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segunda-feira, 21 de julho de 2014

SONHOS INDIANOS EM LISBOA - Mil filmes por ano carregados de luxo kitsch. E dez milhões de espectadores diários que falam, gritam e assobiam durante a projecção. Os números da indústria cinematográfica da Índia não ficam nada atrás das cifras da máquina-Hollywood. Viagem para Oriente, rumo ao mundo louco dos estúdios de Bombaim.

Sonhos indianos em Lisboa


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Por Amelia Castilla 
Revista Visão 14 de Agosto de 2003

Coisas encontradas em revistas

Da Film City do Oriente saem por ano mais filmes do que de Hollywood. Só que as imagens
 da cidade dos sonhos nada têm a ver com o mundo real das ruas de Bombaim...»
Foto copiada da revista Visão.
Mil filmes por ano carregados de luxo kitsch. E dez milhões de espectadores diários que falam, gritam e assobiam durante a projecção. Os números da indústria cinematográfica da Índia não ficam nada atrás das cifras da máquina-Hollywood. Viagem para Oriente, rumo ao mundo louco dos estúdios de Bombaim.
«Suficientemente exótico? Uma melodia, uma coreografia e cores
que condigam com o sari das actrizes. Eis a receita do êxito.»
Foto copiada da revista Visão.
   Romance, violência, música, dança e fortes doses de moralidade fazem parte da mescla na qual se agita a maior parte dos argumentos dos filmes de Bollywood. Os indianos acorrem em massa ao cinema para assistir a histórias que nada têm a ver com o seu quotidiano e que invariavelmente acabam com um final feliz. Embora em muitas aldeias ainda funcione o cinema ambulante, fazem-se mais filmes na Índia do que em Hollywood.
   Não é necessário conhecer uma só palavra de hindi, a língua oficial da Índia, para seguir alguns dos melodramas de Bollywood. Um exemplo. Um menino pobre é recolhido em casa de uma família abastada com uma filha da sua idade. Ambos crescem juntos e felizes. Ela encontrará um marido da sua classe social e gozará a sua lua-de-mel, recriada numa coreografia onde se destacam os ambientes floridos (a combinar com o sari da rapariga), muitas nuvens e muito vento a fazer voar o cabelo da protagonista que olha com êxtase e paixão contida o seu novo marido. Tudo isto orquestrado com uma banda sonora pegajosa e vários números musicais. O meio-irmão, garboso galã sempre com a camisa desapertada a deixar ver os pêlos do peito (só as mulheres se vestem de forma tradicional), triunfa como cantor e é cobiçado por muitas mulheres, mas não encontra nenhuma que lhe agrade. O tédio, as viagens do marido e os terríveis pesadelos que começa a ter com o meio-irmão acabam por vencer a resistência da recém-casada que, com dor, descobre finalmente quem é o seu verdadeiro amor.
   Este seria o cliché ocidental de Bollywood, como é popularmente conhecida a produção cinematográfica da Índia, a indústria mais próspera deste subcontinente de mais de mil milhões de habitantes. Cerca de mil filmes por ano, dez milhões de espectadores diários, meio milhão de empregados. Estes são os números, mas até que ponto as fantasias reflectidas na tela, completamente distantes da miséria quotidiana, fascinam uma população acostumada a conviver em plena rua com elefantes, camelos, vacas e macacos?
«‘MADE IN BOLLYWOOD’ - Os produtos indianos chegam a um ginásio em 
Kabul, no Afeganistão (à esquerda), e a uma barbearia no Nepal (à direita).» 
Fotos copiadas da revista Visão.
A tradição ainda é o que era
   Nasreen Munni Kabir, especialista em cinema indiano e responsável pela sua divulgação em numerosos países europeus, considera que Bollywood se caracteriza por um pequeno número de ingredientes que são reelaborados em cada filme. «Para satisfazer o público é preciso premir os botões adequados actuações de estrelas vaporosas, música rítmica e melódica, decorações extravagantes e exteriores exóticos bem como o sentimento de que a ordem social não será posta em causa.» O seu nome é um piscar de olho ao cinema de Hollywood, no qual se alimentou ideologicamente durante décadas, mas agora fazem-se mais filmes em Bollywood do que na Meca do cinema norte-americano. Longe de se ver confrontado com qualquer crise e de só com um punhado de estreias conseguir recuperar o investimento, a produção cinematográfica em Bombaim não pára de crescer.
   Aqui, o triunfo cabe ao melodrama, aquilo a que alguns chamam «western massala». Os argumentos recriam fábulas moralistas destinadas a glorificar as virtudes tradicionais, a manter os privilégios dos ricos e a passividade das classes desfavorecidas. Muitos dizem mesmo que há compromissos para não romper com a tradição. Cada filme deve reiterar o que significa ser indiano e reflectir os valores morais e religiosos. A procura é tão forte que leva a diversificar a produção que se realiza sobretudo no Sul do país, embora actualmente estejam a ser construídos novos estúdios em Deli. O hindi, o bengali, o telegu e o taran são as línguas mais comuns nas rodagens.
