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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

FOTOGALERIA ESPECIAL - FANTÁSTICO MAR

Fantástico Mar...

Para ilustrar este domingo uma série de fotos em alta resolução do BANCO DE IMAGENS de José Luis Avila Herrera com imagens de praias espalhadas pelos mares e oceanos do planeta. São imagens maravilhosas que servem também como wallpapers. Clique para ampliá-las. 


















postsabeiramar.blogspot.pt

NINGUÉM SABE DE PUSSY RIOT SE ESTÁ VIVA OU MORTA - Pussy Riot: “Amo a Rússia mas odeio Putin”

Pussy Riot: “Amo a Rússia mas odeio Putin”

Numa entrevista ao Spiegel, Nadezhda Tolokonnikova, uma das intérpretes do grupo de intervenção feminista punk Pussy Riot, fala sobre a importância do julgamento que levou à sua condenação a dois anos de prisão por “hooliganismo motivado por ódio religioso”, sobre as motivações da banda e sobre o sistema repressivo de Putin.

Foto EPA/SERGEI CHIRIKOV.

Nadezhda Tolokonnikova, que respondeu às perguntas do Spiegel através do seu advogado, e que é apresentada por este semanário como sendo a líder política do grupo, afirmou que não se arrepende de ter participado na iniciativa anti Putin que teve lugar na catedral ortodoxa do Cristo Salvador, em Moscovo, e que levou à sua condenação, juntamente com mais duas intérpretes do grupo.
“Em última análise, penso que o nosso julgamento foi importante porque mostrou a verdadeira face do sistema de Putin”, adiantou Tolokonnikova. "Este sistema proferiu uma sentença contra si mesmo, ao condenar-nos a dois anos de prisão sem que tivéssemos cometido crime algum. Isto certamente me alegra”, frisou.
Nadezhda Tolokonnikova sublinhou ainda que “o sistema repressivo de Putin está a colapsar”, já que o mesmo “não pertence ao século XXI, lembra muito as sociedades primitivas ou os regimes ditatoriais do passado".
Sobre as suas motivações, a intérprete da banda de intervenção feminista Pussy Riot avançou que está a lutar para que a sua filha “cresça num país livre” e que está determinada a combater “os maiores males”, pondo as suas “ideias de liberdade e feminismo em prática”.
Segundo esclarece Nadezhda Tolokonnikova, as Pussy Riot esperam conseguir “uma revolução”. “Nós queremos despertar a parte da sociedade que tem permanecido politicamente apática e que optou por não trabalhar ativamente os direitos civis e ficou confortavelmente em casa. O que vemos agora é uma divisão entre o governo e uma maioria silenciosa dos russos”, asseverou Tolokonnikova.
Para a ativista, “a omnipotência de Putin é uma ilusão”, sendo que “a máquina de propaganda exagera os poderes do presidente”. “Na realidade, o presidente é pequeno e merece pena. Podemos vê-lo nas suas acções tanto pessoais como políticas. Se um líder se sentir confiante, por que razão opta por lidar com três activistas desta forma?questionou.
Nadezhda Tolokonnikova esclareceu ainda que as Pussy Riot fazem parte de “um movimento global anti-capitalista” e o seu “anti capitalismo não é anti Ocidente ou anti Europeu”. Por outro lado, a ativista recusa a acusação de Putin de que a banda ataca a religião. “As Pussy Riot nunca atuaram contra a religião. A nossa motivação é puramente política”, destacou.

www.esquerda.net

Ode ao burguês (Poema de Paulicéia Desvairada), de Mário de Andrade Ode ao Burguês é o nono poema da obra Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade. Foi lido durante aSemana de Arte Moderna de 1922, para o espanto da platéia, alvo evidente dos versos:

Ode ao burguês (Poema de Paulicéia Desvairada), de Mário de Andrade


Ode ao Burguês é o nono poema da obra Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade. Foi lido durante aSemana de Arte Moderna de 1922, para o espanto da platéia, alvo evidente dos versos: 

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!


Em Ode ao Burguês, Mário de Andrade atacou as elites retrógradas. O poema caracteriza uma fase do Modernismo marcada pelo empenho na destruição de um passado literário, político e cultural que mantinha a sociedade brasileira atada a modelos e comportamentos que vigoraram em fins do século XIX.

