Soldado ferido
Nas «eleições» de 1969, a guerra colonial, então particularmente acesa em Moçambique e na Guiné, foi o principal separador das posições das duas agregações oposicionistas – a CDE reproduzia o posicionamento do PCP e apostava forte na denúncia máxima e possível da guerra colonial com partido implícito pelos movimentos de libertação; a CEUD evitava referir o tema e quando este era incontornável procurava um posicionamento não radical sobre a guerra e punha em cima da mesa a quimera retórica de defesa de «autonomias». Nas «eleições» seguintes, as de 1973, já a oposição se apresentou unificada e o posicionamento acerca da guerra colonial, entretanto agravada, retomou o essencial das posições da CDE de 1969.
A guerra colonial era, para o regime, a grande questão política tabu. Caetano, por convicção e pela pressão dos ultras nacional-colonialistas entrincheirados atrás do Presidente Tomás, continuava o dogma-mito herdado de Salazar: «não discutir o Ultramar», continuar a guerra. Então, colocar sequer a questão da guerra colonial, discutindo saídas para ela, mesmo que tímidas, configurava uma traição à pátria. Tal não era sequer permitido durante as «campanhas eleitorais» (se tal fosse feito, e normalmente era-o no último discurso, o representante das «autoridades» intervinha e fazia terminar a sessão, a que se seguia, por regra, uma carga policial). Mas Caetano não só prosseguiu a guerra colonial, como o fez recorrendo a «operações sujas» e outras em larga escala perante o progressivo agravamento das situações militares em Moçambique e na Guiné, gerando uma dinâmica de «tudo ou nada». E, nesta via, aprofundou-se a «fusão», na máquina de guerra colonial, entre a polícia política (PIDE) e o exército colonial. Logo no início de 1969, pouco tempo depois de Caetano suceder a Salazar, o então líder da Frelimo (Moçambique), Mondlane, foi assassinado na Tanzânia através de uma encomenda-bomba, o que desencadeou não só uma crise na Frelimo como uma atribulada luta pela sucessão na liderança. E, no ano seguinte, Kaulza de Arriaga (comandante-chefe) montou uma das operações militares mais gigantescas e recheadas em meios humanos e militares ocorridas na guerra colonial, a operação «nó górdio».  Em resultado final, a Frelimo expandiu a sua área de intervenção guerrilheira em Moçambique. Na Guiné, Caetano deu luz verde a Spínola e à PIDE para uma das mais vastas e custosas operações de tentativa de aliciar e corromper uma das frentes do PAIGC, ocorridas no norte no «chão manjaco», e que terminou em Abril de 1970 quando os guerrilheiros atraíram a uma cilada um grupo de elite dos oficiais do exército português, massacrando-o. Spínola e a PIDE, com o acordo prévio de Caetano, reagiram no final de 1970 através de uma operação com grandes meios («mar verde») de invasão da Guiné-Conacry e que tinha, entre os objectivos, assassinar o Presidente deste país (Sekou Touré) e colocar um «partido amigo» no poder, assassinar Amílcar Cabral e o núcleo dirigente do PAIGC (sediado em Conacry), destruir a força aérea e a frota naval guineense, libertar os prisioneiros militares portugueses. Só o último objectivo foi alcançado (mas a troco de um número ainda maior de «comandos africanos» deixados no terreno e posteriormente fuzilados). Em 1973, como culminar de uma operação de infiltração da PIDE, foi conseguido o velho objectivo de assassinar Amílcar Cabral. A este desaire, a perda do seu líder carismático, o PAIGC respondeu, através de novo e sofisticado armamento, com a prática neutralização do domínio do espaço aéreo pelo exército colonial e declarar a independência unilateral da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecida por dezenas de países membros da ONU.


