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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Grécia deixou de aparecer nas notícias... apenas um apontamento ou outro, por causa do frio...




A Grécia deixou de aparecer nas notícias... apenas um apontamento ou outro, por causa do frio...
Há cerca de 3 meses, completamente falida, comprou 400 tanques de guerra aos EUA...
Agora o exército está nas ruas...
O estertor deste esquema miserável de exploração?

De RiseUp Portugal
DECRETADA LEI MARCIAL EM ATENAS, GRÉCIA
(8 de Janeiro de 2014, das 06:00 à 00:00)

‪#‎ATENAS‬‪#‎GRÉCIA‬

A Polícia proibiu todas as formas de ajuntamento público, manifestações, marchas, protestos, etc, na cidade de Atenas, hoje, das 06:00 à meia-noite.

A lei marcial foi declarada nas zonas consideradas de perigo, no centro da cidade e em todas as estradas que levam ao aeroporto isto enquanto o governo está a comemorar a Presidência grega do Conselho da União Europeia para o ano de 2014.

Muitas manifestações estão agendadas para hoje contra o governo, contra a União Europeia e as medidas de austeridade.

ONDE ESTÁ A COMUNICAÇÃO SOCIAL? PARTILHEM!

(Lei Marcial - Enquanto vigorar todos os direitos básicos do cidadão são suspensos. Normalmente é aplicada quando é pretendido impor um regime autoritário num país, como aconteceu várias vezes em Estados do Médio Oriente.



veja vídeo








NA TERRA DA MERKEL HÁ REPRESSÃO E CÁ NADA PASSAM NA TELEVISÃO - Repressão em Hamburgo: Declaração de estado de exceção e luta nas ruas


hamburgo1Alemanha - Diário Liberdade - A declaração de estado de exceção permite à polícia praticar detenções arbitrárias e usar armas de fogo. 

Os incidentes em Hamburgo rebentaram quando a polícia atacou 10 mil manifestantes opostos ao despejo de um centro cultural. Neste momento a polícia está registrando e detendo qualquer pessoa. Essa é a "democracia" da Europa do Capital.
 A cidade está sob declaração de toque de recolher. A repressão cresce desde o dia 21 de dezembro, depois do despejo violento de um Centro Social. Nesta noite a polícia assaltou bairros do centro em uma escalada repressiva sem precedentes.
A situação de Hamburgo começou o 21/12/2013 em uma manifestação em torno do CSO Rotacione Flora (centro social okupado e autogerido desde 1989), onde se unificavam três lutas: contra o despejo de dito edifício, contra a gentrificação da zona e contra a perseguição a pessoas estrangeiras, sobretudo as refugiadas que chegaram a Lampedusa de Lampedusa.
A manifestação conseguiu reunir mais de 10.000 pessoas segundo fontes organizadoras. Logo que começou, se produziram cargas policiais, utilizando canhões de água, spray de pimenta e porradas contra as manifestantes, que resistiram à violência policial.
Em uma semana após a manifestação, um grupo de pessoas que a polícia e a mídia burguesa define como "de esquerda radical" atacaram delegacias e outros locais oficiais.
hamburgo2No lado oposto, no movimento popular diz-se que não se mostram provas de ditos ataques, sendo uma mentira para justificar a repressão em curso.
Na Alemanha, a polícia pode proclamar uma zona de perigo (Gefahrengebiet), que lhe dá direito a deter e controlar qualquer pessoa sem suspeita alguma, o que está de fato acontecendo nos últimos dias, segundo diversas fontes.
Hamburgo está cheia de polícia, estão se produzindo várias manifestações espontâneas, kettles (tática da polícia que consiste em rodear manifestações e as dissolver), etc. Uma forte repressão está se vivendo em Hamburgo, perante um importante silenciamento e censura midiática.
Pode seguir os acontecimentos em twitter mediante o HT #Gefahrengebiet
Foto 1: @EnginMelekC
Foto 2: @JuanMalaga2011
Vídeo da repressão na manifestação de 21 de dezemebro em Hamburgo.
Com informações das redes sociais e de Kaos en la Red.





PÃO NOSSO

a broa 

senhora da hora
broa de avintes
A série de posts sobre pão continua a norte, com uma das melhores broas de Avintes que já provei. No Porto, onde não há padarias como as de Lisboa, o pão-que-não-é-pão de supermercado parece ter-se tornado regra. No Pingo Doce ao pé de casa não havia à venda um único que não tivesse na lista de ingredientesgordura hidrogenada e/ou aditivos vários. O pão bijou, regueifa e broa vendem-se em mercearias, cafés e padarias diferentes das daqui, e parece-me que já não são esses que se comem na maioria das casas. A broa das fotografias foi comprada sábado de manhã na feira da Senhora da hora, numa venda que fica do lado oposto às outras que vendem pães e bolos. Ainda estava morna quando foi cortada e três dias depois continua fresca (hoje comemo-la na sopa). É macia e húmida por dentro, e foi cozida sobre folhas de couve, como é costume. 

pão nosso (3 )

de centeio
de centeio
Dizer pão de forma é quase um paradoxo, porque quando é de forma raramente é pão digno desse nome. Este é a excepção e presença obrigatória no guia informal dos bons pães que se vendem aqui no bairro (ver também o primeiro e osegundo que referi): o belíssimo pão de centeio em forma da Panificação das Mercês . Só se faz à quarta-feira e convém reservar de véspera. Combina tão bem com sandes tipo gourmet, com cottage, nozes e rúcula, como com a nossa gulodice preferida: barrado com manteiga e polvilhado com açúcar e canela.

pão nosso (2 )

boa broa
Continuando a gabar o bom pão que se come aqui no Bairro Alto, hoje é dia da broa de milho de Pampilhosa da Serra . Só se encontra na mercearia da D. Augusta (Rua da Rosa, 234 ), às segundas, quartas e sextas, e vem sem rótulos nem plásticos (é favor levar saco ). Em casa dura os dias que a gulodice deixar. É densa e adocicada, e tão boa na sopa como ao pequeno-almoço com manteiga e compota. 

de ir ao pão 

dona a.
dona a.
Quando comecei a ir sozinha ao pão (deve ter sido há um quarto de século, mais ou menos), toda a gente levava o seu próprio saco de pano. Quem não levasse pagava dois ou três escudos (que devia ser quase o preço de um papo-seco) por um de plástico. Hoje em dia vêem-se muito poucos sacos de pano na padaria e consta (disse-me uma padeira) que até há uma norma que impede quem vende pão de sequer aceitar pô-lo nos ditos por razões de higiene (que paranóia, sinceramente). Eu e a Dona A. somos duas das resistentes aqui da rua. Ontem armei-me em alfaiate lisboeta dos taleigos e não resisti a pedir-lhe uma fotografia.
A propósito do que e do como comemos, veja-se, reveja-se e recomende-se nas escolas dos nossos filhos:

pão nosso 

pão nosso
saco do pão
Uma das muitas coisas boas de Lisboa é o pão. Aqui no Bairro Alto pode-se comer bom pão e diferente todos os dias. Não estou a falar de pão caseiro, biológico nem gourmet, e muito menos do enganador pão quente, mas sim do bom pão da padaria, feito atrás da loja durante a madrugada, e dos que várias mercearias recebem diariamente, de trigo, milho ou centeio, vindos de outros pontos do país e feitos só de farinha, fermento, água e sal. O da fotografia foi o nosso pão de segunda-feira:
Pão do coração da Panificação das Mercês 
Pronto mais ou menos a partir das 10h, de segunda a sábado, e geralmente disponível nas versões mal cozido (na foto) e bem cozido (dependendo da disposição das padeiras).
No dia seguinte, quando sobra, dá umas magníficas torradas.
O saco (ou bolsa ou taleigo ) fi-lo há já umas semanas. Escolhi só tecidos que, pelos padrões e cores, pudessem ter pelo menos a minha idade e acho que ficou com um simpático ar alentejano (os tecidos são: ).

padarias de lisboa 

padaria
padaria
Outra padaria. Esta é na Rua da Escola Politécnica, junto ao Rato, e talvez seja das que mudaram menos desde o início do século passado. As fotografias foram tiradas com a cumplicidade mas sem autorização da padeira, porque os patrões não deixam. Vá-se lá saber porquê.

padarias de lisboa 

padaria
padaria
Tema improvável para um post e menos ainda para vários: padarias das que abrem das 7 à uma e das cinco às 7, que vendem pão feito na noite anterior em vez do pão quente a todas as horas que já nem é bem pão, com mosaico, azulejo, balcão de madeira e tampo de mármore. A última do meu bairro, na Rua das Gáveas, ainda atrai os turistas com os estuques pintados, mas nem o chão nem o balcão são tão bonitos como há uns anos. Ainda há alguma intacta?

MANTAS PORTUGUESAS - ARTESANATO - No Alentejo, nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) etapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro )








manta
manta
Estas duas mantas alentejanas não estavam à venda na FIA deste ano. Eram decoração num stand de promoção a alguma coisa de comer ou beber do Alentejo. Nem estava lá a Mizette Nielsen com as de Monsaraz, nem aCooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. A representação da tecelagem alentejana este ano ficou a cargo do Carlos Rosa e das suas três belíssimas mantas de lã fiada à mão. Há cada vez menos artesãos rurais na FIA, e fazem falta. Também os pavilhões internacionais ficaram reduzidos a um, sem grandes surpresas relativamente à edição anterior. O meu stand preferido, de onde no ano passado tinha trazido umas lindas tulmas , é o do projecto argentino Marias Mosca .

mantas de fitas 

mantas de fitas
mantas de fitas
Tem 6 casas onde tecem mantas de retalhos, urdidas com lã e tecidas com retalhos que juntam pela cidade e por casas dos alfaiates. Em cada casa, três, quatro teares.
João Brandão (de Buarcos), Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552.
Uma prática com certamente muito mais de quinhentos anos de história, a de fazer mantas de retalhos, ou trapo , ou tirelas, ou fitas, como lhes chamam na Aldeia das Dez, na Serra do Açor, onde fomos conhecer o tecelão, poeta eescultor Viriato Gouveia. Com oitenta e três anos que não se lhe vêem nem no rosto nem nos gestos, contou-nos histórias da carestia de linha de algodão durante a Segunda Guerra Mundial e do reflorescimento da produção de mantas a seguir a 45 e até aos anos 70, quando entraram em irreversível declínio. As mantas do Sr. Viriato, e do pai com quem aprendeu a tecer, sempre foram urdidas com linha e tapadas com fitas (tecidos rasgados à mão ou cortados com tesoura) que quem encomendava as mantas entregava ao tecelão. Read more →

as mantas da d. guiomina 

manta
manta
Em Castro Daire há cada vez menos ovelhas. Quase não se vêem rebanhos e a lã dos que há consta que em boa parte é queimada. Muita é sedeúda, a maneira local de dizer que tem as fibras muito compridas e pouco macias, mas também há algumas ovelhas marinhotas (de meirinha, o nome dado em Portugal desde o século XV à lã de melhor qualidade proveniente das ovelhas merino), de lã mais frisada e macia. Algumas delas pertencem à D. Guiomina. Como não queria desperdiçar a lã lembrou-se de a fiar mais grossa e pouco torcida, de a ugar(juntar dois fios num novelo) e de fazer com este fio fofo grandes mantas de malha. Leva a malha para o monte, com as ovelhas, e as mantas vão crescendo…

(i)material 

alcochete

Janela decorada com cobertor e estandarte em forma de barrete para as Festas do Barrete Verde , Alcochete, Agosto de 2011.
Notas soltas à volta do mesmo tema:
IMC acaba de lançar um Kit de Recolha do Património Imaterial , editado em papel mas disponível também em pdf para download gratuito. Foi concebido para ser usado por professores e alunos do 2º e 3º ciclos e parece muito bem estruturado e intencionado (O Kit foi concebido sobretudo para aplicação a nível local, promovendo a interação dos jovens com os elementos da comunidade (aldeia, freguesia, bairro, etc.), assim como o conhecimento aprofundado e a valorização do seu Património Imaterial.). Nos anos 70, mas num contexto político bem diferente, foi também graças a alunos e professores de muitas escolas que se fez uma das mais interessantes colecções de livros sobre produções artesanais portugueses (a colecção Artes e Tradições da editora Terra Livre). A acompanhar…
Arquivos digitais: a minha amiga Catarina Miranda tem vindo a dar a conhecer no seu blog uma série de arquivos fotográficos portugueses cujas colecções começam a estar acessíveis através da internet. Vai sendo mais fácil conhecermo-nos.
Saber e contar: é muitas vezes nos blogs mais discretos, feitos apenas com o intuito de partilhar, que se encontra informação mais interessante sobre tradições locais. É o caso, entre tantos outros, da secção de etnografia do blogAlcoutim Livre (obrigada António pelo link).

tecer 

tapete
manta
Nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) etapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro ), mas aqui toda a superfície é coberta de puxados, que são no fim do trabalho abertos com uma tesoura. O resultado é uma manta com muitos quilos de lã (julgo que entre dez e vinte) e tão densa e espessa que aos nossos olhos parece um tapete de luxo. Uma manta larga é composta por três peças tecidas individualmente (os teares domésticos são estreitos) e cosidas no fim umas às outras, por vezes rodeadas ainda de uma franja feita também em casa (o tear de franjas vê-se à direita na imagem de cima) e na mesma lã. 

