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quarta-feira, 9 de abril de 2014

A MORTE COMO LUCRO - Proposta do Governo gera polémica sobre o “fim social” e o lucro no negócio dos funerais Servilusa não vê problema no facto de as IPSS poderem fazer funerais, desde que “sem a lógica de lucro”. Em 2012, o negócio das funerárias movimentou 189 milhões de euros.

Proposta do Governo gera polémica sobre o “fim social” e o lucro no negócio dos funerais

Servilusa não vê problema no facto de as IPSS poderem fazer funerais, desde que “sem a lógica de lucro”. Em 2012, o negócio das funerárias movimentou 189 milhões de euros.
Lino Maia garante que IPSS não querem fazer "concorrência" a funerárias PAULO PIMENTA

O presidente da Associação Nacional das Empresas Lutuosas (ANEL), Carlos Almeida, lamenta que a ANEL não tenha sido ouvida no âmbito da proposta de lei que prevê que as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) possam fazer funerais e garante que está a preparar um documento para entregar à Comissão de Economia e Obras Públicas e aos grupos parlamentares por considerar que “globalmente é muito má”. Se este dirigente questiona a razão pela qual as IPSS poderão passar a fazer funerais, a CNIS garante que o objectivo não é o "negócio".
Nesta quarta-feira, a proposta do Governo que pretende simplificar e desburocratizar o regime de acesso e de exercício de várias actividades de comércio, serviços e restauração vai ser discutida na generalidade na Assembleia da República.
Entre outros aspectos, prevê que a actividade funerária possa ser exercida também pelas IPSS ou entidades equiparadas, como as misericórdias, estipulando que nestes casos se devem reger pelos Estatutos das IPSS, pelo Código das Associações Mutualistas e “demais legislação específica aplicável às entidades de economia social”. Do regime de incompatibilidades definido pelo diploma ficam excluídas “as IPSS cujo enquadramento estatutário acolha o exercício da actividade funerária”.
Carlos Almeida considera que a proposta não é clara e recorda que a ANEL foi uma das proponentes, em 2001, do regime que obriga as funerárias a terem um funeral social, com um valor que não chega a 400 euros, para responder às necessidades dos mais carenciados. Por isso, não entende por que razão as IPSS querem agora prestar os mesmos serviços: “O sector social descobriu agora que também quer exercer a actividade funerária. Até 2001, não estavam lá a garantir este serviço social. Será que servir as pessoas socialmente desprotegidas é o único intuito?”, questiona, temendo que venham a “prestar todo o tipo de serviços”, o que considera injusto, porque têm “regalias” ao nível de impostos e subsídios que as funerárias não têm. O dirigente não põe “em causa” que as IPSS “possam vir para o sector” e fazer funerais, mas sublinha que, como têm estatutos que “não visam o lucro”, o devem fazer apenas com objectivos sociais e com recurso a “cotizações próprias”.
O presidente da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade (CNIS), Lino Maia, esclarece que o objectivo destas instituições não é o “negócio”, mas apenas perseguir um “fim social” junto do “público-alvo das IPSS”: “São pessoas que muitas vezes não têm retaguarda da família. Trata-se de proporcionar um funeral condigno, não de concorrência”, garante.
Já Paulo Carvalho, director de projectos e activos da Servilusa, uma das maiores do sector, ressalva que não lhe faz confusão que as IPSS façam funerais, desde que “sem a lógica de lucro”. “Tendo em conta a conjuntura económica, o facto de poderem exercer actividade neste nicho de mercado, com fins sociais, até pode ser positivo”, diz, adiantando que o preço médio de um funeral em Portugal ronda os 1500 euros.
Segundo dados do INE, em 2010 havia 1178 empresas ligadas a actividades funerárias e, nesse ano, o volume de negócios foi cerca de 179 milhões de euros. Em 2011, havia 1167 empresas e o volume de negócios rondou os 180 milhões. Em 2012, havia 1141 empresas e o volume de negócios era cerca de 189 milhões.
A proposta do Governo tem gerado polémica. A Associação de Agentes Funerários de Portugal já veio defender que abertura deste ramo de negócio ao sector social “é incompatível com a dignidade e a isenção que se pretende para o sector”. “Com que mais beneficia a entidade? Com a prestação dos cuidados ou com o falecimento?”, questiona. Já os presidentes da União das Mutualidades Portuguesas, da União das Misericórdias e da Confederação das Instituições de Solidariedade defendem que “a actividade funerária foi praticada normalmente durante séculos” por estas instituições e saúdam “o regresso a este tipo de actividade”.

Ucrânia anunciou que vai deixar de . bombear gás russo que abastece a Europa

Ucrânia anunciou que vai deixar de
. bombear gás russo que abastece a Europa

A Ucrânia anunciou, esta quarta-feira, que deixou de bombear gás russo para os depósitos subterrâneos que abastecem hidrocarbonetos à Europa, porque não aceita a subida do preço anunciada por Moscovo. 

"A partir desta quinta-feira não bombeamos mais gás" , disse o ministro da Energia da Ucrânia, Yuri Prodan, citado pelas agências locais.

Prodan sublinhou que Kiev não aceita o novo preço do gás russo que chega quase aos 500 dólares (362 euros) por mil metros cúbicos, razão pela qual a Ucrânia já recusou pagar o abastecimento referente ao mês de março.

De acordo com o ministro, a dívida respeitante a março ascende a pelo menos 550 milhões de dólares (398 milhões de euros).

O governo de Kiev, durante as negociações, mostrou-se disposto a pagar 268 dólares (194 euros) por mil metros cúbicos, o valor da tarifa concedida por Moscovo às antigas autoridades ucranianas.

Entretanto, a Rússia já avisou que se verifica uma "preocupante descida de gás natural nos depósitos subterrâneos ucranianos", construídos no país e que garantem o abastecimento de gás à Europa.

A empresa russa Gazprom, que detém o monopólio do setor, também alertou que o esvaziamento dos depósitos subterrâneos pode afetar o envio de gás russo para a Europa no inverno.
 
A Gazprom anunciou na quinta-feira passada o aumento do preço do gás para a Ucrânia, que vai passar a custar, a partir do final de abril, 485,5 dólares (351 euros) por mil metros cúbicos.


HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL 20ª PARTE - O SEQUESTRO DO SANTA MARIA - CAMILO MORTÁGUA RECORDA OS MOMENTOS - VÁRIOS ARTIGOS, OPINIÕES DIFERENTES-

