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quinta-feira, 27 de março de 2014

OPERACIONAIS DA ARA E A SUA CRIAÇÃO (PARTE 1)

história secreta da ARA

José Pedro Castanheira


Foi a 26 de Outubro de 1970 que a ARA se estreou, com a sabotagem do navio «Cunene», que transportava material para a guerra colonial. No livro «Acção Revolucionária Armada - A história secreta do braço militar do PCP», o principal cérebro da organização, Raimundo Narciso, conta como tudo se passou.
“Depois duma longa espera até às quatro da madrugada, foi com enorme alívio que vi chegar o Coutinho. Estava com o credo na boca com tamanha demora. Teriam sido apanhados pelo barco da polícia marítima? Alguma complicação com a Guarda Fiscal à saída do rio? A carga não se agarraria bem ao costado, debaixo de água, como convinha? O tempo passava lento e na rua não se via vivalma. Quem sabe se não se decidiram a sair pela praia em Algés em vez de sair na doca da Rocha do Conde de Óbidos. Animava-me. Ao volante do Opel verde escuro, no alto da Rua Barata Salgueiro via extinguir-se ao longe o movimento da Avenida da Liberdade. Há muito que tinha passado o último guarda nocturno e até a última prostituta. Contava as horas minuto a minuto.
Afinal a operação foi realizada sem incidentes. Apenas com alguns sustos pelo meio mas sem outras consequências. Quando se aproximaram do paquete Vera Cruz, destino prioritário das bombas, viram aproximar-se, rio acima, o barco patrulha da polícia marítima. Parou um pouco abaixo do paquete, mas em posição que não permitia a aproximação do Gabriel Pedro. Esconderam-se atrás de um escuro e longo cargueiro acostado à amurada, aguardando que a lancha da polícia marítima se fosse embora. De tempos a tempos vinham espreitar por detrás da popa do navio mas o barco da polícia não dava sinal de sair. O Gabriel Pedro queria esperar mas o «Meneses» lembrou-lhe os relógios que engravidavam as cargas explosivas e estavam regulados para as cinco da manhã. Era prudente despacharem-se. O Gabriel Pedro, talvez por não ser da sua conta, já se não lembrava desse importante pormenor e concordou que as latas começavam a ser uma companhia pouco recomendável. Optaram pelo Cunene que estava próximo e não desmerecia do Vera Cruz. Remaram rio acima e meteram-se ao interior da doca. Tiveram de se abaixar para passar entre as águas subidas da maré cheia e os ferros ferrugentos que baixavam da ponte levadiça que liga o cais à Avenida Vinte e Quatro de Julho.


                                               

Material utilizado pelos técnicos e operacionais da ARA. Tudo era planeado e ensaiado no laboratório montado em Arruda dos Vinhos. O paiol estava escondido no Maxial (Torres Vedras). Em vinte meses foram efectuadas onze sabotagens
O Cunene ali estava, mesmo encostadinho a eles. Olhado cá de baixo lembrava o Gigante Adamastor, mas o sossego da doca da Rocha do Conde de Óbidos, o Gabriel Pedro ali ao lado, sereno e familiar, e em especial a imobilidade paquidérmica do grande cargueiro cumpliciavam-se para dar ao local e ao momento um ar mais de Cabo da Boa Esperança que das Tormentas. O Cunene parecia colaborar tapando a luz dos candeeiros da doca e deixando na sombra o barco a remos. Gabriel Pedro aproximou ainda mais o barco do graneleiro. Carlos Coutinho apalpou o costado do navio para verificar se estaria suficientemente limpo para a ele aderirem os ímanes. Já que trouxera uma escova de aço achou melhor tornar útil o instrumento e dar uma escovadela na chapa pintada do barco, uns palmos abaixo da linha de água. A colocação da lata com o TNT não foi fácil por ter de ficar toda debaixo de água. O plano não previa que Carlos Coutinho saísse à água nem fizesse de mergulhador. Nem convinha molhar a roupa, pois tinha de sair enxuto à cidade e sem aspecto marítimo. No local as dificuldades revelaram-se maiores. Aí tiveram de conjugar esforços e saberes e depois de várias ameaças do barco em atirar o Carlos à água, este conseguiu finalmente colocar a carga no sítio certo com a ajuda hábil do seu companheiro na manobra do barco. Gabriel Pedro remou então para a popa do Cunene e aproximou-se do hélice para que Carlos Coutinho pudesse situar a segunda carga explosiva próxima do veio daquela montanha de aço. Com a experiência da primeira colocação Carlos Coutinho sentia-se quase um veterano e foi à primeira tentativa que colou junto do veio do barco a lata de tinta agora reciclada em poderosíssima bomba naval. Verificou que estava bem presa e não se soltava.
O Gabriel Pedro remou forte para junto dos batelões que descansavam dentro da doca. O barco deslizava em segredo pelas sombras do cais. Os remos entravam na água sem ruído e a compasso, guiados por mão experiente. O Carlos ainda se ofereceu para remar mas o Gabriel Pedro, apesar de muito cansado da viagem de milhas e milhas, abanou, negativo, com a cabeça.
- Ele não percebia nada daquilo, dizia-me o Gabriel Pedro, no dia seguinte. Dei-lhe os remos quando vínhamos para baixo, para descansar um bocadinho, mas ele não sabia remar. Tirei-lhos logo das mãos.
Quando mais tarde comentei com o Coutinho o seu fraco estilo de remar, protestou. Que não senhor, até rema muito bem, o Gabriel Pedro é que é um picuinhas, que os remos não entravam na água como devia ser e outras chinesices.
Enfim, critérios, pensei, dando razão ao Gabriel Pedro, que é quem sabe de remos. Na doca não conseguiram encontrar as escadas de pedra na amurada, porque toda a muralha estava ocupada com navios e batelões. A subida para terra tornou-se de repente uma dificuldade inesperada. A única possibilidade era trepar aos batelões. Assim fizeram depois de abandonarem o valoroso barco a remos a uma vida livre e sem dono. Tiveram de saltar duma para outra embarcação, e, com o balancear, despertaram em sobressalto o habitante solitário duma delas que dormia debaixo dum oleado e não ganhou para o susto. Valeu-lhe o Gabriel Pedro com um gesto rápido a responder de rijo e com voz calma: que durma bem que eles vão fazer o mesmo depois da missão cumprida. Mais à frente tiveram de saltar como uns fantasmas por cima dum pescador assustado que se aquecia numa fogueirinha no fundo dum batelão, enquanto preparava iscos.
(Do Capítulo I – A Sabotagem do Cunene)


