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sábado, 19 de julho de 2014

Quando Maria Callas ajoelhou perante o público de Lisboa

Quando Maria Callas ajoelhou perante o público de Lisboa


Texto de

Vítor Pavão dos Santos

Jornal Se7e 

16 Dezembro 1981



ATENÇÃO ! CLIK NAS FOTOS PARA AMPLIAR

«Considerada a maior soprano de todos os tempos, Maria Callas aterrou em Lisboa em Março de 1958 
para cantar a ópera La Traviata no Teatro Nacional de São Carlos. 1958. António Amado dos Santos.»
Foto encontrada em www.sabado.pt - Memórias do Aeroporto de Lisboa


 Coisas boas em jornais



Foi em Março de 1958. Como muitas vezes acontece, a Primavera chegara cedo. 
Como quase sempre acontece também, uma nuvem de aborrecimento envolvia Lisboa.

Quente demais para Março

Os divertimentos não eram muitos. O melhor ainda era ir dançar, na boite do Hotel Tivoli, ao som das músicas italianas então em moda. Pelos cinemas, o filme mais gozado era As lavadeiras de Portugal (Les lavandières du Portugal, 1958), «tourné au Portugal, en Avril», como diziam os anúncios. Nele, um par de agentes de publicidade (Jean-Claude Pascal e Annie Vernon), que queriam lançar uma máquina de lavar, vinham até cá para descobrir uma típica lavadeira, que acabava por ser a espanholíssima Paquita Rico, ex-virgem gitana, bebendo manzanilla e lavando roupa na Nazaré, enquanto Erico Braga puxava as redes e Carlos Ramos cantava o fado. Tudo isto bestialmente colorido.
E foi também nesse mês que apareceu  Sangue Toureiro,  o primeiro filme português às cores, com a Amália, muito mal fotografada, vivendo um amor impossível com Diamantino Viseu, e cantando mais um  hit  do Frederico Valério:  Amor, sou tuaDe notável, no teatro, só a engenhosa encenação com que Francisco Ribeiro deu vida nova, na Trindade, a uma peça de Júlio Dantas, muitos anos proibida pela censura: Um serão nas Laranjeiras.
E havia ainda as manifestações artísticas chics, como Liane Daydé e Michel Renault, «de l'Opéra de Paris», a dançarem no Tivoli. E, claro, decorria a sempre tão exclusiva temporada de ópera de S. Carlos. A quinta-feira à noite, com smoking obrigatório e ao domingo, na matinée mais democrática, o teatro iluminara-se, nesse mês de Março, para revelar a grande criação de Tito Gobbi, em Falstaff, de Verdi, a que se seguira a graça picante de Giulietta Simionato, em L'italiana in Algeri,  de Rossini.
O público era, como sempre, o mesmo. Uns iam para se verem aos outros. Alguns porque, além disso, também gostavam de ver ópera. Mas, uns e outros, todos aguardavam a grande sensação: a estreia, em Lisboa, a 27 de Março, de Maria Callas, em  La Traviata, de Giuseppe Verdi.

«Maria Callas e Alfredo Kraus, no palco de S. Carlos, numa cena do 1º acto da inesquecível La Traviata de 1958»
Foto copiada do jornal Se7e


«Vissi d'arte, vissi d'amore»

Era, por esses anos, Maria Callas uma das mulheres mais célebres do mundo. No entanto, embora o prestígio do seu talento fosse enorme, as primeiras páginas dos jornais preferiam ocupar-se dos seus «escândalos», dos seus «caprichos» de  prima donna, capaz de deixar a meio uma representação, mesmo que houvesse um presidente da República na assistência, como recentemente acontecera em Roma.
Esta onda de sensacionalismo mal deixava então compreender que esses «escândalos» e «caprichos» significavam um desmedido desejo de perfeição, uma intransigência artística que nunca pactuava com a mediocridade. Que, afinal, esses insultos ao público correspondiam a um respeito quase místico por esse mesmo público.
Sabia-se que a sua voz tinha possibilidades excepcionais, embora fosse uma voz difícil. Mas talvez não se soubesse que, devido a essa voz, muitas das obras do grande reportório lírico do século XIX tinham sido ressuscitadas, recuperadas para o público actual.
Sabia-se que fora gorda, como deviam ser as prima donnas, e se tornara depois elegantíssima, dizia-se que com prejuízo da sua voz. Mas sem, no entanto, se explicar claramente que fora assim que ela pudera fazer acreditar, ao moderno público, aquilo que vivia no palco, abordando as grandes personagens do passado como se acabassem de ser criadas, despojando-as de décadas de tradição deformadora.
Sabia-se, enfim, que a Callas arrastava multidões aos teatros, com a sua arte e os seus escândalos, mas raro se esclarecia que ela dava a essas multidões o máximo da sua arte e da sua vida, conquistando-as para o espectáculo da ópera, que encontrara decadente e abandonaria, depois de quase apenas dez anos de uma carreira de fulgor imcomparável, como algo vivo, cheio de novo entusiasmo e vibração.