O paquete Santa Maria


LXVII – 22 de Janeiro de 1961 – Assalto ao
Santa Maria

O navio de passageiros, movido a turbinas, denominado Santa Maria, foi encomendado à Société Anonyme John Cockerill, um estaleiro belga de construção naval, em Abril de 1951. Integrado no Plano de Renovação da Marinha de Comércio (o célebre “Despacho 100” do então ministro Américo Tomás), o seu lançamento à água aconteceu em 1953 e foi entregue à Companhia Colonial de Navegação para integrar as suas rotas regulares.
00 - santamaria 00
O paquete Santa Maria, que teve o seu nome derivado do patrono escolhido, Santa Maria de Belém,  ficou destinado à ligação atlântica entre Portugal e as Américas, do Norte, Central e do Sul. Teria uma existência tão anónima e vulgar, como qualquer outro paquete, não fora o episódio acontecido no Mar das Caraíbas, pela madrugada de  22 de Janeiro de 1961, passam hoje 53 anos.
Nesse dia, inesperadamente, aconteceu o seu sequestro em pleno mar, realizado00 - foto 01por um grupo de 23 comandos portugueses (12) e espanhóis (11), integrando a denominada Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação (DRIL), que fazia oposição política activa aos governos ditatoriais de Salazar e Franco, com ligações ao general Humberto Delgado. Sob o comando do ex-capitão Henrique Galvão, antigo quadro do regime salazarista, esse grupo, que embarcara no navio, com armas escondidas, tomou conta deste em episódio que se saldou na desnecessária morte de um oficial da sua guarnição e ferimentos em outros membros da mesma. Após alguns rocambolescos pormenores, a embarcação entretanto crismada de Santa Liberdade, com os seus 600 passageiros e 350 tripulantes, acabou por fundear no porto do Recife, Brasil, a 2 de Fevereiro.
Este episódio, o primeiro sequestro político de um transatlântico na História contemporânea, constituiu um sinal visível da oposição a Salazar, tendo sido um enorme “comício” público à escala mundial.
O sequestro, cuidadosamente preparado e executado em estilo militar, fora denominado Operação Dulcineia, em alusão à quimérica dama amada por D. Quixote. Com efeito, o nome revelou-se adequado, pois frustrou-se o essencial, que era o de os revolucionários rumarem à ilha de Fernando Pó, aí se apoderando de uma canhoneira e de armas pesadas da guarnição militar espanhola, seguirem depois para a baía de Luanda, tomarem o poder na colónia portuguesa de Angola, instalarem aí um “governo provisório” e fazerem irradiar a sublevação armada contra as duas ditaduras peninsulares. Uma quixotesca quimera, com efeito…
00 - mapa 01
Mas foi um enorme susto para o regime de Salazar. Os órgãos de informação portugueses foram sujeitos a uma férrea censura que não permitiu à opinião pública conhecer o que, de facto, se passava.
A verdade só muito mais tarde seria conhecida. Salazar tentara desesperadamente00 - jornaisque os seus aliados da NATOcapturassem o navio, mas apenas os Estados Unidos acederam ao pedido. E o Santa Maria viria a ser denunciado por um gesto humanitário dos revolucionários, ao decidirem desembarcar os feridos na Ilha de Santa Lúcia, nas Antilhas.
Os revolucionários receberam asilo político no Brasil, onde os passageiros foram transferidos para o paquete Vera Cruz, regressando a Lisboa, após várias escalas. O Santa Maria, que largou do Recife e 7 de Fevereiro, atracaria na gare da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara a 14, embandeirado em arco, como se de uma festa se tratasse…
00 - santamaria 23Teatralmente, Salazar em pessoa recebeu o barco, clamando no seu discurso: “Obrigado, portugueses. O Santa Maria está connosco“.
Porém, coincidindo com estes acontecimentos, a partir de 4 de Fevereiro, tinham sido desencadeados no Norte de Angola sérios tumultos que dariam origem à Guerra Colonial.
Em termos mediáticos, o caso mobilizou meios nunca empregados até aquela altura, como por exemplo a utilização de pára-quedas por um fotógrafo, Gil Delamare, ao serviço da revista Paris-Match, que realizaria uma inédita reportagem, conjuntamente com o jornalista Dominique Lapierre.
O ano de 1961, que foi verdadeiramente desastroso para o regime de Salazar, não terminaria sem mais uma proeza organizada por Henrique Galvão, ainda que não protagonizada pessoalmente pelo próprio.  A Operação Vagô consistiu no sequestro de um avião da TAP, o Mouzinho de Albuquerque, tomado em pleno voo entre Casablanca e Lisboa, por 6 elementos de um comando da Frente Antitotalitária dos Portugueses Livres no Estrangeiro. Estes obrigaram o piloto a sobrevoar Lisboa, Barreiro, Beja e Faro, lançando milhares de panfletos assinados por Henrique Galvão sobre essas localidades.00 - jornal 02
Henrique Galvão esperou os seus homens em Tânger, Marrocos, onde o avião seria forçado a aterrar, sem que se tivesse processado qualquer escusada violência, como no caso do Santa Maria.
O ex-capitão ficaria a residir habitualmente no Brasil. Continuou a dedicar-se à escrita, sua paixão de sempre, e a encontrar-se regularmente com opositores ao Estado Novo, sempre numa perspectiva de voltar a conspirar, pela ânsia de ver Portugal tão longe do salazarismo como do comunismo, que igualmente detestava. Mas já não pode gozar o 25 de Abril, pois morreu em Junho de 1970, aos 75 anos, vitimado pela doença de Alzheimer.
Quanto ao outro protagonista central do episódio, o paquete Santa Maria, também não conheceu um destino muito feliz. Em 1973, ao sair a barra do Tejo para mais uma viagem de rotina, sofreu uma avaria que o impediu de prosseguir a rota prevista. Embora ainda fosse bastante novo -tinha apenas 20 anos de uso- os responsáveis políticos e os gestores do regime não foram capazes de prever o seu potencial no mercado dos cruzeiros de luxo que já se tinha iniciado. Preferiram vender o navio ao desbarato a um sucateiro naval de Taiwan, na China, que o desmantelou.
00 - santamaria 05bToda esta história, com os seus pormenores e as suas sequelas, é muito interessante. Possuo algum material alusivo nos meus arquivos, nomeadamente um exemplar do jornal O Século de 24 de Janeiro de 1961, com o inicial relato do acontecimento (versão censurada), assim como a revistaParis Match, de 4 de Fevereiro desse ano (versão livre). Não me lembro de como consegui obter este raro exemplar, cuja entrada foi vedada em Portugal.
Por tudo isto, na sequência da presente anotação da data de hoje, dedicarei em breve uma curta série de artigos à Operação Dulcineia, onde, entre outros dados curiosos, partilharei a digitalização integral das páginas a ela dedicadas pelo jornal e pela revista.
largodoscorreios.wordpress.com


Assalto ao Santa Maria - Camilo Mortágua recorda todos os momentos

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O Jornal de Estarreja – Passou a sua infância em Salreu. Que recordações guarda desta freguesia?

Camilo Mortágua – É verdade, vivi no Ribeiro da Ladeira, na casa do António Salsa, que era tio do meu pai. Recordo-me de ir nadar para o rio Antuã com outras crianças do meu tempo e de fazermos as tapagens no verão para o rio transbordar e alagar os campos. Na parte baixa do rio apanhávamos barbos, enguias e cortávamos lenha na margem para fazer as fogueiras de S. João. E lembro-me também de vários apelidos curiosos das famílias do lugar onde vivia. Enfim, as recordações são mais que muitas.

JE – Tinha aquando do assalto ao Santa Maria alguma simpatia ou actividade política? E depois disso?

CM – Para responder a essa pergunta tenho que contextualizar a minha situação. Emigrei para a Venezuela porque vivia-se em Portugal com necessidades, não havia perspectivas de vida. Foi em contacto com as pessoas daquele país comecei a tomar consciência política e até participei no derrube do ditador Peres Ximenes, em 1958.

JE – Como surgiu a oportunidade de participar no assalto ao paquete português e que razões o levaram a tomar parte da iniciativa?


CM – Logo depois do derrube do ditador venezuelano os portugueses anti-salazaristas começaram a organizar-se, e fundou-se em Caracas a Junta Patriótica Portuguesa, a convite da qual o Capitão Henrique Galvão, então exilado, veio para Caracas. Foi nessa altura que o conheci. A partir de então, encetando contactos com outros portugueses anti-salazaristas e espanhóis anti-franquistas, acabámos por fundar o DRIL, em 1959. É no quadro dessa organização que se começou a organizar a operação do Santa Maria.

Sabíamos que estando nós do outro lado do Atlântico não podíamos derrubar nenhuma das ditaduras ibéricas, e por isso já que não podíamos vir a Portugal ou a Espanha pensámos que uma parte de Portugal podia ir ao nosso encontro, e foi o que aconteceu com o Santa Maria.

JE – Em que medida o assalto marcou a sua vida posterior?

CM – Marcou totalmente. Foi a entrada na vida clandestina, que durou até ao 25 de abril. É claro que cheguei a vir a Portugal, mas sempre clandestinamente, e embora vivesse fora do país sabia que era observado pela polícia dos países onde estive.

Após o assalto ao Santa Maria passámos a viver no Brasil, até ao final de 1961. Em Novembro desse ano viajámos a Marrocos, onde assaltámos um avião da TAP, que veio distribuir a Portugal panfletos e propaganda para as eleições desse ano. De Marrocos voltámos para o Brasil, onde permaneci de 1961 a 1966. Passei então para França e ali comecei a organizar aquilo que veio a ser a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), a qual ainda em 1966 realizou um assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, pretendendo com isso angariar fundos para a luta contra a ditadura. De volta a França envolvi-me numa tentativa de assalto à Covilhã, onde pretendíamos contagiar os populares com o nosso espírito revolucionário, alastrando-se daí o mesmo espírito a todo o povo português. Foi em França que permaneci até ao 25 de Abril.

JE – Que memória guarda de Henrique Galvão, como homem e na sua acção durante o assalto?

CM – Era um homem como há poucos hoje: um misto de intelectual de grande porte e de homem de acção. Escreveu peças de teatro, romances, ... e ao mesmo tempo sentia-se bem era praticando caça grossa e em aventuras. Acho que era sobretudo um asceta, e além disso um homem com 65 anos que fazia um crol de 4 piscinas enquanto eu só fazia uma, e cuidava muito da alimentação.




Durante o período de preparação do assalto ao Santa Maria a cama dele era uma esteira em cima do chão. Era incapaz de reivindicar para si qualquer privilégio em relação aos homens com quem trabalhava, antes pelo contrário. Nesse sentido era o total oposto do General Humberto Delgado, que fazia por mostrar à distância ser General. Galvão, pelo contrário, era um Bon Vivant da Belle Epoque. É certo que Delgado era um homem corajoso para a acção, mas funcionava por impulsos, um pouco “meia bola e força”. Já Galvão pensava e preparava mais as suas acções.



Ao contrário do que por vezes se pensa o General Delgado só soube do assalto ao Santa Maria quando o paquete já havia sido tomado. Nós não tínhamos total confiança no seu bom senso, pelo que mantivemos sempre o receio dele não se saber controlar face à comunicação social.

JE – Como eram as relações entre o Capitão Henrique Galvão e o General Humberto Delgado?

CM – O Capitão Galvão chegou a dizer ao General Delgado que “você não pode ser general e cabo ao mesmo tempo” e “você é o presidente eleito, por isso tem legitimidade para comandar as tropas, mas sou eu que as dirijo”. Mas é claro que Galvão sabia que o prestígio internacional vinha para o comandante das tropas. Por outro lado o General Delgado também percebeu que não ia a lado nenhum se embora presidente eleito não actuasse, e daí o fundo da discórdia entre os dois.

