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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Aonde ficam os carros que não são comprados? O sonho de comprar um veículo 0 km é comum mas a verdade é que as vendas estão caindo absurdamente ao redor do globo, fazendo surgir verdadeiros “cemitérios automobilísticos” pelo planeta

Aonde ficam os carros que não são comprados?

O sonho de comprar um veículo 0 km é comum mas a verdade é que as vendas estão caindo absurdamente ao redor do globo, fazendo surgir verdadeiros “cemitérios automobilísticos” pelo planeta
destaq

 as vendas caíram nos últimos anos, a crise vem devastando as vendas de veículos novos nos quatro cantos do globo. Contudo, as indústrias do ramo não podem parar de fabricá-los, porque elas teriam que fechar suas fábricas e demitir dezenas de milhares de empregados — e isso iria aumentar ainda mais a recessão.
E tem mais: se as fábricas automobilísticas pararem, quem iria empregar essa gente? Como é que iria ficar o mercado do aço? Estas são apenas duas das perguntas que logo vêm à cabeça.
Como resultado disso, a quantidade de carros estocados em pistas e parques de estacionamento ao redor do mundo (verdadeiros “cemitérios automobilísticos”) — em que eles lentamente vão se deteriorando — aumenta a cada semana, fazendo com que os fabricantes tenham que comprar mais e mais hectares de terras para guardar os veículos 0 km que saem da linha de produção.
Conheça alguns desses “cemitérios”, em que as covas não abrigam os restos mortais dos falecidos, mas sim carros 0 km. Não tem Photoshop, e todas as imagens são reais:

Estacionamento em Swindon, Reino Unido

01

 57 mil carros no porto de Baltimore, Maryland, U.S.A.

02

Pista de testes da Nissan em Sunderland, Reino Unido

03

 Estacionamento na Espanha

04

Porto de Valência, Espanha

05

Estrada de St. Petersburg, Rússia

06

Docas em Avonmouth, Reino Unido

07

Estacionamento da Citroen em Northamptonshire, Inglaterra

08

Peugeots no porto de Civitavecchia, Itália

09

Estacionamento em Sheerness, Reino Unido

10
Como o número de vendas de carros novos só tem caído, atualmente existem inúmeros desses “cemitérios” espalhados pelo planeta — até pelo Google Earth dá pra conferir. Mesmo assim, a produção de mais e mais veículos não para.

curiosomundo.com.br

MARCHA DO PELA DEMISSÃO DO GOVERNO - LISBOA 29 DE MAIO 2014






















ephemerajpp.com

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL 54ª PARTE - PAIGC E OS MÍSSEIS SRELLA- OPERAÇÃO TRIDENTE - ILHA DO COMO

 PAICG - Mísseis Strella - 

Míssil terra - ar Strella

Em Dezembro de 1970 informam-nos (C. Caç. 13) de que o PAIGC, estava a ser fornecido com mais meios anti-aéreos, incluindo mísseis terra - ar SAM, recentemente utilizados no Vietnam, pelo que o apoio aéreo seria agora mais restrito, nomeadamente em zonas como o Morés, nas quais não deveríamos contar com o apoio de meios aéreos.
Em fins de 1971 Portugal possuía na Guiné 29.210 homens, e o PAIGC cerca de 7.500, mas apesar da superioridade numérico e do controlo de 2/3 do terreno, a situação continuaria sempre a agravar-se face a uma evidente melhoria da organização do IN, e dos meios militares ao seu dispor.
O reforço dos meios anti-aéreos do PAIGC seria uma realidade, mas a chegada dos misseis Strella, apenas de confirmaria muito mais tarde, quando em 25 Março de 1973, é abatido o 1º Fiat sobre Guileje, o piloto Ten. Pessoa ejectou-se sendo recuperado.
Poucos dias depois na mesma zona, a 28 Março de 1973 foi abatido o 2º Fiat sobre Madina, e morreu o Ten. Coronel Almeida Brito.



SA-7b Grail Strella


O SA-7a foi introduzido em 1968, mas foi rapidamente substituído pelo SA-7b.
O SA-7b possuía um novo motor de propulsão e um novo sistema de identificação, o que lhe permitiu passar a aquisição de alvos de 3,6 km para 4,2 km, e aumentar a velocidade de 430 m/s para 500 m/s.
Fonte da foto: http://www.armyrecognition.com/
A chegada dos  mísseis soviéticos SA-7 Grail Strella, mais conhecidos como mísseis Strella, coloca em causa o nosso domínio aéreo. Estes mísseis eram guiados pelo calor dos motores dos aviões, e a sua primeira aparição tinha sido feita na guerra do Vietname.
A partir do momento em que os Strella chegaram, só com elevados custos humanos e materiais, passou a ser possível continuar a assegurar, o domínio do terreno, as necessárias contra medidas para anular os Strella não chegaram, e o apoio aéreo passou a ter grandes limitações.
Apresentamos a seguir um texto, sobre as informações recolhidas pela PIDE/DGS a este respeito.
"Em Setembro de 1968, o jornalista de um grande diário alemão, "especialista em assuntos da política do Leste", informava a PIDE de que de deviam contar com um incremento de actividade da guerrilha, em Moçambique. A fonte informava que os países do Leste iam melhorar o armamento dos guerrilheiros, dando-lhes armas mais modernas, em que se incluíam mísseis do tipo "SAM 3". Sublinhava, ainda que a União Soviética, para fazer frente à intensificação das actividades da China, ia redobrar de esforços em África. E dizia que certo Instituto Internacional de Moscovo teria passado a orientar a sua actividade para as colónias portuguesas de Angola, Moçambique e Guiné, assegurando o treino militar dos guerrilheiros.
...
No que a PIDE se enganava era no tipo de míssil. Não seria o "SAM 3", mas o "SA-7 Grail-Strella", um míssil antiaéreo operado apenas por dois homens. Seria utilizado na Guiné a partir de 1973, em Moçambique desde 1974.

Os mísseis continuam, entretanto, a preocupar os militares. Em 1970, o Secretariado da Defesa Nacional pede à PIDE informações sobre o material de guerra transportado pelo navio soviético "Krasnaya Presnya", suspeitando tratar-se de mísseis. A policia indica que o material fora desembarcado em Port Sudan e declara não se tratar de uma bateria de mísseis.
...
Além do desenho do míssil "Strella", a policia acaba por obter as suas características.

Composição: Compreendia um tubo (comprimento de 1,40m, diâmetro de 10 cm e peso de 10 kg) e um mecanismo de disparo, peças independentes.

Funcionamento: O míssil era accionado por quatro guerrilheiros: um apontador e três municiadores. Em princípios de 1972, teriam chegado a Kondiafara, vindos da União Soviética, cerca de trinta apontadores.

Quando se ouvia um sinal acústico, o míssil tinha adquirido o alvo e podia ser disparado. No entanto, se fosse disparado com um avião voando baixo, o míssil bloqueva. E se fosse disparado com um ângulo superior a 60 graus, o atirador ficava queimado com os gases do escape. O ângulo de disparo ideal era, assim, de 20 a 60 graus, sendo ineficaz abaixo dos 150 metros. Mas disparando correctamente podia perseguir um avião até à pista.

Manutenção: Não tinha manutenção muito complicada. No entanto, a arma era sensível à humidade e aos choques. Por isso, a sua protecção e transporte eram importantes.

Reenvio: Os tubos disparados, assim como os avariados, deviam ser reenviados para a União Soviética.

Características: Estava equipado com uma cabeça autodireccional, sensível aos infravermelhos. O seu alcance transversal era de 3700 metros. A altitude máxima era de dez mil pés. A velocidade 1,5 macks.

Manuseamento: Exigia uma equipa de pelo menos dois homens; um que servia de apontador, e o outro, que transportava uma carga sobressalente. Era um míssil portátil, disparado do ombro de um guerrilheiro.

Quem aprendera a manuseá-lo: Sublinha-se que, não só os combatentes da Guiné, mas também os de Moçambique e de Angola, tinham feito um curso sobre o seu manuseamento na base de Sinferopol, no mar Negro. Aliás já em Agosto de 1973, a policia assinalara a partida para a União Soviética de trinta guerrilheiros da FRELIMO, que ali iam receber instrução para o manuseamento destes mísseis.

Apreciação da PIDE/DGS: É uma "arma antiaérea formidável", "altamente eficaz".

Como lhe reduzir, então, a eficácia?

Segundo a policia, o remédio mais viável era, provavelmente, o avião disparar luzes incandescentes para atrair o míssil, que procurava uma fonte de calor. Para tal seria necessário modificar o avião. O Centro de Testes e Desenvolvimento de Armas da Força Aérea dos EUA desenvolvera um aparelho de perturbação, um dispositivo deflector que tornava impossível ou improvável ao "Strella" dirigir-se para os motores do avião. Pereira de Carvalho considerava que não devia ser difícil desenvolver em Alverca um dispositivo semelhante."

Fonte: Livro "A PIDE/DGS na Guerra Colinial 1961-1974", Dalila Cabrita Mateus, Terramar, 2004

Posição de metralhadora anti-aérea quadrupla ZPU-4 do PAIGC, perto da fronteira com a Guiné-Conakry
Fonte da foto: Guiné 1968 e 1973 - Soldados uma vez, sempre soldados!, Nuno Mira Vaz, Tribuna, 2003

Apesar de os "Strella", terem efectivamente colocado graves problemas à força aérea, a verdade é que os meios anti-aéreos do PAIGC, desde à muito que eram uma ameaça, para a força aérea, como descrevemos no texto a seguir apresentado.