 «Por Lisboa, passou Maria Callas, deixando um rasto da sua arte» In, Crónica Feminina, nº 73, 14-04-1958.
Fotos de conversamuitaconversa.blogspot.pt


Champanhe francês também para o coro

E um  dia  de  sol  de  fim  de Março,  Maria Callas  chegou  a Lisboa, instalando-se no único hotel chic da cidade, o AvizHotel, com uma bagagem numerosa, que incluía secretárias, o seu ainda marido e mentor, o comendador Meneghini, e um cão minúsculo, que nunca a largava.
Para os que farejavam o escândalo, mostrou-se simpática e distante, deixando-se fotografar em abundância, fazendo declarações de circunstância. Para alguns jovens entusiasmados, que a procuravam, era bem diferente: amável, acessível, muito interessada em conhecer o nosso meio musical.
Entretanto, S. Carlos limpara o pó àqueles sempre bafientos cenários que, durante décadas, Alfredo Furiga teve o monopólio de desenhar, decorando-os com certa riqueza para a grande noite.
Ao que constava, La Callas exigira um camarim digno, e a direcção do teatro mandou forrar de seda e decorar com gravuras aquele que passaria a ser o camarim da Prima Donna.
E que à Callas se ficou a dever. E quis também champanhe francês, no ensaio único e nas duas representações, o que deve ter estimulado todo o elenco, desde há muito escolhido, em que o jovem barítono italiano Mário Sereni interpretava o pai Germont, e onde se destacava, em estreia em Lisboa, um ainda mais jovem tenor espanhol, que havia de dar que falar, chamado Alfredo Kraus.
As duas récitas estavam esgotadíssimas. Na noite de quinta-feira, agarrei-me à telefonia e fui ouvindo a transmissão directa, feita pela Emissora Nacional. Como sempre acontecia quando a Callas cantava, as opiniões dividiram-se, Uns deliravam, outros detestavam. Indiferente é que ninguém ficava.

Maria Callas por Cecil Beaton. 1957.
Foto encontrada em mobiletest.moma.org


A maior actriz que já vi!

E chegou finalmente a matinée  de domingo. E eu, perigosamente debruçado de um camarote de 2ª ordem, perto do palco, ouvi impaciente a breve abertura de La Traviata, até o palco revelar a festa inicial. E entre a multidão dos convidados, surgiu Maria Callas, deslizante, fazendo esvoaçar um vestido de tule, cinzento-violeta, onde faiscavam alguns diamantes. Foi logo um deslumbramento. Alta, esguia, muito branca, de olhos electrizantes, com um nariz enorme, equilibrado por uma boca também enorme. Era uma figura magnífica, que se impunha, mal aparecia em cena. Embora a voz vibrasse estranhamente, o que mais me fascinou, e me acompanhou por toda a vida, foi o seu talento de actriz. A maior actriz que vi até hoje. Afirmo isto, sem medo de exagerar.
A interpretação, embora levada a extremos de pormenor, mantinha sempre uma linha, uma noção global. Falsamente alegre, mas fria e distante, ela mostrava-se subitamente impressionada pelo jovem Alfredo, que Alfredo Kraus, com a sua bela figura, a sua juventude de olhos incendiados, a sua voz quente, encarnava com rara perfeição.
O «brinde» foi magnífico, e depois, ao despedir-se dos convidados, a todos tratava de modo diferente: a uns lançava um sorriso vago, por vezes por cima do ombro, para outros, porém, era afável; a uns beijava na cara, a outros estendia a mão, quase sem os olhar. Tudo rápido, mas tudo muito marcado, e tão intensamente teatral e humano que a figura da grande dama do demi-monde, Violetta Valéry, se erguia logo no palco, para não mais se poder esquecer.

Um enorme arrepio final

Os aplausos cortavam constantemente a representação. No segundo acto, com um simples vestido de seda cinzento, só alegrado por um  pequeno ramo de malmequeres, o seu arrebatamento apaixonado transformava-se em indignação feroz, de olhar chispante, na cena com o pai Germont, para depois aceitar a resignação, com uma dignidade quase solene.
No terceiro acto, a aparição de Maria Callas era toda feita de um exagerado luxo premeditado, com um enorme vestido de veludo verde-garrafa, onde brilhavam arabescos de  starss.  Mas a vulgaridade da cortesã, mergulhada de novo no mundo da frivolidade, quebrava-se constantemente, mostrando-se a mulher vulnerável, presa a um juramento, depois humilhada, caída no chão, com o seu olhar a pairar, entre o assustado e o desafiador.
Mas todo este imenso caudal de emoções se concentrava no último acto. Arrastando um largo déshabillé flutuante, rosa-creme, com os longos cabelos vermelhos caídos, o seu rosto exprimia tal angústia, que doía de fixá-lo. Depois do grito dilacerante de É tardi!, ao terminar a leitura falada da carta de Germont, o Addio del passato era cantado num choro abafado, acompanhado de gestos muito lentos, como se o corpo, já sem vida, apenas fosse agitado por um vago vento. E, de súbito, com o anúncio da chegada de Alfredo, era possuída de uma agitação frenética, tentando levantar-se, para logo cair sem forças, observando-se num pequeno espelho de mão, que escondia, e voltava a erguer, interrogando- se, ao mirar-se.
Pela minúcia da representação, mais parecia assistir-se a um encadeado de grandes planos cinematográficos, que terminavam na morte, quando ainda ficava a pairar, no ar, aquela voz de espanto e de arrepio, que sublinhava a maior interpretação da Dama das Camélias per musica, a que alguma vez se terá assistido.

