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quarta-feira, 12 de março de 2014

Passos Coelho inaugurou nova sede da Judiciária com heliporto por certificar Local foi visitado nesta terça-feira, no final de cerimónia de inauguração, mas ainda não pode ser usado. (inclúi fotogaleria).



















O heliporto da nova sede da Polícia Judiciária, inaugurada nesta terça-feira em Lisboa pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, ainda não conta com a certificação do Instituto Nacional de Aviação Civil – ou seja, ainda não pode ser usado, a não ser em caso de emergência.Situado no topo do complexo de edifícios que vão concentrar todos os serviços desta polícia até aqui dispersos pela cidade, o heliporto foi apresentado como uma das mais-valias desta obra gigantesca, tendo sido visitado no final da cerimónia de inauguração por uma comitiva que incluía, além de Passos Coelho, a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, o seu antecessor Alberto Costa e pela procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. O director nacional adjunto da Judiciária, Pedro do Carmo, confirma que o local de aterragem ainda se encontra em processo de certificação, mas não se alonga em explicações. “Não sendo imediato, o processo de certificação estará em breve encerrado”, limita-se a referir, sublinhando que, ao contrário do resto do complexo, o heliporto visitado pelas altas individualidades “não foi inaugurado”.
O Instituto Nacional de Aviação Civil mostra-se igualmente parco em explicações. “O processo de certificação do heliporto está a decorrer de acordo com a legislação em vigor”, limita-se a informar este organismo, sem mais nada adiantar.
Não haverá um helicóptero residente no topo do edifício onde foi instalado o equipamento: quando precisar de uma destas aeronaves para as suas operações, a Judiciária socorrer-se-á da Marinha ou da Força Aérea, como, de resto, tem feito até aqui. O heliporto poderá ainda servir, em caso de necessidade, para transportar crianças doentes para o Hospital da Estefânia, situado ali mesmo ao lado. Pedro do Carmo garante que o local de aterragem não onerou os custos da obra, uma vez que tem também como função reforçar a estrutura do prédio onde assenta.
Situada na Rua de Gomes Freire, ao lado das antigas instalações da Judiciária, que se manterão de resto em funcionamento, a nova sede da polícia de investigação criminal está, segundo o seu director, Almeida Rodrigues, ao nível das melhores do mundo. Só eventualmente a polícia de Singapura terá algo de parecido”, elogiou. 
Custou 87,6 milhões de euros, verba a que se somam mais perto de 7,6 milhões, valor dos terrenos comprados à Faculdade de Medicina Veterinária. A concentração dos serviços da Judiciária até aqui espalhados por sete localizações diferentes em Lisboa permitirá, contudo, poupanças anuais da ordem dos 2,4 milhões, segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça. Almeida Rodrigues faz ainda outra contabilidade: nas operações policiais de combate às fraudes no Serviço Nacional de Saúde, à Segurança Social e ao fisco foram arrecadadas nos oito primeiros meses do ano passado receitas directas e indirectas “suficientes para suportar os custos de construção” do complexo de edifícios, que só começará a ser ocupado pelos funcionários da Judiciária a partir do final da semana, e ao longo dos próximos dois meses. Quando a mudança terminar, restará, ainda assim, muito espaço vago, uma vez que a nova sede foi concebida para acolher muitas mais pessoas do que as 1500 que lá se irão instalar.
Menos optimista do que as chefias da Judiciária, o presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal, Carlos Garcia, recordou que o novo complexo, que tem 40 mil metros quadrados de construção à superfície e outros tantos enterrados, não resolve problemas antigos. "A mais-valia da Polícia Judiciária, o seu verdadeiro edifício, são as pessoas que aqui trabalham", realçou, observando que "todos os problemas que existem há mais de uma década estão por resolver". Os funcionários da investigação criminal “continuam a trabalhar à noite de forma gratuita, a ter um trabalho sub-remunerado e sem perspectiva de carreira", além de terem de lidar com um parque automóvel demasiado velho e com um sistema informático obsoleto.
Questionado sobre os cortes no orçamento da Judiciária de 2014, o director nacional mostrou-se confiante de que o dinheiro surgirá antes de os serviços paralisarem por falta de verbas: “Temos a promessa de que a Polícia Judiciária não vai paralisar, porque a poupança com os sete edifícios que desocupámos vai permitir um reforço do nosso orçamento”.
Concebida pelo atelier de arquitectura Saraiva + Associados, a nova sede da Judiciária conta com um bunker de 300 metros quadrados, zona de alta segurança com autonomia para vários dias munida de ecrãs que permitem acompanhar operações policiais em directo. Outra das inovações é uma carreira de tiro também no subsolo que permite usar carabinas a uma distância de 50 metros e disparar a partir de um automóvel em circulação.