"Se o ataque às baterias anti-aéreas, em especial em voo picado, constituía uma missão perigosa, visto o piloto ter de aguentar, firme e sem desvios, a sua aeronave dirigida às bocas de fogo no solo, também é da mais elementar justiça realçar a coragem dos atiradores que suportavam o ataque. Krus Abecasis deixou, para a posteridade, o relato vivido desses momentos:

"Na missão de ataque à Antiaérea de Cafine, em que comandei uma formação de que fazia parte, como "meu asa", o Major Santos Moreira, Comandante da Esquadra de Intervenção, tive ocasião de admirar a coragem com que os artilheiros das peças antiaéreas nos faziam frente, mantendo-se nas suas posições e disparando continuamente, quando os envolvíamos de metralha, indiferentes ao risco que corriam.

Terminada a missão, fiquei a meditar, se entre combatentes portugueses poderíamos encontrar tal valentia. (…). O Inimigo batia-se e morria no seu posto, fazendo-nos frente com bravura invejável e desconhecida da generalidade dos militares portugueses” Cp. 610).

É oportuno acrescentar um dado importante para se perceber a motivação dos pilotos para o cumprimento das missões, independentemente do constante risco vivido.

Dada a pequena dimensão do território, a densidade de tropas de quadrícula era maior do que em qualquer outro dos dois teatros de operações - Angola e Moçambique - e isso gerava nos pilotos uma quase certeza de, ao serem atingidos, depois de saltarem em pára-quedas, terem a possibilidade de alcançarem a proximidade de um aquartelamento do Exército (Cor. Alexandrino dos Reis). Era uma garantia muito subjectiva, mas resultava como apoio moral, levando-se em conta que, na Guiné, só pontualmente existia supremacia aérea, em oposição às outras duas colónias.

O PAIGC, na impossibilidade de possuir aviação de combate, foi apurando a cobertura anti-aérea do território onde tinha aquartelamentos. Com o rodar dos tempos, e em função da superioridade terrestre alcançada, restava à guerrilha, para subir um patamar no conflito, gerar uma situação na qual pusesse os meios aéreos tão condicionados quanto os restantes. Esse passo foi dado com a introdução, no teatro de operações, dos mísseis terra-ar SAM-7, também conhecidos por Strella.

O Estado-Maior do Comandante-Chefe, ainda antes do começo do ano de 1973, por conseguinte, em tempo anterior à morte de Amílcar Cabral, já tinha conhecimento da existência de um míssil terra-ar, em território da Guiné.

Esta informação havia sido veiculada pela PIDE/DGS para as instâncias militares, contudo, é o líder do PAIGC quem não autoriza a utilização de tal arma (entrevista com o MGen. Martins Rodrigues).

Eram razões estratégicas e políticas as determinantes da atitude de Amílcar Cabral: tinha consciência da escalada no conflito e isso impediria a continuação das conversações secretas mantidas com o general Spínola. Todavia, internamente, outros líderes do PAIGC, adeptos de uma solução mais radical e não negociada, defendiam o uso imediato dos mísseis.

A morte do líder histórico do partido foi oportuna, permitindo, à ala mais extremista, o avanço para a escalada militar que, na sua opinião, resolveria o problema da Guiné, alcançando uma declaração de independência no curto prazo.

O míssil SAM-7 só aparece no dia 20 de Março de 1973, quando os extremistas do PAIGC já estavam de posse dos principais postos de controle do aparelho político. Foi avistado pelo TCor. Brito e pelo Maj. Pessoa nesse dia, em Compada.

A 22, o furriel Moreira, voando um T-6, vê passar um projéctil que reporta como sendo um míssil que não o atinge. A 25 de Março foi abatido o Maj. Pessoa, que se ejectou e foi recuperado no dia seguinte (MGen. Martins Rodrigues).

Entre os pilotos da Força Aérea gerou-se a dúvida quanto à existência efectiva de mísseis. O TCor. Brito era, de entre todos, aquele que não podia ouvir falar em tal arma. Afirmava peremptoriamente a sua não existência, justificando o primeiro reporte como tratando-se de uma granada de RPG, mas nunca um míssil (MGen. Martins Rodrigues). No dia 28 de Março foi abatido, e morreu, o TCor. Brito.

"Em 6 de Abril deu-se a grande catástrofe: foi atingido mortalmente o piloto Baltazar, o furriel Ferreira desapareceu, ambos em DO-27, e o capitão Montovani, morre aos comandos de um T-6. Uma testemunha foi o alferes Henriques que "ia em asa" do Montovani e viu o avião estoirar, mas teve a possibilidade de ver, também, um rasto de fumo, vindo do solo. Deu várias voltas sobre a zona para identificar o ponto de lançamento, contudo, nada descobriu. Quer dizer, aquele grupo de guerrilheiros só tinha um míssil, caso contrário tê-lo-iam abatido, também.” (MGen. Martins Rodrigues).

Neste dia gerou-se, entre os pilotos, um clima de instabilidade. Ninguém deixou de voar, mas o receio implantou-se, principalmente entre os que operavam aeronaves com pequenas performances, por se desconhecer o tipo de arma utilizada pelo inimigo."
 
Fonte: livro "A Força Aérea na Guerra em África", Luís Alves de Fraga, Prefácio
O facto de o PAIGC possuir agora meios anti-aéreos altamente eficazes, faz modificar a sua estratégia, e tem graves consequências no moral das NT, e no desenrolar das batalhas.
Um dos factores que mais o moral, é o fim das evacuações aéreas, ver camaradas feridos a morrer sem possibilidade de os socorrer, é uma situação de impotência e de abandono que desmoraliza fortemente as tropas.
Algumas informações sobre os Strella obtidas posteriormente, permitiram aos aviões da Força Aérea actuar com mais segurança, mas o risco era sempre elevado.
"Uma vez conhecidos os parâmetros dentro dos quais o Strella actuava, passaram a adoptar-se medidas que impediam ou limitavam os disparas contra as aeronaves em voo.

Ora, devido ao clima e às altas temperaturas geradas à superfície, o míssil tinha de ser lançado dentro de uma inclinação do tubo de disparo que ia de 30 a 60 graus com o solo; abaixo do primeiro valor, ele era atraído para a terra ou para as copas das árvores, acima do segundo número, o escape do disparo queimava o atirador. Por outro lado, o míssil auto-destruía-se quando ultrapassava os 12.000 pés (cerca de 3.600 metros).

Curioso será referir o facto de nunca se ter verificado disparo de mísseis contra aviões de transporte pesado, indiciando assim que o uso destas armas não se fazia isoladamente.

Em geral, os guerrilheiros utilizavam-nas na área dos chamados santuários ou zonas tidas como libertadas, segundo a opinião do MGen. Martins Rodrigues. Fundamenta-a com base nas informações dadas por um operador de Strellas, de nome Armando Baldé, que se entregou à guarnição militar de Tite no final do ano de 1973.

Entregou-se por cansaço, por desmoralização. Explicou este guerrilheiro vários pormenores desconhecidos das forças portuguesas: o míssil obrigava à existência de uma equipa de dois homens - um para carregar o tubo de lançamento e um apontador - e implicava sempre numa guarnição de segurança de 15 outros, porque as ordens recebidas eram de nunca deixar os Portugueses apanhar um SAM-7 e de nunca se aproximarem de zonas onde estivessem em insegurança (Martins Rodrigues, entrevista).

Contudo, o pormenor mais importante e completamente desconhecido é que a fonte alimentadora do disparo do míssil era uma pilha de mercúrio extremamente sensível ao clima e, por isso, não podia estar permanentemente colocada no sistema de disparo, por outro lado, depois de instalada tinha uma duração de 30 segundos para detectar e bloquear o alvo, findos os quais perdia potência. (Martins Rodrigues, entrevista).

Quer dizer, havia, de facto uma margem de segurança suplementar para as aeronaves da Força Aérea. O importante era não estabelecer rotinas que previamente pudessem ser descobertas pelos guerrilheiros.

Entretanto, o sistema de informações da PIDE/DGS comunica à Força Aérea a existência no território de um outro míssil, o Catrum, cuja designação era completamente desconhecida. A nomenclatura mais próxima, descoberta pelos oficiais da Força Aérea, era a do míssil francês Cratal, possuidor de um sistema de aquisição do alvo por radar.

Se o PAIGC obtivesse essa arma a Força Aérea ficaria impossibilitada de voar. No entanto, sabia-se estar o Governo de Lisboa em conversações com o de Paris para adquirir esse míssil para uso na Guiné - havia o receio de aviões Mig, da Guiné-Conakry, bombardearem Bissau - e era improvável que os Franceses estivessem, também, a negociar com intermediários da guerrilha. Interrogatórios mais detalhados do apontador Armando Baldé, levaram, afinal, a concluir que o sistema de disparo do Strella se designava pela palavra .. catrum ... Estava descoberto o mistério!

A título de mera curiosidade, convirá deixar para a História que Baldé - o antigo guerrilheiro do PAIGC - acabou por ser contratado para trabalhar na secção de armamento da BA-12, ganhando a quantia de 2.000$00, com alojamento e alimentação na unidade.

Tornou-se um funcionário irrepreensível. A Força Aérea tratava deste modo os seus prisioneiros! "
 
São equacionadas algumas medidas para evitar os SA-7, mas tudo o que implica maior esforço financeiro, são de difícil aplicação, face às fracas capacidades de Portugal.
"No documento descrevem-se as características do SA-7: é eficaz segundo “envelopes” que relacionam a altitude de navegação com a distância ao atirador-alvo que não pode ser inferior a 5.

