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sexta-feira, 6 de junho de 2014

HISTÓRIA - O SÉCULO DO POVO


O Século do Povo



Estas fotos vinham num livro de promoção da série documental da BBC "People's Century" (O Século do Povo), que a SIC passou em 1996. O livro, anos depois, ia ser mandado para o lixo, quando dei por isso, guardei-o (tenho alma de ferro velho, não há nada a fazer). Os textos e as legendas das fotos vinham a acompanhar o livro, deixei os títulos no original e "traduzi" o resto para português.
A SIC associou-se à BBC como produtora, ainda a série não estava feita e exibiu os 26 episódios  ao mesmo tempo que a BBC. Esta foi uma série documental de 26 episódios (mais tarde fizeram-se mais 26), de uma hora cada, que tinha por objectivo fazer a História do Século XX, mas sob a perspectiva do cidadão comum. Em cada episódio assistiu-se ao testemunho de pessoas que viveram os acontecimentos e isso é que destacou a série de outras anteriormente feitas. 
É uma série muito boa, com a marca da BBC, mas no fundo é igual a outras, com uma visão ocidental (inglesa e americana), "democrática" e politicamente correta, por isso a SIC escolheu Mário Soares para "abrir e fechar" cada episódio. Aos depoimentos juntou-se uma grande selecção de um dos melhores arquivos de imagens documentais do mundo; O National Film Archive, e isso também fez toda a diferença. 
Por volta de 1999, a SIC divulgou spots televisivos incentivando os portugueses, a enviar informações, fotografias, documentos, pedindo a participação das pessoas para contarem as suas histórias, para a criação de um documentário idêntico adaptado ao nosso país. E foi a partir desse material que a SIC faria em 2002, «O Século XX Português», com realização da Joana Pontes, um excelente trabalho sobre o nosso país.



1900 - People's Century
Com o começo do século; meios de comunicação, novas ideias, viagens e a educação começam a revolucionar a vida moderna e a lançar as bases para o que veio a ser O Século do Povo.

"Imigrantes acabados de chegar lançam o primeiro olhar para a América (Bettmann Archive)

1916 - Killing Fields
A Primeira Guerra Mundial mudou a face da guerra. Os jovens foram recrutados para enfrentar a morte na frente de guerra, enquanto os perigos em casa aumentaram com a introdução das armas de longa distância.


A tentativa da Alemanha para a vitória em Villars, Bretonneaux, França. Março de 1918. (The Hulton Deutsch Collection).

1917 - Red Flag
O Comunismo traz esperança para milhões na Rússia.


Lenine falando à multidão em São Petersburgo. Março 1917. (The Hulton Deutsch Collection).

1919 - Lost Peace
Todas as esperanças na Liga das Nações deu em nada, o mundo ficou mais dividido do que nunca nas duas décadas que se seguiram à Primeira Guerra Mundial.

A Conferencia de Versailhes. (The Hulton Deutsch Collection).

1926 - On the Line
A produção em massa veio alterar para sempre a vida dos trabalhadores e consumidores.

Fábrica com máquinas movidas por correias por cima das cabeças dos operários.(Bettmann Archive)

1927 - Great Escape
Os filmes ofereceram às pessoas uma fuga para os seus problemas e as estrelas de cinema tornam-se os novos ícones populares.


"Grand Hotel", Estreia. Hollywood 1932. (The Kobal Collection)

1929 - Breadline
A Grande Depressão foi o primeiro desastre económico à escala mundial. Atingiu quase todos os países e levou à ascensão de partidos políticos extremistas.


A sopa dos pobres durante a grande Depressão.(Bettmann Archive)

1930 - Sporting Fever
Com mais dinheiro e tempo livre à disposição das pessoas, o desporto evoluiu para entretenimento de massa, criando um foco de orgulho regional e nacional, que como ele cresceu.


Um atleta americano ganha o ouro na prova de 110m barreiras, Olimpíadas de Berlim 1936. (Popper)

1933 - Master Race
As dificuldades enfrentadas pelo povo alemão após a Primeira Guerra Mundial, fez as promessas de Hitler e do nacional-socialismo parecerem muito atraentes, o que o levou à auto-destruição e à morte de seis milhões de judeus.