MEMÓRIA descritiva: Luta armada contra a ditadura (7) – debate com operacionais da LUAR, BR e ARA- - Outras histórias de luta contra a ditadura fascista

MEMÓRIA descritiva: Luta armada contra a ditadura (7) – debate com operacionais da LUAR, BR e ARA-

«O aparecimento da LUAR, fora da órbita do PCP e de outros movimentos que surgiam com conotação marxista-leninista e envolvidos nos diferendos de carácter predominantemente doutrinário, marcou, em meu entender, uma mudança qualitativa na oposição ao regime, iniciando métodos de luta que outras organizações viriam a adoptar mais tarde, como as BR e a ARA», disse Fernando Pereira Marques.
FPM – Gostaria de acrescentar um pormenor ao que disse há pouco.
CL - Somos todos ouvidos, Fernando.
FPM - Entre o núcleo fundador da Liga de União e Acção Revolucionária, estavam antifascistas que já tinham participado em outras acções com grande impacte, associadas a tentativas mais amplas de derrube do regime: Palma Inácio, além da sua participação nos anos 40 numa tentativa de golpe militar, tinha entrado no célebre desvio do avião da carreira Casablanca – Lisboa para lançar panfletos sobre a capital; Camilo Mortágua foi também um dos que realizou esta operação e esteve ainda na tomada do paquete Santa Maria. Estas acções, apesar das suas repercussões, inclusive internacionais, caracterizavam-se por se inserir na concepção de luta designada por “reviralhista”, animada por figuras como Humberto Delgado e Henrique Galvão que apostavam nessa tradição que durante muitas décadas predominara entre a oposição.
CL – E como correram essas primeiras acções?
FPM - O fracasso de tentativas como a do chamado assalto ao quartel de Beja – evidentemente inserida num movimento mais amplo – e o facto de serem actos, indiscutivelmente corajosos, mas sem continuidade, mais o assassínio do General Sem Medo, levaram antifascistas como os citados e outros – já de outra geração – a considerarem que era tempo de se seguir uma outra via. Outra via que assentasse numa organização de carácter unitário e antifascista, que mobilizasse no interior do país, mas também no exterior, inclusive os muitos jovens refractários e desertores espalhados pela Europa. Na verdade, a partir de 1961, vir-se-iam a abrir três frentes nas colónias o que vulnerabilizava o regime, sendo importante para aumentar esta vulnerabilidade a abertura de uma frente interna.
CL – Mas a LUAR só apareceu mais tarde.
FPM – Sim. É neste contexto que, em Maio de 1967, se realizou, com os já citados e Luís Benvindo e Barracosa, e muita outra gente que apoiou na retaguarda, o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, logo seguido por um desvio de armas no quartel de Évora, com Seruca Salgado como principal responsável. Ou seja, por um lado queria-se assim resolver o problema do financiamento, sem dependências externas ou político-partidárias e, por outro, mostrar logo os objectivos mais amplos, antifascistas e anti-colonialistas, dessa operação de obtenção de fundos que, como se sabe, teve êxito. .O aparecimento da LUAR, fora da órbita do PCP e de outros movimentos que surgiam com conotação marxista-leninista e envolvidos nos diferendos de carácter predominantemente doutrinário, marcou, em meu entender, uma mudança qualitativa na oposição ao regime, iniciando métodos de luta que outras organizações viriam a adoptar mais tarde, como as BR e a ARA.
CL – E com as BR, como foram as primeiras acções?
CA - Nós preparámos a primeira acção com todo o rigor e depositávamos nessa acção – a destruição da base da NATO na Fonte da Telha, com uma grande esperança, mas acontece que resultou numa enorme frustração. Na televisão nas notícias desse dia, o Dutra de Faria, um prócere do regime, director da Agencia Nacional de Informação, dizia que Portugal era um pais com alguma singularidade, visto que aparecia um grupo a proclamar-se autor da destruição duma base na Fonte da Telha, mas que na verdade essa base não existia. Foi isso que nos conduziu oito dias depois a ter que destruir a bateria de canhões no Barreiro, que em termos estratégicos não tinha nenhuma estratégia, para lavarmos a nossa honra…
CL – Todos sabemos, José, o grande impacto que teve na opinião pública a acção da ARA emTancos. Porque é que, ao contrário das BR e da LUAR, que só se dissolveram após o advento do regime democrático, a ARA se dissolveu antes do 25 de Abril?
JB - A ARA suspendeu as suas actividades em Maio de 1973. Houve um debate interno sobre esta decisão. Havia dúvidas e a decisão não foi absolutamente evidente. Nessa altura, a ARA estava diminuída, com nove dos seus operacionais presos. Esse foi, naturalmente, um factor que pesou, mas não foi decisivo. Conforme palavras de Raimundo Narciso, «nessa altura era mais fácil recrutar novos elementos e fortalecer a organização. O argumento que mais pesou foi de carácter político.» Para a direcção do PCP foi uma boa oportunidade para pôr ponto final a uma actuação que nunca aceitara de bom grado. A repressão que se abatera sobre a ARA apenas atingira operacionais anónimos e não fizera qualquer mossa na estrutura directiva do Partido liderado por Álvaro Cunhal. Nenhum “histórico” que ocupava funções na luta armada foi preso nesta ofensiva contra a ARA em 1973. A este propósito, Raimundo Narciso tem a humildade de confessar que não sabe o que faria se tivesse sido preso (embora se tivesse preparado para não falar) e noutra admite que “chegaram ao fim os melhores ou os que tiveram a sorte de não terem sido presos”.
CL – Concordas, Carlos? Tu viveste também esta fase ainda ligado ao PCP, creio que na qualidade de funcionário. Na tua opinião, como é que o PCP aceitou enveredar pela acção armada, embora a contragosto, com o José Brandão já explicou.