Na sua máxima eficácia o míssil está condicionado pela altitude de 3.000m e uma distância de 4.800m ao atirador na horizontal (quase dado o ângulo de 5°); na sua eficácia mínima os mesmos valores passam agora a ser de 300 m para ambas as acções.

Quer dizer, uma aeronave para escapar à acção do SA-7 terá de voar abaixo de 300 m ou acima de 4.800. Tem uma velocidade máxima de 480m/s.

Autodestrói-se ao fim de 12 segundos e tem uma precisão de mais ou menos 90 cm no alcance máximo.

Os alvos ideais são os helicópteros e os aviões lentos. A aquisição dos alvos é feita por sensibilidade fontes de calor, através de um sensor de captação de raios infravermelhos.

Os processos para iludir o míssil passam por sistemas deflectores dos escapes, pintura das aeronaves que não reflictam o calor, interposição de nuvens de fumo entre o alvo e o míssil, interposição de pequenas placas de alumínio de modo a atrair o SA-7 para elas, contudo, tais medidas obrigam a que o míssil seja detectado logo após o seu lançamento.

Depois, no documento, indicam-se as medidas a adoptar para evitar ser atingido pelo míssil, as quais se sintetizam no seguinte: fazer voo rasante ou acima de 3.000 metros, usar as nuvens como forma de protecção, variar rumo e altitude se dentro do «envelope» do míssil, manobrar em parelha, fugir de rotinas de horários de descolagem e de aterragem, em voo rasante fazê-lo só em zonas arborizadas e nunca em descampados.

Passa, depois, a Informação a fazer a análise das diferentes missões aéreas e conclui-se que o reconhecimento visual em aviões ligeiros tem de ser substituído pela fotografia a alta altitude sobre o terreno e só em raras circunstâncias se poderão usar meios fotográficos a baixa altitude.

Na missão de ataque ao solo só se poderão utilizar aviões muito rápidos, fazendo uso de armamento especial e que só requeiram uma única passagem sobre o alvo. De qualquer modo, devem os aviões andar sempre em parelha, podendo, por vezes, ser feita a segurança com heli--canhão, mas perdendo ângulo de tiro, dada a necessidade de pairar a muito baixa altitude sobre o solo.

O transporte ligeiro, que é feito essencialmente em benefício das FS, passa a ser quase impossível de executar pelos riscos que comporta.

Entre as muitas medidas preconizadas no documento, propõe-se para a 2." RA o seguinte: aquisição de uma Esquadra de aviões muito rápidos, manobráveis, com grande raio de acção e forte poder ofensivo; incrementação do número de B-26; novos armamentos para uso em voo rasante; aumento do número de helicópteros, em especial AL III armados de modo a poderem desempenhar-se das missões atribuídas até então aos aviões ligeiros; e, por fim, modificação das pistas junto das unidades do Exército de modo a possibilitar a aproximação e saída em voo rasante (segurança mínima de 2 milhas náuticas). "
 
A chegada dos mísseis Strella em Março de 1973, é apontada normalmente como o principio do fim, na verdade com eles o conflito sobe para um nível superior, pois o PAIGC sente que em certas zonas pode assumir uma postura de combate convencional, e passar à conquista do terreno.
Spinola tenta convencer o poder da necessidade de uma mudança política urgente, pois a solução militar está esgotada, mas sem sucesso.
O General Costa Gomes, é um dos seus opositores, continua a dizer que a Guiné é defensável militarmente, basta retirar dos aquartelamentos junto à fronteira, e depois interceptar e destruir a guerrilha, quando esta se infiltre ou se instalar em território da Guiné, privando-a assim da protecção da fronteira.
Spinola discorda não considera que isso possa inverter a situação, e recusa-se a abandonar, aquartelamentos e as populações, abandonando o lugar de governador e a Guiné em 1973.
Spinola viria a denunciar esta situação sem solução, no seu livro "Portugal e o Futuro", publicado em Fevereiro de 1974, referindo que se morre hoje, para se poder morrer amanhã.
A 31 de Março de 1974, dá-se um novo nível na escalada militar, com um violento ataque do PAIGC à guarnição militar portuguesa de Bedanda, com a utilização de viaturas blindadas com auto-metralhadoras. Além destas viaturas é sabido que o PAIGC, possui igualmente tanques soviéticos T-34.

Viatura blindada BTR-152 (soviética), equipada com metralhadora
O assalto realizado pelo PAIGC ao aquartelamento de Bedanda com as BTR-152, quase que tem sucessos, pois estas conseguem mesmo chegar junto ao arame farpado, dado o aquartelamento não possuir granadas de bazuca para as deter, provavelmente devido a problemas de reabastecimento, no entanto a guarnição mostra um elevado espírito combativo e defendem-se com tudo o que tem. O intenso fogo das armas ligeiras não permite aos guerrilheiros sair das viaturas, e estas acabam por voltar para trás.

É evidente a escassez de meios do exercito português, face ao crescente armamento da guerrilha, por parte da União Soviética.

Nesta altura começa já a falar-se nos Migs da força aérea do PAIGC, sendo adquiridos mísseis terra ar franceses, para defender Bissau em 1974.

Aristides Pereira, na altura secretário- geral do PAIGC, confirma no seu livro "Uma luta, um partido, dois países", a chegada dos Migs do PAIGC em 1974:

"Do mesmo modo o contingente de pilotos que o PAIGC tinha mandado para formação na URSS chegara juntamente com os aviões Mig já depois do 25 de Abril"

Embora a Guiné-Conakry possuísse Migs, e se verificassem violações do espaço aéreo da Guiné, por estas forças, as quais tinham sido reforças com meios aéreos de outros países, nomeadamente pilotos argelinos pilotando Migs, como consequência da "invasão" de Conakry país em 22/11/1970, se o PAIGC a partir dai começa-se a lançar ataques contra os aquartelamentos da Guiné, seria o fim, pois estes não possuíam quaisquer meios de defesa antiaéreos, e bastariam uma bombas de napalm, para acabar com os pequenos aquartelamentos. o

historiaguine.com.sapo.pt




A ilha do Como - texto introdutório Carlos Fortunato

A ilha do Como e a operação Tridente no livro escolar do PAIGC (1)

Como se pode verificar pelo texto apresentado no livro escolar,  a ilha do Como assume um papel destacado entre os símbolos da luta do PAIGC, devido à Operação Tridente ai realizada no principio de 1964, a qual tinha por objectivo a reocupação da ilha pelas tropas portuguesas.

Embora sob o ponto de vista militar da estratégia militar ilha não tivesse importância, sob o ponto de vista politico a visão já era diferente, pois representava uma zona libertada para o PAIGC.

A versão referida no livro escolar do PAIGC, descreve o resultado final como"a tropa vencida fugiu", era a sua versão para propaganda, na verdade a ilha não possuía forças militares portuguesas quando o PAIGC a ocupou,  e após a "Operação Tridente", a ilha estava sobre controlo das NT, e tinha agora um aquartelamento instalado em Cachil.

A operação iniciada a 14/01/1964, teve como resultado uma pesada derrota para o PAIGC, não só pela perda do controlo da ilha, mas também pelos 76 mortos (confirmados), 29 feridos e 9 prisioneiros, no entanto este nunca admitiu tal derrota, pelo contrário tentou sempre manipular os factos, e considerou o fim da operação, como a derrota das NT.

Esta versão para propaganda tornou-se a versão oficial do PAIGC, e nem mesmo em recente livro Aristides Pereira, antigo secretário-geral do PAIGC, apesar de desligado do partido, altera a versão oficial do mesmo:

"A resistência tenaz dos guerrilheiros e as perdas humanas e materiais obrigaram as tropas coloniais a abandonar a ilha do Komo"

Fonte: livro "Uma luta, um partido, dois países", Aristides Pereira, Noticias Editorial, 2002

As nossas forças terrestres envolveram nesta operação cerca de 1000 a 1200 homens, com forte presença de forças especiais dos fuzileiros, comandos e páras.

Comandante das Forças Terrestres era o tenente coronel Fernando Cavaleiro (Comandante do Batalhão de Cavalaria 490).

A marinha deu apoio à operação com uma fragata, 10 lanchas, e mais algumas embarcações civis.

1958 - PV-2 Harpoon na base do Montijo, na altura era utilizado para intercepção e vigilância marítima.
Devido à pressão dos EUA, apenas deram apoio esporádico na Guiné e em Angola. Leva cinco metralhadoras fixas 0.50 localizadas no nariz, sendo duas na parte superior e três na parte inferior, duas 0,50 numa torre dorsal, duas 0,50 na torre ventral, oito foguetes HVAR de 5 polegadas montados em cabides sob as asas, e capacidade para até 1.815 Kg de bombas (2)
O F-86 Sabre foi um avião de combate subsónico desenvolvido pelos EUA a seguir à Segunda Guerra Mundial, foi utilizado pelos EUA na Coreia contra os MIGs 15. Devido à pressão dos EUA, apenas deram apoio esporádico na Guiné  Chegaram a Portugal em 1958. Leva 6 metralhadora 0,50 pol., 2 mísseis ar-ar ou 2.000 Kgs de bombas (3)

A Força Aérea Portuguesa, teve igualmente um papel importante nesta operação, fazendo centenas de saídas em apoio às forças terrestres, para tal contou com os aviões T6, F86, PV2 e PV2-5 (Apoio de combate), dos helicópteros Alouette II (transporte e evacuações), e dos aviões Auster e Dornier (transporte e reconhecimento).

Guerrilheiros do PAIGC na ilha do Como, foto do livro escolar do PAIGC (1)

O PAIGC possuía na ilha cerca de 300 guerrilheiros bem armados, a comanda-los estava um dos seus mais prestigiados combatentes, Nino Vieira. Apesar da evidente inferioridade de meios da guerrilha face aos envolvidos pelas NT, estes tinham a seu favor o conhecimento do terreno, e a protecção que este lhes dava, a qual souberam aproveitar, oferecendo uma forte resistência inicial.