tapetes de trapos presos 

tapete de trapos presos

Postal editado pela Associação Etnográfica do Montemuro
Fiquei a conhecer esta técnica no ano passado, por a ver referida no interessantíssimo livro de Glória Marreiros Viveres, saberes e fazeres tradicionais da mulher algarvia (1995). A autora explica que se fazia com os trapos mais pequenos e linha reaproveitada de meias desfeitas. Descreve-a assim (p. 45):
Começa-se por uma carreira de malha de liga, na segunda carreira o trapinho é preso pelo meio ficando com as duas extremidades livres, fazem-se mais malhas e volta a prender-se novo trapinho. A seguir fazem-se mais duas voltas de malha de liga sem prender trapilhos e na terceira volta, repete-se a prisão dos trapinhos de tecidos e assim sucessivamente.
Uns meses depois, a Margarida partilhou imagens de uma senhora algarvia (Almerinda Neves) a fazer um destes tapetes durante a Fatacil . Por não conhecer outros exemplos, foi com surpresa que descobri estes mesmos tapetes usados como mantas no museu do Mezio . A D. Lurdes, que orienta os visitantes, contou-me a mesma história de reaproveitamento (agora diz-se upcycling): nesta malha, feita também ali muitas vezes com linha de meias desfeitas, eram usados apenas os trapos que já não tinham largura que chegue para serem cosidos. Fica-se a pensar nos séculos de linho e lã e no contraste (e garridice, como se dizia dantes) que as chitas estampadas devem ter trazido às aldeias a partir do século XIX. E será que a técnica é conhecida ou usada noutras regiões também? E noutros países?
A execução é muito simples, apesar de as peças se irem tornando bastante pesadas à medida que crescem: cortam-se os retalhos em tiras com cerca de 3cm de largura e prendem-se na malha como as imagens mostram. As duas últimas imagens são deste cobertor . 

mezio 

mezio
mezio
No Mezio funciona aquela que é provavelmente a mais interessante cooperativa de artesãos do nosso país, a Associação Etnográfica do Montemuro . Por cima da loja fica o museu etnográfico, onde cada peça está legendada com o seu nome local (bem, tirando o triste neologismo trapologia que ainda estou para saber quem foi que inventou). Ou a região de Castro Daire é especialmente rica em tradições têxteis ou nenhuma outra das que visitei até hoje fez tão bem o respectivo levantamento. Percebi como se fazia a torcida dos fios fiados em casa (lá diz-se ugar os fios e torcê-los no fuso-parafuso), vi baralhos de agulhas de tricot talhadas em madeira de urze, meias especiais sobre as quais vou escrever mais a sério em breve e uma técnica de fazer mantas ou tapetes de malha com trapinhos pelo meio que pensava só existir no Algarve. Isto para não falar no ponto de crochet quebra-cabeças que ainda não consegui deslindar nem encontrar referido em lado nenhum, nas pulseiras e tigelas de tricot, nas colchas de puxados, nos naperons de papel recortado, nos alforges e nos tamancos de madeira e burel… 

cobertores de papa 

Pastor com cão
António Correia (Foto Hermínios, Guarda), Pastor com cão [1930-1940]. Col. Museu da Guarda. Imagem MatrizPix .
tear
tear
A norte das mantas de Mértola fazem-se, em Maçaínhas , os célebres cobertores de papa. São mantas de lã churra seleccionada e fiada especificamente para este fim, tecidas num enorme tear totalmente manual por um único artesão de 84 anos. Do tear saem para um pisão (já único no seu género e que lembra as pernas de um gigante), daí para a máquina de cardar , onde ganham o característico aspecto peludo que as torna tão quentes, e finalmente para um estendal onde secam e ao sol e são esticados para adquirirem o aspecto definitivo.
Tudo isto se passa na fábrica de José Pires Freire , que tive o privilégio de visitar na melhor das companhias . Fomos recebidas pelas duas únicas operárias num espaço que há algumas décadas ainda albergava oito tecelãos. O único ainda activo já só vem de vez em quando, quando lhe apetece, e quando se reformar definitivamente não tem quem o substitua. Duas aldeias mais para a frente, numa fábrica moderna, fazem-se réplicas industriais destes cobertores, mas não são a mesma coisa. Ficámos também a saber que nesta região tradicionalmente são os homens que tecem, ocupando-se as mulheres de encher as canelas e ajudar com a urdidura. Não resistimos a trazer um cobertor cada uma.
Comprar uma destas mantas (eu trouxe a de riscas amarelas, vermelhas, verdes e castanhas) é a melhor forma de contribuir para que a arte não desapareça. Quem não puder ir a Maçainhas pode encontrá-las nas lojas A Vida Portuguesa de Lisboa e Porto. 

mantas alentejanas 

mantas
mantas alentejanas
Autor, título e data desconhecidos. Papel montado em suporte de madeira. Col. Museu de Arte Popular. MatrizPix .
As mantas de Mértola, actualmente feitas apenas pelas mulheres da Cooperativa Oficina de Tecelagem e muito menos conhecidas do que as de Monsaraz , são um verdadeiro artigo de luxo. Quem as vê não adivinha o que representam em termos de preservação de saberes quase extintos e a única monografia dedicada ao tema que conheço (Mantas tradicionais do Baixo Alentejo, de Ângela Luzia, Isabel Magalhães e Cláudio Torres. Mértola, 1984) tem um quarto de século.Estas mantas nascem nos dois teares domésticos que a cooperativa mantém a funcionar e são feitas hoje como há décadas ou séculos. A sua lã é diferente de todas as outras lãs portuguesas e macia como mais nenhuma. Vem das ovelhas merino e campaniça , autóctones da região, e é tratada de forma totalmente manual até chegar ao tear, sendo ainda hoje fervida em pequenos cestos na margem do rio, aberta, cardada e azeitada à mão e fiada em pequenas rodas artesanais. As cores das mantas são as da própria lã: branca, preta e sernubega (o castanho café com leite da ovelha campaniça). Como cada uma representa um sem fim de horas de trabalho são necessariamente objectos caros, mas comprar uma é contribuir para a sobrevivência de todo um universo. A minha está a uso há dezasseis anos e continua tão bonita como quando foi comprada. 


Posts in Category ‘Mantas portuguesas 

dos trapos 

manta da natália
manta da natália
Tive o prazer de partilhar com a Diane o momento em que de uma velha arca saiu esta manta estrelada (e deixo-lhe a tarefa de a mostrar melhor um destes dias). Não sabemos quando nem por quem foi feita, mas os tecidos não terão menos de cem anos. Não tem recheio nem é acolchoada, e o método com que foi feita não é nenhum dos que vêm nos livros estrangeiros. Ver uma peça assim reforça a minha ideia de que não faz grande sentido usarmos tantas vezes o vocabulário do quilting norteamericano para falar das nossas mantas de retalhos e que era muito mais interessante, por exemplo, descobrirmos se por cá este motivo de estrelas (♥ ) tem nome. A Natália, que herdou esta manta (e que aparece a fiar no post anterior ), chama-lhes simplesmente mantas de trapo. Foi nela que a sua filha se inspirou para fazer esta outra e a Diane trouxe-a emprestada para nos inspirar também a nós. 

velhos são os trapos 

bordar a manta
Na semana passada, junto com algumas gavetas, e outras velharias, encontrei num prédio em obras aqui ao lado uma arca cheia de trapos velhos que não resisti a abrir. Entre eles, uma manta de trapo muito velha e puída mas tão fina que tive de a trazer comigo para ver se sobrevivia a uma boa lavagem. Está rota demais para usar como tapete, mas acho que dará umas boas almofadas. Resolvi experimentar bordar-lhe um passarinho em ponto de cruz, depois de andar de volta do catálogo de uma exposição do Museu de Arte Popular sobre o tema (O ponto de cruz: a grande encruzilhada do imaginário. Coord. Elisabeth Cabral – ainda disponível na loja do Museu de Arte Antiga).
É impressionante a diferença entre as mantas de trapo antigas, feitas com roupa cortada em tiras o mais estreitas possível e debruadas a tecido, e as que se vendem agora, quase sempre de trapilho industrial e onde já não se vêem os efeitos tradicionais. As mantas de trapo, que se fazem em vários países, devem ser uma ideia com tantos séculos de vida como o próprio trapo. Duas imagens com mais de cem anos:
mantas de trapo
Mantas de Farrapos à venda no Minho em 1908 (Ilustração Portuguesa , 111, 6 de Abril de 1911). 

fios 

pardo e surrobeco
Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola
Não sei se é por o tema ser o meu preferido, mas achei a exposição do IEFP deste ano na FIA – Fios, Formas e Memórias dos Bordados , Rendas e Tecidos – particularmente bem conseguida. A secção das mantas tecidas, por si, já vale o passeio. As alentejanas (da Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola e daFábrica Alentejana de Lanifícios de Mizette Nielsen ) e trasmontanas (de Sendim, feitas em surrobeco recortado e aplicado sobre surrões – sacos antigos de lã e algodão usados para guardar os cereais -), estão expostas lado a lado e formam um conjunto impressionante. Ainda lá volto esta semana.


aervilhacorderosa.com