A decisão política de criar a ARA data de 1964, mas ela só começou a actuar seis anos depois. Porquê esta demora?
Raimundo Narciso, com Manuel Santos Guerreiro, ao volante da sua furgoneta  que serviu para o transporte de explosivos e várias operações da ARA.
 
O atraso deve-se a duas razões fundamentais: as sucessivas ofensivas da PIDE contra o PCP,
Raimundo Narciso, com Manuel Santos Guerreiro,     ao volante da sua furgoneta  que serviu para o transporte de explosivos e várias operações da ARA.
desmantelando várias organizações e levando à prisão numerosos quadros - entre os quais Rogério de Carvalho, o primeiro dirigente da ARA, detido em finais de 1965. A segunda razão foi o relativamente fraco empenhamento da direcção bdo PCP na concretização das chamadas «acções especiais».
Começou por frequentar um curso de guerrilha em Cuba.
Em 1965. Saí legalmente do país, no comboio Sud-Express, e fui até Moscovo, onde me reencontrei com o meu controleiro, Rogério de Carvalho, e encontrei pela primeira vez Álvaro Cunhal. Estive em Moscovo cerca de 15 dias, com o Francisco Miguel, o Manuel Rodrigues da Silva e outros dirigentes do PCP. Fui depois para Cuba, onde estive três meses e meio, com o Rogério. Estava previsto que fossem mais dois militantes.
Que preparação receberam em Cuba?
Não foi propriamente instrução militar. Foi mais manejo de armas e explosivos - mas isso já eu dominava, da minha longa experiência militar. O mais aliciante foi conhecer o país, de lés a lés. Fomos instalados numa vivenda, num bairro de luxo mais ou menos equivalente ao nosso Restelo, que antes de Fidel Castro estava vedado a cubanos pretos - à excepção da criadagem.
Em toda a existência da ARA, só você e António Pedro Ferreira se mantiveram sempre ligados à organização.
Fomos os únicos. Houve muitas prisões, logo de início. Seis meses depois de entrarmos no país o Rogério de Carvalho foi preso. O mesmo sucedeu a várias pessoas que nos deviam apoiar. Fiquei nove meses na clandestinidade sem qualquer ligação ao partido. E sem dinheiro. Tive de viver da quotização de uns poucos militantes que tinha e recorri à família, através da minha irmã. Só no Verão de 1966 é que a direcção do partido conseguiu encontrar-me - e por mero acaso. Foi o Ângelo Veloso quem foi ao encontro combinado, na mata de Sintra.
Foi então frequentar um segundo curso, de formação política, na URSS.
A direcção do partido propôs que eu fizesse uma pausa no meu trabalho. Estive nove meses na Escola Central da Konsomol, em Moscovo, onde conheci a minha futura mulher, Maria Machado. Quando regressei, em 1967, retomei os contactos com Ângelo Veloso e com os quadros com quem tinha trabalhado.
Entretanto, há um segundo grupo que vai receber formação de guerrilha em Cuba.
Julgo que seriam uns quatro. Nenhum regressou a Portugal. Uns desistiram, outro foi preso em Espanha
Em 1968, há um terceiro grupo a receber formação militar, desta vez em Moscovo.
Era um grupo de três ou quatro, entre os quais Francisco Miguel e o «Almendra». Mais tarde, entre Julho de 71 e Maio de 72, haverá um quarto curso, também na URSS.
É o curso frequentado por Jaime Serra...
... e por outros operacionais já experimentados, como o Carlos Coutinho, o Ângelo de Sousa e o António Eusébio.
Mas nem por isso a ARA suspendeu as suas acções.
Exacto. Eu e o Francisco Miguel assegurámos a direcção da ARA, que nesse período desencadeou três acções: o assalto ao paiol na serra da Amoreira, a sabotagem do Comiberlant (o quartel da NATO) e o rebentamento do armamento no navio Muxima.



