AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


Deputado rebelde do CDS defende-se com carta de Portas
O deputado do CDS/Madeira, Rui Barreto, que ‘furou’ a disciplina partidária, votando contra a proposta de Orçamento do Estado para este ano, lembra que o acordo de coligação PSD/CDS não abrange as regiões autónomas e defende-se com a carta que o líder do partido, Paulo Portas, enviou aos militantes e na qual afirmava que “o nível de impostos já atingiu o seu limite”.
Deputado rebelde do CDS defende-se com carta de Portas
DR
POLÍTICA
O Diário de Notícias (DN) teve acesso aos documentos do processo interno do CDS ao deputado madeirense Rui Barreto, que votou contra a proposta de Orçamento do Estado. Neste processo, revela o jornal, o líder Paulo Portas é testemunha de acusação, enquanto o líder do CDS/Madeira, José Manuel Rodrigues, é de defesa.

Mas, em 11 páginas, o deputado fundamenta a sua tese de defesa no ideário centrista, nomeadamente na carta enviada pelo líder Paulo Portas aos militantes, por ocasião do 38º aniversário do partido, e na qual alertava que o “nível de impostos” já tinha atingido “o seu limite”.Daí em diante foram várias as tentativas para demover o deputado e muitos os intervenientes, desde Nuno Melo, passando por Hélder Amaral até Artur Lima. Mas dado o insucesso, o deputado madeirense foi acusado de violar “frontalmente” os estatutos, regulamento e deliberação dos órgãos eleitos do CDS.
Rui Barreto salienta também que o acordo de coligação governativa PSD/CDS não vincula o CDS das regiões autónomas, acrescentando porém que votou contra em “coerência com as posições do partido em matéria fiscal e de recusa pela penalização dos contribuintes e pensionistas”.

inquilino - poema de António Garrochinho


PÃ - MITOLOGIA GREGA


Pã
, cujo nome em grego significa "tudo", assumiu de certa forma o caráter de símbolo do mundo pagão e nele era adorada toda a natureza.
Na mitologia grega,  era o deus dos caçadores, dos pastores e dos rebanhos.
Representado por uma figura humana com orelhas, chifres, cauda e pernas de bode, trazia sempre uma flauta, a "flauta de Pã", que ele mesmo fizera, aproveitando o caniço em que se havia transformado a ninfa Siringe.
Sobre seu nascimento há várias versões: dão-no como filho de Zeus ou de Hermes, também como filho do Ar e de uma nereida, ou filho da Terra e do Céu.
Teve muitos amores, os mais conhecidos com as ninfas Pítis e Eco, que, por abandoná-lo, foram transformadas, respectivamente, em pinheiro e em uma voz condenada a repetir as últimas palavras que ouvia.
Segundo a tradição, seu culto foi introduzido na Itália por Evandro, filho de Hermes, e em sua honra celebravam-se as lupercais.
Em Roma, foi identificado ora com Fauno, ora com Silvano.
A respeito de , Plutarco relata um episódio de enorme repercussão em Roma ao tempo do imperador Tiberius.
O piloto Tamo velejava pelo mar Egeu quando, certa tarde, o vento cessou e sobreveio longa calmaria. Uma voz misteriosa chamou por ele três vezes.
Aconselhado pelos passageiros, Tamo indagou à voz o que queria, ao que esta lhe ordenou que navegasse até determinado local, onde deveria gritar:
"O grande Pã morreu!"
Tripulantes e passageiros persuadiram-no a cumprir a ordem, mas quando Tamo proclamou a morte de  ouviram-se gemidos lancinantes de todos os lados.
A notícia se espalhou e Tiberius reuniu sábios para que decifrassem o enigma, que não foi explicado.
A narrativa de Plutarco tem sido interpretada como o anúncio do fim do mundo romano e do advento da era cristã.
Fonte: www.nomismatike.hpg.ig.com.br
Pã

Nascimento de Pã

, antiquíssima divindade pelágica especial à Arcádia, é o guarda dos rebanhos que ele tem por missão fazer multiplicar. Deus dos bosques e dos pastos, protetor dos pastores, veio ao mundo com chifres e pernas de bode.
 é filho de Mercúrio.
Era assaz natural que o mensageiro dos deuses, sempre considerado intermediário, estabelecesse a transição entre os deuses de forma humana e os de forma animal. Parece, contudo, que o nascimento de  provocou certa emoção em sua mãe, assustadíssima com tão esquisita conformação; e as más línguas pretendem até que, quando Mercúrio apresentou o filho aos demais deuses, todo o Olimpo desatou a rir. Mas como é provável que haja nisso um pouco de exagero, convém restabelecer os fatos na sua verdade, e eis o que diz o hino homérico sobre a estranha aventura. "Mercúrio chegou à Arcádia fecunda em rebanhos; ali se estende o campo sagrado de Cilene; nesses páramos, ele, deus poderoso, guardou as alvas orelhas de um simples mortal, pois concebera o mais vivo desejo de se unir a uma bela ninfa, filha de Dríops. Realizou-se enfim o doce o doce himeneu. A jovem ninfa deu à luz o filho de Mercúrio, menino esquisito, de pés de bode, e testa armada de dois chifres. Ao vê-lo, a nutriz abandona-o e foge. Espantam-na aquele olhar terrível e aquela barba tão espessa. Mas o benévolo Mercúrio, recebendo-o imediatamente, pô-lo ao colo, rejubilante. Chega assim à morada dos imortais ocultando cuidadosamente o filho na pele aveludada de uma lebre. Depois, apresenta-lhes o menino. Todos os imortais se alegram, sobretudo Baco, e dão-lhe o nome de , visto que para todos constituiu objeto de diversão."
As ninfas zombavam incessantemente do pobre  em virtude do seu rosto repulsivo, e o infeliz deus, ao que se diz, tomou a resolução de nunca amar.
Mas Cupido é cruel e afirma uma tradição que , desejando um dia lutar corpo a corpo com ele, foi vencido e abatido, diante das ninfas que se riam.

Pã e Syrinx

Pã
Pã e a ninfa Sirinx
Um dia percorria Pã o monte Liceu, segundo o seu hábito, e encontrou a ninfa Syrinx que jamais quisera receber as homenagens das divindades e que só tinha uma paixão: a caça.
Aproximou-se dela, e como nos costumes campestres se vai imediatamente ao objetivo, sem nenhum artifício, sem nenhum desvio, disse-lhe:
"Cedei, formosa ninfa, aos desejos de um deus que pretende tornar-se vosso esposo." (Ovídio).
Queria falar mais; mas Syntrix, pouco sensível àquelas palavras, deitou a correr, e já chegara perto do rio Ladon, seu pai, quando, vendo-a detida, rogou às ninfas, suas irmãs, que a acudissem. , que lhe saíra no encalço, quis abraçá-la, mas em vez de uma ninfa, só abraçou caniços. Suspirou e os caniços agitados emitiram um som doce e queixoso. O deus, comovido com o que acabava de ouvir, pegou alguns caniços de tamanho desigual e, unindo-os com cera, formou a espécie de instrumentos que se chama syrinx e que constitui a flauta de sete tubos, transformada em atributo de .

Pítis Metamorfoseada em Pinheiro

Com efeito, em breve, os melodiosos acordes fazem acorrer de toda parte as ninfas que vêm dançar em volta do deus chifrudo. A ninfa Pítis parece tão enternecida que  renasce com a esperança e crê que o seu talento faz com que seja esquecido o rosto. Sempre tocando a flauta de sete tubos, começa a procurar lugares solitários e percebe, finalmente, um rochedo escarpado no alto do qual resolve sentar-se. Pítis segue-o.
Para melhor ouvi-lo, aproxima-se cada vez mais, tanto que , vendo-a bem perto, julga o momento oportuno para lhe falar. Não sabia o infeliz que Pítis era amada por Bóreas, o terrível vento do norte, que naquele instante soprava com grande violência. Vendo a amante perto de um deus estranho, Bóreas foi acometido de um acesso de ciúme furioso, e, não se contendo, soprou com tal impetuosidade que a ninfa caiu no precipício, e despedaçou contra as pedras o formoso corpo, imediatamente transformado pelos deuses em pinheiro.
Foi depois disso que essa árvore, que traz o nome da ninfa (Pítis significa, em grego, pinheiro) foi consagrada a , e é por esse motivo que nas representações figuradas, a cabeça de  está muitas vezes coroada de ramos de pinheiro.

Pã e a Ninfa Eco

O destino de  era amar sempre sem que nunca lograsse unir-se criatura amada. Continuando a fazer música na montanha, ouviu, saída do fundo do vale, uma terna voz que parecia repetir-lhe os acordes. Era a voz da ninfa Eco, filha do Ar e da Terra. Desceu, então, para procurar a que lhe havia respondido, sem nunca poder atingi-la, embora ela lhe respondesse constantemente; a cruel ninfa parecia rir-se dele. Mas, francamente, ninguém a pode censurar por isso.
Quando se ama o belo Narciso, como é possível encarar o velho Pã?
 é sempre velho, apesar de ter tido por pai Mercúrio, que é eternamente jovem.

