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sexta-feira, 18 de abril de 2014

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL- 28ª PARTE - RELATOS NA 1ª PESSOA - MEMÓRIAS DE UM EMBONDEIRO -

ATENÇÃO CLIK NAS IMAGENS PARA AMPLIAR AS POSSIVEIS
Colaboração do veterano LC123278

Manuel Cardona, ex-alferes miliciano, fez parte dos dois primeiros batalhões de caçadores especiais [BCE261 e BCE262] a intervir na Guerra Colonial de Angola. O companheirismo e espírito de aventura vividos durante 28 meses em África...
... fazem-no recordar, de uma forma saudosa, os momentos inesquecíveis que lá viveu. Após a conclusão do curso de Direito, o advogado vila-realense ingressou, em Setembro de 1960, no Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra [EPI], que concluiu em Janeiro de 1961. Posteriormente passou pelo Regimento de Infantaria 13, em Vila Real, seguindo-se a cidade de Lamego, onde frequentou o primeiro Curso do Centro de Instrução de Operações Especiais [CIOE]. Já em Chaves [BC10], deu instrução militar aos soldados que o iriam acompanhar na Guerra em Angola, que se iniciara em Fevereiro [isto é, em Março] de 1961. "Os meus pais e a criada ficaram receosos por eu ir para a guerra", recordou, nostalgicamente, o ex-combatente.
Fazendo parte da Companhia de Caçadores Especiais nº 272 (CCE 272), embarcou em Lisboa, a 12 de Agosto de 1961, no navio Vera Cruz, rumo a Luanda. Aí chegou nove dias depois, e encontrou "uma capital desorganizada, onde se acumulavam pessoas de raça branca e negra". Contudo, acrescentou que "foi inesquecível e emocionante o desfile na avenida Marginal, onde fomos aclamados por muitos milhares de portugueses, de todas as raças e cores". O seu batalhão [BCE262], a 30 de Agosto, foi destacado para [o Negaje, com a missão de] fazer vigilância na Zona de Intervenção Norte (ZIN) de Angola, uma região de extrema perigosidade.
"Fomos rumo ao desconhecido e enfrentámos muitas adversidades", acentuou. "Desde o início apercebemo-nos da desorganização que se vivia, da falta de aviação, que por sua vez, fazia com que não fossemos abastecidos correctamente", lamentou. Porém admitiu que tinham algum apoio logístico, a nível alimentar, mas apenas quando se encontravam junto das viaturas. Quando tal não acontecia, a sua alimentação era baseada em ração de combate, que consistia em duas latas, de atum e de sardinha, e num pacote de bolachas de água e sal, "já com bolor".
Houve alturas que era tal a escassez de mantimentos, que a CCE 272 passou a alimentar-se, exclusivamente, de mandioca crua, o que os apelidou de "A da MANDIOCA". "Mandioca" passou a ser o grito de guerra desta companhia, aquando de posteriores operações e entradas em combate. Destacou que "naquela altura vivíamos o dia-a-dia sem pensar no perigo, mas também estávamos convencidos da nossa auto-suficiência, porque íamos bem treinados e com a sensação de que estávamos a cumprir um dever".
A "defesa dos portugueses e a protecção das ex-colónias", que tanto o motivava, valeu-lhe noites ao relento em que dormiu no chão ou no jipe, obstáculos que enfrentou nos "caminhos horríveis" por que passou, entre outras contrariedades. O ex-alferes miliciano confessou que em muitos momentos a sorte foi sua aliada. "O jipe onde eu seguia foi atingido por vários projécteis, ficando um deles cravado a escassos dois centímetros na dura protecção em madeira que os soldados colocaram por justificada cautela". Recordou, com entusiasmo, o seu primeiro ataque.
Manuel Cardona garantiu que trouxe o pedaço de madeira onde se encontra alojado o projéctil que, por pouco, não o atingiu, e ainda hoje o guarda consigo. Frisou também outro golpe de sorte, ficando, desta feita, a dever a vida a um isqueiro Zippo. Durante uma operação nos arredores de Vale do Loge, no domingo de Páscoa de 1962 [22Abr62], uma bala ficou cravada no isqueiro que levava sempre consigo no bolso superior esquerdo do camuflado. Em tom de brincadeira, gracejou que "as pessoas costumam dizer que fumar mata, mas, no meu caso, fumar cachimbo salvou-me a vida".
Outra das dificuldades destacadas pelo ex-militar prende-se com o facto de ter estado 75 dias seguidos isolado, com o seu pelotão, em operações na mata. Admitiu que "Luanda sabia disto e estava garantido que nos iam pôr em zona de descanso". "Mas isso nunca aconteceu, porque não havia tropas suficientes para nos substituir", desabafou ainda. Manuel Cardona admitiu que nem tudo foi negativo nesta missão de 28 meses na ZIN.. Salientou uma "acção que teve tanto de emocionante como de perigoso".
Tratou-se de uma intervenção em Negage [Mar-Mai62], em que a "Mandioca", juntamente com o líder local, Angelino Alberto [bacongo ex-líder do N'Tobako], estabeleceu contactos de paz com os refugiados nas matas. "Foi comovedor ver milhares de homens, mulheres e crianças saírem, esfarrapados, esfomeados e estropiados das matas onde estavam há longos meses, aplaudindo-nos calorosamente", recordou com um sorriso no rosto. O ex-militar aludiu para os efeitos positivos desta acção, afirmando que "a calma e segurança reinou naquela zona após o sucedido, e aquele povo conseguiu dissuadir os outros, para que não nos fizessem mal".
Outro momento marcante que o jurista transmontano faz questão de recordar é a descoberta que fez de um marco geodésico em Maquela do Zombo [Mai-Jul62]. Enquanto fazia patrulha com os seus soldados na fronteira com a República do Congo, descobriu essa raridade datada de 1891, lá colocada por Gago Coutinho. "Tinha de um lado as armas da monarquia portuguesa e o escudo, do outro lado tinha as armas da monarquia belga", descreveu deste modo a sua descoberta.
Depois de isolados nas matas do norte de Angola durante 28 meses sem interrupções, a CCE 272 viveu muitas adversidades, lidando diariamente com o perigo de ciladas e emboscadas. O ex-alferes recorda de forma penosa a perda de muitos camaradas e amigos. "Tinha sempre pena e receio, mas tinha de continuar para a frente. Para trás é que não podíamos voltar", recordou saudosamente. Aquando da notícia de que "A da Mandioca" iria regressar à terra natal houve um sentimento de incredibilidade, "por acabar a peluda, ou seja, a passagem à disponibilidade", afirmou Manuel Cardona. A partida do continente africano deu-se (...)
[coteje-se o depoimento prestado pelo veterano Manuel Cardona, ex-alferes miliciano da CCE272, para o trabalho jornalístico supra reproduzido, com "A Minha Guerra" de Norberto Melo - ex-furriel miliciano do ECav108, contemporâneo do precedente (tanto em local [sector do Negaje] como em preciso período [30Ago61-Mai62] -, publicada no magazine dominical do CM em 29Mar2009].
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A notícia: "Guerra Colonial: Relatos na 1.ª pessoa "A da Mandioca"

de Diana Pimentel e Carla Flores
Manuel Cardona, ex-alferes miliciano, fez parte dos dois primeiros batalhões de caçadores especiais a intervir na Guerra Colonial de Angola. O companheirismo e espírito de aventura vividos durante 28 meses em África...
... fazem-no recordar, de uma forma saudosa, os momentos inesquecíveis que lá viveu. Após a conclusão do curso de Direito, o advogado vila-realense ingressou, em Setembro de 1960, no Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, que concluiu em Janeiro de 1961. Posteriormente passou pelo Regimento de Infantaria 13, em Vila Real, seguindo-se a cidade de Lamego, onde frequentou o primeiro Curso do Centro de Instrução de Operações Especiais. Já em Chaves, deu instrução militar aos soldados que o iriam acompanhar na Guerra em Angola, que se iniciara em Fevereiro de 1961. “Os meus pais e a criada ficaram receosos por eu ir para a guerra”, recordou, nostalgicamente, o ex-combatente.