«Heróis e Galãs - Os actores dos filmes de Bollywood são mais populares que as estrelas de rock no 
mundo ocidental. Os seus rostos «vendem-se» em posters. Lado a lado com os símbolos religiosos.» 
Foto copiada da revista Visão.
Banda sonora obrigatória
   Calcula-se que cerca de 500 milhões de indianos tenham menos de 25 anos e os filmes são sobretudo concebidos para satisfazer esse grupo etário. Mas para que uma película seja popular ela tem que entreter toda a família, da avó ao neto. «Ver cinema indiano é uma experiência animada, já que o público reage perante cada reviravolta do argumento», acrescenta Munni Kabir. Em muitas aldeias ainda funciona o cinema ambulante. Por caminhos poeirentos e sem nenhuma iluminação, circulam camiões carregados com toda a parafernália necessária para tornar possível o milagre do cinema. Um velho ecrã desdobrável, um projector e uma tenda de lona para acolher o público são suficientes para transportar os habitantes do campo a um mundo imaginário.
   A tragédia e a felicidade encontram sempre o seu reverso numa canção. A música é autêntica força do cinema indiano. A banda sonora dos filmes transformou- se, ela própria, num fenómeno imparável, para o qual muito contribuiu o aparecimento da MTV Ásia. Nos autocarros, cafés e centros comerciais soam insistentemente os temas que foram popularizados pelos filmes. As vendas de gravações das bandas sonoras contam-se por milhões. Em muitos casos, primeiro é lançada a música e só depois o filme. Cada dia que passa, torna-se mais curta a separação entre música e banda sonora.
   Os actores da moda de Bollywood, cujo rosto é exibido nos enormes cartazes pintados à mão que se podem ver por todas as cidades, são mais importantes na Índia que as estrelas do rock no mundo ocidental. Revistas e jornais seguem atentamente os pormenores da sua vida, embora a maior parte da população não saiba ler ou não os possa pagar.
   Muitas destas estrelas chegaram a Bombaim, Calcutá, Madrasta ou Hyderabad, as cidades onde se encontram as produtoras mais importantes, provenientes das aldeias, à procura de uma oportunidade. Mas são poucas as que o conseguem. A Bombaim, a capital comercial e financeira do país, chegam diariamente 2 mil pessoas em busca de trabalho. Apesar dos esforços para apagar as marcas do colonialismo britânico (Bombaim chama-se agora Mumbai) ainda circulam os típicos autocarros vermelhos de dois andares e, em boa parte dos edifícios oficiais, observa-se a arquitectura gótica vitoriana. Os edifícios inteligentes e os apartamentos, com preços a partir dos 240 mil euros, proliferam por toda a parte, apesar de os salários dos felizardos que encontram trabalho não ultrapassarem os 250 euros por mês. Enquanto os ricos se relaxam nos campos de golfe e frequentam os hotéis com piscina e lojas de luxo, grupos de famílias inteiras dormem nos passeios cobertas de farrapos e as crianças mendigam umas moedas pela Marina Drive, a avenida principal desta cidade de 16 milhões de habitantes. E o trajecto até Film City, nos arredores de Bombaim, não é mais do que um reflexo da miséria que assola o país.
 Aishwarya Rai e Shahrukh Khan, duas das maiores stars de Bollywood. Fotos encontradas na net.
A cidade dos sonhos
   Apenas uma barreira e um cartaz de madeira anunciam a entrada na cidade do cinema, onde é rodada a maioria dos filmes indianos. Em pouco mais de 20 hectares (antes ocupados por um bosque), rodeados por uma vegetação exuberante de cânhamo, acácias, buganvílias e palmeiras, ergue-se quase uma vintena de estúdios e cerca de 35 cenários de templos, lagos artificiais e mansões tipo Falcon Crest sem qualquer encanto.
   Cerca de uma centena de pessoas ocupam- se da manutenção das instalações que, à primeira vista, não têm o mínimo glamour, como a maior parte dos estúdios de cinema. Em Film City rodam-se tanto filmes como séries de televisão e anúncios publicitários. Em Janeiro passado, num dos cenários uma estação de montanha de aspecto tirolês filmava- se uma película infantil. A duração das rodagens é longa e, por isso, o cenógrafo Nitin Wable trabalha em vários projectos ao mesmo tempo. «Muitas vezes trabalha-se por turnos, o que permite às estrelas e aos técnicos passar de um estúdio para o outro e mudar de papel».
   A pobreza também está presente nesta cidade dos sonhos. Diante de cada filmagem, um grupo de pessoas observa sentado no chão toda a parafernália que envolve cada cena. De cócoras, uma mulher cata uma criança; outras correm pelo campo, enquanto um grupo de actores prepara uma cena de uma série de televisão. Noutro cenário, não longe dali, no que parece ser uma ponte, filma-se uma série de detectives. Krishna Arjun e Hussein Cagrawala, dois actores da moda, simulam um tiroteio.
