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domingo, 17 de março de 2013



O bom caminho



Enquanto passeava pela oferta info-recreativa da internet, pensando sobre o que escrever neste sábado, o electrodoméstico falante, por detrás de mim, ia debitando notícias e comentários sobre os vergonhosos números do vergonhoso falhanço deste vergonhoso “governo” de bandidos. Todas as previsões falharam! – dizia uma voz, dramaticamente, nas minhas costas.
Enquanto estava, tremendamente abalado, a tentar absorver esta informação tão surpreendente quanto inédita neste governo e neste ministro das Finanças, dei de caras com as boas notícias.
1. O PSD está muito feliz com o facto de a troika nos ter dado mais um ano... porque, dizem, «o programa de assistência económica e financeira a Portugal estava mal desenhado». É sempre bom saber que o viveiro de candidatos a maus-palhaços-maus está a transbordar abundantemente...
2. A troika diz que Portugal está no «bom caminho e a exceder as espectativas». Pudera!!!...
Assim de repente, estes são os únicos que estão a “ser sinceros”. Na verdade eles acham mesmo que este é o bom caminho, já que o plano que têm para Portugal é o do empobrecimento do país e dos portugueses, pela baixa de salários e toda a sorte de cortes sociais, garantidos pela pressão de um desemprego gigantesco. Essa é a garantia de poderem carrear milhões para os seus bancos e para os bolsos do capital selvagem.
De facto, isto não lhes podia estar a correr melhor!


O futuro da crise é a crise do futuro

Para o sociólogo Immanuel Wallerstein, o capitalismo está condenado porque é rejeitado pelas vítimas do capitalismo mas também pelos próprios capitalistas. A saída para a crise não está para breve, argumenta. É preciso procurar uma alternativa política para criar um novo "sistema-mundo". Mas não se sabe qual é
Mundialização ou globalização são palavras que dominam o discurso contemporâneo sobre o estado do mundo. Nenhuma delas vai ser pronunciada pelo homem de óculos e cabelos brancos que se senta à minha frente numa sala do Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral (CIDAC). Está uma manhã fria de sol em Lisboa e Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano de 86 anos, recebe a Revista2para uma conversa sobre a crise, o futuro da crise e as alternativas políticas ao estado de crise, no dia seguinte à conferência que fizera na Fundação Gulbenkian.

Pensador influenciado pelo marxismo, pelo historiador francês Fernand Braudel e pela escola dos Anais, pelo pensamento de Karl Polanyi, mas também por Freud e Schumpeter, Wallerstein vem da sociologia, mas defende que é impossível separar as ciências sociais da história, como afirma no texto O Desenvolvimento de Uma Postura Intelectual, publicado em 2000. Natural de Nova Iorque, formado na Universidade de Columbia, publicou em 1974The Modern World-System [O Sistema-Mundo Moderno], a primeira de uma série de obras dedicadas à teoria do sistema-mundo, o seu contributo mais original para o pensamento contemporâneo.

Mundialização ou globalização são conceitos pouco significativos para o nosso interlocutor, mas é portanto do mundo, da história do mundo e de para onde vai o mundo que vamos falar durante uma hora. Wallerstein construiu a teoria do sistema-mundo, que define os processos históricos como fenómenos transnacionais onde estados nucleares controlam os estados semiperiféricos e periféricos. Para ele, estamos a viver a crise do sistema-mundo capitalista que nasceu no século XV e está a acabar. E se vai acabar é porque as pessoas estão fartas dele. Incluindo os capitalistas.

"O sistema vai desmoronar-se não apenas porque as pessoas que são oprimidas não gostam dele mas porque os capitalistas sentem que já não podem lucrar muito com ele. Se um sistema que existe para acumular capital já não permite acumular capital, qual é o ponto? É esta combinação dos capitalistas que já não gostam do capitalismo e dos grupos populares que já não gostam do capitalismo que está a fazer isto tudo abanar imenso", afirma.

Portanto, esqueçam os amanhãs que cantam do crescimento, da austeridade ou de um mundo globalizado sob o signo do livre comércio. Para Immanuel Wallertstein, nada disso faz sentido. "Nunca existiu um mercado livre em lado nenhum", tinha disparado na véspera, perante a audiência que enchia o auditório 2 da Gulbenkian, onde decorreu a conferência organizada pelo CIDAC, em meados de Fevereiro. Para ele, estamos perante uma crise estrutural do sistema-mundo capitalista e o regresso a um ciclo de crescimento como o do pós-guerra está fora de questão.

Pode-se estar politicamente longe ou perto das ideias de Immanuel Wallerstein, mas as perguntas às quais ele tenta responder são universais. Que mundo está à nossa espera no futuro e que respostas políticas existem para o resolver. Pensador cujo percurso intelectual foi muito influenciado pelo Maio de 68 - que define como "uma revolução mundial que aconteceu em todos os mundos, o primeiro, o segundo e o terceiro" -, Wallerstein tem seguido os movimentos de protesto, dos mexicanos de Chiapas ao Fórum Social de Porto Alegre, aos Indignados espanhóis, ao Occupy anglo-saxónico ou aos grupos de jovens que lançaram a Primavera Árabe. Considera que todos eles foram beber ao "espírito antiautoritário de 68".

E a Primavera Árabe, no fim de contas, no que é que vai dar? Saudada no Ocidente como um exemplo de coragem, a revolta dos que pediram a democracia na Tunísia ou no Egipto e não tiveram receio de enfrentar as balas, a mudança no mundo árabe é agora descrita no tom menos eufórico dos que temem o avanço do Islão radical.

Para o nosso interlocutor, o dilema é mais simples. "Os jovens que começaram a Primavera Árabe foram relativamente bem-sucedidos ao deporem autocratas venais, na Tunísia e no Egipto, mas depois o exército e a Irmandade Muçulmana tentaram dominá-los juntando-se a eles."

O que daqui resulta é um confronto esquerda-direita, onde uma direita moderada está sob ameaça de uma direita radical, como acontece na Europa. "A Irmandade Muçulmana, de um modo geral, dá origem a partidos conservadores, do ponto de vista social, económico e geopolítico. Querem boas relações com o Ocidente e abrir os seus mercados. Pode-se pensar neles como algo não muito diferente dos partidos democratas-cristãos na Europa. Tal como os partidos políticos europeus, estes partidos enfrentam grandes dificuldades com a economia e o desemprego. E há um partido à direita deles, um partido de extrema-direita, como os salafistas, que estão a crescer e os partidosmainstream de centro-direita estão divididos quanto à forma de lidar com isto. A situação não está estável e não vai estabilizar", defende.

Mantenhamos o foco na rua que se manifesta - em Lisboa, Atenas, no Cairo ou numa remota cidade chinesa - onde, diz Wallerstein, as vítimas do capitalismo estão a revoltar-se contra um sistema que os próprios capitalistas querem destruir. Quem vai chegar primeiro? Ou, dito de outra maneira, quem vai definir qual será a alternativa a este sistema capitalista em vias de extinção?

"Esses movimentos têm muitos temas comuns, mas um dos problemas é que estão todos separados e falam pouco uns com os outros. O Fórum Social Mundial vai ter a sua próxima reunião em Tunis no fim de Março e há muitos grupos novos que não estavam lá há 12 anos, quando tudo começou. Esse fórum continuará a existir? Surgirão outros tipos de estrutura? Individualmente, estes movimentos concentram-se em primeiro lugar no curto prazo. Isso não é só uma virtude, é uma necessidade. Mas para mudar alguma coisa é preciso ter uma visão a dez, 20 anos", diz à Revista 2.

Encontrar a saída para a crise do capitalismo é, para Immanuel Wallerstein, o combate político mais importante do nosso tempo. Mas, para o sociólogo, os movimentos populares de protesto que combatem a austeridade na Europa, as autocracias no mundo árabe ou os baixos salários na China não têm essa resposta. Na verdade, ninguém tem.

"Digo muitas vezes que se um conjunto de pessoas estivessem a conversar no século XV e uma delas dissesse que o sistema feudal medieval está esgotado e há duas alternativas, uma das quais é o sistema capitalista, quem nessa sala cheia de pessoas inteligentes imaginaria a complexidade das estruturas que iriam ser construídas nos cinco séculos seguintes? Digo o mesmo hoje. Não posso especificar mais do que o impulso de um novo sistema. Construir as fronteiras desse futuro demora tempo e ninguém poderia imaginá-lo em detalhe", explica-nos.

Para Wallerstein, o sistema-mundo capitalista nasceu no século XV e os descobrimentos portugueses e espanhóis foram uma das primeiras etapas da construção desse sistema. Mas o sociólogo não reconhece o estatuto de potência hegemónica a nenhuma das nações ibéricas que foram actores do início da expansão do capitalismo. Esse papel de potências hegemónicas coube à Holanda, à Inglaterra e aos Estados Unidos. Cada um deles consolidou a sua posição após o que o investigador designa como guerras de 30 anos. Primeiro, a guerra com esse nome, no século XVII, na qual os holandeses se impuseram aos espanhóis. No século XVIII, os ingleses derrotaram os franceses na luta pela supremacia global. Na primeira metade do século XX, outra guerra dos 30 anos - para Wallerstein, o conjunto dos conflitos de 1914-18 e de 1939-45, que liga como um só - opôs a Alemanha aos Estados Unidos.

O autor de Decline of American Power: The US in a Chaotic World [O Declínio do Poder Americano: os EUA Num Mundo Caótico] discorda da teoria segundo a qual os Estados Unidos se tornaram uma hiperpotência hegemónica após o colapso da União Soviética, em 1991. Na sua leitura do século XX, como explicou na conferência na Gulbenkian, os acordos de Ialta, em 1945 no final da II Guerra Mundial, são uma partição do mundo entre americanos e soviéticos, em termos largamente favoráveis aos primeiros e aceite por ambos.

A luta entre os sistemas capitalista e socialista que se seguiu foi, segundo Wallerstein, "um falso conflito ideológico", que serviu a Washington e a Moscovo para manterem os seus aliados sob controlo. Com o declínio americano, a passagem a uma situação em que deixou de existir uma potência hegemónica - "o mundo é cada vez menos o problema dos Estados Unidos", afirma Wallerstein - e a crise financeira, entrámos num período de colapso do "sistema mundo-capitalista", que se prolongará durante várias décadas, defende.

O problema é ao mesmo tempo geopolítico e financeiro. O envolvimento militar no Iraque e no Afeganistão enfraqueceu a imagem global da superpotência. "O uso da força militar é negativo para a potência hegemónica", defende Wallerstein. Enquanto fica por utilizar, o poder dessa força permanece em aberto e o seu valor de dissuasão é maior. As duas guerras lançadas por George W. Bush no Médio Oriente, após o 11 de Setembro, mostraram os limites do uso da força, mesmo tratando-se da maior potência militar do mundo. Foi fácil ocupar pela força o Iraque ou o Afeganistão, mas não estabilizar esses territórios. Essa fragilidade reflecte-se na hesitação em avançar na Síria ou no facto de os Estados Unidos terem ficado de fora das intervenções na Líbia ou no Mali.

"Podemos ver toda a gente a hesitar dentro e fora da Síria, tanto ao nível dos países vizinhos como das grandes potências. Leio debates a favor do Exército Livre da Síria e outros a dizer o contrário, que isso é abrir a porta à Al-Qaeda ou ajudar os americanos a espremer o Irão. No Bahrein, na Síria, no Egipto, no Mali, as questões não são fáceis", afirma o sociólogo. "O mundo já não simpatiza muito com estas intervenções que já não são muito populares. Há uma guerra civil horrorosa a acontecer e ninguém vai enviar tropas e muito poucos estão a enviar armas. Talvez o Qatar. Todos estão assustados, sobretudo os sauditas, com a possibilidade de um grupo pró-Al-Qaeda assumir o controlo. O inimigo número 1 da Al-Qaeda é o regime saudita", afirma.

Num primeiro momento, Immanuel Wallerstein escreveu um texto crítico sobre a intervenção militar francesa no Mali, mas na conversa com a Revista 2, ocorrida em meados de Fevereiro, antes da conquista das cidades ocupadas pelos rebeldes islamistas, admitiu que a decisão do Presidente francês, François Hollande, era justificada. "Havia um problema imediato: os grupos salafistas ameaçavam ocupar a capital, Bamako, e controlar o Estado. Era agora ou nunca e ele decidiu avançar. Talvez isso tenha feito sentido. O que não faz sentido é ficar indefinidamente. É mais fácil entrar num país do que sair de lá. Vai ser muito difícil sair do Mali e não se sabe se os franceses querem sair."

O mundo, entretanto, tornou-se multipolar. Mas Immanuel Wallerstein está convencido de que o crescimento dos países emergentes, como a China, a Índia ou o Brasil, tem limites. Antes de começar a escrever sobre a história global do capitalismo, estudou intensamente a evolução do continente africano na transição para o pós-colonialismo. Visitou o continente pela primeira vez nos anos 1950 e começou a compreender aí a mudança que iria conduzir ao movimento dos países não-alinhados do então chamado Terceiro Mundo. "Nessa altura, tive o instinto de que a coisa mais importante que estava a acontecer no século XX era a luta para acabar com o controlo pelo mundo ocidental do resto do mundo", escreveu em O Desenvolvimento de Uma Postura Intelectual. No entanto, Wallerstein não encontra uma continuidade entre as nações terceiro-mundistas que se organizaram contra a hegemonia dos blocos capitalista e soviético e a actual ascensão económica das potências emergentes, como a China ou a Índia, num sistema que tem sido dominado pelos países ocidentais.

"As dificuldades económicas que a Europa ocidental e os Estados Unidos estão a enfrentar são normais; estão em declínio e outros povos, que têm vantagens económicas, como Brasil, a China ou a Índia, tiram partido da situação e apresentam boas taxas de crescimento", explica Immanuel Wallerstein.

E o sociólogo acrescenta: "Num sentido imediato, taxas de crescimento elevadas não são um fenómeno invulgar e não costumam durar muito tempo. Um dos problemas que estamos a enfrentar a nível mundial é a ausência crescente de procura efectiva. Isso é um problema para um país como a China, e a sua taxa de crescimento continua a ser melhor do que a dos países ocidentais, mas está a cair radicalmente nos últimos dois ou três anos."

O futuro da crise, portanto, é a crise do futuro. Um horizonte de incerteza no qual é possível esperar por realinhamentos geoestratégicos e pelo arrefecimento global da economia. "A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas e selvagens de tudo - dos mercados, das alianças geopolíticas, da estabilidade das fronteiras dos Estados, do emprego, da dívida, dos impostos. A incerteza, mesmo no curto prazo, torna-se crónica. E a incerteza tende a congelar as decisões económicas, o que torna tudo pior", escreveu em Janeiro deste ano num dos comentários que publica regularmente na imprensa internacional, intitulado Global Turmoil in the Middle Run [O Tumulto Global a Meio Caminho].

Na conversa com a 2, Immanuel Wallerstein discorre sobre o que aconteceria se o dólar perdesse o seu papel no sistema financeiro internacional, que ainda é um dos grandes trunfos geoestratégicos dos Estados Unidos. "Ficaríamos numa situação pior porque nada vai substituir o dólar e teremos cinco ou seis moedas fortes e isso congela o investidor; se o investidor não investe, as coisas pioram. Isso é o que tem acontecido nos últimos anos e não vejo razão por que isso não continue assim. Esta grande incerteza é uma incerteza de longo prazo que se torna uma incerteza de curto prazo sobre a geopolítica. Será que daqui a um ano a Rússia se vai questionar sobre se é mais importante ser amiga da China, da União Europeia ou dos Estados Unidos?"

Wallerstein prevê um realinhamento das alianças internacionais, nomeadamente uma aproximação entre a Rússia e a UE e uma confederação asiática ligando a China, a Coreia reunificada e o Japão, com uma ligação forte aos Estados Unidos. O cenário de uma guerra entre Pequim e Washington não encaixa nas suas previsões. Nem o de uma guerra em larga escala entre Estados como consequência da crise. Como tendências de futuro, antecipa sim o aumento da proliferação de armas nucleares, do proteccionismo económico e das crises ecológicas.

"As pequenas guerras nunca desaparecem. Uma grande guerra não é plausível, mas não é impossível. Mas vai haver proliferação nuclear, isso para mim é muito claro. Para mim, não é muito importante que haja cinco, dez, 20 ou 30 potências nucleares. As armas nucleares são basicamente defensivas. Mas há a possibilidade de a Al-Qaeda ter acesso a armas de destruição maciça. Ou de um país que tenha essas armas não ser capaz de as proteger. O cenário de uma guerra não me preocupa muito. Preocupa-me mais a destruição ecológica ou as pandemias. Seria preciso um outro tipo de sistema-mundo para os enfrentar e talvez não possamos esperar", afirma.

Precisaríamos de um governo mundial, que pudesse tomar decisões sobre questões como o aquecimento global, as pandemias, o terrorismo, a proliferação nuclear? O novo sistema-mundo que sucederá ao sistema capitalista contemplaria instituições globais?

"Está a perguntar se devíamos ter um governo mundial? Provavelmente, mas de novo hesito. A pergunta mais interessante é saber se teremos estados como os que existem hoje. Os estados tal como existem não são eternos, surgiram com a economia capitalista e são estruturas peculiares que teoricamente são soberanas, convocam a lealdade emocional dos seus habitantes. Em 2100 ou 2200, esses estados existirão sequer? É uma pergunta aberta, saber que estruturas políticas, locais, regionais e mundiais existirão."

Para Wallerstein, as pressões secessionistas no espaço europeu são um sintoma dessa desagregação dos Estados que antevê. "Hoje ninguém consegue imaginar não ser um cidadão de um estado mas também é verdade que estão a desmoronar-se e a desmoronar-se mais depressa do que pensávamos. Veja o que está a acontecer na Catalunha, na Escócia ou na Padania [designação que agrupa as zonas mais ricas do Norte de Itália]."

A questão em aberto é a de saber, afinal de contas, que tipo de sistema político sucederá àquele em que vivemos. E com essa pergunta voltamos ao início da conversa. Ao ponto em que as pessoas reagem na rua contra um sistema que consideram injusto por causa de políticas para as quais alegadamente não há alternativas. Sendo que quem contesta não consegue encontrar uma resposta credível em termos de governação.

Wallerstein olha para a crise do sistema-mundo capitalista como tendo duas saídas possíveis: "Há duas alternativas, às quais dou nomes. Uma não é capitalista na sua estrutura, não se baseia na acumulação de capital através do mercado, mas partilharia algumas características do sistema capitalista, como a exploração e a polarização. E poderia, do ponto de vista de muitas pessoas, ser pior do que o sistema capitalista. É uma alternativa. A outra é um sistema relativamente democrático e igualitário que, sublinho, nunca existiu, mas pode existir."

Mas como seria, então, esse outro sistema-mundo do futuro que o sociólogo imagina? "É muito difícil especificar quais seriam as estruturas organizacionais destes dois sistemas. Mas seria um sistema relativamente desmercantilizado, relativamente democrático e relativamente igualitário, onde toda a gente tem uma palavra a dizer e os direitos das minorias são respeitados. Digo sempre "relativamente", porque não acredito em sistemas perfeitos. Podemos imaginar possibilidades mas hesitaria em ir além disso, em dizer como é que o mundo seria em 2150 ou em 2200."

Por Miguel Gaspar

ESPECTACULAR, NÃO PERCA ! - PENSO NÃO EXISTIR NA NET UMA POSTAGEM TÃO EXAUSTIVA E COMPLETA DE TODA A VIDA DO CANTOR DE INTERVENÇÃO JOSÉ MÁRIO BRANCO - A SUA VIDA TIM TIM POR TIM TIM, A JUVENTUDE, A PRISÃO, A EMIGRAÇÃO, A LUTA POLÍTICA E TODAS AS SUAS OBRAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO

ESSA COISA É QUE É LINDA




 Entrevista a José Mário Branco
(Braga, Abril 2011 - Foto de psombra.blogspot)


Entrevista a José Mário Branco


O cantautor José Mário Branco afirma que o país “está mal”, mas lembra que há uma grande parte da população portuguesa e mundial que está sempre em crise. “Crise é a vida toda deles”, lamenta.

Nesta entrevista conduzida pelo jornalista António Jorge, José Mário Branco descreve-se como “uma pessoa otimista e confiante no ser humano, apesar de todos os horrores que se veem no dia-a-dia”. “Esta ideia está ligada ao compromisso ativo com a sociedade a que pertenço”, acrescenta.

Quase 30 anos depois de feito a música FMI, editada em 1982 numa referência à intervenção em Portugal do Fundo Monetário Internacional, José Mário Branco confessa que a composição “foi um processo muito íntimo”. “É um texto catártico e que foi exposto em palco de uma maneira um pouco brutal, porque eu sabia que era um problema de toda uma geração”, recorda. Numa altura em que o FMI está de novo em Portugal, o músico recusa fazer uma ligação entre o seu tema e a instituição em si. (In, Antena Um)



José Mário Branco - O Canto da Inquietação

1  -   José Mário Branco

Hoje, decorridos (mais de) trinta anos, podemos ver que as ideias que defendia não só se mantêm válidas, como se impuseram e foram determinantes para a evolução subsequente da nossa canção popular.
Ao longo de (mais de) trinta anos de carreira, um princípio fundamental norteou sempre as posições de José Mário Branco: a defesa intransigente da música portuguesa. Por isso, não aceita a sua descaracterização, o que, considera, constituiria uma ameaça para a sua existência. Mas, ao mesmo tempo, não assume essa defesa de uma forma fundamentalista porque, e para além da música portuguesa, ama a música: do passado, do presente, do norte ou do sul.

(Revista Flama Maio de 1974, em estcazero.blogspot)

Foi assim que fez a sua música e é assim que a continua a fazer. Com os olhos nas tradições portuguesas, mas aberto a todas as influências que considera boas e benéficas, venham donde vierem. E quando faz a sua música, não está preocupado com as raízes que estão por trás, basta-lhe gostar. Porque o seu portuguesismo é uma característica que não corre o mínimo risco de perder. 



 2  -   A Música e o Humanismo
José Mário Monteiro Guedes Branco, de 19 anos de idade, frequenta-o 1° ano de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Gozava as férias da Páscoa na cidade natal. No dia 28 de Abril desse ano de 1962, a campainha da porta de casa da sua mãe tocou bastante cedo. Aquela hora ninguém toca à porta de ninguém! Eram sete da manhã e ele ainda dormia profundamente. A mãe acordou-o para lhe dizer (que estavam ali dois "senhores" que queriam falar com ele. Acto contínuo, dois pides irromperam no quarto. Um deles, num tom ameaçador, depois de confirmar o nome completo, gritou: «Considere-se preso. Polícia Internacional e de Defesa do Estado». Enquanto isso, o outro começou a revistar o seu casaco de antílope pendurado por perto, intimando-o a entregar a pistola. Num primeiro momento, sentado na beira da cama e ainda atordoado de sono, desatou a rir. (Sabia lá o que era uma pistola!) Só que a situação não era mesmo para brincadeiras. Seguiu-se a busca à casa e, caricatamente, o único material clandestino que encontraram pertencia à sua mãe: era uma cópia da célebre carta do bispo do Porto ao ditador Salazar. Os "Avantes", esses estavam bem escondidos debaixo da banheira e aí ficaram por encontrar. 

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Um ano antes tinha aderido ao Partido Comunista Português. Já em Coimbra, fora encarregado de organizar uma célula comunista de estudantes liceais.
Foi levado primeiramente para Coimbra, cidade a que dizia respeito o processo em que estava envolvido e, no dia seguinte, para a sede nacional da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Estavam lá todos os seus camaradas da organização de Coimbra, denunciados pelo responsável daquela organização, militante que muito admiravam. Não só os traiu como se passou para o outro lado, com direito à máxima protecção, incluindo operação plástica e deslocação para Moçambique.

O pai de José Mário Branco 
O pai de José Mário Branco

No dia seguinte à prisão, o seu pai, António Branco, foi à delegação da PIDE no Porto para falar com o inspector que o tinha prendido. Era um prestigiado professor do ensino primário, autor de livros escolares, que, até aí, nunca tinha assumido nenhuma posição de carácter político.
Quando o inspector apareceu, pegajoso e rastejante, com a conversa habitual dos pides de que o filho nem era mau rapaz, mas que se tinha metido com más companhias, o velho professor, alto e imponente, interrompeu-o com uma calma assustadora: não era disso que queria falar porque conhecia o filho melhor que ninguém; só queria dizer-lhe que, por contingências da vida, nunca tinha pegado numa arma. Fora seminarista e, por via disso, não fizera tropa. Mas, mesmo assim, a partir daquele momento, se lhe metessem uma arma nas mãos e lhe dissessem que estavam pides ao lado, ele atiraria a matar. Era só disso que queria avisá-los. O outro ainda tentou pendurar-se em cima da sua temível autoridade. Pediu-lhe que se acalmasse. Dentro do seu poder discricionário, iria fazer de conta que não tinha ouvido as suas palavras. Mas o velho professor não se deixou intimidar. Antes de sair, protestou a sua calma e aconselhou-o a não se esquecer daquela conversa. 

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Pouco depois do nascimento de José Mário Branco: a primeira visita dos irmãos
Pouco depois do nascimento de José Mário Branco: a primeira visita dos irmãos


José Mário Branco, terceiro filho de António Cândido Guedes Branco e de Sara de Jesus Quadrado Monteiro, um casal de professores do ensino primário, nasceu na Ordem da Trindade em 25 de Maio de 1942, em pleno coração da cidade do Porto.
O pai era o mais velho de três filhos de Umbelino Branco, republicano e ateu, e de Maria Emília Guedes, professora do ensino primário profundamente beata que aspirava a que os seus filhos-homens fossem estudar para padres, o que, na época, era bastante comum. Aliás, em Portugal, até meados deste século, o ingresso no seminário era uma forma de as classes mais pobres garantirem uma formação superior gratuita para os seus filhos e de assim ascenderem socialmente.
Os desejos da avó de José Mário Branco eram evidentemente contrariados pelo marido, o que provocava sucessivos conflitos que acabaram por ter um desenlace trágico. Umbelino Branco resistiu sempre à ideia mas, depois de tanta insistência, acabou por aceder e levou o seu filho mais velho, então com nove anos de idade, para um seminário franciscano em Tuy. Só que a situação foi-lhe tão insuportável que, no regresso, deu um tiro na cabeça.
Apesar da sua pouca idade, António Branco teve plena consciência do que se passou e jurou a si próprio que faria o curso do seminário até ao fim e o abandonaria na véspera das ordens. Cumpriu religiosamente o juramento. Aos vinte e três anos, depois de ter passado catorze anos no seminário, na véspera do dia em que o bispo o iria ordenar padre, fez literalmente a trouxa e veio-se embora, tornando-se depois professor do ensino primário.
Quando José Mário Branco nasceu, os pais viviam em Matosinhos onde ambos leccionavam. Um ano e meio mais tarde, foram colocados em Leça da Palmeira, onde passaram a morar. Foi aí que passou a sua infância até completar o primeiro ano do liceu. Frequentou a escola primária local, situada nas proximidades da praia, que ainda hoje existe. Nunca foi aluno dos pais. Depois de concluir a quarta classe foi estudar para o Liceu de D. Manuel II, actual Escola Secundária de Rodrigues de Freitas, na cidade do Porto, que era o estabelecimento de ensino secundário mais próximo. Tal como já acontecera com os seus irmãos mais velhos, tinha que fazer, duas vezes por dia, uma viagem de eléctrico que demorava cerca de uma hora. 
Liceu de D. Manuel II

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  Na época, Leça da Palmeira era um meio pequeno e pobre, uma aldeia de pescadores, periférica, com meia dúzia de famílias abastadas, tradicionais naquela zona. José Mário Branco privou aí com a pobreza dos seus amigos, filhos de pescadores, e com os dramas quotidianos das suas famílias. À noite, em sua casa, ouvia os gritos das mulheres dos pescadores, na praia, assistindo, impotentes, à morte dos seus familiares no mar. Essas imagens, que viriam a ser determinantes para a sua evolução na adolescência, marcaram-no tão profundamente que ainda hoje tem pesadelos povoados por esses gritos.
Pela função social que desempenhavam, os pais eram pessoas prestigiadas e influentes no meio, embora os professores primários fossem então muito mal remunerados. Apesar do nível médio de satisfação das necessidades básicas, a família vivia com as limitações dos tostões contados, mas sem as enormes dificuldades da maioria dos moradores da zona, famílias de pescadores, essas sim, condenadas a uma vida duríssima de trabalho e de miséria.
O pai estudara música no seminário, uma paixão que lhe ficou para toda a vida. Manteve uma actividade musical regular e chegou a ser regente de um grupo coral de Gondomar e de um outro de professores primários do Porto.
Por via da sua formação, teve a preocupação de garantir aos filhos uma educação musical, ao mesmo tempo que os entusiasmava a acompanhá-lo aos concertos que se realizavam na cidade do Porto e de que era um frequentador assíduo. Em casa cultivavam-se hábitos musicais. Os três miúdos ensaiavam modinhas populares a três vozes que frequentemente apresentavam às visitas da casa.
Apesar das dificuldades económicas da família que, por exemplo, não permitiam comprar os brinquedos que os filhos viam nos seus vizinhos mais ricos, todos eles aprenderam a tocar piano. Em Leça havia uma família Howell, cuja filha, Theodora, dava lições desse instrumento: António Jorge, hoje um destacado jornalista, ainda teve um certo percurso na juventude como pianista; Maria Virgínia, já falecida, enfermeira de profissão, rapidamente desistiu do instrumento. 

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José Mário Branco com a mãe
José Mário Branco com a mãe

Foi também com essa professora que José Mário Branco começou a aprender piano, embora algo contrariado porque a sua paixão, desde muito pequeno, era tocar violino. Viria a ter mais tarde essa oportunidade, por sinal nada bem sucedida. Quando entrou para o primeiro ano do liceu, a sua madrinha, uma viúva abastada, deu-lhe um violino e ofereceu-se para lhe pagar lições daquele instrumento. Durante um ano frequentou o Conservatório de Música do Porto e, durante um ano, o seu professor ensinou-lhe a posição correcta de segurar o violino e de colocar o arco nas cordas, sem permissão para tocar uma única nota. O resultado de tão "brilhante" método pedagógico não podia ser outro: o abandono que, além disso, iria ditar uma interrupção de cerca de cinco anos na sua formação musical.
A partir do segundo ano do liceu, José Mário Branco passou a viver no Porto com a sua família. Por essa altura, por influência de um tio paterno que era padre franciscano, entrou para a JEC (Juventude Estudantil Católica), de que chegou a ser dirigente diocesano.
Esse seu tio, Frei Mário Branco, era um homem culto e brilhante, um comunicador cativante que tinha uma grande influência sobre toda a família. Foi devido à sua intervenção persistente que os pais foram adiando a separação que mais tarde se concretizou. Essa situação não foi benéfica para ninguém e muito menos para os filhos, que cresceram num ambiente traumatizante de pais separados que viviam na mesma casa.
José Mário Branco sente que, na adolescência, o seu grande envolvimento com a cultura, com a arte e também com a religião tem algo que ver com uma fuga dessa realidade que lhe era muito pesada. Em todo o caso, tinha uma grande sede de humanidade e de justiça e o fascínio que sentia pelo tio levou-o, a certa altura, a descobrir um apelo místico, um apelo pela transcendência. Queria ser padre para lutar contra a pobreza. 

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 José Mário Branco com a avó materna e os irmãos
José Mário Branco com a avó materna e os irmãos

Em 1958, quando frequentava o sexto ano do liceu, matriculou-se na escola Parnaso, retomando a sua formação musical. Fundada pelo músico e pedagogo Fernando Correia de Oliveira, a escola Parnaso era então um estabelecimento de ensino musical e artístico que tinha adoptado métodos absolutamente revolucionários para a época, voltados para uma aprendizagem eminentemente prática. Assim que um aluno entrava para a escola, davam-lhe um instrumento para a mão e punham-no a tocar com os outros. Em geral era um instrumento simples de percussão, uma pandeireta, um triângulo ou umas castanholas.
Durante dois anos, José Mário Branco estudou piano, percussão, solfejo, análise, orquestração e etnomusicologia. Apesar de a ter frequentado durante um período relativamente curto, foi esta escola que lhe estimulou a paixão pela música. A experiência aí adquirida foi determinante para a formação do seu gosto musical e para as opções artísticas que viria mais tarde a assumir.
Particularmente importantes para a sua formação musical foram as aulas de etnomusicologia, a cargo de Luís Monteiro, então funcionário responsável pelo arquivo discográfico da delegação do Porto da Emissora Nacional e possuidor, já na altura, de uma das discotecas particulares de música etnográfica mais ricas na Península Ibérica. Para além do profundo conhecimento que tinha deste género de música, Luís Monteiro era também um divulgador entusiasta das novas correntes da música ocidental. Foi por seu intermédio que José Mário Branco ouviu pela primeira vez obras de Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, Arnold Schoenberg, Anton Webern e de outros compositores contemporâneos.
No âmbito das actividades circum-escolares da Parnaso, José Mário Branco, Jorge Constante Pereira e a irmã deste, Nina, enquanto alunos daquela escola, foram convidados para realizar um programa semanal de divulgação musical na ORSEC, uma das emissoras associadas que integrava os Emissores do Norte Reunidos. O indicativo era o célebre Concerto em fá, de George Gershwin, e competia à equipa seleccionar a música, fazer os textos de apoio e apresentar o programa.
Tendo-se destacado pelas suas qualidades de apresentador, José Mário Branco foi convidado para trabalhar naquela rádio a tempo inteiro, o que acabou por constituir o seu primeiro emprego remunerado. Competia-lhe assegurar um dos períodos de emissão, fazendo aquilo que hoje se designa "animação de cabine". O seu colega do outro turno era Humberto Branco, que veio a ser director do Rádio Clube Português, estação antecessora da actual Rádio Comercial. 



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Fernando Lopes-Graça, grande influência na música de Zé Mário Branco
Fernando Lopes-Graça, grande influência na música de Zé Mário Branco 
No dia em que começou a trabalhar, do outro lado do vidro, na assistência técnica e também acabado de entrar para a rádio, estava, nem mais nem menos, José Manuel Fortes, um dos técnicos de som actualmente mais prestigiados do nosso país, que depois viria a gravar muitos dos seus discos. Mais tarde, no início de 1962, quando foi estudar para Coimbra, convidou para o substituir Rui Lima Jorge, um experiente locutor que integra os actuais quadros da RDP (Radiodifusão Portuguesa).
Católico convicto e praticante, José Mário Branco apoiou e envolveu-se activamente na campanha do general Humberto Delgado nas eleições de 1958. Foi então que despertou verdadeiramente a sua consciência anti-fascista, ao mesmo tempo que começou a ter grandes dúvidas em relação ao papel da Igreja Católica na sociedade.
Em 1959 ingressou no Curso de Economia da Universidade do Porto nessa qualidade passou brevemente pela JUC (Juventude Universitária Católica). Por esta altura ainda participou em retiros espirituais. Porém, o curso não o interessou e voltou ao liceu para fazer Português, Latim e Grego, três disciplinas do 7° ano que lhe permitiriam ingressar no curso de História da Universidade de Coimbra. Oscar Lopes, de cujo filho era amigo, foi então seu explicador de Português e de Grego.
Em 1960 começou a namorar com Isabel Alves Costa, com quem viria a casar. Nesse mesmo ano, decorreu em Berlim o Congresso das Juventudes Musicais, onde foi interpretada a IX Sinfonia, de Beethoven, por uma orquestra e um coro internacionais. José Mário Branco era sócio da Juventude Musical do Porto, assíduo frequentador dos concertos promovidos por essa instituição. Foi integrado na representação portuguesa ao referido congresso, como segundo tenor, tendo passado um mês na Alemanha para participar nos ensaios.
A partir dos conhecimentos travados no liceu e na Parnaso, formou-se um vasto círculo de amigos que desenvolveu uma intensa actividade cultural. Jorge Constante Pereira, a irmã, Nina Constante Pereira, Alexandre Alves Costa, António Reis, Alice Ribeiro dos Santos, Beatriz Madureira, Ricardo Sousa Lima, Luísa Cerveira Pinto, Margarida Losa, filha de Ilse Losa, e Sérgio Lopes, filho de Óscar Lopes, são alguns dos amigos que partilharam consigo as aventuras vividas neste período, muito ligadas à música e à poesia.
O grupo fazia sessões de poesia em casa de pessoas amigas e chegou mesmo a fazer uma sessão pública na Casa dos Jornalistas, no Porto. Juntamente com algumas destas pessoas, José Mário Branco colaborava em suplementos juvenis, primeiro do Diário de Lisboa e, depois, do República, onde publicaram poemas e contos.
A música era o outro grande interesse deste grupo. Juntavam-se onde houvesse um piano, em casa de Constante Pereira ou de Ricardo Sousa Lima, e cantavam de tudo um pouco, desde as canções de Pat Boone que estavam na moda, até às Canções Heróicas, de Fernando Lopes Graça, e temas do folclore. Constante Pereira, que tocava piano, Joaquim Machado, vocalista, e José Mário Branco, que tocava uma espécie de bateria de latas, formaram mesmo um grupo, os Faithful Boys, que chegou a actuar na piscina de Espinho. 

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(foto de A Capital)
Todas estas actividades tinham um objectivo meramente lúdico, desinteressadamente cultural, sem quaisquer pretensões de profissionalização. Nessa altura José Mário Branco ainda não compunha.
Em 1961, ano em que voltou ao liceu com o objectivo de mudar de curso, apareceu um grupo de Lisboa a propor que organizassem o movimento associativo nos liceus, à semelhança do que estava a fazer-se na capital. Desse grupo, já organizados no Partido Comunista, faziam parte Rui d’Espinay, Manuel José Claro, Carlos Miredores, Zita Seabra e Ruben de Carvalho. Foi a partir daí que, juntamente com os seus amigos Amílcar Ribeiro e Eduardo Fins do Lago, José Mário Branco se tornou membro do Partido Comunista Português, com o pseudónimo de "Bento". Sob a (mesma bandeira da luta contra a pobreza, passou naturalmente da Acção Católica para o partido, sem o mínimo conflito interior. A partir de então, a política passou a sobrepor-se à cultura, o que iria determinar um novo interregno na sua actividade musical.
Na Páscoa desse ano, provavelmente pouco tempo depois de ter sido Inventado para o Partido Comunista, foi passar as férias a Peroguarda, uma pequena aldeia do Baixo Alentejo, no distrito de Beja, juntamente com um Igrnpo de amigos de que faziam parte Alexandre e Isabel Alves Costa, Jorge Constante Pereira e Margarida Losa. Foi uma experiência inesquecível pela dimensão individual e social das pessoas que aí conheceram, quase todas comunistas.
No ano anterior, Alexandre Alves Costa e o fotógrafo Luís Ferreira Alves tinham passado por lá e foram presos pela PIDE por engano, que os confundiu com militantes do Partido Comunista. Face ao acontecido, os habitantes da aldeia reuniram-se para tentarem descobrir quem, de entre eles, os poderia ter denunciado. Analisaram em pormenor e sem contemplações cada uma das pessoas da aldeia e chegaram à conclusão de que não podia ter sido nenhum deles. Provavelmente, foi o seu aspecto que chamou a atenção.
Desta vez, para não correrem o risco de serem presos por engano, lassaram primeiramente por Beja e comunicaram à PIDE que iam deslocar-se àquela aldeia porque estavam interessados em estudar os seus costumes e os seus cantares.
Foi uma experiência que os marcou de uma forma profunda, particularmente o facto de terem conhecido o pastor e poeta popular António Joaquim Lança, analfabeto, que recitava de memória os seus inúmeros poemas. José Mário Branco musicou mais tarde um poema seu, de que resultou a canção «A morte nunca existiu», incluída no álbum Margem de Certa Maneira, de 1972. 



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Coimbra - Associação Académica
Coimbra - Associação Académica 
Em Novembro de 1961, integrado na representação oficial da pró-associação dos liceus, participou nas comemorações da Tomada da Bastilha, na Universidade de Coimbra, onde ingressou no início de 1962. Ficou alojado na República dos Kágados, por coincidência, no quarto e na cama que tinham pertencido a José Afonso, até ao ano anterior. Como militante do PCP, a sua tarefa consistia em organizar uma célula comunista no meio liceal.
A sua passagem por Coimbra, extremamente curta e atribulada, acabou precisamente com a sua prisão em 28 de Abril de 1962. Ainda assim, permitiu-lhe uma fugaz participação no CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), o que constituiu a sua primeira experiência na área do teatro, e na Via Latina, o jornal da Associação Académica. Era então presidente do CITAC Mário Brochado Coelho, director artístico Luís de Lima e actores, entre outros, Hélder Costa e António Barreto. Naquele momento o grupo estava a montar Tartufo, de Molière, mas José Mário Branco não chegou a representar.
Apesar de curta, foi uma época vertiginosa de acontecimentos que ficou conhecida como “A Crise Académica de 62”.
No dia 9 de Março, apesar da proibição expressa do governo de Salazar, inicia-se na Academia de Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes, em que José Mário Branco participa na qualidade de observador. Em finais desse mês, com uma mala cheia de "Avantes", está em Lisboa numa concentração de estudantes na Cidade Universitária. Protestavam contra a proibição das comemorações do Dia Nacional do Estudante, que deveriam realizar-se de 23 a 25 de Março. A polícia de choque "encontra-se" por duas vezes com os estudantes, no Estádio Universitário e no Campo Grande. A manifestação é violentamente reprimida.



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Em Esposende, em 1960, com Isabel Alves Costa
Em Esposende, em 1960, com Isabel Alves Costa

Seguiu-se a "caça ao comunista", sistemática, e no dia 28 de Abril de 1962, quase com vinte anos, foi preso pela PIDE na sequência do seu envolvimento na crise académica, por pertencer ao PCP e por ser responsável, com outros companheiros, pela criação das associações de estudantes liceais.
Quando saiu da prisão em 29 de Setembro, cinco meses depois, a mãe teve que ir buscá-lo a Lisboa e regressaram ao Porto de avião. Foi a sua estreia naquele meio de transporte.
Entretanto tinha sido inaugurada a Faculdade de Letras do Porto e José Mário Branco inscreveu-se no Curso de História. Foi aí que aconteceu um episódio que lhe fez despertar pela primeira vez a intenção de fugir do país.
O seu professor da cadeira de Pré-História pediu aos alunos que elaborassem um trabalho sobre um tema livre. Como sempre gostou de aplicar as outras ciências à História, resolveu apresentar um trabalho sobre a origem da vida e a evolução das espécies. Dadas as suas raízes católicas e influenciado pelas teses de Teilhard de Chardin, estava longe de imaginar que o seu ensaio pudesse ser considerado "subversivo". Deu-o a ler a alguns dos seus colegas, entre os quais um tal padre Cândido que ameaçou queixar-se se apresentasse o trabalho. Percebeu então que não tinha nada a fazer em Portugal.
Apurado para o serviço militar obrigatório, o seu destino próximo era inevitavelmente a guerra colonial. À semelhança das posições que o Partido Comunista Francês adoptou em relação à guerra da Argélia, o PCP defendia que os seus militantes deviam embarcar para as colónias para fazerem trabalho político junto dos nossos soldados. Essa era uma opção impensável para José Mário Branco que, para além de entender que era nina tarefa inviável, dada a situação de guerra, jamais poderia encarar a hipótese de se confrontar de arma na mão com os guerrilheiros dos movimentos de libertação. O único caminho era mesmo desertar, ainda que à revelia do partido. Foi Eurico de Figueiredo que lhe comunicou que não poderia contar com nenhum apoio do partido na fuga. Ainda assim, alguém, talvez o próprio Eurico de Figueiredo, deu-lhe um papel com a morada em Paris, de Carlos Procópio que, embora não pertencesse ao partido, tinha já auxiliado outros desertores.
Pela frente tinha agora o caminho que escolhera sem nenhuma hesitação: a recusa do cumprimento do serviço militar; a recusa de participação numa guerra de opressão fascista e colonialista contra os povos africanos. 

 12   "Não à Guerra Colonial" - O Exílio

O Exílio
De tempos a tempos, os governos fascistas de Portugal e de Espanha resolviam dar um bodo aos pobres: por um dia abriam as fronteiras e os cidadãos de ambos os países podiam movimentar-se de um lado para outro exibindo apenas o bilhete de identidade. Numa altura em que os engarrafamentos de trânsito não eram assim tão comuns, em Valença, formavam-se filas infindáveis de carros de portugueses que queriam aproveitar a oportunidade para fazerem compras em Vigo.
O feriado de 10 de Junho de 1963 foi um desses dias. Pouco tempo antes, uma prima de Isabel Alves Costa (Ana Maria Vieira Pinto) e o marido (Joaquim Alves da Costa) preparavam, para esse dia, uma viagem a Vigo bom a avó (Felisbina Vieira Pinto — a Avó Bina, também avó de Isabel) e uma filha ainda bebé. José Mário Branco "aproveitou" para ir com eles.
Foram numa Renault 4L. Passaram a fronteira sem quaisquer problemas. José Mário levava a bebé (a Marta) no seu colo.
Quase ninguém conhecia as suas intenções, nem mesmo os seus pais ou a sua namorada. As únicas pessoas que sabiam que ia aproveitar aquela oportunidade para fugir eram dois amigos, Amílcar Ribeiro e Hernâni Resende, que lhe emprestaram um conto de reis cada um.
Num restaurante em Vigo, depois do almoço, chamou ao lado o amigo para lhe dizer que tinha que ir a Madrid resolver um problema. Pediu-lhe que regressassem sem ele e que avisassem a família e a Isabel de que voltaria mais tarde.
Estava agora entregue a si próprio. Meteu-se num táxi e foi para o aeroporto. Tinha um pequeno saco de ginástica com um pijama, uma camisola, umas cuecas, umas meias e um livro: Poesia III, de José Gomes Ferreira. Nos sapatos, o dinheiro e o papel com a morada de Carlos Procópio. E um passaporte, tirado em 1959, quando foi a Paris com os pais de Jorge Constante Pereira. A dias de caducar.
No aeroporto de Vigo, quando se preparava para embarcar, foi interpelado por um agente à paisana da polícia política espanhola. Queria saber o que ia fazer a Madrid. Notou que o passaporte estava prestes a perder a validade e pediu-lhe a licença militar, que sabia ser necessária para um homem em idade de cumprir o serviço militar poder sair de Portugal. José Mário Branco disse-lhe que um amigo lha tinha levado por engano e que ia a Madrid precisamente para se encontrar com essa pessoa. O polícia fingiu que acreditou, não sem que antes o tivesse revistado demoradamente, verificando o saco peça por peça, e o livro página por página.
A viagem foi penosa. Assava com um calor infernal e o avião, já muito velho, batia por todos os lados, parecia que estava a cair aos bocados.
Quando chegou a Madrid foi imediatamente para a Estação Central para apanhar o Sud Express. Teve que esperar largas horas pelo comboio e o episódio do aeroporto deixara-o intranquilo: via polícias em todo o lado. Estava completamente "em baixo". Depois, correu tudo bem e entrou em França sem nenhum problema. Finalmente, o passaporte tinha servido para alguma coisa. 



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Em Paris, com Isabel Alves Costa e os filhos
Em Paris, com Isabel Alves Costa e os filhos 
Chegou a Paris sem nenhum apoio do partido. Apenas um papel no bolso com um endereço: "Rue Vieille du Temple", 114, rés-do-chão. Procurou aquela morada, mas na casa ninguém atendeu. A cena repetiu-se durante três dias e, durante esses três dias, dormiu encostado em cafés ou  debaixo das pontes do Sena, alimentando-se apenas com pão e leite. Carlos Procópio tinha-se ausentado para Inglaterra e só mais tarde acabou por conhecê-lo.
Foi então que, num café, encontrou um angolano que tinha debaixo do braço um livro de Basil Davidson sobre Amílcar Cabral e a guerra da Guiné. Esse foi o pretexto para meter conversa. Depois contou-lhe a sua história e Mário Clinton, assim se chamava, resolveu ajudá-lo. Levou-o a uma residência de estudantes protestantes onde ficou instalado.
Começou a parar no Café do Luxemburgo, onde se reuniam habitualmente Fernando Echevarria, António José Saraiva, Manuel Lucena, entre outros, mas nunca teve coragem de os abordar, com medo de ser tomado por provocador. Mais tarde veio a conhecer e a privar com esse grupo.
Passados alguns dias, no Boulevard St. Michel, por uma incrível coincidência, encontrou dois dos seus melhores amigos do PCP em Portugal: Rui d‘Espinay e Manuel José Claro. Tinham também acabado de fugir de Portugal e ficaram instalados no mesmo lar de estudantes.
Entretanto, conseguiu legalizar a sua situação em França e arranjou emprego, como operário, numa empresa de metais preciosos. Não desempenhou essas tarefas por muito tempo porque a sua facilidade para línguas permitiu-lhe uma rápida promoção no departamento de importações e importações da empresa. Só depois é que foi integrado no sector do partido em Paris.
No Verão de 1963, Isabel Alves Costa, quase a completar dezassete anos, foi fazer um campo de férias em Paris e resolveu ficar lá com o namorado. Escreveu aos pais uma carta sem remetente, explicando que já era crescida e que ia ficar em França a viver com o José Mário Branco. Sem saberem onde procurar, os pais foram para Paris e encontraram-na casualmente no Quartier Latin, no circuito habitual dos portugueses. Demonstrando um grande espírito de compreensão, quiseram discutir o assunto com eles e foi por todos tomada a decisão de que a Isabel regressaria a Portugal, far-se-ia um casamento, por procuração, para voltar de para Paris, o que aconteceu em Outubro do mesmo ano. 

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Em Paris com Isabel Alves Costa, Dinis Jacinto e a esposa
Em Paris com Isabel Alves Costa, Dinis Jacinto e a esposa 
Paris não foi "pêra doce" para o casal. Viveram sempre com grandes dificuldades económicas, embora a sua vida tivesse melhorado um pouco nos últimos anos. Os que, como eles, avançaram na primeira vaga de emigração por deserção da guerra colonial confrontaram-se com uma dificuldade suplementar: uma terrível sensação de isolamento e de falta de apoio uma vez que, nessa altura, não existia uma comunidade instalada de portugueses.
Foi em França que nasceram os dois filhos do casal: Pedro, nascido em 10 de Julho de 1965, é professor do ensino básico e músico amador, toca viola, piano e compõe canções infantis; João, nascido em 1 de Julho de 1968, é director artístico e encenador no Centro Cultural Português do Mindelo, em Cabo Verde.
Em Janeiro de 1964, Francisco Martins Rodrigues, membro do secretariado do Comité Central do PCP, rompeu com o partido, abandonou a Checoslováquia, onde se encontrava, e fundou a FAP (Frente de Acção Popular), de orientação maoísta. Foi para Paris e esteve uns meses escondido na casa de José Mário Branco. Sem nunca lhe ter posto a vista em cima, Isabel Alves Costa deixava-lhe um prato de comida à porta do quarto para o recolher vazio na manhã do dia seguinte.
Em Abril é criado o CMLP (Comité Marxista-Leninista Português), cujos dirigentes se contavam entre os melhores amigos de José Mário Branco. Proibido de conviver com esses antigos membros do partido, acaba também ele por abandonar o PCP. Rendido aos argumentos políticos do maoísmo, integra o núcleo fundador daquela organização.
Ainda nesse ano reencontrou a música, mas com carácter esporádico. Aconteceu na sequência de uma visita do CITAC a Paris, num convívio após um espectáculo, junto ao Sena. O Adriano Correia de Oliveira começou a cantar, o José Mário Branco foi atrás. O Adriano gostou. 
 Adriano Correia de Oliveira
Mas foi no ano seguinte que verdadeiramente começou a sua carreira musical. O núcleo dirigente do CMLP tinha entrado clandestinamente em Portugal para aqui desenvolver a sua actividade política. Denunciados pelo PCP no Avante, foram todos presos, nomeadamente Francisco Martins Rodrigues, Rui D'Éspinay e João Pulido Valente. Face às dissidências que ocorreram a seguir no interior da FAP, José Mário Branco abandonou a organização.
Por essa altura, um primo da sua mulher deixou uma velha viola em Paris. Foi nessa viola, meio partida e enferrujada, que começou a tirar acordes de ouvido, tentando descobrir coisas novas. Surgiu então a vontade de compor. 

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Em Paris com Jorge Constante Pereira e Isabel Alves Costa
Em Paris com Jorge Constante Pereira e Isabel Alves Costa 
As suas primeiras canções foram escritas em francês e falavam do seu quotidiano em França, das pessoas comuns que têm de trabalhar duramente para sobreviverem. A partir do momento em que passou a ter um repertório que lhe permitia actuar individualmente com a viola, pôs-se à disposição do movimento associativo, começou a ser conhecido e solicitado para actuar em festas e em sessões para os trabalhadores.
Entre os inúmeros espectáculos que fez em França e noutros países Europeus, conta-se uma participação acidentada na festa anual de L’Humanité, órgão do Partido Comunista Francês. Actuou num dos palcos secundários da festa, enquanto no palco principal actuava a "vedeta" Regina, que tinha apoiado a recandidatura de Charles De Gaulle à presidência da república e participado na campanha da sua reeleição em 1965. Este facto provocou um sentimento de revolta em alguns sectores público. José Mário Branco cantou então o seu «Tango de c' côté-ci», em que questionava a justeza da acção política da esquerda francesa. Quando agradecia os aplausos, sentiu a cadeira a ser levantada do chão. Dois "gorilas", um de cada lado, retiraram-no do palco e foi expulso da festa. 
Tango de c' côté-ci 
(música e letra de José Mário Branco) 
On parle trop de l'Amérique
Pour aiguiser not' sens critique
On engueule les yanquees
Bien gentilment, mais à Paris
Je parle trop de l'Amérique
Dans mes chansons démagogiques
Regarde plutôt de c' côté-ci
Et tu pigeras ce que j' te dis
C' n'est pas la peine de t'acharner sur ces pauv' gars
Si tu n’ vois pas
Que la carotte et le bâton, ça marche aussi chez toi
Si tu dis merde à leur démocratie
Regarde aussi de c' côté-ci
C'est plutôt nécessaire d'aller au fond des choses
Combattre les effets, c'est bien, mais faut détruire les causes
Est-ce que tu piges ce que j' te dis
Regarde plutôt de c' côté-ci
Comme on n' sait pas pour quoi se battre
Le Vietnam est notre spectacle
C'est une paille dans oeil du voisin
Alors qu'on a une poutre dans l' sien
Ils tuent plein d' monde avec leurs flingues
Alors on fait beaucoup d' métingues
Et tant que l' Vietnam s'ra dans l' coup
Y a pas d' révolution chez nous
On a trop de laïus, on fait trop de parlottes inoffensives
Bien qu' l'Histoire nous enseigne que Ia saleté se lessive
Chez nous, c'est les vacances et les chevaux
Pendant qu'on s' laisse m'ner en bateau
On n'est pas bête et pourtant on s' laisse souvent reprendre au piège
Mais comme dit not' Père Fidel Castro (que Dieu l' protége!)
Le vrai révolutionnaire n'est pas celui qui n' sait qu' dire non
Le vrai révolutionnaire est c'lui qui fait la révolution
Pas c'lui qui dit
Pas c'lui qui parle
Mais c'lui qui fait la révolution
Pas c'lui qui crie
Pas c'lui qui gueule
Mais c'lui qui fait la révolution
Pour de bon 

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[Iluminura+de+um+cancioneiro+medieval+representando+trovadores..JPG]
Entretanto a leitura do Cancioneiro Galaico-Português impressionou-o vivamente ao ponto de querer musicar alguns dos poemas. Escreveu então nas primeiras composições em português — as Cantigas de amigo — sobre textos retirados daquele livro. Da música portuguesa, as suas referências assumidas eram Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti e José Afonso.
Também em 1965 foi co-fundador do grupo amador de teatro, Teatro da Liga, com o qual montou três peças. No final de 1967, conheceu Sérgio Godinho.
Quando o "Maio de 68" rebentou, estava completamente afastado da política organizada. Gostava de ser útil aos partidos e associações de esquerda, mas tinha uma dinâmica criativa pessoal independente. Cantou em escolas e faculdades em polvorosa, em fábricas ocupadas e em estações. 

De comboio e de metro. Com Sérgio Godinho, Luís Cília e Tino Flores participou em grupos organizados que andavam a cantar em apoio do movimento grevista. Foi nessa altura que conheceu Jean Sommer.
Uma das acções políticas em que participou, e que mais celeuma provocou, foi a ocupação do Centro Cultural Português em Paris, propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian,  em que  foi sequestrado Veríssimo Serrão, presidente daquela instituição entre 1967 e 1972.
Quando acabou a confusão, a polícia foi atrás dos agitadores e José Mário Branco só escapou porque o patrão da empresa em que trabalhava fez o favor de lhe passar folhas de salário referentes a todo esse tempo, como se nunca tivesse faltado ao emprego. Contudo, no rescaldo da crise, alguns portugueses, entre os quais Manuel Areias e José Barrias, tiveram problemas com a polícia e foram obrigados a fugir para Itália.
Foi por esta altura que a sua carreira artística arrancou verdadeira mente. Em Genève, na Galerie Aurora, ele e Sérgio Godinho receberam o primeiro "cachet" por um espectáculo. Fundou com outros artistas o Grupo Organon, um projecto cultural profissional. Foi convidado por James Ollivier para dirigir e fazer as orquestrações e os arranjos de quatro temas do álbum que este cantor editou em 1968. Na mesma ocasião, e no mesmo estúdio, gravou uma maqueta com as Seis Cantigas De Amigo. 

Essa gravação foi enviada para Fernando Lopes Graça que, depois de a ouvir, deu o seu aval para a publicação pelos Arquivos Sonoros Portugueses, dirigidos pelo próprio Lopes-Graça e por Michel Giacometti. Não sem que antes tivesse escrito ao autor dando-lhe conta da crítica que fizera àquele material. O disco foi gravado em Paris, com grandes limitações (numa garagem com um gravador Revox de duas pistas), de que resultaram grandes e naturais deficiências técnicas. 

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Em Paris, com José Afonso, aquando da gravação do álbum Cantigas do Maio
Em Paris, com José Afonso, aquando da gravação do álbum Cantigas do Maio 
Existem algumas dúvidas relativamente ao ano de publicação das Seis Cantigas De Amigo, bem como ao "single" Ronda do Soldadinho / Mãos ao Ar, a que se atribui, respectivamente, os anos de 1967 e 1969, quando, de facto, são de 1969 e 1970. Com efeito, numa entrevista concedida ao Comércio do Funchal e publicada nas edições de 29 de Março e 5 de Abril de 1970, José Mário Branco afirma claramente que o primeiro disco foi posto à venda em Outubro do ano anterior, subentendendo-se igualmente que, nesse momento, o segundo estava pronto mas não tinha sido ainda editado. Por outro lado, num artigo de Jorge Massada sobre a nova música popular portuguesa, publicado no Notícias da Amadora de 5 de Dezembro de 1970, fica a saber-se que, nessa data, embora indisponível, o segundo disco já tinha sido publicado. 


Seguindo o exemplo de Colette Magny, para a publicação do single Ronda do Soldadinho / Mãos ao Ar ensaiou um sistema de auto-edição, em que as pessoas e as organizações, designadamente as associações de emigrantes, fizeram encomendas, pagas antecipadamente e, com esse dinheiro, pagou o estúdio e os músicos. O disco chegou a Portugal em exemplares de capa branca sem indicação do autor para evitar problemas com as autoridades portuguesas.
Em 1969, conheceu José Afonso em Paris, num espectáculo realizado numa sala do Boulevard Saint-Michel, em que ambos participaram. Desse encontro nasceu uma frutuosa colaboração entre os dois músicos que, com interrupções mais ou menos extensas, vai prolongar-se praticamente até ao desaparecimento de José Afonso. Foi por essa ocasião que José Afonso trouxe para Portugal as bobinas com a maqueta do primeiro álbum de José Mário Branco que apresentou na Arnaldo Trindade e na Sassetti.
Em Abril de 1970, José Mário Branco tinha ainda um emprego onde trabalhava oito horas por dia. Para fazer música, só as noites e os fins-de-semana. Profïssionalizou-se nesse ano, o que teve que ver com o desenvolvimento do projecto Organon - uma cooperativa de produção e difusão artística sediada em Saint-Quentin-en-Yvelines e subsidiada pelo estado francês para intervir em termos de animação cultural em ambiente urbano, principalmente nas novas cidades-satélite da capital francesa que tinham uma população sobretudo de origem emigrante. A cooperativa integrava especialistas de profissões ligadas ao espectáculo: actores, músicos, cantores, encenadores, pintores, técnicos de videoscópio, entre outras. Tendo por objectivo central difundir a cultura sem intermediários, a sua actividade desenvolvia-se em três planos: dinamização nas escolas e nos liceus, a produção artística nos meios urbanos e junto de associações, de colectividades de natureza popular, sindical, etc..
Uma das iniciativas mais visíveis da cooperativa foi a realização de um espectáculo integrado nas comemorações do centenário da Comuna de Paris, onde José Mário Branco interpretou canções da época e para o qual compôs expressamente um tema original. A música deste espectáculo ficou registada no álbum La Comune de Paris, publicado pelo Groupe Organon.
No final desse mesmo ano, dois acontecimentos determinantes abriram novas perspectivas à sua carreira musical: a publicação do seu primeiro álbum, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, e a produção do álbum Cantigas do Maio, de José Afonso — duas obras que marcaram decisivamente a nova música popular portuguesa. 



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Revista Mundo da Canção, n. 25, de 20 de Dezembro de 1971
Revista Mundo da Canção, n. 25, de 20 de Dezembro de 1971 
Havia duas editoras interessadas na publicação do seu disco: a Orfeu e a Sassetti. José Mário Branco acabou por escolher a última porque lhe deu liberdade total de criação e de escolha dos músicos e do estúdio.
Em 27 de Novembro de 1971, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades foi apresentado pela Sassetti no Cinema Roma, em Lisboa, numa sessão transmitida em directo pelo programa radiofónico Página Um, da Rádio Renascença. Para além da sua audição integral, foi ouvido também o EP de apresentação de Sérgio Godinho, Romance de Um Dia na Estrada, e entrevistas com os dois músicos, realizadas em Paris, pelo jornalista Adelino Gomes, ao tempo a trabalhar para aquela estação emissora.
A crítica especializada ficou rendida ao talento dos novos cantores. A música popular portuguesa nunca mais iria ser a mesma. O álbum esgotou rapidamente a sua primeira edição, vendendo 5.000 exemplares.
Em Janeiro de 1972 produziu o álbum de estreia de José Jorge Letria, Até ao Pescoço. 

No mesmo ano, foi galardoado com os Prémios de Música Ligeira da Casa da Imprensa de autor de música e arranjador atribuídos por um júri constituído por José Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. O prémio de autor de música foi-lhe atribuído «pelo evidente talento demonstrado na simplicidade e objectividade das suas composições», o de arranjador «pela função útil da excelente combinação dos elementos sonoros de todos os seus trabalhos».
Era finalmente o reconhecimento de uma luta pela dignificação e pela qualidade da música popular portuguesa, uma luta assumida com toda a convicção porque José Mário Branco não sabe fazer as coisas de outro modo. Doía-lhe ver Raul Solnado, no Zip Zip, ridicularizar os "baladeiros", pintando-os musicalmente como autênticos atrasados mentais. E o pior é que tinha alguma razão!
Foi em nome desses princípios que se recusou a produzir um álbum de Adriano Correia de Oliveira, de quem nunca deixou de ser grande amigo, numa altura em que, pelos mesmos motivos, tinha entrado em ruptura com Luís Cília.
Foi em nome desses princípios que não aceitou o pagamento que Arnaldo Trindade lhe pretendia impor, "ao instrumento", pelo seu trabalho de direcção musical em Cantigas do Maio. Teve que explicar ao enviado da editora que partia da orquestra sinfónica para chegar ao arranjo adequado para cada música. Que lhe estavam a pagar para tirar instrumentos e não para os pôr. Que os arranjos do «Cantar alentejano» e de «Grândola, vila morena», ao contrário do que Arnaldo Trindade entendia, eram mais caros que os outros porque essas pérolas tinham-no obrigado a um trabalho insano, a tirar ainda mais instrumentos que as outras músicas.
Ainda em 1972, foi posto à venda em Portugal o álbum Liberez Angela Davis tout de suite, publicado pela editora Le Chant du Monde. 

Este disco registou a música de José Berghmans composta para a peça homónima, apresentada no Teatro Gérard Philippe, provavelmente no ano anterior. Um dos temas («Jackson») foi composto por José Mário Branco. A peça tinha uma encenação curiosa em que o público assistia ao espectáculo dentro de celas espalhadas na plateia. 



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Capa da revista Mundo da Canção, n." 34, de Janeiro [?] de 1973, apreendida pela PIDE-DGS.
Capa da revista Mundo da Canção, n." 34, de Janeiro [?] de 1973, apreendida pela PIDE-DGS. 
Entretanto, José Mário Branco concluiu o seu projecto Crónicas, - um disco conceptual realizado de parceria com Álvaro Guerra, com letras escritas pêlos dois a partir de textos de Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões e da Carta de Guia de Casados, de Francisco Manuel de Melo. Só que, numa reacção à vaga musical de finais de 1971, os discos passaram a ser obrigatoriamente submetidos a censura prévia e dois terços do material deste disco foram proibidos, o que os levou a abandonarem o projecto inicial.
Algumas canções desse projecto foram aproveitadas para o seu segundo álbum, Margem de Certa Maneira, gravado em Paris, entre 6 e 8 de Novembro de 1972, e publicado uns dias antes do Natal desse ano.6 Nesse mesmo mês, esteve em França o grupo português Petrus Castrus para gravar o seu primeiro álbum Mestre . A gravação teve lugar no mesmo estúdio, Strawberry Studios, no Chateau d'Hérouville, com o mesmo engenheiro de som, Gilles Sallé. José Mário Branco travou então conhecimento com os músicos do grupo, cujo guitarrista era Júlio Pereira. 

Nos últimos tempos do exílio em França, a sua música sofreu profundas alterações, em função das tendências artísticas referidas ao maoísmo. No Verão de 1973 foi convidado para participar nos "Jogos Florais da Emigração Portuguesa", organizados pelo jornal O Emigrante, ligado ao PCP(ML) de Eduíno Vilar e que tiveram lugar na Cartoucherie de Vincennes, um antigo convento ainda hoje sede do "Théâtre du Soleil", de Ariane Mnouchkine. Durante vários dias, e em diferentes salas, realizaram-se diversos espectáculos de teatro, música e leituras, com gente que veio de núcleos da emigração de toda a Europa: sobretudo da França, da Bélgica, a Holanda, da Suiça, da Suécia e da Alemanha. José Mário Branco participou como concorrente ao concurso de canções dos jogos, expressamente para esse efeito, compôs «A cantiga é uma arma». Só que, na véspera, foi ao Organon e, com Mário Jorge Bonito, policopiou a letra que foi distribuída pelo público pouco antes de entrar em palco. Quando cantou pela segunda vez o refrão, «A cantiga é uma arma / eu não sabia / tudo depende da bala / e da pontaria...», tinha duas mil pessoas a cantarem com ele. No fim, nos bastidores, Eduíno Vilar chamou-o ao lado e disse-lhe: «A tua cantiga é porreira, as pessoas apanharam-na à primeira, mas eu já estive a falar com o júri, tu não podes ter o primeiro prémio. Eles queriam dar-te o primeiro prémio mas eu opus-me, porque um verdadeiro revolucionário não pode dizer «eu não sabia». José Mário Branco mandou-o, evidentemente, para o sítio para onde devia ser mandado!


O exílio estava próximo do fim, mas ainda teria tempo para produzir o álbum Venham Mais Cinco de José Afonso, em Outubro de 1973, e para esboçar o seu novo repertório de canções como «Alerta!» e «Viva a Guiné-Bissau, livre e independente». 

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Após a chegada, com Letria, Afonso, a mãe, Isabel, José Duarte e Adriano (atrás)



Abril, O Regresso e a UDP

Paris, 25 de Abril de 1974.

José Mário Branco saiu de casa às sete da manhã para apanhar o comboio em Montparnasse. Trabalhava no Groupe Organon em Saint-Quentin-en-Yvelines. Cá em baixo, ao chegar à rua, o porteiro do edifício, um português ligado ao PCP, perguntou-lhe se tinha ouvido o noticiário, porque estava a haver um golpe de estado em Portugal. A sua primeira reacção foi de grande euforia pelo derrube de Marcelo Caetano, embora receasse tratar-se de um golpe de direita do general Spínola, ou de um contra-golpe de Kaúlza de Arriaga.


(foto de A Capital)

À hora de almoço comprou o Le Monde e lá estava o título na primeira página e uma notícia sem grandes pormenores: «Coup d'état militaire au Portugal!» Telefonou para o Alexandre Alves Costa, mas, em Portugal, as informações eram ainda muito imprecisas. Tinha vontade de regressar imediatamente; impôs porém a si próprio duas condições para o fazer: o fim da guerra colonial com o reconhecimento do direito dos povos das colónias à auto-determinação e à independência, e a libertação de todos os presos políticos, sem excepção.
Nesse próprio dia, ou no dia seguinte, fez um recital, pago, para estudantes na Universidade de Vincennes. Antes de entrar em palco, o poeta José Terra, então leitor de Português nessa universidade, entregou-lhe um cartão de Mário Soares em que este lhe pedia imensa desculpa por não estar presente em virtude de ter que se ausentar imediatamente para a República Federal da Alemanha. Nessa noite reduziu o número de canções previstas no alinhamento do espectáculo e chamou a atenção para o golpe estado e para o que poderia significar.
A pouco e pouco, foi-se percebendo o sentido do golpe. No dia 29 de Abril recebeu um telefonema de uma portuguesa que tinha uma pequena agência de viagens em Paris, Maria Amélia Padez, ligada ao PCP, informando-o de que tinha um voo "charter" para Portugal no dia seguinte.
Em 30 de Abril de 1974, cinco dias após o derrube do regime fascista, regressou a Portugal com Isabel Alves Costa, no mesmo avião em que viajaram também Álvaro Cunhal, Luís Cília, o historiador Cláudio Torres, bem como todos os quadros do PCP em Paris. 

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1º de Maio de 74

Não perdeu tempo. Na noite do dia 1º de Maio de 1974, fundou com outros cantores anti-fascistas o Colectivo de Acção Cultural, mais tarde designado Grupo de Acção Cultural,  (GAC) «Vozes na Luta». A formação do colectivo foi anunciada através de um comunicado distribuído à imprensa no dia seguinte e lido no espectáculo realizado no domingo, dia 5 de Maio, no Pavilhão dos Desportos do Porto.
Organizado pelo Círculo de Cultura Teatral em duas sessões, uma à tarde e outra à noite, esse espectáculo, chamado «I Encontro Livre da Canção Popular», abriu com «Grândola, vila morena». Cantaram, por esta ordem, Luís Cília, José Mário Branco, José Afonso, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Samuel, José Jorge Letria, Aristides e Vitorino. José Mário Branco apresentou três canções: «A cantiga é uma arma», «Ronda do soldadinho» e «Alerta!». 

(fotos da revista Flama)
Tinha já anulado o contrato que o ligava à Sassetti para estar inteiramente disponível para o que pudesse vir a acontecer. Na véspera, esteve no Bairro S. João de Deus em apoio da luta dos moradores, de que resultou a sua primeira cantiga composta depois do 25 de Abril: «A luta dos bairros camarários», registada em disco no ano seguinte pelo GAC «Vozes na Luta».
Fixou-se em Lisboa porque, na época, os meios de produção através dos quais exercia a sua profissão (estúdios e editoras) estavam todos concentrados na capital. Reencontrando Francisco Martins Rodrigues e outros antigos dirigentes do CMLP, voltou a integrar-se num grupo maoísta que veio a dar origem à UDP (União Democrática Popular). 






Entretanto, é adoptada a designação definitiva de Grupo de Acção Cultural «Vozes na Luta», que apoia a UDP desde a sua constituição em Dezembro de 1974. Até 1977, a actividade de José Mário Branco vai girar em torno destas duas organizações. Sob o comando da política, praticamente sem interrupções, a sua obra e a sua carreira musical vão passar por este colectivo, em que inevitavelmente teve um papel preponderante ao nível da criação e da direcção artística. Durante a sua existência, o Grupo de Acção Cultural editou oito singles e quatro álbuns. 
(foto de A Capital)

Em Fevereiro de 1975, integrado no GAC, participou no Festival RTP da Canção com o tema Alerta! / Em Vermelho em Multidão. Esta canção seria posteriormente incluída em  A Cantiga é uma Arma / Viva a Guiné-Bissau, álbum inteiramente preenchido por composições suas. 


Em Fevereiro e Março de 1976, o GAC gravou o seu segundo álbum. Pois canté!! alterou a direcção musical do grupo, que passou a orientar-se para a recolha e recriação da música de tradição oral, ligadas à linha ideológica do grupo. Tratou-se de uma experiência pioneira neste campo, antecipando o movimento de revitalização da música tradicional portuguesa que marcou toda a evolução musical que se seguiu no nosso país. 

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A Confederação 
Também em 1976, o grupo de teatro Comuna convidou-o para compor a música para a peça O muro, baseada nas Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. José Mário Branco declinou o convite por indisponibilidade, mas autorizou que o seu tema «Perfilados de medo», incluído no álbum Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), fosse utilizado na peça. A seguir foi novamente convidado pela Comuna para compor uma canção para a peça Em Maio. Compôs a extraordinária «Travessia do deserto», que veio a fazer parte do duplo álbum Ser Solidário (1982).
No ano seguinte, participou, "a meias", com Fausto na composição e execução da banda sonora do filme realizado por Luís Galvão Teles, A Confederação, uma longa-metragem galardoada com o Grande Prémio do Festival da Figueira da Foz de 1977.
Um autêntico tufão varre então a sua vida: sai do GAC, abandona o PCP(R) (Partido Comunista Português Reconstruído - ligado à UDP), o seu casamento chega ao fim.








(Fotos de A Capital)

No Verão recebeu um novo convite da Comuna para compor a música para a peça A Mãe. José Mário Branco aceitou e passou a fazer parte integrante do grupo, assumindo as funções de director musical e actor. A peça subiu à cena em antestreia, para convidados, em 23 de Dezembro e a sua estreia pública teve lugar em 19 de Janeiro de 1978, mantendo-se em cena durante quase um ano, incluindo apresentações no estrangeiro. Em (Fevereiro, os actores entraram em estúdio para gravarem a música apresentada na peça, de que resultou o disco A Mãe, um novo álbum de José Mário Branco, numa edição de autor subvencionada pela Comuna.



Iniciou-se então um período em que a sua vida artística esteve centrada no teatro. Isso não significou, porém, um afastamento da actividade musical, continuando a fazer música essencialmente para cinema e para teatro. Em 1978 compôs a música do filme Gente Do Norte, de Leonel de Brito.
Em Janeiro de 1979 abandonou a Comuna, num acto de solidariedade para com um grupo de actores expulsos por divergências de estratégia e de repertório, entre os quais se contava Manuela de Freitas, com quem iniciara uma relação. 
(Foto de A Capital)

Em 23 de Janeiro, com os actores dissidentes, fundou o Teatro do Mundo. A primeira peça do novo grupo, A Secreta Família, estreou em Julho. 

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«A nova Cena do Ódio com muito amor para dar — Aconteceu no sábado: Zé Mário, quase sem voz, agradece os aplausos de um público de pé, que saúda o que lhe parece ser o final do espectáculo. Pela enésima vez, pede desculpas pela rouquidão e afiança que, «sem ironia», o Teatro do Mundo reembolsará os descontentes. Ninguém o leva a sério, por mais que ele insista. Com um dedo, chama o sobrinho To e coloca-o à direita, junto da estante com textos, para que lhe vire as folhas. Apeteceu-lhe oferecer algo de muito de dentro ao pessoal ali reunido. Pega na viola e diz que escreveu há dois anos o que vai apresentar a seguir. Vai sair tal como lhe brotou na noite em que o compôs. Sem retoques e «desartistizado». Chama-se F.M.I. e, «é claro, é de intervenção». Em aparte: «Pudera! Com um título destes...»
Meio declamado, meio cantado, arranca com versos sarcásticos ao momento político dos tempos de Mota Pinto. Quando parecia já cansado de «bater no ceguinho», eis que Zé Mário se vê apoderado pelas palavras e um enorme vulcão interior começa a romper. Empolga-se. Vai desfiando monólogos em série, modulando a voz e compondo máscaras adequadas a cada tipo que satiriza e que são, aqui e ali, algumas fracções dele próprio. Desfilam discursos derrotistas — mas tão naturais — em todos os tons: os que «mandam vir» para não estarem calados; os que procuram justificar a sua cobardia querendo nela comprometer toda a gente; os que embarcam de bom grado na conversa do mais forte; os que farejam os tempos que hão-de vir e se vão adaptando; os que lêem vitórias na derrota; os que trocam o protesto pelo resmungo. Quase patético. Até ele, Zé Mário, não resiste. Grita para que o deixem em paz. Quer estar só. Entra em crise. Rejeita tudo. O que de melhor se pintou do 25 de Abril, agora que o vê tão perdido. Goza amargamente com tudo aquilo. 
O crescendo atinge o grito. Explode em palavrões. É o transe do desespero. Segue-se a quebra. Chama pela mãe. Quer morrer. Mas de um modo diferente. Quer «desnascer». E, a pouco e pouco, suavemente, o seu próprio discurso tropeça em «Grândola, Vila Morena» e faz-lhe renascer a esperança. Devagarinho. Intimamente. Recupera-se. Uma flauta sublinha o renascimento. Entrega-se de novo. Apresenta-se: José Mário Branco, português, de 37 anos, filho de professores primários. Do Porto. Faltam-lhe alguns dentes. Mas está pronto. "Para cantar. E para o resto".Todo o público de pé (não um a um como cogumelos — tudo numa leva só) ferve as mãos em palmas arrebatadas. Zé Mário está extenuado. Mas vê bem que deixou a plateia sem fôlego, depois da longuíssima canção-poema-desabafo que arrancou das entranhas. De muito fundo. É já com o pessoal arfante, ainda a digerir o «presente» do artista, que acontece a canção de apoteose, com todo o palco iluminado e instrumentos e vozes em aplicação total: «Ser Solidário».
Custa dizê-lo, pelo chavão, mas aquilo só visto e ouvido: contado — ai de nós! — pouca graça pode ter. Só nos vem à ideia uma ressurreição pujante da «Cena do Ódio», de Almada Negreiros. A mesma virilidade no protesto. A mesma recusa em perder o «eu» face a quem lhe não dá o «outro» integral e vivo. Com uma diferença: F.M.I. de Zé Mário tem a largueza do coração que Abril dilatou e traz a volta na ponta do ódio da cena.» 
Este texto notável foi escrito por Óscar Mascarenhas para a edição do semanário Se7e, de 26 de Novembro de 1980. A notícia F.M.I. , redigida dois anos antes, tinha chegado finalmente aos destinatários: José Mário Branco mudou de vida!
Para trás tinham ficado tempos de rupturas demasiado pesadas. Mas 1979 foi um ano particularmente duro porque viu partir, num curto período, os pais e a sogra, mãe de Isabel Alves Costa, a quem o ligavam profundos laços de amizade.
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Ainda em 1979, foi editado pela Sassetti o EP O Ladrão Do Pão, banda sonora do filme com o mesmo nome, inspirado num poema de Alexandre O'Neill, realizado por Noémia Delgado numa co-produção do Cinegrupo 7 e da RTP.
Em Março de 1980 voltou a participar no Festival RTP da Canção, desta vez como orquestrador, assinando os arranjos da canção «Esta página em branco», defendida pelo Quarteto de Música em Si, de que fazia parte o seu sobrinho, António Branco. Os jornalistas responsáveis pela cobertura das eliminatórias consideraram-no o melhor arranjo do festival.
Em 9 de Outubro do mesmo ano o Teatro do Mundo estreou a peça O guardião do rio, levada à cena no Teatro Aberto. Para além de actor, José Mário Branco compôs para esta peça temas musicais que estiveram na origem da suite A noite, publicada no seu álbum de 1985 [A noite]. 



Se em todo este período em que esteve voltado sobretudo para a actividade teatral, a sua carreira musical própria ficou mais uma vez suspensa, foi apenas porque as oito maiores editoras a operar em Portugal recusaram o seu novo projecto por entenderem que não tinha interesse comercial. Tratava-se simplesmente de Ser Solidário, cuja maqueta estava pronta desde Março de 1979, uma das obras mais importantes da história da música popular portuguesa.
Desprezado pelo mercado (e pelos mercadores), Ser Solidário começou a andar por si próprio. Perante a impossibilidade de ser publicado em disco, nasceu sob a forma de espectáculo em 21 de Novembro de 1980, numa iniciativa do Teatro do Mundo. Ao mesmo tempo foi aberta uma subscrição pública para custear a edição do disco, em que os interessados o compravam antecipadamente por um preço mais barato. Afinal o projecto era viável. Face ao êxito estrondoso do espectáculo, que assumiu proporções inéditas no nosso país, não foi necessário recorrer à modalidade da edição de autor. A Edisom, uma nova editora independente, criada pelos músicos Zé da Ponte e Guilherme Inês, publicou o duplo álbum (com F.M.I. em maxi-single anexo) que foi posto à venda em 14 de Abril de 1982.
Em 1981 voltou a estar presente no Festival RTP da Canção, respondendo pela orquestração do tema «Tanto e tão pouco». A canção foi apresentada pelo seu sobrinho António Branco e obteve o Prémio da Orquestração. 
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Em termos discográficos, a intervenção da UPAV sentiu-se pela primeira vez na publicação do álbum A Confederação. Embora se trate de uma edição de autor, José Mário Branco contou com o apoio da cooperativa e o disco exibe o seu selo. Foi lançado através de uma subscrição semelhante à que foi utilizada em Ser Solidário e estava disponível, sem capa, nos espectáculos de apresentação, realizados em 10 e 11 de Maio de 1985, no Coliseu de Lisboa. Apesar das dificuldades dos circuitos de difusão da UPAV, A noite atingiu o Top 20 português.
Em 1989, juntamente com Manuela de Freitas, voltou a trabalhar com a Comuna nas peças A Pécora, de Natália Correia (1989), e O estrangeiro em casa, de Richard Démarcy (1990).
Em 1991 a UPAV assume a função editorial e edita uma série de discos de artistas portugueses, entre os quais se encontra o seu Correspondências, galardoado, em 21 de Junho de 1992, com o Prémio José Afonso, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora à melhor gravação de música portuguesa de 1991. 



Por volta de finais de 1992, princípio de 1993, voltou à rádio, a sua primeira e longínqua actividade profissional. Na TSF - Rádio Jornal, no âmbito das actividades da UPAV, realizou o programa semanal, emitido aos sábados de manhã, Música Portuguesa Com Certeza. Como o próprio título indica, tinha por objectivos a defesa e a divulgação da música portuguesa. Em cada emissão era entrevistado um músico português que falava do seu trabalho e da sua música. Durante um ano e meio passaram pelo programa cerca de oitenta convidados e, polemicamente, uma das primeiras emissões foi dedicada a Marco Paulo. Foram entrevistados, entre tantos outros, António Victorino d'Almeida, Mário Laginha, Rodrigo Leão, Pedro Burmester, António Pinho Vargas, Quadrilha e Tino Flores.
Em 1993, dada a crise existente no sector, a direcção da UPAV decidiu, por maioria, suspender a actividade editorial. José Mário Branco entendia que a cooperativa só então começava a ver todo o seu esforço de investimento tornar-se rentável. Não concordou com aquela decisão e abandonou a direcção da UPAV, que acabou por se desagregar.
Em 1994 foi abordado pela Presidência da República (Mário Soares) para receber a condecoração da Ordem da Liberdade, mas não aceitou.
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Na sequência de um espectáculo expressamente encomendado por uma associação cultural de Gulpilhares, evocativo da obra de José Afonso, Amélia Muge, José Mário Branco e João Afonso decidiram reconstituir essa experiência em Lisboa, um ano mais tarde. O espectáculo teve lugar na sala-estúdio do Teatro S. Luiz, em 29 de Outubro, com duas sessões completamente esgotadas, e ficou registado no duplo álbum Maio Maduro Maio, galardoado, em 1996, com o Prémio José Afonso, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora.
No mesmo ano José Mário Branco assinou um contrato com a EMI - Valentim de Carvalho. No âmbito desse contrato foi reeditada em CD toda a sua obra, em edições restauradas e remasterizadas digitalmente. Os livretos reproduzem as capas originais e inserem excelentes textos informativos da autoria de Nuno Pacheco, jornalista do Público, numa atitude exemplar de respeito pela obra reeditada. Em Fevereiro, saíram os álbuns Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades e Margem de Certa Maneira. Em Junho, A Mãe e Ser Solidário. Em Novembro, A noite e Correspondências. Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades atingiu o Top 10. Enfim, o cantor "maldito", vinte anos amaldiçoado pela indústria discográfica portuguesa, não é assim tão inviável comercialmente.
Em Fevereiro de 1997 apresentou-se no CCB (Centro Cultural de Belém), um local que não lhe é nada simpático pelo que simboliza como obra de Estado, pelo exagero que nos custou a todos e até pela sua concepção arquitectónica. Aceitou cantar lá a convite pessoal de António Pinho Vargas, estreando um espectáculo que repetiria no Coliseu do Porto, em 14 de Junho, no Teatro da Trindade, em Lisboa, em 15, 16 e 18 de Junho, e no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, em 20 de Junho. Estes cinco espectáculos foram gravados e daí resultou o álbum José Mário Branco Ao Vivo em 1997, editado em Dezembro.
No mesmo ano foi galardoado com o Prémio Carreira do semanário Blitz.
Quanto à Expo '98, foi algo que não conseguiu engolir. Num país onde há tanta gente a viver em condições miseráveis, considerou que aquele mega- esbanjamento de dinheiro foi uma afronta para os trabalhadores portugueses. Recusou todos os convites que lhe foram endereçados, apesar dos altos cachets envolvidos, sugerindo que o dinheiro que lhe queriam pagar fosse utilizado para construir casas para os sem-abrigo.
Em Fevereiro de 1999 é estreado o filme O Rio do Ouro, de Paulo Rocha, cuja banda sonora foi composta por José Mário Branco com letras de Regina Guimarães [dos Três Tristes Tigres] e, em Abril, é editado o álbum Canções Escolhidas 71/97. Tinha finalmente direito ao seu Greatest hits, ao seu Best of. Um luxo!
Mas desenganem-se os que pensam que o cantor "maldito" foi, finalmente, domado. Houve mesmo quem visse na sua música conformismo, confundindo conformismo com maturidade. E se houvesse dúvidas de que podemos continuar a contar com ele para cantar e "para o resto", elas foram completamente desfeitas, também em 1999, quando se tornou membro fundador do Bloco de Esquerda.
«Tenho comida no frigorífico e uma casa boa para viver, mas sou de esquerda devido à insuportabilidade do sofrimento humano, porque sou um verdadeiro comunista, anarquista e cristão.» 



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Zeca Afonso, grande impulsionador da música popular portuguesa
Zeca Afonso, grande impulsionador da música popular portuguesa

O Pensamento Musical de José Mário Branco
Em 1970 a nova música popular portuguesa era uma realidade inegável. O programa televisivo Zip Zip, de Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado, exibido entre Maio e Dezembro de 1969, deu um impulso enorme ao movimento da balada, trazendo-o para o primeiro plano do nosso panorama musical.
Este movimento tinha as suas raízes nas experiências de transformação da canção coimbrã realizadas por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Goes na primeira metade dos anos 60. Entretanto, José Afonso tinha já evoluído muito para lá dos limites de criação que enformavam este movimento. Primeiro com uma obra de transição, o álbum Baladas e Canções [1967?] e, depois, com Cantares do Andarilho [1968], Contos Velhos, Rumos Novos [1969] e Traz Outro Amigo Também [1970], obras que rasgaram novos horizontes em termos de criação musical, embora pouco ambiciosas ao nível do tratamento.
O final do ano de 1971, verdadeiramente explosivo, registou o grande salto qualitativo da nova música popular portuguesa com a publicação de um conjunto notável de trabalhos indiscutivelmente transformadores: Cantigas do Maio, de José Afonso, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, Fala do Homem Nascido, de José Niza e António Gedeão, e o EP Romance de Um Dia na Estrada, de Sérgio Godinho.
Por detrás de três destes trabalhos, um denominador comum: José Mário Branco. Editou o seu primeiro álbum, fez os arranjos do disco de José Afonso e colaborou no de Sérgio Godinho.


Foi particularmente determinante o papel que desempenhou nesta fase de renovação da canção em Portugal, não só pela qualidade dos temas que compôs para o seu próprio trabalho, mas também pelas concepções inovadoras impostas ao nível dos arranjos que fez para o seu disco e para o de José Afonso. Numa entrevista que concedeu ao Comércio do Funchal, publicada nas edições de 29 de Março e 5 de Abril de 1970, percebe-se que essas concepções se apoiavam em ideias muito claras sobre a situação em que se encontrava a música popular portuguesa e sobre os caminhos que deveria seguir. Nessa altura tinha apenas dois trabalhos concretizados: Seis Cantigas De Amigo e Ronda do Soldadinho / Mãos ao Ar. 

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Contra a "tristeza" na música portuguesa

Em primeiro lugar, José Mário Branco observa que a nova música portuguesa estava então marcada, de forma obsessiva, pela tristeza; era uma música completamente desprovida de humor. Nessa medida, considerava que não estava sintonizada com a nossa cultura popular, tão viva e alegre nas suas diversas manifestações. Particularmente, a nossa música popular de tradição oral, tão rica de formas, pode ser triste quando exprime sentimentos tristes, mas quando é alegre, é mesmo alegre. Em seu entender, a nova música portuguesa não reflectia a naturalidade com que o nosso povo exprime os seus sentimentos. Pelo contrário, pretendendo ser realista, lia a realidade em função de problemas pessoais, transpondo para as suas formas todos os complexos que os intelectuais transportam. A tristeza com que se exprimia a nova música portuguesa era sentida por José Mário Branco como um recuo perante os problemas, como uma atitude de pessimismo doentio, o que, só por si, tornava o facto de se ser alegre já transformador. Sem deixar de reconhecer que esse movimento trouxe importantes contributos para a evolução da nova música portuguesa, conclui que deixou, como herança, essa tristeza mórbida que se traduzia numa clara falta de ar fresco.
Em seu entender, no princípio dos anos 70, o "som" da nova canção popular portuguesa estava estagnado, mesmo nos discos de José Afonso.
Por outro lado, achava que, à época, se sobrevalorizava a função cultural da canção popular, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, se desvalorizava a sua componente musical. Quando tanto se falava de "revoluções musicais" levadas a cabo por artistas da música popular anglo-americana, observa lucidamente que todas essas experiências apareceram no seguimento do que foi feito na música erudita, desde Ludwig van Beethoven a Arnold Schoenberg.
Para José Mário Branco a canção popular é uma forma artística específica e, como tal, não pode pretender tomar o lugar da poesia ou da música erudita, nem ser apenas um veículo de divulgação de poesia. Ao acto de "musicar um poema", à custa, tantas vezes, de uma confrangedora pobreza musical, prefere a ideia de criar uma canção a partir de um poema, o que exige uma natural correspondência entre os dois elementos, e que a música, só por si, diga já algo que existe no poema. Teremos então, como refere, não «palavras a cavalo, em cima de uma melodia», mas uma coisa nova, uma canção. Cita como exemplos, «We shall overcome», de Pete Seeger, «A fool on the hill», dos The Beatles, e «Comme à Ostende», de Léo Ferré.
Uns anos mais tarde, em 1980, voltou a debruçar-se sobre esse período, reafirmando as ideias que sempre defendeu. No processo de construção da nova música portuguesa, face ao descrédito em que estavam a cair os "baladeiros", a ponto de, como se disse, Raul Solnado os ridicularizar no programa Zip Zip, sentiu necessidade de defender a música, de a recusar como mero veículo de divulgação da poesia. Era preciso combater o nacional-cançonetismo, construindo uma música popular portuguesa que estivesse em qualidade ao nível da música urbana de outros países. Foi em nome desse combate que recusou fazer os arranjos do álbum O canto e as armas, apesar da grande amizade que o ligava a Adriano Correia de Oliveira. 

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Zeca Afonso

 Sérgio Godinho

Na sua análise do panorama nacional de então, voltando à entrevista dada ao Comércio do Funchal, José Mário Branco destaca a obra de José Afonso, que reconhece não enfermar das limitações apontadas. Via nele um autor em constante renovação, sem receio de experimentar coisas novas, não abdicando, contudo, de nada do que considera essencial para permanecer-se «português e cantor popular». Ao nível da eficácia, e só ao nível da eficácia, entendia que algumas das canções que publicou acusavam um certo hermetismo poético que nem sempre favoreciam a compreensão do que queria dizer, o que, para si, não deixava de ser uma qualidade, com ganhos sobretudo no plano musical e da interpretação. (Hoje não pensa desta forma. Entende que fazia uma leitura errada do espírito dessas canções, que considera inspiradas no surrealismo "natural" tão abundante na nossa cultura popular.) José Afonso era assim na música popular portuguesa a sua principal referência. Considerava que a sua obra tinha sido determinante para as experiências que, tanto ele como Sérgio Godinho, tinham desenvolvido, bem como para o próprio movimento da balada.
Feito o diagnóstico da nova música portuguesa, José Afonso procurou o seu próprio caminho, inicialmente referido ao folclore português e à música medieval, mas depois também inspirado na canção popular urbana brasileira, francesa, anglo-saxónica e até no Jazz, procurando «trazer ar fresco à nossa canção». Ao mesmo tempo, introduziu, desde o seu primeiro trabalho, um elemento essencial: a ideia da atmosfera musical. Quando, a partir das Cantigas de amigo, se meteu a fazer canções pôs-se-lhe o problema de compreender, o mais totalmente possível, o sentido dos textos, descobrir a sua atmosfera própria, para depois encontrar as soluções musicais adequadas. Pretendia que a música, só por si, fosse ilustrativa dos conteúdos dos textos, primeiro pela forma do discurso melódico e rítmico e, depois, pelo arranjo, entendido como uma encenação sonora.
É preciso dizer-se que ao longo de toda esta fase, entre 1968 e 1973, não esteve só nas opções que assumiu. Existia uma grande afinidade entre as suas concepções musicais e as de Sérgio Godinho, e os trabalhos que publicaram nesse período, em que foi permanente a colaboração entre ambos, podem considerar-se inseridos numa mesma corrente musical.
Independentemente da evolução natural que se seguiu, José Mário Branco tinha já estabelecido, com uma clareza enorme, os pressupostos necessários para o desenvolvimento de uma nova música popular portuguesa. Logo a seguir, confrontou-nos com resultados da magistral execução do seu projecto musical: os seus dois primeiros álbuns e os discos de José Afonso e de José Jorge Letria, que dirigiu musicalmente. Processo semelhante o de Sérgio Godinho com os seus dois primeiros discos.
Hoje, decorridos trinta anos, podemos ver que as ideias que defendia não só se mantêm válidas, como se impuseram e foram determinantes para a evolução subsequente da nossa canção popular. 



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(foto de citizengrave)
Após a publicação em Novembro de 1971, de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, José Mário Branco insistia na importância fundamental da encenação musical. Na entrevista que concedeu à Flama, em 7 de Janeiro de 1972, reflecte sobre a relação da palavra com a música numa canção, tanto ao nível da composição como dos arranjos. Reafirmando a auto-suficiência da poesia, vê a canção como uma forma especial de dizer um texto. Se a poesia vive perfeitamente sem a canção, também a canção não pode limitar-se a ser um mero pano de fundo das palavras. Com as palavras, com os seus recursos próprios, a canção tem que assumir-se, para lá do texto, como uma outra forma artística, dotada das suas próprias especificidades.
Ainda em 1973, antes portanto do 25 de Abril, José Mário Branco vai enxertar um novo elemento nos seus conceitos musicais. Influenciado pelo pensamento maoísta, vai colocar a canção ao serviço da luta dos trabalhadores. Sem prescindir, contudo, da exigência de qualidade, aceita que os critérios políticos se sobreponham aos critérios estéticos. Continua a combater o "cinzentismo" musical da balada, mas também o primarismo estético de uma canção exclusivamente "política", colada ao gosto popular mais banal, sem nenhuma ambição de qualidade musical.
Dias após o 25 de Abril, José Mário Branco reflectia já sobre o passado e o futuro da canção em Portugal, de como a música nacional teria de mudar no sentido da luta, embora reconhecesse a actualidade de temas como «A canção do fogo e da guerra».
Só que o turbilhão de acontecimentos que se seguiu afectou a vida dos portugueses a todos os níveis e, inevitavelmente, a política afogou então tudo e todos. Permanecendo exigente enquanto artista, José Mário Branco renegou a sua obra anterior, considerando que a linguagem musical e poética nela utilizada não tinha nada a ver com o povo.
As ideias que defendia à época estão expostas numa entrevista que concedeu ao jornal A Memória do Elefante, de Dezembro de 1974. Partindo de uma análise marxista da arte em geral e da música em particular, a cantiga, enquanto meio de comunicação de massas e, portanto, enquanto meio de agitação política e de propaganda ideológica, é, para ele, uma arma que defende os interesses de uma classe. A verdadeira e cada vez mais autêntica música popular só vai aparecer depois de um longo processo de ligação à vida e à luta dos trabalhadores. Para José Mário Branco, deixou de fazer sentido exprimir-se individualmente e, muito menos, a existência de "vedetas" individuais. O que o aliciava era a formação de grupos de pessoas interessadas em exprimir colectivamente um certo número de valores.
Por outro lado, continuou a defender a autonomia da canção popular e a importância dos seus aspectos musicais, discordando dos que entendem que, na canção, a letra é o conteúdo e a música é a forma. Reafirma que a música é significante só por si e que os povos sempre se exprimiram através da música, mesmo quando não colocam palavras lá dentro. Na canção, tanto a música quanto a letra têm a sua forma e o seu conteúdo. 

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Relativamente à música tradicional portuguesa, defende que ela foi sistematicamente deturpada pela ideologia burguesa durante o fascismo e que a construção de uma música popular portuguesa passa por trabalhar sobre as raízes culturais do povo português. Mais tarde pudemos vê-lo trabalhar esta ideia no álbum Pois canté!! [1976], cujos excelentes resultados desencadearam um movimento de preservação e divulgação da nossa música tradicional, de grandes proporções.
Mais uma vez a música popular emergia da realidade social, representando-a. José Mário Branco reconheceu depois o "esquerdismo" que marcou toda essa fase. Desfeitas as confusões, afirma: «Sou essencialmente um artista popular que tem as suas opiniões políticas e que não admite que a revolução se faça contra a criação artística.»
Conhecido desde sempre no nosso meio musical pelo elevado grau de exigência, José Mário Branco confrontou-nos, em 1983, com uma aparente contradição. Ele que, em nome da qualidade, recusou fazer os arranjos de um disco de Adriano Correia de Oliveira, aparece de um momento para o outro envolvido num projecto que englobava artistas das mais diversas proveniências e géneros musicais, independentemente da qualidade da sua música. Tratava-se como já se referiu contextualizando a iniciativa da UPAV, uma cooperativa que tinha por objectivo a defesa e a divulgação da música portuguesa.
A quota da música portuguesa no mercado discográfico tinha descido de uma forma brutal, o mesmo acontecendo na área dos espectáculos. José Mário Branco  entendia que a situação era grave. Embora reconhecesse que, no seio da UPAV, se registavam desigualdades em termos de qualidade, no momento havia que pôr artistas portugueses no mercado, privilegiando a quantidade, até porque a quantidade também é um caminho para se chegar à qualidade.
Muitas pessoas da área política de esquerda não compreenderam o seu envolvimento num projecto tão abrangente e tão recuado. O problema é que uma coisa não tem a ver com a outra. Em Portugal, os críticos musicais (e não só) parecem não perceber que a questão "objectiva" da preservação da cultura nacional e a questão "subjectiva" da qualidade dos produtos culturais não podem ser misturadas na mesma discussão, pela simples razão de que não conseguimos chegar a nenhuma conclusão sobre o “subjectivo", porque é subjectivo, nem sobre o "objectivo" porque se torna subjectivo. E o mesmo aconteceu com a discussão pública gerada em torno da "Lei da Rádio", em que José Mário Branco também participou, limitando-a, logicamente, aos níveis cultural e político. 

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O Canto que nos Toca
O Canto que nos Toca 
Em Junho de 1994, respondendo a um inquérito destinado à Revista do Festival  de Música Popular Portuguesa,  organizado pela Câmara Municipal da Amadora, José Mário Branco reflectiu sobre o estado e a canção da canção popular portuguesa.
Começa por distinguir três períodos distintos na história recente da nossa música popular, correspondendo a cada uma das três últimas décadas.
Na década de 70, destaca a explosão criativa dos anos anteriores ao 25 de Abril de 1974, sem paralelo em todo o século XX português. Atribui esse fenómeno principalmente a dois factores: à influência das correntes culturais mundiais que se desenvolveram nos anos sessenta; e à intensificação da resistência cultural do povo português ao regime fascista e à guerra colonial. São essas experiências musicais que estão na génese de todo o desenvolvimento imparável que se seguiu ao "25 de Abril", no qual, José Afonso assumiu sempre o papel de principal criador.
A década de 80 foi, para José Mário Branco, um período negro para a música popular em todo o mundo ocidental, consequência directa do refluxo dos movimentos sociais e da ascensão de políticas e ideologias conservadoras. Os valores culturais das sociedades ocidentais pareciam irremediavelmente condenados e a música popular caminhava a passos largos para uma mortal normalização, completamente dominada pelas multinacionais da indústria discográfica.
Quanto à primeira metade da década de 90, refere uma tendência para recuperação dos valores anteriores, com reflexos também em Portugal. sua óptica, as causas são exteriores ao nosso país e têm a ver com as posições que músicos como Paul Simon, Peter Gabriel e Sting têm tomado na defesa e divulgação das músicas do mundo, o que obrigou as multinacionais da música a reverem as suas estratégias de mercado.
No mesmo texto, toma também posição acerca do conceito de música popular portuguesa (MPP), sobre o qual se tem gerado, ao longo dos tempos, uma apaixonada polémica: «Eu continuo a pensar que a MPP é aquela parte da nossa música ligeira que, sem nunca abandonar a referência às raízes da nossa tradição oral, coloca essa mesma tradição ao compasso da época em que criamos e vivemos, com níveis de qualidade estética e poética que garantem a sua sobrevivência».
Ao longo de trinta anos de carreira, um princípio fundamental norteou sempre as posições de José Mário Branco: a defesa intransigente da música portuguesa. Por isso, não aceita a sua descaracterização, o que, considera, constituiria uma ameaça para a sua existência. Mas, ao mesmo tempo, não assume essa defesa de uma forma fundamentalista porque, para além da música portuguesa, ama a música: do passado, do presente, do norte ou do sul.
Foi assim que fez a sua música e é assim que a continua a fazer. Com os olhos nas tradições portuguesas, mas aberto a todas as influências que considera boas e benéficas, venham donde vierem. E quando faz a sua música, não está preocupado com as raízes que estão por trás, basta-lhe gostar. Porque o seu portuguesismo é uma característica que não corre o mínimo risco de perder.  (In, José Mário Branco - O Canto da Inquietação, de Octávio Fonseca e Silva, Editado por MC - Mundo da Canção, 2000)










(as fotos que não têm indicação do autor foram retiradas da Net)
Agora uma prenda do chico grave com a ajuda do Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra


Uma palavra - Chico Buarque/1989
ver também:
Citizen Grave - Para quase todos