Fazendo parte da Companhia de Caçadores Especiais nº 272 (CCE 272), embarcou em Lisboa, a 12 de Agosto de 1961, no navio Vera Cruz, rumo a Luanda. Aí chegou nove dias depois, e encontrou “uma capital desorganizada, onde se acumulavam pessoas de raça branca e negra”. Contudo, acrescentou que “foi inesquecível e emocionante o desfile na avenida Marginal, onde fomos aclamados por muitos milhares de portugueses, de todas as raças e cores”. O seu batalhão, a 30 de Agosto, foi destacado para fazer vigilância na Zona de Intervenção Norte (ZIN) de Angola, uma região de extrema perigosidade.

“Fomos rumo ao desconhecido e enfrentámos muitas adversidades”, acentuou. “Desde o início apercebemo-nos da desorganização que se vivia, da falta de aviação, que por sua vez, fazia com que não fossemos abastecidos correctamente”, lamentou. Porém admitiu que tinham algum apoio logístico, a nível alimentar, mas apenas quando se encontravam junto das viaturas. Quando tal não acontecia, a sua alimentação era baseada em ração de combate, que consistia em duas latas, de atum e de sardinha, e num pacote de bolachas de água e sal, “já com bolor”.

Houve alturas que era tal a escassez de mantimentos, que a CCE 272 passou a alimentar-se, exclusivamente, de mandioca crua, o que os apelidou de “A da MANDIOCA”. “Mandioca” passou a ser o grito de guerra desta companhia, aquando de posteriores operações e entradas em combate. Destacou que “naquela altura vivíamos o dia-a-dia sem pensar no perigo, mas também estávamos convencidos da nossa auto-suficiência, porque íamos bem treinados e com a sensação de que estávamos a cumprir um dever”.

A “defesa dos portugueses e a protecção das ex-colónias”, que tanto o motivava, valeu-lhe noites ao relento em que dormiu no chão ou no jipe, obstáculos que enfrentou nos “caminhos horríveis” por que passou, entre outras contrariedades. O ex-alferes miliciano confessou que em muitos momentos a sorte foi sua aliada. “O jipe onde eu seguia foi atingido por vários projécteis, ficando um deles cravado a escassos dois centímetros na dura protecção em madeira que os soldados colocaram por justificada cautela”. Recordou, com entusiasmo, o seu primeiro ataque.

Manuel Cardona garantiu que trouxe o pedaço de madeira onde se encontra alojado o projéctil que, por pouco, não o atingiu, e ainda hoje o guarda consigo. Frisou também outro golpe de sorte, ficando, desta feita, a dever a vida a um isqueiro Zippo. Durante uma operação nos arredores de Vale do Loge, no domingo de Páscoa de 1962, uma bala ficou cravada no isqueiro que levava sempre consigo no bolso superior esquerdo do camuflado. Em tom de brincadeira, gracejou que “as pessoas costumam dizer que fumar mata, mas, no meu caso, fumar cachimbo salvou-me a vida”.

Outra das dificuldades destacadas pelo ex-militar prende-se com o facto de ter estado 75 dias seguidos isolado, com o seu pelotão, em operações na mata. Admitiu que “Luanda sabia disto e estava garantido que nos iam pôr em zona de descanso”. “Mas isso nunca aconteceu, porque não havia tropas suficientes para nos substituir”, desabafou ainda. Manuel Cardona admitiu que nem tudo foi negativo nesta missão de 28 meses na ZIN. Salientou uma “acção que teve tanto de emocionante como de perigoso”.

Tratou-se de uma intervenção em Negage, em que a “Mandioca”, juntamente com o líder local, Angelino Alberto, estabeleceu contactos de paz com os refugiados nas matas. “Foi comovedor ver milhares de homens, mulheres e crianças saírem, esfarrapados, esfomeados e estropiados das matas onde estavam há longos meses, aplaudindo-nos calorosamente”, recordou com um sorriso no rosto. O ex-militar aludiu para os efeitos positivos desta acção, afirmando que “a calma e segurança reinou naquela zona após o sucedido, e aquele povo conseguiu dissuadir os outros, para que não nos fizessem mal”.

Outro momento marcante que o jurista transmontano faz questão de recordar é a descoberta que fez de um marco geodésico em Maquela do Zombo. Enquanto fazia patrulha com os seus soldados na fronteira com a República do Congo, descobriu essa raridade datada de 1891, lá colocada por Gago Coutinho. “Tinha de um lado as armas da monarquia portuguesa e o escudo, do outro lado tinha as armas da monarquia belga”, descreveu deste modo a sua descoberta.

Depois de isolados nas matas do norte de Angola durante 28 meses sem interrupções, a CCE 272 viveu muitas adversidades, lidando diariamente com o perigo de ciladas e emboscadas. O ex-alferes recorda de forma penosa a perda de muitos camaradas e amigos. “Tinha sempre pena e receio, mas tinha de continuar para a frente. Para trás é que não podíamos voltar”, recordou saudosamente. Aquando da notícia de que “A da Mandioca” iria regressar à terra natal houve um sentimento de incredibilidade, “por acabar a peluda, ou seja, a passagem à disponibilidade”, afirmou Manuel Cardona. A partida do continente africano deu-se (...)


Diana Pimentel e Carla Flores
ultramar.terraweb.biz


  • Memórias de um embondeiro e outras histórias 

  • (EXTRACTOS)