«Na Índia,"Casamento Debaixo de Chuva" provocou polémica. Na Europa, a realizadora 
Mira Nair venceu o galardão mais importante do Festival de Veneza, o Leão de Ouro.» 
Foto copiada da revista Visão.
Uma 'nouvelle vague'
   A origem do cinema indiano remonta a 1896. No Watson's Hotel de Bombaim começaram a ser projectados os filmes mudos, mas só em 1913 foram realizadas as primeiras películas indianas. Já então se misturava o drama e a música, para entreter uma população que aceitava e aceita com resignação o seu destino. «O facto de a técnica cinematográfica poder realizar o mítico constituiu uma grande vantagem na narração dos contos heróicos. É por isto que os filmes de Bollywood continuam a conquistar a imaginação popular da Índia»,explica Munni Kabir.
   Hoje, algo parece estar a mudar no cinema indiano. Alguns realizadores, naquela que já é conhecida como a «nova onda», começam a demarcar-se de um cinema que não se destaca pela qualidade. Os espectadores indianos pagam para ver o que nunca terão, mas começam a emergir novos argumentos que abordam diferentes aspectos da sociedade indiana, contando com o apoio de um público ainda minoritário. «Bollywood é fantasia», diz Vasundhara Das. De olhos azuis e cabelo negro, Vasundhara é conhecida internacionalmente pelo seu papel emCasamento Debaixo de Chuva, de Mira Nair, uma das figuras mais destacadas do novo cinema que se faz neste país. Quando foi exibido provocou forte polémica porque se atrevia a revelar o segredo que, durante anos, Ria guardara sobre os abusos de que fora vítima por parte do tio. «Há temas tabu dos quais nunca se fala, muito menos no cinema, sobretudo os que afectam as mulheres», confessa a actriz. E a verdade é que o «produto Bollywood» começa a ser um fenómeno que transcende fronteiras. Muitos países árabes e algumas antigas repúblicas soviéticas já devoram este luxo kitsch. Com escasso conteúdo sexual e nenhum reflexo da realidade social.
Amelia Castilla 
EL PAÍS/VISÃO
Texto, títulos e legendas
Revista Visão, 14 de Agosto de 2003
Sonhos indianos em Lisboa
   Ao longo da semana, o sr. Dhimante vai recebendo as reservas para as sessões que, de sexta a domingo, passam no Cine 222, ao Saldanha, em Lisboa. Nunca um bilhete só, que na cultura indiana ainda existe o hábito de ver cinema em família. O gerente da sala com 200 lugares que, nos outros dias, está ocupada com a programação da associação Zero em Comportamento tem então todo o cuidado na distribuição dos lugares. Para que ninguém fique separado dos seus. Para que conforme diz haja «uma certa harmonia». Dhimante Cundanlal veio de Moçambique, no princípio dos anos 80, como aliás a grande maioria dos membros das comunidades de origem indiana que vive na capital portuguesa. Do pai herdou o gosto pelas imagens projectadas no grande ecrã e hoje, explica, o que ganha com o 222 dá apenas para cobrir os custos. Segundo as suas contas, já não tem nem um terço do público que tinha na década de 70 no tempo em que o cinema oriental andava na moda no Ocidente e ele ainda experimentou legendar os filmes em português (agora, fá-lo em inglês, por causa das gerações mais novas, nascidas cá). 
«Na cave do 222. A única sala de cinema que por cá passa filmes indianos. 
O sr. Dhimante diz que as histórias de amor são as preferidas.» 
Foto copiada da revista Visão.
   Esta cave, não muito longe da concorrência dos multiplex do Monumental, é um bom «barómetro» da economia do País: «Tomamos logo o pulso à situação.» Mesmo assim, há filmes que correm bem e, quando assim é, repetem no fim-de-semana seguinte. Aconteceu com Koi... Mil Gaya - Encontrei Alguém,«uma espécie de E.T.» cuja exibição se prolongará por mais uns dias. E acontece sempre que há uma história de amor. Com muita dança, muita música e, claro, um final feliz.
O senhor Champaclal já viu Koi... Mil Gaya, última produção de Bollywood que, em Lisboa, na passada sexta-feira, 8, foi exibida em estreia mundial. Achou que era uma película «muito bonita». E até é provável que, no programa radiofónico que mantém desde 1987, venha a pôr no ar a sua banda sonora. Aos domingos, das 10 às 15 horas, na antena da Rádio Orbital, o Swagatam (palavra para a saudação de boas-vindas) assinala as festividades dos vários calendários, fala da tradição hindu, divulga pensamentos e muita música.
Porque, aqui ou na ZeeTV (a cadeia de televisão indiana, que inclui um canal generalista e outro de cinema, da qual também ele é o representante em Portugal), esta nunca pode faltar. A par de uma história que até pode fazer chorar, mas que tem que acabar «em bem»
S.B.L.
Revista Visão
14 de Agosto de 2003