Operacionais da ARA

      notas biográficas








 

Gabriel Pedro

Em 1971

Nasceu em 1898. Faleceu em 1972,em Paris. Natural de Lisboa.. Casado com Margarida Tavares Fernandes Ervedoso. Pai de Edmundo Pedro, de mais dois filhos e uma filha. Deportado para Timor, em 1925 e para a Guiné Bissau, em 1928, evadiu-se ambas as vezes. Preso 9 anos no Campo de concentração do Tarrafal. Exilado em Paris veio a Portugal clandestinamente participar na acção do Cunene. Entrou e saiu do PCP várias vezes sendo militante quando faleceu.



Carlos Alberto da Silva Coutinho
Em 1970 e 2000

Pseudónimo Meneses. Natural de Fornelos, Vila Real. Nasceu em 1943. Casado com a Antonieta. Pai da Ana e da Marta. Arquivista em O Século em 1970. Na guerra colonial de 1966 a 69, em Moçambique. Ligação à ARA desde Julho 70. Preso de Fevereiro de 73 a 25 Abril de 74. Participou nas acções do Cunene, Escola da PIDE, Tancos, Corte das Telecomunicações – reunião da NATO, Corte da rede eléctrica em 1971 e 72. Jornalista. Obra publicada: duas novelas, dois volumes de prosa jornalística, cerca de uma dezena de peças de teatro.




 

 

Ângelo Manuel Rodrigues de Sousa

Em 1970 e 1987

 

Pseudónimos: Tavares e Miguel

Natural de Espinho. Nasceu em 1948 e faleceu em 1990. Casado com Fernanda Castro. Pai da Sara, da Rute e da Raquel. Empregado bancário. Piloto de helicópteros. Procurado pela PIDE com fotografia na televisão, jornais e postos de todas as polícias. Clandestinidade de Março de 1971 a 25-04-74. Ligação à ARA desde Agosto 70.
Participou na Acção de Tancos 8-3-71) e do corte da electricidade na eleição do Presidente da República Américo Tomás (8-72).





António João Eusébio
Em 1968 e em 1980

Natural de Corte Gafe de Baixo, Mértola. Nasceu em 1943. Operário estucador da construção civil. Esteve na guerra colonial, em Angola de 1964 a 66. Ligado à ARA desde Junho 70.
Participou nas acções do Cunene, Escola Técnica da PIDE, Tancos, Corte das Telecomunicações, Corte da Rede Eléctrica em 1971 e em 1972. Na clandestinidade de 1972 a 25-4- 1974.Funcionário do PCP.



António Pedro Ferreira

Em 1968 e em 2000

Pseudónimo Jordão. Nasceu em 1936. Natural de Lisboa. Casado com a Maria José. Pai do Pedro, do Sérgio e da Catarina. Serviço militar entre 1958 e 69. Esteve na guerra colonial em Angola, de 1961 a 63. Ligação à ARA desde 1965. Participou no apoio às acções do Cunene, Cais da Fundição, Muxima, Corte Rede Eléctrica em 1971 e em 1972. Economista. Foi Presidente da Câmara dos Despachantes. Militante do PCP de 1958 a 1989. Fundador da Plataforma de Esquerda. Aderiu ao PS em 1999.


