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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O PCP, os católicos e a Igreja- Contributo de Álvaro Cunhal e breves notas da actualidade

O PCP, os católicos e a Igreja- Contributo de Álvaro Cunhal e breves notas da actualidade

PCP, os católicos e a Igreja- Contributo de Álvaro Cunhal e breves notas da actualidade
Carlos Gonçalves

"A Igreja Católica, num processo irregular, registou algumas mudanças. Acentuou-se a fusão do Estado do Vaticano e das super-estruturas da Igreja com o capital financeiro supranacional, o que implica a consolidação das respectivas opções de classe na alta hierarquia. Mas, simultaneamente, avançou a secularização da vida social, alargou-se o fosso entre o diagnóstico oficial da «economia de exclusão e desigualdade» e a ocultação e mistificação de respostas progressistas efetivas, emergiram novos questionamentos de dogmas e orgânicas e novas dinâmicas associativas e de Acção Católica.

Em Portugal, neste final de 2013, e isso é ainda uma conquista de Abril, não existe uma «questão religiosa», e no que depender do PCP nunca existirá; o que não significa que não haja matéria a merecer atenção, relativamente à laicidade do Estado e à sua garantia, à igualdade das confissões minoritárias e a múltiplos fenómenos sociais conexos. Este é um quadro em que a relação dos comunistas com a Igreja, os católicos e os outros crentes, assume novas complexidades."


No quadro das comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal, os seus textos sobre o Partido, os católicos e a Igreja e a reflexão que têm suscitado, fez crescer a atenção do colectivo partidário a esta matéria e contribuiu para o debate entre trabalhadores e democratas de diferentes convicções e para novas sínteses de intervenção e proposta, no caminho da ruptura com a política de direita e o Pacto de Agressão e da construção de uma alternativa e de uma política patrióticas e de esquerda para Portugal.

«A mão estendida aos católicos»

Há setenta anos, em Novembro de 1943, o III Congresso do Partido aprovou o Informe do Secretariado do Comité Central, redigido por Álvaro Cunhal, sobre «A unidade da nação portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela independência». Desse documento consta um texto, mais tarde republicado com o título «A mão estendida aos católicos» (1), que sintetiza os princípios e orientações para a ação dos comunistas com os católicos e na relação com a Igreja.

Nesse texto, dizia Álvaro Cunhal: «Não esquecemos que a Igreja Católica [...] tem apoiado a exploração, a opressão e as atrocidades fascistas […] por isso, combatemos […] [a sua política] e os sacerdotes fascistas. [...] Mas não os combatemos pela sua actividade religiosa. [...] [Mas] sim pela sua actividade contra o povo e o país, […] de traição nacional.» E «também não esquecemos que muitos sacerdotes [...] são inimigos da Alemanha nazi. [...] Que muitas centenas de milhar de trabalhadores, explorados e oprimidos [...], são ainda influenciados pelo catolicismo [...,] não podemos separar-nos, por razões religiosas, dos [...] operários e camponeses católicos [...] Ou [os] atraímos […] para a luta contra o fascismo; ou deixamos que eles constituam uma […] reserva do fascismo.». E concluía: «Não fazemos a "guerra à religião" e não pretendemos atingir a liberdade de crença e de prática de culto [...]. Estendemos lealmente a mão aos católicos (bem como aos que professam qualquer outra religião) para que participem no movimento nacional contra o fascismo, pelo Pão, pela Liberdade e pela Independência»1.

O III Congresso do Partido também clarificou, e assim se mantém até hoje, que um crente pode ser militante do PCP, desde que, como qualquer outro, intervenha no quadro dos respectivos Programa e Estatutos. Aliás, a esse respeito Álvaro Cunhal citava Lénine: «devemos não só admitir como atrair sem falta para o Partido […] todos os operários que conservam a fé em Deus, somos absolutamente contra a menor afronta às suas convicções religiosas.»2

Em O Caminho para o Derrubamento do Fascismo, informe do Comité Central ao IV Congresso 3, em 1946, Álvaro Cunhal escreveu: «Estendemos lealmente a mão aos trabalhadores católicos; a todos os católicos patriotas e progressistas. Lutámos contra o sectarismo e incompreensão de muitos dos nossos militantes e da generalidade dos antifascistas [...]. Houve erros de intolerância em 1910 que não devem […] repetir-se. Conquistaremos para a causa da Democracia a massa católica na medida em que saibamos respeitar as suas crenças [e] [...] mostremos […] [ser] os melhores defensores da liberdade de consciência.» 4

Álvaro Cunhal identificava «importantes factores prejudiciais à unidade com os católicos, à [sua] participação […] no Movimento de Unidade Nacional Anti-fascista, [...] a política reaccionária do Vaticano 5 [e o] apoio a Salazar […] [e a] política em defesa do fascismo levada a cabo pela Igreja portuguesa [...,] verdadeiro abuso que a hierarquia eclesiástica faz das convicções religiosas dos católicos [...]». E referia também como «factores favoráveis à unidade», «a participação de milhares de católicos nos movimentos populares [, os] numerosos católicos que se separam da acção reaccionária e fascista do Vaticano e da Igreja e anseiam liberdade e democracia no nosso país [e que] «a grande massa dos trabalhadores católicos não é fascista, acredita em Deus e vai mesmo à Igreja, mas não está de acordo com […] Salazar». E sintetizava: «para ganharmos os católicos para a causa antifascista, não devemos poupar esforços e devemos saber eliminar as deficiências na nossa actuação», chamar [...] os trabalhadores católicos à luta, [...] atrair à [unidade] católicos, incluindo sacerdotes, e procurar mesmo a adesão e participação activa de católicos destacados». 4