citizengrave.blogspot.pt

MEMÓRIAS DOS CABOS DE ÁVILA - «Recordo-me que houve, em 1969, uma greve de três dias por aumentos. A empresa tinha muito mais mulheres que homens. Encheram a fábrica de pides, armados, para nos intimidar. Ao segundo dia, deram os aumentos às mulheres, pensando que assim acabavam com a greve. Mas a greve manteve-se, até haver aumentos também para os homens e até voltarem para a fábrica os trabalhadores que tinham sido postos na rua durante a luta.

Dedicado a 
Manuel Grave e Aurélio Grave
e a todos os que passaram por lá.

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A recta dos Cabos Ávila em 1961. Arnaldo Madureira. Foto do Arquivo Fotográfico da CML.
Tinha 14 anos quando entrei para a fábrica dos Cabos Ávila. Tinha sido despedido de uma loja de tecidos na rua da Prata (a Pereira, Gonçalves e Xavier) por responder a um dos patrões e como se calhar já andava a dar problemas em casa, o meu pai tratou de arranjar maneira de eu ir para os Cabos Ávila para me ter sob controle. Trabalhei lá durante dois anos e meio até ser despedido por responder (que chatice) torto ao chefe dos guardas; Quando tocava a sirene a anunciar  o fim do dia de trabalho, os operários tinham 15 minutos para saírem da fábrica, Um dia resolvi tomar banho porque estava mais sujo do que o habitual e demorei uma meia hora e o chefe dos guardas desatou aos gritos comigo eu respondi com toda a delicadeza «vá gritar com a puta que o pariu» ou outra coisa do género e tratei de fugir rapidamente e esqueci o assunto e passados um mês ou dois ouvi  nos altifalantes «o operário numero tal é favor dirigir-se á secção de pessoal», quando lá cheguei disseram-me «pode ir vestir-se, está despedido». Tive alguma satisfação anos depois, quando o meu pai me disse que esse chefe dos guardas foi o primeiro a ser saneado a seguir ao 25 de Abril, era informador da PIDE. 
O meu tio Aurélio e o seu irmão Manuel (meu pai) já reformados e "livres" das 
máquinas infernais dos Cabos Ávila, onde passaram metade das suas vidas.
Eu com 15 anos em 1969, nesta altura
trabalhava nos Cabos Ávila. Aqui estou
com o meu sobrinho Paulo ao colo.
Tenho algumas memórias dos Cabos Ávila que duraram todos estes anos porque de certeza que têm a ver com o facto do meu pai contar em casa muitas coisas do que lá se passava. O meu pai, Manuel Fernandes Grave era Trefilador nos Cabos Ávila e trabalhou lá metade da sua vida (cerca de 40 anos) e recordo que o local da Trefilagem era á esquerda de quem entrava na nave principal. Sei que já velhote chegou a ser da comissão de trabalhadores e que teve um processo contra a administração dos Cabos Ávila, anos e anos nos tribunais e que acabou por ganhar. Lá também trabalhava o meu Tio Aurélio, irmão do meu pai e sei que trabalhavam por turnos que mudavam semanalmente (não tenho a certeza se era á semana ou quinzenalmente); era uma vida muito dura, aguentavam aquele ritmo á custa de muitos litros de vinho e tenho a certeza que com a grande maioria dos outros operários acontecia o mesmo. O meu tio Aurélio era mais implicado politicamente que o meu pai (penso que já naquele tempo era militante do PCP). O meu pai nunca foi militante mas tinha muitas simpatias, lembro-me de discussões da minha mãe com o meu pai por causa de ele querer ouvir a rádio Moscovo, nessa altura ninguém podia fazer barulho em casa já que o meu pai, Manuel Fernandes ouvia a rádio muito baixinho por causa de quem pudesse ouvir, já que na quinta da calçada ouvia-se tudo de umas casa para as outras. 
Noticias no jornal A Capital no ano de 1968, referentes á fábrica dos Cabos Ávila: A instalação de uma máquina gigante e uma festa de natal; tenho vagas memórias, da máquina recordo que ficou instalada na nave 2 e da festa de natal creio que foi no Cinema Lido da Amadora. Estas festas faziam parte da politica do estado salazarista, quase todas as grandes empresas faziam estas festas.
Nos Cabos Ávila assisti á primeira greve da minha vida (só tive consciência disso, anos mais tarde) e recordo perfeitamente essa paragem que não sei se durou mais que um dia; os operários parados ao lado das máquinas e do silencio geral. Recordo-me de o meu chefe me mandar fazer recados a várias partes da fábrica com recados absurdos do género «quantos parafusos havia de determinado tamanho» ou «quantas ferramentas havia em determinada secção» se «faltavam ferramentas», só muitos anos depois tive consciência de que me utilizavam (a mim e a outros) para saber os números da adesão á greve.  Recordo das andanças pela fábrica de um monte de homens de gabardina e estranhos à fábrica  (devia ser a PIDE) juntos com o chefe do pessoal e outros chefes de bata branca que eram os engenheiros (na altura chamavam-se: agentes técnicos?); não me recordo se estava lá o patrão mais odiado (Manuel de Ávila) que aliás só vi uma vez em dois anos e meio. Geralmente o meu pai referia-se ao Manuel Ávila como "Esse Bandido" e do outro patrão Jorge Ávila nunca o ouvi dizer nenhuma "bojarda", nem do pai deles Diogo Ávila, presumo que fossem, umas pessoas mais cordatas no trato com os operários. Deixo a seguir umas palavras de uma operária referente a essa greve, que trabalhou nos Cabos Ávila mais de 30 anos:
«Recordo-me que houve, em 1969, uma greve de três dias por aumentos. A empresa tinha muito mais mulheres que homens. Encheram a fábrica de pides, armados, para nos intimidar. Ao segundo dia, deram os aumentos às mulheres, pensando que assim acabavam com a greve. Mas a greve manteve-se, até haver aumentos também para os homens e até voltarem para a fábrica os trabalhadores que tinham sido postos na rua durante a luta. Nessas lutas houve despedimentos, houve comunistas e outros trabalhadores que foram presos, passámos muitos sacrifícios, mas resistimos.» 
(Rosa Faria, operária fabril, in, jornal Avante, Nº 1284 - 9.Julho.98)
Levantava-me muito cedo talvez seis e meia da manhã, tomava o pequeno almoço e apanhava o autocarro 50, que fazia a carreira Poço do Bispo até Algés, por volta das sete horas na segunda circular. Naquele tempo (1968/70), o 50 chegava de meia em meia hora (quando chegava) e ia pela segunda circular virava para Benfica ia até á estação de comboios, passava por baixo da linha férrea e ia até Pina Manique depois subia até aos Montes Claros no cimo do Monsanto, descia para a Estrada de Queluz e virava á esquerda para Algés. Aí era onde eu descia e ia a pé até á fábrica dos Cabos Ávila. Muitas vezes os atrasos do 50, faziam com que a carreira terminasse em Pina Manique e então tinha de ir a pé pelo Bairro da Boavista e atravessava as barracas do lado direito da estrada da Circunvalação e apanhava uma azinhaga ou estrada velha que ia dar á  Estrada Nacional 117 e á parte de cima da fábrica Cabos Ávila. No inverno era uma odisseia ir por esse caminho de terra porque desde grandes poças de águas a lama por todos os sítios era impossível chegarmos limpos á fábrica. Mas era o que fazíamos (havia muita gente do Bairro da Boavista que trabalha na fábrica) para não termos de dar uma grande volta; percorrer a estrada da Circunvalação passando a curva do parque de campismo até chegarmos ao cruzamento e subirmos até aos cabos Ávila passando pelos Laboratórios Azevedo.
Laboratórios, Torre e Escritórios. Maqueta do Arquitecto Edmundo Tavares 
e camião de transporte, parado perto dos laboratórios e torre dos Cabos Ávila. 
Fotos sem data, de IPPAR, e inoxnet.com.
Comecei a trabalhar na serralharia (como aprendiz), que era um barracão de madeira e onde fazia um frio dos diabos no inverno, tínhamos de fazer uma fogueira dentro de um bidão do óleo dos grandes para ficarmos com brasas para nos aquecer. Tenho uma cicatriz desses tempos e várias recordações daqueles 2 anos e meio que trabalhei nos Cabos Ávila (entre 1968 e 1970): Lembro-me da construção da Nave 2, porque alguns dos trabalhos foram feitos pela serralharia da fábrica, lembro dos vestiários com cacifos para cada operário (?), de lavatórios gigantes, como se fossem uns alguidares em metal para 6 a 8 pessoas (posso estar a inventar um pouco), dos chuveiros e de que havia água quente, uma coisa do outro mundo para quem só tomava um banho quente uma vez por semana. Havia uma biblioteca onde li muitos clássicos, que se podia levar para casa, havia um grupo desportivo, uma enfermaria com médico que creio era permanente; lembro-me da zona das oficinas por detrás da torre, onde havia uma rua que passava por baixo do edifício dos laboratórios ao lado da torre, da chaminé que ficava perto da carpintaria. 
Noticia no jornal A Capital em 1970, referente a um incêndio na zona da carpintaria. Disto não 
tenho qualquer memória e devia ter porque ainda lá trabalhava. Talvez estivesse doente nesta altura.
A nave principal era uma coisa gigante (para um miúdo) cheia de máquinas e com um barulho infernal, ainda agora parece que estou a ver o meu tio Aurélio a trabalhar junto de uma máquina no centro da nave. Do que não me recordo é de quanto ganhava mas devia ser uma miséria porque era uma miséria o que pagavam a homens e mulheres com filhos. Sei que comecei por receber á quinzena mas depois passou a mensal e quando o dia de pagamento calhava ás sextas feiras o Ávila só pagava na segunda feira seguinte dizia-se que era para ficar a ganhar juros nos bancos. Desta parte nunca me esqueci. A entrada para trabalhar era ás 8 da manhã e quem se atrasasse 5 minutos só entrava meia hora depois e era descontado no ordenado. A saída era, se bem me lembro ás 17,30h e tinha que se carregar num botão que dava verde ou vermelho, se desse vermelho éramos revistados tantos homens como mulheres.
Eram assim os Cabos Ávila por volta de 1970, trabalho "escolar" feito por mim, a partir das memórias desse tempo. É possível que tenha alguns erros mas nada de significativo. A recta dos Cabos Ávila não era tão larga, isto foi feito a partir de uma foto aérea do Google Earth de 2011.