No contexto revolucionário do modernismo, o termo “burguês” tem um campo semântico bem caracterizado. Com ele designa-se geralmente o inimigo, ou seja, o indivíduo que, indiferente às propostas de modernização estética e social, permanece preso ao passado. O próprio de seu comportamento é isolar-se do mundo por não querer se sujar. Insensível aos clamores da vida, o burguês refugia-se numa redoma asséptica e ali permanece, contemplando narcisicamente o próprio umbigo - “satisfeito de si”. Note-se quanto essa imagem evoca-nos a repleção, a auto-suficiência do personagem que Mário de Andrade desanca neste poema intitulado, significativamente, Ode ao burguês (Ódio ao burguês).

A atmosfera de tédio, monotonia e pobreza espiritual, frequentemente acompanhada pela denúncia social, chegou a um ataque agressivo à mentalidade pequeno-burguesa, em Ode ao burguês:

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

(“Ode ao burguês”)

O universo do poeta opõe-se, radicalmente, ao conforto, luxo e opulência do mundo burguês; seu espaço está fora das quatro paredes, sua moradia é a rua, onde, no meio da massa amorfa, coloca-se ao lado dos desprotegidos, pobres e humildes. 

A sátira em Ode ao burguês é coerente na medida em que seu alvo é o outro; é o burguês rico, ignorante, preocupado com o dinheiro, com as aparências e sem fé cristã. Não se pode, então, ver a crítica, a sátira dos modernistas em Ode ao burguês como caracterizadora de uma postura antiburguesa, uma vez que as
idéias desses modernistas não se chocavam com o burguês intelectualizado, ela se restringia ao burguês urbano e não ao burguês rural 

O poema na íntegra:

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!


Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!


Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!


Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!


_ Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purée de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!


De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...


Notas:

Mário de Andrade goza os burgueses, que ampliam suas barrigas à proporção que murcham o cérebro. A rebeldia social encontra correspondência estilística: em lugar de adjetivos são usados substantivos com função adjetiva (“homem-curva”, “homem-nádegas”). O Futurismo preconizava o abandono do adjetivo e da pontuação regular. 

Em profundo desabafo pessoal, o poeta denuncia a mesquinhez, o pão - durismo dos imigrantes bem - sucedidos.

Atendendo à técnica do verso harmônico, proposta no “Prefácio Interessantíssimo”, Mário de Andrade joga com a rima em diferentes posições, no mesmo verso ou em versos seguidos, daí as assonâncias alcançadas em zurros – muros – pulos.

Faz referência sarcástica aos hábitos colonizados de falar o Francês e participar da onda de “ pianolatria”.

É uma sátira aos que cultivam a ideologia da “caderneta de poupança”, tão empenhados em assegurar o futuro, que se esquecem de viver o presente.

Pessoas que têm banha, sebo na cuca, retardando o andamento de suas células cerebrais.

Colocando este verso após o diálogo mercantil entre o pai burguês e a filha pianólatra, o poeta se posiciona num socialismo emotivo e intenso.

Bronca contra o comportamento previsível daqueles que se deixam marcar pela repetição dos mesmos hábitos, sem perceber o quanto a rotina asfixia e aprisiona o cérebro e as sensações.

“giolhos”: joelhos; agressão aos “papamissas” que fazem do compromisso de ir à igreja muito mais um hábito social do que, efetivamente, um ato de fé.

Os adjetivos “vermelho”, “fecundo” e “cíclico” são aplicados contra a expectativa da norma. Geram nonsense. No verso seguinte reaparecem as antimerias: substantivos com função adjetiva.

Ode ao burguês é o poema mais famoso do autor. O título em si, parecia indicar um canto de triunfo (como eram as odes gregas) à burguesia, mas, na realidade, quando lido, revela sua intenção crítico - agressiva, pois o que se entende, ao pronunciá-lo é “Ódio ao Burguês”, o que o texto, efetivamente, é.

Repetindo a mesma técnica de composição fragmentária do poema, este poema é quase inteiriçamente, uma violenta declaração de ódio à aristocracia e à burguesia paulistanas, por causa de sua incapacidade de sonhar, de dar o verdadeiro valor às coisas do espírito. Este tipo de crítica vinha se desenvolvendo desde o romantismo, mas alcança neste texto, que é quase um panfleto político, um momento destacado. Nele o artista que aí se vinga o mundo da opressão burguesa e aristocrática, nos é apresentado como alguém capaz de humanizá-lo, pois tem o poder de produzir “o êxtase” que fará sol!”

