AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

30 anos da morte de Variações: Por que razão António Variações é uma história mal contada







30 anos da morte de Variações: Por que razão António Variações é uma história mal contada



O músico português faleceu há 30 anos, a 13 de junho de 1984. "Ainda hoje não sabemos que cometa era aquele", escreve Miguel Cadete.

Morreu, faz hoje, 13 de junho, 30 anos. E chegaria a septuagenário em dezembro. Datas redondas que nos ajudam, certamente, a recordá-lo. Mas a verdade é que ainda hoje não sabemos que cometa era aquele.

Para perceber António Variações, talvez valha a pena, antes do mais, começar por desmontar o mito e ficarmos pelas evidências e por aquilo que é factual. E o primeiro erro que todos cometemos ao tentar escrever-lhe a biografia é inscrevê-lo na vaga de rock português que surgiu a partir do momento que Rui Veloso publicou Chico Fininho e o álbum Ar de Rock em junho de 1980.

Posso não saber quem ele é - não o conheci pessoalmente e nunca o entrevistei - mas sei que António Joaquim Rodrigues Ribeiro pouco tinha em comum com a geração de Rui Veloso, Pedro Ayres Magalhães, Rui Reininho, António Manuel Ribeiro ou Zé Pedro. Sei também que a sua obra, quero dizer a música produziu e, sobretudo, as letras que escreveu, em pouco ou nada se relacionavam com a ideia de contestação da sociedade de consumo que invariavelmente todo o rock português prometia ("Chiclete", "Propaganda", "Cavalos de Corrida", "Rapariguinha do Shopping",...) nem com a firme intenção de emular os estilhaços de new wave que então eram disparados a partir do Reno Unido ou, em dose menor, dos Estados Unidos da América. Que ele, ao contrário dos outros, não era oriundo da classe média alta. Sei também que era viajado e isso não é certo na geração que em 1980 tinha 24 anos. Quando o "Robot" começou a tocar incessantemente na rádio portuguesa, António Variações já contava 37 primaveras.

É, por isso, irrelevante constatar que o primeiro álbum foi gravado com a ajuda de alguns dos músicos que então constituíam os GNR e que, no segundo, ele teve a ajuda daqueles que faziam parte dos Heróis do Mar. Se a música de António Variações estava entre "Braga e Nova Iorque" como, invariavelmente, todos os textos sobre ele repetem, isso não é detetável nos GNR ou nos Heróis do Mar. Nem sequer o uso promíscuo que fazia de aforismos populares nas suas letras ("O corpo é que paga", "quando fala um português", "é pr'a amanhã") se encontra no cosmopolitismo de uns ou no nacionalismo dos outros.

Posso não saber donde veio António Variações, além da menção, também ela omnipresente da freguesia de Fiscal, no concelho de Amares onde nasceu. Mas sei que em 1978, três anos antes da mãe de Rui Veloso chegar a Lisboa com uma cassetes gravadas do seu filho, já tinha um contrato discográfico assinado com a Valentim de Carvalho, a mesma editora dos autores de "Chico Fininho", de "Portugal na CEE" ou de "Rua do Carmo". Sei também que ele não vinha de um subúrbio da capital ou de uma zona mais chique de Lisboa; mas que tinha fama na discoteca Trumps onde se reunia a comunidade homossexual; e que era cabeleireiro de personalidades que à época apareciam na televisão, como a jornalista Maria Elisa ou o apresentador Júlio Isidro, que lhe abriram portas na TV, na rádio ou nas editoras discográficas.

Também sei que não foi aceite numa audição para vocalista dos Corpo Diplomático - o grupo de onde nasceriam os Heróis do Mar -, e que a editora com que tinha contrato assinado não sabia o que com ele fazer. A esse respeito, é de assinalar que as suas primeiras gravações, ainda hoje inéditas, são produzidas por Mário Martins, que havia trabalhado com Marco Paulo, José Cid, Paco Bandeira ou Alexandra, com orquestração de Jorge Machado (António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias), nomes ligados ao que então se intitulava "música ligeira" ou "nacional cançonetismo", senão mesmo folclore.

Não sei, não tenho a certeza, por que António Variações foi maltratado num dos seus primeiros espectáculos, já depois de editado o máxi-single "Estou Além" / "Povo que Lavas no Rio", na Feira Popular, enquanto fazia a primeira parte dos UHF. Mas sei que depois de os seus telediscos passarem na televisão foi adorado por um público que não se restringia ao do rock português e que, muito provavelmente, incluía todas as donas de casa do país.

Não sei porque a geração a que alegadamente se destinava - o target, como se diz agora - continuou na sua maioria, a desconfiar dele. Mas sei que nas editoras, nas rádios, na televisão e nos jornais despontava um número de profissionais que mudaram as regras da indústria da música em Portugal e fizeram com que nada fosse como dantes, tornando-a comparável com o que se fazia "lá fora". Alguns desses ainda estavam por trás da melhor homenagem que um dia fizeram a António Variações, os Humanos, e voltaram nessa ocasião a escrever a história da música em Portugal. Esses, e outros que então apareceram, têm a obrigação de, hoje, quando passam trinta anos desde o dia que morreu não deixar esquecido o génio sem mestre e, acima de tudo, começar a deixar claro quem era António Joaquim Rodrigues Ribeiro. 

Miguel Cadete


Artigo originalmente publicado no Expresso Diário

30 anos da morte de Variações: Por que razão António Variações é uma história mal contada







30 anos da morte de Variações: Por que razão António Variações é uma história mal contada



O músico português faleceu há 30 anos, a 13 de junho de 1984. "Ainda hoje não sabemos que cometa era aquele", escreve Miguel Cadete.

Morreu, faz hoje, 13 de junho, 30 anos. E chegaria a septuagenário em dezembro. Datas redondas que nos ajudam, certamente, a recordá-lo. Mas a verdade é que ainda hoje não sabemos que cometa era aquele.