Hitler numa parada militar nazi. (John Topham Picture Library)

1939 - Total War
A Segunda Guerra Mundial trouxe campos de concentração, bombardeamentos e a arma mais terrível de todas, a bomba atómica. Esta foi a guerra na qual morreram mais civis do que soldados.

A vida continua em Londres durante a blitz (da palavra alemã Blitzkrieg, ou "guerra relâmpago"). 1940. (The Hulton Deutsch Collection)

1945 - Fall Out
A tecnologia nuclear era uma espada de dois gumes. As promessas de energia barata foram logo ultrapassadas, por uma corrida crescente ao armamento e à ameaça de extinção global da humanidade. 


O pesadelo final. (Imperial War Museum)

1945 - Brave New World
Do rescaldo da guerra surgiu uma Europa dividida. Populações inteiras viram-se presas atrás de suas fronteiras, Eram os peões na "guerra fria".


Novos sinais são erigidos em um esforço para evitar incidentes de fronteira. (The Hulton Deutsch Collection)

1947 - Freedom Now
Os impérios europeus começaram a desmoronar, novos Estados surgiram por trás deles. A Índia foi o primeiro a ganhar a independência em 1947, mas outros países seguiriam o exemplo.

Uma conferência de guerra na Índia, 1939. (The Hulton Deutsch Collection)

1948 - Boomtime
O pós-guerra trouxe grande prosperidade, que os governos ocidentais aproveitaram para dar prioridade ao pleno emprego e à reconstrução industrial.


Muitas opções durante o boom económico do pós-guerra. (John Tophan Picture Library)

Rising Sun (1951)
Em ruína económica após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses combinaram os pontos fortes de sua sociedade tradicional com a nova tecnologia, para criar um milagre económico.


Operário em navio japonês com um rebitador automático, Tóquio. (Werner Bishof/Magnum fotos)

Endangered Planet (1959)
Como as pessoas perceberam que a industrialização foi conseguida à custa da natureza, o meio ambiente tornou-se uma preocupação geral.

Os perigos da poluição. (John Tophan Picture Library)

1960 - Skin Deep
O movimento dos direitos civis trouxe um fim a discriminação oficial nos Estados Unidos. mas o preconceito racial permaneceu em evidência, ali e em todo o mundo.

Protesto pelos direitos civis, Memphis 1968.  (The Hulton Deutsch Collection)

1963 - Picture Power
A televisão tornou-se o meio de comunicação mais popular. Agora o entretenimento, a política e até mesmo a guerra foram trazidos para a sala de estar.

Assistindo TV no Equador. (Hutchison Library)

1965 - Great Lip
Na China, o comunismo tomou uma forma diferente. Mao, desejando evitar o Revisionismo, como na Rússia, introduziu a Revolução Cultural para cimentar a sua própria visão. Mas a histeria e as denúncias rapidamente se impuseram.

Estudantes cantando os pensamentos de Mao. (The Hulton Deutsch Collection)

1968 - Mouths go Feeds
A Televisão filmou a fome em larga escala em todo o mundo. O Ocidente parecia impotente para ajudar, e déspotas do Terceiro Mundo chegaram ao poder e ignoraram a situação de seu povo.

Fome no Biafra. (Don McCullin/Magnum photos)

1968 - New Release
A Cultura jovem ameaçou a velha ordem. Música popular, políticas radicais e drogas distinguiram os anos 60, das décadas conservadoras anteriores.


Novos posters na Sociedade. (John Tophan Picture Library)

1969 - Half the People
Os anos 60 e 70 viram a ascensão do movimento das mulheres. Mas ao lado dos sucessos no Ocidente, as mulheres do mundo em desenvolvimento enfrentaram obstáculos diferentes.

Mulheres marcham pela igualdade de direitos, Paris. (Gilles Peress/Magnum Photos)

Guerrilla Wars (1973)
No Vietname, um exército camponês levou a melhor sobre os Estados Unidos. Uma década depois, a União Soviética iria enfrentar o mesmo problema no Afeganistão.


Mujaheddin's armados a caminho de posições de batalha. (Steve McCurry/Magnum Photos)

1979 - God Fights Back
A marcha progressiva e secular do Ocidente, parou com a revolução Fundamentalista no Irão. A Crença Islâmica ofereceu uma visão diferente para milhões de pessoas no Médio Oriente, Ásia e África.