CA-. Sim, efectivamente nesta segunda fase do PCP, a acção armada deixou de ser condenada, mas não era praticada, sendo mesmo sabotada. Só perante a nossa cisão, e a eminência da acção armada, é que foram obrigados, num curto período, a ter que fazer acções, através da ARA. Simplesmente, isso desencadeou um processo repressivo forte no PCP (não estava em condições orgânicas de poder coexistir como organização armada). Rapidamente e a pretexto que as condições de luta tinham mudado, parou com a acção armada. Desejou mesmo que com as Brigadas Revolucionarias acontecesse o mesmo, mas isso são outros contos…
CL – José, concorda?
JB – Sim, o Carlos Antunes tem razão. Porém, não só pelos princípios que defendia, como pela sua prática, a ARA tinha um objectivo claro na estratégia do PCP consignado na regra da insurreição popular armada. Era vista como um elemento potenciador da luta de massas e de desgaste do aparelho colonial e repressivo. Visava alcançar um forte impacto na consciência da população portuguesa e na própria opinião pública internacional. Todos estes objectivos só podiam ser levados a bom termo por uma organização não terrorista. Nunca atacou pessoas, nem bens que não estivessem ligados à política colonial e fascista.
CL – José Brandão, houve algum momento especial durante a intervenção da ARA que queira partilhar connosco?
JB – Quando um deputado pediu a pena de morte para os «terroristas» da ARA.
CL – A pena de morte?
JB – Sim. Dois dias depois de uma operação da ARA o deputado Cazal-Ribeiro pediu na Assembleia Nacional «a maior severidade, implacável severidade, para a procura e o castigo dos autores do atentado da madrugada do dia 12, na doca de Alcântara, covarde como todos aqueles que trazem a marca da A.R.A. – organização comunista de tendência, ao que parece, maoista» … «A bandeira portuguesa tem de continuar a flutuar, embora isso pese àqueles que a renegam, do Minho a Timor se não queremos negar-nos a nós próprios…». Referindo-se depois a padres de Moçambique que não deixaram entrar a bandeira portuguesa numa igreja, aos «piratas do Santa Maria» Henrique Galvão e outros, a Miguel de Vasconcelos nos idos de 1640, e outros «renegados» como os da ARA, o deputado fascista sentenciou que todos «constituem uma página negra para a nossa história e são a excepção das nossas virtudes e da nossa raça: a negação dos nossos pioneiros – Santos, Mártires e Heróis!».
CL – Fernando, tens alguma recordação especial?
FPM – Um das operações ambiciosas e – ao contrário do que se diz – devidamente planeada que não teve êxito, foi a da ocupação temporária da Covilhã. O falhanço deveu-se a problemas técnicos, devido à falta de meios e a causas que aqui seria longo explicar, mais algumas circunstâncias fortuitas. A verdade é que houve várias prisões ( no entanto a enorme maioria dos envolvidos não foi localizada). Um desses presos foi, e isso claro que constituiu rude golpe, o próprio Palma Inácio. Recordo, pois, como uma enorme humilhação para o regime e a PIDE, a sua fuga das celas privativas dessa polícia no Porto, na qual participei também como detido. Tratou-se de uma fuga só possível devido à enorme coragem desse querido companheiro recentemente desaparecido, pois ele estava submetido a uma rigorosa vigilância e sabíamos – eles o disseram – que havia ordens claras para o abater caso o Palma voltasse a tentar fazer o que em 1947 já fizera no Aljube. Acrescia que não havia apoio exterior, pelo que o sucesso dessa fuga foi absolutamente extraordinário. Recorde-se que a dimensão do facto sobre a imagem da polícia e do regime, está patente em, pela primeira vez ou mesmo única na História do fascismo, se ter posto a prémio a cabeça de um militante. Anúncios nos meios de comunicação divulgaram que haveria uma recompensa de 50 contos a quem denunciasse ou conduzisse à prisão do Palma. Ter acompanhado de perto todo o processo que conduziu a essa fuga é uma das recordações mais emocionantes que tenho.
CL – Alguma recordação mais forte, Carlos?
CA – Não. Todas a recordações da acção são memórias especiais. Estaria aqui horas a falar…
CL - Uma pergunta, talvez retórica, mas que não resisto à tentação de fazer. Quando
lutavam, arriscando a liberdade e a vida, era com o tipo de democracia que hoje temos que sonhavam? O sistema político que hoje vigora em Portugal, era o vosso objectivo? José Brandão.
JB- Tenho para mim um sonho que não se esgota no tipo de democracia que hoje temos.
O sistema político que hoje vigora em Portugal, não é objectivo que satisfaça quem deseje uma sociedade mais justa e de maior humanidade social.
CL – Fernando?
FPM – Como já disse o objectivo principal da LUAR era o derrube do fascismo. E isso foi conseguido graças ao 25 de Abril e aos seus capitães. A institucionalização da Democracia, a sua consolidação, o fim da Guerra Colonial, a promulgação de uma Constituição das mais avançadas da Europa e do mundo constituíram grandes vitórias. Mas, na linha do que já disse, considerando os ideais expressos em vários documentos, interpretando o sentir de muitos dos que foram meus companheiros e na minha própria opinião, evidentemente que gostaríamos que uma outra democracia mais perfeita e uma outra sociedade mais justa tivessem sido construídas em Portugal. Todavia, a experiência e a idade levaram-nos a perceber que não se avança linearmente, que é lento o trabalho da velha “toupeira” – como dizia Marx -, e que, por isso, a História não acabou – como houve quem decretasse.Com avanços e recuos será possível mudar a sociedade e o mundo. Aliás, se não se caminhar neste sentido de mudança, a ferocidade do capitalismo desenfreado e a sofreguidão dos poderosos virão a pôr mesmo em causa a vida neste nosso planeta e até o próprio planeta. Será que os povos não despertarão a tempo? Há que acreditar nesse despertar.
CL – E tu, Carlos, o que dizes sobre o que se idealizava e sobre o que se tem hoje?
CA- Nós lutávamos pelo socialismo e não por esta espécie de capitalismo selvagem. Não estávamos à espera desta caca, mas é necessário dizer que mesmo sabendo o que isto deu, continuaria a bater-me, não estou nada arrependido.
CL – Obrigado a todos. Creio que foi útil e esclarecedora a nossa conversa. Os leitores o dirão.
aventar.eu