Para perceber António Variações, talvez valha a pena, antes do mais, começar por desmontar o mito e ficarmos pelas evidências e por aquilo que é factual. E o primeiro erro que todos cometemos ao tentar escrever-lhe a biografia é inscrevê-lo na vaga de rock português que surgiu a partir do momento que Rui Veloso publicou Chico Fininho e o álbum Ar de Rock em junho de 1980.

Posso não saber quem ele é - não o conheci pessoalmente e nunca o entrevistei - mas sei que António Joaquim Rodrigues Ribeiro pouco tinha em comum com a geração de Rui Veloso, Pedro Ayres Magalhães, Rui Reininho, António Manuel Ribeiro ou Zé Pedro. Sei também que a sua obra, quero dizer a música produziu e, sobretudo, as letras que escreveu, em pouco ou nada se relacionavam com a ideia de contestação da sociedade de consumo que invariavelmente todo o rock português prometia ("Chiclete", "Propaganda", "Cavalos de Corrida", "Rapariguinha do Shopping",...) nem com a firme intenção de emular os estilhaços de new wave que então eram disparados a partir do Reno Unido ou, em dose menor, dos Estados Unidos da América. Que ele, ao contrário dos outros, não era oriundo da classe média alta. Sei também que era viajado e isso não é certo na geração que em 1980 tinha 24 anos. Quando o "Robot" começou a tocar incessantemente na rádio portuguesa, António Variações já contava 37 primaveras.

É, por isso, irrelevante constatar que o primeiro álbum foi gravado com a ajuda de alguns dos músicos que então constituíam os GNR e que, no segundo, ele teve a ajuda daqueles que faziam parte dos Heróis do Mar. Se a música de António Variações estava entre "Braga e Nova Iorque" como, invariavelmente, todos os textos sobre ele repetem, isso não é detetável nos GNR ou nos Heróis do Mar. Nem sequer o uso promíscuo que fazia de aforismos populares nas suas letras ("O corpo é que paga", "quando fala um português", "é pr'a amanhã") se encontra no cosmopolitismo de uns ou no nacionalismo dos outros.

Posso não saber donde veio António Variações, além da menção, também ela omnipresente da freguesia de Fiscal, no concelho de Amares onde nasceu. Mas sei que em 1978, três anos antes da mãe de Rui Veloso chegar a Lisboa com uma cassetes gravadas do seu filho, já tinha um contrato discográfico assinado com a Valentim de Carvalho, a mesma editora dos autores de "Chico Fininho", de "Portugal na CEE" ou de "Rua do Carmo". Sei também que ele não vinha de um subúrbio da capital ou de uma zona mais chique de Lisboa; mas que tinha fama na discoteca Trumps onde se reunia a comunidade homossexual; e que era cabeleireiro de personalidades que à época apareciam na televisão, como a jornalista Maria Elisa ou o apresentador Júlio Isidro, que lhe abriram portas na TV, na rádio ou nas editoras discográficas.

Também sei que não foi aceite numa audição para vocalista dos Corpo Diplomático - o grupo de onde nasceriam os Heróis do Mar -, e que a editora com que tinha contrato assinado não sabia o que com ele fazer. A esse respeito, é de assinalar que as suas primeiras gravações, ainda hoje inéditas, são produzidas por Mário Martins, que havia trabalhado com Marco Paulo, José Cid, Paco Bandeira ou Alexandra, com orquestração de Jorge Machado (António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias), nomes ligados ao que então se intitulava "música ligeira" ou "nacional cançonetismo", senão mesmo folclore.

Não sei, não tenho a certeza, por que António Variações foi maltratado num dos seus primeiros espectáculos, já depois de editado o máxi-single "Estou Além" / "Povo que Lavas no Rio", na Feira Popular, enquanto fazia a primeira parte dos UHF. Mas sei que depois de os seus telediscos passarem na televisão foi adorado por um público que não se restringia ao do rock português e que, muito provavelmente, incluía todas as donas de casa do país.

Não sei porque a geração a que alegadamente se destinava - o target, como se diz agora - continuou na sua maioria, a desconfiar dele. Mas sei que nas editoras, nas rádios, na televisão e nos jornais despontava um número de profissionais que mudaram as regras da indústria da música em Portugal e fizeram com que nada fosse como dantes, tornando-a comparável com o que se fazia "lá fora". Alguns desses ainda estavam por trás da melhor homenagem que um dia fizeram a António Variações, os Humanos, e voltaram nessa ocasião a escrever a história da música em Portugal. Esses, e outros que então apareceram, têm a obrigação de, hoje, quando passam trinta anos desde o dia que morreu não deixar esquecido o génio sem mestre e, acima de tudo, começar a deixar claro quem era António Joaquim Rodrigues Ribeiro. 

Miguel Cadete


Artigo originalmente publicado no Expresso Diário

O dia da ‘raça’ e a exibição circense na Guarda

O dia da ‘raça’ e a exibição circense na Guarda


1 - Salazar, a presença de um ausente
2 - Pátria, um fetiche em baixa de cotação nos mercados
3 – Forças armadas, brinquedo caro e inútil
4 – As intervenções externas não militarizadas
5 – A marcha celebrante do dia da ‘raça’


**********************!!********************

1 - Salazar, a presença de um ausente

No passado dia 10 de junho, excepcionalmente os nossos olhos cruzaram-se com uma emissão televisiva; e, por acaso, na transmissão das celebrações daquela data a que em tempos, Cavaco, numa sua emanação salazarista, designou por dia da ‘raça’. O homem andava nessa época assoberbado com o magno problema da identidade nacional, mostrando-se muito preocupado com o afluxo de imigrantes que poderiam vir a suplantar (!!), em número… os tugas de gema.