  • O colonialismo português foi o rosto do país – pelintra e atrasado. No que respeita a Moçambique, no séc. XIX e início do XX, tirando períodos em que surgiram homens de visão, competência e coragem – como Andrade Corvo, Mouzinho de Albuquerque, Capelo, Ivens ou Gago Coutinho, os portugueses ficaram-se na orla marítima, traficaram escravos (mesmo depois do abolicionismo), venderam trabalhadores para as minas de ouro do Transval, como mercadoria para contrabalançar as contas da Colónia e dedicavam-se ao pequeno comércio. Edificaram cidades, é certo, e abriram caminhos-de-ferro para os portos do Índico para escoamento dos minérios, sobretudo da Rodésia, mas o atraso relativamente aos territórios vizinhos era grande.
    Moçambique, economicamente, dava prejuízo (!). Se os Descobrimentos e a rota marítima para a Índia corresponderam ao acto supremo da Nação, o que veio a seguir foi muitas vezes lastimável. Ironicamente, se a afronta sentida pelos portugueses perante a cedência de D. Carlos ao Ultimatum inglês foi um dos factores que contribuíram para a ascensão dos Republicanos e o Regicídio, quando Portugal participou na I Guerra Mundial , visando, sobretudo, a defesa das colónias, a mortandade nas tropas, abandonadas e mal preparadas, não só na Flandres como em Moçambique, levou ao assassínio do Presidente Sidónio Pais.
    Depois da I Guerra, houve tímidas políticas de descentralização e de alfabetização dos nativos. Acreditava-se na reedição de novos Brasis. Porém, o Acto Colonial promulgado nos anos 30 vem definir um novo estatuto legal dos territórios e acabar com veleidades descentralizadoras. Portugal assumia-se como potência colonial. Desfasado, portanto.
    Salazar foi surdo aos ventos do nacionalismo africano, mesmo aos tumultos da Independência do ex-Congo belga. Os colonos brancos tinham a protecção dos Administradores e Chefes de Posto, os quais distribuíam palmatoadas e vergastadas com o “chamboco” (cavalo marinho) aos prevaricadores. Os “assimilados” não ganhavam o mesmo que os brancos, mesmo que executassem as mesmas funções…
    O massacre dos brancos em Angola desperta o país. Depois, é conhecida a evolução dos acontecimentos. Perante as críticas da ONU, o Governo defende-se na retórica de Portugal “do Minho a Timor”. A percentagem de negros a falar, mesmo um português rudimentar, nos anos 60 em Moçambique, era reduzida e estava limitada às cidades. Nas escolas ensinavam-se as serras e os rios de Portugal e ignorava-se a geografia local. Em Moçambique começa a guerra. O regime apodrece. Não raras vezes são os militares a garantir alguma justiça social.
    A tibieza de Marcelo deixou que a situação militar chegasse ao colapso. Foram, depois, as independências ad hoc, o trágico regresso dos colonos, muitos já lá nascidos. Quer dizer que, enquanto as outras potências coloniais, exploravam e tinham lucro com as colónias, no caso de Moçambique passava-se o oposto. Quando as outras potências se preparavam para a autodeterminação e independência dos seus territórios, Portugal promulgava o Acto Colonial. Quando eclodiram os nacionalismos africanos,  Moçambique era a “África Oriental Portuguesa”…Sempre atrasados na História.
    XXX
    Passou já tempo suficiente para falar abertamente de questões graves que nunca foram esclarecidas e – pior, sem que tenha sido feito qualquer esforço sério nesse sentido: o que aconteceu em Omar e Nangade, dos piores “buracos” de Cabo Delgado, antes do acordo de Lusaka, em 1974? É verdade que em Omar a Companhia se entregou e confraternizou com o inimigo mais de um mês antes das negociações (mesmo que houvesse instruções para preparar o cessar-fogo)? E que, em Nangade, a Companhia depôs as armas, quase uma semana antes do acordo firmado? Se é verdade, como é possível não ter julgado os respectivos comandantes?
    Foram actos vergonhosos, indignos dum exército regular. Honrar a memória dos soldados mortos e não trair os milhares que ficaram estropiados, é o mínimo que se deveria exigir.
    Os americanos, por muitos erros que cometam, sempre honraram a memória dos seus soldados. Portugal envergonha-se. Não há que ter vergonha, nem há que pedir desculpa, como agora se usa. A guerra (sobretudo, a sua continuação sem perspectivas) foi um erro trágico. Mas, de qualquer modo, se militares portugueses se comportaram em Omar desse modo, desonraram a memória de todos os que foram sacrificados.
    FM
    Talvez por este embondeiro tenham passado os alemães que, em 1917 por duas vezes, atravessaram o Rovuma e chegaram a controlar todo o planalto dos macondes; ignora-se se foi testemunha do apoio que os ajauas deram quase sempre aos alemães que prometiam isentá-los do “imposto”; se o General Lettow-Vorbeck e outros oficiais alemães,  que fizeram gato-sapato das forças portuguesas e dos cipaios arregimentados, ali descansaram. O comandante Roxo esteve aqui de certeza, pois foram várias as vezes em que o ponto de partida para acções de contra-guerrilha era o Unango, onde se encontra o nosso embondeiro; ou se o mesmo possa ter acontecido com Orlando Cristina, secretário do Eng. Jorge Jardim, e que por aqui andou a caçar elefantes e, mais tarde, em acções militares na fronteira com o Malawi. Alguns embondeiros terão vários milhares de anos de idade, mas como a sua madeira não produz anéis de crescimento, isso é impossível de ser verificado. Mas, é verdade que mostraremos fotografias com um intervalo de 40 anos. Que histórias poderia este embondeiro contar? As suas folhas na sua caducidade, não nos ajudam.
    Alguns dados históricos: a Companhia do Niassa foi formada por alvará régio de 1880, com poderes para administrar as províncias de Cabo Delgado e Niassa, desde o rio Rovuma ao rio Lúrio e do Oceano Índico ao Lago Niassa, numa extensão  de mais de 160 mil Km2. Como os portugueses não tivessem capacidade financeira, venderam a concessão a um consórcio de capitais franceses e britânicos. Uma vez que o território não tinha ainda sido ocupado militarmente por Portugal, em 1897 a Companhia projectou uma expedição contra o Chefe Mataca do Niassa, mas abandonou a iniciativa por prever uma grande resistência daquele chefe.
    Tenente Valadim, foi um herói das campanhas militares africanas que os portugueses desenvolveram nos finais do século XIX. Em 1884 embarcou para Moçambique, onde participou em várias acções militares contra os régulos insurgidos contra Portugal. Numa dessas campanhas, já em 1890, acabou decapitado e esquartejado pelo régulo Mataca. Esta zona, que tinha o seu nome, em 1972, albergava a sede de um batalhão e as suas instalações eram modelares. Estava numa zona “pacificada” e nem abrigos capazes havia. Mas foi alvo de um ataque…
    Pressionado para promover a ocupação de tão grandes territórios, o Governo cria as Companhias Majestáticas com administração própria, que são quase Estados dentro da Colónia. É o caso da Companhia do Niassa e da Companhia de Moçambique. Outras regiões foram atribuídas em regime de arrendamento como foi o caso da Sena Sugar Estates, a Companhia do Luabo, a Companhia da Zambézia ou a Boror.
    Mas duas décadas antes da constituição da Companhia do Niassa, aquele território serviu para recrutamento de escravos, os quais eram embarcados em pangaios e enviados sobretudo para Madagáscar e Zamzibar. A pressão inglesa contra as práticas esclavagistas encontrou forte resistência nos negreiros, sobretudo árabes. Atribui-se a morte do Tenente Valadim a intrigas destes traficantes, que receavam que o seu comércio secular de escravos fosse ameaçado pelos portugueses
    A Conferência de Berlim realizada em 1884-85 estabeleceu as regras de ocupação de África pelas potências coloniais e dele resultou que essas potências, mesmo com territórios que historicamente lhes pertencessem, tinham de os ter ocupado, efectivamente. Em 1891, a Inglaterra reivindicou a posse dos territórios situados entre Angola e Moçambique (o chamado «Mapa Cor-de-Rosa»). Como Portugal não aceitasse, o governo inglês apresentou um ultimatum, o qual fez ceder o Governo. A indignação dos portugueses foi grande. E, no entanto, Portugal era um país com uma economia quase na bancarrota. Moçambique dava prejuízo. A maior parte do comércio fazia-se com Marselha e depois com os Alemães e Ingleses, mas não com Portugal. A única actividade próspera era o comércio de escravos. O país que fizera os descobrimentos marítimos tinha uma marinha ridícula, onde os navios a vapor eram minoritários. Para as transacções comerciais Portugal recorria a navios estrangeiros.
    Em 1899, com o apoio dum pequeno exército fornecido pela administração colonial, formado por 300 soldados portugueses e 2800 “cipaios” (indígenas recrutados noutras regiões de Moçambique), a Companhia assegurou uma posição militar em Metarica. Em 1900 e 1902, tomou Messumba e Metangula, nas margens do Lago Niassa. Nessa altura, o consórcio dissolveu-se, alegadamente por desisteresse económico. Vemos, assim, que só nos primeiros anos do séc XX passou a existir alguma força militar portuguesa.
    A ocupação de todo este território, nomeadamente do planalto de Mueda, só pode ser considerada após a abertura duma picada entre Mocímboa do Rovuma e Porto Amélia (actual Pemba), e depois de vários acções militares contra os macondes. Em 1929 extingue-se a Companhia do Niassa e a administração passa para o governo da colónia. Durante a Guerra Colonial Mueda foi uma zona de guerra séria, onde no final os portugueses tinham perdido a iniciativa militar, alguns aquartelamentos tinham sido evacuados e defrontavam um inimigo com melhor armamento.
    Desde o séc. XIX que grandes contingentes de negros foram trabalhar para fora de Moçambique. Ou ficavam e tinham de fazer prova que não eram ociosos (apresentar um “contrato”, pagar o “imposto” que ficava averbado na “caderneta”) ou iam trabalhar para as minas de ouro do Transval (isto para as populações do sul), Mas, sobretudo, na Zambézia, duma forma mais ou menos às claras, o esclavagismo continuou nos Prazos da Coroa. Ao contrário de Angola, Moçambique era fortemente influenciado pelo Oriente e pelos muçulmanos. Para o negro moçambicano, até na altura da guerra colonial, tão estrangeiro era o português como o “monhé”. Em 1964, a população branca representaria 1,4% do total. As principais etnias são a macua implantada principalmente no distrito de Moçambique, a Ajaua (Niassa) e Maconde (Cabo Delgado). No Unango, que fica ao Norte da antiga Vila Cabral, no sopé da serra Jessi (na foto), está o embondeiro da nossa história.
    Lago Niassa
    Foto da foz do Zambeze, tirada nos anos de 1950. Na Costa do Indico, os portugueses só na região da Zambézia se aventuraram para o interior, na mira de ouro e prata, que nunca chegaram a encontrar. Surgiram, assim já no séc. XVIII vastas zonas, ao longo do rio Zambeze, da pertença, não poucas vezes, de brancos sem escrúpulos que possuíam autênticos haréns, hordas de filhos e exércitos próprios de escravos. A sua descendência ia-se, portanto, africanizando. A Coroa promulgou os “Prazos”, que estabeleciam a outorga desses territórios por um prazo de 3 gerações , sendo a sucessão obrigatoriamente pela linha feminina e as herdeiras obrigadas a casar com portugueses brancos.
    A Conferência de Berlim serviu para o arranque de um novo espírito colonial, que fez submeter régulos, percorrer o interior de África, fazer o levantamento cartográfico, intensificar o comércio, desenvolver a agricultura, delimitar as fronteiras. Antonio Enes e Mouzinho de Albuquerque foram os expoentes do novo colonialismo. O rio Zambeze passou a ser navegado (muitas décadas depois, ainda se via esta velha canhoneira que percorria o rio desde o Chinde até Tete). A Sena Sugar Estates comerciava açúcar; outras explorações foram implantadas: chá, algodão, tabaco (mais para norte). Entretanto, a República é implantada. Inicia-se a I Grande Guerra, em que Portugal intervém. São mobilizadas para Moçambique forças importantes e razoavelmente equipadas. Porém, a falta de cuidados sanitários e de saúde e a malária desbaratam o exército. Os alemães em número reduzido, mas utilizando tácticas de guerrilha, aniquilam a força expedicionária desmoralizada. Morreram mais homens neste conflito do que na Guerra Colonial entre 1964-74.
    O massacre de Mueda, em 1960 foi o rastilho para a luta armada. Eis o relato de um sobrevivente (Alberto Joaquim Chipande): “…alguns desses homens [dirigentes] tinham entrado em contacto com as autoridades e pedido liberdade e melhor salário… Tempos depois, quando o povo começava a apoiar estes chefes, os portugueses mandaram a Polícia às aldeias, convidando as pessoas para uma reunião em Mueda. Vários milhares de pessoas vieram ouvir o que os portugueses iriam dizer. Enquanto isso decorria, o administrador pedia ao governador da província de Cabo Delgado que viesse a Porto Amélia e trouxesse uma companhia de soldados. Mas estes esconderam-se quando chegaram a Mueda. De princípio não os vimos. Então o governador convidou os nossos chefes a entrar no gabinete do administrador. Eu esperei de fora. Estiveram lá durante quatro horas. Quando surgiram da varanda, o governador perguntou à multidão se alguém queria falar. Muitos quiseram fazê-lo e o governador mandou que todos passassem para o mesmo lado. ..
    …”Então, sem mais palavras ordenou à Polícia que amarrasse as mãos de todos os que tinham sido separados e a Polícia começou a espancá-los. Eu estava perto. Vi tudo. Quando o povo viu o que estava a acontecer manifestou-se contra os portugueses e os portugueses ordenaram pura e simplesmente aos carros da Polícia que avançassem e reunissem os presos. Isso desencadeou mais manifestações. Nesta ocasião a tropas estavam ainda escondidas e o povo correu para a Polícia para impedir que os presos fossem levados. Então o governador chamou as tropas e quando apareceram mandou abrir fogo. Foram mortas mais de 600 pessoas.” Mesmo que este número seja exagerado, estes factos ocorreram, como igualmente aconteceu na Baixa do Cassange, em Angola
    Em 1964 ocorre a primeira acção da Frelimo contra a povoação de Chai, isto depois duma discussão interna, donde resultou a eleição de Eduardo Monlane, como seu Presidente. Era o início da Guerra Colonial em Moçambique. A seguir, começaram acções de guerrilha também no Niassa. Segundo os seus dirigentes, a Frelimo pretenderia estender a sua acção a vários outros distritos, mas não tinha meios logísticos, pelo que a acção militar se confinou a Cabo Delgado e Niassa. Do lado português, o dispositivo militar era insuficiente. Havia que reforçar as tropas.
    Mina anti-carro. Calcula-se que metade dos mortos e feridos graves portugueses tenham sido causadas pelo accionamento destas minas e de anti-pessoais
    Além do número de baixas humanas que causavam, originavam ainda importantes destruições de material e um forte impacto psicológico. A quase ausência de estradas alcatroadas em Cabo Delgado, Niassa e Tete facilitavam a sua utilização. Os portugueses também as colocaram com o objectivo de tentar impedir a infiltração de guerrilheiros pela fronteira
    Durante a Guerra Colonial procurou-se agrupar os nativos junto dos estabelecimentos militares, como forma de os poder controlar. Não raro eles faziam jogo duplo. Como parte da estratégia de conquistar as populações eram prestados cuidados médicos e sanitários
    Daniel Roxo, transmontano de nascimento, foi uma figura mítica da contra-guerrilha sobretudo na zona do Niassa. Antigo caçador-profissional, conhecia o mato como os nativos. Falava quase todos os dialectos e fazia pactos de sangue com os régulos. Com o início da guerra e, juntamente com um grupo de 30 homens da sua confiança (ex-guerrilheiros), obtêm resultados surpreendentes, desde captura de material ao inimigo, à destruição de bases e número de guerrilheiros abatidos. Com o colapso militar português alista-se nas forças especiais sul-africanas, combate os cubanos no sul de Angola e acaba vítima de uma emboscada. Uma vez perguntaram-lhe como tinha sido a passagem de caçador profissional para a de combatente. Terá respondido: é apenas uma questão de mira. Sem ser militar, obteve 2 Cruzes de Guerra e a Cruz de Honra do Exército Sul-africano


