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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013




Redesenho de África: Os EUA apoiam a Al Qaeda no Mali, 

a França vem em socorro


maliMali - O Diário - [Tony Cartalucci] O imperialismo, que nunca olhou a meios, age cada vez mais como um criminoso colectivo global. Todos os instrumentos que possam ser úteis à sua acção são utilizados. A OTAN invade países a pretexto de combater a Al Qaeda. E simultaneamente apoia e serve-se da Al Qaeda, desde o Mali até à Síria.

Um diluvio de artigos foi rapidamente posto em circulação com o objectivo de defender a intervenção militar francesa no Mali. "The crisis in Mali: Will French Intervention Stop the Islamist advance?", por exemplo, demonstra que os velhos truques são sempre os melhores e elege a desgastada narrativa da "guerra contra o terrorismo" como fio condutor.

A Time clama que a intervenção intenta deter os "terroristas islâmicos" que querem desestabilizar a África e a Europa. O artigo afirma especificamente que:

"... Existe em França um temor, provavelmente fundado, de que o islamismo radical ameaça a França, porque a maior parte desses islâmicos falam francês e têm parentes em França (algumas fontes de informação de Paris disseram a Time que foram identificados alguns aspirantes a jihadistas que partiram de França e se dirigiram ao norte do Mali para treinar e combater). A Al Qaeda no Magreb islâmico (AQMI), um dos três grupos que integram a aliança islâmica malinense e proporciona à organização a maioria dos seus chefes, disse que a França, enquanto representante das potências ocidentais na região, é o principal objectivo de futuros ataques".

Em contrapartida a Time decidiu não informar os seus leitores de que o AQMI está estreitamente vinculado ao Grupo Líbio de Combate contra os Islâmicos, em cujo nome a França interveio na invasão da Líbia em 2011, proporcionando-lhe armas, treino, forças especiais e uma colaboração aérea de grande importância no apoio que lhe prestou para derrubar o governo líbio.

Se remontarmos a Agosto de 2011, Bruce Riedel, do think tank da Brookings Institution financiada pelo cartel de empresas monopolistas, escreveu: "a Argélia cairá proximamente". De onde se depreendia que o previsível triunfo na Líbia entusiasmaria os elementos radicais argelinos, especialmente os de AQMI. Entre a violência extremista e a perspectiva dos ataques aéreos franceses, Riedel esperava ver cair o governo argelino. Para além disso Riedel sublinhava ironicamente que "a Argélia manifestou a sua preocupação em relação ao problema da Líbia, dado que poderia desembocar no desenvolvimento de um novo porto de abrigo e santuário de Al Qaeda e outros extremistas jihadistas".

De modo que podemos agradecer à OTAN, porque é exactamente nisso que a Líbia se transformou, num santuário da Al Qaeda patrocinado pelo Ocidente (A western sponsored sanctuary for Al Qaeda). A cabeça-de-ponte da AQMI no norte do Mali e agora a implicação directa da França, que conduzirá inevitavelmente o conflito a alastrar ao território argelino. Devemos aqui recordar que Riedel foi um de los autores do texto encomendado ao think tank, ¿Wich Path to Persia? que conspira abertamente no sentido de armar outra organização identificada como terrorista pelo departamento de Estado dos EUA, o Mujahidin-e Khalq (MEK) que semeia conflitos no Irão e ajuda a derrubar o seu governo. Isto demonstra a conspiração para utilizar organizações claramente terroristas, incluindo aquelas identificadas como tal pelo Ministério de Assuntos Exteriores estado-unidenses, com o objectivo de que funcionem como apoios à concretização da agenda da sua política externa.

O analista geopolítico Pepe Escobar identificou uma relação mais ou menos directa entre o grupo islamita que combateu na Líbia e o AQMI num artigo intitulado "Como chegou a Al-Qaeda ao governo em Trípoli", publicado no Asia Times:
"Crucialmente e ainda em 2007 o então número dois de Al Qaeda, Zawahiri, tinha anunciado oficialmente a fusão entre o grupo islamita líbio e Al Qaeda no movimento AQMI. De modo que desde então, para todos os aspectos práticos, o Grupo Islamita Combatente Líbio e a AQMI se converteram num só sob a direcção de Belhaj".
Belhaj, ou seja Hakim Abdul Belhaj, líder do grupo islâmico líbio, dirigiu o derrubamento de Kadhafi com apoio incondicional da OTAN, em armas, financiamento e um reconhecimento diplomático que teve o efeito de afundar o país numa interminável guerra civil entre facções tribais. Esta intervenção teve igualmente como epicentro da rebelião a cidade de Bengasi, que se separou de Trípoli para se converter-se num "emirato semi autónomo". Na última campanha viu-se Belhaj a movimentar-se na Síria, onde reside, na fronteira turco-síria pedindo armas, dinheiro e combatentes para a chamada "Armada Síria Libre" (ASL) sempre sob os bons auspícios e o incondicional apoio da OTAN.