No início a batalha foi muito dura e a progressão lenta, sofrendo as nossas forças algumas baixas, para além disso as dificuldades com a alimentação, criaram problemas adicionais, mas ao fim de 71 dias a ilha estava sobre o total controlo das NT, contudo a "conquista" tinha custado 8 mortos e 15 feridos.

O controlo da ilha foi temporário, pois terminada a operação as tropas retiraram, deixando um quartel em Cachil, mas a guerrilha voltaria poucos meses depois a reforçar novamente as suas posições na ilha.

As densas matas da Guiné transformavam estas num esconderijo perfeito, pois tornavam impossível, a detecção e eliminação total da guerrilha.

Esta foi sem dúvida uma das mais longas batalhas travadas na Guiné, que marcará a sua e a nossa história.



Actividades ao sul do Geba - texto de Hélio Felgas

 


Apresenta-se a seguir um extracto do livro "Guerra na Guiné" do coronel Hélio Felgas, sobre a ilha do Como, publicado em 1967, no qual o autor dá uma visão global da operação, reflectindo a visão portuguesa dos acontecimentos, embora o mesmo não tenha participado na operação.

"Algumas palavras nos merece a operação realizada pelas forças portuguesas no princípio de 1964 contra a ilha do Como – que o PAIGC considerava como “região libertada” e onde dispunha de uma “guarnição” composta por elementos escolhidos e bem armados e municiados.

Situada a sudoeste de Catió, a ilha de Como engloba também as de Caiar e Catunco. Por falta de efectivos e também porque, além de produzir algum arroz, pouca importância tem - a ilha não dispunha de qualquer força militar.

O PAIGC aproveitou esse facto para nela instalar um acampamento (normalmente designado por «base») que, além de actuar como centro de reabastecimento servia também para a instrução dos novos elementos terroristas.

A presença do PAIGC na ilha de Como era por nós conhecida não só porque elementos inimigos flagelavam por vezes os nossos barcos no rio Cobade (que separa a ilha da península de Catió), como também porque em reconhecimento efectuado pelos nossos soldados, os bandoleiros haviam reagido com certa violência.

Mas talvez o que tivesse pesado mais na decisão de reocupar o Como - sem valor militar, como dissemos - foi o facto de Amílcar Cabral ter apontado a ilha como «área libertada que estaria sob completo controle do PAIGC”.

Não tendo o inimigo qualquer outra área da Guiné nestas condições parecia necessário desalojá-lo da ilha e lá colocar uma força militar.

A operação foi levada a cabo por forças terrestres, aéreas e navais tendo a natureza do terreno constituído adversário mais difícil para as tropas portuguesas que o próprio inimigo. De facto, a ilha apresenta diversos maciços florestais quase impenetráveis, rodeados por bolanhas pantanosas que se estendem praticamente até ao mar. Desta forma a aproximação até às matas (onde os grupos terroristas se encontravam escondidos) tinha de ser feito a peito descoberto. E depois a penetração não oferecia menores dificuldades pelo menos até se descobrirem os trilhos utilizados pelos guerrilheiros.





A resistência oferecida pelo adversário foi porém esporádica. Só raramente um grupo ou outro revelou espirito combativo, logo aliás neutralizado pelo comportamento corajoso dos nossos soldados. O normal foi a flagelação, a emboscada, jamais a defesa a todo o custo desta ou daquela posição.

Para aqueles que esperavam do PAIGC uma resistência compatível com o pretensiosismo manifestado nos comunicados onde o Como era anunciado como «área libertada», a operação foi uma desilusão militar. Afinal PAIGC não defendeu aquilo que já anunciava como sendo seu. Parece-nos porem que não seria de esperar outra coisa. O papel dos grupos de guerrilhas não e outro senão atacar o fraco e fugir do forte. Nada de grandes operações, resistências tenazes empenhamentos difíceis. Seja no Como ou em qualquer outra parte.

Quando a operação foi dada por finda, o PAIGC já não se revelava apesar dos nossos soldados cruzarem as matas em todos os sentidos. Muitos bandoleiros haviam sido mortos e algum material apreendido. Mas a maior parte conseguira fugir da ilha, apesar da vigilância dos nossos navios de guerra. E outros teriam ficado escondidos nas próprias matas. Ninguém podia ter a pretensão de ter limpo a ilha de terroristas nem de evitar que os fugidos regressassem novamente logo que as tropas saíssem.

O resultado final foi francamente favorável para as forças portuguesas que mais uma vez, haviam mostrado ao PAIGC serem capazes de desalojar os seus grupos fosse de que área fosse. Além disso, como prova da nossa soberania, construímos em Cachil um aquartelamento e aí deixámos uma guarnição com a missão de patrulhar a ilha.
 
Claro que o PAIGC, actuando dentro da mais perfeita técnica subversiva logo difundiu comunicados em que transformava a derrota dos seus grupos do Como em retumbantes vitória. Em um destes comunicados, Amilcar Cabral afirmava que a ilha fora atacada por 3000 soldados portugueses, os quais ao fim de três meses de combate, haviam sido derrotados e postos em fuga. Além do comandante teriam sido mortos centenas de soldados portugueses.

Na realidade, à parte do inevitável desgaste físico, as nossas tropas não chegaram a ter meia dúzia de baixas. As indicadas no comunicado do PAIGC eram superiores ao efectivo total empregue! E o comandante continua vivo e de boa saúde. " (6)
 


Op. Tridente (Ilha do Como, 1964) - testemunho de Mário Dias

Um excelente testemunho sobre o que se passou nesta operação, é dado pelo furriel Mário Dias dos comandos, que participou nesta operação, do qual apresentamos um extracto:

"...

1. A caminho

Ao princípio da noite de 14 de Janeiro de 1964, a fragata Nuno Tristão deixava para trás o Ilhéu dos Pássaros e, dirigindo-se para a Ponta Oeste da Ilha de Bolama, rumou a Sul.

A bordo, instalados como era possível, os elementos que formavam o Grupo de Comandos (20 homens) escutavam atentamente as indicações (poucas) que o alferes Saraiva, comandante do grupo, ia debitando. Ninguém sabia o que nos poderia esperar no Como mas a boa disposição reinava e a confiança nas nossas capacidades era grande.

A avaliar pelo aparato que tinha reinado na ponte-cais de Bissau durante o embarque de tantas unidades militares, equipamentos, caixas, caixotes, cunhetes de munições e demais tralha afanosamente encafuada, sem contar com as lanchas de desembarque e alguns navios requisitados para o efeito cheios de pessoal e de material que já haviam zarpado, pessoalmente eu antevia que não seria pêra doce.

Não foi fácil conciliar o sono. A expectativa era grande e grande era também uma certa "raiva" por não nos ser dito exactamente qual a nossa verdadeira missão nem os objectivos definidos o que, para quem não gosta de trabalhar às cegas, constituía sério embaraço.

Sabíamos apenas que íamos desembarcar na Ilha do Como para a sua reocupação. Nem ao menos nos foi dito por quanto tempo se estenderia esta missão pelo que não levávamos connosco o indispensável para uma longa permanência, como acabou por acontecer.

As manobras do "lançar ferro" da fragata acordaram-me. Devido à pouca profundidade do mar, a Nuno Tristão ancorou um pouco longe de terra. Começaram os preparativos da transferência das unidades que fariam parte da 1ª vaga de assalto para as LDM.

Ao nascer do dia 15, surgiram os aviões de ataque ao solo ao mesmo tempo que as peças de bordo e artilharia de Catió bombardeavam os locais de desembarque cobrindo o avanço das tropas que iam ao assalto das praias para instalarem testas de ponte que permitissem a chegada do grosso dos efectivos e instalação da logística.





O Grupo de Comandos não fez parte desta 1ª vaga. Como disse o alferes Saraiva, estávamos guardados para outras missões. Nem fazíamos uma pequena ideia de como elas se viriam a revelar tão difíceis.

Estando, pois, a bordo da Nuno Tristão, encostado à amurada, fui acompanhando as lanchas rumo à ilha, cuja vegetação em que dominavam as palmeiras, se recortava no horizonte não muito distante. Os aviões largavam a sua carga mortífera, os obuses de Catió flagelavam a parte da ilha junto ao canal que a separa do continente. Na linha da costa mandavam as peças da Nuno Tristão e os “picanços” dos aviões metralhando. Julguei-me num cenário do dia D na Normandia. Era idêntico, salvas as devidas proporções.

Quando acabaram os fogos de apoio, começou a ouvir-se o crepitar de rajadas num tiroteio impressionante. Muito ao longe, é certo, mas ouviam-se. De imediato pensei: pronto, já chegaram. Vão conseguir? Haverá muitas baixas? A incerteza do que se passava deixou-me muito mais nervoso do que se lá estivesse a combater. Preferia ter ido com eles.

Suspiro de alívio quando soubemos que tinham conseguido e que o inimigo não tinha oferecido muito resistência retirando-se para o interior da ilha. Era de esperar. O PAIGC, certamente sabedor do que se iria passar, deve ter deixado apenas alguns guerrilheiros junto à praia, só “para chatear”, instalando o grosso do efectivo na densa mata do centro da ilha. As lanchas de desembarque continuaram em sucessivas levas a transportar o pessoal embarcado na fragata para terra, nesse dia e no seguinte.
2 – Fervet opus

Finalmente. Chegou a nossa vez. No bojo de uma LDM rumámos a terra. Alcançada, baixada a rampa de desembarque, pisámos a areia do Como. Nada de tiros. O IN, naquele local, já não mandava nada. Populações e guerrilheiros que se encontravam na orla do mar já se haviam refugiado na densa mata do interior. Não fora a azáfama da tropa e dos carregadores a amontoar caixas de ração de combate, cunhetes de munições e de granadas, jericãs de plástico com água, barris de vinho, grades de cerveja – que tanto jeito deu para compensar a tremenda falta de água potável naquela ilha - não fora essa azáfama, e julgaria estar numa paradisíaca ilha do Pacífico. Linda praia… local de sonho.

Rajadas, não muito longe, acordaram o meu devaneio. Era em Cauane, disserem, onde se encontrava a CCAV 488 e o 8º Dest Fuz na tabanca que era o posto mais avançado e próximo do IN e que viria a ser o local de maior resistência à nossa penetração na mata. Era para lá que iríamos.

Enquanto na base logística, junto ao mar, se montavam as tendas de campanha que serviriam de posto de primeiros socorros, sala de operações, instalações para o comando e outras, se cavavam abrigos à volta do perímetro defensivo, se instalavam postos de vigia, se abriam as indispensáveis latrinas, iniciámos a marcha para Cauane.

Atravessado o palmar que bordejava a linha de costa, encontrámo-nos num terreno bastante arenoso e com pouca vegetação, onde os pés se enterravam exigindo redobrado esforço muscular.

Um pouco mais à frente surgiu um braço de ria, na altura com pouca água por ser baixa-mar, com o indispensável e habitual lodo e tarrafe. Para atravessar, bem no fundo daquela vala, um tronco de árvore já muito gasto pelo uso e que só permitia passagem na maré vazia. Devido a esse inconveniente, mais tarde, juntamente com os fuzileiros, cortámos alguns troncos de palmeira – abundantes nas margens desse e de outros cursos de água – e com eles foi improvisada uma ponte que permitia a passagem a qualquer hora. Mais tarde ainda, essa ponte foi substituída por outra construída por pessoal da Engenharia com tubos de andaime e madeira.

Atravessado sem percalços este obstáculo natural, eis – nos na extensa bolanha que se estende até Cauane e à mata de Cachil mais a Norte. Aí, só era possível andar sobre os estreitos ouriques pelo que lá vamos nós em coluna por um (a célebre "bicha de pirilau", na gíria militar) nada aconselhável em terrenos descobertos.
 
Precauções redobradas, chegada a Cauane festivamente saudada pelos guerrilheiros com nutrido fogo de PPSH (1) e de outras armas a partir da mata em frente, distanciada cerca de 200 metros da nossa posição. Felizmente os tiros saíam muito altos e só o som irritante das chicotadas incomodava.

Instalados em abrigos expeditos cavados no chão arenoso, as tropas montavam guarda aquele local estratégico por ficar próximo da mata, um pouco elevado, o que permitia domínio sobre o terreno circundante. Sob orientação do cmdt. do 8º Dest.Fuz. que aí se encontrava já há 3 dias, foram-nos indicadas as nossas posições. Cavamos abrigos, o que não foi difícil, o terreno era mole, ficando uma equipa em cada abrigo. Sempre em mente o princípio sagrado de nunca se separarem os elementos de uma equipa.

A tabanca de Cauane, bem como as restantes, estava praticamente destruída assim como a casa do comerciante Brandão, ali bem próxima. Meses antes, já a aviação havia actuado na ilha bombardeando e destruindo todas as instalações que pudessem ser proveitosas ao IN. Recordo-me ainda de assistir no QG em Santa Luzia, onde ocasionalmente me encontrava, aos protestos do referido Brandão por lhe terem escavacado tudo quanto possuía no Como.

Mesmo em ruínas, as palhotas de Cauane foram úteis para guardar muito do nosso material e sempre proporcionavam alguma sombra. Junto a uma das casas, foi colocado um tosco mastro, bem alto, onde flutuava orgulhosamente a bandeira nacional. Creio que tal “provocação” irritava os guerrilheiros que para lá disparavam longas rajadas de metralhadora, sensivelmente de hora a hora. Nós, ao fim de algum tempo habituámo-nos ao festival e até já sabíamos que horas eram, sem necessidade de consultar o relógio. Bastava contar as rajadas. As munições que assim gastaram, e foram milhares delas, (nós nem respondíamos) nunca atingiram o pessoal instalado na tabanca de Cauane. Milagre ou falta de pontaria. Ou ambas as coisas.

No dia 20 de Janeiro de 1964, o 8º Dest. Fuz. Esp. saiu para uma incursão na mata entre Cauane e S. Nicolau. Como era de esperar, um numeroso grupo estimado em cerca de 100 guerrilheiros nos quais foram referenciados alguns brancos e caboverdeanos, recebeu-os com nutrido fogo que durou aproximadamente 2 horas. Devido à gravidade da situação, saímos em reforço. A distância não era grande e rapidamente chegamos ao combate que estava mesmo feroz. Os guerrilheiros não paravam o fogo. Escondidos na densa mata, eram alvos difíceis de atingir. Progredindo por lanços, de árvore em árvore ou qualquer pequena elevação de terreno que nos protegesse, fomos tentando a aproximação à mata onde se encontrava o in. Impossível.

O terreno até lá era descoberto e as metralhadoras varriam tudo. Perto de mim, um fuzileiro, temerariamente em terreno descoberto, fazia fogo. Quando reparei e lhe gritava para sair dali e se abrigar, só o vi a virar-se de barriga para o ar e ali ficou atingido com um tiro na cabeça. Fiz um disparo com o lança-roquetes (a minha arma, além da indispensável G3) para quebrar o ímpeto do IN e permitir que fosse socorrido. Resultou, e alguns elementos dos fuzileiros foram buscá - lo. Estava morto.

(Nota: apresentamos no fim deste texto, um outro um texto de autoria do comandante dos fuzileiros que esteve envolvido na acção descrita anteriormente, o comandante do Destacamento de Fuzileiros 8, Alpoim Calvão).

Guiné > Ilha do Como > 1964 >

Na tabanca de Cauane, após a acção descrita. Estou eu, (de óculos) encostado a uma palhota, visivelmente cansado. A meu lado, a comer uma bolacha da ração de combate - não havia mais nada - o 1º cabo fotocine Raimundo que estava destacado pelo QG a fim de fazer a cobertura da operação, e que se juntou ao nosso grupo nunca mais deixando de nos acompanhar.

© Mário Dias (2005)

Nada a fazer. Tivemos que ordenadamente retirar e regressar às nossas posições na tabanca de Cauane. Nesta acção, os fuzileiros sofreram 2 mortos e 3 feridos graves. Dos guerrilheiros não se sabe pois ninguém conseguiu lá chegar e verificar o que entre eles se passou.

O PAIGC estava a opor grande resistência. Foi necessária a ajuda da aviação e artilharia para que aos poucos se fosse tornando possível a nossa progressão para o interior do Como. Recordo algumas noites em que nos era recomendado não acender fogueiras, nem sequer cigarros, pois os P2V5 vinham (à socapa pois eram da NATO) bombardear a mata. As explosões eram tão fortes que o chão onde estávamos deitados estremecia.

Durante o dia actuavam os F86 e T6 bombardeando e metralhando todos os movimentos que detectassem.

Uma noite, não sei se numa atitude provocatória ou se por terem frio, acenderam uma enorme fogueira mesmo na orla da mata à nossa frente. Via-se nitidamente a passagem de silhuetas humanos à sua volta. O cmdt. dos fuzileiros (1º Ten. Alpoim Calvão) chamou o Saco, apontador da instalaza (lança granadas foguete, como a nossa bazuca - aportuguesemos a palavra - mas com algumas diferenças: era de cor cinzenta, metalizada, com um óculo de pontaria mais perfeito e tinha um escudo para protecção do apontador.)

Chegou o Saco - engraçado como os fuzileiros tinham quase todos nomes de guerra pelos quais se chamavam! Era o Régua, o Setúbal, o Pistas, o Sono e outros que de momento já não recordo - e, municiada a arma, colocou-se de joelho em terra fazendo cuidadosa pontaria. Pum … lá vai ela. Segundos depois um tremendo estoiro. Então onde está a fogueira? Desapareceu. A granada acertou bem no meio e o sopro encarregou-se de a apagar. Nunca mais acenderam outra.

Um dos pontos que pretendíamos dominar era a picada que, partindo das imediações da casa Brandão, seguia para Norte em direcção a Cassaca e Cachil. Tarefa difícil pois o inimigo tinha instaladas à entrada da mata metralhadoras no enfiamento da picada. No dia 23 o grupo de comandos reforçado com uma secção da CCAV 488 e uma secção de fuzileiros dirigiu-se ao local para tentar alcançar e destruir as metralhadoras. Escondidos na casa Brandão, fomos progredindo de um e outro lado do ourique. Porém, ao chegarmos junto ao rio que atravessa a bolanha tínhamos que subir para o ourique e passar por umas tábuas que faziam de ponte. Como era de esperar, as metralhadoras entraram em funcionamento. Zás. Tudo a saltar de novo para o desnível do ourique.

E agora? Não podíamos prosseguir na relativa segurança de “encostados ao raio do ourique” porque as margens do pequeno rio e a bolanha que seguia até à mata estavam muito alagadas e eram lodosas. Nova tentativa e novas rajadas. Respondíamos ao fogo mas eles estavam abrigados e escondidos e nós a descoberto. Vantagem deles.

Chamou-se o apoio aéreo que não tardou. Dois F86 metralharam a zona de onde partiam as rajadas. Depois de algumas passagens, foram embora e ficou um T6. Largou as bombas. Subiu e rasou o solo metralhando. Subiu de novo e metralhou. Ao ganhar altura, ouviram-se gritos de júbilo na mata. Virou à esquerda e desapareceu da nossa vista. Pensei: bom, deve ter acabado as munições ou ter pouco combustível e foi-se embora. Vamos lá, que já devem ter ”amochado”. Qual quê? Tudo como dantes. Rajadas e mais rajadas que não deixavam sequer levantar a cabeça. Feita uma rápida avaliação, concluiu-se que daquela forma era impossível. Teríamos que voltar de noite ou madrugada para que não nos vissem e assim ser possível chegar às posições que defendiam à entrada da mata.

Quando estávamos a iniciar o regresso, surge ao nosso encontro o cmdt dos fuzileiros com mais homens do seu destacamento que nos pediu para o acompanharmos pois o avião T6 que nos apoiava tinha sido abatido. Percebi então o porquê dos gritos que os guerrilheiros tinham soltado. Rapidamente chegámos ao local, que não era longe, e deparámos com a avião ainda a fumegar, embora não totalmente ardido. Carbonizado, sim, estava no chão o corpo do infeliz piloto, alferes Pité, que encontrou a morte ao tentar proteger-nos. Ainda hoje me emociono ao lembrar este triste acontecimento. O corpo foi recuperado, o avião destruído com explosivos e nós regressamos a Cauane tentando esquecer.

O pior era a alimentação. 23 dias seguidos a ração de combate. Quem passou por isso poderá imaginar os problemas de saúde que isso causa pois ao fim de algum tempo já estamos enjoados e não conseguimos engolir nada. O corpo ressentia-se do esforço diário e ficámos debilitados. Água também era pouca pois só havia a que vinha de Bissau em barcaças. Mas um dia, o pessoal da minha equipa conseguiu cozinhar. Que luxo!... Juntámos os pacotinhos de canja que vinham nas rações e, com um pouco de arroz que desencantámos numa palhota, fizemos uma bela canja. Maravilha, sopinha de canja bem quentinha. Fomos para o nosso buraco com a preciosa iguaria numa marmita. Não sei já quem foi, mas um comensal mais apressado, com a “fussanga” de meter a colher, entornou a marmita. Sopa espalhada no pano de tenda que, por ser impermeável graças ao muito óleo e sujidade acumulados, reteve a abençoada canja. Pois foi mesmo do pano de tenda que foi comida e saboreada. Há muito tempo que nada me sabia assim tão bem.

As acções continuavam e começou a notar-se um certo fraquejar nas hostes do PAIGC, submetidos a um permanente assédio, não só pelos que estavam em Cauane mas também os de Curcô, Cachil e Uncomene sem contar com a aviação e artilharia entretanto instalada na base logística. E foi assim que em 26, de manhã, o grupo de comandos conseguiu entrar na mata junto de Cauane. Passámos pelo local onde, no combate em que participámos em auxílio dos fuzileiros, o inimigo teve a sua força instalada. Sem novidade. Continuámos a internar-nos na mata em direcção a S. Nicolau.

Mais à frente fomos atacados. A nossa reacção foi imediata e provocámos 3 mortos aos guerrilheiros que retiraram. Estava quebrado o mito de que não era possível entrar naquela mata. A partir desse momento, as nossas tropas não mais foram impedidas nas suas iniciativas atacantes.

Nesse dia, à tarde, fomos mandados regressar à Base Logística que passou a ser a nossa “morada” durante o resto da Op Tridente.

Aqui é que se está bem. Não somos “fogachados”, não precisamos de fazer sentinelas nem vigia durante a noite e, ainda melhor, podemos tomar banho no mar.

Era esta a opinião geral. Para o conforto ser completo faltava-nos material para construir barracas que não tínhamos e improvisar camas na areia da praia. Numa das minhas deambulações de reconhecimento do local, encontrei na mata de palmeiras que bordejava a praia, um enorme acampamento abandonado, pelos vistos à pressa, pois estava repleto de inúmeros daqueles panos que usam na Guiné como vestuário. Lavadinhos, a cheirar a sabão e, espanto!...passados a ferro. Tudo muito bem arrumado, chão varrido, dava gosto andar por ali. Nem sequer faltavam galinhas que lá ficaram, nem tiveram tempo de as levar.

Era mesmo o que eu precisava. Trouxe alguns panos para fazer uma barraca e me servirem de vestuário de "turista". A palha da cobertura das casas de mato, que eram muito baixas, serviu às mil maravilhas para improvisar um belo colchão. Alguns trouxeram mesmo catres para dormir. Quanto às galinhas, foram servindo de alimento para quebrar a monotonia das rações de combate. Mas tudo tem o seu preço. Onde há galinhas e areia, há matacanhas que não tardaram a fazer estragos. Poucos de nós se livraram delas e, diariamente, tínhamos que passar revista aos pés e proceder à sua extracção. A média diária era de 8 ou 10.

A Base Logística onde também funcionava o posto de comando, estava ampliada e melhorada. Pousavam lá os aviões ligeiros (Auster e Dornier) bem como helicópteros desde que a maré não estivesse totalmente cheia. A areia molhada formava uma excelente pista de aterragem. Também já lá estavam duas bocas de fogo de obus 8,8cm, comandadas pelo Alf Mil Carvalinho, exímio tocador de guitarra e igualmente exímio tocador de garrafa de cerveja que nunca abandonava.

Uma tarde, depois de almoço, estava eu a descansar um pouco e ouvi um tiro de obus.
Fui ver. O Alf Carvalinho, de calções, tronco nu, indispensável cerveja na mão, alguns passos atrás das peças ia ordenando ao apontador:
- Pá, levanta um bocadinho… não, foi demais, baixa… um pouco para a direita… está bom. Fogo!

E a granada partiu rumo ao seu destino. Salta de lá o Tenente-coronel Cavaleiro:
- Ó Carvalinho, você ainda me mata algum homem, temos tropas na mata.
- Calma meu Tenente coronel, isto vai ter aonde eu quero . - E continuou:
- Eh pá, baixa um pouco… está bom. Fogo! - E foi assim até disparar 4 granadas. Acercando-me dele perguntei:
- Meu alferes, para onde foram esses tiros? - Mostrando-me a carta indicou:
- Para o cruzamento destes caminhos. - E apontou um cruzamento de um caminho com a picada de Cassaca.

Não é que, alguns dias depois, ao passar pelo referido local, lá estavam, muito próximos uns dos outros, os 4 impactos das granadas?!

Uma tarde, interrogavam um prisioneiro na tenda de campanha que servia de posto de comando/sala de operações. Perguntavam-lhe:
- Onde está o Nino?
Era um dos objectivos a que a operação se propunha. A captura do Nino era essencial.
Resposta do prisioneiro:
- Foi no chão francês (Guiné Conacri) buscar morteiro.

Gargalhada de um dos oficiais de alta patente presentes:
- Agora… pode lá ser?!.. Estes gajos alguma vez têm capacidade para manobrar um morteiro?

Ainda não tinha decorrido uma semana e já a CCAV 488 instalada em Cauane estava a levar com eles. Era noite e 4 granadas de morteiro caíram com grande estrondo nas imediações da tabanca. Não houve feridos nem estragos. Vim a saber o motivo alguns dias depois quando, ao passar por lá, me mostraram as granadas. Observei e não foi difícil concluir que se tratava de granadas de instrução ou talvez já muito velhas e com perda do poder explosivo. O corpo das granadas estava simplesmente aberto, mas inteiro, sem ter provocado qualquer fragmentação ou estilhaço. Pareciam bananas descascadas. Ainda bem.

Foram as primeiras “morteiradas” na guerra da Guiné. Ainda durante o resto do tempo que durou a Op Tridente, foram referenciados mais alguns ataques de morteiro, sempre sem consequências para as NT.

A batalha continuava. No dia 28 à meia-noite saímos com o pelotão de paraquedistas em direcção de Cauane para montar emboscadas num poço de água existente na picada Cauane/Cassaca. Passado o ourique de triste memória onde dias antes fora abatido o T6, entramos na mata e nada, nem ao menos um tiro de sentinela a avisar da nossa presença. Progredimos mais e chegados à zona do poço instalámo-nos a aguardar a comparência dos guerrilheiros. Não compareceram para a festa que lhes estava preparada.

Pelas 17 horas de 29 regressámos à base (espera praia, já aí vamos) sem ter havido qualquer contacto nem sinal de actividade do inimigo.

Em 4 de Fevereiro, em mais uma incursão na mata de Cauane, o grupo de comandos ficou emboscado após a retirada das outras forças (CCAV 489). Surpreendemos elementos avançados do IN a quem provocámos 3 feridos. (Não sei se terão morrido mais tarde.)

Boas notícias. Vamos passar a ter uma refeição quente por dia: o almoço. Já não era sem tempo. Como estávamos instalados junto ao 8º Dest de Fuzileiros com quem nos dávamos extraordinariamente bem, tanto no aspecto operacional como no convívio diário, resolvemos também “juntar os trapinhos” na confecção da comida.

À vez, à volta dos caldeiros de campanha, armados em cozinheiros, lá íamos mostrando os nossos dotes. E, acreditem, tudo correu maravilhosamente. E nem sequer faltava marisco para petiscarmos. Quando a maré vazava e não estavamos em operações, era só ir até à linha de baixa-mar onde colhíamos grandes quantidades de combé que por lá abundava. Para quem não conhecer, combé é um bivalve parecido com o berbigão mas muito maior e de casca bastante grossa. Uma delícia. Atendendo à situação, claro.

