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terça-feira, 15 de abril de 2014

A Voz Laboral - ATENÇÃO TRABALHADORES ACORDEM ! O REALITY SHOW DE TODOS OS DIAS Podia ser anedota, mas é a pura realidade…

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL 25º EPISÓDIO - OPERAÇÕES ENCOBERTAS - RELATOS - EXTRACTOS DO LIVRO DA ARA (OPERAÇÃO DO CUNENE) - FOTOS CHOCANTES

OPERAÇÕES ENCOBERTAS NA GUERRA COLONIAL


GUERRA COLONIAL: OPERAÇÕES ENCOBERTAS (5)



AMÍLCAR CABRAL: INFORMADORES DA PIDE “EFECTIVAMENTE IMPLICADOS”

Alguns dos antigos oficiais e antigos diplomatas que conheceram os meandros da operação Mar Verde, sustentam que, no seu emaranhado, pode estar algo de esclarecedor sobre a conspiração que levou à morte de Amílcar Cabral, fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

Muito se escreveu ao longo dos anos sobre o assassinato do líder do PAIGC Amílcar Cabral, em especial quem teria (m) sido o(s) autor(es) mandantes. 

No actual estado da investigação surgem muitos traços que ainda permanecem incompletos, por vezes mesmo obscuros, não sobre o papel desempenhado directamente pelas autoridades portuguesas, mas sim na sua “pista interna” da guerrilha e seus apoios internacionais, em especial sobre o grau e extensão de cumplicidades que existiram, eventualmente, por um lado, em parte da estrutura dirigente do próprio PAIGC e, por outro, na Chefia de Estado da Guiné-Conacri.
Da parte portuguesa, as certezas são mais consistentes.

Na pesquisa arquivística da época, um facto parece evidente, o Estado português, em Lisboa e na Guiné-Bissau, planeou, por várias vezes, a liquidação física de Amílcar Cabral. 

        Está documentado oficialmente. 































Era política "clandestina" de Estado o assassinato do líder do PAIGC.

Alguns dos conspiradores guineenses que o interpelaram e abateram, posteriormente, em Conacri, em 1973, tinham ligações à polícia portuguesa (eram considerados, oficialmente, como "recuperados", depois de terem sido guerrilheiros). 

Também está largamente referenciado nos arquivos oficiais. 

Esses "recuperados" saíram de Bissau rumo à capital guineense com o conhecimento das autoridades - governador e PIDE/DGS, e, sob a sua supervisão daquela. 

Levavam a missão de conspirar contra sua liderança. 

E a chefia da PIDE em Bissau estava a par disso. 

O governador e comandante-chefe António de Spínola igualmente estava informado. 

Os relatórios policiais consultados indicam, com frequência, que uma cópia dos mesmos seguia para o seu gabinete.

Aliás, o falecido marechal aprovou uma operação encoberta, a Mar Verde, (ver  descrição anterior) em que um dos objectivos era capturar Cabral, vivo...mas principalmente morto.

E o enquadramento dessa operação apresenta similitude com um projecto de um grupo de extrema-direita francesa, o “Redressement Economique”, que, nos primeiros dias de Abril 1969, o apresentou ao governo português, através do Centro Cultural de Portugal e da embaixada de Portugal em Paris.

O projecto, que veio a chamar-se “Operação Chèvre”, visava, na sua fase inicial, precisamente, assassinar, pura e simplesmente, Amílcar Cabral.

Está largamente documentado no Arquivo da Torre do Tombo e começou num encontro mantido entre o então director do Centro de Portugal em Paris José Augusto dos Santos e um senhor E. Michel, que pertencia ao “Redressement Economique” (RE).





Esse grupo, segundo um documento se auto-apresentava como “um dos organismos de expressão do centro de estudo de investigação e de documentação económico”, estava sedeado no 38, Avenida da Opera, em Paris.


Segundo o mesmo documento, colaboravam com o RE “um certo número de personalidades económicas” gaulesas, cujo nome o grupo transmitia a José Augusto dos Santos a “título indicativo”:

- “O senhor presidente Pellenc, relator geral do Orçamento do Senado

- “Senhor Bokanowski, Maurice , antigo ministro (Indústria)

- “Senhor Nungesseur, Roland, antigo ministro, pertencente à maioria

- “Senhor Gardellini, fiscal de Estado, antigo chefe do gabinete do Ministro da Indústria

- “Senhor Jannes, Henri, inspector-geral da Economia

- “Senhor Piette, director do gabinete do Senhor Guy Mollet, secretário-geral da S.F.I.O

- “Senhor Dusseaux, Roger – deputado, antigo ministro dos Transportes”.

No quadro “das relações que unem as nossas organizações Portugal, permitimo-nos fornecer uma informação interessante ao vosso país, e que você poderá transmitir a Lisboa se achar útil”, refere o documento assinado por E.Michel, que assim inicia, na prática, a operação “Chévre”.

Esse início pressupõe que, “por intermédio de um dos meus conselheiros africanos, ser-nos-á, provavelmente, possível entrar em contacto com o senhor Cabral que se encontra hoje mesmo em Dakar”, conselheiro esse que o citado Michel  dizia “conhecer” o líder do PAIGC “há muito tempo”. 

E assim mostravam a sua disponibilidade para assassinar Amílcar Cabral.
Cerca de dois meses depois, aquele grupo dá maior amplitude à sua acção, propondo que se coloque o projecto de aniquilar Cabral num “Quadro Geral” para derrubar Sekou Touré, com a intervenção da FLNG (Frente de Libertação Nacional Guineense).

Neste último aspecto, a sua aposta era a de mobilizar o sector militar daquele partido da oposição guineense, especialmente o “mais honesto do FLNG (Frente de Libertação Nacional Guineense), que, não é senão, o responsável dos militares”. 

Curiosamente, este “responsável” indicado e acarinhado pelo  RE, vai estar implicado na operação Mar Verde
  
A PIDE, o Presidente do Conselho de Ministros e os Ministros dos Negócios Estrangeiros e do Ultramar, entre outros, estavam a par e sancionaram os primeiros passos daquela operação.




O inspector daquela polícia Abílio Pires participou em Paris, em Julho desse ano, em reuniões e estabeleceu contactos para pôr em marcha a operação.

O então director da Casa de Portugal em Paris escrevia, a  17 de Julho de 1969, a Moreira Batista, Secretário de Estado da Informação e Turismo e homem de confiança de Marcelo Caetano, relatando todos os passos das negociações, que, numa primeira fase, passariam por atrair Amílcar Cabral à capital francesa, onde seria abatido.

Nos arquivos da PIDE, depositados na Torre do Tombo, não foi possível encontrar documentos que indicassem que a operação “Chèvre” tivesse progredido, pelo lado francês, após Agosto de 1969.

Surgem depois daquela data, indicações de que se estabeleceram contactos com oposicionistas ao regime de Seku Turé, mas ligando-os à Guiné-Bissau, canalizados pelo Ministério do Ultramar em Lisboa. 

O comandante Calvão descreve-os no seu livro “De Conacri ao MDLP”.

Na preparação da operação à Guiné-Conacri, o nome de um inspector da PIDE Matos Rodrigues, com largo cadastro em “acções clandestinas” nas antigas colónias, aparece associado (uns meses após os contactos exploratórios de Paris, onde a polícia política serviu de intermediária e de veículo privilegiado de recolha de informações) a encontros e reuniões com oposicionistas em ligação com o chefe operacional da “Mar Verde” Alpoim Calvão.





Na Europa, as conversações de Alpoim Calvão e Matos Rodrigues com os responsáveis desta Frente no exílio decorreram, precisamente, em Paris e Genebra, e os interlocutores guineenses parecem ser os mesmos que estão envolvidos no projecto da extrema-direita francesa e na estrutura da mesma Operação.

É também o inspector Matos Rodrigues quem dá, em Agosto de 1969, o seu beneplácito à libertação de vários dirigentes e quadros do PAIGC que se encontravam detidos em Cabo Verde (Tarrafal) e na ilha das Galinhas na Guiné-Bissau.

Analisando a documentação que foi possível consultar, verifica-se que essa libertação está assente num projecto de uma acção concertada, cujo objectivo era a desarticulação do PAIGC.

Dos documentos, retira-se que essa libertação teve um seguimento organizacional e a concordância e controlo estreito da PIDE para que os antigos prisioneiros voltassem a militar no PAIGC e a sua posterior ida para Conacri para se aproximar e infiltrar no seu mais estrito grupo dirigente e particularmente chegar a Amílcar Cabral. 

Voltemos à génese. 



Ao lado, Amílcar com Rafael Barbosa, no início do PAIGC. Na outra fotografia, Cabral, com o primeiro grupo de guerrilha formada na China, onde se encontra Nino Vieira.


É, precisamente, em Agosto de 1969 que o governador António de Spínola encena em Bissau uma cerimónia de libertação mediática de alguns dirigentes do PAIGC, entre os quais o seu antigo Presidente Rafael Barbosa.

A PIDE elabora a lista de prisioneiros a libertar provenientes dos “campos de concentração” do Campo de Chão Bom (Tarrafal), Cabo Verde, Angola e ilha das Galinhas (Guiné-Bissau) 

Entre os libertados, apresentados como "recuperados", estão Mário Mamadu Turé, que foi membro do Comité Central até 1963, altura da sua prisão, e Aristides Barbosa, que, posteriormente, vão “fugir” em conjunto para a capital da então República Democrática da Guiné.

Na cerimónia de libertação, Rafael Barbosa, que fora o primeiro Presidente do PAIGC, preso em 1963 em Bissau, afirmou alto e bom som, dirigindo-se a António de Spínola: 

“Eu lhe prometo que serei tão bom português como Vossa Excelência”, acrescentando: “o futuro o confirmará”.