No poema o tom agressivo e exclamativo, sugere os gritos e revolta; a irreverência contra a estrutura social; o uso do verso livre; e a substantivação dupla. 

É um poema rebelde de Mário de Andrade, mostrando o ódio e insulto ao burguês, a mesmice do cotidiano artificial da burguesia citadina. Ódio ao burguês – níquel (dinheiro) que tem digestão em quanto muitos passam fome, as formas, as curvas, as nádegas, as preocupações com o corpo. Que tem sempre algo de francês italiano.

A subjetividade do poeta insulta a cautela o cuidado a aristocracia e critica os barões lampiões, donos de terra que são verdadeiros donos de bandos, jagunços, os condes joões, nobres com nomes populares e origem humilde e os duques zurros (vozes de burro) esses burgueses que vivem dentro de seus domínios (seus muros) e não coragem para mudar (pular o muro) chorando alguns mil – réis gastos com aulas de francês para as filhas.

O insulto ao burguês que diz ser mantenedor das tradições mas acha indigesto o feijão com toucinho, os que contam o amanhã autor pede morte à, gordura, a gordura cerebral, o burguês mensal dia – dia que freqüenta o cinema com carruagens. O burguês que se vê obrigado a dar de aniversário da filha um cola 1500 réis mesmo que tenha de morrer de fome. 

O burguês come a si, ele é um purê de batatas morais. Ódio ao comportamento regular, normal, as rotinas (o relógio muscular) hora de almoço, jantar ... ódio a soma (o capitalismo) ao comércio, a quem não se arrepende a quem não desmaia, as convenções sociais. Morte a falsa religião. Ódio vermelho, alusão ao comunismo, contra o burguês, sem perdão ao burguês. 

Créditos: Zuzana Burianová, Departamento de Literatura e Artes, Universidade de Palacky, República Tcheca | Prof. Chico Viana | Prof. Jonildo Lima, professor de Literatura e Leituras Obrigatórias em cursos pré – vestibulares
www.passeiweb.com

O OLHAR DA NATUREZA


O OLHAR DA NATUREZA CENSURA QUEM DESTRÓI A A SUA BELEZA

MANUTENÇÃO

MANUTENÇÃO

SABEM PORQUE É QUE ELE FAZ ISTO ?

sabem porque é que ele faz isto com as asas !?

para soltar


 assustar os insectos que se escondem debaixo do musgo e da casca para depois se alimentar

MAIS UM DOIDÃO BRINCALHÃO


Cunhal em 2013 Álvaro Cunhal nasceu há cem anos. O partido que deu sentido à sua vida, e ao qual ele dedicou quase toda a sua existência, decidiu comemorar o centenário. Não só: muitas instituições públicas, associações, as mais variadas entidades, sem nada a ver com o PCP, o fizeram também.



Cunhal em 2013







Álvaro Cunhal nasceu há cem anos. O partido que deu sentido à sua vida, e ao qual ele dedicou quase toda a sua existência, decidiu comemorar o centenário. Não só: muitas instituições públicas, associações, as mais variadas entidades, sem nada a ver com o PCP, o fizeram também.

Há quem tenha visto nestas comemorações "culto da personalidade" e uma espécie de "beatificação laica", pretendendo sublinhar uma contradição entre essa atitude e os princípios ideológicos comunistas de valorização do coletivo perante o contributo individual, lembrando que Cunhal recusara sempre esse "culto". Honestamente, não vi nada disso. Era razoável esperar que o PCP não comemorasse, no Portugal de 2013, uma personagem cujo legado político, e até humano, é uma antítese do Homo neoliberalus?