Há já algum tempo que encontramos muitas semelhanças entre Cavaco e Salazar. São os dois entes mais nocivos na História portuguesa do último século, com Salazar no degrau mais alto do pódio. Embora haja, entre outras, uma diferença visível entre os dois; Salazar era um intelectual e Cavaco um ignorante de alto gabarito.

No dia 10 observámos uma curiosa semelhança. Salazar, em 1967 caiu da cadeira (ou melhor, enganou-se quando julgava que se ia deixar cair na cadeira) e isso foi considerado como o início da última fase do regime fascista, um marcador da sua queda próxima. Cavaco no dia da sua ‘raça’, caiu do palanque, num claro símbolo da putrefação do regime cleptocrático atual, ainda que tivesse voltado ao púlpito, pouco depois e continuado com mais uma das suas vazias arengas. Em matéria de arengas, Cavaco aproxima-se mais dos discursos do seu antecessor Américo Tomás, inspirador do anedotário nacional da sua época.

Outro símbolo interessante é a queda do presidente nos braços do grande ayatollah castrense. Aliás, a centralização das comemorações do dia da ‘raça’ nas forças armadas sugere que a fragilidade do regime cleptocrático exige que o mesmo seja levado ao colo das forças armadas, papel que estas não recusarão para valorizar o seu papel e o quinhão do orçamento. Poderá considerar-se o folclore da Guarda como exibição dessa simbiose, da sintonia entre o poder civil e o militar, com os dez milhões de portugueses a assistir, desejavelmente anestesiados pelo brilho da cerimónia.

Minutos após o presidencial chelique surgiu no écran o emplumado general que comanda toda a tropa lusa; pensámos, por momentos, que iria anunciar estar Cavaco definitivamente para lá de Bagdad e assegurar que o poder não cairia nas ruas. Não há general que não goste da lei e da ordem nas ruas e de abastança nas messes.

A cinzenta figura estava tão preocupada com as ruas que logo admoestou os manifestantes anti-governo, colocando a parada em sentido, com um “tenham respeito por Portugal e pelas forças armadas!” Terá sido a necessidade de Cavaco elevar a voz para fazer ouvir o seu tosco bosquejo - sobre a presença na Flandres da tropa lusitana na I grande guerra - acima do coro dos manifestantes, que terá motivado o chelique. Uma fragilidade confrangedora!


2 - Pátria, um fetiche em baixa de cotação nos mercados

Já em tempos divulgámos o que pensamos dos patriotismos[1] e das forças armadas[2].

Não nos parece que a pátria, uma figura abstrata, um fetiche, seja merecedora de respeito algum, como qualquer conceito inventado para que muitos obedeçam e aceitem os privilégios de alguns, como instrumento de divisão entre pessoas da mesma condição, só porque têm línguas e culturas diferentes.

Diz-se que uma nação é composta por território, povo e Estado. O território merece-nos respeito enquanto parcela do habitat global de seres vivos e que se pretende seja preservado na sua harmonia, considerando-se como ínvia e desastrosa a apropriação privada da utilização dos seus recursos. Quanto ao povo, há certamente uma pequena faixa de elementos tóxicos que nos não merece respeito algum - as várias estirpes de capitalistas e mandarins - tendo-se em conta que a esmagadora maioria das pessoas tem um grande potencial de expressão solidária na construção das suas vidas, pessoais e coletivas. Quanto ao Estado, constitui outro inconveniente fetiche, emanado das referidas estirpes e para seu exclusivo uso e abuso, com funções repressivas, de punção fiscal, agravadas recentemente com cortes em rendimentos e direitos da esmagadora maioria em nome de uma dama virtuosa (diz-se), a austeridade.


3 – Forças armadas, brinquedo caro e inútil

A existência de forças armadas em Portugal é um luxo, incompatível com um povo que vive, na doutrina do poder, acima das suas possibilidades[3]. Entre as suas funções atuais, umas não se justificam, de todo, no quadro da segurança externa; outras, podem ser desmilitarizadas, como seja a vigilância das águas territoriais, que uma guarda costeira pode promover para a dissuação dos vários tipos de tráficos que utilizam a via marítima, bem como da pilhagem dos recursos haliêuticos ou de descargas poluentes.

Não é divisável qualquer ameaça militar externa à integridade do território; e, a acontecer, teria de ser protagonizada por força militar considerável que tornaria irrelevante a resistência das atuais forças armadas portuguesas. Imaginemos que a UE é empurrada pelo sistema financeiro para a venda dos Açores em leilão, como forma de devolver a dívida pública portuguesa para níveis de razoabilidade.

O território português não é invadido desde meados do século XIX e a atuação das forças armadas fez-se, posteriormente no exterior, em África, na Índia e na Flandres com resultados estrategicamente desastrosos ou colocados do lado errado da História. Em contrapartida, as forças armadas portuguesas protagonizaram vários golpes de estado até que a criação das democracias cleptocráticas, de mercado, lhes retiraram esse privilégio. Que o digam italianos e gregos quando os mercados impuseram Monti e Papademos, respetivamente, ao arrepio das práticas constitucionais. Por outro lado, o território português não tem profundidade estratégica para uma guerra moderna e, naturalmente, seria uma resistência popular que mais teria condições para desgastar e tornar insalubre a permanência de um invasor militar.

Nos tempos que correm, as forças armadas portuguesas limitam-se a organizar pequenos pelotões para enquadramento às ordens das forças da NATO ou a promover luzidas paradas militares como a do dia 10. As forças armadas deixaram sequer de se poder arrogar ao epíteto de “povo em armas” com o fim do serviço militar obrigatório, sendo-lhes reservada uma função de força repressiva de retaguarda, de guarda pretoriana do regime, constituída por funcionários com forte espírito corporativo. Ou não fosse a guerra contra os seus próprios povos a justificação mais profunda da existência da tropa.