vídeos






Maria Callas e Alfredo Kraus, La Traviata de Giuseppe Verdi.
"Parigi, o cara". Lisboa. 1958.

A «prima donna» ajoelhada

No final, a sala estava ao rubro. O delírio atingiu o inesperado, por muito que se esperasse. Durante cerca de dez minutos, pelo meio de um clamor que fazia estremecer S. Carlos, Maria Callas agradeceu, acompanhada pelos outros intérpretes e pelo maestro Franco Ghione. O conjunto ía e voltava, mas os gritos e aplausos não cessavam de aumentar. As flores choviam sobre o palco, e ela distribuía-as pelos acompanhantes.
Até que, por fim, apareceu sozinha. Muitas mais flores cairam então, enquanto os espectadores dos camarotes e do balcão corriam, em tumulto, até à plateia, para ficar mais perto dela. Maria Callas parecia atordoada, movimentava-se, esboçava sair, para logo voltar. Como não sabendo mais o que fazer para corresponder a um tão esmagador entusiasmo, ajoelhou-se perante o público, deixou cair os braços, curvou profundamente a cabeça, com a longa cabeleira vermelha sobre o peito, e permaneceu assim, estática, como vencida perante aquela torrente de admiração, durante largos minutos, numa atitude de beleza inesquecível. Mas essa grande exaltação estava longe do fim. Subia em vibração. E foi então que, satisfeita mas perturbada, Maria Callas começou  a apanhar lentamente  as flores que lhe tinham atirado, a beijá-las, uma a uma, e a atirá-Ias ao público, como que devolvendo os aplausos dessa audiência que demonstrava saber corresponder à sua arte com uma energia insuspeitada. 

Capa da edição americana de «La Traviata» da Callas, 
na «San Carlos Opera House», da etiqueta Angel. 
Foto copiada do Jornal Se7e

E  agora «La Traviata» de Lisboa

Passaram-se muitos anos, assisti a outras grandes performances,  a outros delírios, mas aquela tarde em que Maria Callas cantou La Traviata, em S. Carlos, permaneceu, para mim, inultrapassável.
Ouvi depois, vezes sem conta, a única gravação de La Traviata com Maria Callas, existente, feita, para a Cetra, em 1953. Mas nunca consegui recapturar o fascínio daquela tarde de Março de 1958. De facto, sempre se lamentou que Maria Callas não pudesse ter gravado La Traviata quando a sua interpretação atingira a maior altura, depois das célebres encenações que, para ela, fizeram Luchino Visconti, no AlIa Scala, em 1955, ou Franco Zeffirelli, na Ópera de Dallas, em 1958. E isso aconteceu devido ao contrato de exclusividade para esta ópera, feito, em 1953, com a Cetra.
E eis que, no ano passado, chego eu a Nova Iorque, e vejo, em todas as lojas de discos, como grande sensação, uma nova gravação Callas — Traviata,  a chamada La Traviata de Lisboa.  Nada mais, nada menos que uma gravação feita em S. Carlos, em 1958, e que, editada agora comercialmente, se transformou num enorme êxito discográfico, com edições em vários países, incluindo Espanha. Quando chegará até cá?
Voltei então a encontrar, entre aquela tosse típica do público lisboeta, e os gritos inesperados do ponto, a Callas, no seu máximo esplendor, vivendo e morrendo em música Mas há, no entanto, uma pequena parcela apenas do que vivi naquela tarde. Nessa gravação, só há uma coisa que me faz uma raiva danada, é que cortaram praticamente todos os aplausos.

Texto de Vítor Pavão  dos Santos
Jornal Se7e
16 Dezembro 1981



La Traviata em Lisboa em 1958 com Maria Callas (Violeta), ópera na qual participou Maria Cristina de Castro (Amina).

