensopado de borrego. Já o apache de Viseu-Texas não estava presente para confirmar as suas origens, porque basicamente tinha cerca de 30 mil pessoas às costas.

5- Fiquei impressionada com a multidão que lota o festival, sobretudo os faquires rastafaris que levitam acima dos perigos, numa nuvem de marijuana. Alguém na Jamaica viu o futuro, e o futuro era Sines: belas raparigas com testas tatuadas e plantas dos pés de um negro imemorial; belos rapazes mais leves que todo o volume das rastas, empoleiradas na nuca, como um polvo de lã. São um povo preferencialmente descalço, com vocação para transportar a sua própria casa e armá-la em qualquer passeio. Mas em Julho, em Sines, atravessam e são atravessados pelos outros povos, fãs de uma noite ou do pacote, viajantes, praieiros, famílias, betos, até.

6- O livreiro de Sines é o Joaquim Gonçalves. Foi ele quem me recebeu, para a fala de sábado, acabada de sair da toca. Achei que ia estar toda a gente na praia, mas havia gente vinda do Norte e do Sul com perguntas sobre Gaza, sobre o Brasil, uma Maria muito bonita com o contacto de um português fazedor de barcos em Pernambuco, que também anda descalço, até já andou nu. Sines tem uma costela pernambucana, quando o apache Seixas me ligou a primeira vez falou logo do Cordel do Fogo Encantado, banda que já esteve no festival e sobre a qual eu escrevera por causa do meu vizinho agricultor que lê Agamben. Ter costelas assim pelo mundo, Irão em palco numa noite, Israel na outra, depois dançar com o Benim, é política a longo prazo, porque o esquisito é sobretudo esquisito ao longe. Atalhando, quando, depois da fala eu e o Joaquim conseguimos enfim chegar ao castelo, já os Soaked Lamb iam a meio da festa e aquela voz de bluesman era mesmo o Afonso Cruz: chapéu. Escrever é OK, mas todos queremos é ser o Lou Reed.

7- Entre os Soaked Lamb e o jantar dos 17, o Joaquim levou-me à livraria dele, com a cara de Al Berto à entrada, uma cara de rapaz no Verão, do tempo em que Sines era uma aldeia e se ia à boleia pela Europa. Além das novidades, a livraria tem fundos bastantes para fazer acontecer a feira do livro na capela quinhentista junto ao castelo, onde acabámos por encontrar o Luís Henriques, da Homem do Saco, que veio compor cartazes artesanais, como as edições que eles continuam a fazer em Lisboa. Um cartaz, uma banda, peças únicas. Joaquim conheceu Luís, Luís conheceu Joaquim, ponto para a guerrilha. Estamos a falar do livreiro que ganhou o prémio de melhor atendimento em todo o país e durante o festival atende neste altar sacro-profano, livros, discos e talha dourada.

8- Domingo de manhã, havia tendas em qualquer canto de Sines. Uns burgueses, comparados com aqueles que ainda não tinham dormido, ou simplesmente dormiam no passeio. Já em direcção a Alcácer, bem antes de aparecerem cegonhas e arrozais, alguém deixara cair o enxoval na estrada, panelas, pratos. Bom momento para aquele samba de Nelson Cavaquinho que sempre me deixa a saudade aguda de certo sábado no Rio de Janeiro, quando passavam 100 anos sobre o nascimento de Nelson Cavaquinho, e com a sua elegante voz de baixo o cavaquinista Gabriel Cavalcante lançou: “Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor…” Foram estes versos que a banda de Afonso Cruz cantou ao poente no castelo, coincidindo com as sete tirinhas vindas de Gaza e a melancolia de quem ali em Sines pesava o que queria e não queria, luxo maior de estarmos vivos.    

IN "PÚBLICO"
03/08/14

ALEXANDRA LUCAS COELHO . Gaza-Sines-Brasil

ALEXANDRA LUCAS COELHO

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Gaza-Sines-Brasil


1-Sete tirinhas de Skype no telefone: “Desculpa não ter respondido mais cedo, quando não é o problema da electricidade é o problema da Internet / estamos bem querida / hoje o cessar-fogo começou às 7 da manhã / vai acabar daqui a uma hora e meia / consegui trazer água e comida / toda a gente manda amor e respeito.” Ayman Nimer, de Gaza para Sines, sábado, 26 de Julho, último dia do Festival Músicas do Mundo.