No dia 6 de Fevereiro, o grupo de comandos com pelotão de paraquedistas, embarcou na LDM (2) ao fim da tarde com destino a Curcô para, a partir desse local atingir Cachida tentando surpreender o In. pela retaguarda. Chegamos a Curcô onde estava instalada a CCAV 489. Aí pernoitámos, aguardando a madrugada para iniciar a progressão.

Talvez o nosso amigo Joaquim Ganhão (3), que lá esteve, se recorde desta nossa passagem.
Madrugada. Antes do dia romper, verificação cuidadosa do armamento, equipamento, munições… os cantis estão cheios? Tudo em ordem?

Partimos, em silêncio como convinha, e embrenhámo-nos na mata. Olhos e ouvidos atentos, mão firme nas armas, prontos a reagir. Tudo vimos com cuidado, explorando indícios e tentando descobrir onde se acoitavam. Trilhos bem pisados pelo uso, mas as poucas palhotas que fomos encontrando estavam abandonadas, algumas recentemente, outras há semanas. Contacto, nenhum. Nem vê-los. De vez em quando soava um tiro isolado, talvez de aviso, e nada mais. Ao fim da manhã atingimos Cachida, que se encontrava abandonada, e derivámos em direcção à picada que liga Cassaca a Cachil.

Desde a manhã que nessa zona da mata de Cachil o 7º Dest de Fuz. estava fixado por um grupo de cerca de 50 guerrilheiros, bem armados e municiados, que os flagelava a partir da orla da mata de Cassaca. Uma secção dos fuz. chegou a estar isolada e cercada cerca de 45 minutos.

Conseguimos chegar ao local e detectamos a retaguarda do In. que atacámos causando-lhes baixas. Como a reacção não foi grande, deduzimos - ingenuamente como em breve viríamos a verificar - que se tinham posto em fuga e iniciámos a travessia de uma zona descampada, lisa como um campo de futebol e de capim muito rasteiro, com o intuito de nos juntarmos aos fuzileiros que nos aguardavam do outro lado. Ainda não íamos a meio quando estalou a fuzilaria vinda de um ponto mais a oeste da orla da mata que acabávamos de deixar.

Chão… rebolar…responder ao fogo… procurar alguma abrigo… não há nada, tudo liso como a careca de um careca. Eles não paravam o fogo, nós também não. Mas estávamos a descoberto, alvos fáceis.

O alferes Godinho gritando para o Saraiva:
- Porra, que estamos aqui a fazer? Vamos embora. - E fomos. Em lanços, uma equipa correndo em zigue-zague, as outras cobrindo, a equipa instala-se, outra se levanta e a ultrapassa, instala-se, outra faz o mesmo e assim conseguimos percorrer os 200 metros daquela maldita clareira, debaixo de cerrado fogo, sem qualquer arranhão, juntando-nos aos fuzileiros.

Quando recordo este episódio, lembro-me sempre do logro em que fiz cair um guerrilheiro e que me salvou a vida. Faltando-me alguns metros para atingir a orla da mata onde teria abrigo seguro, vi no chão os impactos de uma rajada mesmo junto aos meus pés. Bom, esta não é à toa, é mesmo apontada para mim. De imediato, nem sei mesmo como me ocorreu tal estratagema, armei-me em artista de cinema quando atingido por disparos e, abrindo os braços, mandei um salto deixando-me cair de costas desamparado. Remédio santo. A rajada que me era dirigida parou. Fiquei no chão alguns instantes, quietinho, e de repente, ala que se faz tarde. Alcancei a segurança da mata onde já estavam quase todos os elementos do grupo. Os restantes não tardaram a juntar-se a nós.

Os paraquedistas tiveram menos sorte. Como vinham atrás de nós, ao ouvir o tiroteio que nos atingia na clareira, resolveram atravessá-la um pouco mais a leste. O resultado foi terem demorado mais tempo permitindo a reorganização do IN que lhes dificultou seriamente a travessia da clareira. Tiveram um morto e um ferido grave.

Juntas todas as tropas, caminhámos até Cachil, onde estava em construção uma espécie de quartel para uma companhia que lá ficaria instalada, ocupando e patrulhando a ilha, uma vez terminada a Op Tridente. Era uma construção sui generis pois não passava de uma enorme paliçada feita com troncos de palmeira a pique para servir de abrigo. Parecia um cenário de filme de índios contra a cavalaria americana.

No rio esperava-nos uma LDM que nos trouxe de volta à base. Oh praia, lá vamos nós.

A 17 de Fevereiro, o grupo de comandos recebeu a missão de bater a mata desde o Norte de Curcô até Cauane. Confirmando a nossa convicção de que os guerrilheiros do PAIGC estavam a ficar enfraquecidos, não houve oposição à nossa penetração na mata que, até há pouco tempo, tinha sido um santuário que não deixavam profanar.

Apenas a cerca de 1 km a Norte de S. Nicolau se ouviram dois disparos de espingarda - código por eles usado para avisar que andava por ali a tropa e se esconderem. Prosseguimos a nossa patrulha em direcção a Cauane onde, sensivelmente no local do nosso primeiro contacto com o IN nesta operação (quando morreram dois fuzileiros), fomos flagelados com alguns tiros de PPSH (3) e Metralhadora, mais com o propósito de nos manter afastados do que nos enfrentar. Reagindo, abatemos um elemento IN. Alcançamos Cauane e daí a praia da Base Logística.

Estávamos de novo “ em casa”.

 
Dia 23 de Fevereiro novamente embarcados numa LDM com o Pelotão de de Paraquedistas e 8º Destacamento de Fuzileiros, rumo a Curcô onde pernoitámos.

No dia seguinte, com mais um grupo de combate da CCAV 488, iniciámos uma batida à mata. Por duas vezes tivemos contacto com um numeroso grupo de guerrilheiros que dispunham de um morteiro 82 e 1 metralhadora pesada 12,7mm. As NT causaram 7 mortos confirmados, sendo 3 caboverdeanos, armados com pistola-metralhadora, dois deles fardados de caqui. Nesta acção, o Pel Paraquedistas teve 1 morto, 1 ferido grave e 1 ferido ligeiro. Uma rajada de PPSH inutilizou a arma do comandante dos páras, que ficou ferido na cabeça.

Quando me recordo, à distância dos anos, do que aconteceu a seguir, dá-me vontade de rir da cena caricata que devemos ter feito.

Eu conto: tendo nós conseguido sempre levar a melhor nos contactos com o IN, eis que um enorme enxame de abelhas se abateu sobre nós. Toda a gente a sacudir-se, ferroadas de criar bicho, correria desenfreada. Quem diria… pequenos insectos conseguiram aquilo que o IN nunca foi capaz: pôr-nos em fuga. Com o pessoal todo picado, já havia muitos olhos tumefactos, nada poderíamos fazer a não ser o regresso a Curcô. Ganharam as abelhas.

Na orla da mata perto de Curcô, ainda descobrimos uma plataforma construída sobre palafitas, com cerca de 1,80m de altura, e que servia como posto de vigia sobre aquela localidade. Deixámo-la ficar armadilhada. Não sei se a armadilha chegou ou não a ser activada. Hoje, faço votos para que não.

Que bem dormia eu quando, naquela madrugada do dia 27 de Fevereiro, “às 4 da matina” me acordaram:
- Porra… são lá horas de acordar um pacato cidadão embrenhado em sonhos tão deliciosos!...
- Vamos embora! - Mais uma vez a mata espera por nós. E fomos.

Sol já a brilhar, movimentos suspeitos no tarrafe. Avançámos cautelosamente para averiguar. Apenas algumas pegadas de 2 ou 3 pessoas que devem ter fugido com a nossa aproximação.
Nesse dia, juntamente com o Pel Paraq e 1 grupo de combate de elementos das CCCAV 487 e 489 foi destruída a tabanca de Catabão Segundo onde fizemos um prisioneiro e apreendemos 2 binóculos, 1 cantil, 1 espingarda G3 com 4 carregadores, e 3 granadas de mão. Mais uma acção em que o IN não deu sinais de vida.

....

Progressão silenciosa, escondidos, calma, devagar, parar e escutar com frequência. Sem surpresa é impossível um golpe de mão bem sucedido.

Acampamento atingido e assaltado às 9 horas, praticamente sem resistência (o IN fugiu). Era constituído por cerca de 50 casas de mato com uma centena de camas de madeira e de ferro. Viva o luxo!...até havia mosquiteiros, colchões, lençóis, colchas e outras “mordomias”. Espalhados por diversos locais, máquina de escrever, máquinas de costura, roupa já confeccionada e peças de tecido, muitos livros de instrução primária em português, muita correspondência, e os habituais utensílios de uso doméstico. O acampamento estava rodeado por alguns abrigos e tinha postos de observação nas árvores.

Incendiadas as casas de mato começou o habitual estoiro de munições e granadas que ali se encontravam escondidas escapadas à nossa observação.

Nas proximidades estava um cemitério com 30 sepulturas recentes.

Desta acção, realizada no dia 1 de Março, trouxemos para a base (rica praia!): 1 cunhete com 800 cartuchos 7,9; 80 cartuchos 7,62; muitas munições de diversos calibres; 1 granada de mão incendiária; 1 cantil USA; catanas.

Aos poucos, a forte resistência inicial do PAIGC vai caindo por terra. Mostram já sinais evidentes da falta de agressividade, que é parte da doutrina da guerrilha: “ataca quando o IN está fraco; esconde-te se ele é mais forte”.