UMA PORTUGUESA NO ELENCO

«Com pouco mais de 20 anos, Cristina de Castro estuda canto com Elena Pellegrini. Estreou-se no S.Carlos em 1955, num dos “pagens” de “Tannhauser”, e no Coliseu dos Recreios canta pela primeira vez em Novembro desse ano, na ópera “Um Sonho de D. João V”, da autoria do Conde da Esperança. Presença constante nestes dois palcos, sobre ela escreveu Joly Braga Santos: “Não só a sua voz é linda e exemplarmente colocada, como revelou um talento histriónico excepcional”. Em 1958 integra o elenco da célebre “Traviata”, com Maria Callas e Alfredo Kraus, fazendo o papel de “Annina”. (Na foto, Cristina de Castro com Callas) Em 1960 participa num concurso internacional de canto, em Liverpool, classificando-se como a melhor cantora estrangeira. Três anos depois inicia a sua colaboração na Companhia Portuguesa de Ópera, do Trindade, cantando a “Rosina” do “Barbeiro de Sevilha”. A sua carreira prossegue até princípio dos anos 70, altura em que se torna professora do Conservatório Nacional. Quem se recorda das temporadas de S.Carlos e do Trindade nos anos 50 e 60, certamente não esquece Cristina de Castro.»
(Fonte: Mário Moreau, "Cantores de Ópera Portugueses", Vol.3)  
Foto e texto encontrados em tv.rtp.pt

citizengrave.blogspot.pt

GERDA TARO - Gerda Taro nascida Gerda Pohorylle, em Estugarda, Alemanha, era filha de um casal polaco de educação liberal e origem judaica. A família mudou-se para Leipzig quando Gerda tinha dezanove anos. Devido à crescente influência dos nacionais-socialistas e a um novo círculo de amigos, envolveu-se em organizações de esquerda locais, tendo sido presa em 1933 por participar numa campanha de protesto anti-nazi.

Gerda Taro

Nasceu em Estugarda, Alemanha, em 1 de Agosto de 1910; e morreu em Madrid, Espanha, em 26 de Julho de 1937. Video encontrado no youtube: Gerda Taro, a sua história fotográfica, com muitas fotos rarissimas. Carregado por ganlesat em 2009.

Gerda Taro nascida Gerda Pohorylle, em Estugarda, Alemanha, era filha de um casal polaco de educação liberal e origem judaica. A família mudou-se para Leipzig quando Gerda tinha dezanove anos. Devido à crescente influência dos nacionais-socialistas e a um novo círculo de amigos, envolveu-se em organizações de esquerda locais, tendo sido presa em 1933 por participar numa campanha de protesto anti-nazi. Percebendo que era muito perigoso permanecer na Alemanha, foi viver para Paris.

Gerda Taro na frente de guerra em Córdoba, setembro de 1936. Robert Capa. 
Foto de www.magnumphotos.com


Após um ano em Paris, tendo dificuldade em encontrar trabalho, Gerda conheceu o fotógrafo húngaro André Friedmann, que viria a mudar o seu nome para Robert Capa. Gerda e André passaram a viver juntos, tendo Gerda começado a gerir a componente empresarial do trabalho de Capra, e iniciando-se na fotografia. Trabalhou na agência Alliance Photo, o que lhe proporcionou uma experiência inestimável na área do fotojornalismo e, em Fevereiro de 1936, obteve o seu primeiro cartão de jornalista. Gerda e André, frustrados com a falta de sucesso a vender as suas reportagens, criaram um fotógrafo americano fictício chamado Robert Capa, sob cuja identidade poderiam conseguir arranjar melhores contratos ao contrário dos muitos emigrantes judeus do leste da Europa a viver em Paris. Gerda, por sua vez, mudou o seu apelido para Taro, utilizando o do artista japonês Taro Okamoto. Ambos os nomes tinham ressonâncias de Hollywood: Capa ecoando o cineasta norte-americano Frank Capra, e Gerda Taro recordando Greta Garbo.

 Gerda Taro em Guadalajara, pouco tempo antes de ser morta. 1937. Robert Capa? e Soldados 
Republicanos na Batalha de Brunete, onde Gerda Taro morreu, Espanha. Julho 1937. Gerda Taro.
Fotos encontradas em wikipedia.org e digitaljournalist.org

Quando a Guerra Civil Espanhola foi desencadeada, em 17 de Julho de 1936, Capa e Taro foram imediatamente para Barcelona. A oportunidade de poder fazer fotografia de combate, conjuntamente com a participação numa causa de esquerda, que para os emigrantes Capa e Taro era simpática, foi uma oportunidade ímpar para o casal. Fotografaram muitas vezes em conjunto as mesmas cenas. Os seus retratos deste período são facilmente distinguíveis, pois usavam câmaras que produziam negativos de diferentes proporções – Taro o formato quadrado da Rollei, e Capa o rectangular da Leica. Além disso, o trabalho de Taro revela o seu interesse em experimentar a dinâmica de ângulos de câmara da fotografia da Nova Visão. Depois de fotografar em Barcelona, dirigiram-se para oeste e depois para sul, até Córdoba, onde Capa fotografou o seu famoso "Soldado Caindo", um miliciano republicano caindo para trás numa encosta, ao ser mortalmente atingido por uma bala.