O Fanatismo Islâmico. (DLG/Magnum)

1991 - People Power
O simbólico desmantelamento do Muro de Berlim marcou o fim de uma era. Os Regimes comunistas caíram como dominós, mas novos problemas surgiram no rescaldo.

A queda do Muro de Berlim. 10 Novembro de 1991. (Frank Spooner)

2000 - Millenium

Com o final do século, os desafios são de novo grandes. 

O que nos espera no século 21? 

Para onde vamos a partir daqui?



Cena de multidão. (Infocus International, The Image Bank)
citizengrave.blogspot.pt

HISTÓRIA - FOTOGALERIA - Os militares no Rossio A certa altura do campeonato fomos visitados por uma esquadra naval da NATO, e o MFA entre outras razões (o clima estava já muito quente) decidiu proibir as manifestações. O MRPP decidiu mesmo assim convocar uma manif para o Rossio e antes da manif acontecer os páras, os comandos, os fuzileiros e a PM, comandados por Correia Campos secundado por Jaime Neves, "ocuparam" o Rossio e mandaram embora toda a gente e até o metro deixou de parar lá, seguia directo do Restauradores para o Martim Moniz. Os mrpp's foram para a Praça do Município salientando que aquela tinha sido uma grande vitória do povo.

Os militares no Rossio



A certa altura do campeonato fomos visitados por uma esquadra naval da NATO, e o MFA entre outras razões (o clima estava já muito quente) decidiu proibir as manifestações. O MRPP decidiu mesmo assim convocar uma manif para o Rossio e antes da manif acontecer os páras, os comandos, os fuzileiros e a PM, comandados por Correia Campos secundado por Jaime Neves, "ocuparam" o Rossio e mandaram embora toda a gente e até o metro deixou de parar lá, seguia directo do Restauradores para o Martim Moniz. Os mrpp's foram para a Praça do Município salientando que aquela tinha sido uma grande vitória do povo.


A ocupação militar do Rossio em 31 Janeiro 1975










 Reportagem no Diário de Lisboa do dia segucitizengrave.blogspot.ptinte, 01-02-75

Direito ao esquecimento, à censura... ou à cegueira?

Direito ao esquecimento, à censura... ou à cegueira?

 
 


A cegueira da CNPD caiu sobre o Museu da Polícia Judiciária
 
 
Manuel Buíça
 
 
 
 
 
O cidadão espanhol que conseguiu, há poucos dias, que oTribunal de Justiça das Comunidades reconhecesse o seu direito a exigir à Google que, quando o seu nome fosse introduzido nesse motor de busca, o mesmo não surgisse associado ao anúncio de uma penhora dos seus bens ocorrida há largos anos por dívidas fiscais, já fez história no mundo do direito e da cidadania.
Este direito ao esquecimento, a uma espécie de apagamento do passado no mundo virtual levanta inúmeros problemas e, segundo já é referido na imprensa on-line, no Reino Unido, os primeiros pedidos de apagamento de dados pessoais na internet vieram de um ex-político que quer ser reeleito e quer ver apagado um artigo sobre o seu comportamento no trabalho, de um ex-condenado pela posse de imagens de abusos de menores que pretende que sejam eliminados os dados online respeitantes à pena de prisão que cumpriu e um médico que pretende apagar os comentários de antigos pacientes seus sobre o seu trabalho. Ninguém sabe o número de pedidos que terá desabado sobre a Google e outro motores de busca e, muito menos, como se irão processar estes pedidos.
Como referimos a semana passada, este direito ao esquecimento só é imaginável na Europa, uma vez que nos Estados Unidos da América tudo o que aconteceu, se pode, teoricamente, para sempre saber. O que leva, por exemplo, a casos extremos e absolutamente chocantes para a mentalidades europeias, como é o caso das “mug shots”.
Estas fotografias que são tiradas pela polícia logo que um pessoa é detida, independentemente de vir a ser alguma vez julgada e condenada, são, em muitos estados norte-americanos, colocadas imediatamente em arquivos de acesso público, o que permitiu a criação de uma verdadeira indústria à volta das “mug shots”. Há diversas “sites” especializados nessas fotografias com os comentários mais violentos e absurdos e, ao mesmo tempo, há empresas a quem se paga para tirarem as “mug shots” desses sites...
Certo é que essas fotografias passam a associar para sempre uma pessoa a uma qualquer actividade criminosa, tornando mais difícil, quando não impossível, a obtenção de um emprego ou, até, a manutenção de relações sociais de normalidade. Para nós europeus, este direito à informação na medida em que esmaga absolutamente outros direitos individuais, como o direito à privacidade ou à imagem, é chocante.
Mas igualmente chocante, no extremo oposto, é a forma como, no nosso país, o direito à imagem e à privacidade esmagam o direito à informação nos termos da recente deliberação 681/2014 da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD).
Segundo esta deliberação, a Polícia Judiciária terá pedido à CNPD para esta se pronunciar “sobre a divulgação, sob a forma de exposição permanente no Museu da Polícia Judiciária, de retratos inseridos em clichés antigos” – os nossos “mug shots” históricos...
Tanto quanto sei, o Museu da PJ tem dezenas de milhares de fotografias de cidadãos portugueses, das quais a maioria terá sido tirada há mais de 75 anos. Vale isto por dizer que, na sua grande maioria, as fotografias se reportam a pessoas já falecidas. Pessoas que terão sido fotografadas, no âmbito ou não de processos criminais, sendo que nos negativos está inscrito o nome e sobrenome das pessoas retratadas.
Na decisão sobre a publicitação destas fotografias no museu, seja sob a forma de exposição permanente ou temporária ou, ainda, de arquivo com acesso ao público em geral ou a especialistas estão em causa diversos valores e direitos, eventualmente, uns mais fundamentais que outros.
O direito à privacidade, o direito à imagem, o direito ao bom nome, o direito à informação, o direito a saber, o interesse e a importância cultural, histórica e científica dos retratados e das imagens e o respeito pela memória dos falecidos serão certamente alguns deles. E é sobre estes direitos e valores que se debruça a referida deliberação da CNPD.
Infelizmente, se conclui e bem que as fotografias podem ser expostas no Museu se forem eliminados/ocultados os apelidos, conclui também– e mal – que as fotografias só poderão ser expostas se os olhos dos retratados forem eliminados/ocultados.
Em vez de ponderar, em concreto, a forma como os retratos poderiam ser expostos ou acessíveis, as legendas e enquadramentos, o tempo decorrido desde que foram tiradas as fotografias e o interesse científico e histórico na sua divulgação, fazendo as distinções que entendesse necessárias, mas autorizando, no essencial o acesso a esse manancial de informação, a CNPD preocupa-se com o facto de os retratados se estivessem vivos, “provavelmente não gostariam de ver perpetuadas na memória dos seus descendentes e na memória colectiva” essas manchas na sua vida ...
A CNPD aponta, assim, o caminho para a criação de um Museu de “zombies”. Vá lá que o Buíça foi fotografado de olhos fechados.

 
 
Francisco Teixeira da Mota

malomil.blogspot.pt

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL 60ª PARTE - A GUERRA VISTA DE BAFATÁ - A MINA ANTI-CARRO (ANGOLA) - PROPAGANDA NA GUERRA COLONIAL

Guiné 63/74 - P4707: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (10): Mina bailarina

1. Mensagem de Fernando Gouveia, ex-Alf Mil Rec e Inf, Bafatá, 1968/70, com data de 14 de Julho de 2009:



Na postagem desta estória pedia-te que, no poema, respeitasses os parágrafos
para não desvirtuar a intenção do autor ao destacar as duas sílabas "mina"
sempre só numa linha.

Um abraço e até para a semana.
Fernando Gouveia.


A GUERRA VISTA DE BAFATÁ

Foto 1 - Bafatá. A tabanca da Roccha em primeiro plano. Da rotunda à direita partia a Av. Principal que terminava junto do mercado e da piscina. Ao fundo vê-se a igreja. 1969.

10 – Mina Bailarina

Foto 2 - Bafatá vista da estrada para Geba. Aqui andava-se livremente, sem minas, apesar de essa tabanca, a uns escassos 10 Km, ser atacada regularmente. 1969.

Cabe desde já referir que o título desta pequena e simples estória se deve, não a uma mina bailarina antipessoal nem tão pouco à potente mina anticarro que faz parte da estória, mas sim ao título de um belíssimo poema bastante mais carregado de significado, de um nosso camarada Coronel na reserva, com quatro comissões na guerra colonial que, entre outras coisas, se dedica à poesia.

Terminarei com esse poema, “Mina Bailarina” incluído no livro “Incursões” da autoria de Bernardo Branco (pseudónimo) e com capa de José Rodrigues.

Se em qualquer guerra se pode considerar: a frente e a retaguarda, cada uma completando a outra, então direi que pertencia à retaguarda.

Já referi várias vezes que, desde a mobilização para a Guiné e até ao regresso à metrópole, tive sorte, sorte e mais sorte, contrariamente ao que infelizmente se passou com muitos camaradas.

Por sorte não fui comandar um Pelotão de Reconhecimento como aconteceu com a maior parte dos meus colegas do Pel Rec Inf de Mafra. Fui sim destinado às Informações, nomeadamente a Oficial de Informações do Comando de Agrupamento de Bafatá.

Entrando directamente na estória que hoje aqui me traz, começo por dizer que as minhas funções no Comando de Agrupamento eram na prática, e principalmente, receber, triar e registar de várias formas todas as notícias (informações) que iam chegando, normalmente via mensagens rádio referentes quer ao IN, quer às NT.

Abrindo aqui um parênteses, referirei que durante os dois anos em que lá exerci essas funções, nunca em caso algum tive qualquer contacto com elementos da PIDE, o que sempre achei estranho. Ainda bem que assim foi, mas não posso deixar de referir que essa indiferença por parte da PIDE era talvez um prenúncio da sua decadência, bem como do regímen que a sustentava.

Um dos registos que a toda a hora tinha que fazer era a actualização de todas as acções IN no mapa da zona leste à Esc 1/50.000, que ocupava toda uma parede da sala onde trabalhava. Havia sinais autocolantes em mica vermelha que iam sendo colocados nos locais dessas acções. Decorrido um certo tempo esses sinais eram substituídos por outros cor-de-laranja. Assim, num simples relance de olhar, podia-se detectar onde, de momento, havia mais actividade IN.

À tarde de determinado dia (do ano de 1969) chegou uma mensagem referindo a detecção e levantamento de uma mina anticarro, por uma coluna que se dirigia para um destacamento (não lembro o nome) algures no sector de Bambadinca.

Seria mais um sinal que iria colocar no mapa, mas não foi só isso. Tendo reparado que havia mais sinais cor-de-laranja de minas no mesmo itinerário e puxando da memória e dos arquivos, depressa cheguei à conclusão que todas as vezes que esse destacamento era atacado (de 2 em 2 meses, suponho), no dia seguinte a respectiva coluna de reabastecimento detectava e levantava uma mina anticarro.

Não foi difícil tirar a conclusão final: Esse aquartelamento iria ser atacado, nesse dia, ao anoitecer como era costume.

De imediato fui ter com o Cor Hélio Felgas, meu comandante, e dado que o conhecia muito bem, levei logo comigo o bloco das mensagens.

- Meu comandante, este destacamento vai ser atacado hoje. Ouviu as minhas explicações. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão para o bloco das mensagens e escreveu:

- Prevê-se ataque IN esse hoje tome providências.

Ao anoitecer chegava uma mensagem referindo o ataque. De imediato o Cor Felgas mandou outra a perguntar quais as providências tomadas.

Não me recordo se houve ou não mais uma punição para um comandante de destacamento, caso naquele dia não tenha saído do arame.

E a propósito de mina, nada melhor para terminar que a bela e também dramática poesia que se segue.


MINA BAILARINA

Filão que paga as contas
e o rodopio.
Há muito que o mineiro
salva o salário na folha corrente
e o saldo positivo-negativo se exa-
mina.

Na febril valsa o operário,
no calafrio
em que o preço da fome se ensina,
aperta nos braços de inúmeros moldes
cruzes onde o sangue pinta o papel que deter-
mina.

Vêm assim ao de cima
as escórias do túnel
que o filão de extropiados elimina e ilu-
mina
e nas contas do fabricante
há um acordo que exter-
mina.

E só depois da valsa assassina
alimentar a dança
é que os mandantes do baile que ful-
mina
se apressam a mudar a música,
sem que de uma vez por todas rebentem
com o filão que os recri-
mina.

blogueforanadaevaotres.blogspot.pt

A mina anti-carro
Caminhávamos há longo tempo pela estreita e sinuosa picada de terra batida que por vezes atravessava zonas de alto capim que nos roçava as mãos e a cara, outras passávamos por florestas completamente cerradas e quase impenetráveis em que a estreita picada parecia uma linha de comboio a entrar num apertado túnel.

As viaturas circulavam vagarosamente com a velocidade permitida pelos pachorrentos burros do mato, mantendo entre si uma distância de segurança com cerca de 50 metros.
Esta região fronteiriça do norte de Angola, era utilizada pelos guerrilheiros da FNLA, o movimento independentista chefiado
por Holden Roberto, principalmente como local de passagem vindos das suas bases do lado de lá da fronteira em território Zairense e, não era considerada uma zona de guerra de tão alta intensidade como Nambuangongo com a sua terrível e perigosa floresta dos Dembos. No entanto a situação militar ultimamente estava a alterar-se, agravando-se drasticamente no período a seguir á revolução de 25 de Abril de 1974, com violentos ataques aos aquartelamentos de fronteira. Por vezes os guerrilheiros também infligiam duras emboscadas ás nossas tropas, ou colocavam minas escondidas nos itinerários por elas frequentados.
A meio da manhã com o brilhante e intenso sol Africano quase a pique, a coluna parou num local ermo de cerrado e alto capim a roçar os canos das espingardas, não deixando ver nada para lá da ondulante cortina verdejante, a não ser a apertada picada por onde circulavam os pachorrentos burros do mato.
Com esta inesperada e repentina paragem ficamos a poucos metros da viatura que nos precedia e, adivinhando a nossa curiosidade um soldado gritou-nos.
- Parece que encontraram rastos frescos na picada.
O Farsola ao ouvir esta notícia alvitrou.
- Não querem lá ver, que estão a preparar-nos alguma emboscada, ou alguma mina – e adiantou – ou provavelmente as duas coisas em simultâneo.
A coluna avançava agora ainda com mais lentidão e o Farsola de vez em quando lançava o olhar por cima da cabina da viatura, na esperança vã de ver surgir o nosso local de destino. Agora que tinham detectado pegadas recentes na picada receava que estivéssemos prestes a enfrentar a morte, os rebentamentos e os tiros, então desejava que rápidamente tudo isso tivesse um desfecho.
Racionava friamente, se fossemos atacados agora que o sol ainda ia alto, até tínhamos hipóteses de os feridos serem evacuados pelos helicópteros que só voavam durante o dia, o pior seria se o provável ataque só surgisse perto da noite, aí teríamos que carregar com os mortos e os feridos, ou esperar pelo romper do dia seguinte.
Ao descrevermos uma apertada curva, que circundava um alto morro, o Farsola contava mais uma das suas muitas aventuras, em que mais uma vez conseguira fugir da polícia ao volante de um potente BMW roubado junto ao Casino Estoril. Repentinamente ouve-se uma enorme explosão e a viatura que seguia na nossa frente é projectada pelo ar acompanhada de uma enorme coluna de pó e de fumo.
Enquanto a nossa viatura abrandava, nós rapidamente saltamos para o chão temendo alguma daquelas terriveis e mortíferas emboscadas que por vezes se seguiam ao rebentamento destas traiçoeiras minas anti-carro.
Felizmente desta vez a explosão da mina foi um acto isolado e nós corremos para o local do impacto.
A viatura sinistrada encontrava-se reduzida a um monte de ferros retorcidos e os soldados que nela seguiam foram projectados para longe, encontrando-se espalhados pela ravina gemendo e soluçando.
Rapidamente alguns soldados subiram aos morros próximos afim de montarem a segurança, inviabilizando deste modo qualquer ataque que o inimigo pudesse desferir aproveitando-se da fragilidade da situação. Alguns dos feridos encontravam-se muito maltratados, apresentando várias fracturas, principalmente dos membros superiores e inferiores.
Eu rapidamente corri para junto do meu camarada de transmissões, auxiliando-o na montagem das antenas e na ligação via rádio com a sede. Alem dos vários feridos, todos nós nos encontrávamos muito abatidos psicologicamente.
Esta mina ao contrário do que seria de prever e, apesar de todas os veículos seguirem cuidadosamente pisando o rasto deixado pelo rodado da sua precessoura, só rebentaria á passagem daquela que seguia na nossa frente, neste caso a 3º viatura, isto deveu-se à armadilha estar munida com um sistema de trincos pré-programados. 
Devido à falta de helicópteros para procederem à evacuação dos feridos, recebemos ordens via rádio para se montar segurança à viatura sinistrada, e procedermos à reorganização da coluna com vista ao seu regresso ao local de partida, onde os feridos seriam socorridos.
Entretanto de São Salvador partira ao nosso encontro uma outra coluna com uma equipa médica, que ao cair da noite se encontra connosco e de imediato iniciou a prestação dos primeiros socorros aos nossos camaradas feridos.
MANUEL ALDEIAS
manuelaldeias.blogspot.pt



PROPAGANDA NA GUERRA DE LIBERTAÇÃO

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Também do lado do PAIGC não se descurava a propaganda desmoralizadora junto do exército colonial português.

Este panfleto (copiado daqui) fazia parte do material de propaganda de guerrilha na guerra de libertação na Guiné e era um incentivo à deserção dos militares portugueses, aproveitando três casos que são invocados. Repare-se a preocupação de garantir aos desertores que não ficariam em África mas sim colocados num país europeu com forte colónia emigrante portuguesa (relevo para França). Assim, a deserção é praticamente despida de significado político, além do sentido humanitário de recusar participar numa guerra criminosa e “já perdida”, sendo uma forma de concretizar aquilo que já milhares de jovens portugueses faziam clandestinamente e atravessando Espanha, quando se aproximava a incorporação militar (o “salto” para França). A distinção vincada entre portugueses e exército colonial, por sua vez, era uma forma de induzir a garantia de uma boa recepção quando da entrega ao PAIGC.
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Adenda: O Isidoro de Machede comentou este post referindo que um dos três fuzileiros desertores referidos no panfleto do PAIGC era seu amigo, voltou clandestinamente a Portugal em missão revolucionária, foi preso pela PIDE e só saiu em liberdade da Prisão de Caxias nos dias a seguir ao 25 de Abril. Como complemento, acrescento uma foto dos três desertores (mesma fonte da cópia do panfleto), quando hóspedes do PAIGC. O fuzileiro António Pinto, amigo do Isidoro, está no centro. A ladeá-lo, estão os fuzileiros Alfaiate e Sentieiro.
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Publicado por João Tunes 

PROPAGANDA NA GUERRA COLONIAL

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Este cartaz-folheto (copiado daqui) fazia parte do material de propaganda de contra-guerrilha na guerra colonial na Guiné e era um incentivo à deserção dos guerrilheiros do PAIGC através da idealização da reintegração sob o poder colonial.

Os elementos pictóricos são simplificados e impressivos. A disposição figurativa dominante é a do reencontro efusivo e afectuoso entre os africanos que continuavam sob dominação portuguesa e aqueles que regressam abandonando as armas da luta de libertação. A bandeira portuguesa, símbolo de soberania perene, é elemento vivo e colorido. No centro, destaca-se, pelo chapéu, o régulo africano como sinal da continuação da autoridade tradicional africana. Os elementos do exército colonial (desarmados e em pose de satisfação convivial) estão postados discretamente como espectadores e incluem um militar negro. A legenda é discreta, sublimando as vantagens da deserção, para os desertores e para os seus familiares e amigos, não contendo qualquer elemento reprovador forte aos guerrilheiros, apenas indicando que estavam “enganados”.

O quadro idílico traçado na ilustração servia de contraponto, sem necessidade de representação dicotómica, à realidade guerrilheira e consequentes riscos – o combate armado, a exclusão da família, do meio familiar e dos complementos afectivos, as carências da vida guerrilheira, a brutalidade da acção militar colonial, incluindo a acção dos agentes da PIDE.

Se a propaganda não resultou não foi por demérito da propaganda. Havia muito no real que resistia à melhor propaganda.
Publicado por João Tunes

agualisa6.blogs.sapo.pt