A situação atrás descrita não é específica de Portugal, uma vez que no contexto da UE, além da França e da Inglaterra, nenhum país tem a chamada capacidade de projeção no exterior; embora alguns outros – Alemanha, Itália, Espanha, Suécia – usem as suas forças armadas como elemento complementar de uma indústria exportadora de armamento[4] que Portugal, de facto, não tem.


4 – As intervenções externas não militarizadas

As intervenções externas nos países de média ou pequena dimensão só excepcionalmente são militarizadas, nos dias de hoje.

Com a evolução do capitalismo o domínio político e económico não se processa hoje, tanto pela ocupação militar, pela colonização típica do século XIX e pela guerra, como antes. A liberalização dos movimentos de capitais, a atuação das multinacionais e do sistema financeiro, a segmentação da produção e a constituição de instituições internacionais ou multilaterais, de uma classe política global são factores de enquadramento dos espaços, dos povos e das riquezas tornando a maioria das nações irrelevantes como tal. Para o capitalismo globalizado há apenas localizações de recursos, individualizados através de bandeiras e hinos.

Nessa configuração atual do capitalismo, os países são intervencionados através do investimento estrangeiro, nas movimentações das bolsas, pelos sempre ignotos desígnios dos mercados, nas chamadas telefónicas da Merkel para o mainato Barroso, nos almoços entre Draghi e Weidmann, presidente do Bundesbank, nas cimeiras do G8, (reduzido para sete depois da zanga com Putin), por debaixo da alva cabeleira da Lagarde ou nas manobras dos altos funcionários da Goldman Sachs. Não custa imaginar uma intervenção militar da tropa lusa na defesa da pátria com ameaças advinda daqueles lugares mais ou menos etéreos; mas não podemos levar a sério uma entrada dos comandos na bolsa ou a detenção dos técnicos da troika à chegada ao aeroporto para ditar ao Passos as próximas decisões do conselho de ministros.

Mais concretamente, podemos apontar que a integridade pátria está em risco, sobretudo com as privatizações dos portos, das vias de comunicação, da ocupação da orla costeira por empreendimentos turísticos invasivos, da previsível privatização dos aquíferos. O próprio aparelho de estado não passa de um departamento do sistema financeiro que lhe enforma a atividade e as decisões relevantes; muito mais do que a defesa de qualquer harmonia social ou do tecido económico. E não consta que as forças ditas armadas se mostrem ativas intervenientes para obviar essas situações na defesa da grei, como genericamente lhes está cometido no texto constitucional; a não ser em avisos patéticos das suas estruturas associativas ou sindicais a que já ninguém liga por reiterada demonstração de que não passam de azedumes corporativos de quem sempre se considerou num patamar acima dos reles paisanos.

Essa inoperância na defesa da grei evidencia que as forças armadas estão bem sintonizadas com a governação, obedientes e bem inseridas no tal departamento do sistema financeiro, designado como Estado. Como tal, se não reagem, antes se acomodam à situação, torna-se um espetáculo circense o voo dos F-16[5] ou a parada militar de 10 de junho. E torna-se evidente que as forças armadas para nada mais servem do que constituir pelotões de retaguarda onde a suserania estratégica do Pentágono, via NATO, ordenar, em locais como o Líbano, o Afeganistão ou o Uganda que justificam visitas do aguiar-branco de serviço, pelo natal.


5 – A marcha celebrante do dia da ‘raça’

Voltando ao festival patrioteiro do 10 de junho, observámos, na bancada dos vips, uma hierarquia de protagonistas tendo, qual cereja pútrida no cimo, o Aníbal que desmaiou, tendo a seu lado direito como digna segunda figura do tal Estado dito soberano (?) a inconseguida, publicamente conhecida por ter alguns fusíveis fundidos; e à esquerda um género de drone telecomandado de Berlim que não brilha pelas capacidades intelectuais.

Este exemplar reles e santificado de trindade, constitui o vértice de uma hierarquia estatal marcada pelo roubo e pela corrupção. Em torno da trindade largas dezenas de gravatas ocupavam os gargalos dos mais altos dignitários da pátria, sendo mais conspícua a presença de alguns bonés de vários modelos, em regra reluzentes de incrustrações em pechisbeque de talha dourada. Notámos a presença, lado a lado, de Passos e do presidente do Tribunal Constitucional, apontado fulcro de todas as culpas de algumas dificuldades na estratégia governamental de empobrecimento coletivo para cumprimento da sua mais nobre missão de encarrilar uns € 7000 M por ano de juros, para saciar a gula do capital financeiro.

Do outro lado de uma sebe de polícias, algumas centenas de populares mostravam a sua pequenez, agradecidos perante tão elevada concentração de gradas figuras do regime cleptocrático, ganhando naquele dia direito a dormir sem a toma de soníferos, descansados com o estado de prontidão das tropas para a defesa face aos inimigos da lusa pátria. Mas faltaram os turistas e a CNN para espalhar o evento pelo mundo.

É espantoso como uma das mais inúteis instituições do Estado português é alvo de toda aquela coreografia oferecida à multidão como mistela para os males provocados pelo próprio Estado. Num momento em que a esmagadora maioria das pessoas é tratada como esbanjadores inveterados, obrigados a suportar as carências inerentes ao desemprego, à redução de rendimentos, às dificuldades na manutenção da saúde, às jornadas de trabalho acrescidas e outras, no dia 10 o tenente-coronel que relatava os festejos circenses da Guarda dizia que ‘apesar dos cortes, nenhuma missão dos militares tinha deixado de ser cumprida’. Ou os cortes foram superficiais, menores, permitindo a continuidade das tais missões ou foram de facto significativas, evidenciando com a sua continuidade, que terão vivido com dotações acima das suas necessidades.