Evidentemente na leitura política o General Delgado sabia que não se podia comparar com o Capitão Galvão. Enquanto este escrevia para as Nações Unidas e outras forças internacionais, noite e dia, o General Delgado não tinha perfil para isso. Teriam sido os dois homens absolutamente excepcionais se apesar das suas divergências tivessem cooperado um com o outro.

O que aguentou as boas relações durante algum tempo foi o sentimento de gratidão de Henrique Galvão. Foi ele que da prisão impulsionou a candidatura à Presidência da República de Humberto Delgado, pois este tinha sido o único oficial que tinha tido coragem de o visitar na prisão. Foi realmente isso que fez com que as boas relações durassem algum tempo, mas de facto tinham grandes diferenças na maneira de estar na vida.

Henrique Galvão esperava ser o homem dos americanos para a substituição do regime, nas várias ideias que defendia e na sua posição contra o comunismo. A única coisa em que se enganou foi em não viver o tempo suficiente para isso se concretizar.

JE – Como era o ambiente dentro do navio, entre os 24 companheiros e entre os passageiros e tripulantes?


CM – Perfeitamente normal. Por muito pouco lógico que isso pareça era um ambiente de festa, com bailes e música. Havia americanos a bordo que parecia ter-lhes saído o totoloto, pois começaram logo a vender fotografias à imprensa quando se estabeleceram relações com o exterior.

Nós éramos 24 mas tínhamos que dormir, de modo que não havia mais de doze em actividade de cada vez. Havia um grupo de chefias, cerca de oito homens, tínhamos períodos de descanso de quatro horas e mantínhamos constante rotação entre as nossas tarefas. O que manteve a situação constante não foram os 24 homens mas os rumores que fizemos passar dentro do navio: que tínhamos mais homens entre os passageiros, que havíamos embarcado uma caixa cheia de armas, etc.. E também teve um efeito de dissuasão o acidente inicial que resultou na morte de um homem.

Eu não convivi muito com os passageiros, pois fazia parte do grupo que controlava a casa das máquinas, o coração do barco. A maior parte dos que ali trabalhavam eram cabo-verdianos e receberam-me dizendo “até que enfim que é dia de festa”. Até passei a fazer as minhas refeições com eles, não tendo tido muito contacto com os passageiros.

JE – Encontrou-se com algum estarrejense dentro do navio?

CM – Não. Fiquei agora a saber pelo Jornal de Estarreja dos estarrejenses a bordo. De facto sempre admiti que houvesse muitos lá dentro, pois sabia haver daqui muitos emigrantes na Venezuela, mas era difícil saber quem eram os estarrejenses e depois encontrá-los no meio de quase mil pessoas.



HENRIQUE GALVÃO. (1895 – 1970). Oficial do Exército (Capitão), natural do Barreiro. “Foi um dos cadetes da revolução de Sidónio Pais” e depois “um dos mais entusiastas elementos da revolução de 28.V.1926” (Gr. Enc. Port. e Bras.). Escreveu diversos livros, sendo de destaque os relativos às colónias portuguesas e à caça nesses mesmos territórios («Da vida e da morte dos bichos», «Outras terras, outras gentes», etc.). Foi inspector superior da Administração Colonial, Governador de Huíla, director das Feiras de Amostras de Luanda e Lourenço-Marques, director da Exposição Colonial do Porto (1940), director da Emissora Nacional de Rádiodifusão, director da Exposição Colonial dos Centenários, realizador das Comemorações Centenárias de Guimarães e do Cortejo do Mundo Português, etc. Tinha o grande-oficialato das ordens de Cristo e espanhola da República, o oficialato de Avis e a comenda de Leopoldo II da Bélgica.

No final da década de 40 incompatibilizou-se com o Estado Novo, discordando do modo como eram governadas as colónias portuguesas, tendo manifestado a sua posição num polémico discurso feito na qualidade de deputado à Assembleia Nacional. Preso em 1952 e novamente em 1958, por razões políticas, escapou da prisão e exilou-se na Argentina. Planeou e dirigiu em 1961 o Assalto ao Santa Maria.

CAMILO TAVARES MORTÁGUA. Nasceu a 29.1.1934 em Ul (Oliveira de Azeméis), de onde era natural a sua mãe. Dos 2 aos 13 anos viveu em Salreu, terra da naturalidade de seu pai (família Mortágua).

Emigrou para a Venezuela e viveu depois em vários países, estando actualmente radicado no Alentejo. A 10 de Junho de 2005 foi-lhe atribuída a condecoração de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, pelo Presidente da República, Jorge Sampaio. Percurso biográfico completo em http://camilomortagua.no sapo.pt/ e na entrevista desta página.




ESTARREJENSES A BORDO. Conforme já noticiámos, além dos 24 homens, com diferentes sensibilidades políticas, que tomaram de assalto o Santa Maria, encontravam-se no paquete diversos estarrejenses, que só por fatalidade do destino eram seus tripulantes ou passageiros naquele momento. Conseguimos identificar os seguintes, a acrescentar à lista que publicámos no jornal de 6.1.2006:

- Evangelina Silva (de Salreu, já entrevistada no último número do Jornal de Estarreja)

- Agostinho Jorge Oliveira Henriques (do Casal – Salreu)




O CÉLEBRE SEQUESTRO DO PAQUETE SANTA MARIA

1961, fotografia a preto e branco - Fototeca do Palácio Foz, Lisboa, Portugal


Fotografia do regresso a Portugal do paquete Santa Maria, em 17 de Fevereiro de 1961, quando se preparava para acostar no Cais de Alcântara.
O navio, propriedade da Companhia Colonial de Navegação, foi tomado por oposicionistas ao governo salazarista em 22 de Janeiro de 1961, tendo acabado por fundear no porto do Recife, no Brasil, em 2 de Fevereiro seguinte.
O principal responsável pelo desvio do paquete foi o capitão Henrique Galvão.
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O célebre seqüestro do Santa Maria

Por Elísio Gomes Filho
No início da década de 50 do século passado, a estatal portuguesa, a Companhia Colonial de Navegação, encomendou aos estaleiros ingleses, dois novos transatlânticos, que seriam símbolos do regime salazarista. Tratavam-se do Vera Cruz e do Santa Maria, que entraram em serviço respectivamente em 1951 e 1952. Ambos deslocavam 20.906 toneladas e desenvolvia uma velocidade de cruzeiro de 18 nós. Se os dois já eram bastante conhecidos, o Santa Maria tornar-se-ía o mais famoso dos paquetes portugueses, quando no início do ano de 1961, foi alvo de seqüestro por parte de um grupo de revolucionários, constituído de cidadãos portugueses e espanhóis que então faziam oposição política aos governos ditatoriais de Antonio de Oliveira Salazar e de Francisco Franco, sobre os quais a mídia censurada por Salazar proclamaria que se tratava de uma quadrilha de bandoleiros, que havia assaltado o Santa Maria.




Em verdade eles viriam protagonizar o primeiro seqüestro político de um transatlântico, o primeiro seqüestro político da história contemporânea.
Além do mais, o seqüestro do Santa Maria, entrou para os anais da Ciência Política, ao introduzir a prática de seqüestros de navios e aviões com fins políticos. E apesar de todas as catástrofes que direta e indiretamente iriam inspirar mais tarde, em 10 novembro de 1961 seria a vez de Hermínio da Palma Inácio chefiar um grupo de cinco revolucionários armados (entre eles se encontrava uma mulher, Helena Vidal), destinado a desviar o Mouzinho de Albuquerque - um avião Super-Costellation da TAP - entre Casa Blanca e Lisboa, a fim de largarem sobre as cabeças dos cidadãos portugueses 100 mil panfletos contestando as eleições legislativas daquele ano.
Era a efetivação da Operação Vagô, e seria a primeira ação do gênero no mundo. Consta que para a ira de Salazar, aquele grupo de seqüestradores viajou posteriormente para o Brasil.

Um certo capitão Galvão

O Santa Maria, tal como o Vera Cruz, costumava fazer seus serviços transatlânticos, através de uma linha regular entre os portos da Península Ibérica e os portos brasileiros e os do Rio da Prata. Linha pela qual, o paquete português, além de carga, transportou centenas e centenas de imigrantes.
Mas no mês de janeiro de 1961, o navio fora fretado para realizar uma excursão turística pelas águas do Caribe, onde tomou embarque 612(o número de passageiros varia entre as fontes) passageiros de diferentes nacionalidades, sendo que a grande maioria consistia de turistas norte-americanos. O navio, com cerca de 350 tripulantes a bordo estava sob o comando do capitão Mario Simões.
Na frente do grupo de seqüestradores, encontrava o português Henrique Galvão, que então com 65 anos de idade, estava exilado na Venezuela desde 1959. Nascido em 1895, Galvão foi militar do Exército, deputado salazarista e inspetor superior da administração colonial.





Encontra-se registrado que ele se tornara dissidente, por ter denunciado num relatório oficial o regime de trabalho forçado nas colônias portuguesas. Salazar cassou o seu mandato parlamentar, demitiu-o da função pública e incriminara-o, levando-o ao cárcere comum na penitenciária de Lisboa, de onde se evadiu. O capitão Galvão não gostava do imperialismo norte-americano, mas admirava a democracia dos EUA. Era anticomunista. E como escritor deixou algumas obras, sobretudo de temas africanos. Em suma, Henrique Galvão, depois de ter sido adepto fervoroso da ditadura salazarista, aderiu à oposição democrática e celebrizou-se pelo seqüestro do Santa Maria. Consta que foi dele o plano de seqüestrar o avião da TAP em 1961. Faleceu em São Paulo, em 1971.



Eram os seqüestradores do Santa Maria, membros da DRIL (Direção Revolucionária Ibérica de Libertação). Algumas fontes, principalmente as de autores espanhóis, informa que o comando do DRIL estava sob o comando de três homens, Henrique Galvão, português e os espanhóis (galegos) Soutomayor (José Fernández Vásques) e José Velo Mosquera - que também estava exilado na Venezuela. Mas sobre os ombros de Galvão, recaiu a liderança sobre o grupo no seqüestro do navio português. Galvão e mais 23 revolucionários adquiriram vagas para a excursão turística no Santa Maria e assim nele embarcaram, parte em La Guiará (Venezuela) e parte no porto de Curaçao (Antilhas holandesas).

O Seawolf, um submarino nuclear na caça do transatlântico de Salazar
O navio rumava em direção da Flórida, quando na madrugada do dia 22 de janeiro de 1961, (1 hora e 45 minutos), os revolucionários ibéricos desfecham a ação de seqüestro, denominada Operação Dulcineia, nome que teria sido inspirado pelo general Humberto Delgado, escolhido em homenagem à amada mulher de Dom Quixote de La Mancha. Consta que no plano original o navio deveria dirigir-se a Benguela a fim de ali se juntar à oposição angolana e portuguesa, reunindo forças para proclamar a partir de Angola, um governo democrático no exílio. Outra versão sobre o objetivo do plano, diz que o navio deveria rumar para a capital angolana para coincidir com o levante anticolonialista africano.
Em verdade, deflagrou-se em 4 de fevereiro de 1961 em Luanda, o primeiro levante contra as autoridades portuguesas, quando revolucionários angolanos invadiram prisões para libertar os seus companheiros; uma ação que foi duramente punida pelas forças de Salazar. A data se tornou o dia nacional angolano, marcando o início da guerra de independência que duraria mais de dez anos.
Mas segundo o relato de Arajaryr Moreira de Campos, secretária do general Delgado (ambos seriam assassinados em fevereiro de 1965 pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a PIDE, criada por Salazar em 1946), o plano original de rumar para a África, como aprovada pelo general oposicionista foi levianamente traído, tendo o navio apenas feito reclame no Brasil, onde atracou depois de sua odisséia no Atlântico.
Na terça-feira do dia 24 de janeiro de 1961, os aparelhos de telegrafia das agências de notícias internacionais, registraram uma informação que se transformaria em assunto de primeira página dos principais jornais do mundo. A informação dizia que um grupo de pessoas feridas havia sido desembarcado em uma baleeira pertencente ao Santa Maria, na ilha de Santa Lúcia – então possessão britânica nas Pequenas Antilhas. A informação mencionava também que o grupo - constituído de tripulantes do navio português – fora ferido quando os revolucionários assumiram o controle do navio. Posteriormente, o mundo iria saber que a única vítima fatal seria o terceiro piloto João José Nascimento, pois se encontra registrado que ele ao oferecer resistência, foi morto à bala, cujo corpo veio a ser preservado na câmara frigorífica do navio.
Entretanto o que contribuiu ainda mais para que o insólito acontecimento ocupasse as primeiras páginas de todos os jornais, foi devido à intervenção do presidente Jhon Kennedy, que contrariamente à opinião de Salazar, o considerou como um protesto político e não como um ato de pirataria.

Um ousado para-quedista da Paris-Match se juntou aos revolucionários
Logo o Santa Maria seria localizado por um avião de patrulha dos EUA, ao norte das Guianas. Estava então comprometido o objetivo do plano de seqüestro em atingir a costa africana. O navio navegava em rumo sueste. No dia 25, um submarino, o Seawolf, já estava acompanhando a navegação do Santa Maria. No dia 27, soube-se que unidades navais dos EUA procuravam interceptar o paquete lusitano. E no dia seguinte, já se sabia que aviões navais estavam sobrevoando permanentemente o Santa Maria. E a Marinha dos EUA, chegou a deslocar para a Recife, nada menos do que 12 aviões de patrulha Super-Constellations.
O capitão Henrique Galvão, respondendo à mensagem enviada pelo comandante das Forças Navais norte-americanas no Atlântico Sul (Uscomsolant), vinha afirmar que a sua intenção era de fazer o desembarque dos passageiros e prosseguir a viagem em direção da então província ultramarina de Angola. Nessa ocasião, os revolucionários ibéricos já enviavam mensagens pelas quais saudavam o povo, a imprensa e o presidente eleito do Brasil - o instável e desconcertante Jânio Quadros - que foi empossado no dia 1º de fevereiro de 1961, para que menos de sete meses depois, viesse a renunciar e atirar o país numa grave crise política.
No domingo do dia 29, ao confirmar que o paquete seqüestrado navegava em direção da costa nordestina, o comandante do 3° Distrito Naval, ordenou que a corveta Caboclo, sob o comando do então capitão-tenente Aguinaldo Aldighieri Soares, largasse de Natal, rumo a Recife.
No dia 31 de janeiro, ao largo da costa pernambucana lá estava ele, o Santa Maria, que exibia grandes faixas com a expressão “Santa Liberdade” que vinham encobrir em cada lado do navio, o seu verdadeiro nome. Galvão então havia rebatizado o paquete. Havia na área, três contratorpedeiros norte-americanos, o rebocador portuário Estácio Coimbra que em seu bordo encontrava-se repleto de fotógrafos, repórteres e cinegrafistas que haviam embarcado em Recife e a corveta brasileira Caboclo.
Nos céus, um avião de patrulha sobrevoava a área e tinha aparecido um pequeno avião civil, do qual saltou de pára-quedas o jornalista Dominique Lapierre da famosa revista francesa, Paris-Match. O astuto francês ficou flutuando no mar à espera de ser resgatado pelos norte-americanos e assim o foi e acabou sendo levado de lancha para bordo do Santa Maria. A bordo do paquete português, o contra-almirante Allen Smith havia tentado inutilmente negociar com os revolucionários o desembarque dos passageiros, que como dito acima, eram constituídos em sua maioria por turistas norte-americanos.
A negociação foi infrutífera porque certamente os membros da DRIL tinham pelo menos três objetivos em mente: queriam ter como interlocutores, as autoridades brasileiras e não os militares que representavam o governo Kennedy; queriam reter ao máximo a bordo do paquete, os turistas, assim para atrair por mais tempo a atenção da opinião pública internacional, visando obviamente enfraquecer politicamente os governos franquista e salazarista e por último, queriam dialogar com o governo Jânio Quadros (a ser empossado no dia seguinte) e não com o presidente que estava para deixar o poder, Juscelino Kubitschek. Ora, consta que no final de 1960, Jânio Quadros em visita a Caracas, havia se encontrado com o exilado Henrique Galvão.

Salvem-nos: uma mensagem escrita em cardápios

O Santa Maria então passou a navegar ao longo da costa brasileira, mantendo cerca de 20 milhas de distância, indo e vindo entre os paralelos de Ponta de Pedras e de Tamandaré. E assim ficou o navio português até próximo das 9 horas do dia seguinte, sempre acompanhado pelos navios militares, que lhe ficavam a ré.
Na manhã (cerca das 9 horas) do dia 1° de fevereiro, enquanto que em Brasília se sucediam os eventos da passagem da faixa presidencial, o Santa Maria começa a rumar em direção do porto de Recife, e pelas 11 horas, fundeou a três milhas dos molhes daquele porto. Antes disso, por volta das 9 horas e 30 minutos, o vigia da corveta Caboclo que seguia o Santa Maria de perto, avistou um periscópio pelo través de boreste. Pelas 10 horas, o vigia voltou a informar que um submarino encontrava-se na superfície. Chamados a fala pelo holofote da corveta brasileira, os norte-americanos responderam: USS Seawolf.
Pela tarde daquele mesmo dia, uma delegação transportada pela Caboclo foi a bordo do Santa Maria. A delegação chefiada pelo capitão dos Portos era constituída por um representante do novo ministro das Relações Exteriores, por um capitão-de-fragata fuzileiro naval que representava o novo Ministro da Marinha e do secretário de segurança do estado de Pernambuco. Por cerca de duas horas, a delegação passou a negociar com os seqüestradores em nome do novo governo brasileiro, mas não conseguiu deles, o desembarque dos passageiros. Ora, os revolucionários ibéricos passavam a ganhar ainda mais espaço na mídia internacional. No dia seguinte, volta à delegação ao Santa Maria e novamente a negociação não findou em um acordo favorável aos passageiros e tripulantes que a essa altura já jogavam em direção do convés da Cabocla, cardápios dos restaurantes do navio, tendo neles as seguintes palavras escritas: “salvem-nos”, “queremos desembarcar”, “está faltando água”, “pedimos socorro às autoridades brasileiras”.