Desde a sua legalização em Maio de 1974, as Edições «Avante!» procuraram, não apenas dar a conhecer a luta e as propostas do PCP para uma mobilização para a acção imediata, mas também perspectivá-las historicamente, cientes de que o conhecimento do passado é um elemento fundamental da formação ideológica dos militantes. Na prossecução desse duplo objectivo, ao longo dos anos foram sendo publicados - e o número não deixará de surpreender muitos militantes e não só - cerca de duas centenas de títulos!
(Seja dito, por outro lado e desde já, que não esquecemos as muitas e graves lacunas existentes na nossa produção editorial relativa à história do PCP, cujo preenchimento continuará a exigir um esforço constante).
Evidentemente, não será possível neste breve roteiro bibliográfico dar conta em pormenor de toda a vasta gama de obras editadas - documentos, ensaios, memórias, etc., referentes quer ao período anterior quer posterior ao 25 de Abril (1). Propomo-nos, por isso, assinalar tão-só algumas das que documentam e esclarecem períodos e temáticas históricos decisivos nos 80 anos de vida do PCP, cujo conhecimento reputamos da maior importância não só para os militantes do nosso Partido - e em especial os mais jovens - mas também para todos quantos se interessam pela história do PCP, sem a qual não é possível compreender a história das oito últimas décadas do nosso País.
Começaremos por mencionar a mais abrangente de todas elas: 60 Anos de Luta ao Serviço do Povo e da Pátria (1921-1981). Não pretendendo ser uma história dos então 60 anos de vida do PCP, traça-nos os grandes quadros históricos da acção e da luta do Partido, da classe operária, dos trabalhadores, das forças democráticas, proporcionando assim ao leitor uma ideia dos grandes passos dados no longo e heróico percurso para o derrubamento do fascismo e o posterior estabelecimento de um regime democrático. A rica iconografia que ilustra o livro, além do seu valor documental, torna ainda mais impressiva essa caminhada de luta pela liberdade e pela democracia, na perspectiva da construção de uma sociedade socialista. É, assim, uma obra de referência para quem pretender uma informação genérica fundamentada sobre todo esse período.
Referiremos em seguida os materiais do IV Congresso do PCP, publicados em dois volumes.
Reflectindo a riqueza da luta de massas em ascensão e os resultados do trabalho de reorganização partidária nos primeiros anos da década de 40, os materiais do IV Congresso, realizado em Julho de 1946, constituem o mais profundo documento até então elaborado pelo PCP. Desmascarando o governo fascista de Salazar como «instrumento das manobras da reacção mundial», analisando a estrutura sócio-económica determinante da forma ditatorial de exercício do poder político, caracterizando o amplo leque de alianças que em tais circunstâncias se abria e cuja unidade se forjava na luta, o Congresso fundamentou solidamente o caminho para atingir o objectivo estratégico fundamental do derrube do fascismo: o da «insurreição nacional», definida como o «levantamento em massa da nação, a ter lugar numa situação de ‘crise nacional geral’, quando o povo não quer mais ser governado pelo fascismo e quando o fascismo não pode mais governar».
Para se chegar a tal situação insistia-se na necessidade das lutas parciais, na necessidade da mobilização das massas populares por objectivos imediatos, assim como a de um partido firmemente estruturado segundo os princípios do centralismo democrático e cuja natureza de classe e independência ideológica, então claramente reafirmadas, eram condições do êxito da acção política.
Há que chamar a atenção para o facto de o I volume, constituído pelo informe político de Álvaro Cunhal (Duarte), intitulado O Caminho para o Derrubamento do Fascismo, conter um extenso prefácio em que o autor analisa as razões «da importância e significado muito particulares» deste Congresso: o ter-se realizado «num momento crucial da história do século XX»; o «traduzir um dos períodos de mais força e influência do PCP na luta contra a ditadura»; as «múltiplas experiências e lições que resultam das suas análises, orientações e decisões».
Os materiais do IV Congresso e o prefácio que os antecede são de leitura imprescindível para quem queira reflectir seriamente sobre a história do PCP e sobre a identidade, estrutura orgânica e projecto político que norteiam a sua acção.
O profundo trabalho de estudo, reflexão e discussão empreendido em 1960-1961 veio a ter a sua expressão no que constitui sem dúvida o documento político mais importante publicado sob a ditadura fascista: Rumo à Vitória (As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional), de Álvaro Cunhal.
Apresentada ao Comité Central de PCP em Abril de 1964, no âmbito dos trabalhos preparatórios do VI Congresso que se viria a realizar em Setembro de 1965, esta obra é de leitura obrigatória para todos quantos queiram compreender, em toda a sua profundidade, não apenas os objectivos, as forma de luta, a estruturação orgânica, a via que o PCP indicava para a revolução portuguesa - então definida como Revolução Democrática e Nacional - e a sua actividade durante a década que precedeu o 25 de Abril, mas o próprio processo da Revolução de Abril, na sua génese e no seu desenvolvimento. Processo que confirmaria quer a validade não meramente conjuntural das análises, previsões e alertas nela contidos, quer o acerto dos objectivos então propostos a serem alcançados com a revolução.