Apreciámos particularmente o desfile militar, pelo colorido, pelo apuro musical da banda, pela diversidade colorida dos marchantes, como se fora tudo aquilo um ensaio geral para as marchas populares de Lisboa, representando cada farda a coreografia escolhida por cada bairro popular da capital.

Vimos grupos vestidos de branco que mais pareciam vendedores da praia, de gelados ou bolas de Berlim, em dias de gala. Ficámos sem saber perante a exibição de sabres desembainhados se ainda hoje se praticam abordagens como em séculos passados, com valentes marinheiros agarrados a cordas com sabres nos dentes a cair no convés do navio inimigo. Ao que apurámos, na recente intercepção de barcos de borracha com “piratas” somalis não foram utilizadas técnicas de abordagem. O relator do evento também não esclareceu se, perante a elevada altitude da cidade da Guarda, os marinheiros, em regra atuando ao nível das águas do mar, tiveram treino de habituação à altitude, como acontece com as equipas de futebol.

Não conseguimos apurar a razão dos marinheiros usarem um babete assente nas costas; nem a razão de lenços coloridos no pescoço dos operacionais peritos da camuflagem. Chamamos a atenção dos estados-maiores para este último caso pois pode mesmo ter o efeito contrário desejado por uma boa camuflagem; um lenço azul celeste no pescoço de um rambo pode denunciá-lo no meio da vegetação, tornando inúteis as pinturas de guerra na cara.

Não notámos na plateia dos vips o incansável o ministro das cervejas, promotor da exportação. A profusão de condecorações no peito de generais era imensa; uma massa enorme de pendões e bandeiras dava colorido à paisagem; tudo isso, juntamente com galões e os botões amarelos tão do agrado dos militares, certamente justificam indústrias várias, a criação de postos de trabalho e uma exportação interessante para os generalatos pagos em dólares pelo Africom.

Registámos também o contraste entre o fino corte das fatiotas dos convivas que rodeavam o ilustre desmaiado e as mangas arregaçadas de muitos dos marchantes, como se fossem trabalhadores de mudanças preparados para carregar colchões ou frigoríficos.

Era grande a variedade de fardas entre os marchantes, identificadoras dos vários regimentos, “armas”, pelotões, companhias, batalhões e é certamente a organização e a operacionalidade de toda essa gente que justifica grande parte da alta hierarquia das forças armadas. Não é fácil manter distinguíveis as tropas terrestres, face a marujos e araújos; seria inadmissível que um tenor de 'mama sutra' por engano entrasse num dos submarinos do Portas, onde o espaço tão ergonomicamente planeado não teria capacidade para encaixar um berro daquele ente, sem a abertura de fissuras no casco.

Entre as fardetas, havia de todos os feitios, calças e saias, chapéus, bonés, barretes, bivaques e boinas e até caras pintadas às cores[6] para se confundirem com a vegetação próxima em caso de ataque de algum inimigo que quisesse aproveitar tão elevada concentração de tropa e de mandarins para atacar e decapitar a nação. Alguns ostentavam mesmo uns engraçados pompons ou penachos, excelente camuflagem pensada para a atuação em jardins com plumas ou recintos de avestruzes. Uns poucos ostentavam passa-montanhas, certamente mal informados sobre o clima agreste da Guarda que não se compara com um inverno no Afeganistão.

Deixámos para o fim desta descrição do desfile das marchas patrióticas de uma Guarda-2014 o que considerámos mais original; as simbioses entre o passo militar e a dança.

Delicioso foi ver um pelotão de camuflados arremessar a perna esquerda para o lado e graciosamente a colocarem de imediato à frente, todos muito certinhos após muitas horas de treino na parada; outro pelotão surgiu em corrida moderada dobrando regularmente a perna para trás, num género de coicezinho (sem ofensa). Não conseguimos descortinar se se tratam de novas formas de confundir o inimigo, de o convencer que vem ao seu encontro um grupo de bailado e não soldados em missão de extermínio ou, se se trata de uma nova tática guerreira já testada em West Point e distribuída entre todos os membros da NATO.

Se ainda existir este regime, em 2015 há mais. Mas talvez sob a forma de parceria público-privada com uma empresa privada de eventos.



grazia-tanta.blogspot.pt
  

AMNISTIA INTERNACIONAL - NÃO PODERIAM SENSIBILIZAR DE OUTRA MANEIRA !?

IGGY POP ENCONTRADO TORTURADO COM O DALAI LAMA E KARL LAGERFELD!








dfghmfjh
"O futuro do rock é Justin Bieber", Iggy Pop
Torturar um homem e ele vai lhe dizer o que você quer ouvir. É a mensagem que lança nova campanha da Anistia Internacional, em sua versão francófona, para sensibilizar o público sobre a questão da tortura. Além de Iggy Pop, eles também "torturado", o Dalai Lama ("Um homem que não tem um Rolex aos 50 anos de idade é um fracasso") e estilista alemão Karl Lagerfeld ("A altura de elegância é a camisa havaiana com flip-flops. ").
Verdadeiramente incroyable.
 

tjgtr6u

cdcddk

ELEIÇÕES EUROPEIAS: A ECONOMIA VAI DECIDIR A MUDANÇA 1 – No passado dia 25 de Maio, houve eleições para o Parlamento Europeu (PE), onde, pela primeira vez, se apresentaram e fizeram campanha, a par dos candidatos partidários nacionais, abrangendo todos os Estados membros da União Europeia (UE) candidatos trasnacionais, que representaram algumas das “famílias políticas”, à liderança do Conselho Europeu.

ELEIÇÕES EUROPEIAS: A ECONOMIA VAI DECIDIR A MUDANÇA

1 – No passado dia 25 de Maio, houve eleições para o Parlamento Europeu (PE), onde, pela primeira vez, se apresentaram e fizeram campanha, a par dos candidatos partidários nacionais, abrangendo todos os Estados membros da União Europeia (UE) candidatos trasnacionais, que representaram algumas das “famílias políticas”, à liderança do Conselho Europeu.