Um menino com o uniforme da Federação Anarquista Ibérica, Agosto de 1936. Gerda Taro.
Foto encontrada em wikipedia.org


Desde o início, as fotografias de Taro e Capa foram publicadas em revistas como a Vu, reputada revista francesa ou no Züricher Illustrierte da Suíça. Embora o trabalho tenha sido creditado inicialmente a "Robert Capa", era um projecto colectivo para o qual ambos contribuíram. Os álbuns com as impressões das folhas de contacto deste período mostram que a colaboração era clara: as fotografias de Taro e Capa não estão atribuídas, estando intercaladas, havendo reportagens composta pelos dois autores.

Dinamiteiros republicanos, em Carabanchel, arredores de Madrid, Junho de 1937. Gerda Taro.
Foto encontrada em wikipedia.org


Capa e Taro regressaram a Paris no Outono tendo feito uma segunda viagem a Espanha em Fevereiro de 1937. As fotografias desta segunda viagem são mais difíceis de distinguir, uma vez que tanto Taro e Capa trabalharam no mesmo formato rectangular de 35 milímetros. Para além de que passaram a publicar as suas fotografias com o nome "Capa e Taro," como numa fotografia de página dupla publicada no semanário francês Regards sobre os combates em Madrid. Capa permaneceu apenas brevemente em Espanha, regressando a Paris no final do mês, enquanto Taro ficou. Parece que o seu romance tinha arrefecido, e Taro estava a ter sucesso individualmente na imprensa francesa de esquerda. A partir de Março de 1937, as fotografias publicadas no Regards e no jornal de esquerda apoiante da Frente Popular Ce Soir são creditadas como "Foto Taro". Algumas das fotografias mais impressionantes de Gerda foram tiradas na Primavera de 1937 num hospital e numa morgue a seguir ao bombardeamento de Valência. Taro parece ter-se adiantado à famosa afirmação de Capa de que "se as tuas imagens não são suficiente boas, é porque não estás suficiente perto", com as suas fotografias de vítimas civis da guerra.

Pablo Picasso, Françoise Gilot e Javier Vilato. França. 1948. Robert Capa.
Foto encontrada colorsinlove.blogspot.pt


Em Julho, Gerda Taro cobriu, em Madrid, o Segundo Congresso Internacional de Escritores para a Defesa da Cultura e, em seguida, deslocou-se a Brunete, nos arredores da capital, para cobrir a luta para o Ce Soir. Durante duas semanas, Taro fotografou a batalha em redor da cidade. As suas imagens foram amplamente reproduzidas, em parte porque demonstravam que os republicanos estavam defendo Brunete, apesar de os nacionalistas afirmarem o contrário. Em 25 de Julho a posição dos republicanos vacilou, e Taro viu-se sozinha no meio de uma retirada precipitada. Saltou a correr para bordo de um veículo transportando vítimas, mas um tanque raspou no carro atirando Gerda Taro ao chão. A fotógrafa morreu no dia seguinte. O seu corpo foi tresladado para Paris, onde a fotógrafa foi proclamada mártir antifascista. O seu funeral, assistido por milhares de pessoas, realizou-se no dia do que teria sido o seu vigésimo sétimo aniversário. (texto encontrado em www.arqnet.pt)


Gerda Taro, sem outras indicações.
Fotos encontradas em deccard.blogspot.pt


Homenagem da LIFE em Agosto de 1937. LIFE Archives.

vídeo



citizengrave.blogspot.pt

SANTANA LOPES - ESTE ESTRÓINA QUE SÓ NUM PAÍS COMO O NOSSO CONSEGUIU CHEGAR A PRIMEIRO MINISTRO AINDA SONHA COM ALTOS VOOS

Presidenciais "Guterres é estimulante mas não é imbatível"

O antigo líder do PSD ainda não admite se é ou não candidato à Presidência da República mas já comenta sobre os seus potenciais adversários, caso concorra. Pedro Santana Lopes contou ao Expresso que “amadureceu” e que sente as pessoas na rua “muito próximas” dele.
POLÍTICA
Guterres é estimulante mas não é imbatível
Santana Lopes afirma não continuar a debater o passado mas reitera que, se tivesse continuado como primeiro-ministro, “o país teria poupado tempo e dinheiro”.
“Com a minha posição sobre as SCUT e as PPP teríamos poupado entre um terço a metade do dinheiro (…). Depois veio Sócrates e disse: nós fazemos e vai-se pagando. Foi o seu lado mau”, concluiu.
O antigo primeiro-ministro deixou, ainda assim, alguns elogios à “visão” de Sócrates e, noutra nota, ao papel de Passos Coelho no ajustamento económico, descrevendo-o como “marcante”.
Sobre a possibilidade de se candidatar não faz afirmações e remete essa decisão para o próximo ano, adiantando que aí é que se verá “quem é a pessoa mais indicada para fazer bem a Portugal na Presidência da República”.

