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sábado, 16 de março de 2013


Cipriotas em choque tentam levantar dinheiro mas contas já estão bloqueadas

Resgate ao país aprovado pelo Eurogrupo inclui taxa sobre todos os depósitos e já foram dadas ordens para bloquear essa verba.
Os cipriotas acordaramna manhã deste sábado com a notícia do resgate financeiro ao seu país, que implicará a aplicação de um imposto extraordinário a todos os depósitos bancários. A população tentou nas sucursais e nos sites dos bancos levantar o dinheiro, mas as contas já estavam bloqueadas desde que a decisão do Eurogrupo foi tomada.
Aumento dos impostos sobre as empresas, que podem chegar aos 12,5%, e um imposto extraordinário de 9,9 % sobre os depósitos acima dos 100.000 euros e de 6,7 % para os valores abaixo sãoalgumas das medidas acordadas pelos ministros da Economia e das Finanças da zona euro para o resgate financeiro a Chipre, que atingirá os 10.000 milhões de euros.

Após uma reunião de dez horas de negociações que terminou na madrugada deste sábado, o grupo de 17 países acordou um pacote de medidas em que se destaca a inclusão dos depósitos bancários no apoio ao financiamento do país. O imposto sobre os depósitos será aplicado não sobre os juros, mas sim sobre o capital. O que significa que um cipriota ou um cidadão de outro país que tenha 101 mil euros num banco de Chipre, perderá de forma imediata dez mil euros, exemplifica o jornal El Mundo.

A população desta ilha do Mediterrâneo foi apanhada de surpresa pela decisão, que recebeu com preocupação e raiva. Logo nas primeiras horas da manhã muitos cipriotas, em pânico, dirigiram-se para os poucos balcões dos bancos que se encontram abertos neste sábado para tentar levantar o máximo de dinheiro possível, descreve o mesmo jornal. Mas as instituições já tinham cumprido a ordem de bloquear em cada conta a percentagem que irá reverter para a recuperação do país, fecharam as portas e bloquearam as movimentações de contas online. Nos multibancos fizeram-se também filas, sendo que as máquinas só permitem o levantamento de máximo de 1000 euros por dia. Mesmo nestes casos as pessoas depararam-se com uma verba já cativa.

O encerramento surgiu depois de o director-geral do Banco Central de Chipre ter dado ordens para que a decisão do Eurogrupo fosse cumprida de imediato. “Temos de nos conformar com a decisão”, explicou Erotocritos Jlorakiotis, acrescentando que a sua própria instituição aguarda mais detalhes sobre o acordo de Bruxelas, depois do primeiro pedido feito pelo país em Junho e ainda antes da eleição de um novo Presidente de direita.

“A mais dolorosa das soluções”
“Chipre escolheu a mais dolorosa das soluções”, assegurou o ministro cipriota das Finanças, Michalis Sarris, citado pela AFP, mas recordando que a alternativa era o país entrar num cenário de bancarrota, em que se perderia muito mais dinheiro. O mesmo governante tinha dito há dez dias que uma taxa sobre os depósitos seria “catastrófica” para o país. Mas agora vão conseguir arrecadar 5800 milhões de euros com esta medida. E adiantou também que os depositantes receberão acções do banco no valor equivalente ao que vão perder nos depósitos, mas não avançou até quando vigorará a medida.

Para evitar uma corrida aos levantamentos de dinheiro, já que este tipo de medidas implica um risco de fuga de capitais e cruza a linha que o Eurogrupo tinha dito que não ultrapassaria, o Governo cipriota deverá aprovar no domingo uma lei a proibir o levantamento de parte dos depósitos bancários a partir de terça-feira, já que segunda-feira é feriado no país. No entanto, por precaução, as instituições bancárias receberam instruções para garantir que online e nas agências abertas ao sábado não seriam feitas excepções.

"É uma catástrofe", resume um cipriota de 45 anos à AFP, depois de sair de uma caixa de levantamento automático. “Isto vai dar-nos vontade de sair do euro”, acrescentou um reformado. A preocupação é extensível às empresas, com um empresário belga a trabalhar em Chipre a assegurar que “se a medida for aplicada às sociedades” resta-lhes abrir falência.

É um roubo”, afirmou Kyriakos, um artista cipriota que acabava de levantar todo o dinheiro que pode retirar através de uma caixa multibanco para minimizar o risco de tributação do montante que tem na conta bancária e que vai ser “sujeito a impostos pelo plano selvagem da Europa”.

“Eu ganhei este dinheiro que agora fica retido para poder pagar os erros que eles cometeram”, acrescentou Kryiakos que se encontra na companhia de dois amigos que tal como ele vão tentar levantar o máximo de dinheiro que podem retirar da caixa automática numa rua de Nisósia.

“Estamos a tentar retirar o máximo de dinheiro, mas não está a resultar muito bem. Não sabemos se as contas estão bloqueadas ou se as máquinas já estão vazias”, acrescentou Joseph, bancário.

“Ninguém esperava isto e os bancos não estão ao corrente de nada”, segundo o mesmo cipriota entrevistado pela France Press na capital do Chipre.

Muitos depósitos de estrangeiros
Segundo a Reuters, estima-se que entre um terço e metade dos depósitos nos bancos cipriotas pertençam a russos e britânicos não residentes, mas que optaram por ali colocar o dinheiro devido às boas condições que o país oferecia. Aliás, o país tem sido criticado por atrair dinheiro com base em impostos reduzidos, promovendo evasão fiscal.

“Eu estou muito zangado. Trabalhei anos e anos para juntar o que tenho e agora estou a perder o dinheiro por ordem dos alemães e holandeses”, disse à Reuters Andy Georgiou, de 54 anos, que regressou em 2012 a Chipre depois de ter trabalhado no Reino Unido. “Dizem que a Sicília é a ilha da máfia. Não é a Sicília, é Chipre. Isto é pura e simplesmente um roubo”, insistiu um pensionista.

Pelo seu lado, o porta-voz do Governo Christos Stylianides apelou à calma, assegurando que “a situação é grave mas não trágica e não há qualquer razão para entrar em pânico”. Uma visão que é rejeitada pelo deputado do partido Diko (centro-direita) Nicolas Papadopoulos, que apoiou a eleição de Fevereiro do actual Presidente, e que fala num acordo “desastroso” para o sistema bancário, um pilar da economia do país. “Antes pensava que qualquer solução seria má para Chipre, mas esta é um pesadelo”, acrescentou.

Este é o quinto programa de assistência financeira na zona euro, depois dos da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha (neste caso centrado apenas no sector bancário). Apesar de o Produto Interno Bruto de Chipre representar apenas 0,2% da zona euro, o comissário dos Assuntos Económicos e Monetários da União Europeia, Olli Rehn, sublinhou que a falência do país seria “relevante para todo o sistema”.

 

GIFT(S) PARA O FIM DE SEMANA - DIVIRTA-SE


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As memórias do barbeiro de Hitler


Um  texto  de Woody Allen
Expresso 08-04-1978


«Woody Allen está presente hoje nas páginas do Expresso com um texto desopilante e bem característico do seu estilo de humor, que traduzimos da última edição francesa de "PlayBoy". Embora muito humor tenha ficado decerto pelo caminho de duas traduções, eis Woody Allen em plena forma, feito copiógrafo das memórias fabulosas do barbeiro de Hitler.» In, Expresso 1978

Cartoon de António que acompanhava o texto de Woody Allen. Copiado do Expresso.



A TORRENTE aparentemente inesgotável de obras publicadas sobre o III Reich prossegue com a próxima publicação das memórias de Friedrich Schmeed, o barbeiro mais célebre da Alemanha durante a Guerra, que tinha a seu cargo as cabeças de Hitler e de numerosos dignitários do exército e do governo. Como foi referido durante o processo de Nuremberga, Schmeed, que se encontrava sempre no momento oportuno em todos os lugares onde a sua presença era reclamada, tinha uma "visão exaustiva dos acontecimentos"  e era por isso particularmente qualificado para redigir este desmistificador guia secreto da Alemanha nazi.

Na Primavera de 1940, um imenso Mercedes parou defronte da minha barbearia, na Koenigstrasse n.º 127, e Hitler entrou, "Quero apenas um "caldinho" —  disse-me —, não corte muito por cima".  Pedi-lhe para esperar alguns minutos porque Von Ribbentrop estava à sua frente. Hitler replicou que tinha pressa e pediu a Ribbentrop para lhe ceder o lugar, mas Ribbentrop argumentou que o prestígio do Ministério dos Negócios Estrangeiros não lhe permitia fazê-lo. Hitler fez uma rápida chamada telefónica e Ribbentrop foi imediatamente destacado para o Afrika Korps. Hitler teve então direito ao seu corte de cabelo.
Este  tipo de incidente era habitual. Acontecia Goering  reter Heydrich na polícia sob falsos pretextos, porque queria a cadeira junto à janela. Goering tinha, aliás muitas vezes a mania de cortar o cabelo montado num cavalo de pau. O Alto Comando nazi melindrava-se mas não podia fazer grande coisa. Um dia, Hesse provocou-o:  "Hoje, Marechal, sou eu que monto o cavalo de  pau""Impossível, está reservado", retorquiu Goering. "Tenho ordens pessoais  do Fuhrer. Foi decidido que eu tinha o direito de montar o cavalo de pau para cortar o cabelo''. Hess lançou imediatamente a mão à pena e escreveu uma carta a Hitler, na frente de Goering, lívido de raiva. Profundamente vexado por Hess, declarou que a partir daquele momento passaria a ser a sua mulher a cortar-lhe o cabelo com uma tijela. Hitler desfez-se a rir com a noticia, mas Goering, que tinha intenções sérias, levaria por diante o seu propósito, não fora o facto de o Ministério do Exército não ter satisfeito a sua requisição de tesouras dentadas.
Perguntaram-me em Nuremberga se eu estava consciente da implicação moral das minhas actividades. Como já afirmara perante o Tribunal, eu não sabia que Hitler era nazi. Na verdade, durante anos pensei que ele era um simples empregado dos telefones. Quando, finalmente, percebi com que monstro lidava, já era demasiado tarde para arrepiar caminho, pois comprara entretanto a mobília a prestações. No fim da guerra. pensei deixar-lhe algumas farripas de cabelo no pescoço, desapertando discretamente a toalha, mas no último instante os meus nervos fraquejaram. Um dia, em Berchtesgaden, Hitler virou-se para mim e disse: "Será que eu ficaria  bem de patilhas?". Speer gracejou com a ideia, o que ofendeu Hitler:"Estou a falar a sério, Speer" — declarou — e penso que as patilhas me ficariam  bem". O palhaço obsequioso que era Goering atalhou imediatamente: "O Fuhrer com patilhas, que excelente ideia!" Speer continuava a não estar convencido. Ele era, de resto, o único a ter a franqueza de aconselhar ao Fuhrer um bom corte de cabelo sempre que necessário. "Isso dará muito nas vistas — insistiu — além de que é tipicamente o género de coisas que o Churchill é capaz de usar."  Hitler entrou em delírio: "Será  que Churchill tem mesmo a intenção de deixar crescer as patilhas? Se sim, quanto e quando?", quis saber. Himmler, que, em princípio, dirigia os serviços de Informações, foi convocado de imediato. Goering, aborrecido com a atitude de Speer, segredou-lhe: "Porque é que você se mete nisso? Se ele quer deixar crescer as patilhas é lá com ele". Speer, que geralmente se distinguia por um tacto excessivo, chamou-o hipócrita e qualificou-o de "gordo como  um pote em uniforme alemão". Goering jurou que o outro havia de pagar o insulto, e mais tarde correu o rumor de que enviara uma patrulha da S.S. fazer-lhe a cama.
Himmler chegou num estado de grande exaltação. O telefonema convocando-o para a Berchtesgaden surpreendera-o no meio de uma lição de sapateado. Além disso, receava que a razão da chamada fosse o desvio de um carregamento de chapéus ponteagudos que prometera a Rommel para a ofensiva de Inverno (Himmler não era habitualmente convidado a jantar em Berchtesgaden porque tinha vista curta e Hitler não suportava vê-lo deixar cair os talheres para debaixo da mesa). Himmler pressentia que alguma coisa não estava a correr bem pois Hitler chamou-o "míope", o que fazia sempre que estava aborrecido.
Bruscamente, o Fuhrer voltou-se para ele e perguntou de chofre: "É verdade que o Churchill vai deixar crescer as patilhas?"
Himmler corou de surpresa e confusão, gaguejando que, com efeito, corriam rumores em relação às patilhas de Churchill — mas nada de oficial. Quanto ao tamanho e ao número, a estimativa apontava para duas patilhas de tipo médio, mas não havia informações detalhadas. Hitler berrava, batendo com o punho na mesa (o que fazia rejubilar Goering supondo triunfar sobre Speer). Em seguida, Hitler puxou de uma carta de operações e mostrou-nos corno tencionava cortar o abastecimento de toalhas quentes à Inglaterra. Bloqueando os Dardanelos, Doenitz poderia impedir que as toalhas quentes fossem desembarcadas e colocadas sobre as caras dos britânicos impacientes. Mas a questão fundamental continuava a ser a de saber se Hitler poderia derrotar Churchill no terreno das patilhas. Himmler objectou que Churchill tinha um bom avanço e que seria talvez impossível alcançá-lo. O imbecil optimista que era Goering deu a entender que as patilhas do Fuhrer cresceriam certamente mais depressa, em particular se reuníssemos todas as forças vivas da nação num esforço supremo.
Von Runstedt declarou numa reunião do Estado-Maior que. na sua opinião, era um erro deixar crescer as patilhas simultaneamente nos dois lados e aconselhou a concentrar todos os esforços sobre uma  única patilha de cada vez. Mas Hitler afirmou que se podia ocupar das duas patilhas ao mesmo tempo. Rommel apoiou Von Rundstedt: "Se se apressar muito, meu Fuhrer — disse — elas não vão crescer por igual". Hitler tornou-se louco furioso e anunciou que este assunto apenas dizia respeito a ele próprio e ao seu barbeiro. Speer prometeu triplicar a nossa produção de creme de barbear até ao próximo outono, o que pôs Hitler de bom humor. Depois, durante o Inverno de 1942, os russos lançaram uma contra-ofensiva e o projecto "patilhas" foi abandonado. Hitler estava deprimido, receando que Churchill aparecesse brevemente em todo o seu esplendor enquanto ele permaneceria "vulgar". No entanto, Churchill acabaria por abandonar, por sua vez, o projecto "patilhas' porque muito oneroso. Uma vez mais, o Fuhrer tivera razão.
Depois do desembarque dos Aliados, Hitler começou a ficar com os cabelos secos e despenteados, o que, embora motivado em parte pelo sucesso dos adversários, era também devido ao facto de, a conselho de Goebbels, ter passado a lavar a cabeça todos os dias. Quando foi posto ao corrente do assunto o general Gudrian abandonou o seu posto na frente russa para vir dizer ao Fuhrer que deveria lavar o cabelo apenas três vezes por semana. Este processo de modificar uma decisão tinha sido utilizado com sucesso pelo Estado-Maior nas duas guerras precedentes. Mas uma vez mais Hitler ignorou a opinião dos seus generais e continuou a lavar a cabeça todos os dias, Boorman ajudava-o na operação e consta que permanecia sempre atrás do Fuhrer de pente em riste. Em definitivo, Boormann tornou-se indispensável a Hitler, que passou a não se ver ao espelho sem pedir a Boormann que o fizesse primeiro. À medida que os exércitos aliados avançavam, a qualidade dos cabelos de Hitler degradava-se. Reagindo ao facto, o Fuhrer proclamava que depois da vitória faria um corte e uma lavagem esplêndidos e um tratamento revigorante. Mas suponho hoje que a sua intenção não era verdadeiramente essa.
Hess apoderou-se um dia do frasco do tónico capilar de Hitler e fugiu para Inglaterra. O Alto Comando alemão estava desvairado, receando que Hess tivesse a intenção de entregar o frasco aos ingleses em troca da amnistia. Hitler ficou particularmente furioso ao tomar conhecimento da notícia quando saia do duche, e portanto no momento dos seus cuidados capilares. (Hess explicou depois em Nuremberga que o seu plano era aplicar a Churchill um tratamento do couro cabeludo, numa tentativa para parar a guerra; ele estava já em vias de o fazer inclinar-se sobre o lavatório quando foi preso).
Em fins de 1944, Goering deixou crescer o bigode. fazendo correr o boato de que tomaria em breve o lugar de Hitler. Hitler, enraivecido, acusou Goering de deslealdade: "Só deve haver um bigode entre os leaderes do Reich, o meu!"Goering argumentou que um segundo bigode daria nova confiança ao povo alemão (no momento em que o desfecho da batalha era incerto), mas sem convencer Hitler. Foi então que em Janeiro de 1945 vários generais conspiraram com vista a rapar o bigode a Hitler, e  substitui-lo por Doenitz; a conspiração fracassou porque Von Stauffenberg rapou uma das sobrancelhas do Fuhrer, confundindo-a, na obscuridade do quarto de dormir, com o bigode. O estado de emergência  foi proclamado, e Goebels apareceu na minha barbearia. "Foi cometido um atentado contra o bigode do Fuhrer — disse a tremer — mas fracassou'. Goebels levou-me à Rádio onde pronunciei uma alocução ao povo alemão, recorrendo a muito poucas notas escritas: "O Fuhrer está bem — declarei. — Ele conserva o seu bigode. Repito: o Fuhrer está bem. Ele conserva o seu bigode. A conspiração para rapá-lo foi desmascarada".
Nos últimos dias da guerra, fiz uma visita a Hitler, que estava no seu bunker. Os exércitos aliados tinham cercado Berlim e Hitler pensava que se os russos fossem os primeiros a entrar teria necessidade de uma "carecada", ao passo que se fossem os americanos bastaria um "caldinho". A batalha estava no auge. No meio do tiroteio, Boormann quis fazer uma "tosquia" e eu prometi-lhe trabalhar sobre um protótipo. Hitler mostrava-se moroso e distante. Falava de fazer um  risco de cabelo de orelha a orelha, declarando em seguida que a invenção da máquina de barbear eléctrica iria fazer voltar a sorte da batalha a favor da Alemanha. "Poderemos cortar o cabelo em alguns segundos, não é verdade Schmeed?", murmurou. Entretanto, confiava-nos outros projectos sublimes e afirmou que em breve já não se contentaria com um simples corte e que exigiria uma permanente. Sempre obcecado em dar nas vistas, anunciou-nos que traria uma cabeleira estilo Pompadour, o que "faria estremecer o mundo" e pediria "um destacamento de honra para penteá-lo". Por fim apertei-lhe a mão antes do último "caldinho". Hitler deu-me uma gorjeta de um pfennig, murmurando: "Eu gostaria de fazer mais, mas desde que os Aliados invadiram a Europa, estou verdadeiramente lixado".

Woody Allen
Expresso
08-04-1978

Woody Allen na abertura do primeiro club da Playboy na Europa. Londres. 1966.
Foto encontrada em www.bbc.co.uk

Citizen Grave - Para quase todos

FILMES QUE A CENSURA PROIBIU - SILVANA MANGANO - A VÉNUS DOS ARROZAIS



Silvana Mangano - A Vénus dos arrozais





Silva Mangano em Arroz Amargo (Riso Amaro, 1949) de Giuseppe De Santis.
Foto de theredlist.fr







A Vénus dos arrozais que a Censura proibiu
Texto de Vítor Pavão dos Santos 
Jornal Se7e
21-02-80



"Tudo hoje quer cinema italiano
P'ra ver de perto as pernas da Mangano
Dantes a Rita é que era o chamariz
Hoje a Silvana é que dá que falar
E então nas ruas andam velhos
Andam novos, andam ginjas
Anda tudo a perguntar
Mas onde é que está o gato?
Sei lá! Sei lá!
Mas onde e que está o gato?
Sei lá! Sei  lá!"

Era assim que a revista, comentadora infalível da vida portuguesa, pela voz da grande Hermínia Silva, assinalava, em 1953, em Lisboa antiga, a loucura que então provocava o cinema Italiano e as suas vedetas. Tudo começara, quando, em 1951, Silvana Mangano surgira desafiadora, no écran do Tivoli, camisola colada ao peito farto, calções molhados e pernas nuas, mergulhadas, até ao joelho, nos arrozais, em Arroz Amargo (Riso amaro, 48), desencadeando o desejo do «bom» Raf Vallone e do «cínico» Vittorio Gassmann, tão próxima, tão verdadeira, logo conquistando o espectador lisboeta, derrubando as imagens technicoloridas das pin ups sofisticadas, como Rita Hayworth ou Betty Grable. Mas não seria por muito tempo que o público poderia gozar da beleza de Silvana, já que a vigilante censura salazarista, também visivelmente perturbada, mandou retirar o filme de exibição, 14 dias após a estreia, alegando, entre outras idiotices, abundância de «mulheres em roupagens sumárias». E lá se foi a Silvana mondadeira (...). O escândalo do filme não era facto inédito, pois nos Estados Unidos também a legion of decency condenara Bitter Rice. Só que lá, o caso até serviu de publicidade ao filme, que rendeu a considerável soma de seis milhões de dólares. Mas por cá, tudo era bem diferente — tirava-se a fita de circulação e não se davam mais satisfações. 

Silvana Mangano e Dino De Laurentiis com as filhas em Monte Carlo. 1966. Carlo Bavagnoli.


Porém, o que a censura não podia impedir era que a imagem avassaladora da belíssima Silvana ganhasse o prestigio do fruto proibido. E o público, que esperava ansioso noticias dela, lá a conseguiu ver, em 1952, moldada pela combinação preta, indispensável acessório das vamps neo-realistas, em O Lobo da Calábria (Il lupo della Sila, 49), disputada mortalmente por Amadeo Nazzari e Jacques Sernas. E não ficou desiludido. Porém, o sucesso louco, que fez Lisboa andar com a cabeça à roda e esgotar semanas e semanas o Império, foi Anna (Anna, 51), onde La Mangano, com aquele seu ar indiferente e um tanto enjoado, ora era desvelada freira-enfermeira, ora, de quando em quando, recordava o seu passado de provocante cantora de cabaret fumarento, mais uma vez dividida entre o «bom» fazendeiro Raf Vallone e o «cínico»barman Vittorio Gassmann. Dolente, em estudadas poses coleantes, Silvana cantava, com a voz emprestada por uma qualquer cantora ignorada, uma melodia melancólica, T'ho voluto bene, e um remexido balão, o célebre Balão da Ana, cantigas que causaram um furor tremendo, e a telefonia tocava a toda a hora, sendo até gravadas pela Amália, a primeira com versos em português, do jovem poeta David Mourão-Ferreira. Nesse ano de 1953, Hermínia estava, portanto, absolutamente certa, a Silvana é que dava que falar, a tal ponto que, num inquérito da revista Plateia, 82 por cento dos seus leitores declararam ser ela a sua preferida.

Silvana Mangano e sua filha em Voivodina, Jugoslávia, durante as filmagens 
de Tempestade (La Tempesta, 1958) de Alberto Lattuada. 1958. Gjon Mili.



A serena «signora» de Laurentiis

Mas esta loucura não acontecia só por cá, mas um pouco por toda a parte. Filha de pai italiano e mãe inglesa, Silvana Mangano estudara dança, fora manequim e tentara o cinema, até que, em 1948, conhecera o produtor Dino de Laurentiis, com quem logo casara, o qual, cuidadosamente, preparara o seu lançamento. E o produto mostrara-se de tão boa qualidade que o dificílimo mercado americano se mostrava muito receptivo, a ponto do New York Times afirmar entusiasmado, ser miss Mangano uma mistura de Anna Magnani, com menos 15 anos, Ingrid Bergman, com temperamento latino, e Rita Hayworth, com 12 quilos a mais.
Perante esta aceitação internacional, Silvana apareceu, em 1954, em duas grandes produções italo-americanas. Um eraMambo, tentativa pouco conseguida de explorar o filão de  Anna, onde se entregava a danças ardentes, com o  ballet  negro de Katherine Dunham, casava com Michael Rennie, um conde hemofílico, e era mais uma vez tentada por Vittorio Gassmann, o seu «cínico» privativo. O outro, Ulisses (Ulisse), onde se desdobrava num duplo papel, a paciente e tecedeira Penélope e a feiticeira Circe, enredando, nos seus encantos, Kirk Douglas, o herói homérico desta supercolorida odisseia de cartão e purpurina.


Silvana Mangano, durante as filmagens de Tempestade (La Tempesta, 
1958) de Alberto Lattuada. Voilodina, Jugoslavia. 1958. Gjon Mili.


Entretanto, a extrema sensibilidade com que Silvana viveu uma amargurada prostituta, num dos sketchs de Oiro de Nápoles (L'ro di Napoli, 54), dirigida pelo seu grande amigo Vittorio de Sica, valeu-lhe ser distinguida com o  Nastro d'argento, para a melhor actriz italiana do ano, prémio que novamente conquistou, em 1964, pela criação da figura da condessa Edda Ciano, a célebre filha de Mussolini, em Il processo di Verona, um filme, nessa época, proibido em Portugal, e que ainda por cá não correu. Embora estas distinções tenham dissipado o preconceito generalizado de que as mulheres que se impõem pela beleza têm, por força, que ser más actrizes, a signora Di Laurentiis, olhando pelos filhos, no conforto da sua villa  romana, mostrava-se pouco interessada em se assumir superstar, limitando muito as suas aparições, ainda por cima geralmente breves, apesar da sua presença, sempre belíssima, ser, com frequência, a melhor coisa de algumas superproduções do seu marido, como A revolta dos cossacos (La tempesté,  58), d'aprés Pushkin, também se revelando uma excelente comediante, em  Crime (Crimen, 60), ao lado dos experimentados cómicos Alberto Sordi, Nino Manfredi e o sempre presente e excelente Vittorio Gassmann.


Silvana Mangano durante as filmagens de Cinco Mulheres Marcadas 

(Five Branded Women, 1960) de Martin Ritt. Austria. 1959. Gjon Mili.




A presença de prestígio seguro

Em 1966, comemorando quase vinte anos de feliz casamento, De Laurentiis ofereceu á mulher um presente caríssimo, que consistiu num filme, em sketchs, todo centrado em Silvana, que interpretava cinco personagens muito diversas, dirigida por cinco dos mais importantes realizadores Italianos: Luchino Visconti, Mauro Bolognini, Pier Paolo Pasolini, Franco Rossi e Vittorio De Sica. Como geralmente acontece com encomendas deste tipo, A magia da mulher (Le streghe) foi uma tremenda decepção, em que apenas o episódio de Pasolini, La terra vista dalla luna, com Totó e Ninetto Davoli, se destacava, pela sua colorida invenção surrealizante.



No entanto, a partir de então, Silvana Mangano alcançaria um enorme prestigio, passando a ser indispensável ás obras de dois grandes realizadores, já desaparecidos, Pasolini e Visconti, que finalmente saberiam compreender e usar plenamente a sua beleza, o seu talento, e, mais do que tudo, a sua estranha presença. Dirigida por Pasoloni, ela seria uma Jocasta, primitiva e misteriosa, em Edipo Re (67), um filme multo belo, incompreensivelmente ainda inédito em Portugal; uma reprimida mãe de família, da alta burguesia, que, tocada pelo anjo desencadeador (Terence Stamp), desabrocha numa maravilhosa ninfomaníaca, em Teorema (68); e, numa breve aparição, a Virgem Maria, no esplendor da visão final de Giotto, em Decamerone (71)







Jeanne Moreau e Silvana Mangano brincando durante as filmagens de Cinco Mulheres 
Marcadas (Five Branded Women, 1960) de Martin Ritt. Austria. 1959. Gjon Mili.

Dirigida por Visconti, vestida com suprema elegância por Piero Tosi, marcaria três figuras inesquecíveis de mulher distante e requintada: a mãe, anos 10, do jovem Tadzio, em Morte em Veneza (Morte a Venezia, 70); Cosima Lizt, a enigmática companheira de Richard Wagner, em  Luís da Baviera (Ludwig II, 72); a snob riquíssima e inquieta mantedora do gigolo Helmut Berger, em Violência e paixão (Gruppo  dl  famiglia in un interno, 74), a sua última aparição no cinema, até  à data. Semi-retirada desde há seis anos, apesar de apenas em Abril próximo completar 50 anos, semi-separada de Dino De Laurentiis, actualmente um dos mais poderosos produtores do cinema americano, a trajectória de Silvana Mangano, de mondadeira, explosiva força da natureza dos arrozais neo-realistas, a delicadíssima e serena aristocrata, movendo-se entre rendas e suspiros, é uma das mais fascinantes de quantas o cinema tem para nos oferecer.

Vítor Pavão  dos Santos
Texto e Titulos
Jornal Se7e
21-02-80


Vera Miles, Barbara Bel Geddes, Carla Gravina, Silvana Mangano e Jeanne Moreau em Cinco 

Mulheres Marcadas (Five Branded Women, 1960) de Martin Ritt. Austria. 1959. Gjon Mili.




Silvana Mangano (1930-1989). Jugoslávia. 1958. Gjon Mili.




(Fotos LIFE Archive, excepto a primeira)
Citizen Grave - Para quase todosodos

DESABAFOS


  1. FOI DE CERTEZA CHEIO DE ESPERANÇA QUE CAMÕES ESCREVEU -DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA -  MAS COM QUE GENTE SE PODE CONTAR PARA QUE POSSAMOS AMAR A NOSSA PÁTRIA !?

    CAMÕES ENGANOU-SE, ELE PRÓPRIO MORREU PRATICAMENTE À FOME

    E NÓS ETERNOS POETAS VAMOS NO MESMO CAMINHO

    O POEMA AGORA É - PÁTRIA MADRASTA !
    NÃO DEIXO DE REPARAR QUE O VATICANO TEM UNS BELOS "FILTROS" NA ESCOLHA DE GENTE LÁ PARA O LADO DOS HOMENS COM SAIAS.

  2. SE ELES METESSEM LÁ UM PAPA CAVACO, UMA IMINÊNCIA ISALTINO, UM BISPO SÓCRATES, UM CARDEAL COELHO, UM MONSENHOR RELVAS, UM SECRETÁRIO OLIVEIRA E COSTA, O VATICANO JÁ NÃO EXISTIA
    .

Jerónimo de Sousa: Governo madeirense é correia de transmissão das políticas da troika


“A vida está a demonstrar como o Governo Regional se rendeu ao papel de correia de transmissão das políticas da troika externa, rendeu-se à função de mera executante das políticas de destruição e de saque do povo e à região”, afirmou Jerónimo de Sousa.
O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou hoje o Governo Regional da Madeira, liderado pelo social-democrata Alberto João Jardim, de se ter rendido ao "papel de correia de transmissão" das políticas da troika”.

Num jantar, no Funchal, que assinalou os 92 anos do PCP, o líder e deputado comunista acusou o executivo insular de, “tal como o Governo da República”, nada propor exceto “sacrifícios, mais sacrifícios, mais cortes, mais austeridade, numa política de quem não tem saída”.

Jerónimo de Sousa considerou que a população do arquipélago da Madeira é “triplamente roubada”, dado que sofre com os custos da insularidade, com as medidas de austeridade de âmbito nacional que se estendem à região e com o Plano de Ajustamento Económico e Financeiro da região.

“Passado que é um ano de implementação desse programa, os resultados estão à vista, são resultados trágicos”, realçou, referindo que a região tem “a maior taxa de desemprego do país, o maior risco empresarial do país, a maior proporção de falências do país”.

Acresce, ainda, segundo o líder do PCP, “a maior taxa de pobreza, a maior queda de rendimento disponível" ou "a maior redução de investimento dos últimos 30 anos”. “Assim, podemos dizer claramente que com este Governo do PSD/CDS está a acontecer a maior de todas as agressões à autonomia, ao povo e à região”, sustentou, sublinhando, contudo, que o Governo da Madeira “não tem sabido defender os interesses da região e do seu povo”.

Na sequência da dívida pública, na ordem dos seis mil milhões de euros, o Governo da Madeira solicitou em 2011 ajuda financeira ao Estado português, que culminou na assinatura do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro da região a 27 de janeiro do ano passado e de um contrato de financiamento de 1.500 milhões de euros. Este plano determinou, entre outras medidas, o aumento do IVA e de outros impostos.

Governo CDS põe Gaspar debaixo de fogo
O CDS, partido da coligação governativa, volta ao ataque ao ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Um dirigente centrista questiona, em declarações este sábado ao jornal Expresso, para que está a servir o “brutal aumento de impostos” e “sacrifícios”, referindo-se à “porcaria de resultado” que o governante revelou após concluída a sétima avaliação da troika.
CDS põe Gaspar debaixo de fogo
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POLÍTI
Depois da conferência de imprensa do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, para anunciar os resultados da sétima avaliação da troika ao programa de ajustamento, um membro da comissão política do CDS, ouvido pelo semanário Expresso, questionou o porquê do “brutal aumento de impostos” e de “tanto sacrifício” para “esta porcaria de resultado”.


“Num mês, o défice de 2012 passou de 4,9% para 6,6%. E a receita da ANA não explica este desvio colossal”, contesta ao Expresso um dirigente centrista próximo de Portas, acrescentando que “quem deve estar preocupado com Vítor Gaspar não é o CDS [mas o primeiro-ministro] Pedro Passos Coelho”.
Estas declarações de dirigentes do CDS acontecem na véspera de uma reunião da comissão política do partido agendada para o próximo fim-de-semana, mas convocada em Dezembro pelo líder Paulo Portas. No entanto, há quem suspeite, designadamente sociais-democratas, que esta reunião servirá para voltar a deslocar o Governo.
O que é certo é que, perante um quadro macroeconómico muito pior do que o esperado pelas contas do Executivo, as críticas dos centristas ao ministro Vítor Gaspar regressaram e ainda mais duras do que aquando da negociação da Taxa Social Única (TSU) e do Orçamento do Estado, no Outono, lembra o Expresso.