Estas memórias estão muito misturadas já não sei onde começou uma e acabou outra; como já disse, comecei com aprendiz de serralheiro mas como tinha já alguma experiência, porque tinha trabalhado na Ferraria Franco no Campo Grande quase dois anos em 1965/66, rapidamente passei para ajudante do serralheiro mecânico principal da fábrica, que creio, se chamava Joaquim e acho que morava na Damaia. Assim deixei o barracão e passei a ajudar na reparação das máquinas e a trabalhar principalmente nas grandes naves 1 e 2 onde estavam quase todas as máquinas, este trabalho era muito melhor do que na serralharia, menos duro, menos sujo e só tinha um chefe e oficial a quem obedecer. Recordo a montagem de uma máquina gigante na nave 2 (ver a noticia de A Capital) que creio, era para fazer os cabos submarinos e de um acidente que não presenciei; De um operário que ficou sem os dois braços nos rolos metálicos das máquinas que amassavam o plástico para revistir os cabos, mas o meu chefe não me deixou ir ver. 
Estas fotos estavam lá para casa nas coisas de meu pai. Creio que se referem ao famoso "Um dia de trabalho para a Nação".  Isto ocorreu em 06 de outubro de 1974 e nas fotos estão o ministro do trabalho Costa Martins, a cumprimentar o Manuel Ávila que parece estar a dar-lhe a receita desse domingo. As fotos devem de ser de uma data posterior (pouco) e talvez se tenha organizado uma cerimónia. O que posso dizer é que o meu pai que está em todas as fotos não está nada satisfeito, assim como a maioria dos operários que assistem. E parece haver também algum incómodo na cara do ministro face ao ar satisfeito "desse bandido" Manuel Ávila, como dizia o meu pai.
«"Um dia de trabalho para a Nação" proposto pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves. Um domingo é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentes em cerca de 13000 contos.» (In, www1.ci.uc.pt)
Edifício dos Laboratórios e Torre dos Cabos Ávila, na foto da direita, vê-se mais em pormenor 
o que ficou de toda a fábrica. É considerado património industrial sem protecção?. Foto do IPPAR.
A Fábrica de Cabos Eléctricos Diogo d’Ávila instalou-se por volta de 1952, numa área industrial da Amadora, Alfragide. A sua implantação, nesta zona, foi estratégica de modo a tirar partido das vias de comunicação que a ligavam a Lisboa. O seu projecto arquitectónico é da autoria do arquitecto Edmundo Tavares, destacando-se de todo o edifício, de características marcadamente industriais, a torre do relógio, cuja função era suspender os cabos eléctricos, para a sua experimentação. Cessou a sua laboração em 1997, ficando o edifício devoluto, desde então, tendo sido parcialmente demolido em 2004. Neste momento para além de parte do edifício principal, também se mantém ainda erguida uma chaminé com cerca de 30 metros de altura.
(In, www.geocaching.com)
Recordo que foi aqui que comecei a aprender truques para quando fosse preciso ir para o médico e descansar uns dias em casa (mas esses não vos conto) com os outros ajudantes e aprendizes que eram tudo putos do Bairro da Boavista e do Bairro de Santas Martas em Algés, havia na altura bastantes putos a começarem a vida de trabalho. Foi nos Cabos Ávila que foi feita a minha primeira inscrição na segurança social e há uns meses fui verificar os meus descontos e constatei que a inscrição fora feita mas parece que o dinheiro dos descontos não chegou a sair dos cofres dos Ávila. E com todas estas memórias não vos cheguei a falar da Srª Teresa Ávila (de quem o meu pai me contou imensas coisas) que veio substituir o seu pai Manuel Ávila á frente da administração dos Cabos Ávila e que se revelou uma santa. É tão santa que só lhe desejo que vá para Serpa quando estiver 45 graus como preparação para o Inferno (escrevi isto antes de ver as fotos dela vestida de freira).
1978 - Lutas e negócios nos Cabos Ávila.
1981, Policias Paralelas - Noticia sobre a utilização de "comandos" nos Cabos Ávila como seguranças  
para intimidação dos trabalhadores. E duas fotos encontradas na net sobre o que resta dos Cabos Ávila.
2004, Cabo dos Trabalhos. Artigo da Visão. "Entre guerras de família, a administração 
da Cabos Ávila está a negociar a venda da maioria da empresa a investidores franceses".
1998 - Aspecto da concentração de trabalhadores da Cabos Ávila no refeitório da empresa por ocasião da passagem 
do 1º aniversário da entrada da fabrica em situação económica difícil. Foto António Cotrim, Lusa encontrada na net.
1997 - Excerto de uma reportagem sobre mulheres empresárias em que a própria Teresa Ávila diz que o pai Manuel Ávila «...havia assinado um documento que me proibia assumir a gestão de pessoal da empresa...». O que curioso é que nesta reportagem havia várias mulheres a serem entrevistadas e com fotos excepto Teresa Ávila. Eu já tinha feito uma busca exaustiva para arranjar uma foto de Teresa Ávila e não tinha conseguido nada. Foi então que lendo um "Avante" antigo que referia uma luta dos trabalhadores dos Cabos Ávila, e onde se falava numa reportagem do jornal Tal & Qual (de que falo adiante) e de onde fiz esta ampliação desta foto de Teresa Ávila com o pai Manuel Ávila. Duas prendas que ficam em foto para memórias futuras.