Estas eleições deram-se no meio de uma profunda crise do capitalismo mundial, e, em particular, do lumpen capitalismo financeiro, e, de uma descrença generalizada nas instituições enquadradas pelo parlamentarismo burguês e nos partidos que dominaram (e ainda dominam) o aparelho de Estado, quer da UE, quer dos Estados nacionais, especificamente, o que se enquadram nas “famílias” do PPE (Partido Popular Europeu), e S & D (socialistas e sociais democratas, ligados à esquelética Internacional Socialista).






O que parece ter sido um descalabro para a União Europeia pode não o ter sido.  

A Europa não está isolada da crise do capitalismo, que abala, em primeiro lugar, os EUA, a Rússia, a China, a Índia, o Brasil, entre outros BRICS.

A questão terá de ser posta na capacidade económica e politica de resistir ao impacto de uma nova crise económica mundial que está na forja.

Ir-se-á verificar a evolução da actual situação nos próximos meses, quiçá, no espaço de um ano.

Teremos de analisar estas eleições, não pelo prisma, de um conjunto de estatísticas, que claro não deve ser menosprezado, mas, principalmente, como uma luta política.

E este acto eleitoral não está isolado numa única luta política, faz parte de contínuas lutas políticas, que ocorreram na Europa, mas não só, nas Américas, África, Médio-Oriente, Extremo-Oriente.

Ora, estas lutas políticas são, essencialmente, lutas de classes – embora a burguesia dominante tende a fazer obscurecer esta realidade.

De maneira incipiente, titubeante, os numerosos conflitos políticos que se deram na Europa, nos últimos sete anos – balizemos com a crise de 2007 – tiveram, em parte, um desejo de libertação política.

Ao longo desses anos, mas de maneira evidente e continuada desde 2010, multiplicaram-se os conflitos sociais e os protestos de rua, bem como greves nacionais e mesmo supranacionais na zona euro, mas não só mesmo em Inglaterra: Irlanda, Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha,  Holanda, Bélgica, Polónia, Roménia, Bulgária.

Greves nacionais, marcadas para o mesmo dia, 14 de Novembro, deram-se em Portugal, Espanha, Chipre, Grécia, Itália, França e Bélgica.



Mas também questões de emancipação nacional dentro de Estados, essencialmente, porque o centro de decisão política deixou de ser a capital territorial para ser, na realidade, o centro da UE, ou seja nesta caso Bruxelas.

Toda esta movimentação popular tem e tinha um objectivo comum: contestar a política de austeridade dos diferentes executivos e da comissão europeia, ou sejam, os partidos dominantes das famílias PPE e S & D, bem como o poder real do capitalismo financeiro, que continuava a beneficiar com essa política.

Depois do acto eleitoral de 25 de Maio, começamos a descortinar, pelo meio do aumentos abstencionistas, nulos e brancos, e, pela votação em partidos e grupos novos e emergentes, que essa luta política, em parte abertamente classista, traz no bojo um desejo crescente de libertação económica de largas massas populares do domínio avassaladora do grande capital financeiro.

Ou seja, a vontade de transformação da União Europeia, como entidade estatal supranacional.

Vontade esta que se está a forjar, com todas as inconsequências, contestações, erros crassos das classes dominantes, mas só será determinada, num certo prazo, pelas próprias necessidades das suas sociedades nacionais, que são mudáveis, mais lenta ou mais rapidamente, pela relação de forças que se vão criar nos próximos meses entre as várias classes e fracções de classes, que minguaram ou despontaram com essas eleições.

E, acima de tudo, pela evolução que as próprias forças produtivas irão tomar, possivelmente, num ano ou dois, e pelo avanço, ou não, do comércio europeu face a outras potências ou grupos de países.

2 – As eleições para o Parlamento Europeu começaram em 1979.

Quando se iniciou este processo democrático de parlamentarismo burguês, já a burguesia dominante se enraizara e estabelecera a industrialização e o comércio ultrapassando as barreiras nacionais nos países mais avançados da Europa naquela altura (com excepção da Inglaterra que sempre fez de cavalo de Tróia na unidade europeia).

E, essa burguesia que fomentara uma verdadeira revolução económica na Europa, se bandeara, progressivamente, do incremento industrial e da cooperação harmoniosa inter-Estados, cujos resquícios vão até aos anos 80, para o apoio, sem qualquer pejo de vergonha, para a subserviência descarada ao grande capital financeiro (os bancos, as companhias de seguros, a especulação bolsista, o branqueamento de capitais, o fomento global do comércio de drogas).

E essa mudança dá-se de maneira evidente com a crise económica-financeira mundial de 1973, que ficou conhecida por crise do petróleo.

//O  caminho para a unidade europeia começou, justamente, pela grande indústria, centrada no carvão e no aço.

Daí  nasceu, a partir de 1950, a respectiva Comunidade, com a sigla CECA.

Seis países fundadores: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Holanda. Um êxito.
Tal permitiu em 1957, avançar para a Comunidade Económica Europeia-CEE.

O passo seguinte assentou na institucionalização de uma pauta aduaneira harmonizada.

Depois em 1959, entra em vigor um Acordo Monetário Europeu, que vai dar cerca de 30 anos depois o euro.

Em 1962, inicia-se a Política Agrícola Comum (PAC), que permitiu a auto-suficiência alimentar e o estabelecimento de um rendimento razoável para os agricultores.

Mais tarde, distorcido pelos excedentes e pela política de supremacia dos grandes Estados produtores face aos pequenos e, principalmente, periféricos, cujos dinheiros de implantação de um novo sistema produtivo foram desviados para interesses pessoais.

Estava formado, em 1968, com a supressão dos entraves alfandegários, o maior mercado mundial.

Que se vai estender, por vários partes do globo, com acordos e parcerias.


Inicia-se, em paralelo e depois mais tarde, os alicerces de uma nova estrutura política. 

Primeiro a Assembleia Parlamentar e o Tribunal de Justiça//.

Este avanço para uma nova Europa, de paz e cooperação, atrai as burguesias ávidas de fazer parte desse grande mercado comercial.

Começam os alargamentos.

Não só na Europa, mas praticamente em todo o mundo, em especial centrado nos Estados Unidos, era a grande burguesia que passou a dominar.

E, se antes, havia uma intervenção de incremento desenvolvimentista da burguesia industrial, desde essa altura, a supremacia passou para uma facção particular da burguesia dominantea financeira, com destaque para um conjunto em ascensão sem freio, nem modos, a lumpen grande burguesia capitalista, que assoberbou os grandes bancos, as enormes seguradoras, o controlo das bolsas de valores, as grandes vias de comunicação e meios de comunicação, e, um sector da burguesia proprietária de grandes terras, enriquecida com os subsídios governamentais.

Como uma nuvem pavorosa, através dos seus lacaios, impuseram os seus ditames nos parlamentos nacionais e europeu, distribuíam os “tachos” e sinecuras, impuseram um modelo de governação da Administração Pública.

Começava a haver uma subversão do caminho europeu, que se acentuou à medida que se alargava o espaço da UE.

Esta mudança representou;

por um lado, um desenvolvimento tal do grande capital, que face ao incremento da situação económica atingiu um patamar de inutilidade como classe, e, portanto, se verifica que começa a ser supérfluo.

O que significa, em termos de economia política, que se tornou um travão ao próprio desenvolvimento social – e acima de tudo – se afasta da produção necessária para satisfazer as classes laboriosas, que estão a ganhar espaço e consciência de que podem dirigir, elas próprias a sociedade;

Por outro,  os indícios, que dão o aparecimento de forças políticas em crescendo do lado “direito” e do lado “esquerdo” das famílias dominantes, estas a definhar – e isto iremos analisar mais à frente -, são um dado objectivo, que pode não significar mudanças imediatas, porque ninguém sai da arena política sem ser empurrado, sem que as forças sociais produtivas em movimento possam determinar  que as relações políticas avancem para formas reaccionárias ou revolucionárias.

3 – O período que vai desde o primeiro acto eleitoral directo do Parlamento Europeu, em 1979 até 2014, tem uma linha contínua de 35 anos que enquadra, ainda que de maneira visível a partir da legislatura iniciada em 2004, um decréscimo acentuado dos partidos dominantes da gestão da UE.
_________________________________
Percentagem de participação – 1979/2014(Oficial)
 1979/1984 /1989 /1994 /1999 / 2004/2007/2014
61.99/58.98/58.41/56.67/49.55/45.47/ 43  /43.09
_________________________________

Depois de serem o “eixo” fundador e impulsionador da união económica europeia; de terem lançado os alicerces da sua unidade política, e de impulsionarem um conteúdo burguês capitalista parlamentar, as duas famílias política – PPE e S & D – (e, em grande medida, darem uma contribuição para desmembrar o que restava de um proletariado avançado), assiste-se a um progressivo afastamento (em que alguns partidos entraram em desagregação ou caminham para ela).


Ou sejam, estão a deixar de ser os partidos centrais dos interesses do grande capital.

No evento eleitoral de 25 de Maio, o PPE – com os seus aliados primaciais – e os S&D – já elegeram um número de deputados inferiores a 50 por cento (331) do total do Parlamento Europeu (751), ou seja 44% dos parlamentares que receberam menos de metade dos 43 por cento de votantes em partidos. 

A quebra de deputados daquelas duas “famílias” foi muito acentuada: no conjunto quase 70 deputados, ou seja cerca de 10% dos 751 da totalidade de 2014 para o PE.

(PPE passou de 274 em 2009 para 221 e o S&D de 196 pra 190, com um conjunto de parlamentares de 732).

O que representa um traço contínuo desde 1979 é a descida constante na participação no acto eleitoral: naquela data foi de 63%, em 2014 atingiu os 43,09%.

E o declínio é de tal modo sistemático nos partidos iniciais dinamizadores da CEE, e, depois da UE, com especial evidência, para os chamados socialistas/sociais democratas da raiz saída da II Internacional, que, na prática, alguns deles já sucumbiram como o PSI (em 1992, obteve apenas 2,2%, quando o seu secretário-geral Bettino Craxi era primeiro-ministro e, em 1993, acusado de corrupção, fugindo para a Tunísia, onde faleceu. Esta acusação envolveu também a Democracia Cristã e o Partido Social Democrata, idêntico ao português, com o mesmo nome, e até o PCI, nas lideranças de Alessandro Natta e de Achille Occhetto, partido este que, aliás, se desfaz em 1991).

Outros caminham para essa “cova profunda” como o PSF, de onde emana o actual chefe de Estado gaulês, eleito por maioria de 51,6%, devido à concentração de votos à esquerda, tem perdido consecutivamente, de 2004, mas com mais visibilidade desde.

Mas neste último país, um outro “afundamento” se deu com o principal partido da “família PPE”, o UMP, que desce de 27,8 % e 29 deputados, para 20,79% e 20 deputados.

A Frente Nacional (FN), partido capitalista fascista, ascende de 6,3% e 3 deputados para 24,95 e 20 deputados.  

No acto eleitoral de 2009 recebeu 16,48% dos votos expressos e 12 deputados, passando em 2014 para 13,9% e 13 parlamentares.

Mais significativo é o PS grego (PASOK) e o PSOE (a realidade que teve 36,55%, dos votos em 2009, oito deputados, e em 2014 se quedou nos 8,1% em aliança com outros pequenos partidos, quatro deputados).