De leitura obrigatória também enquanto libelo acusatório do fascismo face às tentativas hodiernas de diversos matizes para o branquear e enquanto exemplo modelar da fecundidade do marxismo-leninismo como método de análise cientificamente fundado: ele permitiu a Álvaro Cunhal apreender a realidade objectiva no seu devir contraditório específico (2), definir objectivos, discernir perspectivas de acção, apontar formas e orientações de luta apropriadas à situação concreta e combater ideias erróneas, desviantes de uma prática verdadeiramente revolucionária.
Obra, pois, de flagrante actualidade para quem, não obstante as complexas tarefas que a realidade de hoje coloca, persiste em a transformar, revolucionariamente.
Do grande número de antologias temáticas publicadas relativas à história do Partido no período anterior ao 25 de Abril iremos fazer referência a duas.
Abarcando um período de cerca de 40 anos, a colectânea O PCP e a Luta Sindical permite conhecer de forma bastante desenvolvida o que foram, durante esse período de ditadura fascista, não só as linhas de orientação do PCP em matéria sindical, mas também as lutas sindicais travadas pelos trabalhadores portugueses e o papel que na sua preparação e condução tiveram os comunistas. E não nos esqueçamos de que foram as orientações e as lutas levadas a cabo sob o fascismo que permitiram forjar estruturas e quadros que tiveram «um papel decisivo na transição para as novas condições de luta sindical após o 25 de Abril e na continuidade da acção do movimento sindical unitário», como se salienta no Prefácio.
São hoje diferentes as condições da luta sindical e de muitos dos seus objectivos - e portanto também as formas de que essa luta se reveste - mas não diminuiu a importância de um movimento sindical de classe na defesa dos direitos dos trabalhadores, na luta pela melhoria das suas condições de vida e de trabalho, no abrir caminho para uma sociedade liberta da exploração. Os ataques de que é alvo, aí estão para o demonstrar. Reviver o passado do movimento sindical, passado de heróica dedicação à classe operária, a todos os trabalhadores, é assim uma forma de nos temperar e consciencializar para os combates de hoje e amanhã.
Em Documentos do Comité Central (1965-1974) reúnem-se os documentos mais importantes publicados pelo Comité Central e os seus órgãos executivos entre Janeiro de 1965 e o 25 de Abril (inclui quer o «Comunicado da Comissão Executiva do CC do PCP sobre o derrubamento do governo de Marcelo Caetano» tornado público no próprio dia 25 de Abril quer o «Comunicado do Secretariado do CC do PCP sobre o movimento militar de 25 de Abril» publicado no dia 26). Dois aspectos são de salientar nesta antologia, referidos na Nota introdutória: em primeiro lugar, o facto da documentação coligida permitir «acompanhar, no essencial, a análise que o Partido ia fazendo da evolução da situação política, das suas contradições e perspectivas, da luta por ele impulsionada e dirigida como vanguarda organizada da classe operária e verdadeiro representante do interesse nacional». Em segundo lugar, o facto desses documentos, «resultantes de uma amplo trabalho colectivo ao nível de direcção, trabalho exercido sobre as informações e análises dos militantes do Partido, a todos os níveis, e veículadas através da sua organização à escala nacional», testemunharem a «capacidade de direcção política do nosso Partido, possibilitada pela sua larga experiência de luta e pela sua fidelidade aos princípios do marxismo-leninismo».
Pelo seu conteúdo e pelo método da sua elaboração, estes documentos, além do seu valor histórico (3), revestem-se, pois, de uma grande importância para a formação político-ideológica. E a sua leitura é um verdadeiro antídoto para o veneno, de proveniências várias, segregado contra este período da história do PCP (aliás como, em geral, contra toda a história do PCP).
Livros publicados pelas Edições «Avante!»
referentes à história do PCP - I
  • 60 Anos de Luta ao Serviço do Povo e da Pátria
  • Programa e Estatutos do PCP (aprovados no VI Congresso do PCP)
  • Documentos do Comité Central do PCP (1965-1974)
  • O Governo de Marcelo Caetano, Tentativa de Salvar a Ditadura
  • Comunistas e Católicos
  • O PCP e a Luta pela Reforma Agrária
  • PCP e a Juventude
  • PCP e a Luta Sindical
  • As Greves de 8 e 9 de Maio de 1944
  • VII Congresso da Internacional Comunista
  • Dossier Humberto Delgado - O Crime Premeditado
  • Dossier Segunda Guerra Mundial
  • A Defesa Acusa
  • Lutas e Movimentos de Mulheres em Portugal. Subsídios para a História sob o Regime Fascista (1926-1974)
  • Para Que Nunca Mais Aconteça Fascismo
  • IV Congresso do PCP: I - O Caminho para o Derrubamento do Fascismo, Álvaro Cunhal (Duarte)
  • IV Congresso do PCP: - Relatórios e Resoluções
  • Rumo à Vitória, Álvaro Cunhal
  • Relatório da Actividade do Comité Central ao VI Congresso do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal
  • O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal
  • Acção Revolucionária, Capitulação e Aventura, Álvaro Cunhal
  • Contribuição para o Estudo da Questão Agrária (2 volumes), Álvaro Cunhal
  • Duas Intervenções numa Reunião de Quadros, Álvaro Cunhal
  • A Questão do Estado, Questão Central de cada Revolução Álvaro Cunhal