1997/1998 - Noticias sobre as Lutas nos Cabos Ávila

A responsável pela gerência da empresa Cabos Ávila, cujos trabalhadores estão desde final de Novembro em luta pelo pagamento de salários e pela garantia de viabilização da empresa, mandou anteontem encerrar os portões da fábrica.
Os trabalhadores decidiram paralisar desde 28 de Novembro, por não terem sido pagos os ordenados desse mês e parte do mês de Outubro. Desde essa sexta-feira a gerência não voltou a comparecer na empresa, fazendo Teresa de Ávila a ligação às hierarquias apenas por telefone, a partir do escritório da sua empresa Cablexport (também de cabos eléctricos, mas onde não se verifica a participação de outros herdeiros, como na Cabos Ávila).
A insistência de Teresa de Ávila em ocupar a cadeira da administração é o principal impedimento a que a empresa retome a laboração e comece a cumprir os seus compromissos para com os trabalhadores, os fornecedores e o Estado, que é o principal credor da fábrica de cabos eléctricos.
(...) nas instalações de Alfragide mantinha-se a situação que tem sido tratada como braço-de-ferro entre aquela gerente e os trabalhadores dos Cabos Ávila, que ainda não receberam os salários de Novembro e Dezembro e o subsídio de Natal, bem como retroactivos de Janeiro, Fevereiro e Março do ano passado. Alguns também não receberam parte do subsídio de férias e do salário de Outubro. O valor médio da dívida é estimado em 350 contos por trabalhador.
Apesar de desautorizada pela demissão da gerente principal, Ana de Ávila, e pela oposição dos restantes familiares-herdeiros, Teresa de Ávila continuava barricada nas salas da administração. Os trabalhadores, em horário normal e em piquete durante a noite, também não estão dispostos a abandonar a fábrica. Nas instalações mantém-se igualmente um elevado número de homens do Corpo de Intervenção da PSP.
(In, «Avante!» Nº 1254 - 11.Dezembro.97)

O Natal das bandeiras negras

Noutras ocasiões os trabalhadores dos Cabos Ávila foram forçados a recorrer a formas de luta, para exigirem o respeito pelos seus legítimos direitos e para garantirem o futuro da empresa e dos postos de trabalho. Desta vez, com uma pronta intervenção do Governo, poderia ter-se evitado que este fosse o Natal mais amargo dos que trabalham nos Cabos Ávila.
(...) A preocupação marcou o mês de Dezembro e ensombrou o Natal dos trabalhadores, situação denunciada com faixas e bandeiras negras a quem passava na «recta dos Cabos Ávila» naqueles dias.
No início do novo ano foi retomada a luta dos trabalhadores, que a 6 de Janeiro se deslocaram à residência do primeiro-ministro, para novamente reclamar do Governo uma intervenção que pusesse cobro aos desmandos de Teresa de Ávila. Na manhã seguinte, os primeiros operários a chegar aos portões da fábrica impediram a saída de uma viatura carregada por um grupo a mando da auto-administradora. Mais tarde, quando também os familiares de Teresa de Ávila foram por ela impedidos de entrar nas instalações, os trabalhadores forçaram a passagem e foram com aqueles até junto da misteriosa carga... que, como logo se descobriu, estava pronta para sair em tais condições que os herdeiros avançaram com uma participação por furto.
(In, «Avante!» Nº 1259 - 15.Janeiro.98 )
A Fábrica dos Cabos Ávila em 2009. Foto de ruinarte.blogspot.pt
"Manuel d'Ávila deixou marcas na história da empresa, pela frieza com que despedia, pelos baixos salários que sempre fez pagar e pelo recrutamento de mulheres porque lhes podia pagar ainda menos que aos homens. Rosa Faria (delegada sindical e membro da Comissão de Trabalhadores, operária fabril há 30 anos no Ávila) e Aida Catarino (delegada sindical, há 35 anos na empresa, empregada de escritório), ao recordarem esse passado, lembram também que, não por acaso, as primeiras reivindicações após o 25 de Abril foram de aumentos salariais e de acabar com os despedimentos à maneira de Manuel d'Ávila.
(...) Teresa é uma das filhas deste patrão, cuja biografia os nossos entrevistadosremetem para notícias já publicadas (designadamente no «Tal e Qual», no início deste ano, 1998). Lembram, contudo, que teve uma tempestuosa passagem pela empresa, como administradora social. Recusou-se a negociar o acordo de empresa, mesmo depois de uma greve de 14 dias, e mais tarde mandou colocar 50 trabalhadores na «sala amarela», mantendo-os desocupados durante um ano, e passou toda a gente para o regime de turno fixo. Também tem no seu palmarés o fim da creche que funcionava na fábrica. Chegou a despedir a própria irmã, ao saber que esta engravidara.
(...) a entrada de Teresa d'Ávila na fábrica foi feita numa altura de reestruturação e acompanhada da admissão, para cargos de chefia, de uma série de oficiais dos comandos, que «pisavam tudo e todos» para fazerem valer as suas razões. «Os trabalhadores encolheram-se um bocado, e começou aí o declínio dos Cabos d'Ávila», lamenta, recordando que naquela altura os processos de despedimento surgiam diariamente, «até no meio judicial se comentava».
Teresa Ávila, foi suspensa das suas funções na sequência de uma decisão do tribunal, que considerou procedente uma providência cautelar interposta por uma tia gerente.
Uma suspensão face à qual tentou introduzir na empresa pessoas da sua confiança, para assegurar o seu poder, o que os trabalhadores decidiram impedir, mantendo-se nas instalações.
(In, «Avante!» Nº 1267 - 12.Março.1998)
UMA FREIRA DOS DIABOS, 19 Janeiro 1998. Aqui está o "célebre" trabalho jornalistico do «Tal e Qual», onde vem duas fotos de Teresa de Ávila vestida de freira (isto parece um filme). Quando eu vi a referencia a esta noticia num jornal Avante antigo, tratei logo de encomendar á Hemeroteca a fotocópia e ei-la aqui; para ficar na história da fábrica dos Cabos Ávila.
2008 - Noticia sobre o lançamento de um livro que denunciava as empresas que entravam com dinheiro para a PIDE, como dizia o outro isto anda tudo ligado; empresas,freiras, pides e etc.

Os negócios que se preparam ?

Fotos de um projecto para a zona da Fábrica dos Cabos Ávila. Não consegui 
saber mais informações sobre este projecto. Ponto final sobre os Cabos Ávila. 
Fonte imagens: www.skyscrapercity.com. 



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