VÍDEO - GUERRA NA GUINÉ



Todos estes factos, na sua maioria iniciativas de «guerra suja» desenvolvidas em íntima colaboração entre a PIDE e as forças armadas e apoiadas por Caetano, pelos seus fracos ou nulos resultados, quando não fazendo pender a balança da guerra ainda mais para o lado dos guerrilheiros, tornaram grande número de oficiais profissionais não só descrentes quanto à possibilidade de saídas para a guerra e colocando as derrotas no horizonte, como receptivos a uma argumentação política contra a guerra colonial e que recebiam de duas fontes: uma, a das «campanhas» da CDE de 1969 e 1973 (e dos congressos da «oposição democrática» realizados nos mesmos anos em Aveiro); outra, a influência e agitação de muitos oficiais milicianos colocados na guerra colonial e que tinham adquirido posições frontais relativamente a estes conflitos nas referidas «campanhas da CDE» e nas lutas estudantis. O MFA e a Revolução foram questões de decantação e tempo. Afinal, a campanha contra a guerra colonial, limitada mas valentemente veiculada pela CDE, sobretudo nos «períodos eleitorais» de 1969 e 1973, que a CEUD não quis em 1969 e Caetano mandou a PIDE reprimir sempre, acabou por chegar aos seus destinatários principais – os capitães e majores que faziam a guerra em África, transformando, num curto período de tempo, oficiais colonialistas em militares revolucionários.
Nota pela memória:
Um dos paradoxos cruéis deste contexto vivi-o em proximidade. Colocado em 1969 no «chão manjaco» da Guiné, lidei e tornei-me amigo do oficial mais brilhante da «nata militar» que Spínola tinha ali colocado na atrás referida operação de corrupção do PAIGC (Major Passos Ramos, oficial de Artilharia e do Corpo de Estado Maior). Era, não só um dos oficiais mais brilhantes do exército português, um homem culto, generoso e cordial, como um oposicionista declarado ao fascismo e ao colonialismo. Enquanto na metrópole decorriam as «eleições de 69», sempre que nos encontrávamos em Teixeira Pinto, trocávamos as informações que cada um tinha disponíveis pelo correio com as famílias ou obtidas em férias sobre o andamento da campanha da CDE. Metidos no mato profundo da Guiné, alimentávamos assim uma espécie de tertúlia oposicionista que acompanhava a luta dos que na metrópole defrontavam o regime na «farsa eleitoral» e demarcados dos crentes nas «boas intenções» de Caetano. Passos Ramos foi um dos oficiais portugueses barbaramente chacinados pelo PAIGC em Abril de 1970 perto do Pelundo. Como profissional militar de elite, cumpria ordens de chefias que lhe repugnavam politicamente. Era contra a guerra e fazia a guerra, como tantos outros até que a resolução da contradição levasse à conquista do Carmo. Estando desarmado, Passos Ramos, juntamente com mais três outros oficiais, baqueou de uma forma indigna que nenhum homem merece – arrastado, esfaqueado, retalhado e metralhado – às mãos do inimigo que profissional e militarmente queria vencer servindo um regime que politicamente combatia. Não só as revoluções, também a guerra procura devorar os melhores.
(Adaptado de um post publicado no Água Lisa)
caminhosdamemoria.wordpress.com

A SOCIEDADE PORTUGUESA E A GUERRA COLONIAL


 
Cerimónia Fúnebre
 Há poucos dias coloquei um inquérito de opinião, num Blog do qual sou co-autor “Ovar_novosrumos” e cuja pergunta é a seguinte:
“Concorda que Ovar, a exemplo da maioria dos municípios portugueses, construa um monumento de homenagem aos seus mortos na Guerra Colonial?”.