Mensagem de Nino aos seus guerrilheiros em poder de um prisioneiro por nós capturado:

“Hoje faz 48 dias que os nossos camaradas estão enfrentando corajosamente as forças inimigas. Camaradas, tenham paciência, porque não tenho outra safa senão o vosso auxílio… As tropas estão a aumentar cada vez mais as suas forças…camaradas, não tenho mais nada a dizer-vos, somente posso dizer-vos que de um dia para o outro vamos ficar sem a população e sem os nossos guerrilheiros. Já estamos a contar com as baixas de 23 camaradas… do vosso camarada, Marga - Nino “,

Emboscadas do grupo de comandos na mata de S. Nicolau, na noite de 5 de Março até à tarde do dia seguinte, mais uma vez os guerrilheiros não compareceram.

Um agrupamento constituído pelo grupo de comandos, 8º Dest. Fuz, e um grupo de combate da CCAV 489, iniciaram, por volta das 8 da manhã de 12 de Março, uma acção sobre Catunco Papel e Catunco Balanta a fim de cercar e bater todas a zona destruindo tudo quanto possa constituir abrigo ou abastecimento para o IN e que não seja possível recuperar pelas NT.

Cercada a tabanca de Catundo Papel e de seguida Catunco Balanta, foram as casas revistadas e destruídas, tarefa que demorou quase 5 horas. Foram recuperadas 5 toneladas de arroz; capturado um elemento IN e apreendidas 2 granadas de mão, livros escolares em português, cadernos, fotografias, facturas, recibos de imposto indígena, e um envelope endereçado a BIAQUE DEHETHÉ, sendo remetente MUSSA SAMBU de Conakry.

...

Às 03H30 do dia 16 de Março, chegados a Curcô, aguardamos a aurora pondo-nos a caminho com a CCAV 489 (-). A missão era bater a mata até Cassca e daí virar a Sul até Cauane, eliminando ou aprisionando qualquer elemento IN e detectar e destruir tudo quanto possa oferecer abrigo ou recursos para o IN. Resistência ?...mais uma vez, nada.

Foi encontrado um acampamento com 15 casas de mato. Uma delas bem grande que nos pareceu ser destinada a reuniões onde estava um molho de panfletos de acção psicológica das NT, recentemente lançados na ilha pelos nossos aviões. Numa outra barraca, um caderno de cópias de INÁCIO BATALÉ, datado de 12 de Novembro de 1963. Nas imediações foram descobertos e destruídos 3 depósitos de arroz, estimando-se serem cerca de 15 toneladas.

Progredindo para Sul, dentro da mata da região de Cauane, e a cerca de 600 metros da tabanca, detectou-se um grupo de 7 elementos armados de espingarda e de pistola-metralhadora. Fogo…pum. Dois tiros chegaram e caiu um. Mais dois tiros e caiu outro armado de PPSH e de farda camuflada. Mais um tiro e outro ferido que fugiu aos gritos.

Os sobrantes puseram-se em fuga. O inimigo não parecia o mesmo das primeiras semanas da batalha do Como. Estava de facto enfraquecido e fugia ao contacto.

Com a operação a chegar ao fim previsto, o Comandante das Forças Terrestres, Ten Cor Cavaleiro, saiu com o grupo de comandos e o pelotão de paraquedistas às 23H30 do dia 20 de Março, atravessando a mata de Cauane, Cassaca e Cachil com a finalidade de verificar pessoalmente a capacidade de combate do IN.

Passagem e pequena paragem na tabanca de Cauane, troca de informações com o comandante da CCAV 488, dono da casa, e iniciámos a penetração na mata à 1 hora do dia 21, partindo da casa Brandão. Reacção do IN?...nenhuma. Progredimos até Cassaca que foi alcançada às 02H30. Feita uma batida cuidadosa à região, encontraram-se a Norte algumas casas de mato quase destruídas e há muito abandonadas.

Siga a tropa. Para a frente é que é o caminho. Já próximo da orla da mata de Cachil, ao “romper da bela aurora”, detectados 3 elementos IN um armado de PPSH e os outros dois de espingarda. Meia dúzia de tiros foram suficientes para fugirem. Um deles, ferido, deixou para trás a espingarda Mauser 7,9mm e 5 cartuchos da mesma. Tinha sangue na coronha.
Mais tarde, outro grupo de 5 elementos, avistados um pouco à distância, foram alvejados e fugiram sem responder ao nosso fogo. Levaram dois feridos.

Atingimos Cachil, na outra extremidade da ilha, que foi atravessada pacificamente de Sul para Norte sem qualquer beliscadura nem qualquer oposição à nossa presença por parte dos guerrilheiros.

Embarcados na LDM, lá fomos nós de regresso à praia. Foi a última operação da batalha do Como.

Por brincadeira dizíamos que tínhamos ido “fechar as portas da guerra”.
Foram também os últimos banhos.

No dia 22 de Março, o grupo de comandos regressou a Bissau, aproveitando a boleia da Dornier e alguns hélis que em diversas vagas nos transportaram. O Grupo de Comandos não teve baixas, nem feridos, nem nenhum elemento evacuado por doença, fazendo juz ao nosso lema: “Audaces fortuna juvat” (2)

Para as restantes tropas foram mais dois dias de trabalho a “desmontar o arraial.” Creio que foi o que menos lhes custou.
BAIXAS DE AMBOS OS LADOS
Das NT:
8 Mortos
15 Feridos
Do IN:
76 Mortos (confirmados)
29 Feridos
9 Prisioneiros
CONCLUSÕES

De tudo quanto descrevi, e que corresponde à realidade por mim vivida durante a Operação Tridente, podemos verificar que nem sempre, ou quase nunca, a história é escrita com isenção. Na verdade, tem-se especulado muito sobre o que realmente se passou no Como. Derrota para as tropas portuguesas, dizem uns, grande vitória, contrapõem outros.

Para mim, nem uma coisa nem outra, porque na guerra, em qualquer guerra, não há vencedores: todos são vencidos pela existência da própria guerra.

Porém, analisando a Operação Tridente no âmbito estritamente militar, facilmente se chega à conclusão que:

- O PAIGC dominava a Ilha do Como em 1963;

- Nas primeiras duas semanas opôs feroz resistência às NT, a quem causou baixas, não
permitindo a nossa progressão pela mata onde estava fortemente instalado;

- Graças à nossa persistência no combate, favorecida pela superioridade de meios que
na altura ainda tínhamos, fomos aos poucos dominando a situação;

- A partir da 3ª semana já conseguíamos entrar e progredir na mata;

- Sensivelmente na 5ª semana, já nos movimentávamos facilmente por toda a ilha e os
guerrilheiros opunham esporádica e fraca resistência;

- Começou a notar-se, a partir da 7ª semana, uma completa desagregação da
capacidade de combate dos guerrilheiros: basta ler a mensagem do Nino dirigida ao
seu pessoal e transcrita nesta crónica;

- No final da operação o PAIGC já não dominava a ilha;

A teoria defendida por alguns, sobretudo pelo PAIGC (mas essa não é de admirar) que as tropas portuguesas se viram forçadas a abandonar a ilha, não é verdadeira:

1) As tropas retiraram por ter terminado a operação e não se justificar a sua continuação uma vez alcançado o objectivo: o domínio da ilha pelas NT;

2) A ilha não foi abandonada pois ficou instalada em Cachil (na tal “fortaleza” de troncos de palmeira) uma companhia para patrulhar e não deixar que o IN se reorganizasse naquela região;

3) Se mais tarde se veio a verificar o recrudescer da actividade no local, isso deve-se ao facto de a Companhia que lá ficou se ter refugiado na “fortaleza”, nunca de lá saindo a não ser para ir para Catió quando era substituída por outra (Mas isso, é outra história);

..." (5)




Operação Tridente - testemunho de Alpoim Calvão

Alpoim Calvão e o seu grupo de combate (4)

"O meu destacamento entrou na mata para fazer reconhecimento. Tínhamos desembarcado a 14 de Janeiro e esta operação foi a 19. Levei duas secções cerca de 25 homens. Andámos entre 100 a 150 metros e tivemos um choque frontal com uma força inimiga que calculei num numero de 60 a 70 homens. Foi um combate que durou 2 horas e meia. Foi um embate muito forte que me custou dois mortos e cinco feridos - cheguei a estar a dez metros de distância do inimigo. Tentei fazer um movimento de envolvimento pela direita, mas faltava-me massa de manobra. Pedi um reforço e enviaram-me um grupo de comandos - cerca de 20 homens - comandado por um extraordinário oficial, alferes Maurício Saraiva, e assim já pude fazer a manobra de envolvimento. Certo é que acabaram por retirar. Comigo estava o chefe de Estado-Maior da Defesa Marítima da Guiné, um capitão-tenente já com uma certa idade, Costa Santos. Era raro os altos comandos participarem nas operações, mas alguns iam, como era o caso deste.

Verificaram-se actos de extrema bravura, por exemplo quando um dos meus homens, o Botelho, foi abatido, e o cadáver, que era um trofeu apreciável. Do meu lado, houve gente - o Abranches Pinto, o sargento André - que, debaixo de fogo, foi buscar o corpo.

O destacamento de fuzileiros comandado por Alpoim Calvão, o DF8, participa em 25 combates. Os militares portugueses, na totalidade, sofrem várias baixas - nove mortos e 47 feridos. Um avião T-6 foi abatido, tendo o piloto morrido carbonizado. As doenças foram um segundo inimigo, obrigando à evacuação de cerca de 200 homens. Do lado do PAIGC, as baixas foram muito pesadas: 76 mortos confirmados, 15 feridos e nove prisioneiros. No entanto, devido aos bombardeamentos, o número de baixas deve ter sido maior.
...

Transcrição da carta de Nino Vieira, interceptada pelas forças militares portuguesas

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