2-A última vez que me lembro de estar em Sines foi numa noite deste festival, há uns 15 anos. Antes disso, Sines era o Al Berto, mas nunca estive lá com ele, nem de dia. E antes ainda era a Petroquímica, chaminés, aquele cheiro quando se ia de Lisboa para o Algarve e a viagem demorava um dia, por alturas do 25 de Abril ou ainda antes de eu entrar para a escola, quando morei um ano em Santiago do Cacém.

3- Este Verão tive a sorte de ser pára-quedista. O apache que dirige o festival resolveu incluir na programação duas sessões sobre livros, uma com o Afonso Cruz, outra comigo, o que fez de mim a única pessoa com uma pulseira de participante que não tinha uma banda, porque, além de ter publicado 15 livros (30, contando com as ilustrações), ser pai de família, um encanto de pessoa, morar no Alentejo e desenhar, o Afonso compõe, canta, toca guitarra, harmónica, ukelele e actuou em Sines com a sua banda. Já eu, bem vi a cara do alentejano no bar dos artistas quando lhe pedi uma água. A pulseira não o enganou por um segundo: “Atão, tem alguma banda?”

4- O apache que dirige o festival chama-se, claro, Carlos Seixas. Índio de Viseu e não do Texas, confidenciou-me o livreiro local ao jantar. Éramos 17 à mesa, incluindo a banda do Afonso, The Soaked Lamb. Belo nome, disse eu, mas o Afonso diz que não, porque as pessoas não pensam logo em ensopado de borrego. Já o apache de Viseu-Texas não estava presente para confirmar as suas origens, porque basicamente tinha cerca de 30 mil pessoas às costas.

5- Fiquei impressionada com a multidão que lota o festival, sobretudo os faquires rastafaris que levitam acima dos perigos, numa nuvem de marijuana. Alguém na Jamaica viu o futuro, e o futuro era Sines: belas raparigas com testas tatuadas e plantas dos pés de um negro imemorial; belos rapazes mais leves que todo o volume das rastas, empoleiradas na nuca, como um polvo de lã. São um povo preferencialmente descalço, com vocação para transportar a sua própria casa e armá-la em qualquer passeio. Mas em Julho, em Sines, atravessam e são atravessados pelos outros povos, fãs de uma noite ou do pacote, viajantes, praieiros, famílias, betos, até.

6- O livreiro de Sines é o Joaquim Gonçalves. Foi ele quem me recebeu, para a fala de sábado, acabada de sair da toca. Achei que ia estar toda a gente na praia, mas havia gente vinda do Norte e do Sul com perguntas sobre Gaza, sobre o Brasil, uma Maria muito bonita com o contacto de um português fazedor de barcos em Pernambuco, que também anda descalço, até já andou nu. Sines tem uma costela pernambucana, quando o apache Seixas me ligou a primeira vez falou logo do Cordel do Fogo Encantado, banda que já esteve no festival e sobre a qual eu escrevera por causa do meu vizinho agricultor que lê Agamben. Ter costelas assim pelo mundo, Irão em palco numa noite, Israel na outra, depois dançar com o Benim, é política a longo prazo, porque o esquisito é sobretudo esquisito ao longe. Atalhando, quando, depois da fala eu e o Joaquim conseguimos enfim chegar ao castelo, já os Soaked Lamb iam a meio da festa e aquela voz de bluesman era mesmo o Afonso Cruz: chapéu. Escrever é OK, mas todos queremos é ser o Lou Reed.