Muito embora o número de respostas ainda não seja significativo, permite, desde já, retirar uma conclusão: 
Há uma grande percentagem de portugueses que, ainda, não compreende o papel das nossas Forças Armadas, especialmente dos milicianos, desempenhado no período da Guerra Colonial, essencialmente, por falta de informação que ajude à compreensão de tudo o que se passou nessa época e do seu enquadramento na política geoestratégica mundial da altura.
1 – Portugal era governado em regime de ditadura colonial-fascista e o serviço militar era obrigatório;
2 – O Governo de então considerava que Portugal ia da Europa a Timor e era uno e indivisível, pelo que os seus militares eram obrigados a prestar o seu serviço no local para onde fossem mobilizados;
3 – A imensa maioria da população era despolitizada e a taxa de analfabetismo rondava os 50% no início da década de 1960;
4 – A Guerra Colonial era vista como um drama por toda a gente, mas a resignação era total;
5 – Cada funeral de um militar morto na guerra constituía uma grande manifestação de pesar e esse militar passava a ser considerado como mais um herói que morreu ao serviço da Pátria;
6 – O sentimento anti-colonialista só se começou a fazer sentir, em muito pequena escala e restrito a organizações clandestinas de extrema-esquerda, nos finais da década de 1960 e princípios da de 1970, galvanizadas pelo “Maio de 68” e pelo movimente “hippy”, cuja sigla era “make love, not war”.
7 – É claro que durante os anos 60 aconteceram algumas acções anti-colonialistas, tal como a protagonizada por Henrique Galvão, com o desvio do “Paquete Santa Maria” ou outras efectuadas pela LUAR e pela ARA, mas que a propaganda do regime se encarregava de ocultar ou de destruir, atribuindo a estes acontecimentos um cunho de delito comum ou atitudes de traidores da Pátria;
8 – A política geoestratégica mundial era dominada pela “Guerra Fria”, que estava no seu auge e os dois blocos imperialistas, o Americano e o Soviético, lutavam taco-a-taco pela manutenção e pelo alargamento da sua influência e é neste enquadramento que surge o caso de Cuba e da Guerra do Vietname e, anos mais tarde, o derrube do regime chileno de Salvador Allende;
9 – Enquanto a União Soviética ia aproveitando as independências dos Países Africanos para alargar a sua influência, os Estados Unidos da América consolidavam as suas posições na América Latina;
10 – O regime português colonial-fascista fica confrontado com estas duas situações, se, por um lado, não contava com o apoio dos EUA, em termos políticos, era confrontado com uma guerrilha apoiada pela URSS. Os EUA ainda tentaram meter uma lança em África com o seu apoio à UPA de Holden Roberto, mais tarde transformada na FNLA. A URSS dominava o PAIGC na Guiné, o MPLA, em Angola e, após a morte de Eduardo Mondlane, a FRELIMO, em Moçambique;
Imagem de um dos Massacres da UPA - Angola 1961
11 – É neste quadro que ocorre a Revolução de 25 de Abril de 1974. Os EUA, com o presidente Nixon debilitado pelo escândalo do “Watergate”, nada poderiam fazer para evitar que a URSS alargasse a sua influência em África, com as independências das ex-colónias, através do seu apoio à “Independência, já” e da sua influência em algumas cúpulas militares da Junta de Salvação Nacional.

gruposespeciais.blogs.sapo.p


A SOCIEDADE PORTUGUESA E A GUERRA COLONIAL – Parte 2

"...Os Homens só morrem quando a Pátria se esquece deles.."

(…continuação)

 
Monumento aos Mortos na Guerra Colonial - Lisboa

Como é do conhecimento geral, o Movimento do Capitães inicia-se como uma reacção corporativa a directivas do regime e veio, mais tarde, a introduzir a componente política, devido à derrota eminente das nossas Forças Armadas na Guiné-Bissau. A solução política, para o desfecho da Guerra Colonial, começou a ganhar força e há informações, que eu não posso confirmar, que o governo de Marcelo Caetano se preparava para reconhecer, forçado pelos generais António de Spínola e Costa Gomes, o direito da Guiné à autodeterminação e independência, de modo a evitar uma derrota militar, com todas as consequências que isso provocaria nas outras colónias, Angola e Moçambique.
Torna-se claro que esta tomada de posição obedecia a um projecto militar que consistia no reforço das Forças Armadas em Moçambique, onde a situação militar estava no limiar do ponto crítico, com os ataques da Frelimo no corredor da Beira/Manica.
A situação em Angola estava controlada, com a FNLA e o MPLA retirados para o Zaire e com a Unita a pautar as suas acções no sudoeste de Angola. Há que realçar que, nesta ex-colónia, a luta armada já há, bastante tempo, era mais uma luta fratricida entre os três Movimentos do que, propriamente, contra o Exército Colonial Português.
Depois deste meu exercício de memória, feito um pouco por alto neste “post”, uma vez que a situação de Moçambique irei abordá-la mais em pormenor, quando passar a descrever a minha actuação como GE, há que ter em consideração os seguintes aspectos de uma Guerra, pela qual era obrigatório passar, mas que, quase ninguém (os nossos militares) achava como sua:
A – Nunca, na nossa instrução militar, foi incutida a ideia de ir para África matar “pretinhos” indefesos;
B – Pelo contrário, foi-nos incutido um espírito de protecção às populações e qualquer desmando conhecido era severamente punido;
 