 

 

Manuel Policarpo Guerreiro

Em 1971 e em 2000

Nasceu em 1943. Natural de Odemira. Divorciado. Pai da Vera e da Tânia. Pintor da construção civil nos anos 70. Esteve na guerra colonial em Moçambique, como furriel, de 1966 a 69. Ligação à ARA desde Julho de 1970. Participa nas acções do Cunene, Assalto ao Paiol, Comiberlant, corte da rede eléctrica em 1971 e em 1972. Preso de Fevereiro 1973 a 25-4-74. Empresário da construção civil em Faro e dirigente da Confederação das PME da Construção Civil



 

 

Manuel dos Santos Guerreiro

Em 1970 e em 2000

Nasceu em 1943. Natural de Grândola. Motorista nos anos setenta. Casado com a Luísa. Pai do Carlos e da Tânia. Serviço Militar Obrigatório de Janeiro de 64 a Outubro de 69. Ligação à ARA desde 1971. Participa no corte da rede eléctrica em 1971 e 72, Assalto ao Paiol, Comiberlant. Preso em Março de 1973 a 25-04-74. Empresário. Vive em Grândola.





Ramiro Rodrigues Morgado

Em 1968 e em 2000

Nasceu em 1940. Natural de Manique do Intendente, Azambuja. Casado com a Maria Emília Pai da Sílvia. Lapidador de diamantes na DIALAP. Serviço Militar Obrigatório em Moçambique, de 1962 a 64 onde a guerra se iniciou alguns meses antes de regressar. Ligação à ARA em Julho de 1970. Participou no Corte da Rede Eléctrica, em 71 e em 1972 e no apoio às acções do Cunene, de Tancos, e do Muxima. Preso de Março de 1973 a 25-04-74.


 

Amado de Jesus Ventura da Silva

Em 1970 e em 2000

Nasceu em 1945. Natural de Lisboa. Casado com a Isabel Sequeira. Pai do Pedro, do Manuel e do Francisco. Estudante de Coimbra na República dos 1000-y-Onários e depois em Lisboa no Instituto Superior de Agronomia. Sem filiação partidária. Oficial miliciano «Ranger», de 1967 a 70. Ligado à ARA desde 1971. Participou no Assalto ao Paiol, Corte da Rede Eléctrica em 1971 e em 1972. Preso de Fevereiro de 1973 a 25-4-74. Engenheiro agrónomo na Zona
Agrária de Caldas da Rainha.



 

 

Victor d’Almeida d’Eça

Em 1975 e em 1992

Nasceu em 1937. Faleceu em 1998. Divorciado. Dois filhos. Funcionário do Ministério da Agricultura. Actividade na área da Defesa do Consumidor, nomeadamente em programas radiofónicos. Ligação à ARA desde 1966. Participou na preparação e apoio das acções do Cunene, corte da corrente eléctrica em 1971 e 72, Central de Telecomunicações, Assalto ao Paiol e Comiberlant.



Jorge Trigo de Sousa

Em 1970 e em 1999

Pseudónimo Abel. Nasceu em 1941. Natural de Lisboa. Estudante do IST, em Lisboa. Casado. Um filho. Ligação à ARA desde 1966 como independente. Participou no assalto ao Paiol, no apoio às acções do Comiberlant e do Muxima. Esteve na guerra colonial, em Moçambique de 1972 a 74. Praticante de Judo e «Aikidô», professor e Presidente da Federação Nacional de «Aikidô». Membro da Associação Damião de Góis, promotor e quadro do PRD na sua fase inicial. É engenheiro civil, vive em Lisboa.





Mário Wren Abrantes da Silva


Nasceu em 1950. Natural de Lisboa, Estudante de Agronomia no ISA em Lisboa. Ligação à ARA em 1972. Participou no corte da Rede Eléctrica em 1972. Preso de Março de 1973 a 25-04-74. Membro do PCP a partir de 1975. Casado. Funcionário do PCP nos Açores. Membro do Comité Central do PCP desde 1988.



José Augusto de Jesus Brandão

Em 1999

Nasceu em 1948. Natural de Lisboa. Operário metalúrgico. Esteve na guerra em Moçambique de 1969 a 1971. Ligado à ARA desde 1972 como independente. Participou no reconhecimento de vários objectivos.
Preso em 27-03-73. Depois de 25 de Abril de 1974 empregado da Carris e dirigente sindical. Membro da Comissão Nacional (1980-88) e da Comissão Política (1985-87) do PS.
Obra publicada: quatro ensaios sobre temas de História.


raimundo.no.sapo.pt

OS FILHOTES DE SALAZAR/CAETANO (3ª TIRAGEM) - Como cogumelos depois da chuva aparecem os defensores de Salazar e do Paraíso. Transformado em Inferno pela "traição" do 25 de Abril." Mas será o 25 de Abril uma traição ao Portugal de Salazar/Caetano? Que Paraíso havia antes do 25 de Abril ? Paraíso para quem ?