    Mas voltamos ao nosso embondeiro. De muitos dos acontecimentos relatados, ele não foi testemunha, mas devem ter-lhe chegado ecos. Seguramente, terá visto manadas de elefantes e caçadores que os abatiam para vender marfim. No final da década de 1960, não havia já elefantes e terá servido paradécors dos militares portugueses, ali estacionados, como se eles estivessem em Paris com a torre Eiffel em fundo. Mas, como se de um batuque longínquo se tratasse e o sol estivesse a desaparecer, pintando o céu daqueles tons vermelhos que só em África existe, chegavam-lhe os murmúrios de um tempo novo, talvez mudança. De novo, os portugueses, agora numerosos e os ajauas acantonados na povoação ao lado do quartel. A comunicação exigia um intérprete. Mas eles diziam spoon para designar uma colher e um ou outro vocábulo adulterado do alemão. De origem portuguesa raras palavras e de aprendizagem recente.

    As acções de guerrilha consistiam em emboscadas, flagelações, morteiradas sobre os quarteis e colocação de minas nos itinerários. À medida que o tempo passava essas acções recrudesciam. O Niassa em 1968 foi baptizado como o Estado de Minas Gerais. A progressão dos soldados era lenta. Certos trechos dos caminhos eram “picados” minuciosamente, por meio de uma vara, que procurava detectar qualquer engenho metálico. Com o tempo algumas picadas deixaram de ser utilizadas pelas viaturas militares. Os reabastecimentos de géneros frescos faziam-se por via aérea E quando se tinha de organizar uma coluna-auto a progressão era penosa e, não raras vezes, quando havia uma rendição, os “checas” (novatos) chegavam ao seu destino já com várias baixas. Isto aconteceu sobretudo em Cabo Delgado, onde, p ex. a distancia entre Mocímboa da Praia e Mueda (120Km) levava 10 dias



    Dos vários Comandantes-Chefe, aquele que porventura mais marcou a guerra em Moçambique terá sido o Gen. Kaúlza de Arriaga (K). Conotado com a linha mais à direita do regime, foi nomeado por Marcello Caetano. Inicialmente procurou agrupar as populações junto dos aquartelamentos. A estas só restavam duas soluções: ou aceitarem vir para os novos aldeamentos ou refugiar-se na Tanzânia. Estes aldeamentos eram protegidos por arame farpado e dispunham de uma milícia a quem foram distribuídas armas, embora obsoletas. Porém, em Cabo Delgado as populações estavam do lado da Frelimo
    K vangloriou-se de ter defendido Cabora Bassa com 100% de êxito, mas a verdade é que à Frelimo não interessava destruir uma infra-estrutura que lhe poderia ser útil no futuro.
    K, a par da intensa acção psico-social defendia acções que eliminassem as chamadas “áreas libertadas”, como foi o caso da Operação “Nó-Górdio”, através de operações de grande envergadura com o máximo de forças disponíveis. Visava também a segurança e defesa de locais de importância estratégica, como era Cabora-Bassa e a construção de aldeamentos junto das unidades militares.

