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domingo, 15 de setembro de 2013

Suavium Beija-o! Gritava-lhe a voz da vontade. Beija-a! Bradava-lhe o olhar. No escuro da noite amanheceu a clara madrugada, mais de meia cidade dormia e a restante ainda brindava às bebedeiras nocturnas.

Suavium

Beija-o! Gritava-lhe a voz da vontade. Beija-a! Bradava-lhe o olhar.
No escuro da noite amanheceu a clara madrugada, mais de meia cidade dormia e a restante ainda brindava às bebedeiras nocturnas. Na rua beijavam-se ao som das gaivotas citadinas, mas do outro lado, na outra margem do rio, alguém acordava em sobressalto, imaginando um intenso beijar, crente sofreguidão, pressentindo uma entrega de entranhar…

Acordou suada, o coração batia no medo da perda, na dor horrenda do desespero do jamais o voltar a ter.

E eles lá, naquela estreita rua, impunes no saber, enlaçados num desejo de risco do querer.
Do querer…
Querendo não querer, separam o olhar, largaram-se daquele beijo de amar, mas as gaivotas continuaram a cantar, e das noites nasceram outras madrugadas.

Agora aqui, nesta cidade, por vezes dorme-se, outras sonha-se ou acorda-se na imagem daquele beijar.
Querer crer no poder TER. Te ter...





cabrabranca.blogspot.pt

ATENCÇÃO - Na qualidade de ateu apenas publico aqui no blog algo que pode interessar a outros - RELIGIÕES - SAIBA MAIS SOBRE TESTEMUNHAS DE JEOVÁ







Texto integral do artigo "O mundo desconhecido em que são educadas as Testemunhas de Jeová" da revista "Sábado" edição nº 447 de 22 de Novembro de 2012



por Isabel Lacerda 

Mais de 600 pessoas juntaram-se para denunciar a sua antiga religião. Oito delas contam à Sábado como, durante anos, as suas vidas foram dominadas pelo medo de pecar. E pecar podia ser, simplesmente, soprar uma vela.

“Lembro-me de ser miúdo, olhas para um estádio de futebol cheio e pensar angustiado que aquelas pessoas iam ser todas destruídas porque se calhar nenhuma era Testemunha de Jeová”, lembra Vítor Máximo.

“As Testemunhas de Jeová acreditam que o mundo de Satanás vai acabar e que só elas sobreviverão ao Armadegão, passando com vida para o Paraíso”, explica M. M., ex-ancião (um dos mais altos cargos na hierarquia da organização), que pede anonimato com receio de represálias para a família, que continua na religião. 

Todos os crentes são habituados a esperar pelo fim do mundo desde crianças. A essa permanente angústia, os miúdos juntaram as várias coisas que estão impedidos de fazer na escola e o pavor de ofender Jeová. Entre as proibições (como aos adultos), estão a celebração de aniversário, Carnaval, Páscoa, Natal, fim de ano e todas as outras datas de origem pagã que a religião despreza porque, conforme explica Pedro Candeias, um dos representantes da organização em Portugal, não são mencionadas nas Escrituras. 

P.T. lembra-se de andar na escola primária e fingir que cantava os parabéns aos colegas, mexendo os lábios e esquivando-se a bater palmas. Mesmo assim, só por estar presente, temia “ser destruída”. César Rodrigues fazia o mesmo e, para evitar perguntas sobre a sua festa e presentes, não dizia quando aniversariava. 
Ambos contam como agora, respectivamente, celebram todos os aniversários com o maior entusiasmo: “Faço questão de ter sempre um grande bolo. São 30 anos? Sopro 30 velas!”, diz P.T. César festeja com igual euforia, mas ainda hoje não consegue cantar os parabéns. “E como se estivesse a fazer algo de mal. Sei que não estou, mas não consigo evitar este sentimento de culpa. Nunca cantei os parabéns na vida.” 

O maior terror das crianças Testemunhas de Jeová é o Natal, antecedido de atividades como pinturas, composições, festas ou teatros. Não podem participar em nada. 

“Lembro-me como se fosse hoje dos meninos todos em grupos a fazer enfeites para colar nas janelas da sala de aula e eu sozinha de lado, a fazer outra coisa qualquer”, conta P.T. 

Por se considerarem politicamente neutras, as Testemunhas de Jeová não votam em partidos políticos — nos países em que ir às urnas é obrigatório, são incentivados a vota nulo ou em branco. Também não saúdam a bandeira nem canto o hino. “Lembro-me bem: no 3º ano, todos de pé a aprender o hino, e eu supernervosa, só a mexer a boca”, recorda P.T. A organização não encontra motivos para o embarco infantil: “Sendo esses valores baseados na Bíblia, que razões teriam para sentir vergonha?”, questiona Pedro Candeias. 

Artes marciais, que se considera ensinarem a violência, são interditas. E, com base numa passagem bíblica interpretada como Deus não gostando que os homens concorram entre si, a prática de desportos de competição também é desencorajada. É das coisas que César Rodrigues mais lamenta: “Era sempre escolhido para a seleção de futebol da escola, mas era impensável treinar num clube”, conta este co-fundador do fórum Testemunhas de Jeová.

Já com mais de 600 usuários, o fórum surgiu para denunciar todas essas situações e apoiar antigos membros. Em Portugal, onde há 52 mil Testemunhas de Jeová, é o primeiro, mas noutros países da Europa, no Brasil e nos Estados Unidos, o fórum existe há vários anos. 

Também há livros e documentários reveladores do funcionamento da religião. É o que este grupo que recentemente se organizou pretende em Portugal: “Queremos que as pessoas percebam que as Testemunhas de Jeová não são tão inofensivas como parecer as senhoras que distribuem revistas na rua”, explica um dos fundadores do fórum. 

Todos os conteúdos místicos e esotéricos são considerados um perigo para a espiritualidade. Livros como “O Senhor dos Anéis” ou “Harry Potter” não são para abrir. 

Quando a família de P.T. entrou para a religião, os anciões foram livrar-lhes a casa da presença de Satanás. Entre o vestido da noiva que a mãe usara no casamento católico, todas as fotografias desse dia e qualquer outra em que aparecesse um crucifixo (para os fiéis a Jeová, Cristo morreu numa estaca), nada escapou: foi tudo queimado num bidão de metal, até a sua coleção de livros da Anita. “Daí para a frente, só lia a Bíblia e as revistas da religião.” 
As Testemunhas de Jeová acreditam que “A Sentinela",  "Despertai!" e todas as publicações da organização transmitem a palavra de Deus com a mesma validade que a Bíblia. “Quando mais cedo começarem o estudo, melhor para já irem ensinadas para a escola. Há grávidas que leem o “Meu Livro de Históricas Bíblicas” m voz alta para os bebês que têm na barriga”, revela R.M., outra desistente. 

Vítor Máximo, crente durante mais de 35 anos, recorda-se das tardes de quarta-feira passadas a ler as revistas; P.T. estudava-as com o pai aos sábados à tarde, depois da pregação. 

A pregação porta a porta é uma atividade fundamental e incontornável para qualquer Testemunha de Jeová, pois é a única maneira de levar a “Verdade” a mais pessoas, poupando-as no dia do Juízo Final. 

Acreditando nisso, aos 12 anos G.C. desatou a estudar a Bíblia fervorosamente. A mãe convertera-se e ele também. Acatou os fortes incentivos da organização para se distanciar das pessoas do Mundo (as que não são Testemunhas) e afastou-se de todos os amigos. De um momento para o outro, recorda hoje, deixou de brincas na rua e passou a vestir fato e gravata para ir às reuniões e a andar de pasta na mão para bater às portas. 