Ficou sempre em contacto com a PIDE/DGS.

Alguns dos libertados fazem constar junto de amigos e conhecidos que aquilo fora tudo encenação.





A PIDE regista e transmite para Lisboa, em relatórios secretos, o que se está a passar, sem qualquer indício de preocupação ou alerta.

Numa mensagem cifrada, com data de 2 de Agosto de 1969, véspera da cerimónia de libertação, onde discursou Rafael Barbosa, enviada de Bissau para o seu director em Lisboa, Matos Rodrigues dava conta de todos os passos que iam ocorrer no dia seguinte, sublinhando que era uma planeada “acção contra propaganda IN”. 

Apresentava a lista de libertados e sustentava: “todos se afiguram recuperados”, terminando a sua informação com “respeitosos cumprimentos”.

Dos relatórios, retira-se que há controlo, constante, no terreno. 

Os “homens” de Rafael Barbosa e ele próprio “vão prestando contas”.

A integração dos antigos quadros e dirigentes independentistas, na estrutura de Bissau do PAIGC, como Mário Mamadu Turé e Aristides Barbosa, está referenciada. 

Os “movimentos” até ao Senegal e Conacri também. 

A PIDE conhece todos os passos que conduziram ao assassínio de Amílcar Cabral em 1973.

Os relatórios da PIDE, que se encontram no ANTT e que foi possível consultar, fazem um acompanhamento constante da actividade de Rafael Barbosa e de outros “recuperados” sempre a partir da “casa” daquele ou dos que lhe estão próximos.





Assim, a polícia política sabe que “Momo” Turé é o número 1 do PAIGC, na chamada Zona Zero (a zona urbana de Bissau) e que o mesmo Mário Turé, juntamente com alguns militantes e outros controlados pela PIDE, seguira para Conacri a 16/17 de Setembro de 1971.
Em 19 de Junho de 1972, a polícia política dá ênfase num relatório de um informador, que frequenta ou vive na casa de Rafael Barbosa (naturalmente o próprio Barbosa, cifrado para despistar possíveis desconfianças), que existem “sérias divergências no seio do PAIGC” e que “as divergências acentuaram-se a partir da chegada de Momo Turé a Conacri”. 

(A polícia política portuguesa conseguira aliciar, pelo menos, um alto dirigente do PAIGC para seu informador. De seu nome Marcel de Almeida, existem documentos da sua ligação aquela estrutura policial na Torre do Tombo).

A mesma PIDE sabe que um grupo que esteve ligado à Marinha do PAIGC e recebeu instrução na Base de Potche, no Mar Negro, na antiga União Soviética, se constituiu em “fracção” contra Amílcar Cabral.

E cita-os: Inocêncio Kanié, Inácio Soares da Gama,  Julião Lopes, Djaban Mané e Rui Nola, assinalando que após o regresso da Rússia, o grupo entrou em contacto com Momo Turé e outros.





A mesma polícia tem conhecimento que o grupo da Marinha foi disperso por diversas frentes e bases do PAIGC, após haver suspeitas da existência de complô contra o falecido líder do movimento independentista e que alguns estiveram presos em Conacri e foram libertados na véspera do assassinato de Cabral.

João Tomás Cabral, o mais influente na morte de Amílcar, era considerado e referenciado como um informador da polícia portuguesa até pelos próprios pelos dirigentes de topo do PAIGC, mas mesmo assim continuou nas fileiras partidárias.

Luís Cabral, que sucedeu a Amílcar na liderança e foi o primeiro Chefe de Estado da Guiné-Bissau até 1980, ano em que foi afastado pelo general Nino Vieira, argumentou - em declarações ao autor -  que o seu irmão acreditava na recuperação de quadros que estiveram muitos anos ao serviço do PAIGC e que vacilaram em certa ocasião.

Segundo o relato oficial conhecido, tornado público na altura, os conspiradores, que conheciam os movimentos do líder, actuaram a 20 de Janeiro de 1973, abordando o secretário-geral do PAIGC Amílcar Cabral na estrada de Ratoma, Conacri, e pretenderam prendê-lo. 

Perante a resistência do líder, abateram-no. Foi João Tomás que o mandou "liquidar". 

O primeiro alto dirigente daquele partido que apareceu junto do líder assassinado foi o membro do secretariado Osvaldo Vieira, que morreu em finais de 1973. 

Estava em divergências com Cabral e tinha contactos com os conspiradores.

Aqueles dirigiram-se depois ao Palácio Presidencial de Seku Turé, procurando o seu beneplácito, como se soubessem que havia uma "canal" junto daquele que dera autorização para o acto.

Por seu turno, relata a PIDE, na versão de um informador, que aquele lhes respondeu que “era um abuso matar um dirigente no seu país, dando ordens imediatas a um coronel do seu Exército para os mandar deter, e ordenando ainda à Marinha de Boké para interceptar os barcos do “PAIGC” que levavam preso Aristides Pereira (o secretário-geral adjunto), o que aconteceu ao largo de Quitafine”.
Luís Cabral confidenciou ao autor que foram na realidade unidades navais da Marinha Soviética, que estavam estacionadas na Guiné-Conacri, após a operação “Mar Verde” que impediram, a pedido de Seku Turé, os revoltosos de chegar à Guiné-Bissau com Aristides Pereira.

Turé enviou directamente os conspiradores presos para o interior do território.

Não quis ser ele a investigar mais profundamente o sucedido. 

Um acto que o primeiro Presidente do Conselho de Estado da Guiné-Bissau considerou estranho, mas que disse compreender que Turé não quisesse ser, eventualmente, acusado de parcialidade no diferendo.
Luís Cabral referiu que o secretariado do partido - o que restava na altura - (que ficou desarticulado) só soube dessa transferência dos conspiradores e assassinos do seu irmão, depois de eles terem chegado ao interior da Guiné-Bissau.

“Não houve julgamento. Ao chegarem às diferentes frentes foram mortos, alguns barbaramente. Houve muita desorientação naquela altura e alguma quebra da cadeia de comando. Apenas um grupo foi interrogado na Frente onde estava Fidelis Cabral de Almada, que era formado em Direito”, disse, em várias conversas mantidas com o autor, o ex-Presidente da República guineense.

Luís Cabral admitiu que pudessem haver “cumplicidades” no topo do Partido. 

E sugeriu, mesmo, o nome de Osvaldo Vieira. 

“Mas tenho de afirmar: apenas suspeitas, pois nunca existiram provas reais”, fez questão de acrescentar. 

Mas, confirmou que Osvaldo Vieira nunca mais exerceu qualquer cargo no PAIGC até à sua morte.

(Em conversa informal, referiu que a altura era difícil para "aprofundar" todas as implicações, pois o "partido estava dividido e desorientado".)
O antigo Chefe de Estado guineense garantiu que o PAIGC desconhecia que o falecido dirigente daquele partido Marcel de Almeida fosse um informador da polícia política portuguesa. 

“Foi para nós uma completa surpresa. Só soubemos da sua ligação à PIDE depois do 25 de Abril de 1974”, disse.

Nos arquivos, com data de 13 de Junho de 1973, está um relatório da PIDE/DGS da Guiné para os seus superiores, com informações - uma carta - que o responsável local referiu serem de Marcel de Almeida sobre o que se estava a passar no interior da direcção do PAIGC após a morte de Amílcar Cabral.

“A reunião do Conselho Superior de Luta para a escolha do novo secretário-geral do PAIGC estava marcada para o dia 30Abr73, tendo sido adiada para data a designar devido a ARISTIDES MARIA PEREIRA se encontrar ausente em MOSCOVO, onde está a receber tratamento.

“ARISTIDES PEREIRA está quase paralisado dum dos lados devido à forma como foi tratado por ocasião da morte de AMILCAR CABRAL. ARISTIDES PEREIRA já esteve na RDA a receber tratamento, tendo sido transferido, recentemente, para a URSS.

“Os principais autores do *complot* contra AMILCAR CABRAL, após o terem assassinado, dirigiram-se ao palácio de SEKOU TOURÉ, a quem consideravam um grande amigo da facção constituída por terroristas originários da Guiné Port., tendo-o posto ao corrente do acto que tinham acabado de praticar, SEKOU TOURÉ ordenou que fossem presos pelo exército guineense, tendo, em seguida, mandado desarmar todos os terroristas guinéus, ao mesmo tempo que eram presos muitos indivíduos. SEKOU TOURÉ, com receio de represálias contra a sua pessoa, mandou entregar todos os presos ao PAIGC para que fossem julgados de acordo com as leis do partido”. Está escrito no relatório de Almeida.

funeral de Estado em Amílcar Cabral em Conacri

Osvaldo Vieira era o primeiro dirigente negro na hierarquia do PAIGC, que pertencia ao Conselho Superior de Luta.

Luís Cabral desvendou algo mais:

“Sobre Osvaldo Vieira, o secretariado tinha só indícios. Mas ficamos mais alertados quando um dos participantes no assassinato de Amilcar, João Tomás Cabral, ao ser levado para o interior, escreveu uma carta a Osvaldo, que lhe foi retirada, a dizer-lhe que ficava a aguardar instruções. Foi a partir desta carta que começamos a desconfiar, mas profundamente e fizemos algumas conexões”.

Mas, não quis alargar mais o seu pensamento. Nem o que realmente sabia.

/Numa conversa posterior, mais informal, disse uma frase enigmática: "o golpe de 1980 (que o afastou da Chefia do Estado na Guiné-Bissau)teve muito a ver do que então se passava"/.
João Tomás Cabral tinha, portanto, a noção de que não ia para o interior para ser morto. 

Esperava a actuação de Osvaldo, e de quem mais? 

Luís Cabral disse que o inquérito interno nada determinou.

Osvaldo Vieira era parente de Nino Vieira.

"Tivemos muitas cautelas com o Nino, mas ele estava no interior e verificamos que já há bastante tempo não contactava com Osvaldo, nem com os principais autores da morte de Amílcar", frisou.

 Osvaldo foi, no entanto, suspenso de todas as actividades no Congresso do PAIGC que teve lugar após a morte de Cabral e colocado em residência fixa em Kundara, precisou Luís Cabral.

Veio a morrer, posteriormente, depois de ter sido operado.

Luís Cabral frisou que Osvaldo Vieira sofria de cirrose do fígado em estado muito avançada, tendo sido aconselhado pelos médicos a não beber. 

Foi tratado, mas não seguiu as prescrições médicas. 

Quando foi operado, sucumbiu. 

Nino Vieira, então comandante da Frente Leste, acompanhou a evolução da doença, segundo Luís Cabral.

Osvaldo Vieira foi o primeiro comandante da Frente Norte do PAIGC. 

Luís Cabral referiu que Vieira “se degradou como pessoa” e teve de ser afastado desse cargo ainda nos anos 60. 

Manteve-se, no entanto, com funções de relevo, mas entrou em divergências com Amílcar Cabral.

Inocêncio Kanié, um dos assassinos do líder do PAIGC, foi adjunto de Osvaldo Vieira, quando este comandou a Frente Norte do PAIGC.

Luís Cabral admitiu que haviam divergências entre Seku Turé e Amílcar Cabral, sublinhando, inclusive, que o ex-Chefe de Estado guineense “se portou mal no funeral” do seu irmão, chegando a dizer que “ele (Amílcar) tinha perdido a confiança dos seus homens”, mas – ressaltou –  “nada prova que ele tenha sido cúmplice directo na morte”.

“Todas as provas apontam para a Guiné-Bissau. Os homens que levavam Aristides confessaram-no, outros também o fizeram”, frisou. 
        
      A 21 de Março de 1973, o inspector Fragoso Allas, o chefe da delegação da PIDE/DGS, em relatório secreto enviado para os seus superiores em Lisboa, referia que Mário Momo Turé “está efectivamente implicado no assassinato de Amílcar Cabral e possivelmente já foi fuzilado”.
            
      O inspector da PIDE, chefe da delegação em Bissau, escrevia este relatório ainda antes de se conhecer os resultados finais da comissão de inquérito internacional que interrogou 465 pessoas, das quais 43 que estavam ligadas à conspiração, 9 de cumplicidade e 42 apenas suspeitos.
            
      Num outro documento do inspector Allas, com data de 13 de Março de 1973, remetido para Lisboa, intitulado “relatório de interrogatório” (a PIDE disfarçava muito bem os seus informadores) de um “professor do PAIGC”, de nome  Rui João António Nola (o indívíduo acima citado estava metido no complô), natural de Teixeira Pinto, manjaco de etinia, que viera de Conacri, (o responsável policial afirma que se “apresentou em Piche em 281200FEV73), cujo “exemplar nº 7” foi enviado para “QG/COMCHEFE/GUINÉ _ REP INFORMAÇÕES”, descreve-se com pormenor o assassinato. 

       (O que significa que estava perto).

       “O primeiro elemento (João Tomás)  dirigiu-se ao *secretário-geral* dizendo que o vinham prender, pelo facto de não estar a orientar o *partido* convenientemente. AMILCAR CABRAL respondeu que não podia ser preso e que se julgavam má a sua orientação, seria melhor dirigirem-se todos para o gabinete do Secretariado Geral onde o assunto seria discutido, acrescentando que preferia morrer a ser preso.




            
    "JOÂO TOMÁS, em face desta resposta, virou-se para o INOCENCIO e disse que se ele queria morrer, que morresse, tendo INOCENCIO abatido a tiro o secretário-geral. Em seguida, INOCENCIO NANYE foi a casa de ARISTIDES PEREIRA que se rendeu e foi conduzido para os barcos do PAIGC que se dirigiram para o mar em direcção ao QUITAFINE. JOÃO TOMÁS e os outros elementos prenderam BUSCARDINI; ANA CABRAL, mulher de Amilcar, HENRIETTE TAVARES e muitos cabo-verdeanos, homens e mulheres, que foram encarcerados na prisão da MONTANHA.
            
       “Estes elementos dissidentes dirigiram-se a SEKOU TOURÉ, informando-o do que tinham feito, tendo este respondido que era um abuso matar um dirigente no seu país, dando ordens imediatas a um coronel do seu exército para os mandar deter, e ordenando à Marinha de BOKÉ para interceptar os barcos do *paigc*, o que aconteceu ao largo de QUITAFINE.
            
          “O apresentado – escreve Allas que estava ligado a Inocencio Kanye – teve conhecimento que foram também presos JULIÃO LOPES, QUEMO MANÉ, OSVALDO MÁXIMO VIEIRA, PAULO CORREIA e alguns dirigentes do PAIGC em CONAKRY, tendo sido libertados posteriormente”.

           Com infiltrações, com políticas de Estado de assassinatos de dirigentes dos antigos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas, com explorações de divergências que surgem sempre onde há luta política, o que é certo é que a História segue sempre o seu caminho.

          E no caso da guerra colonial portuguesa, os dirigentes do Estado português da altura estavam no lado errado da mesma. 

          Perderam, e não vale a pena dizer que foi por causa disto ou  daquilo. 

          O facto histórico está registado. É necessário tirar lições, até para o nosso presente, e ainda mais para o nosso futuro.

GUERRA COLONIAL: OPERAÇÕES ENCOBERTAS (6)





OPERAÇÃO VOUGA: A PIDE FAZ DE POLÍCIA BOA, GENERAIS DE CALÇAS NA MÃO

O relato seguinte não é, propriamente, uma operação “encoberta” clássica. ´ 

Trata-se antes de uma acção de retaliação com invasões várias “não declaradas” e massacres de populações de um Estado vizinho, sem o seu consentimento expresso, mas cúmplice, desde que a movimentação castrense não desse nas vistas ou, com mais propriedade, não desse para o torto.


Durante o período colonial africano, a cumplicidade entre os governos de Malaui e Portugal foi uma das imagens de marca utilizada pelo regime de António Salazar para defender a sua política de defesa intransigente do Império unificado do Minho até Timor.

No Malaui estava no poder um regime negro surgido de uma separação da potência imperial inglesa. 


Ao lado, no vizinho Moçambique, esse poder era exercido por um governador colonial, que era servido por tropas “brancas”, defensoras do Império que se afirmava do Minho ao Timor. 


Apesar de tal, o governo de Hastings Banda mantinha um relacionamento bilateral amistoso e continuado com o executivo de Lisboa. 

Claro que esse relacionamento fazia-se a nível institucional. 


De tal modo que, tal como atrás foi referido, o ministro da Marinha malauiana foi, “clandestinamente”, durante alguns anos da década de 60, um oficial da Reserva Naval da Armada portuguesa.

Na realidade, Banda tinha de “suportar” o facto de o Continente negro está a ser percorrido pelos ventos da descolonização. 


Permitindo-o, ou não, mas fechando os olhos, tinha de servir de retaguarda logística aos movimentos guerrilheiros que actuavam em Moçambique, e o poder colonial instalado em Lourenço Marques actuava, em segredo, realizando operações terroristas no território vizinho, visando afectar a guerrilha da FRELIMO. 

Hastings Banda foi conivente. 


Não era por acaso que o seu cônsul junto das autoridades coloniais de Lourenço Marques era o engenheiro Jorge Jardim, que actuava, na prática, como “pró-consul” de António Salazar em Moçambique,  uma figura obscura, mas omnipresente nos destinos do território moçambicano (e não só), incluindo o próprio planeamento militar da colónia, ultrapassando em muitos casos a hierarquia castrense, que se encolhia e se desautorizava, cobardemente, perante os inferiores.


Mas, por vezes, a movimentação militar portuguesa extra-fronteiras e, no caso concreto, do Malaui, apresentava revezes ou era detectada. 

Acontecia mesmo que os “excessos” (massacres programados) no terreno que tinham sido previstos e aprovados pela estrutura dirigente das Forças Armadas de Moçambique foram apanhados nas malhas das tropas do outro lado, não tendo sido possível camuflar, de imediato, o “incidente” até porque ele foi brutal e sanguinário para as populações civis.

Assim aconteceu, em Fevereiro de 1968: uma companhia do Exército português fez uma surtida violenta e arrasadora no interior do Malaui e destruiu a povoação de Cuizimba, na região de Forth Johnston.




fronteira Moçambique/Malawi

Recebeu o nome de operação “Vouga”, e enquadrou um conjunto de acções clandestinas no Malaui praticadas pelas Forças Armadas portuguesas. 

Essas acções faziam parte de um plano que foi aprovado pelo comandante do sector A do teatro operacional em Moçambique o então brigadeiro Hipólito.

O que sucedeu em Cuizimba apenas ficou registado, por escrito, porque a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), delegação de Moçambique, elaborou relatórios sobre o “incidente entre as nossas tropas e polícia malawiana”.

Todavia, no relatório de fim de comissão da companhia que participou no massacre nada consta sobre o assunto. 

Na “História da Unidade”, existente no Arquivo Histórico Militar, o seu comandante, o então capitão miliciano de artilharia Eduardo de Almeida Nogueira Coelho, omite a existência da operação Vouga e o que fez no território malauiano.

“A nova missão no *sector A* era de intervenção (sublinhando no documento) e as operações desenrolavam-se junto à fronteira com o MALAWI para impedir a penetração do IN em território português, o que foi conseguido em parte, dado o excelente moral das NT, bem apoiadas logisticamente, para o que muito contribuiu a mudança da sede para MASSANGULO, como base temporária, em 03JAN68”,  escreve o citado capitão na sua “História da Unidade”, fascículo V, com data de 28 de Fevereiro de 1968 sobre a sua actividade operacional naquela região.

  Depois enumera, com pormenor, o quadro de operações em que participou a sua companhia, sem nunca assinalar a citada operação, ou seja, a sua investida em terras do Malaui, cujo relato termina com a síntese seguinte:

   “Como fica referido a actividade da Companhia no Campo Operacional limitou-se a zonas de fronteira e o IN entrava esporadicamente no nosso território, para se acoitar com facilidade em território MALAWIANO, o que dificultou a acção das NT em todas as 20 operações em que participou no período para o neutralizar”.
            
   Assinala, longamente, num tom grandiloquente, a primeira baixa da companhia:
     
     “Foi na operação HIENA, que havia de registar-se o primeiro morto da companhia, em consequência duma armadilha, colocada num trilho de passagem, provocando ainda ferimentos graves num guia autóctone e noutra praça, os quais foram evacuados para o hospital de Vila Cabral.
             
    "Dada a familiaridade existente entre todos, a amizade e a consideração por que era tido o valoroso Mártir da Pátria, causou profunda consternação e um sentimento de pesar tão profundo que se reflectiu, como não podia deixar de ser, no Moral da Companhia, mas sem afectar o seu comportamento brioso nas operações. Subsequentes.
  
     “A companhia chorou; e na despedida as palavras proferidas pelo seu comandante de secção, furriel miliciano, José Manuel Teodoro Bichinho – “QUE DEUS TE DÊ O ETERNO DESCANSO” – provocou uma convulsão tão sentida que as lágrimas bailando nos rostos queimados pelo sol escaldante da época, eram bem dignas de figurar num quadro para perenidade da camaradagem e dos elos indistrutíveis que unem a FAMÍLIA MILITAR”.
            
    O capitão “esquece-se” de referir, pelo menos, a incursão na zona de Forth Johnston, onde perdeu um dos seus homens e uma arma pesada, o morteiro, tendo abandonado apressadamente a região, quando apenas meia dúzia de polícias lhe fizeram frente.
             
   Mas, a PIDE estava atenta e, logo no dia 25 de Fevereiro de 1968, fazia chegar à sua direcção central em Lisboa a denúncia.
             
      "Transcrevo para V.Exa rádios 58 e 59/68 Gab vindos hoje de Vila Cabral”, assim se dirigia, pressuroso, o responsável da PIDE (“Interpol”) em Lourenço Marques ao seu superior hierárquico em Lisboa, e depois explanava:
             
     “Primeiro, informo Vexa que no dia 17 dois grupos de combate da companhia MOHCO que realizava operações na área de Massangulo violaram a fronteira do Malawi, destruindo totalmente a povoação de Cuizimba cerca de 4 milhas no interior. Ao serem detectados pela polícia do Malawi e alvejados por esta, debandaram para o nosso território, ficando no local o primeiro cabo com morteiro e pistola, que mais tarde foi preso. Numa atitude simpática, a polícia do Malawi entregou o cabo e armamento no nosso posto de Mandimba.




              Mandinba
   
   Segundo Rádio, informo Vexa que ontem à noite estiveram no posto de Mandimba os administradores de Fort Johnston e o chefe da polícia de Namweras a comunicar que a nossa tropa continua a destruir as povoações fronteiriças do Malawi mas que se não desistir de o fazer é inevitável um recontro armado entre as suas e as nossas tropas”.
              
  As mensagens seguiram para a Presidência do Conselho e Ministérios da Defesa Nacional, Negócios Estrangeiros, Ultramar e Interior.
             
    Claro que a mensagem da PIDE não era inocente, nem a polícia estava preocupada minimamente com as incursões e as violações de fronteira, mas sim porque a surtida fora feita sem o conhecimento do chefe de posto local e o comandante militar parecia não dar qualquer “cavaco” à polícia política. Além do mais, a operação correra mal.
            
    Depois das mensagens cifradas iniciais, a delegação de Moçambique da polícia política elabora um circunstanciado relatório confidencial, tendo como “entidade informadora” a Subdelegação de Vila Cabral. A data registada é 3 de Março de 1968.



                                               Relatório policial da PIDE 
  Em três páginas A-4, o subdirector da PIDE em Lourenço Marques arrasa o brigadeiro comandante da zona e o comandante da companhia de Caçadores 1626. 

 O oficial-general, quando confrontado com as inquirições policiais, tentou lançar o ónus único da culpa para a hierarquia inferior, nomeadamente, o capitão Coelho.




             
     O responsável da polícia política inicia o seu relatório com um facto:
             
    “Conforme se comunicou oportunamente, através dos rádios em referência no dia 17 do corrente as nossas tropas do Niassa, na intenção de destruírem aldeamentos de populações de Moçambique refugiadas em território malawiano e onde de acoitam grupos de terroristas da FRELIMO, que vêm assediando a nossa região fronteiriça adjacente a Massangulo e Chala, penetraram pelo interior do país vizinho cerca de 6 quilómetros e destruíram parcialmente a povoação CUIZIMBA, da área do Departamento de FORTH JOHNSTON”.
               
         Depois faz o enquadramento da operação:
               
      “Segundo a informação prestada pelo Posto desta Polícia em Mandimba, o incidente ocorreu do seguinte modo:
               
        - No momento em que os dois grupos de combate da Companhia de Caçadores 1626, comandados pelo Capitão COELHO destruíam palhotas, foram surpreendidos pelo fogo de elementos da polícia malawiana e puseram-se em fuga para o nosso território. 

      Na confusão da retirada, o 1º cabo ARTUR AUGUSTO MELO FERREIRA, encarregado do morteiro, perdeu-se.
                
     No dia seguinte, 18, após vaguear pelos montes do Malawi e não conseguindo orientar-se em direcção à Mandimba, entregou-se à população, que, por sua vez, o apresentou à autoridade local – CATULI. 

     Aí foi algemado e à noite transferido para o posto policial fronteiriço de Namueras, onde, por casualidade, foi visto pelo inspector NHAMA, de passagem para FORTH JOHSTON, que o fez desalgemar  e transportou imediatamente para o Posto desta polícia em Mandimba, onde o entregou sem quaisquer formalidades. 

       O morteiro e a pistola individual foram entregues, no dia seguinte, 19, ao comandante do estacionamento militar de Mandimba.
                 
      A actuação foi monstruosa, na própria versão da PIDE:
                
        “Acrescenta o nosso posto de Mandimba.
                 
        Logo que no dia 18 teve conhecimento do ocorrido, o chefe do Posto deslocou-se a Namueras – posto policial congénere – a fim de saber pormenores. Em conversa com o chefe da polícia, foi informado dos actos praticados pelas nossas tropas, que, resumidamente, consistiriam no seguinte: 61 palhotas e 18 celeiros de milho queimados, 24 cabritos e várias bicicletas roubadas; todo o dinheiro desaparecido, incluindo 300 libras dum trabalhador regressado há pouco da Rodésia. 

      Toda a população desapareceu, não (se) sabendo o seu paradeiro. 

      O chefe da polícia lamentou a falta de escrúpulos das nossas tropas e acrescentou que a continuar assim as boas relações entre o Malawi e Portugal poderão ser prejudicadas”.
                 
        A PIDE, através de um funcionário menor, arrogava-se do direito de intervir na própria governação do território, e essa propensão está estampada no relatório:




                 
     “Quando o chefe da subdelegação de Vila Cabral tomou conhecimento dos factos, avistou-se com o Exmº Governador do Distrito do Niassa, que manifestou desconhecimento dos mesmos e incumbiu-o de averiguar o sucedido junto do comandante do Sector *A*. 
      
      Em presença deste comandante, o mesmo Senhor informou ter conhecimento da ocorrência desde a data da mesma, mas o chefe da subdelegação ficou com a impressão de que o sr. Brigadeiro Hipólito pretenderia obscurecê-la”.
                   
     A submissão do oficial-general aos ditames do zeloso subordinado policial:
                   
     “No dia 23, o senhor brigadeiro HIPÓLITO deu conhecimento ao chefe da subdelegação de que tinha recebido uma mensagem do comandante do Batalhão a que pertence a Companhia 1626, e que deu origem ao incidente, onde lhe era comunicado ter havido um acordo entre as forças estacionadas na zona fronteiriça do Malawi e as autoridades daquele país, para a entrega recíproca de indivíduos capturados de um e outro lado, sem quaisquer formalidades, devido ao qual tinham sido entregues três malawianos em troca do 1º cabo atrás citado, considerando o incidente sanado, não só por isso, como ainda por ter determinado a cessação da operação que se vinha realizando ao longo da fronteira”.
                   
        A finalizar, o subdirector em Lourenço Marques sugere, mesmo, que se actue contra os militares que se movimentaram fora da sua alçada.
                  
          “Haverá que convir na existência de uma situação delicada, que requere estudo e orientação do poder competente. Em presença do melindre da matéria que antecede, restringimo-la ao conhecimento da Direcção-Geral e à decisão que melhor convier aos superiores interesses do País”.




                  
         A PIDE não desarmou. 

     Cerca de  15 dias depois, novo relatório era elaborado pelo subdirector em Lourenço Marques, lançando “achas para a fogueira” sobre a operação Vouga. 

      Neste relatório, o subdirector da polícia já tem perfeito conhecimento do nome da operação militar e explicita-o directamente no seu título.
                 
      E é através desse documento que se sabe que “outras (operações clandestinas no Malaui) se lhe seguiram, embora não haja referências das localidades atingidas”
                  
       Com data de 14 de Março de 1968, o responsável máximo da PIDE em Moçambique referenciava que “o plano de acção (sobre Cuizimba) foi apresentado ao comandante do Sector A, Exº Brigadeiro Hipólito, que o aprovou embora soubesse que se ia desenrolar dentro do Malawi, e que foi designado por operação Vouga.
                 
      “O exº Brigadeiro tinha prévio conhecimento da operação – ressalta o relatório - e sabia do seu fracasso, resultante do aprisionamento do 1º Cabo do morteiro, quando o chefe da nossa subdelegação se avistou com ele”.
                 
         E o solícito responsável escrevia depois a interferir na própria acção militar do comandante militar do Sector: “Apesar de ter conhecimento da operação e de tê-la aprovado, não deu conhecimento do Exmº Governador do Distrito do Niassa nem a esta Polícia”.
              
      E comentava venenosamente: “Sabe-se (sic) que o Exmº Governador do Niassa ficou melindrado com o que considera falta de colaboração da Autoridade Militar e, em desabafo, confidenciou ao chefe da nossa subdelegação que considerava a operação Vouga uma autêntica asneira”.
              
    O subdirector procura depois explorar todas as contradições junto do poder em Lisboa, e ao mesmo tempo mostrar serviço: “Temos conhecimento de que as autoridades do Malawi colaboraram com a polícia armada nas zonas atingidas por aquela operação e exercem vigilância próximo da nossa fronteira, com o pretexto de darem caça aos elefantes destruidores de machambas do povo”.
              
         “No dia 4 de Março, o Exmº Governador do Distrito deslocou-se de avião a Mandimba, a fim de se avistar com o Exmº General Comandante-Chefe Adjunto e Engenheiro Jorge Jardim, a fim de, em conjunto, resolverem o problema resultante da acção das nossas tropas em território malawiano”, faz saber o burocrata policial, dando a entender que são os civis que procuram resolver a situação criada pela “asneira” militar.
              

Jorge Jardim e Hastings Banda

        Depois em dois parágrafos lança a ideia de que os dois comandantes militares envolvidos na operação, o da companhia e o do sector, revelam uma repugnante baixeza de carácter ao alijarem com as responsabilidades do sucedido.
              
       “O capitão Nogueira Coelho, comandante da força executante da Operação Vouga, segundo o Exmº Governador do Distrito confidenciou ao nosso Chefe da Subdelegação, procura diminuir a sua responsabilidade, alegando não corresponder à verdade o que se diz do saque praticado pelos seus soldados em território malawiano.
              
   “Segundo consta (sic) ao chefe da nossa Subdelegação no Niassa, o Exmº Brigadeiro Comandante do Sector A pretende alijar responsabilidades, que assaca ao capitão Coelho”.
             
        O policial termina indo ao ponto de comentar a opção operacional do comandante castrense no terreno: 
       
       “Parece que o Exmº Brigadeiro Hipólito ter-se-ia deixado arrastar pela euforia resultante de assaltos a bases inimigas implantadas em território malawiano, em especial à base CATUR. Todavia aqueles foram feitos em circunstâncias completamente distintas da operação Vouga”.                                   
             
       Como se pode inferir deste relatório da polícia política portuguesa, a operação que resultou a destruição da povoação de Cuizimba só foi “monstruosa” porque foi feita sem o conhecimento dos esbirros daquela.
             
          Na realidade, o relatório confessa-o: muitos outros assassinatos e destruições em território maluiano foram feitos, mas a diferença é que surgiram “em circunstâncias completamente distintas da operação Vouga”. 
     
     Aí a PIDE/DGS já lhe deu a benção, porque ela também estava lá.

IMAGENS DOS HORRORES DA GUERRA - VÍTIMAS DA UPA








pissarro.home.sapo.pt

Extractos do livro ARA


Capítulo I - A SABOTAGEM DO CUNENE

(Início do Livro)


Mal entrei, António Pedro Ferreira arrancou. Foi já com o carro em andamento que o cumprimentei. Respondeu-me que estava tudo bem e seguiu a bom andamento pela Avenida Elias Garcia como se conhe­cesse o nosso destino e estivesse atrasado. Deixei-o ir. Não estava com pressa e percebi o que ele queria.
– Então para onde vamos? Interrogou-me depois de duas viragens bruscas e galgados três quarteirões.
Estás a ver se não vem ninguém a seguir-nos, disse para comigo, que já lhe conhecia os truques. Perguntei pela Maria José, pelo Pedro, pelo Sérgio, pela Catarina e só depois lhe respondi.
– Vamos a Braço de Prata, mas não há pressa.
Meteu pela Avenida Duque d’Ávila, a caminho da Praça do Chile e da Paiva Couceiro em direcção à Zona Oriental de Lisboa.
Estávamos a dar início à primeira operação da ARA! Dávamos os primeiros passos num terreno virgem para nós, o das acções de guerrilha urbana. Iniciávamos a nossa aprendizagem mas estava-nos vedado come­ter erros pois isso poderia ser fatal.
Atravessávamos Lisboa e Pedro Ferreira opinava sobre o marcelismo. Respondia-lhe aqui e além mas intimamente estava concentrado nas tarefas que tinha pela frente.
– Mudança na continuidade? É um embuste. Um embuste sim senhor! Este Marcelo a mim nunca me enganou – repetia como quem não admite objecções.
– Sempre é melhor que o Salazar ou não?
– Qual melhor qual gaita! – continuava – vê lá se acaba com a guerra colonial! Para já não falar na Censura e nos presos políticos!
- Olha, mudou o nome à PIDE – respondia eu a puxar-lhe pela língua e a pensar no encadeamento de encontros que nos esperava.
– Para enganar o pagode! A PIDE, agora em vez de PIDE chama-se DGS. Olha a mudança!
Atravessámos Sapadores, descemos a Calçada dos Barbadinhos e desaguámos em Santa Apolónia. Agora já estávamos na Rua da Madre de Deus a bordejar a igreja cuja torre nos olhava severa lá do alto.
– Achas que nos abençoa? – perguntei a mudar              

de assunto.

– Quem, o Marcelo Caetano?
– Não, a Madre de Deus – Pedro Ferreira largou uma sonora gargalhada e interrogou-me por sua vez.
– Qual Igreja? A do Cerejeira, amigo do Salazar ou a do João XIII, do «Aggiornamento»?
Tinha encontro marcado para as nove horas, com António João Eusébio e Manuel Policarpo Guerreiro, próximo da Estação de Braço de Prata. Eles sabiam que iam participar numa acção armada mas não mais do que isso.
O sucesso da nossa estreia nas acções armadas estava dependente de uma sequência de actos e encontros de hora certa que envolvia mais quatro operacionais da ARA, e que se prolongaria pela madrugada até às sete da manhã. Tudo tinha de funcionar rigoroso como relógio suíço.
– O Marcelo Caetano…
– Vê lá mas é que carro é esse que vem atrás de nós há imenso tempo.
– Espera aí que já o despisto.
Pedro Ferreira acelerou, virou rapidamente à esquerda numa mano­bra perigosa e depois à direita e o falso perseguidor lá seguiu o seu destino sem nos importunar mais.
Os dois últimos dias tinham sido para mim de grande tensão e nervosismo por causa de alterações de última hora que foi necessário fazer ao plano. Mas agora, ao entrar em acção, tal como me sucedia quando começava um exame, o nervoso dava lugar a um estado de alma de paz comigo e com o mundo.
– Olha mas é para aquilo! – exclamou sem pré-aviso o Pedro, quando já nos aproximávamos da estação.
– Andamos a tratar de coisas sérias ou andamos a olhar para as miúdas! – repreendi eu, enquanto me apressava a olhar.
Cinco minutos antes da hora deixei o carro e recomendei ao Ferreira que ficasse ali estacionado. Não queria que andasse às voltinhas e, mesmo sem querer, acabasse por ver os outros camaradas ou ser visto por eles.
Aproximei-me do local do encontro. Policarpo Guerreiro devia estar a dizer qualquer coisa importante porque o Eusébio escutava-o de pescoço esticado.





Carlos Coutinho
São coisas distintas – o Carlos Coutinho interrogava-se e respondia num desamparo interior que o mortificava – coisas distintas mas que às vezes se cruzam, como agora!
Em casa, após um jantar rápido, a Antonieta preparou o café. Apagou a luz do tecto e deixou o quarto-sala na penumbra do candeeiro de secretária. Ligou o rádio. Lisboa 2, com música clássica, como o Carlos gostava, baixinho. Compôs ao espelho a madeixa de cabelo a cair-lhe sobre a face levemente rosada e sentou-se no sofá de veludo verde escuro, uma compra em segunda mão de que se orgulhava. Decidiu-se a surpreender assim, com o robe entreaberto, o companheiro que se demorava na cozinha a meditar sabe-se lá em quê. Na sua frente, a meio da parede branca, a Guernica, um quadro obrigatório em quarto de estudante antifascista. Dificilmente uma obra de arte poderia dar testemunho mais vivo dos horrores da guerra do que a Guernica. Instintiva­mente afastou o olhar. Aquele quadro, não estava bem ali, ao menos agora, mesmo em frente do sofá.
– Anda beber o café! – chamou ela o absorto companheiro.
Carlos juntou-se-lhe ainda pensativo. Bebeu a xícara de café em silêncio. Golo a golo. E decidiu que não cometeria nenhuma infracção às regras conspirativas se dissesse à Antonieta que aquele era um dia muito especial. Não lhe diria exactamente o que iria fazer nem qual era o alvo da primeira acção da ARA. Carlos acendeu um cigarro e disse com um ar que pretendia desdramatizado que ia naquela noite fazer parte dum comando para uma operação revolucionária. Que havia alguns riscos mas pequenos e de nenhuma importância.
Antonieta não entendeu o que ouvia.
– O quê? – Interrogou incrédula e já assustada.
Carlos explicou que não era nada, não era nada assim tão grave, nem valia a pena ter falado nisso.
Era a última coisa que Antonieta esperava ouvir naquele momento. Tinha julgado que a falta de reacção do companheiro à sua bem estudada e sedutora pose não passava de disfarce e afinal, afinal… nem queria acreditar. Ficou de repente lívida e estranha na sua seminudez.
Os seus projectos para aquela noite «tão bonita» acabavam de ir por água abaixo. Compôs o robe, fitou muito o Carlos, mas...
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Coutinho estava no local do encontro à hora combinada, numa rua de escasso movimento no Bairro da Encarnação. Procurei ler-lhe no rosto o estado de espírito. Pareceu-me seguro de si e não tinha intenção nenhuma de lhe perguntar se estava com medo. Confiava no Carlos talvez por ele ter levantado muitas dúvidas quando lhe expus o plano da operação. Ainda tinha bem presente como nos conhecêramos e as discussões que tivemos. Mas exactamente o querer discutir tudo muito bem até estar verdadeiramente convencido deu-me confiança. No partido, provavelmente em qualquer partido, levantar muitas dúvidas não é o melhor caminho para....
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Em seguida Pedro Ferreira levou-me ao encontro com Gabriel Pedro, na Rua Fernando Palha, bem perto do verdadeiro ponto de partida da nossa operação, a doca do Poço do Bispo. Eram dez e vinte da noite.
A Gabriel Pedro cabia o mais importante papel desta operação. Roubar um barco a remos que ele previamente escolhera na doca do Poço do Bispo e, depois de nele entrar o Carlos Coutinho com as bombas, conduzi-lo Tejo abaixo, até ao paquete Vera Cruz o navio a sabo­tar, a dez quilóme­tros de distância.
Durante alguns dias Gabriel Pedro observou a doca do Poço do Bispo e reparou que aquele barco ficava no mesmo local todas as noites. Pode muito bem ser o nosso barco! – concluiu – e assim de uma assentada transformou um anónimo e resignado barquito a remos da degradada e proletária zona Oriental de Lisboa num herói de filme de aventuras e criou-me um grande sarilho como depois explicarei.

Mal nos encontrámos fizemos uma breve recapitulação das tarefas de cada um, por fim perguntou-me o que é que eu achava. Ia tudo correr bem? Não esperou por resposta. Sabia que não havia. Começou a andar para a doca e disse qualquer coisa que já não entendi. Entrámos na Praçeta David Leandro da Silva, mais animada do que a rua escura donde vínhamos e virámos logo para a doca, pela Rua do Amorim. São uns cem metros de rua, àquela hora sem ninguém. À nossa direita, imponentes, as paredes laterais dos armazéns de vinho da socie­dade Abel Pereira da Fonseca. À esquerda um muro alto e velho. Àfrente, o Tejo e a silhueta vaga e escura de alguns barcos maiores. Acelerei o passo, adiantando-me, como combinado, para tomar posição bem perto da amurada.



A captura do barco a remos

Poucos metros atrás de mim Gabriel Pedro entrou na doca, dirigiu-se à rampa que desce para a água, e sem uma hesitação saltou para o barco a remos previamente escolhido. Em pé, com um remo nas mãos, em­purrou ora um, ora outro, até vencer o emaranhado de barcos que dormiam ali, no interior da doca do Poço do Bispo. Depois, já com mais água, sentou-se, remou convictamente e saiu ao rio num ápice. Eu estava à beira do cais e segurava, no bolso, dedo no gatilho, uma pistola de guerra, uma Walther de nove milímetros, para o proteger de qualquer contratempo. Do dono do barco, de um pescador que soubesse a quem o barco pertencia, de um guarda fiscal…
O Gabriel Pedro sabia que chegava ali pegava no barco sem cerimónia e desandava como se o barco fosse dele e toda a gente o soubesse. Eu, pelo contrário, sem experiência de mar, achava a operação arriscada, com alguém a aparecer de súbito, a atravessar-se no caminho e a dizer: que é lá isso? Quem o autorizou a tocar no barco? E daí seguir-se uma confusão que acabaria connosco a arranjar um bom pretexto para fugir se um guarda não chegasse antes e acabasse por nos obrigar a andar aos tiros.
Entrei na doca antes do Gabriel Pedro para que, quem estivesse e visse, não nos associasse. Coloquei-me numa posição que me pareceu a melhor para o defender. Reparei logo num guarda-fiscal demasiado próximo a atrasar ou mesmo a estragar-nos o plano. Logo hoje! Nunca encontráramos nenhum durante os reconhecimentos! Não é então que Gabriel Pedro entra por ali dentro, desce a rampa que conduz à água e salta de barco em barco até chegar ao nosso – já o considerávamos nosso! – de navalhinha na mão e zás, corta dum só golpe a corda que prendia o barco a uma corrente do cais e aí vai ele! Fiquei sem pinga de sangue. Primeiro achei que não era necessário avisá-lo da presença do guarda-fiscal porque ele estava bem à vista. Depois com um olho nele outro no guarda fico sem tempo para fazer seja o que for. O homem não está bom da cabeça! – desabafo comigo – ao vê-lo ir para o barco como se o guarda ali não estivesse. Por fim não sabendo de que me admirar mais, se do atrevimento do Gabriel Pedro se do desinteresse do guarda, achei melhor raspar-me dali. Parecia um filme. Foi com grande alívio que saí da doca. Receava tanto aquela operação do barco!
Gabriel, saiu ao rio e dirigiu-se não para Sul para o seu objectivo mas para Norte porque....
..................




CAPÍTULO II – PASSAR À CLANDESTINIDADE


Junho de 1964

Ia já a sair quando descobri lá ao fundo, junto à janela, uma mesa livre. No caminho cumprimentei o empregado com um boa noite desa­tento. Alto, magro, o senhor Teixeira andava perto dos sessenta. Usava a farda preta, calça e casaco com bandas de cetim, que vestia os empregados de mesa do café Pão d’Açúcar. Se não fosse a toalha de linho a alvejar no braço com que segurava a bandeja teria mais aspecto de gato-­pingado em cerimónia fúnebre do que de empregado de café selecto que o Pão d’Açúcar pretendia ser. Sentei-me. O senhor Teixeira, regula­mentar, hierático, sem conversas metediças, como deve ser, trouxe-me o café. Nem lhe tinha feito sinal, tal eu estava! Mexi lentamente uma colher de açúcar que tirei do açucareiro metálico e bebi, bem quente, a compasso, a estimulante bica. Quem me espiasse facilmente concluiria estar eu muito longe dali mas não podia adivinhar o que se passava. Até a mim me custava a acreditar!…Como pudera eu fazer aquilo? Acabara de mudar a minha vida. Porque era outra vida, diferente, que agora tinha, para viver. Mas estava arrependido? Não. Não estava. Voltaria à reunião, que terminara há pouco, se isso fosse necessário, para repetir as palavras decisivas. E, no entanto… ainda não conseguia aceitar que
já estivesse do outro lado da minha decisão. Como pudera dizer aquelas quatro breves e definitivas palavras: Sim, passo à clandestinidade! Disse-as. Simplesmente. Como quem diz qualquer coisa que é necessário dizer. Na realidade era uma decisão amadurecida. Construída de pequenas decisões, tomadas dia após dia, durante mais de um ano. Tudo o que fiz ao longo de quase dois anos eu sabia, lá bem no fundo, que iam dar a este precipício. Que me obrigava a saltar no vazio ou a recuar. E não estava eu decidido a seguir em frente? Não estava, no íntimo, feliz, em paz comigo mesmo por ter decidido dedicar-me à luta contra a ditadura fascista e contra a guerra colonial? Mas não podia deixar de me sentir, ao mesmo tempo, estilhaçado por dentro. Não conseguia evitar esta ago­nia de quem abdica, instantaneamente, de tudo o que tinha projectado ao longo da vida. Da família. Dos amigos. Quiçá da namorada. Do curso. Da actividade cultural e política da associação de estudantes. Dos seus convívios. Do cineclube. Das tertúlias nas casas dos amigos. Das nossas conspirações políticas de café que se prolongavam por bares até de ma­drugada. E então agora que vivíamos a revolução dos costu­mes e já quase todos, rapazes e raparigas, tínhamos vencido a última barreira ao amor, o preconceito da virgindade feminina.
Clandestinidade. Era quase desistir da vida. Do que ela tinha de bom.
A minha vida passada e o que adivinhava da minha vida futura perpassava ante os meus olhos à mistura com pessoas que entravam, se sentavam, bebiam café, falavam baixo e o senhor Teixeira que voejava silencioso entre elas e o balcão, de bandeja ora pendente ora levantada acima das nossas cabeças.
Revia, as minhas razões para tal passo. Refazia o caminho que me trouxera até aqui para me certificar mais uma vez das boas razões que tinha. Sabia que o inventário ia confirmar a decisão porque esta não dependia apenas de bons argumentos racionais. O coração e a vontade tem nisto um grande papel!
– Queria falar contigo, a sós, no fim da reunião – disse-me, num à parte, Rogério de Carvalho sem que os outros camaradas ouvissem.
No fim da reunião, ao contrário das outras vezes, não foi o primei­ro a sair como mandam as regras conspirativas. Ficou ainda para falar comigo a sós.
– O partido queria fazer-te uma proposta que exige uma decisão muito séria sobre o teu futuro – disse-me o Rogério depois de se sentar de novo e me pedir para fazer o mesmo. Demorou-se em importan­tíssimas razões que justificavam e exigiam a minha passagem à clandestinidade. Não me queria dizer qual o objectivo antes de eu lhe dar o sim mas eu já adivinhava.
– É da maior importância para o nosso partido e o nosso povo que passes à clandestinidade.
Como não estava certo da minha resposta preparava-se para uma longa prelecção, recheada de irrecusáveis razões que me convencessem. Antes que o Rogério se comprometesse com mais afirmações do estilo a enorme importância para o nosso Povo e tal, atalhei a conversa e perguntei-lhe se era finalmente para iniciar a luta armada.
Rogério de Carvalho não disse sim nem não. Queria que aceitasse sem saber para quê. Segundo ele e a doutrina partidária o bom militante é o que se coloca incondicionalmente ao serviço do partido e obviamente sob a orientação e as ordens dos chefes. Face à minha insis­tência em saber para que era tão importante passar à clandestinidade e com receio de levar uma resposta negativa o Rogério explicou que era para se criar a organização para as acções especiais e se dar início às acções armadas.
– Sim. Passo à clandestinidade.

UMA das raras fotografias de Raimundo Narciso durante a clandestinidade.Com
a filha Leonor na casa de Arruda.




O Rogério ficou visivelmente aliviado e deu mais algumas explica­ções que correspondiam afinal ao que muitas vezes eu e outros defen­díamos e ele próprio, sem o explicitar, apoiava.
– A direcção principal é lutar contra a guerra colonial, o aparelho repressivo e o imperialismo. A organização tem de ser ultra-secreta como ultra-secreta tem de ser a identidade de quem a ela pertencer.
Há mais de dois anos que discutíamos na organização do PCP as acções especiais. Evitávamos chamar-lhes acções armadas ou luta armada porque sabíamos que esta forma de luta só com reticências ia vencendo na direcção do partido. Mas ultimamente a receptividade de cima era maior e discutíamos acaloradamente a necessidade de passar à acção. Por isso não faria sentido recusar-me agora a passar à clandestinidade.
Nas discussões fora do organismo, entre colegas da Universidade que sabia serem militantes ou pelo menos simpatizantes do partido, também nos últimos tempos as conversas políticas acabavam muitas vezes na defesa das acções armadas e da radicalização da luta contra a ditadura. O ambiente entre os estudantes envolvidos no movimento académico contra o regime vinha-se radicalizando. Entre alguns grupos de uma forma quase delirante, diga-se em abono da verdade. O que me parecia é que os que mais gritavam por armas não seriam os mais dispostos a correrem o risco de as usarem.

Desde 1962 que a luta contra a ditadura se vinha radicalizando acele­radamente. Provam-no em particular as grandes lutas dos assalariados agrícolas no Alentejo e Ribatejo que culminaram com a conquista da redução da jornada de trabalho a oito horas em vez de sol a sol, e a crise académica que conduziu à greve geral da Universidade. Junto da direcção do PCP cresciam as pressões para a luta armada. Pressões exteriores decorrentes do ambiente político e pressões da própria organização.
Em 1964 Álvaro Cunhal mostrou-se favorável às «acções especiais» no contexto da «luta de massas» e empenhou-se, ainda que de forma cautelosa, na criação da estrutura que as pudessem desencadear sem envolver directamente as organizações do PCP. Como explicou no Rumo à Vitória, Cunhal considerava que o levantamento geral da popu­lação, na sequência de um crescendo de lutas reivindicativas, manifesta­ções e greves que deveria arrastar consigo uma parte das Forças Armadas, constituía a espinha dorsal da orientação do partido para o derrubamento do regime.
O relativo sossego em que o Café àquela hora caiu convidava à meditação. Não deveria passar à clandestinidade só depois de fazer os exames? Tenho as cadeiras praticamente preparadas. Talvez ainda tenha tempo! O Rogério de Carvalho afinal também não foi muito concreto quanto à data. Já no fim, o Rogério ainda me disse que para a clandestinidade, levasse só uma mala.
– Só a roupa necessária e um livro ou outro. Coisa leve e que se transporte facilmente.
Tinha pensado comprar uma mala grande, bem grande… Vão-me faltar imensas coisas!
A clientela diminuía. Saiu o casalinho do costume e na relva, que sobe até ao Instituto Superior Técnico juntou-se um grupo de rapazolas a jogar a bola com grande alarido até que a polícia chegue.
Examinava males sociais, lembrava casos, buscava antecedentes que explicassem o meu estado de rebeldia e me punham comunista.
Lisboa ampliou sinais, acelerou convicções. A associação de estudantes era uma verdadeira escola de política e de luta contra a ditadura.
A Associação do IST comparada com a Escola Secundária de Torres Vedras, onde estivera do terceiro ao sétimo ano de liceu, parecia-me um mundo novo e exaltante. Tinha assembleias, discussões, votos, as reuniões da secção cultural, exposições para organizar, como aquela, de Gravura, a primeira da Cooperativa dos Gravadores de Portugal onde Júlio Pomar ainda não era o artista famoso que depois veio a ser.
A associação do Técnico estava envolvida na luta contra o célebre decreto 40.900 que mobilizou de tal modo os estudantes universitários contra ele que a ditadura parou para medir o que fazer. Fomos em manifestação até à Assembleia Nacional. Ir em manifestação a S. Bento não é como agora. Era um desafio arriscado. E tinha, mais emocionante ainda, a Comissão Cívica Eleitoral, que se constituía em véspera de eleições falsas, na sede da Seara Nova e nos oferecia emocionantes reuniões mais ou menos secretas. Quem me aliciou para elas foi a Helena Pato. Fiquei-lhe sempre grato por isso.
O que mais me atingia na grande cidade, nem era o abismo entre o luxo dos Estoris, Lapas e Restelos, e a pobreza das Madragoas, Moura­rias e Alfamas realidades que mal conhecia directamente. O que não se conhece não se ama nem se odeia. Pelo menos de forma tão intensa como o que passa por nós. E o que passava por mim era a arrogância do poder político, contra os estudantes, contra a liberdade e as regras democráticas. Poder político prepotente, afrontoso, sempre do lado dos poderosos e, pior ainda, quase sempre do lado dos sem razão.
Sofríamos a Censura! E a impossibilidade de se dizer o que se pensava, de se defender os ofendidos e espezinhados!

O abuso, a impunidade e o cinismo de governantes e pides tomava-os para mim, que não era seu alvo directo, como um desafio e alimentavam a minha revolta.
Ali na mesa do café Pão de Açúcar pensava, que tudo isto era comigo, nalguma quota parte. Não me podia pôr de fora. Como cidadão. Pois então teriam que contar comigo também! Achei que era um dever.

– Podes contar comigo – disse com convicção ao Rogério de Carvalho.
Percebi que ele não ficou muito seguro da minha resposta mas fingia que não tinha a menor dúvida. Por isso foi conversando melhor comigo.
Por esta altura, só ali à minha volta, vários colegas da universidade de Lisboa, sem que eu o soubesse tomaram a mesma decisão de passar à clandestinidade. Não combinámos. Nem sabíamos, uns dos outros. Cada um de nós só podia resolver isso consigo próprio. Cada qual com as suas razões. Aproveitando as oportunidades que se lhes oferecia. Vencendo os obstáculos interiores, por vezes com um esforço superior a si próprios. Foi o José Bernardino, o Armando Myre Dores, o Albano Nunes, o Álvaro Mateus, o Jorge, o Santos Marques e outros. Parecia-nos a todos que era o melhor caminho para acabar com a ditadura, com a guerra colonial e também, mais tarde, para construir o socialismo. Era o caminho certo para uma sociedade mais justa, mais rica, mais livre, mais democrática. No partido ensinavam-nos que a ditadura do proletariado, necessária para tais prodígios, sendo ditadura era, no entanto, uma democracia. Uma democracia mais democrática que a mais democrática das democracias burguesas. E muitos de nós aceitáva­mos, com a mesma fé com que outros aceitam os milagres, necessitados que estávamos de um qualquer bom instrumento para com urgência deitar abaixo o nosso fascismo suis generis e se possível alcançar o céu.

 Não apareceu nenhum dos meus amigos frequentadores do Pão. Era melhor assim. O que me apetecia mesmo era estar ali, só, a ruminar tudo o que me acabara de suceder. Lá estava, à frente, aquele casal esquisito. Sempre muito calado. A ouvir as conversas é o que era. Eram informadores da PIDE. Para nós isso estava claro como água. Às vezes, quando estávamos muitos, fazíamos conversas provocadoras mas eles não tugiam nem mugiam. Armados em sonsos, os pides! Era o que todos pensávamos e foi com grande espanto que ficámos a saber, depois da revolução que não passavam de pacíficos e tímidos cidadãos e que informador da PIDE era um outro casal. Nunca tal nos tinha passado pela cabeça. Pessoas simpáticas que até metiam conversa connosco se a ocasião o proporcionava!
Olhava para a rua e via através da montra a noite a crescer. Talvez já fosse tarde. No passeio rareavam os vultos. Por vezes as pessoas vinham tão rentes ao vidro que parecia virem chocar com as mesas, cá dentro, arrimadas à montra.