No texto «O Partido Comunista, os Católicos e a Igreja» 6, em 1947, Álvaro Cunhal escreveu: «as convicções religiosas, por si só, não são susceptíveis de afastar os homens na realização de um programa social e político», «comunistas e católicos podem e devem unir-se em defesa dos seus anseios comuns [...]». E afirmou: «o Cardeal Cerejeira [e] altos dignitários [da Igreja] […] têm tomado uma posição política clara, pregando o ódio aos comunistas e outros democratas e o apoio ao salazarismo, [mas] isso não altera «a nossa posição», continuamos desejando sinceramente a unidade com os católicos progressistas na luta pela realização das nossas comuns aspirações». 6

Nesse texto, após o estudo aprofundado da política da Igreja portuguesa, às ordens do Estado do Vaticano e em apoio ao fascismo, Álvaro Cunhal concluiu: «[...] os dirigentes católicos reaccionários insistem constantemente no que separa os católicos dos comunistas e outros democratas […], procurando mostrar que a barreira é tal que torna impossível qualquer entendimento ou acção comum», mas «a verdade é que "aquilo que nos separa nada é comparado com o que nos une”.» 6

No Rumo à Vitória – As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional 7 notável base teórica do Programa do PCP, aprovado em 1965 no VI Congresso, escreveu Álvaro Cunhal: «Salazar (e as classes monopolistas que representa) serve-se da Igreja e do catolicismo. Os católicos têm a "liberdade" de fazer política fascista: não têm liberdade para fazer qualquer outra política. [...] Quando [...] nenhuma corrente de católicos antifascistas tinha ganhado vulto […] insistiam no dever dos sacerdotes intervirem na vida política. Mas, quando em 1958 tal corrente se manifestou no documento assinado pelo Bispo do Porto e por dezenas de sacerdotes, o Cardeal [Cerejeira] apressou-se a ordenar que "não é missão dos sacerdotes fazer política.» 8

E pouco depois, no relatório ao VI Congresso 9 escreveu Álvaro Cunhal: «vastos círculos católicos têm-se separado do regime fascista […]. Os fascistas ameaçam tais católicos no plano político e religioso e chegam a proclamar que, por cooperarem com os comunistas […], deixam de ser católicos […,] se por hipótese a Igreja, se o próprio Papa, em tal ou tal momento [...] ou questão, negam o seu apoio à política fascista, logo passam "ao campo do inimigo"». 10 Foi exactamente o que se veio a verificar em Julho de 1970, quando Paulo VI recebeu os movimentos de libertação das colónias portuguesas.

Na crise geral do regime fascista e na Revolução de Abril, na construção do regime democrático e na sua defesa face à contra-ofensiva monopolista e imperialista, o acervo de orientações do Partido relativamente aos católicos e à Igreja confirmou-se na vida como verdadeiramente justo e adequado. Em Novembro de 1974 Álvaro Cunhal afirmou: «os comunistas defendem […] boas relações do Estado com a Igreja. Esta [...] política não se baseia em critérios de oportunidade, mas numa posição de princípio», «o mundo evolui e a Igreja Católica [...] mostra também indícios de [...] evolução positiva. [...] Confiamos em que os homens mais esclarecidos da Igreja […] compreendam […] a sinceridade [e] as profundas implicações [...], para o presente e para o futuro, desta posição do Partido Comunista». 
11

Numa fase difícil da Revolução de Abril, quando, para travar e inverter as mudanças progressistas e tentar impedir a acção do Partido, as forças reaccionárias, com a cumplicidade do PS, não hesitaram no recurso ao terrorismo bombista e assassino, confirmou-se a responsabilidade criminosa de altos dignitários da Igreja Católica, mas o PCP, ao mesmo tempo que combatia os conspiradores, insistiu que «não existe um problema religioso em Portugal» e não deixou cair a consigna da «mão estendida aos católicos» na construção da democracia no nosso país.


A convergência com os católicos nos dias de hoje


Hoje, a situação do país é de uma enorme gravidade e complexidade. Vivemos as consequências de mais de 37 anos de política de direita e contra-ofensiva monopolista, da integração e da moeda única da União Europeia, do capitalismo e da sua crise estrutural e sistémica e do pacto de agressão e saque nacional – o que resulta é mais exploração, pobreza, destruição da economia, regressão social e dependência externa.

Prossegue a subversão da Constituição e dos avanços civilizacionais que consagra. Degrada-se o regime democrático, «politicamente empobrecido e desfigurado, amputado da dimensão social e económica original, crescentemente asfixiado pelos interesses do grande capital». 
12

Verifica-se uma arrumação de forças sociais complexa, cuja polarização se vai acentuando. E regista-se uma correlação de forças no plano político que tem vindo a melhorar, mas que não atingiu o patamar de ruptura com a política de direita, por responsabilidade do PS.

Por outro lado, a democracia formal tornou possível algum avanço na laicização do Estado e contribuiu para que mais católicos e crentes assumam a pluralidade dos seus interesses de classe e das suas opções político-ideológicas, em todas as organizações sociais e partidos políticos.

A Igreja Católica, num processo irregular, registou algumas mudanças. Acentuou-se a fusão do Estado do Vaticano e das super-estruturas da Igreja com o capital financeiro supranacional, o que implica a consolidação das respectivas opções de classe na alta hierarquia. Mas, simultaneamente, avançou a secularização da vida social, alargou-se o fosso entre o diagnóstico oficial da «economia de exclusão e desigualdade» e a ocultação e mistificação de respostas progressistas efectivas, emergiram novos questionamentos de dogmas e orgânicas e novas dinâmicas associativas e de Acção Católica.

Em Portugal, neste final de 2013, e isso é ainda uma conquista de Abril, não existe uma «questão religiosa», e no que depender do PCP nunca existirá; o que não significa que não haja matéria a merecer atenção, relativamente à laicidade do Estado e à sua garantia, à igualdade das confissões minoritárias e a múltiplos fenómenos sociais conexos. Este é um quadro em que a relação dos comunistas com a Igreja, os católicos e os outros crentes, assume novas complexidades.

A Igreja Católica e todas as outras, devem ser respeitadas na sua acção religiosa e ouvidas com atenção no plano institucional. Nada move os comunistas contra a Igreja e não acompanhamos posições anticlericais, de génese maçónica ou anarquista. Aliás, a experiência mostra que é positivo o relacionamento regular entre o Partido e a Igreja Católica, apesar dos preconceitos de certos dignitários. E como no passado, o PCP não abdicará do direito de resposta a posições de natureza política, algumas bem alinhadas à direita, de certos responsáveis religiosos, se e quando isso for impreterível.

Mas o relacionamento dos comunistas com as massas católicas tem de prosseguir sobretudo nos caminhos que trilham em comum, na defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo, no movimento sindical unitário, nas organizações de classe, nos movimentos associativo e de defesa das populações, na luta contra a exploração, o empobrecimento e o declínio nacional, no quadro da CDU e na construção de uma nova política patriótica e de esquerda.

A experiência prova que não é difícil a convergência nestes caminhos. O humanismo, a proximidade aos pobres e oprimidos, os valores de paz, justiça e igualdade do «cristianismo primitivo» e do acervo cultural das massas católicas, não estão longe de ideais e propostas dos comunistas. Escreveu Álvaro Cunhal: «Quem são aqueles que estão mais perto dos pobres, [...] que sempre […] defendem os humilhados e ofendidos, as vítimas da exploração, da tirania e do mal? Quem […] é animado pelo amor do próximo e capaz de sacrificar [...] a própria vida? [...] qualquer pessoa de sentimentos honrados encontra resposta fácil […]» e «se a anima o ideal cristão, sentir-se-á mais próxima dos comunistas, que não são católicos, do que daqueles que se dizem cristãos, sem alguma vez o terem sido.» 
13

Hoje, o problema político mais complexo da situação nacional reside na fase mais adiantada do caminho comum dos trabalhadores e outros sectores sociais não monopolistas, dos católicos progressistas, dos comunistas, de todos os democratas e patriotas; a dificuldade é a construção da verdadeira alternativa e de um governo patrióticos e de esquerda, que não se confundam com um governo PS de alternância ao PSD, para fazer no essencial a mesma política.

O desenvolvimento vigoroso da luta de massas, o reforço do PCP e a alteração da correlação de forças no plano político são determinantes para uma verdadeira alternativa, cuja construção pode «constituir um processo complexo e eventualmente prolongado»
14, um caminho muito exigente, que impõe a cooperação de forças, sectores e personalidades democráticas e obriga os democratas e patriotas a um grande esforço de convergências e soluções.

Neste caminho difícil, há muitos passos a dar, muitas posições e acção a construir e consolidar, com as organizações católicas mais avançadas, a JOC, a LOC e vários movimentos de leigos, porventura próximos do Vaticano II e da Teologia de Libertação, com sacerdotes e personalidades da hierarquia da Igreja, de outras organizações cristãs e de outras religiões, que não militem pela política de direita e pelo Pacto de Agressão, que não manipulem a religião como «ópio do povo», que se comprometam com a sua fé no caminho da mudança, para um mundo e um Portugal mais humano e mais justo.

O legado de Álvaro Cunhal, a história e a luta do PCP e a realidade do mundo de hoje não deixam espaço a hesitações. É preciso, imperioso e urgente estar do lado das massas católicas, dos trabalhadores e do povo e «estender a mão» aos cristãos e aos crentes, porque é impreterível juntar ainda mais forças, inteligências e vontades, na luta contra a exploração e o roubo, contra o capital financeiro, o «bezerro de ouro», o obscurantismo e a destruição do país, no caminho em comum para firmar os valores de Abril no futuro de Portugal.

 
 


Notas
(1) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, Edições «Avante!», Lisboa, t. I, 2007, pp. 204-208.


(2) V. I. Lénine, Obras Escolhidas em 6 tomos, Edições «Avante!», Lisboa, Tomo I, 1984, «Sobre a atitude do Partido Operário em relação à Religião», p. 375.

(3) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. I, ed. cit., pp. 369-536.

(4) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. I, ed. cit., «A unidade com os católicos», pp. 479-483.

(5) O Caminho para o Derrubamento do Fascismo inclui um texto sobre «A política reaccionária do Vaticano» – Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. I, ed. cit., pp. 429-431.

(6) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. I, ed. cit., pp. 789-814.

(7) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, Edições «Avante!», Lisboa, t. III, 2010, pp. 1-246.

(8) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. III, ed. cit., pp. 128 e 129, citação do texto «A Igreja e os católicos» do Capítulo IX do Rumo à Vitória – «Unidade das forças democráticas e patrióticas imperativo da situação nacional».

(9) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. III, ed. cit., pp. 279-415.

(10) O Relatório do Comité Central ao VI Congresso inclui um texto com o título: «Estreitar a cooperação com os católicos antifascistas» – Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. III, ed. cit., pp. 364-368.

(11) Cadernos do PCP, Comunistas e Católicos, Edições «Avante!», Lisboa, 1975, pp. 81-85, excertos do texto «Ser católico ou não católico não é motivo de separação ou divisão entre portugueses», que integra o discurso de Álvaro Cunhal num comício em Braga em 30 de Novembro de 1974.

(12) Avaliação do XVIII Congresso, reiterada no XIX Congresso do PCP, Edições «Avante!», Lisboa, 2013, Resolução Política, p. 367.

(13) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, t. III, ed. cit., p. 368.

(14) XIX Congresso do PCP, ed. cit., Resolução Política, p. 394.
 
 
 
 
Fonte: O Militante
 
 
 

CDS de Portas, um limão espremido O CDS esteve quase morto, no início dos anos 90, e foi Paulo Portas que o ressuscitou. Sob a liderança de Adriano Moreira, o partido ficou reduzido àquilo que ficou popularizado pelo “partido do táxi” – eram só quatro deputados eleitos, o próprio Adriano Moreira, Nogueira de Brito, um deputado em regime rotativo eleito por Aveiro e Narana Coissoró, líder parlamentar.

ANA SÁ LOPES

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 CDS de Portas, 
um limão espremido

O CDS esteve quase morto, no início dos anos 90, e foi Paulo Portas que o ressuscitou. Sob a liderança de Adriano Moreira, o partido ficou reduzido àquilo que ficou popularizado pelo “partido do táxi” – eram só quatro deputados eleitos, o próprio Adriano Moreira, Nogueira de Brito, um deputado em regime rotativo eleito por Aveiro e Narana Coissoró, líder parlamentar. Na realidade, só existia na frente política Narana Coissoró – estava habitualmente sozinho a enfrentar o governo cavaquista e a esquerda. Os restantes tinham funções diminutas no combate político. Com a demissão de Adriano Moreira na sequência da derrota clamorosa, Freitas do Amaral é reeleito presidente do partido. Mas aqui a famosa frase de Cesare Pavese – “Nada é mais inabitável do que o lugar onde se foi feliz” – revelou-se adequadamente trágica. Surgem, entretanto, Manuel Monteiro e “O Independente” de Paulo Portas, com uma agenda poderosa, populista, popular, eurocéptica e que se revelou decisiva para ressuscitar o partidofundador do regime democrático do estado de coma eleitoral em que o tinham deixado os fundadores.

Portas ajudou a criar Manuel Monteiro, embora Monteiro tivesse “vida própria” e não se reduzisse a um mero fantoche do director de “O Independente”. Mas não dispunha da sua argúcia e capacidade de sobrevivência quase imbatível entre os políticos portugueses no activo. Portas sobreviveu a vários escândalos, a vários desaires políticos – mas como sobreviverá à traição de todo o seu programa eleitoral sobre o qual fundou a sua liderança? O segmento dos pensionistas, idosos, pessoal das feiras, etc. já não pode voltar a pôr o voto no “Paulinho das feiras” transmutado no Portas das Laranjeiras. A explicação sobre o que aconteceu em Julho não existiu – talvez nem pudesse existir – mas a sua formulação em congresso, com o recurso à expressão “o que tem que ser tem muita força” não poderia ter sido mais infeliz. Se hoje existe governo, é porque Pedro Passos Coelho recusou a demissão de Paulo Portas, coisa em que, de facto, na altura ninguém acreditava. E este gesto de Passos Coelho teve mais apoio dentro do CDS do que a demissão “irrevogável” de Portas. O cargo de vice-primeiro-ministro e o de interlocutor com a troika cola Paulo Portas a Passos Coelho para o resto da legislatura, com evidentes prejuízos para o primeiro. É natural que o próprio Portas já admita que a sua sucessão está na rua. As feiras e a lavoura vão ter outros visitantes do CDS. E, ao que parece, são muitos os disponíveis.

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13/01/14

Abelardo e Heloísa - Uma História de Amor O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença. Abelardo havia sido recentemente pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica.



Abelardo e Heloísa - Uma História de Amor
O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença.
Abelardo havia sido recentemente pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica.
Heloísa, que já ouvira falar sobre Abelardo e se interessava por suas teorias polêmicas, tentou aproximar-se dele através de seus professores, mas suas tentativas foram em vão.
Numa tarde Heloísa saiu para passear com sua criada Sibyle, e aproximou-se de um grupo de estudantes reunidos em torno de alguém. Seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar justamente nos pés do jovem que era o centro da atenções, o mestre Abelardo. Ao escutar seu nome, o coração de Heloísa disparou. Ele apanhou o chapéu, e quando Heloísa aproximou-se para pegá-lo, ele logo a reconheceu como Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo. Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando o olhar dos dois posaram um sobre o outro. Heloísa recolocou seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo e se retirou.
Desde esse encontro, porém, Heloísa não consegui mais esquecer Abelardo. Fingiu estar doente, dispensou seus antigos professores e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelo Cântico dos Cânticos, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas. Ela sabia que Abelardo seria atraído por suas atividades e viria até elas. Quando ficou sabendo dos estudos de Heloísa, conforme previsto por ela Abelardo imediatamente a procurou.
Abelardo tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria. Em pouco tempo essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, sem demora, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós. Fulbert ia dormir, e a criada retirava-se discretamente para o quarto ao lado.
Em alguns meses, conheciam-se muito bem, e só tinham paz quando estavam juntos. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendi a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento Abelardo passou a se desinteressar-se de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se de suas obrigações como professor.
Os problemas começaram a surgir. Primeiro, esse amor começou a esbarrar nos conceitos da época, quando os intelectuais, como Heloísa e Abelardo, racionalizavam o amor, acreditando que os impulsos sensuais deveriam ser reprimidos pelo intelecto. Não havia lugar para o desejo, que era um componente muito forte no relacionamento dos dois, originando um intenso conflitos para ambos. Ao mesmo tempo Sibyle, a criada, adoecera, e uma outra serva que a substituíra encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa, e a entregou a Fulbert, que imediatamente o expulsou. No entanto isso não foi suficiente para separá-lo.
Heloísa preparou poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, Abelardo foi conduzido ao porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois.
Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los. Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu, e eles passaram a se encontrar onde pudessem, em sacristias, confessionários e catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes a seu lado.
Heloísa acabou engravidando, e para evitar aquele escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou a Paris, mas não agüentou a solidão que sentia, longe de sua amada, e resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.
Surpreendentemente, Fulbert o perdoou e concordou com o casamento.
Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote.
O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert dera a ela. Ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos e pagou-os para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e arrancar-lhe o membro viril.
Após essa tragédia, Alberto e Heloísa jamais voltaram a se falar.
Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, em profundo estado de depressão, só retornando à vida aos poucos, conforme as notícias de melhora de seu amado iam surgindo. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho.
Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas.
Abelardo morreu em 142, com 63 anos, Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem, e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.
Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositarem Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada de Heloísa.

MITOS OU REALIDADES - HISTÓRIAS ANTIGAS DE AMOR






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A troika como nunca a viu PATRÍCIA CARVALHO Oito fotógrafos e um realizador juntaram-se no Projecto Troika para mostrar o Portugal que a crise criou. Eles andam por aí. Há vários meses que oito fotojornalistas e um realizador procuram reproduzir a história de um Portugal mergulhado numa crise profunda e governado sob a orientação de uma troika internacional.Querem captar o país que sobrou do resgate financeiro e gravá-lo num livro de fotografia e numa curta-metragem, para memória futura. Chamaram a este trabalho “quase militante” Projecto Troika e esta quinta-feira apresentam-no, na internet.

troika como nunca a viu

Oito fotógrafos e um realizador juntaram-se no Projecto Troika para mostrar o Portugal que a crise criou.Eles andam por aí. Há vários meses que oito fotojornalistas e um realizador procuram reproduzir a história de um Portugal mergulhado numa crise profunda e governado sob a orientação de uma troika internacional.Querem captar o país que sobrou do resgate financeiro e gravá-lo num livro de fotografia e numa curta-metragem, para memória futura. Chamaram a este trabalho “quase militante” Projecto Troika e esta quinta-feira apresentam-no, na internet. Na página www.projectotroika.com há informação sobre o projecto e os seus autores, mas também sobre a forma como pode ajudar a financiar o trabalho que estão a desenvolver. O Projecto Troika está a contar com o crowdfunding para se concretizar.









A ideia partiu de Adriano Miranda. O fotojornalista do PÚBLICO, que já estivera na génese do projecto fotográfico 12.12.12., sentiu que havia um retrato do país que ainda não fora feito e pensou que nada melhor do que umatroika nacional para mostrar o país resgatado pela troika internacional. “Ando tão revoltado e tenho levado tanto no pêlo com estas políticas de austeridade que achei que tinha o dever, quase militante, de fazer alguma coisa. Não querendo repetir o 12.12.12, convidei o Paulo Pimenta, meu colega do PÚBLICO, e a Lara Jacinto para criarmos esta troika”, explica.
troika, contudo, não duraria muito. Logo na primeira reunião tornou-se claro para todos que o projecto devia ser alargado a mais participantes. Pouco depois, os fotojornalistas José Carlos Carvalho, Rodrigo Cabrita, Vasco Célio (que tinham participado no 12.12.12), António Pedrosa, Bruno Simões Castanheira e o realizador Pedro Neves juntavam-se à obra. Há cerca de um ano que começaram a trabalhar e agora estão prontos para apresentar os primeiros resultados e pedir ao público que embarque neste retrato a nove. Se tudo correr bem, querem lançar o livro com DVD em Outubro e, a partir daí, levar, gratuitamente, o projecto a associações e escolas que o queiram receber.
“Não quisemos apoios de fundações nem de empresas. Queremos que sejam as pessoas comuns a apoiar e a construir o projecto, se entenderem que vale a pena”, diz Adriano Miranda. O modo de participar começa com apenas um euro e está explicado no site. Quem contribuir com esse valor receberá “um grande obrigado de nove autores”, mas quem doar cinco euros receberá em casa um postal com uma imagem do fotojornalista que escolher. O custo do livro com o DVD realizado por Pedro Neves será de 25 euros, caso seja entregue pessoalmente, ou de 30 euros, se for enviado pelo correio. Por 150 euros recebe o livro, o DVD, nove postais e uma impressão de grande qualidade de uma das imagens dos autores.

Esperança de ver o resultado final
Entre os participantes há o nervoso miudinho de quem teme não conseguir angariar o valor necessário até ao final de Setembro – cerca de 15 mil euros –, mas também muita esperança de que as pessoas queiram ver o resultado final, contribuindo para a sua concretização. “Estamos todos a trabalhar com o objectivo de mostrar o que é o país hoje e sem qualquer perspectiva de lucro. Não teremos editora, será uma edição de autor, porque queremos de facto contribuir. Queremos deixar um testemunho para que, daqui a dez anos, as pessoas vejam que nesta altura o país era assim”, diz José Carlos Carvalho, fotojornalista da revista Visão.
E o que os nove autores têm para mostrar são retratos muito pessoais do país. “Uma abordagem muito forte, muito dura, visualmente muito forte”, diz Adriano Miranda.
Quando pensou em criar o Projecto Troika, Adriano lembrou-se de Os Miseráveis de Vítor Hugo. “Depois, transportei essa ideia para Os Despidos, porque me sinto completamente em pele e osso, cada vez mais despido. Não de roupa, mas de direitos, de salário, de saúde, educação, de dignidade. Até sinto que andamos despidos de protesto.” O trabalho que o fotojornalista tem vindo a desenvolver é, por isso, um conjunto de nus, retratos de pessoas que se disponibilizaram a participar no projecto, deixando-se fotografar em casa, no local de trabalho, em espaços que significavam algo para elas. “Pensei que me ia meter num sarilho dos grandes, mas com a ajuda do Facebook tem sido muito fácil. De tal forma que a maior parte das imagens são de pessoas que eu não conheço de lado nenhum”, diz.
Lara Jacinto demorou a escolher o que queria fotografar, mas agora anda às voltas com a emigração. “É uma questão que tem muito a ver com a minha geração, que sinto que está a ficar em muitos maus lençóis. A perda de pessoas para o país é muitíssimo grande e não sei se é reversível ou se algum dia vamos recuperar aquilo de que estamos a abdicar”, diz. E acrescenta: “Não podemos passar por este momento, que nos incomoda tanto enquanto autores, e não fazer alguma coisa.”
O Portugal que José Carlos Carvalho anda a guardar no seu álbum desde que atroika entrou no país, em 2011, é aquele cuja descrição já foi repetida até à exaustão. “Ouvimos todos os dias comentários de que as pessoas estão tristes, paradas, resignadas. O que tenho tentado ao longo destes anos é mostrar isto, o que vejo na rua e com que as pessoas também se deparam todos os dias. Imagens de pessoas e do fundo por onde passam e que amanhã pode já não ser a mesma coisa que era naquele momento irrepetível”, explica.
Na página principal do site há um vídeo de apresentação, realizado por Pedro Neves, que resulta da junção de várias fotografias dos participantes no Projecto Troika e das palavras que escolheram para descrever os dias de hoje e que eles, lentamente, vão dizendo. O realizador tem várias ideias sobre a curta-metragem que quer fazer, mas ainda não se decidiu por uma. “Terá, de certeza, como pano de fundo a frase mais enganosa e fraudulenta dos últimos anos, que nos repetiram até à exaustão, para justificar tudo: ‘Andamos a viver acima das nossas possibilidades’”, diz.
Pedro Neves ainda acarinha a possibilidade de fazer um outro filme, para juntar à curta-metragem, que partisse do acompanhamento de um dia de trabalho dos colegas de projecto – não um “making of”, defende, “mas uma reflexão sobre o trabalho desenvolvido”. Mas, para isso, são precisos fundos. E, para já, o Projecto Troika ainda não está financiado.

Um canguru pode provar que foram os portugueses a descobrir a Austrália? Livro de orações do século XVI que mostra um pequeno canguru desenhado levanta a hipótese de os navegadores portugueses terem chegado à Austrália antes de 1606, ano da descoberta holandesa.

Um canguru pode provar que foram os portugueses a descobrir a Austrália?

Livro de orações do século XVI que mostra um pequeno canguru desenhado levanta a hipótese de os navegadores portugueses terem chegado à Austrália antes de 1606, ano da descoberta holandesa.
O manuscrito terá sido feito entre 1580 e 1606 LES ENLUMINURES GALLERY
O manuscrito português, que terá sido feito entre 1580 e 1620, mostra aquilo que parece ser um pequeno canguru numa das suas letras. Se for mesmo uma representação com 400 anos deste mamífero marsupial, o desenho sugere, escreve o diário britânico The Telegraph, que os exploradores portugueses chegaram à Austrália antes de Willem Janszoon, o navegador holandês a quem se atribui a descoberta, em 1606.O documento, que foi comprado recentemente pela galeria Les Enluminures, de Nova Iorque, que o avalia em 11 mil euros, a um negociante de livros antigos em Portugal, é um volume de orações, em tamanho de bolso, que pertencia a uma freira e inclui, na página em que o canguru aparece, a partitura de uma procissão litúrgica. Esta religiosa chamava-se, muito provavelmente, Catarina de Carvalho e vivia num convento nas Caldas da Rainha.
Para Laura Light, investigadora da galeria, não há dúvidas da importância desta representação no que toca à reescrita da história. “O canguru num manuscrito tão antigo prova que o seu autor ou esteve na Austrália ou, ainda mais interessante, que relatos de viajantes e desenhos dos curiosos animais que podiam encontra-se neste novo mundo estavam já disponíveis em Portugal”, disse ao australiano The Age.
Martin Woods, citado pelo mesmo jornal, é bem menos entusiasta. Para o conservador de mapas da biblioteca nacional australiana “pode tratar-se de outro animal do sudeste asiático, de uma das diversas espécies de veados que se apoiam nas patas traseiras para se alimentarem em ramos mais altos”. O desenho por si só não chega, diz, para reescrever a história. “Se estamos a desenhar um canguru uma das primeiras coisas que fazemos é a cauda”, que a ilustração em causa não tem, lembra ao diário britânico The Guardian. É claro que, sendo desenhado dentro de um “D” se pode argumentar que a cauda está escondida, reconhece Woods, acrescentando, no entanto, que seria natural que estivesse entrelaçada na letra.
“Creio que tudo isto é muito entusiasmante para quem já acredita que foram os portugueses a descobrir a Austrália mas, para quem não acredita nisso, este manuscrito não é assim tão estimulante”, conclui o especialista em mapas.
Outros investigadores, escreve o Telegraph, defendem que o manuscrito pode ter sido feito logo após a descoberta de Janszoon ou ser produto de uma viagem portuguesa à Papua Nova Guiné. Entre eles está John Gascoigne, membro da Academia Australiana de Humanidades, para quem será preciso muito mais do que um desenho num livro de orações para provar que foram os portugueses os primeiros a chegar. A tarefa é difícil, salienta ao Age, porque neste período a coroa de Lisboa era extremamente sigilosa em relação às suas rotas marítimas – pormenor que Laura Light, da galeria nova-iorquina também sublinha, mas para sustentar a tese contrária – e porque muitos dos documentos que poderiam estar relacionados com esta descoberta terão sido destruídos no terramoto de 1755.
Além disso, diz Gascoigne , “o intervalo possível de criação do documento vai até 1620, o que acomoda a data da chegada de Willem Janszoon e do seu Duyfken ao norte da Austrália”. Também ele acredita que o desenho pode ter decorrido da viagem à Papua, em 1526.
Ainda que a descoberta holandesa esteja registada como a oficial, há já anos que os historiadores levantam a possibilidade de outros navegadores da Europa ocidental terem aportado à Austrália muito antes, com base em documentos variados, incluindo cartografia.
Lembra Light que algumas das “provas” mais recorrentes são precisamente mapas da década de 40 do século XVI, oferecidos ao rei Henrique VIII de Inglaterra, que mostram uma grande massa de terra abaixo da Indonésia e da Papua Nova Guiné.
Peter Trickett, recorda o jornal australiano The Sydney Morning Herald, historiador e autor do popular Além de Capricórnio (editado em Portugal pela Caderno, em 2007), é um dos que alega que foram os navegadores portugueses os primeiros a mapear a costa australiana, em 1521-22, muito antes dos holandeses. É por isso que o académico diz que “não é nada surpreendente que a imagem de um canguru tenha aparecido em Portugal no final do século XVI”.
No mesmo livro de orações surgem ainda dois desenhos, também dentro de letras, que representam figuras masculinas em trajes tribais, com o tronco nu e adornos de penas na cabeça. Laura Light acredita que são aborígenes.

Sangue em nome de Deus As 3 grandes religiões monoteístas - cristianismo, judaísmo e islamismo - pregam a paz, a tolerância, a compaixão e o amor ao próximo. Mesmo assim, elas deixaram suas marcas em guerras e banhos de sangue ao longo da história.

 Para alguns pesquisadores, uma explicação estaria na própria lógica do monoteísmo:

 se apenas o "meu" Deus é verdadeiro, os "outros" certamente são falsos - e seus seguidores, infiéis.
 "As religiões são diferentes, mas todas elas exigem a mesma exclusividade", diz o historiador britânico 
Christopher Catherwood, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Foi assim com os judeus, os primeiros monoteístas, 
que reivindicaram uma aliança especial com Deus há 4 mil 
anos. Sua noção de "povo eleito" foi atacada por João 
Crisóstomo e outros patriarcas da Igreja Católica, que no 
século 4 qualificaram os seguidores do judaísmo de filhos 
do Diabo e inimigos da raça humana. Em 325, o 1º Concílio 
de Nicéia culpou-os pela morte de Jesus - uma acusação só retirada 
em 1965, no Concílio Vaticano 2º, e que insuflou 2 mil anos de injúrias e matanças. 
Durante a Inquisição, por exemplo, milhares de judeus foram parar na fogueira; outros 
tantos se converteram em massa à fé cristã, já que o batismo era a única chance de 
salvação.

No século 7, foi a vez de o islã tentar impor a primazia de seu Deus sobre os demais. 

Os exércitos de Maomé partiram da Arábia para invadir o 
Oriente Médio, o norte da África e a Espanha. "O objetivo da expansão não era tanto econômico ou político, como 
no imperialismo ocidental do 
século 19, mas a conquista em nome da fé, que eles acreditavam ser a verdadeira", diz Catherwood. 
Reconhecidos como "povos do livro", 
judeus e cristãos puderam manter sua fé desde que pagassem altos tributos - e, dependendo do governo em
 exercício, sofriam perseguições.


Assim, quando o papa Urbano 2º lançou as cruzadas para tentar recuperar a Terra Santa, em 1096, os espanhóis 
já vinham lutando contra os muçulmanos 
havia 
quase 400 anos. Urbano prometeu apagar para sempre os pecados de quem embarcasse na empreitada, que 
fracassou depois de transformar Jerusalém em um cemitério a céu aberto. "Cabeças, mãos e pés se amontoavam 
nas ruas", escreveu Raymond de Aguiles, um dos cruzados.

Em 1215, o 4º Concílio de Latrão proibiu os judeus de exercer funções públicas e os obrigou a usar um distintivo de 

identificação sobre as roupas - medidas que seriam reeditadas no século 20 por Adolf Hitler e o regime nazista. 
É certo que o Holocausto foi executado no auge da sociedade moderna e racional. Mas a força motriz do genocídio
 - o antissemitismo - se nutriu dos mitos religiosos arraigados durante séculos na Europa.

Da mesma forma, só é possível entender os conflitos dos anos 90 nos Bálcãs tendo em conta as heranças 
religiosas do passado. No século 14, a região foi invadida pelos turcos-otomanos - o último império muçulmano, 
que determinava a identidade das pessoas pela religião a que pertenciam. A maioria delas pôde continuar acreditando no 
Deus do cristianismo, sem os mesmos direitos dos "fiéis". Muitos, no entanto, se converteram ao islamismo - 
e veio o problema. "Os atuais bósnios muçulmanos descendem daqueles que se converteram durante a conquista turca", diz Catherwood. 
"Para os sérvios, eles são traidores."

Cristãos ortodoxos, os sérvios até hoje celebram o ano de 1389 - quando Lazar, chefe das tropas sérvias, morreu 
enfrentando os muçulmanos e virou mártir. O líder sérvio Slobodan Milosevic invocou esse sacrifício em seus
 discursos de 1989, acendendo a chama dos confrontos que levariam a uma matança desenfreada.

Nas palavras do historiador americano Mark Juergensmeyer, da Universidade da Califórnia, a linguagem religiosa
 tem o poder de "trasladar o conflito humano a uma dimensão cósmica". Traduzindo: no dia-a-dia, não matamos 
gente; mas, se Deus ordena, podemos. Nesse caso, a violência não seria um ato selvagem, mas o cumprimento 
da vontade divina.


Fundamentalismos

O século 20 viu crescer uma devoção militante nas principais religiões, chamada popularmente de 
fundamentalismo. "Alguns fundamentalistas não hesitam em fuzilar devotos numa mesquita ou matar médicos 
que fazem aborto. A maioria não é violenta, mas rejeita conquistas da modernidade, como a democracia,
 o pluralismo, a tolerância religiosa e a separação entre religião e Estado", diz a pesquisadora inglesa Karen 
Armstrong, autora do livro Em Nome de Deus.

Para esses radicais, nossa sociedade racional e pecadora tem levado a uma crise moral. "O fracasso da 
modernidade seria causado pela ausência de Deus", diz o sociólogo francês Jean-Louis Schlegel. Essa reação
 ocorre não apenas nas religiões monoteístas mas também no hinduísmo e no budismo.

Apesar das enormes diferenças entre os grupos fundamentalistas, eles geralmente buscam reconduzir sua 
religião ao caminho "puro e verdadeiro" de seus ancestrais. Por isso, os alvos principais são os seguidores 
moderados de sua própria crença. Foi o caso dos protestantes americanos que, no início do século 20, quiseram
 se distinguir dos protestantes liberais e se denominaram "fundamentalistas" - daí o nome. Eles queriam voltar aos
 fundamentos da tradição cristã, o que incluía interpretar a Bíblia da forma mais literal possível e parar de ensinar 
a Teoria da Evolução nas escolas - uma campanha que ainda divide os EUA.

Dentro do judaísmo foi criado o grupo ultraortodoxo Naturei Karta, que é contra a existência do moderno Estado 
de Israel. Para esse grupo, o regime israelense é herético porque sua ideologia fundadora - o sionismo - rejeitaria 
Deus e a Torá (o livro sagrado). Rabinos do Naturei Karta apoiam o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, 
que prega a destruição de Israel.

Já o fundamentalismo islâmico vem do grupo Irmandade Muçulmana, fundado em 1928 no Egito. Para ele, o islã 
entrou em decadência ao adotar o modo de vida ocidental. Portanto, é preciso derrubar os governos moderados e 
substituí-los por regimes baseados na sharia - a lei islâmica. São essas ideias que inspiram terroristas como os 
da Al Qaeda.

Mas o radical islâmico que joga um avião contra um prédio não acredita no mesmo Deus que um muçulmano 
moderado? Como o Deus de um pode condenar esse crime, se o Deus do outro promete transformá-lo em herói?
 Aí é que está: o Deus é o mesmo, mas as interpretações de sua mensagem são distintas. O suicídio, por exemplo, 
sempre foi pecado na tradição islâmica. Hoje, no entanto, é interpretado como martírio pelos fundamentalistas - e usado como arma por terroristas.



Pomos da discórdia
Um resumo de 4 conflitos recentes, sanguinários e de fundo religioso

CONFLITO - Judeus x Muçulmanos
ONDE - Oriente Médio
QUANDO - Em curso desde 1947
RESULTADO - Mais de 7,5 mil mortos de 2000 para cá
O conflito começou como disputa territorial, por causa da criação do Estado de Israel, mas assumiu caráter 
religioso. Hoje, fundamentalistas judeus e islâmicos são o maior entrave para a paz. Um não aceita a existência 
do outro e quer varrer o oponente do mapa para sempre.

CONFLITO - Hindus x Muçulmanos
ONDE - Índia e Paquistão
QUANDO - Fim da década de 1950
RESULTADO - 500 mil mortos
A violência eclodiu com o fim do domínio colonial britânico sobre a Índia, em 1947. Os muçulmanos se negaram 
a integrar um país com os hindus, foram à guerra e criaram o Paquistão. De lá para cá, outros dois conflitos já 
ocorreram, por causa da disputa pela região da Caxemira.

CONFLITO - Católicos x Protestantes
ONDE - Irlanda do Norte
QUANDO - Décadas de 1960 a 1980
RESULTADO - Quase 4 mil mortos
A rixa histórica entre cristãos irlandeses descambou para a violência embalada por um componente político: 
de um lado, a maioria protestante (chamada unionista) quer continuar ligada ao Reino Unido; do outro, a minoria 
católica (nacionalista) almeja pôr fim ao domínio britânico.

CONFLITO - Cristãos x Muçulmanos
ONDE - Bálcãs
QUANDO - Décadas de 1980 e 1990
RESULTADO - Mais de 100 mil mortos
Durante décadas, o ditador comunista Josip Tito manteve as províncias da Iugoslávia unidas à força. Com sua
 morte, em 1980, o nacionalismo religioso explodiu numa espécie de luta de todos contra todos - incluindo 
sérvios (ortodoxos), bósnios (muçulmanos) e croatas (católicos).