A intervenção da OTAN na Líbia reanimou a organização Grupo Islâmico Combatente Líbio, assinalada como terrorista e filiada a Al Qaeda. "Combateu anteriormente no Iraque e no Afeganistão e na actualidade dispõe de combatentes, armas e dinheiro procedentes da OTAN, desde Mali, a oeste, até à Síria, a leste. O "califado mundial" com o qual os neoconservadores há dez anos assustam as criancinhas ocidentais está a tomar forma através das maquinações que saem da aliança entre os EUA, a Arabia Saudita e Israel, bem como do Qatar, e não do "Islão". Na realidade, os verdadeiros muçulmanos vêm pagando um pesado tributo ao lutar nesta "guerra contra o terrorismo financiada pelo Ocidente".

O Grupo Islâmico Combatente Líbio, que invade o norte da Síria com armas, dinheiro e apoio diplomático francês, e tudo por conta da tentativa da OTAN de mudar este país, fundiu-se oficialmente com Al Qaeda em 2007, no centro de combate contra o terrorismo da Academia militar de West Point (Combating Terrorism Center, CTC).

Por outro lado o CTC, a AQMI e o CIGL não partilham só princípios ideológicos, mas também estratégicos e tácticos. As armas recebidas pelo grupo líbio foram transferidas para a AQMI através das porosas fronteiras saharianas e encontram-se actualmente no norte do Mali.

Efectivamente, a ABC News, no artigo "Al Qaeda Terror Group: We Benefit from Libyan Weapons" informou que "Um importante membro de um grupo terrorista associado infiltrado em Al Qaeda declarou que a organização poderia ter adquirido alguns milhares das poderosas armas que faltavam quando se instalou o caos generalizado na Líbia, o que confirma os receios, já de há muito, de alguns oficiais ocidentais".
"Nós temos sido um dos principais beneficiários das revoluções no mundo árabe" disse na quarta-feira um dos chefes de AQMI, Mokhtar Belmohktar, à agência de imprensa mauritana ANI : "No que concerne às armas líbias, é algo de natural em tais circunstâncias".
Não é simples coincidência que ao acabar-se o conflito na Líbia tenha surgido outro no norte do Mali. Faz parte de um novo desenho geopolítico premeditado que começou com a revolução líbia e a partir daí, utilizando-a como trampolim, se centra na invasão de outros países como o Mali, a Argélia e a Síria, por meio de terroristas fortemente armados, treinados e financiados pela OTAN.

É provável que a intervenção francesa faça sair do norte de Mali a AQMI e os seus sócios, mas é quase seguro que se retirarão organizadamente para a Argélia. A Argélia foi capaz de deter a subversão nos começos da "Primavera árabe" criada pelos EUA (US-engineered "Arab Springs") em 2011, mas não escapou à atenção do Ocidente, que está a tratar de transformar a região instalando-se em Africa para desalojar Pequim e Moscovo, usando uma esquizofrénica rede política, colocando em jogo os terroristas para provocar um casus belli e ter assim um pretexto para invadir, e ter igualmente à sua disposição, para o poder fazer, uma fonte mercenária quase invencível.

Original em: http://www.mondialisation.ca/redessiner-lafrique-les-etats-unis-appuient-al-qaida-au-mali-la-france-vient-a-sa-rescousse/5319230
Note: Tony Cartalucci is a geopolitical researcher and writer based in Bangkok, Thailand. His work aims at covering world events from a Southeast Asian perspective as well as promoting self-sufficiency as one of the keys to true freedom.