    A acção psicológica que a doutrina de K defendia tinha em conta o apoio médico-sanitário às populações acantonadas nos aldeamentos (por vezes em condições de quase indigência, como se vê na foto, um exemplo) até à propaganda massiva que era feita pela distribuição de panfletos, convidando à rendição e apresentação às unidades do exército

    Quanto à Operação Nó Górdio, que envolveu os maiores meios militares jamais vistos em Moçambique (forças do Exército, Marinha e Força Aérea), conseguiu atingir e destruir as chamadas bases Gungunhana, Moçambique e Nampula, mas os guerrilheiros já lá não estavam… Para a sua efectivação reuniram-se artilharia e auto-metralhadoras; transferiram-se depósitos de munições, combustíveis e víveres para o Norte; prolongou-se a pista de Mueda, de modo a nela poderem operar aviões Fiat G-91, e a de Nangololo, para receber Nord-Atlas de transporte; deslocaram-se tropas do sul para reforçar o dispositivo. A montanha, aliás o planalto, tinha parido um rato. A guerra de guerrilha não se ganha com operações de envergadura como esta.

    28 mortos e 27 feridos graves foi quanto custou em vidas a aventura militar de K. Este dissera que ia acabar com a Frelimo, mas os resultados desmentiram-no. K desdobrava-se em declarações, fazia a sua propaganda pessoal. A Frelimo, entretanto, vivia uma nova fase com a chegada de Samora ao poder, depois do assassinato de Mondlane. E a guerra aumentou, sobretudo no distrito de Tete
    Aproximação a Mueda de um Alouette III. “Em M., a chegada das colunas com as companhias que regressavam de operações era sempre um acontecimento, toda a tropa se juntava e gritavam uns pelos outros como a dizerem que estavam vivos. Em M. só os macondes que viviam no aldeamento não partilhavam desta excitação, continuando a fazer a sua vida como se aquele movimento não lhes dissesse respeito, as mulheres iam à água carregando à cabeça as latas que haviam sido de óleo para os motores, os filhos escanchados nos quadris ou atados às costas com um pano, os homens desinteressados à porta das palhotas…A festa que todos faziam nestas ocasiões era o pretexto para quebrar a monotonia de cada dia à espera de que a comissão acabasse ou que viesse a ordem de transferência para o sul.” (in Nó Cego de Carlos Vale Ferraz)
    Era nos sulcos escavados na picada, por onde as rodas seguiam como num carril, que os picadores procuravam as minas. Quando as encontravam, rebentavam-nas colocando-lhes por cima um petardo de trotil, a partir daí as viaturas desviavam-se e abriam novos regos para passarem ao lado dos buracos abertos com as explosões, nasciam novos trilhos de que tinham de se desviar quando surgiam novas minas e voltavam ao caminho inicial passando pela antiga cratera, entretanto disfarçada com a terra caída das beiras esboroadas; e assim sucessivamente até se irem aplainando e esquecendo não só os buracos, mas os que neles tinham morrido, ou ficado aleijados, até aparecerem novas minas e novos feridos” (in Nó Cego de Carlos Vale Ferraz)
    Vale de Miteda “Quando metade da Companhia de comandos se encontrava a atravessar o vale com o passo acelerado, quase a correr, ouviram-se estampidos secos de rolhas a saltarem de garrafas de champanhe vindos da encosta em frente…-Saída de morteirada, capitão! Avisou o Evaristo, enquanto se atirava sem cerimónia para o chão. Deitar! – Uma, duas, três, quatro, cinco. Vêm pelo menos cinco no ar – anotou o Alferes Lourenço em voz alta…Ouvia-se já o zumbido assobiado da primeira granada. Caiu com o estrondo da trovoada seca, outra mais perto…-Os gajos estão a acertar – constatou o furriel, o que era evidente…Outros estampidos, saídas de granada…As granadas caíam agora mais perto dos homens e os estilhaços zuniam por cima dos ouvidos, fazendo-os abrir a boca…-Há feridos, meu capitão, ouvi gritar lá atrás!” (in Nó Cego de Carlos Vale Ferraz)
    As “áreas libertadas” eram zonas não controladas pela administração civil ou militar portuguesas. Nelas, a Frelimo tinha pequenas “machambas” (plantações), onde se cultivava mandioca, milho, etc. pelas populações que lhe era afecta e onde os guerrilheiros se reabasteciam. Havia doutrinação política, esboço de escolas onde se ensinava o português. Se o exército português tomava a iniciativa de destruir essas “machambas”, muitas vezes à custa de baixas e importante destruição de material, podia fazer alguns prisioneiros, habitualmente velhos, e queimar as palhotas ou matar gado que lá se encontrasse. Mas quando os soldados retiravam, as machambas apareciam noutros locais. Sobrevoando o Niassa em 1972, havia zonas de floresta onde aqui e ali apareciam cubatas.
    Com o evoluir da guerra, porém, havia cada vez mais “áreas libertadas”. Embora alvo de ataques das forças portuguesas que queimavam as palhotas e detruiam alimentos e matavam animais, as palhotas surgiam noutros locais. Como o próprio K referiu, o dispositivo militar era insuficiente para conter a guerrilha e a sua progressão para Sul e para a região de Tete, onde se iniciavam as obras da enorme barragem de Cabora-Bassa. Porém, a “metrópole” não tinha capacidade para mobilizar mais europeus. Assim, foram-se criando grupos especiais (GE), além da inclusão de negros nas Compahias de Caçadores