Em Espanha, entre 2009 e 2014, houve uma quebra de votação expressa, acentuadíssima, entre os partidos do poder nacional (PP e PSOE), o primeiro desceu de 42,23% (23 deputados) para 26,06% (21), o segundo de 38,51% (21) para 23% (14).

Os dois partidos entraram, de imediato, em crises profundíssimas, que se alastraram,mesmo, por tabela, à questão do regime (monarquia/república).

O mesmo se pode dizer para o sucedido na Holanda e na Irlanda, em especial aos partidos da “família S&D”.

Deixamos para o fim as eleições europeias ocorridas em dois países, com posições muitos diferenciadas face à UE.

(A questão italiana é diferente, e circunstancial: o Partido vencedor, Partido Democrático (PD), não provem do socialismo da II Internacional, mas de uma amálgama de ex-PCI, ex-Democracia Cristã, ex-Partido Social-Democrata, que conjunturalmente se aliaram sob os auspícios do capital e do Vaticano.

Todavia, o que realmente conta é um crescimento de um partido fora do regime, o 5 Estrelas, abertamente contra a política oficial dos partidos corruptos do poder).

Falemos, pois, do Reino Unido e a Alemanha.

No primeiro, o partido abertamente contra a presença de parte - o UKIP, a sua parte territorial da Grã-Bretanha - do Reino Unido ( a Escócia quer a independência e a Irlanda do Norte votou no Sein Fein, que pertence à Esquerda Unitária no PE) na UE, ascende, em 2014, a ser a formação mais votada e com o maior número de votos e parlamentares – 26,27% e 24, seguido dos trabalhistas (S&D), com 24,74 % e 20, ficando os conservadores com 23,34% e 19.

Em 2009,  o UIKP recebera 16,05%, com 13 deputados (segunda força), os conservadores atingiram os 27% e 24 deputados e os Trabalhistas, 15,7% e 13 deputados também. 

(Os Liberais, parceiros do governo de Cameron, passaram de 11 para um deputado).

Finalmente, a Alemanha, a CDU/CSU desceu dos 42 deputados de 2009 para 34 e os sociais-democratas (S&D) elegeram mais quatro deputados, mas em percentagem ficaram-se pelos 27,30%, inferior aos 35,30% da coligação CDU/CSU. 

(Os liberais que eram a quarta força em 2009 desceram de 12 para 3 deputados).



PE em 2014

Resultados das eleições de 2014 por grupo político
ÍconeNome próprioPercentagem
EPP logo
PPE
Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos)
Resultado:221 Eurodeputados

Resultados em percentagem:29.43 %
S&D logo
S&D
Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu
Resultado:190 Eurodeputados

Resultados em percentagem:25.30 %
ALDE logo
ALDE
Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa
Resultado:59 Eurodeputados

Resultados em percentagem:7.86 %
ECR logo
CRE
Conservadores e Reformistas Europeus
Resultado:55 Eurodeputados

Resultados em percentagem:7.32 %
GREENS/EFA logo
Verdes/ALE
Os Verdes/Aliança Livre Europeia
Resultado:52 Eurodeputados

Resultados em percentagem:6.92 %
GUE/NGL logo
GUE/NGL
Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica
Resultado:45 Eurodeputados

Resultados em percentagem:5.99 %
NA logo
NI
Não-Inscritos – deputados não filiados em qualquer grupo político
Resultado:41 Eurodeputados

Resultados em percentagem:5.46 %
EFD logo
EFD
Europa da Liberdade e da Democracia
Resultado:32 Eurodeputados

Resultados em percentagem:4.26 %
Others logo
Outros
Deputados recém-eleitos não filiados em qualquer dos grupos políticos do Parlamento cessante
Resultado:56 Eurodeputados

Resultados em percentagem:7.46 %




3 – O aparecimento, com algum alarido da grande imprensa ligada ao Capital dominante, de partidos nazis e fascistas, de vários matizes, com uma extensão nunca vista na Europa depois da II Grande Guerra, parece indiciar que o grande capital financeiro começa a “trocar” os seus representantes bicéfalos, ligados ao PPE e ao S&D, que açambarcaram, durante estas dezenas de anos, os lugares cimeiros de exercício do poder executivo, legislativo e até militar de serviço aos vampiros financeiros e os grandes industriais a eles ligados, por outras formações que imponham o poder capitalista de forma ainda mais violenta e sem a presença de outros partidos.

Esse capital enfrenta, pela propaganda, o surgimento, em crescendo, por outro lado, de formações, ainda sem um programa revolucionário coerente, sustentadas em reivindicações eleitorais anti-capitalistas, apelidando-os, furiosamente, de “aberrações radicais”, por vezes, com o desprezo bafiento da burguesia medrosa e cobarde, de “comunistas radicais”.

Ele sente que pode ser enfrentado e a sua capacidade de acção restringida.

A evolução da UE, a reviravolta que necessita; no fundo, a sua salvação depende, em primeiro lugar, da força da sua economia produtiva e do seu comércio, das suas exportações de qualidade. 

Mas depende também daqueles que podendo forjar um programa revolucionário comum e o consigam fazer ampliar, em consciência política, entre as classes trabalhadoras levam a fazer encurtar o “casulo” dos exploradores e dos seus homens de mão nos Parlamentos nacionais e europeu e no aparelho de Estado.

E este ponto nuclear, certamente ténue, foi-nos dado por estas eleições europeias.

É preciso, pois, clarificá-lo, alargá-lo e enquadrá-lo em movimento constante de transformação política.

4 – A crise nos EUA que está  à porta, e são os próprios indicadores daquele país, que fazem o alerta do facto, mas os indícios evidentes de crises económicas em países emergentes como a Rússia e a China e o Brasil devem fazer-nos pensar sobre a situação económica – repito, económica – da UE, que está numa encruzilhada, mas, aparentemente, se encontra em melhores de condições de receber o embate do que em 2007/2008.


tabancadeganture.blogspot.pt