Nova centelha


Análises sobre o próximo papa

Pega de surpresa, a imprensa europeia tenta entender por que Bento XVI adiantou seu adeus. Uma das possiblidades aventadas é o levante de movimentos católicos conservadores e rentáveis como Legionários, Opus Dei e Comunhão e Liberação, que agiram contra um papa que ameaçava ‘limpar a igreja’, ainda que moderadamente, daqueles que cometeram delitos financeiros ou eram advogados de pedófilos. A análise é de Martín Granovsky, do Página 12

Martín Granovsky – Página 12

A versão italiana do ‘The Huffington Post’ informa sobre a bolsa de apostas. A agência Paddy Power põe a Itália na frente da África, com uma vantagem de 2,75 a 3,00. Em matéria de nomes, o nigeriano Francis Arinze está cabeça a cabeça com o ganês Peter Turkson e o canadense Marc Ouellet. 

Dos italianos, o melhor ranqueado é o arcebispo de Milão Angelo Scola, seguido pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano. Já há também aposta sobre qual nome será escolhido pelo sucessor de Bento XVI: Pedro, Pio, João Paulo, Juan e Bento.

No ‘The Guardian’, o correspondente Sam Jones sugere cinco temas que deveriam entrar na agenda do próximo pontificado. Primeiro, métodos anticoncepcionais e aids. Diz que, por um lado, Bento XVI conseguiu se diferenciar de seus antecessores quando, três anos atrás, disse que o uso de preservativos era aceitável em ‘certos casos’. Como quando uma prostituta o usa para se proteger da aids. 

Por outro lado, evitou tratar da relação entre preservativo e métodos anticoncepcionais e também como evitar gravidez em caso de relação sexual por puro prazer. Em 2009, durante viagem à África, Bento XVI havia dito que o preservativo era um ponto chave na luta do continente contra a aids. 

O segundo ponto para uma futura agenda são os casos de abuso sexual dentro da Igreja, um que explodiu publicamente durante o atual pontificado e que ainda não foi resolvido. Ainda que tenha falado de vergonha e delitos inqualificáveis cometidos por sacerdotes pedófilos, muitos críticos avaliam que o Vaticano ainda falta com transparência sobre as investigações em curso, sustenta o jornalista do ‘The Guardian’. 

O terceiro tema da agenda seria composto pela questão da homossexualidade e o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Em sua última mensagem de Natal, o papa disse que as atitudes modernas àquele respeito constituem um ataque contra a verdadeira estrutura da família, ou seja, pai, mãe e filhos.

O quarto tema é o aborto. O canadense Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos e que pode ser considerado o terceiro cargo em importância no Vaticano, após o papa e o secretário de Estado, disse em Quebec que interromper a gravidez é um delito moral inclusive em caso de estupro.

Sobre o quinto tema, que trata do papel das mulheres na Igreja, o papa disse em Roma, em 2007, que ‘Jesus elegeu 12 homens e pais da nova Israel’. E, em abril de 2012, advertiu os católicos partidários de ordenar mulheres ou contrários ao celibato.

O teólogo Juan José Tamayo escreveu no ‘El País’ que Bento XVI foi ‘um grande inquisidor’. “O papa não soube dar resposta aos mais de 1,2 bilhão de católicos que existem no planeta e que buscavam resposta a questões como a liberdade de expressão e acadêmica, e ainda limitou o pensamento crítico da Igreja”, apontou. 

“O maior problema é a pedofilia. Uma questão que tem sido o maior escândalo na história do cristianismo e que explodiu em suas mãos. No princípio, impôs o silêncio quando era presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Depois, tomou medidas tímidas, tem aplicar o determinado pelo direto canônico e sem colaborar com tribunais civis”, concluiu Juan José Tamayo.

Também no ‘El País’, Miguel Mora escreveu uma coluna intitulada “Os movimentos ultracatólicos ganham a partida”. O argumento é que Bento XVI tentou fazer uma limpeza, mas foi débil ou estava pouco convencido dos problemas. Comentou sobre Ratzinger: “O ortodoxo cardeal alemão tem sido durante seu mandato um papa solitário, intelectual, fraco e arrependido pelos pecados e os delitos (...) rodeado por lobos ávidos por riqueza, poder e imunidade”.

E continuou: “A Cúria formada nos tempos de João Paulo II era uma reunião do pior de cada diocese, desde responsáveis por evasão fiscal a advogados de pedófilos, passando por contrarrevolucionários latino-americanos e fundamentalistas da pior espécie. Essa Cúria, digna de ‘O Poderoso Chefão III’, sempre viu com maus olhos a tentativa de Ratzinger de fazer uma limpeza a fundo, enquanto os movimentos mais fortes e rentáveis, como os Legionários, Opus Dei e Comunhão e Liberação trabalhavam contra qualquer vislumbre de regeneração”. Scola, o arcebispo de Milão, pertence justamente à Comunhão e Liberação.