Os filhotes de salazar/caetano (3ª tiragem)

por Victor Nogueira·

A propósito de intervenções nas redes sociais, em blogs ou comentários de lleitores em jornais on-line

Mas que pobreza de argumentação. Com tal nível, os defensores de Salazar contra o 25 de Abril na sua universidade salazarista nem passariam do 1º semestre do 1º ano. Quanto muito seriam “licenciados” como polícias de giro e cacete. Daqueles que usavam fartos bigodes. E muitas vezes imponente barriga

Serão "analfabrutus" ou "inteligentes" os que defendem salazar ou a troika ? Há relação entre salazar e as troikas ?

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Como cogumelos depois da chuva aparecem os defensores de Salazar e do Paraíso. Transformado em  Inferno pela "traição" do 25 de Abril." Mas será o 25 de Abril uma traição ao Portugal de Salazar/Caetano? Que Paraíso havia antes do 25 de Abril ? Paraíso para quem ?

Sim, antes do 25 de Abril era o Paraíso. Havia uma elite de endinheirados ou  iluminados e uma corja de milhões de analfabetos. Ou analfabrutos. Tão analfabrutos que largando o Jardim das Delícias à beira-mar plantado emigravam aos milhares de milhares para procurarem lá fora o pão e o mel que aqui não vislumbravam para além da fome e da miséria e dos bucólicos tugúrios campestres ou encantadores bairros de lata. Aos milhares de milhares. E só os brutos viam e sentiam o trabalho de sol a sol nos campos do Alentejo. E os dias não pagos quando fazia mau tempo. Dias não pagos na agricultura. . Na construção civil e obras públicas. Na indústria das conservas de peixe. E nas horas extraordinárias à borla. E trabalhadores despedidos se adoeciam. Sem assistência na doença. Nem eles nem as famílias. Trabalhadores e suas famílias sem qualquer apoio no desemprego. E trabalho sem direito a férias para a esmagadora maioria.

Havia   as praças da jorna. Sucessores dos mercados de escravos. Antecessoras das empresas de trabalho temporário ! Tudo igual no essencial  - trabalho escravo. Trabalho assalariado. Trabalho precáriio. Tabalho à peça ou à hora. Um elo de ligação- desvalorização do trabalho e da liberdade que não seja a do expllorador ! Seja patrão, seja capitalista, seja empresário, empreendedor ou não !

E havia pedintes e crianças e aleijados - uma esmola “pelo amor de Deus”.Ou “pela sua rica saúde”. E pedintes e aleijados e crianças esmolando. Pelas ruas. Pelas esquinas. À porta das igrejas. E crianças trabalhando sem ir à escola. Vendendo jornais. Ou como marçanos levando as compras da mercearia às casas. E criadas de servir sem direitos e de que se serviam os patrões e seus filhotes. Despedidas – as desavergonhadas – se engravidavam. E os aprendizes - crianças - mão de obra barata.  E maridos que matavam impunemente as mulheres para “lavarem a honra”.  Machos lusitanos viris com amantes e ”espanholas” a quem montavam casa.

E mulheres dependentes da autoridade e arbítrio. do marido e das suas autorizações, do senhor todo poderoso. E apenas “curiosas” para assistirem aos partos. E para fazerem abortos. E filhos, muitos filhos, arrastando-se pela miséria. Ranhosos, Esfarrapados, Famintos. Enfezados.  E as mães tendo de ir trabalhar logo a seguir ao parto. Para não serem despedidas ! E as mulheres com salários inferiores aos dos homens. Porque salazar e os patrões as consideravam seres inferiores.  Era a Lei. Estava na Lei !

Porque será que as crianças nascidas depois  do 25 de Abril são mais altos que os nascidos anteriormente ? Talvez porque só depois do 25 de Abril passou a haver acompanhamento das mães durante a gravidez e partos assistidos nos hospitais públicos com acompanhamento médico às crianças e jovens. E possibilidade das populações darem melhor alimentação aos filhos. Incluindo leite e abandonando as "sopas de cavalo cansado", isto é, pão e vinho,  que embruteciam logo desde a nascença em muitas aldeias e vilas e cidades de Portugal.  

E velhos que se enforcavam devido à miséria. Sem dinheiro. Sem saúde. Sem apoios sociais. E famílias a comerem o pai uma sardinha e os filhos côdeas de pão. E vinho, muito vinho e tabernas a cada esquina para “dar de comer a um milhão de portugueses”. E em muitas vilas e aldeias do Alentejo duas sociedades “recreativas” – a dos pobres e a dos ricos. E a pobreza envergonhada da pequena burguesia.

E os “criados” dos cafés e os motoristas de taxi e os engraxadores – velhos ou miúdos – vivendo apenas da gorjeta. Sem direitos. E os aprendizes de operário ou de costureira ou mesmo criadas de servir  - crianças - que muitos não eram remunerados pelos patrões.

E na verdade não havia tantos automóveis. O povo e os trabalhadores andavam de eléctrico ou de autocarro, cada vez mais amontoado como gado nos transportes colectivos. Ou de motorizada. Ou de bicicleta. Ou a pé. Meios  de transporte saudáveis, curtidos pelo sol, ou pelo frio, lavados pela chuva, refrescados pela brisa no rosto !

E aldeias e vilas e bairros de lata de norte a sul e no interior, sem água canalizada. Sem electricidade. Sem esgotos. E as casas  sem instalações sanitárias ou de banho. "Aliviando-se"  as pesoas ao ar livre. Atás duma moita ou das estevas. E as malvas a servirem de papel higiénico. E as ruas lamaçais. E uma bicia ou fonte para o povo.  De cantaro à cabeça ou à ilharga.

E a Ponte sobre o Tejo ! Ah! A Ponte sobre o Tejo que não era de Salazar construída com o desalojamento forçado e com indemnizações de miséria aos habitantes e proprietários de Alcântara. E os bairros de lata. E os mortos nas cheias de 1967 em Lisboa porque Salazar não permitiu que as populações fossem alertadas das chuvadas torrenciais que se avizinhavam. E os milhares de camponeses mortos em Janeiro de 1961 na Baixa do Cassanje, em Angola, numa área maior que Portugal, em greve contra o regime de monocultura da Cotonang, metralhados e regados com napalm pelas Forças Armadas Portuguesas E tantos e tantos massacres com as almas voando para o Paraíso se inocentes de que os jornais não falavam. Massacre da Baixa do Cassanje anterior aos massacres perpetrados pelos camponeses do Norte de Angola, enquadrados pela UPA com o apoio não da URSS mas dos EUA. Em 15 de Março de 1961

A mentira do Portugal do Minho a Timor, onde nas colónias e apesar de 5 séculos de ocupação a esmagadora maioria das populações não falava português nem tinha direitos de cidadania. Apressadamente reconhecidos apenas depois do início das revoltas na Guiné, Angola, Moçambique, S. Tomé e Princípe  ... Isto é, depois de 1961. E  os brancos lá nascidos, durante muito tempo oficialmente considerados "brancos de 2ª." Era o registo no Bilhete de Identidade. Colónias portuguesas cujos territórios em África só foram "ocupados" depois da Conferência de Berlim, em 1885. Após as campanhas militares de ocupação e "pacificação" contra a resistência dos africanos. Campanhas militares efetuadas no final da Monarquia e prosseguidas durante a I República ! Resistência dos povos africanos tão respeitável e  louvável como a que ao longo de séculos o povo português tem feito à ocupação ou tentativas de ocupação de Portugal pelo Reino de Castela ou fazem à invasão e ocupação pela Troika FMI-BCE-UE..

E cargas policiais e da GNR e a PIDE para os “desordeiros”  e "díscolos". “Desordeiros” ou "díscolos" eram todos os que faziam greve. Ou reivindicavam melhores salários ! Ou melhores condições de vida e de trabalho ! Ou pediam trabalho. Ou que se manifestavam fora do enquadramento do Governo. Despedidos de imediato e não poucos presos e torturados. Ou - pelas forças de "segurança" -  impunemente assassinados.  Trabalhadores.  Assalariados rurais, Gente do Povo. Incluindo comunistas. Ou estudantes. Ou o genaral Humerto Delgado. Tudo "a bem da Nação". "Tudo pela Nação e nada contra a Nação !  Eram  "(des)Governos de Salvação Nacional"

Gente tão bruta que precisava de ser vigiada para não se tresmalhar. Tão bruta que precisava de autorização para se manifestar.  Tão bruta que precisava de autorização para se associar.  Tão bruta que precisava de autorização para se reunir. Tão bruta que não podia votar para não escolher ... mal. Isto é, para não mijar fora do penico. Outros pensavam e decidiam pelos analfabrutos. Gemte tão bruta, sempre vigiada no que escreviam ou diziam. Vigiada pelos pelos coronéis da censura prévia do lápis azul ou cercados  por dez mil olhos e cem mil orelhas em redor.  Salazar dizia e os livros da escola repetiam -  "Casa onde há fome  todos ralham e ninguém tem razão" ou "Se soubesses o que custa mandar toda a vida gostarias de obedecer". Por isso só era reconhecido um Partido - o da União Nacional. Proibidos e perseguidos sobretudo o Partido Comunista Português e os sindicatos. Sindicatos "protegidos" pelo Governo e Patronato. Tudo em nome da submissão e do respeitinho. Submissão e respeitinho ao pai e chefe de família. Submissão e respeitinho ao professor e na escola. Submissão e respeitinho a "Sua Excelência" o "venerando" presidente da República, aos governantes e ao Governo. Submissão e respeitinho a "sua Excelência o senhor professor doutor" Salazar/Marcelo. E, sobretudo, submissão e respeitinho ao Patrão e ao Chefe e à Santa Madre Igreja. Tudo, repete-se, "a bem da Nação".  "Tudo pela Nação e nada contra a Nação"  Eram  "(des)Governos de Salvação Nacional"