Metralhadoras, facas e facões, depuseram

No início da tarde do mesmo dia 2 de fevereiro, a delegação reembarcou na Caboclo. E logo após o seu transbordo para o Santa Maria, a tripulação da corveta brasileira, constataria a péssima situação emocional que já tomava conta dos ocupantes do paquete português; pois além de continuarem a lançar as mensagens com dizeres aflitivos, os passageiros, numa atitude de inconformismo, começaram a jogar sobre a corveta, estofados. Logo em seguida, dois garçons portugueses se atiraram no convés do navio brasileiro, ao escapulirem através das estreitas vigias localizadas bem acima. Para evitar que outros seguissem o exemplo, o comandante da Caboclo, se afastou do paquete e mandou trazer em sua presença, os dois fugitivos, eles então disseram que queriam ser “presos pela polícia brasileira”, e o oficial por sua vez, respondeu que assim eles estavam presos e mandou escondê-los navio abaixo, ao mesmo tempo em que os tripulantes da Caboclo passavam a escutar um coro que ressoava lá de cima do Santa Maria: “fica, fica, fica”.
Quando a delegação voltou a descer na Caboclo, trazia afinal a notícia de que os revolucionários concordaram com a entrada do Santa Maria no porto. O governo brasileiro reconhecia que o navio estava em poder dos revolucionários ibéricos, o que era parte do acordo que assim permitiu que todos os ocupantes fossem desembarcados. Após o fundeio, embarcações retiraram os passageiros e suas bagagens, logo em seguida foi a vez da tripulação. Os revolucionários permaneceram a bordo. A viagem para Angola terminava ali. E os ibéricos permitiram que uma equipe de militares da Base Naval de Recife fosse a bordo a fim de guarnecer as máquinas e outros equipamentos vitais, também um pelotão de fuzileiros subiu a bordo com a missão de ajudá-los na guarda do paquete e um capitão-de-corveta foi enviado para servir como oficial de ligação.
Sexta-feira, 3 de fevereiro de 1961. O comando do 3° Distrito Naval acertou com os revolucionários a entrega do Santa Maria à Marinha do Brasil, em troca de asilo político em território brasileiro, a cada um deles. No final da tarde, na presença de jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas nacionais e internacionais, depois da inusitada cerimônia da passagem de comando do Santa Maria, do capitão Galvão para o capitão-de-corveta Thales, os revolucionários em coluna por um, dirigiram-se ao salão nobre, onde sob os flashes das máquinas fotográficas, foram depositando suas armas sobre um sofá, as quais consistiam de algumas poucas metralhadoras, escopetas, pistolas, revólveres, facas e facões. Em seguida, desceram, e se alojaram em uma embarcação portuária que os levou para o cais.
No dia seguinte (4 de fevereiro), com o Santa Maria já atracado, foi realizada a bordo uma cerimônia em que foi lavrado e assinado por diplomatas brasileiros e portugueses um termo de transferência do paquete para a jurisdição portuguesa. O então adido das Forças Armadas de Portugal em Brasília recebeu oficialmente o navio e o entregou ao representante de seu armador, a Companhia Colonial de Navegação.
No Vera Cruz embarcou os passageiros e o navio português largou do porto de Recife no dia 5 de fevereiro.

Galvão morto, Santa Maria desmantelado e o regime de Salazar, deposto
No dia 21 de abril de 1961, a ONU condenaria a política colonialista africana de Salazar.
Uma década depois, ou seja, em 1971, com 76 anos de idade Henrique Galvão morreria no Brasil. Em 1973, na saída da barra de Lisboa, o Santa Maria sofreu graves avarias. Após o cancelamento dessa viagem, ele é vendido para Formosa, onde foi desmantelado. Em 25 de abril de 1974, um movimento das Forças Armadas, derrubou o regime que vigorava em Portugal desde 1926. Salazar, não estaria vivo para vivenciar a chamada Revolução dos Cravos que derrubaria o seu Estado Novo, pois tinha falecido em 1970, aos 81 anos de idade. Em 1975, no dia 11 de novembro, Angola conquistaria a sua independência.
Em 1975, também, Franco deixaria de viver.
No ano de 2000, o jornalista e escritor espanhol Miguel Bayón, viria a escrever um livro com o título Santa Liberdade. Trata-se de uma ficção baseada na histórica viagem do Santa Maria. O jornalista espanhol, a narra como sendo uma aventura quixotesca, onde um punhado de sonhadores julgou poder destruir sozinhos as grilhetas de duas ditaduras que já não existem mais.
Em abril de 2005, Margarita Ledo Andión lançou um filme sobre a história do seqüestro do Santa Maria.


Do 'Santa Maria' para o mundo o "maior comício" anti-Salazar


 
Do 'Santa Maria' para o mundo o "maior comício" anti-Salazar

Há 50 anos, não havia redes sociais, mas a tomada de um paquete com 600 passageiros e 350 tripulantes por um punhado de 23 revolucionários mal armados teve o efeito de um comício à escala planetária: a comunidade internacional virou as costas a Salazar.
"Se não foi outra coisa", o assalto ao paquete português "Santa Maria", na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, no mar das Caraíbas "foi o maior comício do mundo contra Salazar, foi um comício à escala planetária, foi um sufrágio mundial à credibilidade do regime fascista". Camilo Mortágua, então com 27 anos, foi um dos 12 exilados políticos portugueses em Caracas, Venezuela, a embarcar na aventura do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL). Com 11 espanhóis, idealizaram apossar-se do navio, rumar à ilha de Fernando Pó, apoderar-se de uma canhoneira e de armas da guarnição militar espanhola, apontar a Luanda, assumir o poder na colónia portuguesa, instalar um governo provisório e irradiar a sublevação armada contra as ditaduras peninsulares.
Liderados pelo capitão Henrique Galvão, importante quadro dissidente do regime e delegado plenipotenciário do general Humberto Delgado (outro dissidente, depois de ter ocupado destacados cargos), derrotado na farsa das eleições presidenciais de 1958,  os revolucionários acabariam por ver frustrados os seus objectivos. Mas não completamente os políticos imediatos. "Pretendia-se uma operação com impacto", conta Mortágua [ler entrevista]. E teve: a "Operação Dulcineia" - em alusão à quimérica dama do D. Quixote ("D. Quixote de la Mancha") de Cervantes - convocou a imediata atenção dos média de todo o Mundo, que se precipitaram a enviar repórteres.
Com os jornais do país submetidos a férrea censura e manipulados pelas notas oficiosas do Governo, apenas os estrangeiros podiam narrar o acontecimento (a primeira captura de um navio por razões políticas, como viria a sê-lo o desvio de um avião da TAP 11 meses depois) e  colocar na agenda internacional a ditadura. Foi através da cadeia de televisão norte-americana NBC que Galvão, que partilhava a liderança da operação com o comandante "Jorge Soutomaior" (nome de guerra do galego José Hernánez Vasquez, ex-combatente comunista na Guerra Civil de Espanha), invocou a condição de combatente político e neutralizou a arma diplomática de Salazar. Acusando os revolucionários de pirataria, o ditador pretendia que os aliados na NATO, com a frota norte-americana no Atlântico à frente, recapturassem o paquete. França e Holanda não reagiram; a Inglaterra desistiu face à pressão trabalhista. Só os Estados Unidos se fizeram ao mar, com cinco vasos de guerra e uma esquadrilha de aviões.
A esquadra aeronaval dos EUA localizou o "Santa Maria" cinco dias após a aventura começar.  O barco zarpara no dia 20 do porto venezuelano de La Guaira, com destino a Miami. Dissimulada entre os 600 passageiros seguia uma parte do comando revolucionário; a outra embarcou clandestinamente e acoitou-se com armas. Três outros homens, Galvão entre eles, entrariam no dia seguinte em Curaçao.
A acção foi desencadeada cerca da 1.10 horas do dia 22. Foi rápida - coisa de dez ou 15 minutos. Na tomada da ponte de comando, um oficial de bordo é morto e outro gravemente ferido. O desembarque humanitário de feridos, no dia 23, na ilha de Santa Lucia - decisão controversa na liderança -  foi fatal: denunciou a presença do navio, atrasando a navegação para África. 
Só no dia 25 foi avistado, mas não abordado. Galvão insistiu com os EUA que se tratava de um acto político e não de pirataria vulgar. John Kennedy, recentemente eleito, cede. Entre 27 e 31 de Janeiro, decorrem conversações entre os líderes do comando e o contra-almirante Allen Smith, em representação dos EUA, atentas à alteração política no Brasil: hostil aos revolucionários, o presidente cessante, Kubitchek de Oliveira, seria substituído no dia 1 de Fevereiro por Jânio Quadros, democrata amigo de Delgado. No dia 2, o navio chega a Recife e os revolucionários recebem asilo político.
Mas já nada será como dantes. "O governo fascista de Salazar está menos seguro no poder do que julga", sentencia o clandestino "Avante!", classificando a operação do "Santa Maria" como "uma séria derrota" e anunciando "um novo período de ascenso revolucionário". E 1961 foi muito agitado.