Vittorio Zucconi, no seu blogue do diário italiano la Repubblica, perguntou se Bento XVI fez um gesto de humildade ou o contrário: um gesto de alguém que quer evitar a agonia de uma exposição pública. E Zucconi resgata um ponto. Sustenta que com sua renúncia o papa “criou um precedente na história moderna que nenhum de seus sucessores poderá ignorar, e ficará aberta a todos, e sempre, a possibilidade de ir embora por motivos pessoais, de saúde ou erros”. Segundo essa linha, “todos os homens são falíveis”. E, como o papa é um homem, “o papa é falível”.


Nova centelha
O QUE ME VEM Á CABEÇA 

AO LER AGORA QUE A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA ULTRAPASSOU COMERCIALMENTE OS ESTADOS UNIDOS...

lembrei-me dum livro já com muitos anos que foi escrito por um antigo embaixador de França na China, chama-se "Quando a China despertar... o mundo tremerá" e é da autoria de Alain Peyrefitte. Foi no seu tempo um livro premonitório que nos dá uma visão daquilo que viria mais tarde a acontecer e que nós hoje conhecemos muito bem. É a invasão do comércio chinêsque vai afastando o comércio tradicional que se vai implementando e fortalecendo. O mesmo se passa noutros países e não só europeus, como é o caso de África, nomeadamente Angola, onde já existe uma forte comunidade chinesa e onde o governo chinês tem injectado grandes somas de dinheiro. São contributos para um melhor conhecimento mútuo dum país que cada vez mais se vai afirmando no mundo.
A.G.

Baile de Máscaras à escala global



O caso da carne de cavalo encontrada nos produtos da empresa sueca Findus, ilustra de forma clara como a globalização, em vez de servir os interesses dos consumidores, é um belo pretexto para ocultar vigarices.
Para se perceber melhor o que se passa explique-se o que aconteceu:
Uma empresa sueca encomenda as suas refeições ultracongeladas a uma empresa francesa, que pede a uma empresa cipriota que lhe forneça a carne. Esta, por sua vez, subcontrata uma empresa holandesa, que adquire o produto na Roménia. 
Consumidores de todo o mundo compram o produto que, seguindo as regras da União Europeia, informa os consumidores, na rotulagem, que está a comprar um produto com genuína carne de vaca.
Numa demonstração de pieguice ( como se desconfiasse que aquilo fosse carne), um laboratório do Reino Unido descobre que o produto adquirido pelos consumidores não contém carne de vaca, mas sim de cavalo. 
Começam a procurar-se os culpados, aplicando as regras  da rastreabilidade, que permite seguir o rasto  dos produtos alimentares e seus componentes, até à origem. 
Conclusão: os romenos são os culpados, porque foram eles que venderam a carne. Ninguém se espanta, porque os gajos são ciganos e "todos sabem que essa gente é vigarista". De qualquer modo, os consumidores podem estar descansados, porque a carne de cavalo não faz mal à saúde, avisam as autoridades alimentares da União Europeia.
Os consumidores tranquilizam-se com a explicação e ficam felizes porque foram encontrados os culpados. MENTIRA! 
Mesmo partindo do princípio que a carne de cavalo foi adquirida na Roménia, houve negligência na fiscalização dos intermediários: cipriotas,holandeses,franceses e também suecos são de igual modo responsáveis, pois não respeitaram as regras da União Europeia que impõe a obrigatoriedade de fiscalização do produto. Claro que culpar os romenos é mais fácil, porque a Roménia é o elo mais fraco nesta cadeia. Os suecos e holandeses calvinistas estão acima de qualquer suspeita, até porque são loiros e ricos. Com os franceses é melhor não criar problemas e, se for preciso arranjar outro culpado para acalmar a opinião pública, os cipriotas estão mesmo a jeito...
EM PORTUGAL tudo seria mais fácil. Detectada a fraude, logo um ministro viria desvalorizar a questão dizendo que estando nós a viver em época carnavalesca,  afinal se tratava de vacas mascaradas de cavalos, pelo que não há razão para alarme. E siga o baile... de máscaras!


Crónicas do rochedo


Fraude da carne de cavalo motiva reunião de ministros europeus


Fraude da carne de cavalo motiva reunião de ministros europeus
legenda da imagem
Jean François Frey, EPA

O escândalo da carne de cavalo vendida como se fosse vaca em vários países da UE levou a que fosse agendada uma reunião urgente de ministros europeus para quarta-feira. A França anunciou, entretanto, o reforço dos controles sobre a indústria da carne e pescado e o governo britânico pondera suspender a importação de produtos de carne da Europa continental. Em causa estão vários produtos ultracongelados onde foram detetadas grandes percentagens de carne de cavalo, embora as etiquetas dissessem que eram de origem bovina.

Quarta-feira, os ministros europeus relacionados com o dossier vão discutir em Bruxelas “as medidas necessárias a nível da União Europeia” para lidar com a situação, lê-se num comunicado divulgado pela presidência irlandesa da UE.

O ministro francês da Agricultura manteve esta segunda-feira uma reunião de crise com profissionais do setor agroalimentar e das carnes.

Stephane le Foll disse que a França vai “fazer pressão ” no sentido de uma melhor etiquetagem dos produtos e defendeu que a Comissão Europeia, que “deve fazer um relatório no final do ano” deveria “ir mais rápido “, tendo em consideração o escândalo que foi descoberto na semana passada no Reino Unido.
França reforça mecanismos de controle
Paris não esperou que fossem tomadas decisões a nível europeu. O ministro responsável pelo Consumo, Benoît Hamon, disse que o governo decidiu proceder a um “reforço imediato” dos controles de repressão de fraudes e garantiu que as investigações se vão estender para além das duas empresas francesas mais diretamente implicadas no escândalo, Spanghero e Comigel .

Segundo Benoît Hamon, todo o setor da carne e do peixe vai ser colocado “sob vigilância” ao longo de 2013.

“Não se trata de ter um agente do departamento antifraudes atrás de cada peça de carne, mas vamos proceder a um inventário extenso de todos os produtos sobre os quais existe uma suspeita”, disse este responsável governamental, citado pela France Press.

O próprio presidente François Hollande tinha denunciado algum tempo antes “os incumprimentos”, os “aproveitamentos”, e “os comportamentos inadmissíveis”, que este caso envolve.

“Devem ser decretadas sanções administrativas e penais se o dossier assim o justificar” disse o chefe de Estado francês.
Grã-Bretanha pondera decretar moratória às importações
Na Grã-Bretanha, onde o escândalo assumiu proporções maiores, o ministro do ambiente, Owen Paterson, avisou que os consumidores devem estar preparados para “mais notícias más” nos próximos dias.

Isto porque são aguardados para esta semana os resultados dos testes efetuados às carnes suspeitas, para determinar se esta contém “produtos nocivos para a saúde humana” .

Um dos testes que está a ser efetuado destina-se a detetar a presença de fenilbutazona , um anti-inflamatório usado em veterinária, para tratar dores e febre em cavalos, mas que, em grandes doses, por um tempo prolongado, pode provocar anemia aplástica e outros problemas de saúde nos seres humanos.

No parlamento britânico alguns deputados estão a pressionar o governo para que decrete imediatamente uma moratória na importação de carnes da Europa continental, enquanto se espera o resultado dos testes que só deverão estar prontos na sexta-feira.
Regras do Mercado Único não permitem proibição de importações
O ministro britânico do ambiente garante que “tomará todas as ações que forem necessárias”, se os testes demonstrarem que a carne de cavalo, vendida de forma fraudulenta em produtos ultracongelados no Reino Unido, atenta contra a saúde dos consumidores.

Owen Paterson diz que as regras do Mercado Único Europeu não lhe permitem proibir importações, mas que está contemplada a possibilidade de uma moratória, no caso de existir uma emergência de saúde pública. Foi o que aconteceu nos anos 90 quando as importações da Grã-Bretanha para o resto da UE estiveram suspensas, depois da crise da BSE [encefalopatia espongiforme bovina, vulgarmente conhecida por doença das vacas loucas].

“Trata-se de um caso de fraude e conspiração contra o público. De uma ação criminosa, ao substituir um material por outro”, disse.

O ministro garantiu que vai discutir a questão com os restantes colegas da União Europeia, e salientou que já estão em curso ações legais nos países da Europa continental.

“Espero que esses processos legais permitam desmascarar os criminosos, porque é completamente inaceitável que os consumidores britânicos adquiram um produto com uma etiqueta a dizer que é uma coisa, quando de facto é outra”, acrescentou.
Circuito de abastecimento torna difícil apurar culpados
Até agora ninguém identificou nenhum risco para a saúde dos produtos contaminados, mas o caso está a perturbar os consumidores por toda a Europa, particularmente na Irlanda e na Inglaterra, países onde comer carne de cavalo é praticamente tabu e onde se detetaram inúmeros casos relacionados com a fraude em produtos como lasanhas, canelone e mussaka

A motivação do caso parece ser essencialmente financeira já que a carne de cavalo é substancialmente mais barata do que a de vaca. As investigações da autoridade francesa de segurança alimentar puseram à luz do dia o tortuoso percurso que estes produtos fazem no seio dos 27.

Exemplo disso é a multinacional Findus, uma das empresas que mais viu a sua reputação afetada  pelo escândalo. Em alguns dos produtos ultracongelados à venda no Reino Unido foram identificados teores elevados de carne de cavalo.

A Findus comprou a carne a uma companhia baseada no nordeste de França, a Comigel, que abastece fornecedores em 16 países com produtos semelhantes. Os produtos identificados nas Ilhas Britânicas vinham de uma fábrica da Comigel no Luxemburgo.

A Comigel tinha adquirido a carne a uma companhia denominada Spanghero no sudoeste de França, que por sua vez é uma subsidiária de outra firma chamada Poujol.

A França diz que a Poujol, adquiriu a carne congelada a um comerciante em Chipre, que por sua vez subcontratou a ordem a um comerciante na Holanda, o qual foi abastecer-se a dois matadouros situados na Roménia.

Na sequência do escandalo, a Findus retirou do mercado do Reino Unido e da França os seus produtos ultracongelados de carne. Os supermercados franceses também retiraram das prateleiras  os produtos deste género, mesmo os de marca própria.
Firmas atingidas trocam acusações
Entretanto as acusações voam. Enquanto a Holanda investiga se houve alguma companhia do país envolvida no caso, a Findus declarou que vai processar a Comigel por quebra de contrato e fraude.

Segundo o presidente da Findus Nordic, o contrato entre a Findus e a Comigel estipulava que a carne para a lasanha devia vir da Alemanha, da França ou da Áustria. Mas não foi isso o que aconteceu.

“Os clientes devem poder confiar na declaração de conteúdos”, disse Jari Latvanen , “vamos iniciar uma forte ação legal para garantir que todos os culpados neste assunto serão castigados. A nossa reputação foi prejudicada e faremos tudo para restabelecer a confiança”.

Esta segunda-feira, os agentes da fiscalização francesa antifraudes inspecionaram as instalações da Comingel em Metz e da Spanghero em Castelnaudary.

A Spanghero, subsidiária da Pujol que comprou a carne em questão, garante que o que comprou estava rotulado de carne de vaca proveniente da Roménia e ameaçou processar o fornecedor.

O presidente da Associação das Indústrias Agroalimentares de França, Jean René Buisson, fala de crime de confiança. “A Findus , a principal afetada, recebeu carne com um certificado que indicava carne de vaca. Trata-se de um problema de vigarice”, declarou.
Roménia protesta e rejeita acusações
À medida que todos os elos desta longa cadeia vão tentando desviar as culpas, os dedos acusadores viram-se para o elo final do caso, a Roménia, o que já levou este país a protestar vigorosamente.

O governo de Bucareste diz que ainda não surgiram provas de que a carne que saiu dos fornecedores romenos estivesse falsamente identificada como sendo de bovino e não de equídeo.

“De todos os dados que temos até ao momento não existe nenhuma violação das regras europeias cometidas por companhias da Roménia ou em território romeno,” disse o primeiro-ministro romeno
Vítor Ponta que se declarou “muito zangado” por as culpas estarem a ser atiradas para o seu país.

Segundo o chefe do governo romeno, “é muito claro que a companhia francesa não tinha qualquer contrato direto com a companhia romena e tem de se apurar onde é que a fraude foi cometida e quem é o responsável”.

O presidente da Roménia, Traian Basescu, disse ontem que o seu país poderá, potencialmente, enfrentar restrições às exportações e perder credibilidade “por muitos anos”, se se provar que os matadouros romenos estão na origem do problema. “Espero que isso não aconteça”, acrescentou.