7- Entre os Soaked Lamb e o jantar dos 17, o Joaquim levou-me à livraria dele, com a cara de Al Berto à entrada, uma cara de rapaz no Verão, do tempo em que Sines era uma aldeia e se ia à boleia pela Europa. Além das novidades, a livraria tem fundos bastantes para fazer acontecer a feira do livro na capela quinhentista junto ao castelo, onde acabámos por encontrar o Luís Henriques, da Homem do Saco, que veio compor cartazes artesanais, como as edições que eles continuam a fazer em Lisboa. Um cartaz, uma banda, peças únicas. Joaquim conheceu Luís, Luís conheceu Joaquim, ponto para a guerrilha. Estamos a falar do livreiro que ganhou o prémio de melhor atendimento em todo o país e durante o festival atende neste altar sacro-profano, livros, discos e talha dourada.

8- Domingo de manhã, havia tendas em qualquer canto de Sines. Uns burgueses, comparados com aqueles que ainda não tinham dormido, ou simplesmente dormiam no passeio. Já em direcção a Alcácer, bem antes de aparecerem cegonhas e arrozais, alguém deixara cair o enxoval na estrada, panelas, pratos. Bom momento para aquele samba de Nelson Cavaquinho que sempre me deixa a saudade aguda de certo sábado no Rio de Janeiro, quando passavam 100 anos sobre o nascimento de Nelson Cavaquinho, e com a sua elegante voz de baixo o cavaquinista Gabriel Cavalcante lançou: “Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor…” Foram estes versos que a banda de Afonso Cruz cantou ao poente no castelo, coincidindo com as sete tirinhas vindas de Gaza e a melancolia de quem ali em Sines pesava o que queria e não queria, luxo maior de estarmos vivos.    

IN "PÚBLICO"
03/08/14

TÁ-SE MESMO A VER NÃO TÁ-SE !!!!!! - Maria Luís Albuquerque sobre as irregularidades no BES: "Tem de haver punições severas"

Maria Luís Albuquerque sobre as irregularidades no BES: "Tem de haver punições severas"
A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, acredita que toda a situação em torno do caso Banco Espírito Santo obriga a que haja investigações judiciais que terminem em "punições severas".
A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, acredita que toda a situação em torno do caso Banco Espírito Santo obriga a que haja investigações judiciais que terminem em "punições severas".

"Tem de haver punições severas, contra-ordenações em matéria que é competência dos reguladores, uma investigação judicial que seguirá os seus termos", indicou a ministra numa entrevista na SIC esta segunda-feira, 4 de Agosto, um dia depois de o BES ter sido dividido em duas instituições para acautelar o risco decorrente do prejuízo do banco, grande parte do qual causado por operações feitas pela gestão de Ricardo Salgado à revelia das ordens dadas pelo Banco de Portugal. 

Para a ministra das Finanças, é importante que sejam "apuradas responsabilidades" e que seja "feita justiça, na forma que deva assumir".

Maria Luís Albuquerque considerou, na entrevista à SIC, que houve "um conjunto de factos deliberadamente ocultados e instruções deliberadamente desobedecidas", possivelmente constituindo "matéria de ilícito".

O Banco de Portugal disse no domingo, quando anunciou a solução para o banco, que foram praticados "actos de extrema gravidade" por parte da administração de Ricardo Salgado no BES, "prejudiciais para os interesses" do banco. Algumas dessas operações corresponderam a "um claro incumprimento das determinações do Banco de Portugal, que proibiam aumentos da exposição do Banco Espírito Santo, S.A. ao ramo não financeiro do GES". O regulador identificou um esquema de Ponzi, em que as entradas de dinheiro novas serviam para pagar juros e dívidas anteriores.

Neste momento, está a decorrer uma auditoria forense para tentar apurar responsabilidades individuais na instituição financeira "Caso se confirme a prática de ilícitos, serão extraídas as necessárias consequências em matéria contra-ordenacional e criminal", disse já Carlos Costa. Ricardo Salgado só vai prestar declarações depois de tal auditoria estar concluída.