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O ASSALTO AO "SANTA MARIA"





... Em Janeiro de 1961 deu-se o assalto ao paquete "Santa Maria", incidente que na época notabilizou a contestação ao Governo de Oliveira Salazar, e introduziu a prática, depois muito difundida internacionalmente, de sequestrar navios e aviões com fins políticos.
O "Santa Maria" havia largado de Lisboa a 9 de Janeiro de 1961 em mais uma das suas viagens regulares à América Central, fazendo escala no porto venezuelano de La Guaira no dia 20. Entre os passageiros embarcados neste porto, contava-se um grupo de 20 membros da DRIL - Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, organismo constituido por opositores aos regimes de Franco e Salazar, cujo comandante era o capitão Henrique Galvão, que embarcou clandestinamente no "Santa Maria" um dia depois, em Curaçau, com mais três elementos da DRIL. Galvão estava exilado na Venezuela desde Novembro de 1959, e em Julho de 1961 havia concluído os planos de assalto ao "Santa Maria". Fora escolhido este paquete por ser muito superior aos diversos navios de passageiros espanhóis que na altura faziam a carreira da América Central. O capitão Galvão pretendia deslocar-se no "Santa Maria" até à colónia espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, cuja tomada permitiria em seguida efectuar um ataque a Luanda e iniciar, a partir de Angola, o derrube dos Governos de Lisboa e de Madrid.
Horas depois da largada de Curaçau, o "Santa Maria" navegava rumo a Port Everglades, na Florida, com 612 passageiros e 350 tripulantes, sob o comando do capitão da Marinha Mercante Mário Simões da Maia, quando, precisamente à 1 hora e 45 minutos da madrugada de 22 de Janeiro de1961, os 24 homens de Henrique Galvão tomaram conta da ponte de comando e da cabine de TSF, dominando os oficiais do navio. O terceiro piloto João José Nascimento Costa ofereceu resistência aos assaltantes e foi morto a tiro. Pouco depois, o "Santa Maria" alterou o rumo para leste, procurando alcançar rapidamente o Atlântico. A 23 de Janeiro, o navio aproximou-se da ilha de Santa Lúcia e desembarcou, numa das lanchas a motor, 2 feridos graves com 5 tripulantes, comprometendo a possibilidade de atingir a costa de Africa sem ser detectado. No dia 25, o paquete cruzou-se com um cargueiro dinamarquês, traindo a sua posição, o que permitiu a um avião norte-americano localizar o "Santa Maria" horas depois. Finalmente a 2 de Fevereiro o "Santa Maria" fundeou no porto brasileiro do Recife, procedendo ao desembarque dos passageiros e tripulantes. Chegou a ser considerado o afundamento do paquete, mas no dia seguinte os rebeldes entregaram-se às autoridades brasileiras, obtendo asilo político, ao mesmo tempo que o "Santa Maria" voltava à posse da Companhia Colonial de Navegação.Os passageiros do paquete assaltado foram transferidos para o "Vera Cruz", que saiu do Recife a 5 de Fevereiro, chegando a Lisboa a 14 do mesmo mês, após escalar Tenerife, Funchal e Vigo. Por sua vez o "Santa Maria" largou do Recife a 7 de Fevereiro, entrando no Tejo, embandeirado em arco, a 16 e atracando a Alcântara...




... Independentemente dos aspectos políticos que na altura rodearam o caso "Santa Maria", este incidente acabou por fazer do navio o mais famoso dos paquetes portugueses. Embora o "Infante Dom Henrique" e o "Príncipe Perfeito" fossem mais recentes, o "Santa Maria" era um navio de prestígio por excelência, situação a que não era estranho o facto de ser o único navio de passageiros português a manter uma ligação regular entre Portugal e os Estados Unidos da América.
Coincidindo com o desvio do "Santa Maria", deflagraram a 4 de Fevereiro, em Luanda, incidentes graves, seguidos, em Março, do começo da guerra no Norte de Angola. O Governo de Lisboa decidiu enfrentar a situação, enviando a partir de Abril ràpidamente e em força importantes reforços militares. Esta decisão implicou, de imediato, a requisição de diversos paquetes e navios de carga afretados pelo Ministério do Exército para efectuarem o transporte de tropas e material de guerra. A utilização esporádica para este fim de navios de passageiros portugueses vinha já do século XIX, passando a partir de 1961 a constituir uma das principais ocupações permanentes dos paquetes portugueses...

navios.no.sapo.pt


O outro lado da  história do assalto ao Santa Maria  

(LIVRO EU ROUBEI O SANTA MARIA)
















 Comandante Jorge Soutomaior, o assalto ao Santa Maria foi um fracasso. José António Barreiros traduziu o relato de Soutomaior. O resultado, diz, é um livro que dá uma visão diferente daquela operaçãoChama-se Eu Roubei o Santa Maria - relato de uma aventura real. É uma visão diferente do que se passou entre a madrugada de 22 de Janeiro e o dia 2 de Fevereiro de 1961, quando o paquete Santa Maria foi tomado por ex-combatentes galegos da Guerra Civil de Espanha e dissidentes do Estado Novo. O advogado José António Barreiros traduziu o relato escrito em 1972 pelo comandante Jorge Soutomaior, herói na Guerra Civil espanhola, que conta a sua versão dos bastidores da operação. O livro é lançado na próxima quarta-feira.
Porque decidiu traduzir o livro Eu Roubei o Santa Maria?
Porque esta versão do apresamento do Santa Maria era ignorada, apesar de ter sido escrita em 1972.



Vingava ainda na memória colectiva a narrativa de Henrique Galvão, assente numa lógica de "culto da personalidade", que esquecia a verdadeira natureza política galaico-portuguesa do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) e fazia tábua rasa das contradições internas e internacionais do acto. Havia que abrir caminho ao outro lado da História. Os historiadores que digam onde está a verdade.
Que papel teve o comandante galego na tomada do Santa Maria?
Soutomaior, oficial de Marinha, foi o responsável pela operação militar de tomada do navio e condução do mesmo, sendo Henrique Galvão o dirigente político. Do ataque resultou a funesta morte do piloto Nascimento Costa e ferimentos em outros oficiais. Salazar tentou que o acto fosse considerado como pirataria, mas acabou por ser reconhecido pelos EUA como um acto de beligerância legítima, tendo o Brasil dado asilo político aos ocupantes do navio.
Quem era Jorge Soutomaior?
Jorge Soutomaior é o nome de guerra de um galego, herói na Guerra Civil espanhola do lado republicano. Chamava-se José Hernández Vázquez. Nasceu em 1904. Refugiado na Venezuela, formou com o professor Velo Mosquera um movimento de libertação da Galiza.É nesse quadro que pactuam com o general Humberto Delgado, em Caracas, e fundam o Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, movimento que visava criar uma Ibéria livre das ditaduras peninsulares. Morreu no final dos anos oitenta.
Diz que o relato de Soutomaior dá uma versão diferente da história do Santa Maria. Pode concretizar?
Há substanciais diferenças. Por um lado, conta a origem do DRIL, o papel dos galegos neste movimento, a sua participação na tomada do barco. Depois, porque detalha os conflitos ideológicos e de personalidade entre Soutomaior e José Velo com Henrique Galvão, que Soutomaior considera um traidor à causa, e com Humberto Delgado. Além disso, este livro explica também o papel desempenhado pelos norte-americanos e os brasileiros no desfecho da operação, nomeadamente no campo do apoio que estes países deram à luta anticolonialista. O ataque ao Santa Maria inseriu-se não só na luta contra as ditaduras ibéricas mas também na luta contra o colonialismo. E aqui os portugueses não tinham a mesma visão das coisas. A tese de Galvão é a de que do assalto resultou uma vitória. Para Soutomaior, no entanto, foi um fracasso. Para o capitão, foi um acto de heroicidade lusitana, para o comandante, um esforço frustrado de um colectivo galaico-português.
As origens políticas de Delgado e Galvão e de Velo e Soutomaior auguravam um relacionamento difícil?
Os detractores de Delgado e Galvão apodaram-nos de "fascistas dissidentes", por serem figuras directamente ligadas ao Estado Novo e às suas instituições, enquanto Velo e Soutomaior têm um passado de luta no campo republicano e antifranquista. Além disso, os galegos são pela independência das colónias como forma de se alcançar subsequentemente a democracia na Península Ibérica, ao passo que Delgado e Galvão entendem que as colónias fazem parte do "património histórico" de Portugal.
Pode associar-se a tomada do paquete ao início da guerra colonial em Angola, no dia 4 de Fevereiro de 1961?
Pode. Um dos sentidos estratégicos da operação seria o rumo a Angola, onde a situação estava preparada. Em que medida haverá em tudo isto mão americana, eis a questão. A Marinha dos EUA, mau grado a radiogoniometria, só localizou o Santa Maria quatro dias depois, permitindo que fosse uma plataforma de propaganda mundial contra a política colonial de Salazar.
O arranque da insurgência em Angola decorre de apoios americanos, antes de a URSS se comprometer, através de Cuba, no esforço de guerra civil que levaria à independência de Angola. Sucede que o DRIL era um movimento de galegos apoiado pelo regime cubano de Fidel Castro, de ascendência galega. Eis nisto as contradições estratégicas da operação e, afinal, da história da "descolonização exemplar"

Henrique Galvão e o Caso “Santa Liberdade”

Encapelada entre a facção ultra-montana do brigadeiro Fernando dos Santos Costa, a linha de evolução na continuidade de Marcello Caetano e as oposições democráticas, a nau salazarista vogava num abismo de incerteza, num Portugal açoitado por novos ventos de mudança e a combater o fado vesgo do destino.