A IGREJA NO SEU MAIOR ESPLENDOR NAZI E REACCIONÁRIO

Não é lícito abolir a propriedade particular por meio de impostos excessivos

Não é lícito abolir a propriedade particular por meio de impostos excessivos
“Condição indispensável para que todas estas vantagens se convertam em realidades é que a propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos e de impostos.“Não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não o pode pois abolir; o que ela pode é regular-lhe o uso e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela obra contra a justiça e contra a humanidade quando, sob o nome de impostos, sobrecarrega desmedidamente os bens dos particulares. 
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, 1961, p. 30).

Leão XIII: a justiça defende a manutenção integral da propriedade privada e a distinção de classes

Leão XIII: a justiça defende a manutenção integral da propriedade privada e a distinção de classes
“Importa que nada lhe seja (à democracia cristã) mais sagrado do que a justiça que prescreve amanutenção integral do direito de propriedade e de posse; que defende a distinção de classes; que, sem contradição, são próprias de um Estado bem constituído.”(Leão XIII, Encíclica Graves de Communi, de 18 de janeiro de 1901 - Vozes, Petrópolis, pp. 6-7).

Leao XIII: luta de classes entre ricos e pobres é erro capital

Leao XIII: luta de classes entre ricos e pobres é erro capital
O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado.“Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta; porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exatamente proporcionado, e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital.
“A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens.”
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, p. 14).

Os operários não devem esperar uma inconsiderada repartição de bens

Os operários não devem esperar uma inconsiderada repartição de bens
“Lamentamos que uma chaga verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. Os operários se afastam do seu próprio mister, fogem do labor e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens.”(Leão XIII, Lætitiæ Sanctæ, de 8 de setembro de 1893 - Vozes, Petrópolis, pág. 5).

Leão XIII: condenação do socialismo

Leão XIII: condenação do socialismo
Os socialistas, para curar este mal,instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para o Estado.Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes.“Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para subversão completa do edifício social.
“De fato, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem suas forças e sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso, para usar dele como entender.
“Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista, com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito de propriedade mobiliária e imobiliária?
“Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação. 
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, 1961, pp. 5-6).

Leão XIII: abolição das propriedades privadas e das classes sociais, meta do socialismo

Leão XIII: abolição das propriedades privadas e das classes sociais, meta do socialismo
“O socialismo quer que no Estado o poder pertença ao povo, de tal modo que, sendo suprimidas as classes sociais e os cidadãos tornados iguais, se caminhe para a igualdade das fortunas. Por isso também, quer que o direito de propriedade seja abolido, e que todas as riquezas que pertencem a particulares, mesmo os instrumentos de produção, sejam considerados bens comuns.”(Leão XIII, Graves de Communi, de 18 de janeiro de 1901, Vozes, Petrópolis, p. 6).

Bem-aventurado Inocêncio XI: a necessidade não justifica o roubo

Bem-aventurado Inocêncio XI: a necessidade não justifica o roubo
Erros vários sobre matéria moral, condenados por decreto do Santo Ofício, de 4 de março de 1679:“36. É permitido roubar, não só em caso de necessidade extrema, mas também de necessidade grave.
“37. Os criados e criadas domésticos podem ocultamente tirar de seus amos para compensar o seu trabalho, que julgam superior ao salário que recebem.
“38. Uma pessoa não é obrigada sob pena de pecado mortal a restituir o que tirou por meio de pequenos roubos, por maior que seja a soma total.”
(Bem-aventurado Inocêncio XI (1676-1689). In Enrique Denzinger, "El Magisterio de la Iglesia", Herder, Barcelona, 1963, p. 305).

Catecismo do Concílio de Trento: não é lícito roubar dos ricos porque são ricos

Catecismo do Concílio de Trento: não é lícito roubar dos ricos porque são ricos
“Todavia, havendo pessoas que procuram inocentar seus furtos, é necessário adverti-las de que Deus não aceitará nenhuma justificação de seus pecados; que tais escusas não diminuem, mas até agravam a culpa em proporção assustadora.“Mas que responder, quando por vezes ouvimos os ladrões afirmarem que não cometem pecado algum, roubando de pessoas ricas e abastadas, as quais disso não sofrem dano algum, e nem chegam a perceber o furto? Na verdade, uma vil e perniciosa desculpa. 
(Catecismo Romano, Vozes, Petrópolis, 1962, 2ª ed., pp. 412-413).