ESDIÇÃO ESPECIAL - 1O DESASTRES HUMANITÁRIOS DA ACTUALIDADE IGNORADOS PELO MUNDO

10 desastres humanitários da aCtualidade ignorados pelo mundo

Aproveitando a deixa do conflito que se instalou na Ucrânia, do avião civil que foi abatido e da carnificina praticada na guerra civil da Síria, que começou em março de 2011 e matou mais de 160 mil pessoas, expulsou cerca de 3 milhões de refugiados e deslocou muitos outros dentro do país

10. Refugiados da Crise da Eritreia

Eritreia nem parece estar no mapa de tão esquecida ou até mesmo desconhecida por muitos (inclusive eu). Este país é governado por uma das maiores e piores ditaduras em atividade no mundo!
No governo do presidente Isaias Afewerki, as crianças são recrutadas para serem usadas como soldados, milhares são forçadas ao trabalho escravo e pessoas inocentes são rotineiramente sequestradas. Sem surpresa, milhares escolhem fugir do país e a política de “atirar para matar” prevalece para qualquer cidadão que deseja sair das suas fronteiras. Aqueles que conseguem sair vivos do país, muita vezes acabam em campos de prisioneiros em países vizinhos ou simplesmente são presos e deportados de volta à Eritreia, e quando retornam nunca mais são vistos.
Em outubro de 2013, a ONU admitiu que a situação dos refugiados estava ficando “desesperadamente triste”. Com cerca de 300.000 pessoas fugindo da Eritreia a cada ano, as coisas estão chegando a um ponto de rutura. No entanto e lamentavelmente, a Eritreia não recebe mais do que uma nota de rodapé na maioria dos sites de notícias.

9. Fome em Mali

10 desastres humanitários da atualidade ignorados pelo mundo (1)
No final de 2013, as forças da ONU anularam um levante terrorista no norte de Mali. Apesar de uma atrocidade em larga escala ser evitada, toda esta luta teve um efeito inesperado. As comunidades mais atingidas pela seca recente descobriram-se incapazes de produzir uma colheita de novo no ano seguinte. O resultado é uma crise alimentar que pode ficar desesperada a qualquermomento.
De acordo com a Visão Mundial, mais de três milhões de malianos correm o risco de ficar sem comida nos próximos seis meses. Atualmente cerca de 800 mil já estão morrendo de fome e a desnutrição está causando estragos na saúde de 400 mil crianças. Ao mesmo tempo, a falta de financiamento é o que torna difícil para as agências de ajuda fazerem alguma coisa para ajudar e combater o desastre em andamento.
Infelizmente as notícias não são boas, e estima-se que atualmente 50.000 crianças estejam a morrer em agonia.

8. Guerra Civil na Colômbia

10 desastres humanitários da atualidade ignorados pelo mundo (2)
Desde 1964, a Colômbia está num estado de guerra civil constante. Grupos terroristas de esquerda FARC e ELN viraram grandes extensões do país. Embora a própria guerra seja rotineiramente relatada na imprensa do mundo, um aspeto é menos bem conhecido: existem na Colômbia cerca de 4,9 milhões de refugiados internos.
Sem-teto, sem dinheiro e ignorados pelo seu próprio governo, os deslocados colombianos estão estrelando o seu próprio filme-catástrofe em câmara lenta. A Caridade Especialista IDMC estima que 94%o do povo está vivendo na pobreza e 77% vive na “pobreza extrema”. Isso significa que eles têm de sobreviver com menos de U$ 1,25 por dia.
Para a maioria desses refugiados, a vida significa ser violentamente agredidos nas ruas da favela, sequestrados e estuprados ou forçados a tornar-se um guerreiro para as FARC. O governo colombiano, por sua vez, trata-os como um incômodo e um “é melhor esquecer”.
Mas parece que ainda há esperança para que neste ano de 2014 seja o ano das FARC finalmente ABANDONAREM A LUTA ARMADA, a fim de acabar com a mais longa guerra civil do mundo.

7. Crise na Saúde em Camarões

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Camarões é muito menos conhecida do que a sua famosa e conflitiva vizinha Nigéria. Mas o país sofre de uma crise terrível onde a saúde encontra-se à beira de um colapso.
Um colapso total da saúde seria ruim o suficiente até mesmo na sociedade mais saudável. Mas, em Camarões, poderia ser uma sentença de morte para todo o país. As altas taxas de HIV já estão fora de controle, e mais de 50 mil crianças sofrem com a doença. Além deste quadro tenebroso, estas centenas de milhares de crianças estão passando fome agora, resultando numa segunda epidemia de crianças severamente abaixo do peso.
E como se isso não fosse o suficiente, a malária também é endêmica na região, contribuindo para a taxa de mortalidade infantil estratosférica de Camarões.