    No edifício sinistro do hospital civil, idêntico a uma pensão de província moribunda de paredes empoladas por furúnculos de humidade, os doentes de paludismo estremeciam de febre nos degraus da entrada, no corredor, na sala de consulta, cubículo destinado às injecções, à espera das ampoias de quinino na tranquilidade imemorial dos negros, para quem o tempo, a distância e a vida possuem uma profundeza e um significado impossíveis de explicar a quem nasceu entrer túmulos de infantas e despertadores de folha, aguilhoado por datas de batalhas, mosteiros e relógios de ponto. Diante da secretária, espessa como um bunker, à qual instalava a minha ciência de manual, a miséria e a fome desfilavam e a única resposta que a minha impotência me permitia eram pastilhas de vitaminas da tropa adoçadas por um sorriso de desculpa e de vergonha. Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE, tiranizados por Cipaios…”…
    a mesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da Mocidade Potuguesa, do Novidades e do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada Família que nos visitava a domicílio numa redoma de vidro, empurrado para aquele espanto de pólvora numa imensa surpresa: são os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia, a jogar as damas com o capitão idoso saído de sargento que cheirava a menopausa de escriturário resignado e sofria do azedume crónico da colite, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam de um mundo que a lonjura tomou estrangeiro e irreal, os calendários que risco de cruzes a contar os dias que me separam do regresso e apenas achando à minha frente um túnel infindável de meses, um escuro túnel de meses onde me precipito mugindo, boi ferido que não entende, que não entende, que não logra entender e acaba por enterrar o triste focinho molhado nos ossos de frango com esparguete do rancho, do mesmo modo, percebe, que aqui, na sua companhia, me sinto cavalo de narinas enfiadas na alcofa de vodka, mastigando o feno azedo do limão.” (in Os Cus de Judas/A. Lobo Antunes)
     “Eu sou carvão!/E tu arrancas-me brutalmente do chão E fazes-me tua mina/Patrão!//Eu sou carvão!/E tu acendes-me, patrão/Para te servir eternamente como força motriz mas eternamente não/Patrão!//Eu sou carvão!/E tenho que arder, sim/E queimar tudo com a força da minha combustão.//Eu sou carvão! Tenho que arder na exploração/ Arder até às cinzas da maldição/ Arder vivo como alcatrão, meu Irmão/ Até não ser mais tua mina/Patrão//Eu sou carvão!/Tenho que arder/E queimar tudo com o fogo da minha combustão./sim!/ Eu serei o teu carvão/ Patrão!” (José Craveirinha)
    E de novo, o embondeiro, onde defronte funcionava um posto de socorros. “Nesta altura deixara de estar colocado numa Companhia e passara a deslocar-me a várias, entre as quais aquela a que pertenci no início.” conta este médico. “Fazia parte da “psico”, sempre que chegava, se o régulo viesse à consulta, atendê-lo em primeiro lugar. Era um velho muito velho de carapinha toda branca. O intérprete, que apenas arranhava umas palavras de português, traduziu-me: “dotô, seu régulo está a dizer que não aguenta fazer máquina (copular)… Era uma situação melindrosa. O régulo tinha várias mulheres e os soldados andavam a invadir-lhe a coutada.”
    “O capitão receava represálias. Lembrei-me dos tratamentos pavlovianos aos bêbados no Banco: injecções de Vitamina C, para se recordarem quanto aquilo doía, se bebessem… Foi o Furriel que lhe deu a injecção (o régulo apenas enrugou a testa). Dias depois parti para regressar passado um mês. De novo o Régulo (e eu que já me esquecera do episódio), desta vez, recusou o intérprete e com um sorriso disse-me: “embôlo já cresce, mas não cospe nada!”. A acção afrodisíaca da Vitamina C!”
    “… Mas põe nas mãos de África o pão que te sobeja/e da fome de Moçambique dar-te-ei os restos da tua gula e verás como também te enche o nada que te restituo dos meus banquetes de sobras.//Que para mim/todo o pão que me dás é tudo /o que tu rejeitas, Europa!” (José Craveirinha)
    A Operação Nó Górdio, ao contrário do que K escreveu mesmo em 1998, foi um fracasso. Quando os portugueses chegavam às “bases”, depois de enormes sacrifícios, elas estavam desertas; as unidades militares criadas junto ao Rovuma no âmbito da Operação Fronteira de modo a evitar a passagem de guerrilheiros vindos da Tanzânia foi outro fiasco, e viriam a ser em pouco tempo um pesadelo para as colunas de reabastecimento. E, entretanto, os guerrilheiros tinham avançado para Tete e antes de 25/4/74 iniciaram acções na região de Manica. Aí, os brancos aperceberam-se de que a guerra não era uma coisa longínqua que os militares não ganhavam porque queriam era “encher-se”… Na Beira há uma manifestação, a messe de oficiais é apedrejada. Costa Gomes (Chefe do Estado-Maior General) acode para serenar os ânimos. Mas pouco havia a fazer…
    A guerra não é uma luta de cavalheiros, ainda mais de guerrilha, quando, de um lado se fazem emboscadas e põem minas que esfacelam as pernas ou matam; e do outro, p.ex. se recolhem informações por meio de torturas bárbaras, como foi feito habitualmente pela PIDE/DGS. Será sempre difícil impedir excessos, mortes injustificadas. Mas, neste caso falamos de massacres. Em 1973, um jornal inglês (Times) fez a denúncia pormenorizada de um massacre ocorrido em Tete, segundo o qual teriam sido mortas 400 pessoas, incluindo mulheres e crianças. Outros massacres semelhantes teriam acontecido em Mocumbura, também em Tete e em Inhaminga. Como se imagina estes factos tiveram grande repercussão internacional. Portugal perdia a face.
    A impossibilidade de mobilizar mais soldados na Metrópole e a crescente exigência de mais efectivos, levou a uma africanização da Guerra. Em Abril de 1974, mais de metade dos soldados eram negros. Jorge Jardim na Beira comandava uma força que dispunha de bastante autonomia em relação ao exército português, até com um Serviço de Informações próprio. Dele se esperava , a iniciativa de uma declaração unilateral de independência. Nos tumultos de Lourenço Marques, já no período de transição, a sua implicação foi suspeitada, mas nunca confirmada.
    Quando se deu a independência, a Frelimo instaurou um regime de partido único. Os dissidentes e adversários políticos foram neutralizados. Como resposta, surgiu a Renamo que reuniu os descontentes do regime, inicialmente apoiada pelo Governo da África do Sul e da Rodésia, de Ian Smith. A sua implantação no centro de Moçambique era grande e iniciou-se a Guerra Civil, que só viria a terminar com o Acordo de Roma celebrado em 1998, pelo qual se estabeleceu um regime pluripartidário e foi extinta a “República Popular”
    É o fatídico mês de Março, estou/no piso superior a contemplar o vazio. /Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon/e olha-me, obliquamente, nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não.//Não voltarei, mas ficarei sempre,/algures em pequenos sinais ilegíveis,/a salvo de todas as futurologias indiscretas,/ preservado apenas na exclusividade da memória/ privada. Não quero lembrar-me de nada,//só me importa esquecer e esquecer/o impossível d esquecer. Nunca/se esquece, tudo se lembra ocultamente./ Desmantela-se a estátua do Almirante, /peça a peça, o quilómetro cem durando//orgulhoso no cimo da palmeira esquiva./Desmembrado, o Almirante dorme no museu,/o sono do bronze na morte obscura das estátuas/ inúteis. Desmantelado, eu sobrevirei/ apenas no precário registo das palavras. “(Rui Knopfli)

    Desde a partida na Rocha de Conde de Óbidos, oficiada pela Polícia Militar e pelas Senhoras do Movimento Nacional Feminino, que a repetição retirara a pompa (não a circunstancia). Para muitos ficaram laços vitalícios. Às vezes para se identificarem pelo telefone, não se tratam pelos nomes. “Daqui fala…o cripto”! “Ou…o cozinheiro!” Claro que houve gente que se portou bem e outra mal. De tudo a memória se encarrega. Passou por Nampula um Major do Estado-Maior que se emboscava para interceptar os militares para ver se estavam bem uniformizados! E de mais alguns oficiais superiores incapazes, que o Gen. Spínola sacudira da Guiné e que apareceram em Moçambique, como se lá fosse a cloaca do Império! (A estes os operacionais grunhiam: vai pró mato malandro!) . K garantira no início do seu comando que ia ganhar a guerra em 4 meses. Viu-se. E, no entanto ainda hoje se lê, escrito por responsáveis militares da época, que em Moçambique a guerra estava ganha ou controlada! Cegueira, estupidez ou pura desonestidade? Ou tudo isto?
    erhos.cadernovirtual.net

ZAIRE: OS “MERCENÁRIOS” CASTRENSES A ACTUAR, CLANDESTINAMENTE, PELOS SEUS GOVERNOS OCIDENTAIS

Os movimentos guerrilheiros independentistas necessitaram e necessitam, para sobreviveram, de “santuários” de retaguarda, que lhes servissem e servem de grandes locais logísticos. 

Os grupos que actuaram em Angola, mais do que em outro antigo território colonial português, sentiram a falta de um estável país limítrofe que os apoiasse sem reservas. 


O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) foi o partido que mais dificuldade teve com os países receptadores.

Angola é um território imenso e a guerrilha fazia esforços hercúleos para levar a luta armada ao seu interior, em especial às zonas mais próximas do litoral, onde praticamente não actuou com armas na mão, mas sim pela acção propagandista clandestina 

(Está registada nos *anais* da própria polícia política portuguesa se quiserem consultar o Arquivo Nacional da Torre do Tombo). 


Atravessar um território imenso, sem uma base de apoio fora do controlo do inimigo, é um cabo dos trabalhos.