Em menos de um ano estava a entrar, de fato de banho e t-shirt branca, na piscina de Algés, em Lisboa. Com uma mão em cima da outra e as duas a tapar o nariz, submergiu totalmente, deitando-se para trás dentro da água. Quando veio acima estava batizado — acabara de se tornar ministro do reino de Jeová. “É uma dedicação incondicional para toda a vida: ser um escravo de Jeová e tudo fazer em favor Dele”, lembra mais de 30 anos depois desse momento. 

No verão seguinte, dedicou-se em exclusivo à pregação. “Eu levava as coisas muito a sério porque estávamos perto do fim do mundo. Pensava: ‘É preciso sacrifícios, vamos fazê-los”’, conta G.C., que foi ancião durante quase 20 anos. 

Desde que a religião foi fundada, em 1879, as Testemunhas já esperaram que o mundo acabasse em vários anos. Sempre que as datas passaram sem que alguma coisa acontecesse, o Corpo Governante (entidade atualmente composta por oito homens, que é o núcleo administrativo da religião nos Estados Unidos) emitiu um novo “entendimento”, inquestionável. “Estão sempre a repetir que a dúvida é um dos laços do Diabo”, explica R.M. Invariavelmente, mas sempre a posteriori, a cúpula da organização nega ter feito qualquer previsão concreta e, apesar de os textos das revistas oficiais da religião terem sempre mencionado os sucessivos anos em que o mundo acabaria, diz-se que a expectativa decorreu da má interpretação dos fiéis. A última data mundialmente difundida para o Armagedão, com muitas famílias a vender tudo que tinha para se dedicarem em exclusivo à pregação e garantirem a passagem para o novo mundo, foi 1975. Depois nunca mais se referiu um ano específico.
Com o mundo a poder acabar a qualquer altura, as Testemunhas de Jeová vivem ao mesmo tempo na expectativa do recomeço de uma nova vida e apavoradas com esse momento. Porque, mesmo para o povo eleito, o acontecimento implicará grande sofrimento. 

Uma revista "Despertai!", de 2005, avisa: “O arsenal de Deus inclui neve, saraiva, terremotos, doenças infecciosas, aguaceiro inundante, chuva de fogo e enxofre, confusão mortíferas, relâmpagos e um flagelo que causará o apodrecimento de partes do corpo.” 

Além disso, o Paraíso só está ao alcance de quem não tiver “culpa de sangue”, ou seja, quem não estiver a falhar nos preceitos da religião. 

“Eu perdi a minha vida! Não fazia nada com medo de ofender Jeová e ser destruída”, afirma P.T. 

Vítor Máximo conta que desde criança, e mesmo em adulto, acordou várias vezes a meio da noite “a chorar, com pesadelos com o Armagedão”. 

A grande prioridade das Testemunhas de Jeová é estudar e divulgar os mandamentos de Deus da maneira a salvar o maior número de pessoas possível. Por isso, são altamente desincentivadas a investir em atividades que, para a organização, apenas servem para roubar tempo ao testemunho porta a porta e de nada valem perante o fim de tudo. Quem vai para a faculdade mostra que está fraco na fé e passa a ser olhado com desconfiança. 

Quando Vítor Jacinto decidiu licenciar-se em Engenharia Química, passou a receber visitas de anciãos e superintendentes de circuito (que supervisionam várias congregações) quase semanalmente. A sua biblioteca fazia-lhes particular confusão. “Diziam que aqueles livros continham ensinamentos não cristãos e queriam que me desfizesse deles. Foi aí que começou a minha grande guerra contra eles.” Os livros ficaram, o curso foi acabado, deixou de ir à reuniões. 

Investir na carreira é encarada como outra afronta a Jeová. “Das coisas que me faziam mais impressão era ver pessoas subir à tribuna e contar, cheias de orgulho, que tinham recusado um promoção para não prejudicar a sua vida espiritual”. Revela R.M. 

Outro exemplo de dedicação à religião incutido nas reuniões e nas revistas é o desincentivo que a organização faz a que se tenha filhos: por um lado, são grandes consumidores de tempo, por outro, não é aconselhável pôr crianças num mundo que vai acabar. Para G.C., isso ficou claro no dia do casamento. Depois de uma adolescência em que não podia beijar nenhuma rapariga, nem mesmo como cumprimento, no rosto, e de um namoro com alguém da mesma congregação, sempre na presença dos pais e sem um único beijo na boca, casou-se num Salão do Reino. “O ancião que fez o discurso disse que de forma nenhuma deveríamos ter filhos, porque estamos no tempo do fim e era uma atitude pouco sábia, pouco espiritual.” 

Só contrariou a instrução mais de 10 anos depois, quando a mulher começou a ficar clinicamente deprimida com receio de já não conseguir engravidar por causa da idade. “Os casais que decidem ter filhos são criticados pelos outros que optam por não ter em virtude das orientações da organização”, revela M.M., outro ex-ancião. “Conheço casais que não têm filho e que agora já não podem e outros que continuam na expectativa de vir o fim para depois poderem ter um filho. É horrível”, afirma G.C. 

Este antigo ancião deixou o cargo e as reuniões há cinco anos. Tecnicamente, está inativo, situação de que não entrega há seis meses relatórios com o número de publicações que distribuiu e de horas que pregou. O seu mal-estar com a religião começou quando, numa formação para cerca de 200 anciões, lhes foi ordenado que escrevessem na página do manual sobre o abuso sexual de menores: “Sempre que surja um caso de pedofilia, contatem de imediato a filial [a sede, em Alcabideche, Cascais]. “ Perguntou: “Mas a pedofilia é crime, não deveria denunciar-se à polícia?” Responderam-lhe peremptoriamente: “Nós não denunciamos os nossos irmãos. As ordens são estas, escreva isso aí.” 

No manual dos anciões a que a Sábado teve acesso está impresso: “Se o acusador ou o acusado não estiverem dispostos a reunir-se com os anciãos, ou se o acusado continuar a negar a acusação de uma única testemunha e a transgressão não tiver sido comprovada, os anciãos devem deixar o caso nas mãos de Jeová”. 
Esta política de não divulgação valeu recentemente às Testemunhas de Jeová a condenação à maior indenização alguma vez já paga nos Estados Unidos a uma vítima de pedofilia: 22 milhões de euros. O tribunal considerou provado que a estrutura da organização tinha sabido e abafado o caso.


Esta é das mais desconfortáveis questões no interior da Religião. Outra é a da desassociação, ou expulsão — o pior que pode acontecer a uma Testemunha e aos seus familiares, O contato com desassociados é simplesmente proibido, mesmo que seja da família.

De possuída pelo demônio, a prostituta, P.T., com cerca de 40 anos, ouviu os piores insultos da boca dos pais quando foi desassociada, em 2006. Proibiram-na de voltar lá a casa. “Fiquei desnorteada, pensava que ser destruída, perdi a minha família e todos os meus amigos, que nem sequer me cumprimentavam. Como todas as pessoas que são desassociadas, fiquei sem ninguém.” 

“Jeová nos observará para ver se acatamos, ou não, seu mandamento de não ter contato com nenhum desassociado”, lê-se na revista “A Sentinela”, de abril deste ano. 

“Um simples ‘oi’ dito a alguém pode ser o primeiro passo para uma conversa ou mesmo para amizade. Queremos dar esse primeiro passo com alguém desassociado?”, questionava a mesma publicação já em 1981 (as Testemunhas de Jeová guardam todas as revistas que consultam). “Toem sua posição contra o Diabo (...). Não procure desculpas para se associar com um membro da família desassociada, como, por exemplo, trocando e-mails”, diz “A Sentinela” de janeiro de 2013 já disponível no site da organização. 

O ostracismo a que os desassociados são votados pode originar problemas extremos. Dos oito antigos fiéis que a Sábado entrevistou (dois dos quais ex-anciãos), quatro tiveram de procurar ajuda médica para depressões e estado de ansiedade grave — alguns fizeram terapia, todos foram medicados. Dois pensaram no suicídio. 

Vítor Máximo julgou que os pais se reaproximassem quando lhes comunicasse o seu segundo casamento. Afinal, deixaria de ser um “fornicador”, um dos maiores pecados para a religião. Mas, como a mulher era uma mundana e ele um apóstata (abandonou a religião há cinco anos), os pais nem foram à cerimônia. 

“Nesse dia, quando cheguei a casa, em vez de estar a relembrar os bons momentos da festa, sentei-me na beira da cama e desatei a chorar”, lembra. 

Embora o expulsem, insiste em aparecer de vez em quando na casa deles, nos arredores do Porto, mas na última vez que falou com o pai ele chamou-lhe adorador do Diabo e ameaçou ligar para a polícia caso voltasse. Durante muitos meses, a conversa ao jantar com a mulher terminava invariavelmente em lágrimas. Teve de ir ao psiquiatra e só superou a depressão com a ajuda de medicamentos. 

Quem privar com um desassociado arrisca-se a ser expulso. Isso é ficar sem nenhuma rede social (família e amigos), porque as Testemunhas de Jeová não criam laços com pessoas do Mundo. Por medo do que pode acontecer aos familiares, algumas pessoas falaram para este artigo sob anonimato; outras não revelaram a identidade porque estão afastadas, mas não se querem dissociar (voluntariamente) nem ser desassociadas, sabendo que nesse momento terão de cortar relações com os que lhes são mais próximos. 
César Rodrigues, 38 anos, foi Testemunha de Jeová desde que nasceu e as suas dúvidas só surgiram há quatro anos, quando fez uma coisa que a organização desaconselha insistentemente: meteu-se num fórum de dissidentes brasileiros na internet. “Para mim, aquilo era tudo mentira. Pensei: ‘Vou mostrar-lhes o que é uma verdadeira Testemunha de Jeová’”. Mas foi ele que acabou convencido. Uma das coisas que mais o chocaram foi perceber as incongruência na proibição de transfusões de sangue, que já provocou a morte a um número incalculável de crentes. 

“As Testemunhas acreditam que a transfusão de sangue lhes é proibida por passagens bíblicas como estas: “Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer”, explica o representante da organização, Pedro Candeias. Plasma, plaquetas, glóbulos brancos e vermelhos também são rejeitados. Mas o recurso a fracções desses componentes é permitido. “É extremamente incoerente condenar o uso de determinadas fracções e permitir o de outras e não existe base bíblica nem científica para tal distinção. Por exemplo, se se pode aceitar hemoglobina, que é 97% de um glóbulo vermelho, por que não se pode aceitar glóbulos vermelhos? “É como se eu dissesse que você pode comer uma uva sem pele, mas com pele não pode”, afirma M.M., que foi ancião durante mais de uma década.

Quando César começou a fazer perguntas aos amigos (“Sabias que era assim?”), foi denunciado. Fizeram-lhe quatro comissões judicativas (tribunais eclesiásticos). Já sem acreditar em nada do que tomara por certo durante anos, negou todas as acusações de falta de fé. Recusa-se a ter de deixar de falar com os pais. Quando conheceu uma antiga Testemunha de Jeová, perguntou: “É possível ter amigos do Mundo?” Descobriu que sim. Deixou de aparecer nas reuniões. 

R.M. demorou a fazê-lo, mesmo depois de, no ano passado, ter lido o proibidíssimo livro “Crise de Consciência, de um antigo membro do Corpo Governante, e de perceber que “toda a vida tinha vido enganada”. “Sinto que é mesmo uma lavagem cerebral, da qual é muito difícil libertamo-nos”, explica. Só conseguiu afastar-se quando descobriu o fórum Testemunha de Jeová. Diz que só passar à frente de um Salão do Reino a deixa “agoniada”. Mas não está preparada para deixar de falar com a família. 

Para M.B., o momento está para breve. Aos 18 anos, aproveitou o fato de sair de casa e mudar de cidade para confessar aos anciãos que fumava, o que é proibido. Já sabia o que o esperava: uma semana depois lhe comunicaram a expulsão. De regresso a Lisboa, foi assaltado e ficou sem dinheiro nenhum. Ninguém da família lhe atendeu o telefone nem respondeu às mensagens — nem nessa altura nem em todo o ano que se seguiu. “Sentia-me perdido, culpado, abandonado. Passava noites inteiras sem dormir.” 

Desenvolveu um transtorno de ansiedade incapacitante. A família continuava a não lhe atender o telefone. Pensou no suicídio. “Mas depois ahcei que ninguém iria ao meu funeral”. 

Um dia em que insistiu mais uma vez, inesperadamente, a mãe atendeu. Como o motivo era doença, os anciões, aos quais ela pediu autorização, permitiram que o recebesse em casa. Mas agora que está mais estável, M.B. sabe que vai ter de voltar a sair. E que vai ter de se despedir para sempre.








As Testemunhas de Jeová


Estava eu ainda a dormir, quando subitamente alguém toca a minha porta. Meio estremunhado, pensei ser a vizinha que, como é hábito, vinha-me trazer alguns pés de alface... Descontraidamente saí da cama e ainda meio ensonado desci as escadas em direcção a porta da entrada... Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que não se tratava da minha vizinha, mas sim de duas pessoas bem vestidas e aparentemente com um ar simpático. Mas quem seriam eles, o que queriam de mim? Intrigado, escutei-os com atenção. Fiquei a saber por essas mesmas pessoas que chegara o grande dia do Todo-poderoso. Que Deus iria trazer uma guerra para solucionar todos os problemas dos homens. Que essa solução tão esperada por eles, e que tão carinhosamente chamavam de Armagedão, era a única esperança para o ser humano, que todos aqueles que não seguirem os princípios de Deus (os do mundo, conforme apelidam os que não acreditam no mesmo que eles), serão destruídos... Pelo estilo de linguagem e dos termos empregados, identifiquei logo os meus visitantes. Tratava-se de Testemunhas de Jeová. Fiquei um pouco perplexo do porquê de me terem batido a minha porta. Nunca tinha recebido a visita dessa organização (nem de nenhuma outra) e não compreendia a causa de tal visita. Não é que nunca tinha ouvido falar deles e que não os conhecia, porque até tenho familiares meus chegados que são membros dessa religião. “Jogando” com tal facto e sabendo quase qual seria a resposta, decidi verificar até que ponto estaria certo. Fiz-lhes parte da "minha dúvida". Disse-lhes que nunca até aos dias de hoje tinha sido visitado e que ficara um pouco perplexo de tal ter acontecido agora! A resposta não se fez tardar e foi mais que obvia... Se estavam ali hoje, é porque Deus achou que chegará o momento de eu conhecer a Verdade. Nada é por acaso... Soltei um leve sorriso meio envergonhado. Muito bem (pensei eu), a minha "teoria" estava certa! Como não tinha nada para fazer, decidi dar-lhes ouvidos, mas não antes sem me ir mudar (porque tronco nu não é a melhor maneira de se estar a porta!). Depois de me ter mudado, mandei entrar tão dignos representantes de Deus…
Depois de devidamente acomodados no sofá, decidi ouvi-los com atenção. Fui informado que Deus tem um plano para toda a humanidade. Que Ele brevemente irá tornar todo o nosso planeta num paraíso, habitado apenas por aqueles que realmente fazem a vontade Dele. Quem serão esses escolhidos, perguntei eu. A resposta não se fez tardar… É claro que apenas as Testemunhas de Jeová terão tal privilégio. E então o resto da humanidade? Deus pura e simplesmente os irá destruir. Fiquei pensativo… Normalmente não sou muito bom em contas, mas decidi perguntar quantos membros existe entre as Testemunhas de Jeová (TJ). Cerca de seis milhões. A população mundial é cerca de 6,6 biliões… Sou um pouco como o nosso antigo primeiro-ministro Guterres: há que fazer as contas! As TJ nem 1% da população mundial representam… Fiquei a pensar nisto mas mantive-me calado e continuei a ouvi-los. Ofereceram-me um livro (cujo o titulo não me recordo) onde basicamente dizia que existe apenas dois lados: o bem e o mal. O primeiro capítulo abordava a temática Deus. O capítulo seguinte falava de Satanás o diabo. O terceiro, do propósito de Deus Jeová para com a terra e seus habitantes. E claro que o quarto capítulo dava-nos a escolher de que lado queríamos servir. Do lado do bem, ou do lado do mal. Por outras palavras: do lado das Testemunhas de Jeová ou do lado do Diabo. É claro que ninguém escolheria estar do lado do mal! Tal pergunta obvia requer logo uma resposta também ela obvia! Todo este proceder não é por acaso…
Depois de cerca de duas horas a ouvi-los decidi aceitar um estudo bíblico. Não porque estava interessado nas suas doutrinas, mas sim porque queria saber mais sobre a organização das TJ e seu funcionamento. Nunca consegui perceber porquê que um pai e uma mãe viram a cara a um filho apenas porque esse não mais acredita nas doutrinas Jeovistas. Nunca entendi porquê que esse filho é agora tratado como um mero estranho e visto, aos olhos de todas as TJ, como um simplório criminoso. Já para não falar das transfusões de sangue onde o mais importante é seguir um texto da bíblia e dar-lhe uma interpretação que apenas eles têem… O que levava milhares de pessoas a seguir essa ideologia? Será que as Testemunhas de Jeová são aquelas pessoas que todos conhecemos: exemplares, sem mancha nem macula? Decidi investigar…
O que mais salta aos olhos é que apenas as TJ serão salvas do “grande dia de Deus” (o Armagedão). O que quer dizer que 99,9% da humanidade será destruída! Onde está o amor de Deus no meio de tudo isto!? Não haverá gente que mesmo não sendo TJ tem um comportamento mais digno, e que humanamente seja melhor? Mas esse comportamento exemplar, essa imagem que gostam de fazer passar, existirá mesmo? Dentro da organização das Testemunhas de Jeová existe um facto digno de alguns países ditatoriais: a censura. Os membros dessa organização estão proibidos de ler publicações de outras religiões ou qualquer outro livro com ideias contrárias as doutrinas jeovistas. Uma TJ não pode exprimir livremente os seus pensamentos se estes forem contrários aos seus ensinamentos. As TJ não tem o direito de duvidar e devem de acreditar em tudo o que ouvem dos seus líderes sem questionar. O contrário seria entendido como estando fraco na fé. Essa pessoa seria vista como uma presa de Satanás, passando agora a ser servo Dele. Tal comportamento levaria á desassociação (expulsão) desse membro e todos os outros estão obrigados a não terem mais contactos com ele e nem um simples “olá” é permitido. Os familiares devem de dar o mesmo “tratamento” a pessoa expulsa sendo apenas permitido o contacto em caso de extrema necessidade (ex. o falecimento de um familiar). Toda esta conduta é tida como “amorosa” entre as TJ. Está maneira cruel de proceder com quem por vezes dedicou toda uma vida ao serviço de uma “religião”, tem uma razão de ser, razão essa que muito dificilmente as TJ conseguem enxergar. Geralmente quando uma pessoa sai da organização sociedade Torre de Vigia (designação legal) é por motivo de consciência, porque descobriu algo que até a data lhe foi escondido. Por tal motivo as leis internas mandam afastar essas pessoas, pois essas poderiam contaminar o resto do rebanho. Não está aqui em causa a contaminação dita “espiritual”, mas sim a verdade e a falhas sobre a organização não é bem vinda. Toda esta maneira de agir com os seus membros, toda esta manipulação mental é digna das seitas mais radicais. Mas existirá grande diferença entre as chamada seitas e as Testemunhas de Jeová? Não. Em alguns países as TJ são tidas como tal. Uma organização que teima em tratar os seus ex membros desta maneira, é uma grave ameaça ao tecido familiar. Quantas famílias sofrem por causa destas “leis” internas, que não tem nenhum fundamento bíblico? Como pode um povo que se auto intitula de “único representante de Deus na terra”, de “divinamente inspirado”, o povo escolhido etc, errar e continuar a errar sistematicamente?
 Alguma Testemunha de Jeová teve conhecimento Das falsas previsões desde o tempo de Charles Taze Russel (fundador da seita) para o Armagedão?
- O envolvimento em ocultismo por parte dos líderes da Torre de Vigia, que acabaram envolvendo os demais adeptos por décadas a fio (o caso do espírita, Johannes Greber, entre outos).
- As crenças do lideres da Sociedade em pseudo-ciencias, bem como os seus ataques à medicina tradicional (vacinas, transplantes, uso de derivados de sangue, etc. expondo a vida das Testemunhas de Jeová desnecessariamente ao risco.
- O perjúrio cometido na Bulgária, ao assinar um acordo com as autoridades daquele país em 1995.
- O caso de mudança de cobrança pela literatura, cujo objectivo foi tão somente fugir aos impostos, depois de Jimmy Swaggart, um pastor de outra seita, apoiado pela Torre de Vigia judicialmente, ter perdido a sua causa em justiça.
- A quebra de “neutralidade Cristã”, nos episódios envolvendo a “Declaração de Factos” e a vergonhosa carta a Hitler, bem como a aprovação de Rutherford (segundo presidente da sociedade Torre de Vigia), a compra de bónus de guerra, e o dia de oração em favor dos aliados da segunda guerra.
- O envolvimento da sociedade Torre de Vigia, por cerca de 10 anos à ONU, a que as Testemunhas de Jeová apelidam de “fera cor de escarlate”.
- O caso de sonegação de impostos em França.
- Os frequentes casos de pedofilia, encobertos pela Torre de Vigia. etc, etc…
Quando confrontei os meus ilustres visitantes com tais factos, os mesmos limitaram-se a dizer que tudo era falso e uma invenção dos apóstatas (termo usado para quem saí da seita e que deixa de apoia-la nas suas crenças). Não me limitei apenas a dizer o que tinha descoberto, mas provei com documentação e até com algumas cópias de jornais. Uma TJ é treinada a dizer que tudo o que se possa dizer contra ela é mentira e não tenta sequer verificar a veracidade de tais argumentos. Elas agem como um robot, não questionam nada, não duvidam e são mantidas longe da realidade.
A “religião” que pensamos nos ser inofensiva é totalmente o contrário. A sociedade Torre de Vigia é uma organização multimilionária que só tem uma coisa em mente: o lucro. Os seus fiéis vivem num mundo á parte longe da realidade. São mantidos assim por conveniência dos responsáveis da seita. Os seus membros estão como que num estado vegetativo onde só realmente importa o que o mestre possa dizer, esperando que brevemente venha o paraíso…
Nada tenho contra as TJ, mas sim contra esta maneira de tratar os seus seguidores. Sei perfeitamente que muitos estão sofrendo devido a tais ensinamentos, e que algumas famílias estão destruídas devido a tais “bondosos” conselhos.
“É muito mais fácil envolver o povo numa grande mentira do que numa pequena. Se a mentira tiver proporções exageradas, nem passará pela cabeça das pessoas ser possível arquitectar tamanha falsificação da verdade.”
(Adolf Hitler)

otalho.blogs.sapo.pt



     
       "Para os vizinhos, era um carpinteiro e um pintor atencioso, tímido, que jogava dominó com os amigos nos dias em que não ia para a igreja pregar sermões aos fiéis. Crente das Testemunhas de Jeová, mostrava-se preocupado com a mulher, Jennifer, acamada devido a esclerose múltipla. Mas, à noite, Delroy Grante, de 52 anos, era outra pessoa. Durante 17 anos, este pai de sete filhos abusou de pelo menos 108 idosos do sul de Londres. Chamavam-lhe Night Stalker (perseguidor nocturno).

       Entre Outubro de 1992 e Maio de 2009 atacou velhos solitários. Não matou ninguém. A maioria eram mulheres, mas há três anos que os homens também entravam na lista. Finalmente, na semana passada foi detido pela polícia britânica, em Croydon, bem perto da vila onde morava, Brockley. Foi acusado de cinco violações, 11 roubos e seis agressões sexuais. A mais nova das vítimas tinha 68 anos; a mais velha, 93. Delroy usava sempre o mesmo método. Escolhia idosos pobres que vivessem sozinhos. Seleccionava moradias, nunca apartamentos. Entrava pela traseira da casa, vestido de negro, com um gorro na cabeça. Colocava luvas de látex, desligava a electricidade e cortava o telefone. Enquanto a vítima dormia, aproximava-se dela e começava os sussurros e carícias. 
      
       Por vezes, passava horas a falar com as vítimas imobilizadas enquanto lhes apontava uma lanterna ao rosto. Uma das vezes até contou a uma idosa que a sua mãe tinha morrido em 2000. Estas conversas acabaram por servir como prova para o deter. A seguir abusava dos idosos. 
      
       Durante quase 20 anos de investigação, a polícia seguiu vários rastos (até Delroy já tinha sido interrogado) e reuniu duas mil amostras de ADN. Em 2004, uma nova tecnologia genética permitiu reduzir de 21 mil para mil os suspeitos. As provas genéticas indicaram que Night Stalker era descendente de nativos americanos, europeus e subsarianos, e os seus antepassados podiam estar numa ilha das Caraíbas. Com outras pistas dadas por testemunhas, Delroy foi finalmente encontrado."
In, Sábado nrº 292 de 3 a 9 de Dezembro
      
      
       Foi com este relato que abordei hoje um conhecido meu, Testemunha de Jeová. Como não seria de esperar, a única maneira que essa mesma pessoa encontrou para rebater tal notícia foi dizendo que não passava de uma mentira e que as Testemunhas de Jeová são odiadas e perseguidas. Frente a tais afirmações e sabendo que não adianta falar com alguém cuja mente está moldada por doutrinas sectárias, decidi apenas não continuar mais com o dialogo… 
      
       Quanto à notícia da revista Sábado, essa mesma exibe o que realmente são as Testemunhas de Jeová: uns indivíduos como tantos outros e não uns Seres superiores, os únicos escolhidos por Deus...

ROULOTES, BICICLETAS, AUTOMÓVEIS E OUTRAS INVENÇÕES DE FICAR PASMADO !





















SERGE GAINBOURG & JANE BIRKIN La Decadanse.wmv

UM TEXTO ESCLARECEDOR SOBRE O AMOR E O EROTISMO -Relação aberta ou inteligência erótica: existe uma resposta única para os dilemas atuais do casamento? Veja a opinião de duas grandes autoridades quando o assunto é relacionamento, amor e desejo: a belga Esther Perel e a brasileira Regina Navarro Lins



Relação aberta ou inteligência erótica: existe uma resposta única para os dilemas atuais do casamento?

Veja a opinião de duas grandes autoridades quando o assunto é relacionamento, amor e desejo: a belga Esther Perel e a brasileira Regina Navarro Lins





Uma relação duradoura afasta o instinto selvagem? Em 'Sexo no cativeiro', a psicóloga belga Esther Perel aponta as diferenças entre as fontes de amor e desejo (Banco de Imagens / sxc.hu)
Uma relação duradoura afasta o instinto selvagem? Em 'Sexo no cativeiro', a psicóloga belga Esther Perel aponta as diferenças entre as fontes de amor e desejo
Intimidade não é garantia de mais qualidade no sexo. Desejo não combina com previsibilidade e com falta de espaço. Essa é a opinião de Esther Perel, psicóloga, terapeuta sexual e escritora best-seller belga radicada nos Estados Unidos. Ela é autora do livro 'Mating in captivity: unlocking erotic intelligence' (Acasalamento no cativeiro: desvendando a inteligência erótica). No Brasil, a obra foi lançada como 'Sexo no cativeiro: driblando as armadilhas do casamento'. Assim como a psicanalista brasileira Regina Navarro Lins – autora de 'A cama na varanda' e do recém-lançado 'O livro do amor' -, ela se dedica a investigar o amor, o desejo, o casamento, a monogamia e as mudanças na mentalidade de cada época. Mas, embora as duas descrevam a surrealidade do amor romântico que vemos nos filmes e livros, a diferença está basicamente na 'solução' que cada uma prevê para os grandes dilemas de um relacionamento duradouro.


Esther Perel: por um lado, muitas pessoas buscam estabilidade e segurança; por outro se veem às voltas com a falta de desejo. Para Esther Perel, a estratégia para driblar essa tensão seria ampliar nossa inteligência erótica (Divulgação)
Esther Perel: por um lado, muitas pessoas buscam estabilidade e segurança; por outro se veem às voltas com a falta de desejo. Para Esther Perel, a estratégia para driblar essa tensão seria ampliar nossa inteligência erótica
Se, por um lado, muitas pessoas buscam estabilidade e segurança; por outro elas se veem às voltas com a falta – ainda que momentânea – de desejo e atração pelo parceiro. Para Esther Perel, a estratégia para driblar essa tensão seria ampliar nossa inteligência erótica. Isso parte da compreensão de que, em uma relação duradoura, a paixão não dura para sempre. O que não é motivo para pensar que o desejo deixou de existir. Ele só precisa ser ressuscitado, segundo a terapeuta. “As crianças têm uma capacidade de imaginação, curiosidade e inovação constante. Elas estão dispostas a brincar, explorar e descobrir. Essas características fazem parte da inteligência erótica, mas não nascemos com elas – precisamos cultivá-las. A inteligência erótica está vinculada ao impulso de manter-se vivo, à conexão com a força energética vital”, explicou Esther em entrevista por telefone ao Saúde Plena (clique aqui para saber mais).

A autora esclarece que, no Ocidente, o erotismo é automaticamente associado ao sexo, mas a inteligência erótica não é necessariamente uma habilidade sexual. “O ato sexual não pode ser o único objetivo. O erotismo é a poesia do sexo, é o sexo transformado pela nossa imaginação, e isso está além da cama – tem a ver com quem eu sou, com a identidade de cada um. Tem a ver com descobrir como é possível manter a novidade, a curiosidade e o espírito explorador dentro de um relacionamento duradouro”, define a terapeuta. “Se vejo o erotismo como inteligência, então é algo que cultivo, principalmente com a imaginação”, resume. Mas não fique com o resumo.


Regina Navarro Lins: se houvesse uma máquina do tempo e pudéssemos ir aos anos 1950 para dizer que em poucas décadas seria natural as moças não casarem virgens e os casais se divorciarem, iam nos internar em um hospício. Com a relação pautada pelo amor romântico e pela exclusividade, será a mesma coisa (Arquivo Pessoal )
Regina Navarro Lins: se houvesse uma máquina do tempo e pudéssemos ir aos anos 1950 para dizer que em poucas décadas seria natural as moças não casarem virgens e os casais se divorciarem, iam nos internar em um hospício. Com a relação pautada pelo amor romântico e pela exclusividade, será a mesma coisa
Quais são as grandes dificuldades? Uma grande frustração que os casais de qualquer sexo e idade têm, segundo Esther, é acreditar que o desejo deve ser igual ao do início de sua história juntos. O casamento inspirado pelo amor romântico traz expectativas irreais e vira um motor de insatisfações. Somam-se a essa outras frustrações: o egoísmo do outro, a dificuldade em expressar suas preferências, o desapontamento com as preferências do outro, a rotina, a idade avançada, o sexo focado apenas na parte genital do corpo, a falta de orgasmo para alguns; e o foco apenas no orgasmo, para outros.

E temos ainda o fato de não gostar do próprio corpo. “Se você não gosta do próprio corpo, como vai convidar alguém para desfrutá-lo junto com você? A tirania do corpo que existe em vários países, inclusive no Brasil, exacerba essa frustração”, acrescenta Esther Perel. Ou seja: muitas vezes, a insatisfação que leva à infidelidade tem mais a ver com o conhecimento de nós mesmos do que com alguma negligência do outro.

Para toda a vida ou que seja eterno enquanto dure?
As mudanças no modelo de casamento foram drásticas em poucas décadas. Se antes, o casamento era obrigatoriamente e irrevogavelmente para a vida toda, hoje já se permite que o “para a vida toda” seja com uma pessoa por vez. “A monogamia é um conceito que sempre muda através da história. Em séculos passados, ela não era uma definição romântica, e sim econômica. Era uma imposição sobre a mulher, afinal, o patriarca precisava saber se aqueles filhos eram dele, para levar a família e o patrimônio adiante”, lembra Esther.



Este nomadismo sexual foi abrindo mais possibilidades e permitindo comparações entre as experiências - através da história, o significado da sexualidade e as fronteiras sexuais mudam. Os relacionamentos abertos, por exemplo, são mostras dessa negociação de limites, segundo Esther, mas é necessário entender que, por outro lado, quem tem uma relação tradicional não necessariamente está perdendo. “O desafio erótico é integrar a relação de duas necessidades humanas fundamentais e opostas – uma relação comprometida, estável, segura, previsível, de um lado; e a surpresa, a novidade, o mistério, o fascínio pelo desconhecido, de outro”, pontua. Como é impossível que a mesma pessoa seja naturalmente estável e surpreendente, familiar e inovadora, previsível e misteriosa, a terapeuta bate na tecla do esforço.


O mito do amor romântico e eterno é apontado pelas duas especialistas como fonte de frustrações e desentendimentos. Nesta visão idealizada, se a relação não vai bem, é porque não existe amor. Será? (Banco de Imagens / sxc.hu)
O mito do amor romântico e eterno é apontado pelas duas especialistas como fonte de frustrações e desentendimentos. Nesta visão idealizada, se a relação não vai bem, é porque não existe amor. Será?
Infidelidade e desejo
“As pessoas que têm relações extraconjugais não necessariamente têm relações ruins. Elas buscam a possibilidade de serem diferentes, buscam renovação pessoal, o que quase sempre é difícil num casamento de décadas. O divórcio, neste sentido, é a reafirmação do sistema – você não acredita que errou de modelo, errou de pessoa”, explica Esther. Mas, apesar de difícil, ela garante que renovar-se não é impossível.

A terapeuta ensina que, para manter o desejo, é necessário manter o frescor. Como? Com distância. “O desejo precisa de uma história para surgir. A tendência é reclamar: fulano é sempre o mesmo. E esquecemos que nós também somos os mesmos”, alerta Esther. O desejo, com o tempo, passa a vir de forma mais calma, mas nem todos aceitam isso, tal é a idolatria do amor romântico. “Para o desejo surgir, não existe a necessidade obrigatória de uma nova pessoa. Bastam novos comportamentos, novas iniciativas. É um esforço, é um trabalho contínuo. Ele deve ser premeditado, uma vez que deixou de ser espontâneo”, define a terapeuta belga.

Funciona como quando você decide cozinhar um prato especial – é preciso pensar na receita, comprar os ingredientes, criar a apresentação. Porque aceitamos tanto que deve haver empenho na vida profissional, mas a conjugal deve se resolver sozinha? Porque acreditamos que, se ela não se resolve, não há amor suficiente? Essas são algumas das provocações de Esther Perel.

Romantismo: o inimigo
Se distância é fundamental para o desejo, Esther indica: não fique de mãos dadas o tempo todo (Banco de Imagens / sxc.hu)
Se distância é fundamental para o desejo, Esther indica: não fique de mãos dadas o tempo todo
A autora, que viajou por dezenas de países promovendo seu livro e realizando pesquisas, observa que onde o romantismo entrou, instalou-se uma crise do desejo. Ela resolveu, então, fazer a pergunta: quando você sente mais atração pelo seu parceiro?

Apesar de culturas, religiões e gêneros diferentes, as respostas foram semelhantes e agrupadas:

Primeiro grupo:
- sinto mais atração pelo meu parceiro quando estamos longe e nos reencontramos. Ou seja: é possível imaginar-se com o parceiro, devido à ausência e à saudade – uma grande componente do desejo.

Segundo grupo:
-sinto mais atraída pelo meu parceiro quando o vejo se destacando e seu ambiente ou fazendo allgo que gosta muito, quando é o centro das atenções. Um exemplo: “quando minha mulher faz uma apresentação de trabalho para centenas de pessoas sem nem perceber que estou ali na plateia”. Ou seja: aquela pessoa familiar volta a ter um certo mistério. Neste espaço, nasce o movimento, o impulso erótico.

Terceiro grupo:
- quando estou surpreso, quando rimos juntos, quando há alguma novidade. Novidade não tem nada a ver com novas posições na cama ou novas técnicas. Tem a ver com se descobrir.

Se, para o desejo no casamento sobreviver, é necessário existir uma distância, há muita gente que precisa trabalhar a tranquilidade de estar longe do outro, permitir que ele cresça. Muitos casais apostam em uma vida sem brigas e agressividade. Um mundo 100% politicamente correto. Mas a raiva pode trazer a distância que estimula o erotismo. Afeição permanente pode abafar o tesão. “Já procurei, mas ainda não encontrei uma pessoa que se excite por alguém que precisa dela. Precisar é desestimulante”, sentencia Esther. O desejo vem quando o outro é visto como independente, e não como pai/mãe/companheiro..

Fontes diferentes
Chegada dos filhos pode levar à perda da individualidade. E isso, por sua vez, pode levar a dificuldades na criação do desejo (Banco de Imagens / sxc.hu)
Chegada dos filhos pode levar à perda da individualidade. E isso, por sua vez, pode levar a dificuldades na criação do desejo
As coisas que alimentam o amor não são as mesmas que alimentam o desejo. Amor é ter, desejo é querer. Amor inclui ansiedade e responsabilidade. Desejo inclui transgressão. É possível querer o que já temos? “É perfeitamente possível. Só que algumas pessoas têm mais facilidade de serem bilíngues e transitar entre amor e desejo com o mesmo parceiro, enquanto outros não querem viver com a tensão que é exigida pelo erotismo. A paixão anda junto com a quantidade de incerteza que você consegue tolerar”, aponta a terapeuta. “O desejo é como a lua, que tem ausências intermitentes. Já atendi casais que sofriam com a falta de desejo há anos e conseguiram retomá-lo”, completa. Os casais eróticos derrubam o mito da espontaneidade. Sexo com compromisso é sexo premeditado.

Esther levanta ainda a questão da ‘igualdade’. Historicamente, as sociedades tentam controlar a sexualidade. Embora tenha havido uma luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, muitas abandonam sua condição independente após o nascimento dos filhos e passam a regredir ao mesmo comportamento das mães e avós. “Além de insatisfações com o corpo, cansaço e alterações hormonais, a mulher abandona sua individualidade. E o individualismo é vital para o desejo. Neste caso, o companheiro, em vez de ficar esperando alguma mudança, deve criar um novo ambiente”, alerta.

Não confunda premeditação com obrigação
É possível forçar o sexo, mas nunca o desejo. “É importante aprender pela experiência. Conhecer seu corpo e saber o que o satisfaz, para depois comunicar o que faz você se sentir bem. Ler e assistir filmes também ajudam a desenvolver a mente erótica, descobrir e explorar novos caminhos”, ensina Esther. É como descobrir seu gosto em música – vocês escuta uma música, descobre que gosta dela. Repete muitas vezes, depois passa para outras músicas. “A experiência é importante para desenvolver a autoaceitação, a autoestima – para se sentir confortável ao explorar o sexo”, resume.

A última fronteira - ou tabu universal - do sexo é sua presença dentro da família. E o casamento vive essa tensão entre a formação da família e o sexo. “Estar apaixonado dentro do casamento monogâmico é um paradoxo. Se antes o sexo era apenas para procriação, ele não fazia parte do dia a dia da família. E ainda estamos rompendo essa fronteira. É a sexualidade que vem do desejo, não da obrigação. O casamento atual precisa ter amor, sexualidade e desejo de felicidade. Quando alguém me procura e diz que enxerga o marido ou a esposa como irmão ou mãe, por exemplo, é porque o papel do outro deixou de ser sexual”, define a terapeuta.


Acreditando no mito do amor romântico, a maioria acha que a falta de desejo significa que o amor acabou. Mas Esther Perel explica que amor e desejo têm fontes diferentes e algumas pessoas conseguem transitar entre eles com mais facilidade.  (Banco de Imagens / sxc.hu)
Acreditando no mito do amor romântico, a maioria acha que a falta de desejo significa que o amor acabou. Mas Esther Perel explica que amor e desejo têm fontes diferentes e algumas pessoas conseguem transitar entre eles com mais facilidade.


Duas pessoas que querem manter o desejo e desenvolver sua inteligência nesta direção devem compreender que o amor é um espaço erótico, dentro do qual o desejo pode desabrochar. O desejo é uma ponte que deve ser cruzada para se chegar ao outro. “Para isso, é necessário haver egoísmo, no melhor sentido da palavra: a habilidade de estar conectado consigo mesmo na presença do outro”, explica Esther.

Mas ela chama a atenção para algo cada vez mais raro nessa equação: a privacidade. Casais eróticos têm privacidade sexual, um espaço que pertence a cada um. Entendem que o erotismo e o sexo são um lugar para onde você vai sem sua roupa de cidadão responsável, de homem e mulher ‘de bem’. “A privacidade e o tempo que passamos longe um do outro, significam intimidade consigo mesmo, e isso está cada vez mais raro na sociedade ocidental, que vive a valorização da transparência”, conclui Esther Perel.


 (Arte: Soraia Piva / EM / DA Press)

A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins também acredita que boa parte desses conflitos e angústias se devem às mudanças na forma de encarar o mito do amor romântico – que exige a exclusividade (ou monogamia) e prega que as duas pessoas do casal vão se tornar uma só. Elas têm a certeza de que não ficarão mais sozinhas. Todas as expectativas, que antes poderiam ser diluídas entre vários parceiros, concentram-se e um único indivíduo. “O amor romântico, que povoa as mentes desde meados do século XX, cria uma situação muito irreal, e por isso mesmo esse conceito de monogamia está acabando. Cada vez mais pessoas entendem que o amor pode existir – ainda que não haja exclusividade”, afirmou Regina durante a entrevista.


Em 'O Livro do Amor', Regina investiga o passado da concepção de amor e casamento (Arquivo Pessoal)
Em 'O Livro do Amor', Regina investiga o passado da concepção de amor e casamento
É ela mesma que atende ao telefone fixo de seu consultório no Rio de Janeiro, sem intermediários. Uma das estratégias que ela faz para apontar as tendências que identifica na sociedade é justamente falar diretamente com seus leitores, em palestras, no seu blog ou mesmo na rua. A psicanalista já publicou 12 livros, é consultora de programas de televisão e rádio. Em O livro do amor (são dois volumes) ela conta a evolução deste sentimento em sentido histórico, buscando fornecer elementos para entender o que temos no presente.

Do alto dessa experiência, ela acredita que essa idealização do outro – o amor por uma pessoa que nós mesmos inventamos, a nossa alma gêmea – está saindo de cena. “Isso acontece porque há uma crescente busca pela individualidade – que nada tem a ver com o sentido pejorativo do egoísmo”, explica ela, em um de seus pontos de contato com as ideias de Esther Perel. “A grande viagem atual é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber qual é o seu potencial e desenvolvê-lo. E nesse processo não cabem tantas concessões apenas para manter alguém ao seu lado. A busca da individualidade bate de frente com o amor romântico, que prega a fusão dos sujeitos”, define.

Regina também acredita no respeito ao espaço do outro: cada um tem que ter liberdade de ir para onde quiser, ter os amigos que quiser, sem ter sua vida e sexualidade controlados. “Mas somos muito inseguros, a partir do momento em que saímos do útero. Daí procuramos alguém que nos complete, preencha. Mas a única coisa que deveria importar para uma pessoa num relacionamento é se ela se sente amada e desejada, e não com quem o outro está transando”, afirma. É também o que Esther diz: é necessário ter capacidade de manter vida própria, ter atividades separadas, preservar a liberdade.

Para Esther, ter vida própria ajuda a manter a vontade de reconquistar o parceiro diariamente. Já Regina foca em outro aspecto: se no amor romântico só se tem olhos para o ser amado, ele tem que ser exclusivo. Logo, o problema não está na distância, e sim na exclusividade. Regina não acredita nessas mudanças de mentalidade “dentro dos limites do casamento”.

A estudiosa brasileira aponta, sim, uma mudança mais drástica, só que gradual. Menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois e mais gente vai optar por ter relações múltiplas. “O casamento vai mudar muito. Estamos no meio de um processo de mudança de mentalidade - os anseios, o comportamento, os desejos coletivos de cada época”, afirma a psicanalista. Regina lembra que, hoje, as pessoas exigem e valorizam a exclusividade, mas uma grande proporção delas tem casos extraconjugais. “Alguns estudos apontam inclusive que as mulheres transam fora do casamento quase na mesma proporção que os homens e já não sentem tanta culpa”, complementa a escritora.

Para Regina, uma relação extraconjugal não recebe o nome de traição. Trair seria decepcionar gravemente um amigo, um colega ou alguém da família, sem nada ter a ver com exclusividade amorosa e ciúme.

A sociedade somos nós
'A grande viagem hoje é para dentro de si mesmo. Cada um pode escolher seu caminho', diz Regina Navarro Lins (Banco de Imagens / sxc.hu)
'A grande viagem hoje é para dentro de si mesmo. Cada um pode escolher seu caminho', diz Regina Navarro Lins
Ainda há preconceito contra coisas bem consolidadas, como as pessoas divorciadas – principalmente mulheres. Será que nossa sociedade está preparada para esta mudança? Regina ouve muito essa pergunta. “Não tenho a menor dúvida de que isso vai acontecer, mas não será no próximo verão. O processo, muitas vezes, só é percebido depois que é concluído. Se houvesse uma máquina do tempo e pudéssemos ir aos anos 1950 para dizer que em poucas décadas seria natural as moças não casarem virgens e os casais se divorciarem, as pessoas daquela época não iam acreditar. Provavelmente iam querer nos internar em um hospício. Achariam um absurdo. Com a relação pautada pelo amor romântico e pela exclusividade, será a mesma coisa”, pontua a psicanalista.

Para a autora, isso não quer dizer que toda relação monogâmica tradicional esteja fadada ao fracasso. “A grande vantagem do momento em que vivemos é que cada um pode escolher sua forma de viver. O que estou apontando não é a substituição de um modelo por outro”, pondera. “Nós somos afetados por muitos estímulos, o tempo todo. É natural sentir desejo por outras pessoas. Mas você tem a escolha sobre o que vai fazer com este desejo, se vai colocar em prática ou não. Isso depende de como você encara o desejo, o amor e o sexo”, explica a especialista.

Assim como Esther, ela acredita que a dependência do outro – principalmente a dependência emocional, a incapacidade de ficar sozinho – destrói o desejo e o tesão. Elas concordam que há necessidade de uma certa insegurança para manter o desejo do outro. Mas, enquanto Esther coloca que uma terceira pessoa não precisa existir concretamente, Regina não barra essa possibilidade.

A grande dificuldade, segundo a psicanalista brasileira, é que, desde criança, sempre tivemos que nos enquadrar em modelos, anulando nossa singularidade. As mulheres devem ser sensíveis. Os homens devem ser fortes. Todos devem desejar as mesmas coisas. “Os modelos tradicionais não dão respostas satisfatórias para todos. Isso abre espaço para a experiência de novas formas. Se existe desejo por outras coisas e pessoas e você os abandona por medo, está na hora de repensar. Por outro lado, se você não têm essa vontade ou a angústia, a relação com exclusividade poderá atendê-lo”, aponta a autora.

Condicionamento
Para Regina, o coração não precisa ser de um só a cada vez. Daqui a 30, 40 anos, as relações serão, em sua maioria, abertas (Banco de Imagens / sxc.hu)
Para Regina, o coração não precisa ser de um só a cada vez. Daqui a 30, 40 anos, as relações serão, em sua maioria, abertas
Ela destaca, no entanto, que somos condicionados ao relacionamento tradicional desde que nascemos, dificultando o processo de se fazer uma escolha livre. “Quando chegamos à idade adulta, não sabemos mais o que desejamos realmente e o que aprendemos a desejar”, resume a psicanalista. Se ''quem ama, não transa com mais ninguém”, como aprendemos, a descoberta de uma traição vai trazer um sofrimento profundo. A pessoa terá certeza de que não é amada.

Mas Regina enxerga sinais de que isso está mudando. “No meu blog, por exemplo, lancei recentemente a pergunta – você deseja fazer sexo a três? Se, há algumas décadas, o número de respostas afirmativas não passaria de 5% e há dez anos foi de 77%, nesta pesquisa o índice alcançou 85%. Outro exemplo são as casas de swingue, cada vez mais populares. Esses comportamentos desafiam o amor romântico”, explica Regina. “No futuro, meus tataranetos vão pensar: coitadinha da vovó, tinha um único parceiro para tudo”, brinca.

A psicanalista lembra que, em todas as épocas, há comportamentos díspares. “Em qualquer momento, encontramos aberrações. A Comissão de Direitos Humanos não propôs a cura gay?”, exemplifica.

Protagonismo
A boa notícia é que nem todos precisam se enquadrar nos modelos padronizados e repetidos (Banco de Imagens / sxc.hu)
A boa notícia é que nem todos precisam se enquadrar nos modelos padronizados e repetidos
Esse tipo de mudança está nas mãos das mulheres, como muitas revistas femininas sugerem? 'Seduza seu marido' e 'Aprenda 50 novas posições', estampam nas capas. Essa crença pode estar sendo alimentada pelas próprias. “Ainda hoje, encontramos muitas mulheres independentes com a cabeça retrógrada. Tenho amigas intelectualizadas que não aceitam pagar a conta do motel, por exemplo. Por quê? Elas também não foram até lá para ter prazer? Parece que estão voltando à época em que alguma moças se valiam de sua beleza e juventude para trocar sexo por dinheiro e joias”, alfineta Regina.

Para ela, assim como para Esther, a mudança de visão atinge homens e mulheres. “Em breve, as mulheres que acham que o homem deve pagar tudo serão minoria. Mas os homens também têm que se libertar do mito da masculinidade – homem não chora, homem não brocha, homem não tem sensibilidade – isso só traz sofrimento”, define. “Homens que já se libertaram desse ideal de força, sucesso e poder estão muito mais preparados para trocar afeto e ter uma relação sexual em nível de igualdade. O pior homem de cama é o homem machista, que vai para o sexo para provar que é macho reprodutor – está mais preocupado em mostrar suas ‘qualidades’ do que trocar prazer”, diz, taxativa. E completa: “a mulher precisa de mais sangue circulando e tempo para ter um orgasmo”.

Se, para Regina, daqui a 30/40 anos a maioria dos casais vai optar por relações abertas, o conceito de inteligencia erótica – dentro dos limites do casamento, como define Esther Perell – não é o caminho. “Não há inteligência nessa preocupação constante de seduzir o parceiro. Tem uma nova inteligência quem consegue ficar bem sozinho e para de buscar a segurança no outro. É inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de ter alguém”, define.

Em seu consultório, a psicanalista tem visto um número cada vez maior de pessoas descobrindo que essa segurança é ilusória e indo atrás de novas paixões, na medida em que elas aparecem. “A ilusão da segurança pela exclusividade é primária, digna de uma criança de 5 anos. As relações podem ser ótimas, proporcionar um grande aprendizado de como dar e obter prazer. Mas é preciso ter coragem, abandonar o moralismo para fazer essa opção e ser feliz”, conclui a autora, casada pela terceira vez aos 63 anos – em uma relação sem exclusividade -, mãe de dois filhos e avó de uma menina. E que já foi acusada de ser contra o amor.