6. Limpeza Étnica na Política da Birmânia

O vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, foi inesperadamente libertado da sua prisão Mianmar e, em seguida eleito em 2012. Muitos declararam que o desastre do país em relação aos direitos humanos chegara ao fim. Mas algo novo e maligno começou a acontecer neste páis: a limpeza étnica.
Desde 2012, a minoria muçulmana de Mianmar tem sido alvo de extermínio por violentas milícias budistas. De acordo com informações da polícia local, casas foram totalmente queimadas, corpos foram mutilados e crianças foram assassinadas. A crescente violência tem descolado quase um quarto de um milhão de pessoas para acampamentos com saneamento inadequado, proporcionando um quadro com mais mortes no histórico atual da Birmânia.
A Human Rights Watch acusou o governo de “discriminação patrocinada pelo Estado”, que mata na tentativa de limpeza étnica. Infelizmente, o seu relatório tem recebido muito pouca atenção do público.

5. Problema dos romanos em Kosovo

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Em Kosovo aconteceu a última grande crise de refugiados do século 20. Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas pelo conflito e milhares foram mortos. Mas talvez nenhuma etnia tenha sofrido tanto quanto os romanos de Kosovo.
Ao longo de 16 meses brutais, 9 em cada 10 romanos viram as suas casas destruídas e os seus bairros invadidos. Os sobreviventes fugiram ou foram para os campos de refugiados com pouco saneamento básico, habitação inadequada e produtos químicos mortais contaminando o solo. E mesmo após 15 anos do término do conflito, muitos deles ainda continuam no local.
Dizer que as condições nestes campos são abismais seria um eufemismo. Em Konik, um acampamento de Montenegro, as famílias são arrebanhadas em contentores e deixadas para apodrecerem. Durante o inverno brutal de 2012, todo o acampamento ficou sem eletricidade. Crianças alojadas no acampamento Mitrovica, agora fechado, foram expostas a níveis de chumbo tão tóxicos que adquiriram deformidades pelo corpo.
Embora muitos tenham sido devolvidos à sociedade de Kosovo, a maioria ficou exposta à discriminação e à pobreza extrema.

4. A Situação das crianças da Libéria

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Em janeiro de 2014, o governo liberiano fez um anúncio chocante: de todos os casos de estupro reportados à polícia em 2013, mais de dois terços envolviam crianças com idades entre 3 e 14 anos.
Segundo a UNICEF, mais de 130 casos de violência sexual contra crianças são relatados na Libéria a cada mês. Muitos dos perpetradores nunca são levados à justiça, mesmo quando o resultado é assassinato. Para piorar a situação, as vítimas que testemunham, correm o risco de serem condenadas ao ostracismo pelas suas comunidades, mas os crimes muitas vezes não são notificados. Aqueles que fazem falar encontram-se no lado errado de um sistema de justiça que poderia resumir a sua atitude para com os direitos das crianças com um encolher de ombros simples.
Dê um passo para trás e as coisas ficam ainda mais sombrias. A Libéria é um dos “melhores spots” do mundo para o tráfico de crianças, um eufemismo para dizer que as pessoas lá aprisionam e repetidamente estupram crianças sem uma única dor de consciência. Orfanatos locais são conhecidos por prostituir os seus detentos, enquanto as empresas comerciais vão comprar crianças com menos de 10 anos de idade para usar como trabalho escravo. É como se o país fosse um buraco negro gigantesco para a empatia e esperança e as coisas não mostram nenhum sinal de melhora.

3. Os imigrantes do México

Não é nenhum segredo que os trabalhadores mexicanos muitas vezes apontam seus olhos para a fronteira norte-americana. Mas uma parte da história muitas vezes fica de fora: os horrores extremos que esses imigrantes enfrentam na sua jornada.
Segundo a Anistia Internacional, os trabalhadores que cruzam o México são rotineiramente sequestrados, estuprados e assassinados por gangues locais. As autoridades não se esforçam em fazer nada a respeito, e pelas estimativas da Anistia, essa indiferença resulta em dezenas de milhares de mortes e agressões a cada ano.
Graças à segurança reforçada e à presença de milícias, atravessar a fronteira tornou-se praticamente uma sentença de morte. Os migrantes enfrentam o deserto do Arizona numa área conhecida como a queima do Corredor da Morte. Desde 2001, esse trecho de deserto já matou 2.100 pessoas. Mas, nos últimos quatro anos, a contagem de corpos realmente decolou com números vertiginosos e alarmantes.

2. Crianças famintas do Sudão do Sul

Assim como Mali, Sudão do Sul é uma região que ainda se recupera de um conflito sangrento e catastrófico. E por lá, a luta também deixou sequelas terríveis. Com quase nada a ser colhido no norte do país este ano, estima-se que mais de um milhão de crianças esteja à beira da inanição.
De acordo com a caridade World Vision, a desnutrição é endêmica na região. E para piorar a situação muitas destas crianças estão ficando sem teto. Perdidas, com fome e confusas, muitas delas têm recorrido a comer folhas e detritos, e muitos comem qualquer coisa, literalmente.
A UNICEF atualmente estima que o desastre absoluto só pode ser evitado com o lançamento de uma operação humanitária de 75.000.000 de dólares. Essa meta parece ser improvável de se atingir, e a previsão é que uma névoa de morte está pra chegar em todo o Sudão do Sul em junho, matando cerca de 1,25 milhões de crianças.

1. O Desastre da república Centro-Africana

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E por fim, o Conflito entre muçulmanos e cristãos choca pela barbárie na República Centro-Africana. Um quarto da população está em perigo eminente de morrer de fome. Ataques violentos de milícias cristãs a minorias muçulmanas obrigaram quase 1 milhão de pessoas a sair de suas casas à procura de locais seguros para sobreviver. Segundo a estimativa da ONU, o confronto gerou 935 mil refugiados e deslocados até aqui, aproximadamente 20% da população do país, número que dá a medida do desastre. Poucos campos foram criados e muitos foram deixados a apodrecer à beira da estrada. O alimento é quase inexistente e com a temporada de chuvas que está por vi, um surto devastador de cólera pode estar a apenas algumas semanas de distância.
A população dentro dos campos de deslocados encontra-se protegida por exércitos internacionais, mas à mercê da subnutrição, malária e falta de água potável. Os centro-africanos que não se mudaram estão expostos à guerra entre Sélékas e anti-balakas e continuam reféns das demonstrações de força covardes que as milícias infligem àqueles que são inocentes, mas que estão no meio do fogo cruzado. No começo de abril, a ONU criou uma missão de paz com 12 mil membros, sendo 10 mil militares, para proteger os civis na RCA. O número de centro-africanos que necessitam de ajuda humanitária já atingiu 2,2 milhões. Em seu relatório pós-visita, Ban Ki-moon relembrou o genocídio perpetrado em Ruanda, há 20 anos, movido por razões semelhantes às que movem as milícias inimigas na RCA. “Como eu vi em Ruanda, as comunidades que passaram por trauma nacional maciço podem aprender a viver juntas mais uma vez em relativa harmonia. Esse é o espírito que os líderes e o povo da RCA devem reacender. A comunidade internacional tem uma oportunidade de ajudar e uma obrigação de agir.
O mundo não pode deixar de observar estas e outras tragédias que ainda afligem vários países pobres. Quando aquele terramoto atingiu o Haiti em 2010, a cobertura global levou a um número recorde de pessoas que procuraram a Cruz Vermelha para ajudar. Até hoje, o 11 de setembro continua a inspirar as pessoas para ajudar. Mas se for possível trazer esses desastres terríveis para a luz, talvez possamos fazer o mesmo para o povo da República Centro-Africana e o resto das vítimas esquecidas do nosso mundo.

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