Daí, a importância para a potência colonizadora em conseguir manter ou levar ao poder nos países vizinhos um governo que limitasse a acção da guerrilha. 

Portugal, por si só, não conseguia determinar o rumo governativo dos vizinhos, mas, em associação, com outras potências ocidentais, que disputavam os interesses económicos do subsolo e os geo-estratégicos, do Estado raiano, poderia levar a água ao seu moinho. 



Claro, isto sucederia se as conspirações e as intromissões resultassem. 

Foi assim que surgiram os golpes, intrigas e acções militares no antigo Congo Belga.

O general (um sargento do Exército belga, promovido àquele posto no pós independência) Mobutu Sese Seko, que governou o antigo Congo Belga, com mão de ferro e com o apoio do mundo ocidental, esteve para ser afastado do poder, na segunda metade da década de 60, através de uma grande conspiração engendrada pelas mesmas grandes potências que o ampararam, orientaram e mimosearam durante cerca de trinta anos.

Portugal participou, nessa conspiração, como “peão” logístico, interessado em intervir nos negócios do vizinho país, que se chamou  Zaire, hoje República Democrática do Congo, para impedir as movimentações e apoios à guerrilha que actuava em Angola.

Foi precisamente desse então Zaire, que surgiram os principais apoios externos no início dos anos 60 ao despoletar da guerra de guerrilha no norte de Angola, com a vaga de assassinatos de colonos brancos cometidos, em 1961, pela Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), liderada pelo falecido Holden Roberto.

A FNLA tinha um “longo cordão umbilical” ligado a Mobutu, já que Holden Roberto era seu cunhado, e o recrutamento de guerrilheiros se fazia essencialmente na etnia bakongo que se estendia da parte norte angolana até ao Zaire.

Além do mais, aquela Frente era apoiada, forte, mas discretamente, no início, pelos Estados Unidos da América, que procuravam disputar a supremacia da descolonização em Angola à então União Soviética que veio a dar, após uma hesitação inicial, o seu apoio ao concorrencial Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

O antigo Congo Belga teve, em 1960, uma separação atribuladíssima da sua potência metropolitana europeia, a Bélgica, que foi forçada a dar-lhe a independência, mas quis mantê-lo na sua esfera de influência.

Logo após a independência, em 1960, as duas superpotências da altura, os Estados Unidos e a ex-União Soviética, procuraram ganhar-lhes os favores. 

Pela região, movimentavam-se outras potências europeias e ainda a República Popular da China. 

O subsolo era o principal motivo de cobiça: diamantes, urânio, cobre, ferro, ouro, fizeram desse país um tremendo palco de disputa, que o ensanguentaram,  praticamente,  até aos dias de hoje. Tal como na altura, havia e há, claro, interesses geo-estratégicos na região.

Joseph-Desiré Mobutu, que, mais tarde, num processo que chamou de “zairização” do país, mudou de nome, apelidando-se Mobutu Sese Seko Kuku Ngendu wa Zabanga, ascendeu ao poder nos interstícios da disputa inicial pós-independência, quando se aliou aos Estados Unidos, através do responsável da CIA no país Larry Devlin. 

O próprio país veio a chamar-se Zaire.

Começou como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, cujo chefe do executivo era Patrice Lumumba, (pertenciam ao mesmo grupo Movimento Nacional Congolês) que estava em guerra aberta com Joseph Kasavubu, então de Chefe de Estado. 


Quando Mobutu pensava que o vencedor ser Lumumba...

Este queria manter-se na órbita da sua potência colonial e dos interesses das grandes companhias mineiras que operavam no país, Lumumba pretendia separar-se da asfixia neo-colonial e, para apoiar a sua estratégia política, socorreu-se da antiga União Soviética e …da própria ONU.

Kasavubu demite, a 14 de Junho de 1960, Lumumba do cargo de primeiro-ministro com o apoio de Mobutu, que, como coronel, estava a organizar as Forças Armadas do país, traindo o seu mentor.




O primeiro-ministro Lumumba foi preso e assassinado com a cumplicidade directa do homem que se formou em informação e jornalismo no interior do Exército colonial belga. 

Numa viagem ao Congo, nesse tempo, o secretário-geral da ONU Dag Hammarsagold, que não era um incondicional do domínio norte-americano, morre num estranho e nunca esclarecido acidente de aviação quando sobrevoava o território.

Em Novembro de 1960, Mobutu, com o Exército, impõe um governo de tecnocratas a Kasavubu e assume o lugar de comandante-chefe das Forças Armadas. 


As mesmas Forças Armadas que o colocam no poder em Novembro de 1965.
            
Nos princípios de 1966, o novo homem forte do Congo Belga navegava nas águas da incerteza. 


Como pragmático criado no seio da política colonial, queria espaço de manobra interna e externa. 

Começou, na altura, a preocupar os seus aliados ocidentais, que espalharam pelo país milhares de “mercenários”, liderados por oficiais das tropas especiais, sob a cobertura de “assessores de segurança”.

Recomeçaram, desse modo, as intrigas internacionais. 

Estavam em jogo fontes essenciais de matérias-primas.

É então que se forja uma grande conspiração. 

O regime português de António Salazar foi o seu “pivô”, na segunda metade de 1966, com o propósito declarado de derrubar o governo do general Mobutu Sese Seko e colocar no poder na República do Zaire (ex-Congo Belga) o antigo Presidente da secessionista província do Catanga e ex-PM Moisés Tschombé.

A preparação dessa operação secreta está documentada em relatórios detalhadíssimos da polícia política portuguesa.

Recebendo ordens do chefe de governo, o então director da PIDE major Silva Pais interveio pessoalmente. 

Muito antes da data prevista para a tentativa de golpe de Estado.

Duas mensagens, com a chancela de secreto, dirigidas a “Interpol” (o responsável em Moçambique), em Lourenço Marques, com a recomendação de “cifrar o texto” e “seguidamente remeter” ao posto de rádio para expedição, tem a assinatura de Silva Pais.

Na primeira, com data de 19 de Julho de 1966 e a horas precisa, 17:30, Silva Pais dá directivas ao seu subordinado: 

“Por combinação entre Rodésia, Tschombé e esta direcção deve realizar-se (em) breve (na) nossa polícia (em) Lisboa (uma) importante reunião para (a) qual (é) indispensável  a comparência de um delegado categorizado da polícia da África do Sul. Rodésia já deve ter contactado sobre assunto  com a Africa do Sul , devendo V.Exa contactar com urgência general van de Bergh sobre se ele ou um seu delegado pode vir de imediato aqui visto delegados de Tschombé poderem aqui estar a qualquer momento. Responder urgente”.

Às 19:20 de 27 de Julho de 1966, Silva Pais quer respostas de Lourenço Marques.

“A situação actual  no Congo propicia o golpe projectado de Tschombé  sobre o Katanga para ocupar o poder em Leopoldville. Espero notícias da Rodésia sobre se viria a reunião aqui um elemento categorizado da Rodésia, devendo V.Exa contactar a Rodésia e a África do Sul  sobre se ambos poderiam enviar aqui com urgência delegados com poder para assentar plano exequível. Esta em Lisboa delegado de Tshombé, encontrando-se este em Madrid.”.

“Interpol” de Lourenço Marques responde nesse mesmo dia: “Representante da Rodésia seguirá amanhã, dia 30, no voo da África dói Sul, devendo chegar a essa cidade, na madrugada de domingo. A África do Sul lamenta não poder de momento enviar um delegado categorizado”. 




No planeamento do golpe de Estado contra Mobutu, Lisboa e a colónia de Angola seriam locais estratégicos de passagem e de logística para o pessoal e para o armamento. 

Estavam envolvidos “mercenários” militares belgas, franceses, norte-americanos, espanhóis, sul-africanos e rodesianos, e ainda algumas grandes empresas multinacionais, como a Union Minière.

Um relatório operacional detalhado da direcção da PIDE, com data de Dezembro de 1966, elaborado dias antes do programado golpe de Estado, que não chegou a ser levado às últimas consequências, referenciava, com pormenor, as forças em presença, as suas ligações aos governos, os dispositivos militares, sublinhando, como conclusão, que o êxito da missão só seria conseguido se fosse “mantido completo segredo”. 