Analfabrutus e falhos de inteligência todos quantos tentaram derrubar Salazar ou Caetano ? O  Presidente da República, general Carmona, após a II Guerra Mundial. O almirante Quintão Meireles. O general Norton de Matos. O general Craveiro Lopes, Presidente da República. O General Humberto Delgado em 1958. O General Botelho Moniz depois do início da guerra colonial, em 1961. Coadjuvado pelo futuro general Costa Gomes. Os Generais Spínola e Costa Gomes. [ Afinal o único Presidente da República que não quis demitir Salazar após o termo da II Guerra Mundial foi  o "Venerando" corta-fitas Almirante Américo  Tomás. ] Muitos destes apoiados não pela URSS mas pelos EUA. E, sobretudo - aberta ou surdamente -contestavam o Paraíso a maioria do povo português e os trabalhadores, incluindo  os comunistas !

E as colónias que até 1961 se não podiam industrializar nem desenvolver para se proteger a indústria de Portugal, na Europa. E a guerra colonial. Cada vez com mais  refractários ou desertores. Entre os soldados e os oficiais. Analfabrutos que não percebiam porque haviam de morrer ou ficar inválidos e abandonados. Ou traumatizados pelo stress da guerra. E que, “sem inteligência”, zarpavam e zarpavam e zarpavam … de Portugal.

Sim não eram portugueses de rija cepa e pegas de cernelha ou a rabejar. Eram todos estrangeiros. Milhões de estrangeiros. Que analfabrutos não vislumbravam o Paraíso mas apenas a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho. Sim milhões de estrangeiros, milhões de estrangeiros na Pátria que os viu nascer. Pátria madrasta onde, analfabrutos, muitos sem a 4ª classe, apenas viam a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho.

Sem inteligência para vislumbrarem o Paraíso do dia-a-dia espelhado nos jornais e na televisão de Salazar/Caetano E lembrado pelos filhotes de Salazar/Caetano. Eles sim, Portugueses de alto gabarito ! Mas, ao contrário de Salazar/Caetano, pouco dados ao estudo. E à reflexão. E ao contraditório. Porque estudar e argumentar sem frases feitas ou bafos de café-taberna custa e cansa. Na razão inversa da inteligência.























soproleve.blogspot.pt

ACTAS DA DELEGAÇÃO PADUANA (EXCERTO EUSÉBIO) - (não sendo para trabalhar a bem da nação, já Eusébio o ouvira da boca do Professor Salazar, não há cá Inter nem Milão, você é nosso não é para abalar, – Santo António teve sorte, foi para Pádua –, ir enriquecer para o estrangeiro, ora, não lembra ao demo, não o faça o dinheiro olvidar que Moçambique é Portugal, a pátria, pantera, a Pátria, o clube, Pantera, o clube, que é a pátria da segunda circular – eh, mainato!)

Actas da delegação paduana (excerto Eusébio)




I

Quando as televisões espalharam a notícia
da morte de Santo António de Lisboa
e as mais perras das línguas se soltaram
por comoção mais do povo que cardinalícia
vieram primos, afilhados e toda a espécie de parentes
de cada canto da terra,
uns mais gentios, outros mais crentes,
a maioria assim-assim, gentes
de planetas longínquos, santos de outras religiões,
que são planetas ainda mais remotos
dentro das pessoas, vieram paixões,
variados praticantes da meditação, cada um com sua pose,
até um descendente de Fernão Mendes Pinto,
só não vieram adeptos da gnose,
um chinês – minto: um mongol dos antigos,
um mestre de uma ordem militar de um século anacrónico
(Dom Paio Peres Correia, por poucos anos torto neste filme
qual daltónico em fitas a pretos e brancos,
os mesmos que bebiam em suaves solavancos
todo o cálice de absurdo, como se o tempo fosse achatado
entre uma carpideira e um surdo),
e já Nuno Brandão inventava, à pressa, aquela peça
moderna e arrojada, credo, sem teologia nem nada,
de santos antónios em barros de várias cores,
alinhados nas prateleiras do el corte inglés
a fazer a bandeira garrida dos novos amores,
e entrou um peixe dizendo que vinha a recado
do Padre António Vieira, por via de seu testamento,
e que, sendo peixe miúdo, era legado
também dos graúdos e dos que mais devoram,
como se o sermão tivesse convertido alguém,
e estávamos neste clímax de raridades metafísicas,
castigando os poucos cépticos que restavam,
que nestes tumultos as dúvidas ficam sempre tísicas,