Henrique Carlos da Malta Galvão, aferrolhado nas masmorras da PIDE e calabouços do salafrário regime desde Janeiro de 1952, porém em rota de colisão acelerada com o déspota nos finais da década de quarenta, estava internado sob prisão no Hospital de Santa Maria, donde se evadiu na madrugada 15 de Janeiro de 1959, pedindo depois asilo político na Embaixada da Argentina.

Eis agora uma nova fase da luta contra a caduca ditadura fascista, com um verdadeiro paradoxo: o assalto ao navio Santa Maria começa no Hospital de Santa Maria, um e outro facto ocorridos no mês de Janeiro! A História tem destas coisas.

No exílio e a partir da Venezuela, o capitão Henrique Galvão organiza a celebérrima Operação Dulcineia, secretamente preparada com apoio de um comando de homens ligados à oposição activa às tiranias de Francisco Franco e Oliveira Salazar, denominado Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, composto por doze portugueses e onze espanhóis.

O secretismo foi de tal maneira eficaz que nem Humberto Delgado nem tão-pouco os 23 operacionais envolvidos conheciam a totalidade dos pormenores da operação, muitos dos quais foram mantidos na total ignorância ou com um conhecimento formal e superficial, para evitar fugas de informação e infiltração pelas polícias políticas, a fim de garantir o sucesso, metodicamente planeado durante o ano de 1960.

9 de Janeiro de 1961 o luxuoso paquete Santa Maria abala de Lisboa em viagem de cruzeiro e rota batida até aos Estados Unidos. Contudo, a 20 de Janeiro, o grosso da coluna operacional penetra no navio durante uma escala no ancoradouro venezuelano de La Guaira, munido de bilhetes de passageiros normais.

O próprio Henrique Galvão embarcaria a 21 de Janeiro em Curaçau, ilha caribenha das Antilhas Holandesas, apoderando-se muito rapidamente do navio, 612 passageiros, 350 tripulantes, cabine de comunicações e ponte de comando, à 1 hora e 45 minutos do dia 22 de Janeiro de 1961, desaparecendo em pleno mar alto das Caraíbas.

comandante Mário Simões da Mata, pálido como um círio, foi detido sem estorvo de maior, resultando, todavia, na morte do terceiro piloto João José do Nascimento da Costa e ferimentos em dois tripulantes que ofereceram resistência. A 23 de Janeiro os feridos graves e cinco tripulantes foram desembarcados na ilha de Santa Lúcia, o que compromete o plano inicial de rumar à África portuguesa e fez perder o efeito da surpresa, para salvar os feridos e «demonstrar ao mundo que somos pessoas civilizadas e humanos e não um bando de assaltantes ou piratas».

Em determinada altura da fase da preparação da operação que previa a difusão de informações falsas e contraditórias sobre a rota do navio, encobrindo a sua posição, o capitão Henrique Galvão sonhava com o ambicioso objectivo de rumar a Luanda e instalar uma espécie de Governo Provisório da República e dali dar curso ao derrube do governo de Lisboa: «conquista e libertação de uma parte do território português, poderíamos formar um governo com as devidas reservas, iniciando uma guerra contra o regime de Salazar».

Em acto de puro simbolismo, a embarcação foi rebaptizada com o emblemático nome de Santa Liberdade, desfraldadas diversas faixas com a nova denominação no convés e amurada. Entre os operacionais em presença, destaque para Camilo Mortágua – mais tarde fundador e activista da LUAR –, Filipe Aleixo Viegas, José da Cunha RamosJúlio Rodrigues, José Frias de OliveiraJorgePestana de BarrosGraciano Esparrinha e Jorge de Sotomayor, comandante dos oposicionistas republicanos espanhóis.

Alarmado e encolerizado, o amargor a subir-lhe à alma, Salazar revira mundos e fundos para exigir o empenho das marinhas de guerra norte-americana, inglesa, francesa e holandesa, toda a guarda de mamelucos e molossos no encalço do navio, a vasculhar o oceano, pintando o caso como um repulsivo«acto de pirataria» pura. Aqui d’el-rei, era preciso perseguir os corsários, clamava o ditador! Queria a prisão imediata do pirata, látego inclemente no sacripanta e, se forçoso fosse, navio ao fundo, vociferava também.

24 de Janeiro Henrique Galvão dá mais uma estocada no regime ao desmentir cabalmente a versão descabelada de piratagem, dando a conhecer a vertente unicamente política da sua acção. Denuncia o regime salazarista como arbitrário e persecutório dos Direitos do Homem, reafirma que Salazar somente se matinha no poder devido «a eleições fraudulentas», pois o general Humberto Delgado «fora eleito presidente de todos os portugueses» e o assalto do Santa Maria era um «acto para a libertação de Portugal da ditadura do Estado Novo».

Estas declarações tiveram, surpreendentemente, enorme impacto junto de diversas chancelarias, de molde que os governos de França e Holanda decidirem não intervir nas buscas e captura do navio, por ser um caso de política e não de pirataria, mantendo-se em neutral expectativa. De seguida, o parlamento britânico e o Governo de Sua Majestade ordenam a retirada da frota naval inglesa e a suspensão das buscas, a desculpa oficial, para inglês ver, de «falta de combustível».

25 de Janeiro a marinha e aviação norte-americana detectam e interceptam por fim o Santa Liberdade. Mas, para assombro do Presidente do Conselho e sua corte, de fazer alevantar as mãos ao Céu e arrepelar cabelo, a recém-empossada administração de John Kennedy trata a questão como política e não como mero feito de corso.

Na realidade e a breve trecho, fora de Portugal ninguém acusava Henrique Galvão de flibusteiro, delinquente, infractor do Direito Marítimo ou tampouco ter cometido qualquer delito à luz do Direito Internacional. O almirante Robert Lee Dennison, comandante da Frota Naval dos EUA no Atlântico, cumprindo ordens de Washington, discorre longamente por via radiofónica com o capitão Henrique Galvão.

No entrementes duma intensa cruzada diplomática e interesses contraditórios enquanto os dias arrastam assunto tão bicudo, numa manobra de dilação, Henrique Galvão rejeita sucessivamente as propostas do alto-comando americano: um porto qualquer da América do Sul, San Juan de Porto Rico, Belém do Pará, assim e assado, nanja!

Tudo no fito de adiar o mais possível, porquanto aguarda a tomada de posse de Jânio da Silva Quadros, presidente eleito do Brasil, marcada para 31 de Janeiro de 1961, seu amigo pessoal. Para resolver a questão a contento, Henrique Galvão impõe duas condições: entregar o Santa Maria às autoridades brasileiras, por não reconhecer o Governo de Salazar, e o direito de asilo político no Brasil para todos os intervenientes.

Para derradeiro embaraço do Governo Português, o contra-almirante Allen Smith, representante pessoal do almirante Dennison, acompanhado pelo comandante Hoffman, representante do presidente americano, comandante Porter, da marinha americana, Harry Queen, encarregado de negócios políticos da Embaixada do EUA no Brasil e o cônsul americano em Recife, Ernesto Sanz, conferencia durante dilatadas horas com Henrique Galvão a bordo do Santa Maria, reconhecendo, assim, o estatuto de «rebelde político» e abonando todas as garantias de «direito de asilo».

1 de Fevereiro, após tomada de posse do presidente Jânio Quadros, o Santa Liberdade navega placidamente em águas territoriais brasileiras, onde Humberto Delgado e centenas de jornalistas sobem a bordo em ambiente efusivo. No dia seguinte atraca no porto brasileiro de Recife para desembarque dos passageiros e navegantes e, num aceno de grande teatralidade, Galvão rubrica e carimba os passaportes com visto de desembarque em nome da Junta Nacional Independente de Libertação. E para assistir a tudo isto acudiu povo e repórteres dos quatro pontos do mundo de olhos esbugalhados de pasmo.

Às 22 horas de 3 de Fevereiro chega ao cabo a Operação Dulcineia com entrega do navio às autoridades brasileiras, que o vão devolver à Companhia Colonial de Navegação. No dia seguinte, 4 de Fevereiro de 1961, ocorre o começo da luta armada em Angola, com o assalto às cadeias de Luanda.

A operação teve um impacto planetário monumental, amplificada pela cobertura integral dos meios de comunicação social mundial, em especial nos jornais, rádios e televisões dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Holanda, Venezuela e Brasil, em grandeza nunca vista anteriormente.

Uma verdadeira caixa de ressonância com a cobertura em directo de mais de quinhentos jornalistas, um enorme impacto que cativou as atenções universais entre os finais de Janeiro e princípio de Fevereiro e descreve o capitão Henrique Galvão como bom «rebelde político» ou «cavaleiro da utopia». Assim e de modo surpreendente, os acontecimentos vão evoluir de forma adversa para o regime de Salazar, atingindo o cume da descredibilização externa.

Depois do terramoto político da campanha de Humberto Delgado, este foi, indiscutivelmente, o maior abalo sofrido pelo caduco regime, um golpe profundo na auto-estima de Oliveira Salazar e agravo infligido na sua honra e dignidade. O mundo, espantado com este gesto estóico de capa e espada, descobria uma oposição romântica e utópica, mas decidida.