Nenhuma História de natureza científica pode desprezar a dimensão social e, portanto, enquadrar coletivamente a ação dos indivíduos. Mas isso não impede que se possa sublinhar o papel de indivíduos excecionais, pelo seu percurso, pela sua persistência, pela sua capacidade. Não sou especialmente sensível à História biográfica, mas é óbvio que Cunhal foi um homem incomum. E não o foi, evidentemente, por alguma predestinação ou superioridade intrínseca; foi-o porque a sua história pessoal e a história do país, do mundo, em que viveu o tornou excecional. Não simplesmente (como se isso fosse simples...) pela dificílima opção de vida que fez, e quando a fez, com as duríssimas consequências que lhe trouxe; não porque, podendo dispor da vida regalada que à sua classe social era facilmente acessível numa sociedade desigual como a portuguesa, especialmente sob a ditadura, tenha optado por uma luta que o despojou de todos os privilégios sociais e que o obrigou a munir-se de toda a resiliência de que era capaz para conseguir viver uma vida clandestina feita de secretismo, fuga, suspeita e prisão, mas também de solidariedade e altruísmo recíprocos, de um empenho muito para lá do que é razoável pedir a qualquer ser humano. Cunhal tornou-se comunista num momento em que se consolidava a ditadura contra a qual decidiu lutar, quando esta, além de revelar ser capaz de esmagar toda a oposição à sua volta, escolhera os comunistas como seu inimigo principal. Foi preso aos 23 anos, de novo aos 27 e aos 35. Só uma fuga audaz o conseguiu tirar da cadeia, tinha ele 46. Só pôde caminhar livremente em Portugal aos 60 anos. Se lhe perguntavam pela dureza da clandestinidade e da prisão, recordava sempre que outros tinham passado por condições piores, que tinham até morrido "sem nunca desistir da luta pela liberdade em Portugal" (declaração ao XIV Congresso do PCP, 1992). Por outras palavras, não foi o único, mas foi um deles.

Cunhal foi dos primeiros dirigentes políticos em Portugal que procurou associar, de forma coerente, uma análise social da realidade com a intervenção nela, que se abalançou a um estudo político, económico, social, cultural, histórico, da sociedade portuguesa. Fê-lo condicionado pela clandestinidade, pela prisão ou pelo exílio, mas produziu alguns dos textos políticos (o Rumo à Vitória, 1964, antes de mais) que se tornaram referência para a História do séc. XX português. Se comparássemos, por absurdo, com o deliberado empirismo (para lhe não chamar outra coisa) da reforma do Estado de Portas, anos-luz separariam a qualidade metodológica de uma coisa e outra! O empenho de Cunhal na discussão sobre o papel social da Arte, da criação cultural, é reflexo desta necessidade de conhecimento objetivo da realidade para poder atuar sobre ela. É também por isso que ajudou a construir um Partido Comunista Português, cujas opções políticas centrais resultaram, mais do que em muitos outros casos, de uma avaliação própria, autónoma, dos problemas. O Cunhal aclamado pelo movimento comunista internacional nos anos 60 e 70, com a aura de quem protagonizara a fuga de Peniche depois de 11 anos de cadeia e tortura, em defesa de cuja libertação se haviam mobilizado tantos, como Jorge Amado ou Pablo Neruda, que viveu na URSS, na Roménia, em França, nunca se terá deixado, como reconhece o seu biógrafo Pacheco Pereira, fechar na redoma do exílio. O PCP preocupara-se sempre em manter a sua direção no interior do país. Forçado a sair para o exílio um ano depois da sua fuga, Cunhal mostrou bem, ao contrário do que os seus adversários sempre dele disseram, ser dirigente de um partido com cabeça própria relativamente a Moscovo, quer quando rejeitou essa espécie de "transição pacífica" que se deduzira para o caso português da política soviética de "coexistência pacífica" à escala internacional, quer na atuação do PCP na Revolução portuguesa. Confundir a radicalidade política do PCP com "ortodoxia pró-soviética", como sempre por aí se papagueou, é não querer perceber a diferença de fundo entre as políticas seguidas pela direção soviética e a opção de Cunhal, em 1965, pela "revolução democrática e nacional" como "via para o derrubamento da ditadura fascista". Só um partido comunista com uma identidade própria podia ter sobrevivido, como sobreviveu, à implosão do modelo soviético.

Comemorou-se Cunhal este ano, como vamos ver o PS, e não só, comemorar Soares em 2024. Pode a direita ter o problema de não ter mais ninguém senão Salazar para comemorar - o que (ainda!) não é fácil. Mas era inevitável comemorar Cunhal num momento desgraçado como aquele que vivemos.

MANUEL LOFF

Ou há moralidade ou não há Constituição para ninguém! Alguns políticos sem escrúpulos, governantes mal formados e economistas sem formação ética têm vindo a defender que no domínio da economia não devem haver princípios constitucionais a respeitar. Em nome da salvação do país tudo é admissível, principalmente se as vítimas forem reformados e funcionários públicos, pode-se cortar nos vencimentos e

Ou há moralidade ou não há Constituição para ninguém!