  • A Superioridade Moral dos Comunistas, Álvaro Cunhal
  • A Força Invencível do Movimento Comunista, Álvaro Cunhal
  • O Internacionalismo Proletário - Uma Política e Uma Concepção do Mundo, Álvaro Cunhal
  • Algumas Experiências de 50 Anos de Luta, Álvaro Cunhal
  • Eles Têm o Direito de Saber, Jaime Serra
  • As Explosões Que Abalaram o Fascismo. O Que Foi a ARA (Acção Revolucionária Armada), Jaime Serra
  • O Abalo do Poder... (Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975), Jaime Serra
  • O Processo do Salazarismo, Pedro Ramos de Almeida
  • Salazar - Biografia da Ditadura, Pedro Ramos de Almeida
  • Tarrafal, Campo da Morte Lenta, Pedro Soares
  • Recordações dos Anos Difíceis, M. W. Russel
  • Com Uma Imensa Alegria, Joaquim Pires Jorge
  • Da Resistência à Revolução, Miguel Urbano Rodrigues
  • Lutas de Massas em Abril e Maio de 1962 no Sul do País, António Gervásio
  • 30 Anos de Vida e de Luta na Clandestinidade, Mauel da Silva
  • Relatório sobre a Manifestação de 15 de Abril no Porto contra a Carestia de Vida - 1972, DORN do PCP
  • Relatório sobre o Algarve (Agosto de 1952), Carlos Costa
  • Das Prisões à Liberdade, Francisco Miguel
  • Memória Viva do Tarrafal, Gilberto Oliveira
  • Histórias Clandestinas, Joaquim Campino
  • Uma Fortaleza da Resistência (Peniche,1934-1974), Fernando Miguel Bernardes
  • Mulher de Abril (Álbum de Memórias), Virgínia Moura
  • Para a História Remota do PCP em Coimbra (1921-1946), Alberto Vilaça
  • 1969: Um Marco no Caminho para a Liberdade, Lino de Carvalho
  • Barreiro - Uma História de Trabalho, Resistência e Luta (1926-1945), Armando de Sousa Teixeira
  • A Fábrica e a Luta em Construção. Barreiro - Uma História de Trabalho, Resistência e Luta (1946-1962), Armando de Sousa Teixeira.
(continua no próximo número)

Notas
(1) Paralelamente a este texto, apresentamos uma enumeração praticamente exaustiva desses livros, que julgamos útil para quem quiser aprofundar os seus conhecimentos da história do PCP.
(2) Não é por acaso que no Relatório da Actividade do Comité Central, apresentado ao VI Congresso, Álvaro Cunhal, rejeitando qualquer «esquema tomado em compêndios», dedique um capítulo à explicitação das características «originais» da «própria realidade portuguesa» de então que determinavam a «originalidade» da revolução democrática e nacional, cujos objectivos estavam sintetizados nos 8 pontos do Programa (ver pp.77-90 da edição publicada em 1975 pela Editorial «Avante!»).
(3) Anote-se a este propósito que, em 1997, publicaram as Edições «Avante!» uma outra antologia intitulada O Governo de Marcelo Caetano, Tentativa de Salvar a Ditadura respeitante aos últimos seis anos da ditadura. Pretendia ser, «uma contribuição para corrigir a falsificação da história que desse período, tal como do 25 de Abril, estão realizando, sistematicamente e servindo-se de poderosos meios de difusão, alguns historiadores, políticos com altas responsabilidades e comentadores de toda a espécie». Um dos visados, Fernando Rosas, enfiou a carapuça: fazendo expressa referência àquela antologia, lançou às urtigas as mais elementares regras do métier d´historien, que com tanto afinco reivindica, e... multiplicou as suas puras e simples calúnias anticomunistas. Só que muitas mentiras não fazem a verdade! [Ver de Fernando Rosas, «Marcelismo: a liberalização tardia (1968-1974) in O Estado Novo (1926-1974), vol. VII da História de Portugal dirigida por José Mattoso, Editorial Estampa, 1994; «O Marcelismo e a crise final do Estado Novo» in Portugal e a Transição para a Democracia (1974-1976), Edições Colibri/Fundação Mário Soares/Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, 1999; «O Marcelismo ou a falência da política de transição no Estado Novo» in Do Marcelismo ao Fim do Império, Editorial Notícias, 1999.]
«O Militante» - N.º 253 - Julho/Agosto 2001



A ARA contra a Guerra Colonial e o Fascismo

- Aluga aí um apartamento mobilado, rapidamente. Tens dois dias - disse-lhe eu para o apressar e dei-lhe uma zona larga de Lisboa para procurar.


- Eh pá, então alugas-me um apartamento clandestino assim, num prédio destes, no meio da avenida dos EUA com a Av de Roma?... - repreendia eu o Martins que era um camarada completamente "limpo" e que ficaria de quarentena, sem qualquer actividade política, enquanto precisássemos da casa.


- Olha olha!... queres melhor? Num sítio chique, assim, é que a PIDE não desconfia.
Na realidade não conhecia ninguém que vivesse perto do local e como a urgência era máxima,  conformei-me.


O apartamento iria servir de refúgio para o Ângelo de Sousa quando fugisse da Base Aérea 3, em Tancos, após a sabotagem dos aviões e helicópteros e serviria ainda para os últimos preparativos da sabotagem, nomeadamente a simulação da colocação das cargas explosivas e incendiárias nos aviões e helicópteros, ligações da complexa rede elétrica, tudo isto às escuras ou com um fiozinho de luz de minúsculas lanternas. A simulação foi exercitada até a lição ficar sabida de cor e salteada pelo Carlos Coutinho e o Ângelo de Sousa. O António Eusébio também ajudava à festa mas o papel dele era ficar de fora do hangar a vigiar a entrada.


Correu tudo muito bem. Exceto o susto que apanhei mas felizmente só 4 anos depois, em 1975, já a revolução andava à solta pela rua, quando soube que no andar de cima do nosso quartel-general morava um familiar meu. Era de todo inconveniente que por acaso ou azar me visse por ali. Meter familiares ou amigos nestes assuntos era de todo, mas de todo mesmo, inconveniente a menos que programado. 
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Na imagem: Nota da PIDE publicada nos jornais e na TV, na expectativa de que alguém a ajudasse a encontrar o Ângelo. Não encontrou. O Ângelo foi a salto para o estrangeiro e algum tempo depois voltou para a clandestinidade, para lutar na ARA, com a Fernanda, sua namorada à data dos factos. Tiveram três lindas filhas, hoje umas senhoras. 
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Os nomes citados são verdadeiros excepto o de "Martins" que é pseudónimo. A verdadeira identidade nunca foi revelada por razões familiares porque era uma pessoa muito próxima de um ministro de Marcelo Caetano.

AS MAIS BELAS PINTURAS DO MUNDO - PINTORES FAMOSOS : BARENT FABRITIUS - PARTE (9)

Barent Fabritius

O Abate do Porco (1656)