Inocêncio III: os ricos podem alcançar o Céu

Inocêncio III: os ricos podem alcançar o Céu
“Cremos que o diabo se fez mau, não por natureza, mas por arbítrio. De coração cremos, e com a boca confessamos, a ressurreição desta carne que levamos, e não de outra. Firmemente cremos e afirmamos também que o juízo se fará por Jesus Cristo, e que cada um receberá castigo ou prêmio pelo que houver feito com esta carne. Cremos que as esmolas, o sacrifício e demais obras boas podem aproveitar aos fiéis defuntos.“Confessamos e cremos que os que se ficam no mundo e possuem seus bens podem salvar-se, fazendo de seus bens esmolas e demais obras boas, e guardando os mandamentos do Senhor. Cremos que por preceito do Senhor hão de pagar-se aos clérigos os dízimos, primícias e oblações.”
(Inocêncio III (1198-1216), “Contra Durando de Huesca e seus companheiros valdenses”. In Enrique Denzinger, "El Magisterio de la Iglesia", Herder, Barcelona, 1963, p. 153).

Deus quis que os homens dominassem os bens da terra por meio do regime de propriedade privada

Deus quis que os homens dominassem os bens da terra por meio do regime de propriedade privada
“Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o fato de que Deus concedeu a terra a todo o gênero humano para gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos.“Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não designou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que ninguém há entre os mortais que não se alimente do produto dos campos.
“Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma arte lucrativa cuja remuneração, apenas, sai dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta.”
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, 1961, p. 7).

Leão XIII: invadir propriedades alheias sob pretexto de igualdade é contra a justiça

Leão XIII: invadir propriedades alheias sob pretexto de igualdade é contra a justiça
“Em primeiro lugar, cumpre que as leis públicas sejam para as propriedades particulares uma proteção e salvaguarda . E o que mais do que tudo importa, no meio de tantas cobiças efervescentes, é que no dever se contenha a plebe: porque só é lícita a tendência para melhores destinos respeitando-se a justiça.“Arrebatar pela força o bem alheio e invadir propriedades estranhas, sob o pretexto de absurda igualdade, são cousas condenadas pela justiça e repudiadas pelo próprio interesse comum.
“Certo, os operários que querem melhorar de sorte por um trabalho honesto e alheio a qualquer injustiça, formam grandíssima maioria; mas deles também há que, imbuídos de falsas doutrinas e ambiciosos de novidades, tudo põem em prática para excitar tumultos e arrastar os outros à violência. Intervenha então a autoridade pública e, refreando as agitações dos cabeças, assegure os costumes dos operários contra os artifícios da corrupção, e as legítimas propriedades contra os perigos da rapina. 
(Leão XIII, Rerum Novarum, Organização Simões, Rio, 1956, p. 38).

Igualdade utópica e comunismo é igual a miséria e escravidão

Igualdade utópica e comunismo é igual a miséria e escravidão
“Assim substituindo à providência dos pais a do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e despedaçam os laços de família.“Mas, além da injustiça de tal sistema, bem se patenteiam todas as suas funestas conseqüências: a perturbação em todas as classes sociais; uma odiosa e intolerável escravidão para todos os cidadãos; a porta aberta a todos os ciúmes, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a aptidão privados de seus estímulos; e, conseqüência necessária, as riquezas estancadas na fonte; finalmente, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade nas privações, na indigência e na miséria.
“Por tudo o que acabamos de dizer, compreende-se que a teoria socialista da propriedade coletiva deve ser absolutamente repudiada como prejudicial, mesmo àqueles que pretendem socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranqüilidade pública. Bem estabelecido fique, pois, que a primeira base que hajam de assentar os que sinceramente almejam a felicidade do povo é a inviolabilidade da propriedade particular.”
(Leão XIII, Rerum Novarum - Org. Simões, Rio, 1956, p. 18-19).

O homem pode legitimamente tornar-se proprietário da terra

O homem pode legitimamente tornar-se proprietário da terra
“O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objetos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas ações; também, sob a direção da lei eterna e sob o governo universal da Providência Divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e sua providência. É por isso que tem odireito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro.“De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra, mas ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser a sua fornecedora no futuro.”
“As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos.”
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, p. 7).

A Igreja defende a desigualdade entre os homens contra os sectários do socialismo

A Igreja defende a desigualdade entre os homens contra os sectários do socialismo
“Os sectários do socialismo, apresentando o direito de propriedade como uma invenção humana que repugna à igualdade natural dos homens, e reclamando o comunismo dos bens, declaram que é impossível suportar com paciência a pobreza, e que as propriedades e regalias dos ricos podem ser violadas impunemente.“Mas a Igreja, que reconhece muito mais útil e sabiamente que existe a desigualdade entre os homens, naturalmente diferentes nas forças do corpo e do espírito, e que esta desigualdade também existe na propriedade dos bens, determina que o direito de propriedade ou domínio, que vem da própria natureza, fique intacto e inviolável para cada um.”
(Leão XIII, Quod Apostolici Muneris - Vozes, Petrópolis, 1962, p. 12).