Alguns políticos sem escrúpulos, governantes mal formados e economistas sem formação ética têm vindo a defender que no domínio da economia não devem haver princípios constitucionais  a respeitar. Em nome da salvação do país tudo é admissível, principalmente se as vítimas forem reformados e funcionários públicos, pode-se cortar nos vencimentos e pensões de forma indiscriminada e não havendo regras é tão normal cortar 10% como decidir pagar apenas 10%. Os funcionários públicos e pensionistas estão para esta gente tal como os judeus estavam para os nazis ou os ciganos estão para alguns países do Leste.
Note-se que esta gente não é bem contra a existência de uma Constituição, é pior do que isso, eles apenas são contra a existência de direitos para os grupos profissionais ou sociais que eles consideram ser gente inferior. Se estiver em causa algum benefício indevido para as eléctricas, para as empresas de telecomunicações ou para outros grandes grupos depressa argumentam com a legalidade. Para eles os direitos de natureza comercial, mesmo que obtidos por esquemas corruptos, estão acima de quaisquer direitos constitucionais e estes forem invocados em defesa dos cidadãos que consideram serem seres inferiores.
Nenhum destes senhores, entre os quais está o presidente  da Comissão Europeia, refere quais os princípios constitucionais que devem ser suspensos ou ignorados em relação aos funcionários públicos e pensionistas, nem sequer se dão ao trabalho de argumentar em favor da suspensão dos direitos, limitam-se a argumentar que esta gente só faz despesa. Até o Presidente da República, a quem cabe cumprir e fazer cumprir a Constituição, parece achar que a lei fundamental tem tanta importância quanto o Borda d’Água, qualquer gato pingado pode atacar os valores constitucionais, até mesmo funcionários públicos estrangeiros o podem fazer, que ele não se sente obrigado a meter os pontos nos is.
Se assim é, se a Constituição pode ser ignorada, então poderemos ignorá-la em todos os domínios, se quisermos condenar um banqueiro à morte porque roubou o país, como sucedeu com o caso BPN, porque não? Se o merece e a situação é de excepção pode instituir-se a pena de morte e em vez de perdermos tempo com julgamentos porque não juntar todos os que de forma directa ou indirecta ganharam dinheiro fácil na SLN/BPN junto de uma parede do Campo Pequeno?
Se defendem que a Constituição pode ser ignorada em determinadas circunstâncias é conveniente que digam quais os artigos que podem ser ignorados, bem como os motivos que o podem justificar. Por exemplo, em que circunstâncias posso matar impunemente um banqueiro que me exigiu taxas de juros de agiotas, ou que motivos me permitem dar um murro num Presidente da República sem que nada me aconteça?

E o que acham de se recorrer à tortura para obrigar Oliveira e Costa e os outros responsáveis da SLN a denunciarem quem ganhou dinheiro com a fraude do BPN? Será que saber quem se abotoou com milhares de milhões não justifica ignorar a Constituição para dar uns tabefes nessa gente?


jumento.blogspot.pt

EXISTE O YES MAN MAS TAMBÉM EXISTE O MAY BE MAN - Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.

O "May be man"

por Mia Couto [*]
Quadro de Malangatana, 1983.Existe o "Yes man". Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.

O May be man vive do "talvez". Em português, dever-se-ia chamar de "talvezeiro". Devia tomar decisões. Não toma. Simplesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um "talvez" não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.

A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no "yes". É que o "may be" é, ao mesmo tempo, um "may be not". Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.

Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniência. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideologia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se "comissão". Há quem lhe chame de "luvas". Os mais pequenos chamam-lhe de "gasosa". Vivemos uma nação muito gaseificada.

Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De "business", como convém hoje dizer. Curiosamente, o "talvezeiro" é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enquadra-se no combate contra a pobreza.

Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opinião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.

O May be man entendeu mal a máxima cristã de "amar o próximo". Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao português, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o "próximo". É por isso que, para a lógica do "talvezeiro" é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.

O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recente: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrupto: em nome da lei, assalta o cidadão.

Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cautela, os do chefe do chefe.

O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigente: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem nomeá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.

Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma fortuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.

O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.
[*] Escritor . 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .