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sexta-feira, 5 de abril de 2013



Dois anos depois de Fukushima
Um importante ponto de inflexão na história contemporânea do Japão
Pierre Rousset
30.Mar.13 ::
Outros autores
Pierre Rousset
O impacto da tripla tragédia (sismo, tsunami, desastre nuclear) de 11 de Março de 2011 no Japão ainda está em desenvolvimento. Uma novidade importante a
considerar é ter dado ocasião à configuração de dois blocos politicamente opostos. De um lado, o lobby nuclear, as correntes militaristas e em geral a
direita nacionalista. De outro, o movimento antinuclear civil, os últimos sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki, os pacifistas que defendem a Constituição,
a população que luta na ilha de Okinawa contra as bases estado-unidenses, personalidades intelectuais. O ressurgimento das ambições militares e imperialistas
no Japão não é um fenómeno menor. A História nem sempre se repete como farsa. Em muitos casos, repete-se novamente como tragédia.
A tripla catástrofe de 11 de Março de 2011 constituiu um importante ponto de inflexão na história contemporânea do Japão, mas o seu alcance político não
é unívoco. Marcou uma ruptura radical na imagem que muitos japoneses tinham das autoridades e das instituições do seu país e deu lugar a uma revolta cidadã
profundamente progressista. Entretanto, tudo isto se produziu no meio de uma profunda instabilidade da situação geopolítica da Asia oriental: ao sentimento
popular de insegurança acrescentou-se uma grande incerteza sobre a evolução da relação de forças entre as diferentes potências regionais, que suscitou
o renascimento de movimentos militaristas e nacionalistas reaccionários.
O terramoto e o tsunami de 11 de Março de 2011 tiveram fortes implicações sociais e económicas, sobretudo na área directamente afectada, o nordeste do
Japão, onde a maioria da população afectada se encontra impotente e muito dependente. As redes institucionais, sociais e familiares tradicionais romperam-se.



O choque psicológico é profundo, devido à desaparição física de espaços comunitários (povoados, bairros…), à perda de seres queridos, à ausência de informação
fiável, à solidão e ao sentimento de não possuir já nenhum controlo sobre o futuro. Face à enorme impotência administrativa que o Estado demonstrou durante
estes tempos de crise, as organizações militantes regionais (sindicatos, associações…) realizaram um trabalho notável para oferecer os primeiros auxílios
e gerar uma actividade colectiva dirigida aos refugiados. Para a levar a cabo contaram com o apoio de redes nacionais e internacionais, mas os seus recursos
são a todos os títulos limitados face à amplitude da catástrofe. O movimento operário japonês, por seu lado, está demasiado debilitado e burocratizado
para implicar o conjunto do país nos desafios que a catástrofe colocou na agenda.
Neste contexto, e dada a extrema gravidade do acidente na central de Fukushima, a questão nuclear dominou a cena política no período posterior ao 11 de
Março.
O consenso pró-nuclear que existia até então no Japão volatilizou-se. As confissões de personalidades implicadas neste sector económico e a publicação de
documentos inéditos mostraram que esse consenso estava baseado em mentiras, corrupção e na cumplicidade do sector público com o privado; na negação dos
riscos relacionados com a radioactividade e com a possibilidade de graves acidentes. As mentiras continuaram inclusivamente durante e depois da catástrofe,
até ao ponto de que as mães das zonas contaminadas não sabiam que precauções adoptar para proteger os seus filhos (mais sensíveis do que as pessoas adultas
a doses de radiação relativamente baixas). Antes do acidente os colectivos cidadãos contra as centrais tinham, sobretudo, um carácter local. Após o acidente,
o movimento antinuclear adquiriu uma dimensão nacional que, em algumas ocasiões, chegou a mobilizar dezenas de milhares de pessoas, coisa que nunca antes
se tinha visto no arquipélago. Por razões diversas, uma após outra, as centrais nucleares foram parando a sua actividade e em Maio de 2012 não havia nenhuma
em funcionamento. Em Julho, Naoto Kan, Primeiro-ministro na altura da catástrofe, manifestou-se a favor de um Japão sem nuclear.
Em 2012 muitas sondagens outorgavam uma ampla maioria a favor da saída da energia nuclear. Entretanto, em princípios de Fevereiro de 2013, as sondagens
mostraram que 56% eram favoráveis a uma política de relançamento das centrais, tal como apregoa o novo governo de Shinzo Ave. ¿A que se deve esta mudança?



Instabilidade regional e contra-ofensiva nuclear
Após a catástrofe de Fukushima, o lobby nuclear colocou-se na defensiva. A evolução da situação na Asia Oriental proporcionou-lhe a ocasião para retomar
a ofensiva. O lançamento de mísseis norte-coreanos, embora alguns dos quais tenham sido falhados, alimentou o medo face a uma ameaça militar. E, sobretudo,
o conflito de soberania com a China agudizou-se. Tóquio administra as ilhas Senkaku (em japonês) ou Diaku (em chinês). Pequim rejeitou sempre a sua anexação
pelo Japão mas há décadas que os dois governos evitavam fazer desta questão um “ponto quente” nas suas relações.
Os chamados “pontos quentes” territoriais encontravam-se (e encontram-se ainda) mais a Oeste: a China reivindica, com um forte aparato militar, as ilhas
Parecels e Spratley contra o Vietnam, Malásia, Brunei, Filipinas…, mas mantinha-se discreta na delimitação das suas fronteiras marítimas com o Japão.
Em Setembro de 2012, Tóquio abriu a grande caixa de Pandora: o governo “nacionalizou” as ilhas Senkaku, que estavam nas mãos de um proprietário privado.
Pequim reagiu enviando navios e aviões para a zona, e declarando depois que queria cartografar o micro arquipélago… A tensão subiu de tom quando o governo
japonês acusou um vaso de guerra chinês de ter apontado o radar de ataque a um dos seus destroyers.
Isto não quer dizer que nos encaminhemos para uma guerra entre potências, mas sim que estamos perante um conflito territorial activo, que está para durar.
Se o que até agora estava circunscrito ao âmbito diplomático se converte num conflito explosivo, isso deve-se a que cada Estado cobiça as riquezas submarinas
do Mar da China Meridional. E também porque cada um deles tem interesse em alimentar um nacionalismo de grande potência: tanto por razões internas (desviar
a atenção da crise social), como porque as relações de força estão em plena evolução. A China reafirma-se como potencia militar e não quer ver-se bloqueada
por uma “primeira linha de ilhas” que vai desde Senkaku/Diaku até Spratley e Paracels. O Estados Unidos reforçam a presença da VII Frota. Entretanto, Tóquio
não tem assegurado que a protecção de Washington continuará indefinidamente.


Nesse contexto, pela primeira vez se ouvem vozes autorizadas do Japão declarando, de forma mais ou menos explícita, que o arquipélago deveria dotar-se de
armas nucleares. Está a ponto de cair um tabu fundamental deste país que, em 1945, viveu na própria carne os crimes contra a humanidade de Hiroshima e
Nagasaki. Cada vez é mais evocada a supressão do Art.º 9º da pacifista Constituição nipónica que consagra a sua renúncia à guerra. Adoptam-se medidas concretas
(e anunciam-se outras novas) orientadas no sentido de acrescentar o poder militar das “forças de autodefesa”: incremento do orçamento militar, reposicionamento
de caças F-15, colocação em órbita de um satélite óptico de grande precisão, etc.
O lobby nuclear argumenta que quem queira a segurança energética nestes tempos turbulentos deve querer a energia nuclear, para não depender das vias marítimas
de aprovisionamento. E o mesmo para quem quer a bomba: a indústria nuclear “civil” fornecerá os materiais físseis necessários aos militares. Esta campanha
alarmista teve êxito entre a população japonesa.
Confrontada com esta nova situação, a esquerda civil japonesa lançou um apelo a que cada país da região se opusesse ao crescimento dos nacionalismos xenófobos
e militaristas. Denuncia a vontade de recorrer a uma história mitificada para se apropriar de ilhotas desabitadas. Propõe uma gestão compartilhada dos
mares no interesse dos povos e respeitando as exigências ecológicas.
Configuraram-se dois blocos politicamente opostos, o que constitui toda uma novidade. De um lado, o lobby nuclear, as correntes militaristas e em geral
a direita nacionalista. De outro, o movimento antinuclear (civil), os últimos sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki ou quem os representam (os representantes
municipais), os pacifistas que defendem a Constituição, a população que luta na ilha de Okinawa contra as bases estado-unidenses, personalidades como o
premio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe… Todavia, o movimento antinuclear nipónico enfrenta uma situação política difícil para a qual não estava preparado.
A ausência de uma alternativa política à esquerda, a rejeição da energia nuclear após Fukushima, foi capitalizada no terreno eleitoral pelos partidos de
centro-direita, que rapidamente caíram em desgraça pela sua incompetência. Consolidam-se novas formações políticas populistas de direita radical, primeiro
na região de Osaka e depois em Tóquio. De momento, quem reconquistou o poder, com Shinzo Abe, foi o Partido Liberal Democrata, partido maioritário do pós-guerra.
Beneficiou da abstenção dos sectores desencantados da população, de uma bem embrulhada reputação de bom gestor, e de diferir para depois da campanha eleitoral
as más notícias, como a assinatura do Tratado transpacífico de Livre Comércio, cujos efeitos sociais serão desastrosos.
Internacionalização do movimento antinuclear
Não existe possibilidade de que a central de Fukushima regresse à normalidade. A crise nuclear está para durar.
O movimento cidadão do arquipélago continua lutando dia a dia: piquetes frente à sede de Tepco (o operador de Fukushima), denúncias das vítimas, oposição
à reabertura das centrais… Em Novembro passado, o Japão acolheu a segunda conferência internacional para um mundo livre de nucleares. Teceram-se nele estreitos
vínculos entre as lutas que se desenvolvem em diversos países da região, como na Coreia do Sur ou na India. Pela primeira vez, o Fórum Popular Asia-Europa
aprovou uma declaração a favor do abandono da energia nuclear. E para Março de 2013 estão convocadas numerosas mobilizações em torno do segundo aniversário
da catástrofe.
A onda de choque de Fukushima continua a ampliar-se.
comidas06_zpsc640fd4e.jpgGrátis
Moinhos Abertos 2013
Dias 6 e 7 de abril, 222 moinhos de Portugal convidam todos os interessados a conhecer de perto estes gigantes movidos a vento, de rodízio ou de maré que pontuam as nossas paisagens. Esta iniciativa anual realiza-se desde 2007. 
Alojamento em moinhos
Aqui já não se faz farinha
 
Céu Coutinho
 
 
2013-04-03
dossie06_zpsdd62012c.jpgDossiê
Alojamento em moinhos
Abrigos adaptados, reconvertidos das suas funções originais que se transformam em acolhedores refúgios, capazes de inspirar romance, aventura, mistério. Em cenários bucólicos ou um pouco agrestes, à beira rio, no vale ou na montanha, rústicos ou modernos.
gratis06_zpse764da10.jpgDossiê
Moinhos de Maré
Os estuários do Tejo e do Sado guardam alguns dos melhores exemplares, e praticamente os únicos, dos moinhos de maré em Portugal. Há vários anos desativados, estes engenhos permanecem hoje como memória de uma atividade desaparecida.
experiencias06_zps53f75240.jpgSub 12
Indo eu, indo eu a caminho do moinho
A cidade de Estarreja desafia a celebrar o Dia Nacional dos Moinhos com umpasseio de bicicleta por três moinhos do concelho. Pelo caminho pode ficar a descobrir como funcionam e o que faz um moleiro, mas a parte mais saborosa está guardada para o fim.


MARINHO PINTO PARTE A LOUÇA MAIS UMA VEZ

MUITO SÉRIO E GRAVE. 

É preciso que a mensagem passe, contra os privilégios absurdos de alguns, que se estão nas tintas para a Crise (dos outros)...

António Marinho e Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados: Austeridade e privilégios, no Jornal de Notícias. Excertos:

«[...] O primeiro-ministro, se ainda possui alguma réstia de dignidade e de moralidade, tem de explicar por que é que os magistrados continuam a não pagar impostos sobre uma parte significativa das suas retribuições; tem de explicar por que é que recebem mais de sete mil euros por ano como subsídio de habitação; tem de explicar por que é que essa remuneração está isenta de tributação, sobretudo quando o Governo aumenta asfixiantemente os impostos sobre o trabalho e se propõe cortar mais de mil milhões de euros nos apoios sociais, nomeadamente no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nos cheques-dentista para crianças e — pasme-se — no complemento solidário para idosos, ou seja, para aquelas pessoas que já não podem deslocar-se, alimentar-se nem fazer a sua higiene pessoal.

O primeiro-ministro terá também de explicar ao país por que é que os juízes e os procuradores do STJ, do STA, do Tribunal Constitucional e do Tribunal de Contas, além de todas aquelas regalias, ainda têm o privilégio de receber ajudas de custas (de montante igual ao recebido pelos membros do Governo) por cada dia em que vão aos respetivos tribunais, ou seja, aos seus locais de trabalho.

Se o não fizer, ficaremos todos, legitimamente, a suspeitar que o primeiro-ministro só mantém esses privilégios com o fito de, com eles, tentar comprar indulgências judiciais.»
"A vida corre atrás de nós para nos roubar aquilo que em cada dia temos menos."

HUMOR-MAIS UMA VEZ O BURRO GASPAR FOI CHUMBADO

PRESIDENTE DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL DIZ QUE HÁ NESTE GOVERNO UM VÍCIO DE INCONSTITUCIONALIDADE

LUIZ PACHECO, "O MEU 25 DE ABRIL"


*


Este texto foi escrito originalmente a 30 de Maio de 1974 e fazia parte de um diário que Luiz Pacheco começou a escrever em 1971 e que em breve será publicado pela Dom Quixote (com o títuloDiário Remendado e fixação de texto e posfácio do João Pedro George). Por decisão do próprio Luiz Pacheco, este “O Meu 25 de Abril” acabou por ser excluído da edição final. É assim no contexto de uma escrita diarística, ao correr dos dias e sem grande apuro estilístico, que este documento deve ser lido. Luiz Pacheco vivia então em Massamá e estava em casa a rever as provas do Pacheco versus Cesariny (editorial Estampa, 22 de Maio de 1974). “De repente chateei-me, não tinha telefonia, não tinha televisão, não tinha nada, chateei-me de rever provas e digo «vou ali beber uma cerveja». Enfiei o sobretudo por cima do pijama, um sobretudo que me tinha sido dado pelo Alfredo Machado, o terceiro marido da Natália Correia. Quando venho de beber a cerveja o barbeiro diz-me «ó senhor Pacheco, olhe que há revolução em Lisboa»”.

O MEU 25 DE ABRIL

Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: “então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar...” Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves. Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa. Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Paços, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado. Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado). Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Paços, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará. Na Carlos Mardel, uma senhora num 1º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. Começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer. E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e sossegar a mulher (?), diz que não há azar). Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor no Diário de Lisboa ou no Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Da janela da Redacção daRepública, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: “estás muito bonito hoje!”, eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: “como é que se entra para aí?”, porque a porta da escada da República está fechada. “Vai pelas traseiras!”. Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última da República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover. Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da São. Pela TV vi depois o resto. Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco

Não sei brincar
Peixe em Lisboa
Em Lisboa já se pode experimentar
criações com peixe de dez restaurantes
Por volta das 20h30 de ontem, o Pátio da Galé já estava a ficar animado com dezenas de pessoas que chegavam para experimentar as diferentes especialidades que os chefs e restaurantes preparam para o Peixe em Lisboa, que está a decorrer até dia 14. 


Há propostas para os mais diversos gostos, desde propostas de sushi, a ostras, passando por interpretações modernas de pratos tradicionais, e muito saborosas.
José Avillez, Paulo Morais, Vítor Sobral, Fausto Airoldi eram nomes que se podiam ver ontem na abertura do Peixe em Lisboa, a apresentarem as suas especialidades aos visitantes.
Se de um lado estão os restaurantes e é possível apreciar a confecção de alguns dos pratos, e depois saboreá-los num espaço que este ano a organização aumentou, com vista a receber mais visitantes, do outro lado está o mercado gourmet com a sua diversificada oferta.
Produtos típicos, como enchidos, doces, compotas, vinhos, até chás, gelados, e peixe fresco podem ser encontrados no mercado gourmet, juntamente com materiais de cozinha.
O stand do peixe fresco estava particularmente animado, quando recebeu o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, com um refrão especialmente preparado para ele.
“Lisboa tem como marca ser a capital atlântica da Europa e por isso a associação ao peixe e o peixe como base da nossa gastronomia é importante para dar esta dimensão e é uma forma de valorizarmos a nossa gastronomia e os nossos chefs”, disse ontem aos jornalistas o presidente da Câmara.
“Uma das grandes mais-valias que temos que é este estuário e o estarmos aqui nas portas do Atlântico. Por isso [o Peixe em Lisboa] já hoje faz parte da agenda da cidade, começou passo a passo, tem sido bem enraizado, tem sido um caso de sucesso todos os anos e vai ser outra vez certamente, este ano aqui no Pátio da Galé”.
O Peixe em Lisboa decorre até 14 de Abril. As degustações são de cinco e oito euros, podendo também apresentar preços de 13 euros. À entrada, por 15 euros, oferece-se um copo, uma bebida de 1,5 euros e uma degustação de 5 euros e dentro do recinto é possível adquirir mais bebidas e degustações.

Clique para ler: Peixe em Lisboa 2013 tem "sangue na guelra". No Pátio da Galé de 4 a 14 de Abril

Para saber mais sobre o “Peixe em Lisboa”, clique aqui

Clique para ver mais: Peixe em Lisboa

OS REACCIONÁRIOS - MEDÍOCRES E PERIGOSOS


Medíocres e perigosos    

Perfil do cidadão comum

             


Por 

Matheus Pichonelli

O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas só têm utilidade para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.
Para ele, tudo o que é diferente tem potencial de destruição
Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete à sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.
A maioria passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – e cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Outros cresceram em meios menos abastados – e bastou angariar postos na escala social para cuspir nos hábitos de colegas de velhos andares. Quem não chegou aonde chegou – sozinho, frise-se – não merece respeito.
Rico, ex-pobre ou falidos, não importa: o reacionário clássico enxerga em tudo o que é diferente um potencial de destruição. Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar seus direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar familiares e ameaçar os seus (porque os seus nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso).
Como não conhece o mundo afora, a não ser pelas viagens programadas em pacotes que garantem o translado até o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).
Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.
Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.
Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo fazia sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo lugar na fila do fast food.
O reacionário vive com medo. Mas não é inofensivo. Foto: Galeria de GorillaSushi/Flickr
Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (“descontrolada!”) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedoon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.
E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.
Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado rico tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos que a massa que agora agora quer construir casas em seu bairro, frequentar os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).
Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.
Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os maconheiros que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, os sem-terra que não querem trabalhar, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola e combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende o conceito de família. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita
O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem.
Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.
Quando as queixas não são mais suficientes, eles juntam as suas solidões e ódio à coletividade (ironia) e passam a se interessar por política. Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Seus representantes, sabendo como agradar à plateia, são eleitos como guardiões da moralidade. Sobem a tribunas para condenar a devassidão, o aborto, a bebida alcoolica, a vida ao ar livre, as roupas nas escolas. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.
Mas, quando o reacionário se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, bota para fora sua paranóia e pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático). E se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes e latinos, na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades (leia mais AQUI).
O reacionário, no fim, não é patrimônio nacional: é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.

Blog do Carlos Maia

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Alqueva, 4 de abril de 2013. (Fotos: Nuno Veiga/Lusa)

O CORVO - FAMOSO POEMA DE ALAN POE E A SUA MISTERIOSA MORTE


O CORVO

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

trad. Machado de Assis - 1883
Edgar Allan Poe


A misteriosa morte de Edgar Allan Poe




Dizem que a obra do grande artista mistura-se com a sua vida, e vice-versa. Com Edgar Allan Poe esta máxima aplica-se perfeitamente. Apesar de ter escrito para as massas, como forma de ganhar a vida, ficou conhecido por produzir obras cheias de morte, medo e dor. Influenciou artistas como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Franz Kafka, e outros.

Nascido em Boston, no dia 19 de janeiro de 1809, ficou órfão aos 2 anos. Apesar de algum reconhecimento, foi um completo fracasso em vida como homem e artista.

Em 1835, casou-se com sua prima, Virginia Clemm. Para muitos, o grande amor de sua vida. Em meio à grandes dificuldades econômicas, mudou-se constantemente de cidade, sempre com empregos mal remunerados. No ano de 1845, publicou sua obra mais famosa, O Corvo. Mas ele mesmo, certa vez, havia dito que a maldição era um cão negro seguindo a sua vida, pois em 1847 sua amada Virginia tossiu sangue pela primeira vez.

Era o fantasma da tuberculose pairando sobre a sua felicidade. Nos meses seguintes, ela havia apresentado melhoras. Esperança que serviu apenas para acentuar a dor vindoura. Já que no fim daquele mesmo ano, as tosses com sangue voltaram mais intensas, junto com o fogo da febre. Ela viria a morrer pouco tempo depois, em presença do poeta que assistia a tudo impotente. A partir daí, mergulhou numa existência cada vez mais sombria.

Os dois últimos anos de sua vida estão encobertos por uma névoa de mistério. Mas sabe-se que planejava-se casar novamente em 1849. Com esse propósito, ele viajou para Baltimore no dia 27 de setembro de 1849. Depois de jantar com amigos, partiu às 4 horas da manhã, já que planejava uma viajem rápida. Nunca chegou ao seu destino.

Em 03 de outubro de 1849 Edgar Allan Poe foi encontrado em estado de delírio, com roupas que não eram as suas, caído nas calçadas da cidade, por um homem que escreveu para um amigo dele. Na carta, ele diz que encontrou um mendigo que responde por Allan Poe e alega conhecer o destinatário da carta. Pede desesperadamente a presença do mesmo, pois o estado de saúde dele era grave. Esse amigo o havia levado à um hospital, no qual a faleceria em 07 de outubro de 1849. (07 de outubro é a data de aniversário desse humilde e atormentado blogueiro, que adora coincidências).

Durante os 4 dias de internação, Edgar Allan Poe não conseguiu pronunciar um discurso coerente sobre o que havia lhe ocorrido. Chama constantemente por alguém com o nome de Reynolds. Suas últimas palavras foram: “Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe”.

A causa da morte nunca foi precisamente apurada. Nem quem era o homem chamado Reynalds.