 O autor do Blog com um órfão de guerra - Niassa (Moçambique)
C – Muitos dos nossos militares prestaram serviço às populações, nomeadamente, no que diz respeito aos cuidados de saúde, à preparação de terrenos para aproveitamento agrícola, as chamadas “machambas”, na abertura de vias de comunicação, no ensino, na construção de habitações, no fornecimento de energia eléctrica, etc.;
D – O respeito pelos usos e costumes das diferentes etnias, além de ser uma constante, era, também, um ponto de convergência e de partilha. Era habitual a participação dos nossos militares nas festas organizadas pela comunidade local e existia reciprocidade, nomeadamente, na festa de Natal em que participava toda a gente;
E – É evidente que aconteceram coisas desagradáveis, o caso de Wiriamu é o mais conhecido e é, de facto, um crime de guerra, mas que não passaram de acções individuais de pessoas tresloucadas, porque nunca houve qualquer ordem de limpeza étnica e estou convicto de que, por mera hipótese, se uma qualquer ordem dessas fosse emanada, certamente que não seria cumprida.
Não é minha pretensão fazer qualquer branqueamento da Guerra Colonial, que, do meu ponto de vista, nunca deveria ter existido, mas a verdade é  que ela existiu e que constitui um período  muito negro da nossa História, devido à falta de visão, para não utilizar outros termos, dos nossos “pacóvios” governantes.
Por outro lado, nunca tivemos acesso a uma informação neutra, mas sim a informação contraditória das partes interessadas: A Rádio Moscovo e a Rádio Argel, por um lado e a, então, Emissora Nacional com o seu programa “A Rádio Moscovo não fala verdade” e as crónicas do jornalista Ferreira da Costa, sobre a situação em Angola.
Acabada a Guerra Colonial, o assunto passou a ser tabu e, infelizmente, não tivemos um Oliver Stone, para descrever aos portugueses a realidade cruel deste passado recente. A bibliografia existente quase não passa de testemunho pessoais, pelo que a sua integração no contexto histórico, torna-se difícil de apreender.
As duas séries produzidas pelo jornalista Joaquim Furtado para a RTP1, têm o valor que têm, mas não passam de testemunhos pessoais, quase sempre das mesmas pessoas, e que não passam de uma tentativa de comer o interior do melão sem lhe tirar a casca.
E será, do meu ponto de vista, por estes motivos que ainda existe uma grande clivagem entre os Partidos de Direita e os de Esquerda sobre esta temática e, além disso, uma grande parte da sociedade considerar que uma homenagem aos Mortos da Guerra Colonial ou às confraternizações de ex-combatentes são demonstrações de um espírito saudosista ou revanchista. Isto não corresponde, minimamente, à realidade. Há ex-combatentes em todos os quadrantes partidários, da extrema-direita à extrema-esquerda, mas há uma realidade inequívoca e que é a de que os partidos de esquerda, ao não conseguirem lidar com esta situação, a mesma tem sido aproveitada pelos partidos de direita.
 
Acho que é tempo de acabar com estas clivagens, a fim de que os nossos mortos possam descansar em paz e que os vários milhares de ex-combatentes, cujas vidas foram desfeitas pelos traumas de uma guerra injustificável, tenham direito a uma vida digna e sejam integrados numa sociedade que os rejeitou.

gruposespeciais.blogs.sapo.pt