Tudo descrito sem a menor preocupação de que viesse a ser tornado público. 

A polícia política de Salazar estava crente de que as suas acções nunca seriam conhecidas. Por isso, a passagem ao papel e à escrita não traria problemas.

Na sua conclusão, o relatório lançava ainda um alerta, que de resto se torna uma curiosidade: os conspiradores não queriam que “a espionagem inglesa” soubesse do que se estava a planear, pois aquela de imediato “informaria o governo inglês, o que os colocaria em situação gravíssima”. 

Como não existe uma explicação no documento para este alerta, não se sabe a razão porque a Inglaterra estava, aparentemente, a leste do “complô”.

Um outro documento, este dos planeadores do golpe de Estado - escrito à mão, em francês - justifica a movimentação (“A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO É INDISPENSÁVEL SOB O PONTO DE VISTA INTERNACIONAL”) e a escolha de Moisés Kapenda Tshombé, antigo governador do Catanga, para liderar o poder saído do novo poder.

Com o assassinato de Lumumba, nas lutas de poder interno, Tschombé, foi Primeiro-Ministro e governador da rica província do Catanga, que pretendia ganhar espaço na cena política congolesa, veio a declarar, alguns anos depois, unilateralmente, a sua cessação.

Kasavubu conseguiu, mais tarde, afastar o antigo governador do Catanga da província em Outubro de 1965, seguindo aquele para o exílio em Espanha.

Depois de ascender ao poder, Mobutu pretendeu adquirir uma faceta de homem independente, mantendo no seu governo personalidades de algum recorte nacionalista.

Quis também manter, inicialmente, uma certa equidistância face aos seus antigos aliados europeus, reformulou algumas alianças internas e procurou apoios entre alguns governos nacionalistas africanos, nomeadamente a Tanzânia.

É nesta conjuntura que começa a equacionar-se um “complô” internacional pró-ocidental. 

Tschombé foi o escolhido, pelos países ocidentais, para ser a “cabeça” de um novo governo congolês saído do golpe de Estado. 

Convém não esquecer que o Catanga era o território dos diamantes, que se prolongava, na parte colonial portuguesa, nas Lundas.





“Um vasto plano de subversão da África está em acção desde há vários anos. O Congo é mais particularmente a vítima desta acção em virtude da sua vulnerabilidade própria e pelas vantagens que a sua situação geográfica proporciona ao prosseguimento da acção subversiva nos países situados mais a sul”, assim começa o manuscrito justificativo programático do golpe de Estado que consta de três partes.

Além da sua indispensabilidade do ponto de vista internacional, os autores sustentavam que “A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO DEVE FAZER-SE POR ELISABETHVILLE (hoje Lumumbashi) e que “A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO DEVE FAZER-SE SEM DEMORA”.




Para o sucesso desse golpe, Moisés Tschombé e os seus apoiantes contavam, essencialmente, com a participação de “mercenários brancos” presentes, normalmente como seguranças “em todo o Congo”, ao serviço dos seus país de origem.

O documento especifica-os, referencia-os e situa-os:

“Os belgas, 350 homens, comandados pelo general Delperdange, receberam ordem do governo belga para não intervirem, entretanto o comandante belga de Elisabethville (hoje Lumumbashi), coronel Marchand, envia periodicamente a Tschombé relatórios do que se está a passar.

“Os franceses, comandados pelo comandante coronel Bob Denard, 200 homens, entraram em contacto com Tschombé por intermédio dos Serviços Secretos Franceses da Presidência do Conselho, mais precisamente, por intermédio de Monsieur Foccard e asseguraram antecipadamente a sua colaboração.

“Os sul-africanos e rodesianos, 300 homens, comandados pelo coronel John Peeters,  asseguraram  a sua colaboração por intermédio de Max Dumas, dos Serviços Secretos da Rodésia.

“Os espanhóis, 60 homens, são fiéis a Tschombé.

“A CIA (Central Inteligence Agency), que controla a Wigmo (Aviação de Combate Táctica do Congo), aviões B-26 e T-28, assegurou a Tschombé que se manteria neutra”.

Os conspiradores, que rodeavam e assessoravam Moisés Tschombé, consideravam, no documento programático citado, que era “impossível organizar um golpe de Estado em Leopoldville (hoje Kinshasa). Uma acção em Leopoldville, nas circunstâncias presentes, exigiria a utilização de forças numericamente importantes, sem possibilidades do efeito de surpresa e provocaria uma verdadeira guerra civil”.

Depois, candidamente, consideravam que o movimento alastraria por todo o pais, onde viviam etnias rivais, fazendo “ruir o poder de Mobutu, criando um conflito de lealdade e libertando todas as forças da oposição”. 

Leopoldoville, somente, seria alcançado depois da revolta alastrar.

Argumentavam os homens de Tshombé que, na ocasião, “o regime de Mobutu depende sempre mais do dispositivo interior organizado pelas influências de Leste e dos apoios exteriores provenientes das mesmas fontes” e enfatizavam: “é indispensável impedir o Congo, com Mobutu, de cair completamente sob a dependência da subversão”.

Para a efectivação logística do golpe, de acordo com o relatório da PIDE, estavam accionados os seguintes dispositivos:

“a) Dispositivo para aterragem no Katanga:
      
Em colaboração com a Union Miniere e aterragem num aeroporto do território dos Lundas, tribo de Tshombé, devidamente escolhido.

 b) Dispositivo na Europa:
     
100 homens em Lisboa e um avião Super.Constellation.
      
Na Bélgica: 1 avião DC7
      
Na Rodésia: 1 avião DC4 e 1 avião Heron bem como todos os fardamentos.
      
Em Luanda: As armas necessárias.

Os aviões e respectivos pilotos que vão aterrar no Katanga são unicamente rodesianos.

Todo o dispositivo está devidamente sincronizado para entrar em funcionamento 48 horas após recebermos a respectiva autorização.”

A “Execução” está assim enquadrada e sintetizada no documento da PIDE:

a) O DC7 estacionado na Bélgica  voa para Lisboa, toma 100 homens e segue para um aeroporto a indicar em Angola.

b) O Super-Constallation estacionado em Lisboa voa para as Canárias, toma o Presidente Tshombé e segue para o mesmo aeroporto dos 100 homens.

c) O DCe e o Heron estacionados na Rodésia voam para o mesmo aeroporto, transportando os uniformes, e se necessário o DC4 pode ir buscar as armas a Luanda.

d) Deste aeroporto parte o DC4 com 60 homens, o DC7 com os restantes 40 homens e restantes armas e o Heron com o Presidente Tshombé.

e) Aterra primeiramente o DC4 com os 60 homens, depois de instalados este 60 homens, aterra o DC7 e finalmente o Heron com o Presidente.”

O relatório da polícia política referia um pormenor, como “conclusão”, de manutenção do carácter encoberto da operação: retirá-la o mais possível dos olhos do Mundo.

E assim recomenda: “Em Angola apenas se pretende uma escala técnica de duas horas”.

A mesma recomendação do governo “branco” da Rodésia: “Não podem oferecer o seu próprio território – assinalava o relator policial – porque a espionagem inglesa imediatamente informaria o governo inglês, o que os colocaria em situação gravíssima. Tal não se dará no respeitante a movimento de aviões porque esse movimento é habitual e diário”.

Entre a documentação da PIDE existente na Torres do Tombo encontra-se uma mensagem cifrada, enviada de Luanda para Lisboa, a alertar que havia “fuga informações que se relaciona rádio”, nada mais explicando, e com um recado de confidencialidade: “segue carta avião hoje”.


Não parece que a fuga de informações reportada tivesse levado a abortar a operação, mas sim o facto de Mobutu ter conseguido espaço de manobra interno, endurecendo o regime e, acima de tudo, retomar uma aproximação aos países ocidentais, de quem se tornou um dos aliados mais firmes durante quase 40 anos até ser afastado do poder por Laurent-Desiré Kabilla, pai do actual chefe de Estado Joseph Kabilla.