Rogério de Carvalho conversou ainda longamente comigo. Sobre a clandestinidade. Pelo que dizia, a vida na clandestinidade era mais cor-­de-rosa do que preta. Mas sobre isso não tinha grandes ilusões. Já conhe­cia algumas histórias de clandestinos e o que sobressaía eram privações e dificuldades, prisões e torturas.
– Não podes estar com a família, nem visitá-la. Nunca mais! Nem com os amigos. Pois por aí é que a PIDE começa à tua procura. Também não podes voltar a frequentar os lugares habituais. Ruas, jardins, cafés. Muito menos ir ao cinema ou a espectáculos. Nem andar por aí na rua a passear. Se a perseguição policial aumenta só podes sair de casa à noite. E mudar de casa com frequência. Por vezes é preciso largar tudo e fugir de casa de mãos a abanar.
Foi esta a primeira explicação da clandestinidade que me deu já lá vão uns anos, o primeiro clandestino que conheci. Um jovem de vinte e três anos, loiro, com um ar muito ladino, só entusiasmos, quando eu, estreante no partido, o interroguei ainda a milhas da clandestinidade.  
Percebia que Rogério de Carvalho se queria certificar da firmeza da minha resposta e de que eu não lhe faltaria ao próximo encontro como já lhe sucedera com outras tentativas de recrutamento. O caso não era para menos porque dois anos antes recusei terminantemente o mesmo convite. Na altura a proposta pareceu-me tola. Descontando mais de um ano em que estive desligado tinha na altura meia dúzia de meses de militância efectiva no partido. Sabia lá o que era isso de clandestinidade! Sabia que não queria.
Estava então a tirar o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, quando me vieram com a conversa de passar à clandestini­dade. Uma conversa de loucos. Loucos varridos. Foi o que pensei e disse na própria cara do camarada. E não pensem que era um camarada qualquer. Era o Rogério de Carvalho um camarada funcionário e da direcção! Encontro com um funcionário, para um militante que está a dar os primeiros passos, como eu, era obra! Ainda por cima um funcionário da direcção do partido! A minha expectativa era enorme e para não faltar à verdade, no início da conversa, atendendo à diferença das responsabilidades e dos saberes, senti-me cá muito em baixo. Para melhor se entender a situação direi que era mais ou menos como se um jovem recém ingressado numa organização católica, como a JUC ou a JOC, crente em Deus e de fé em expansão, fosse levado a conversar com o bispo e este em vez de lhe iluminar o espírito mostrando-lhe uma nesga do céu, o tentasse convencer, de chofre, a abraçar o sacerdócio, sem querer saber se o iniciado tem ou não vocação e está disposto a esquecer a namorada, os seus sonhados projectos de vida, a esquecer a VIDA!
Talvez porque o tratava por tu ganhei coragem para dizer ao bispo, ao dirigente do PCP, ao Rogério, que a proposta não tinha pés nem cabeça. No fundo estava indignado. Achava que a proposta era precipi­tada. Em política de quadros é o que se podia classificar de proposta aventureira. Estava zangado e mais zangado fiquei nos dias seguintes quando meditava na situação. Não gostava de recusar uma proposta que viesse da direcção. Achava que um comunista, nunca devia recusar uma proposta que viesse da direcção. O que equivale a pensar que da direcção nunca surgiriam solicitações ou ideias que não viessem iluminadas com a força da razão, do óbvio e que não suscitassem de imediato a adesão entusiástica dos militantes de base. Mas afinal não era assim!? Sabe-se que não há razão capaz de vencer a fé e por isso me surpreendi a pensar se na realidade não podia, ou deveria, dar outra resposta. Provavelmente com os operários é diferente… pensei.
Em resumo não queria passar à clandestinidade por isso considerei ter toda a razão.
Tinha os meus projectos. Tirava o curso de engenharia electrotécnica mas o meu objectivo secreto era a investigação nuclear! O mundo das partículas fascinava-me. Perceber o que é a matéria. Na sua insondável essência. E não apenas, no sentido filosófico. Não apenas os conceitos do grego Platão, de Bacon, do bispo Berkeley, de Kant, Hegel ou Marx. Mas, em especial, entender como são os tijolos da realidade material.
Para dizer a verdade interessava-me então muito mais por estas coisas do que pela lei do valor, pela mais-valia, pelas virtudes da aliança operário-camponesa. Pela excelência do centralismo democrático, pela regra de oiro da maioria operária nos Comités Centrais e nos comités de toda a ordem.  Além do mais sentia-me muito bem no Instituto Superior Técnico com a sua Associação de Estudantes para esgrimir, em acaloradas assembleias, contra todos os que não tinham a nossa pouco amadurecida opinião e passavam a ser uns detestáveis reaccionários. E além disso tinha as minhas ligações, da passagem anterior por lá, à vetusta Faculdade de Ciências, com o belo Jardim Botânico e em contraste com o Técnico, com um número quase infindável de raparigas.
Só mesmo quem não me conhecesse é que poderia vir com aquela ideia bizarra de me propor PASSAR À CLANDESTINIDADE!
Como conciliar a clandestinidade, uma vida de cilícios e clausuras, com a excitante vida de estudante universitário de Lisboa, naqueles loucos anos sessenta? Clandestinidade? Que loucura!
Agora, a situação era diferente. Desenvolvera entretanto uma actividade política regular e empenhada, assumira responsabilidades, primeiro no sector estudantil universitário, depois em organizações unitárias com africanos das colónias, angolanos, guineenses, moçambicanos, com grupos católicos antifascistas, no sector militar, nas Juntas de Acção Patriótica.
Sem dúvida que a minha revolta contra o fascismo era agora mais fundamentada, mais consciente e muito determinada. Isso não atenuava, no entanto, o carácter doloroso e até, paradoxalmente, surpreendente da minha decisão, afinal tão amadurecida. Tal é a diferença entre o acto de avaliação racional e o acto volitivo!
Ah, então temos a luta armada! Pensava entusiasmado, já quase sem o ouvir, enquanto o Rogério de Carvalho ia desfiando suspicazes razões sobre a necessidade da......
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CAPÍTULO V – A SABOTAGEM DA BASE AÉREA DE TANCOS
                

No interior do pavilhão o escuro é total. Os helicópteros e os aviões enchem completamente o hangar. O Ângelo de Sousa e o Carlos Couti­nho acenderam lanternas minúsculas que mostram mal onde meter os pés e levantam sombras no meio da escuridão. Mesmo com as lanternas acesas pouco vêem. As lanternas são muito pequenas e ainda têm um cartão à volta da lâmpada para limitar a luz. Apesar de todas as cautelas o Carlos deu outro pontapé nos ferros espalhadas pelo chão. Dois helicópteros estão desmontados e as peças são uma verdadeira armadilha para quem não pode dispensar a cumplicidade do silêncio.
– Vê lá onde pões os pés! – gritou-lhe o Ângelo em surdina – ou queres acordar o quartel todo!
Do exterior a reacção foi o silêncio. O Coutinho encolheu os ombros e desculpou-se. Que o sentinela estava muito longe e não se ouvia nada.
Lá fora o António João Eusébio ouvia. Ouvia e arrepiava-se.
– Fartaram-se de fazer barulho – queixava-se ele, muito tempo depois, recordando aqueles momentos de uma ansiosa espera que parecia não ter fim.

É quase uma da madrugada do dia oito de Março de 1971. O Carlos Coutinho e o Ângelo de Sousa estão na Base Aérea 3, em Tancos, no interior do hangar onde desde há alguns dias estaciona quase toda a frota de helicópteros e aviões da base. Estão lá dentro, ao todo, vinte e oito aeronaves.
A BA 3 é a unidade de treino dos pilotos para a guerra colonial. Como o hangar número um está em reparação o comando da base decidiu guardar todas as aeronaves no outro hangar apesar de ficarem excessivamente amontoadas.
Ângelo, que usava os pseudónimos de Miguel e de Tavares, está a cumprir o serviço militar obrigatório na Força Aérea, precisamente na base de Tancos. Tem 23 anos, é cabo miliciano e está quase a completar o curso de piloto de helicópteros dado por instrutores franceses. É de Espinho e estava empregado num banco para onde entrou depois de ter feito o sétimo ano do liceu. Namora a Fernanda que partiu há pouco para Londres onde estuda e trabalha. Não anda sempre a falar na namorada para não dar parte de fraco mas já percebi muito bem que pensa mais na Fernanda do que em tudo o resto.

O Carlos Coutinho, foi furriel enfermeiro, com a especialidade de neuro-psiquiatria, quase três anos, em Moçambique donde regressou em Março de 1969. Assistiu impotente a crimes horríveis perpetrados pelo exército colonial e assistiu às mortes e às vidas estropiadas por feri­mentos sem remédio de muitos combatentes involuntários.

Por isso quer continuar a participar nesta guerra, em Portugal, mas do outro lado da guerra, do lado dos anticolonialistas e dos africanos, que lutam pela sua libertação. Libertação que, sob a lógica da guerra fria, dos interesses estrangeiros e das ambições pessoais de alguns dirigentes, deu lugar em Moçambique e mais ainda em Angola, a um novo e apocalíptico calvário para os respectivos povos.
Carlos é desde a acção do Cunene quase um veterano.


O Eusébio é o mais velho. Tem 28 anos e é de Mértola. Também esteve na acção do Cunene. Foi soldado de uma companhia de caçadores e conheceu Angola, o Ambriz, as Lundas e a natureza humana. No Homem preto e no Homem branco.
– Conheci o rosto humano e a fera, que há dentro de nós. Europeus ou africanos… Uma guerra suja – dizia ele dos quase três anos de uma guerra que durante muito tempo lhe perturbou a tranquilidade do sono quando voltou à construção civil. Eusébio está escondido em frente do hangar número 2 e vigia a sua entrada e os militares que se aproximem.
O Ângelo e o Coutinho continuam dentro do hangar. Em silêncio, cautelosamente, a colocar vinte cargas explosivas e incendiárias em vinte aviões e helicópteros. Chegaram aqui sem novidade e se Deus quiser e o plano se cumprir, hão-de sair como entraram, com o ar mais natural deste mundo mas....

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