E constatava que no Portugal sereno e doce, existia afinal uma repressão feroz e uma forte contestação interna. Foi um abalo enorme na imagem externa do regime. O “Caso do Santa Maria/Santa Liberdade”, mostrou a saciedade o total isolamento do regime no contexto internacional, mesmo no seio dos seus aliados no interior da OTAN e contribuiu de sobremaneira para a comunidade internacional conhecer a verdadeira natureza opressiva do Estado Novo.

16 de Fevereiro de 1961 o Santa Maria reentra no porto de Lisboa, vinte e cinco dias volvidos do sequestro que amaldiçoou o navio, o qual seria desmantelado em 1973, véspera da queda do regime. Por este feito de romantismo e utopia, Henrique Galvão seria julgado à revelia e condenado a 22 anos de prisão.

Mas o “ano horrível” do ditador estava em curso e roda livre, cheio de espectros acusadores: massacre da Baixa do Cassange, Angola (Janeiro); desvio do Santa Maria (22 de Janeiro); início da luta armada em Angola (4 de Fevereiro); início da rebelião da UPA no Norte de Angola (15 de Março);tentativa de Golpe de Estado pelo general Júlio Botelho Moniz (13 de Abril); condenação pelo Conselho de Segurança da ONU (9 de Junho); ocupação do Forte de São Baptista de Ajudá, no Daomé (1 de Agosto); integração oficial dos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli na União Indiana (11 de Agosto); desvio dum avião da TAP (10 de Novembro); morte do general Silva Freire, comandante da Região Militar de Angola (10 de Novembro); ocupação de Goa, Damão e Diu, na Índia (18 de Dezembro); assalto ao quartel de Beja (31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1962).

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O SEQUESTRO DO SANTA MARIA OU SANTA LIBERDADE

22 de janeiro e 4 de fevereiro de 1961, um comando galego-português sequestra o paquete "Santa Maria", açom que chamou as atenções internacionais para a ditadura salazarista e franquista. Foi o primeiro sequestro dum navio com fins políticos da história. Também foi o primeiro desafio da cena internacional que enfrentou o recém eleito presidente J. F. Kennedy.

Dous anos antes, exilados galegos e portugueses formaram o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertaçom (DRIL), umha organizaçom armada para lutar contra as ditaduras salazarista e franquista.

A organizaçom tinha dous secretários gerais: o general Humberto Delgado e José Velo, e entre os seus membros destacaram o capitám Henrique Galvão e o tenente de navio José Fernando Fernandes Vasquez (José de Soutomaior).

Henrique Galvão, junto com Humberto Delgado (exilado no Brasil desde 1959), eram as figuras mais populares nos meios oposicionistas à ditadura de Salazar nom afetos ao PCP. Enquanto para o PCP Portugal ainda nom estava pronto para a revoluçom, Galvão e Delgado achavam que que o regime nom poderia ser derrubado por meios pacíficos e que nom havia tempo a perder.



José Velo era um nacionalista galego (em 1935 fora eleito Secretário Geral da Federaçom de Mocidades Galeguistas, juventudes do Partido Galeguista) e fundador da Uniom de Combatentes Antifranquistas Nacionalistas Galegos (sediada em Venezuela). Entom entrou em contato com membros da oposiçom portuguesa exilados na América Latina e com outros galegos como José Fernandes (Jorge de Soutomaior), ex-militante do PCE, comandante da marinha republicana durante a guerra civil espanhola, membro da resistência francesa contra os nazis e deportado pola Gestapo ao campo de extermínio de Auschwitz.

As primeiras ações armadas do DRIL fizeram-se em fevereiro de 1960 contra a casa do concelho de Madrid e os locais da FET de las JONS (organizaçom fascista espanhola) de Madrid. Em junho de 1960 o DRIL atentou contra as estações dos caminhos de ferro de Barcelona e Bilbau e contra o aeroporto de Madrid.

Entom começou a preparar o que seria a sua açom mais espetacular, a "Operaçom Dulcineia", isto é, o desvio dum paquete cheio de passageiros. O navio escolhido foi o transatlántico da Companhia de Navegação Colonial de Portugal "Santa Maria", que cobria a linha Caracas-Lisboa-Vigo e que tinha largado em 9 de janeiro de 1961 para umha viagem regular até Miami.



Em 20 de janeiro o paquete saiu do porto de Guaira (Venezuela). No dia seguinte Galvão embarcou clandestinamente no navio, em Curação (Antilhas Holandesas). A bordo já se encontravam os vinte elementos da DRIL, grupo galego-português que assumiria a responsabilidade polo assalto.

O navio levava 612 passageiros, muitos norte-americanos, e 350 tripulantes. A operaçom começou às 1.45AM de 22 de janeiro, com a ocupaçom da ponte de comando e a sala de rádio. Um dos oficiais de bordo, João José do Nascimento Costa, ofereceu resistência e foi abatido a tiro; os restantes renderam-se.

Durante esse dia o “Santa Maria” mudou de rumo para se dirigir às águas do Atlántico e mudou o seu nome polo de “Santa Liberdade”. Entom rompe o silêncio e o Santa Liberdade reaparece ao mundo como um lugar onde governa a democracia e no que todos os ocupantes som iguais: os passageiros de terceira podiam utilizar os serviços de primeira. A imprensa internacional acompanha o sequestro com grande interesse, dedicando-lhe manchetes e inúmeras reportagens. O correspondente de "Paris Match", Dominique Lapierra, lança-se em paraquedas sobre o barco para cobrir a notícia como testemunha direta. Franco e Salazar pedem que se detenha o barco e aos seus sequestradores.



Para conseguir as simpatias da opiniom pública mundial e logo de discusões, no dia 23 o comando teve que desembarcar dous feridos e cinco tripulantes na ilha de Santa Luzia, no arquipélago das Antilhas britânicas. Assumido o controlo, o paquete mudou de rumo e partiu em direçom para a África. Henrique Galvão queria dirigir-se à ilha espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, "conquistá-la" e a partir daí atacar Luanda, que seria o ponto de partida para a derrubada das ditaduras de Lisboa e Madrid.

O plano, condenado ao fracasso, conseguiu chamar as atenções internacionais para a ditadura salazarista e franquista e denunciar a situaçom que se vivia na Península Ibérica.


José Velo, Henrique Galvão e José Fernandes (Soutomaior) no interior do paquete

Logo de nom serem localizados nos primeiros dias do sequestro, as cousas começaram a se complicar quando, em dia 25, o navio foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que avisou a guarda costeira americana. Daí até a chegada dos navios de guerra da Sexta Frota da Armada dos EUA foi um ápice. Iniciam-se negociações dos responsáveis do DRIL e os enviados do presidente Kennedy, recém proclamado. Finalmente sobe ao Santa Liberdade umha delegaçom norte-americana encabeçada polo contra-almirante Allen E. Smith, junto com jornalistas.

Vendo que tudo estava perdido, os membros do DRIL depuseram as armas e decidiram rumar ao Recife e render-se, a dia 2 de fevereiro, às autoridades brasileiras do presidente Jánio Quadros, pedindo asilo político, que foi aceite. Entretanto, os governos de Franco e Salazar exasperavam-se ao comprovar como o comando galego-português os humilhavam perante o mundo.


Embora a imprensa em Espanha e Portugal acusou de "piratas" e "terroristas", a situaçom do navio e a denúncia sobre a situaçom política e social que se estava a viver na península saiu na imprensa mundial, considerando-se como umha vitória mediática e ideológica dos seus promotores.

Após o sequestro, o DRIL entrou em crise interna polas rixas internas sobre quem liderara a operaçom e sobretodo por outro problema mais de fundo entre os que concebiam o DRIL como um grupo que realizasse grandes golpes de efeito e outro que o concebia numha estratégia de insurreiçom armada contra o franquismo e o salazarismo. Apesar disto, o DRIL continou a realizar ações esporádicas até 1964.

No que diz respeito aos passageiros do Santa Maria, foram transbordados ao "Vera Cruz”, que zarpou de Recife a dia 5 de fevereiro e chegou a Lisboa nove dias mais tarde após passar por Tenerife, Funchal e Vigo. Por outra parte, o Santa Maria, devolto aos seus armadores, saiu de Recife em 7 de fevereiro, chegando a Lisboa em dia 16 e aportando no cais de Alcântara.



Jorge de Soutomaior escreveu um livro intitulado "Eu roubei o Santa Maria" que nom foi publicado no Estado espanhol até 1978. O livro é um relato de primeria mao do sequestro que evidencia o importante papel dos galegos nesta açom e das fortes diferenças entre José Velo e Humberto Delgado.

Em 2004 estreou-se o documentário "Santa Liberdade", dirigido e escrito por Margarida Ledo Andion, narrando o sequestro do Santa Maria. O filme conta com a participaçom de Camilo Mortágua (que tinha 27 anos antom e era a mao direita de Galvão), Federico Fernándes (filho do comandante Soutomaior) e Vítor Velo (filho de José Velo).




Abrente Editora sacou à luz, da mao do investigador Xurxo Martínez Crespo, o livro, escrito polo próprio Soutomaior, que explica os pormenores da açom: "24 homens e mais nada. A captura do Santa Maria".
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