II
quando entrou sisudamente
na cidade uma delegação:
do Reino de Pádua mandavam dizer
que os conventos de São Vicente de Fora, em Lisboa,
e de Santa Cruz, em Coimbra, estavam muito atrasados
na pessoal história do santo,
já face à pregação contra os albigenses,
a sua mais espinhosa coroa de glória,
quanto mais comparados com a primavera
do teólogo, do místico, do asceta e do notável orador e taumaturgo
que verdadeiramente Lisboa não sabia quem era
se saber de alguém não é agarrá-lo pelos fundilhos
à porta da morte, a última porta de uma vida séria,
e olhá-lo com os nossos pobres olhos cansados de tanta dor e miséria
que são os olhos que olham sempre primeiro
para os pés do seu próprio dono.

III
Vista a afronta da paduana delegação
– um santo formoso, se o é, afinal, nunca renega o solo natal –
o povo, preclaro, expulsou a representação

hospes hostis
(não sendo para trabalhar a bem da nação,
já Eusébio o ouvira da boca do Professor Salazar,
não há cá Inter nem Milão, você é nosso não é para abalar,
– Santo António teve sorte, foi para Pádua –,
ir enriquecer para o estrangeiro, ora, não lembra ao demo,
não o faça o dinheiro olvidar que Moçambique é Portugal,
a pátria, pantera, a Pátria, o clube, Pantera,
o clube, que é a pátria da segunda circular – eh, mainato!)

o povo, pois claro, guardou em escuras caves seguras
as bandeiras dos visitantes,
«não fossem molhar-se desfraldadas,
nem com gotas! nem por instantes!»
mas rasgou os tratados ecuménicos
e iniciou subscrição para uma estátua
no exacto centro do terreiro do paço, de costas para as águas,
uma estátua que abençoasse os que partiam
à conquista, e travasse o passo, à conta de mágoas,
aos que chegavam ignorando as palavras secretas da irmandade do panteão.

IV
Vou rever o meu testamento vital:
tinha-me esquecido do problema do panteão:
isto ainda acaba mal: também o grego Ulisses ainda hoje ignora
que Joyce, my name is Joyce, James Joyce,
meteu a Odisseia num dia só, mais hora menos hora.
Que é quanto dura a vaidade, a nossa e toda.



(Lisboa, 6 de janeiro de 2014 | hoje foi a enterrar Eusébio. Revisto)


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o tempo. - O tempo é um filtro suave e espesso que nunca te diz francamente “não”: essa seria uma desajeitada confissão dos episódios por vir. O tempo é um par de guardanapos embrulhando as tuas mãos, dobrados em cones de pano que guardam cada ramo de dedos na forma de terminações inúteis, pontiagudas,

o tempo.



O tempo é um filtro suave e espesso
que nunca te diz francamente “não”:
essa seria uma desajeitada confissão dos episódios por vir.
O tempo é um par de guardanapos embrulhando as tuas mãos,
dobrados em cones de pano que guardam cada ramo de dedos
na forma de terminações inúteis, pontiagudas,
como se servissem uma ameaça de sevícias. Como se vissem,
em serem lanças curtas, a cautela do mundo.
Os teus membros continuam intactos,
promessas actuais de agarrarem o pão e a sopa
que nos trouxeram aqui, à Mittleleuropa:
ainda prometem colher o necessário
para matar a fome, mas o pano do tempo,
como uma máquina agarrada às tuas mãos,
envolvendo as tuas mãos como um protector passivo,
faz de ti um espectador.
Se quiseres ainda comer terás de baixar a boca às terrinas, como gamelas,
como um selvagem.
O tempo é um dispositivo que abre os braços para te mostrar
toda a extensão do momento presente
como se ele fosse por natureza um país sem fronteiras,
aberto, plano, transitável, receptivo,
mas depois coa todos os efeitos dos teus gestos
até o mundo se tornar igual
a um universo paralelo onde tivesses simplesmente renunciado.
O tempo é uma manta delicada e densa
que cobre as pessoas estaladiças
para nos proteger de riscarmos o mundo.
No fim dos tempos, fomos todos espectadores.



(ilustração: Michaël Borremans, Time, 2007, lápis e tinta branca sobre papel)
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