Pelo trabalho e pela poupança, também o operário deve tender a ser proprietário

Pelo trabalho e pela poupança, também o operário deve tender a ser proprietário
“O operário que receber um salário suficiente para socorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for avisado, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e obrará de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio.“Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se não começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares.”
(Leão XIII, Rerum Novarum - Vozes, Petrópolis, pp. 32-33).

Síntese dos ensinamentos de Leão XIII, promulgada por São Pio X

Síntese dos ensinamentos de Leão XIII, promulgada por São Pio X
“Tendo em visa a dramática confusão de idéias sobre problemas sociais e econômicos, a qual se vai alastrando pelos meios católicos com evidente vantagem para a expansão do comunismo, é oportuno divulgar uma síntese dos princípios ensinados sobre a questão por Leão XIII. Condensou-os o grande e santo Pontífice Pio X em seu Motu proprio Fin dalla prima, de 18 de dezembro de 1903, sobre a Ação Popular Católica:1 - A sociedade humana, tal qual Deus a estabeleceu, é formada de elementos desiguais, como desiguais são os membros do corpo humano; torná-los todos iguais é impossível: resultaria disso a própria destruição da sociedade humana (Quod Apostolici Muneris).
2 - A igualdade dos diversos membros sociais consiste somente no fato de todos os homens terem a sua origem em Deus Criador; foram resgatados por Jesus Cristo e devem, segundo a regra exata dos seus méritos, ser julgados por Deus e por Ele recompensados ou punidos (Quod Apostolici Muneris). 3 - Disto resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver na sociedade príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos, unidos por um laço comum de amor, se ajudam mutuamente para alcançarem o seu fim último no Céu e o seu bem-estar moral e material na Terra (Quod Apostolici Muneris).
4 - O homem tem sobre os bens da terra, não somente o simples uso, como os brutos, mas também o direito de propriedade, tanto a respeito das coisas que se consomem com o uso, como das que o uso não consome (Rerum Novarum).
5 - A propriedade particular, fruto do trabalho ou da indústria, de cessão ou de doação, é um direito indiscutível na natureza, e cada um pode dispor dele a seu arbítrio (Rerum Novarum).
6 - Para resolver a desarmonia entre os ricos e os proletários, é preciso distinguir a justiça da caridade. Só há direito de reivindicação quando a justiça for lesada (Rerum Novarum).
7 - O proletário e o operário têm as seguintes obrigações de justiça: fornecer por inteiro e fielmente todo trabalho contratado livremente e segundo a eqüidade; não lesar os bens nem ofender as pessoas dos patrões; abster-se de atos violentos na defesa dos seus direitos e não transformar as reivindicações em motins (Rerum Novarum).
8 - Os capitalistas e os patrões têm as seguintes obrigações de justiça: pagar o justo salário aos operários; não causar prejuízo às suas justas economias, nem por violências, nem por fraudes, nem por usuras evidentes ou dissimuladas; dar-lhes liberdade de cumprir os deveres religiosos; não os expor às seduções corruptoras e aos perigos do escândalo; não os desviar do espírito de família e do amor da economia; não lhes impor trabalhos desproporcionados às suas forças ou pouco convenientes para a idade ou para o sexo (Rerum Novarum).
9 - Os ricos e os que possuem têm obrigação de caridade de socorrer os pobres indigentes, segundo o preceito evangélico. Este preceito obriga tão gravemente, que dele serão exigidas contas de maneira especial no dia do Juízo, como disse o próprio Jesus Cristo (Mt. 25) (Rerum Novarum). 10 - Os pobres, por conseqüência, não se devem envergonhar da indigência, nem desprezar a caridade dos ricos, olhando para Jesus Redentor, que, podendo nascer entre riquezas, Se fez pobre para enobrecer a pobreza e enriquecê-la de méritos incomparáveis para o Céu (Rerum Novarum).
11 - Para a solução da questão operária, muito podem contribuir os capitalistas e os operários com instituições destinadas a socorrer as necessidades e a aproximar e reunir as duas classes. Tais as sociedades de socorros mútuos e de seguros particulares, os patronatos para crianças e, sobretudo, as corporações de artes e ofícios (Rerum Novarum).
12 - A este fim visa especialmente a ação popular cristã ou democracia cristã, com as suas obras múltiplas e variadas. Mas esta democracia cristã deve ser compreendida no sentido já fixado pela autoridade, o qual está muito afastado do sentido social de democracia [nome com que se designavam então a si mesmos, conjuntamente, o socialismo e o comunismo] e tem por base os princípios da fé e da moral católica, e sobretudo o princípio de não prejudicar de maneira nenhuma o direito inviolável da propriedade particular (Graves de Communi).
(Actes de S. S. Pie X - Bonne Presse, Paris, tomo I, pp. 109-110).