Pã, Filho de Mercúrio

Um dia o pai e o filho encontraram-se:
Pã. - Bom dia, Mercúrio, meu pai!
Mercúrio. - Bom dia. Como dizes que sou teu pai?
Pã. - Não és Mercúrio, o deus de Cilene?
Mercúrio. - Sim. Como és meu filho?... Ah, por Júpiter! Lembro-me agora da aventura! Quer dizer que eu, que tanto me orgulho desta minha beleza, e que não tenho barba, devo ser chamado teu pai! Todos se riram de mim, por ser meu filho um sujeito tão bonito assim!
Pã. - Mas eu não vos desonro, meu pai. Sou músico e toco muito bem flauta. Baco não dá um passo sem mim. Escolheu-me por amigo e companheiro das danças, e sou eu quem lhe conduz os coros.
Mercúrio. - Pois bem, Pã (creio que é esse o teu nome), sabes como podes ser-me agradável? E queres, além disso, conceder-me um favor?
Pã. - Ordenai, meu pai, e nós veremos.
Mercúrio. - Vem cá, dá-me um abraço. Mas cuida de não me chamares de pai na presença de estranhos. (Luciano).

Pã, Divindade Pastoril

Como símbolo da obscuridade,  causa nos homens os terrores pânicos, isto é, sem motivo. Na batalha de Maratona, inspirou aos persas um desses terrores súbitos, o que contribuiu bastante para assegurar a vitória aos gregos. Foi por causa desse auxílio que os atenienses lhe consagraram uma gruta na Acrópole.
Todavia, a princípio,  nada mais era do que a divindade pastoril dos arcádios que o invocavam para que lhes multiplicasse os rebanhos.
"Glauco e Coridon, que conduzem juntos os seus rebanhos de bois pelas montanhas, ambos arcádios, imolaram a , guarda do monte Cilene, a novilha de lindas pontas; e as pontas, de doze palmas, prenderam-nas em sua honra, mediante um longo cravo, ao tronco deste plátano copado, bela oferta ao deus dos pastores." (Antologia).
As imagens primitivas de  eram providas de um símbolo cuja crueza significativa nada possuía naquele tempo de licencioso. O seu culto, que posteriormente se sumiu diante do das divindades do Olimpo, é extremamente antigo na Arcádia e muito certamente anterior a qualquer civilização.
"Quando a educação do gado não prosperava, diz Creuzer, os pastores arcádios golpeavam os ídolos do deus Pã, costume que prova a sua profunda barbaridade em matéria de religião."

Pã, deus Universal

Sob a influência da poesia órfica, o deus Pã tornou-se o símbolo panteísta fundado na interpretação do seu nome: a flauta de sete tubos representa, então, as sete notas da harmonia universal, e a fusão das formas animais com as formas humanas corresponde ao caráter múltiplo da vida no universo. É sob tal aspecto que  nos surge numa linda composição de Gillot. Essa imagem corresponde à idéia que da antigüidade tinha o século dezoito. Toda natureza está em festa diante do deus que simboliza a universalidade dos seres; mas tal festa, tão repleta de vida e de movimento, nos lembra as quermesses flamengas muito mais que os baixos-relevos antigos.
Sob o reinado de Tibério, estando um navio ancorado, ouviu-se uma voz misteriosa que gritava: "O grande deus Pã morreu!" Desde então, nunca mais se ouviu falar dele.

Um Pouco mais de Pã

O deus , assim chamado, diz-se da palavra grega pã, que quer dizer tudo, era filho, segundo uns, de Júpiter e da ninfa Timbris, segundo outros de Mercúrio e da ninfa Penélope. Dizem outras tradições que era filho de Júpiter e da ninfa Calisto, ou talvez do Ar e de uma Nereida, ou finalmente do Céu e da Terra.
Todas essas diversas origens têm uma explicação, não só no grande número de deuses com esse nome, mas ainda nas múltiplas atribuições que a crença popular emprestava a essa divindade. O seu nome parecia indicar a extensão do poder, e a seita dos filósofos estóicos identificava  com o Universo, ou ao menos com a natureza inteligente, fecunda e criadora.
Mas a opinião comum não se elevava a uma concepção tão geral e filosófica. Para os povos, o deus  tinha um caráter e uma missão sobretudo agrestes. Se nos mais remotos tempos ele havia acompanhado os deuses do Egito, na sua expedição das Índias, se tinham inventado a ordem de batalha e a divisão das tropas em ala direita e em ala esquerda, o que os gregos e os latinos chamavam os cornos de um exército, se era mesmo por essa razão que o representavam com chifres, símbolo da sua força e da sua invenção, a imaginação popular, desde logo tendo restringido e limitado as suas funções, havia-o colocado nos campos, entre os pastores e os rebanhos.
Era principalmente venerado na Arcádia, região das montanhas, onde proferia oráculos. Em sacrifício ofereciam-lhe mel e leite de cabra. Celebravam-se em honra sua as Lupercais, festas que depois se espalharam na Itália, onde o árcade Evandro levou o culto de. Representam-no ordinariamente muito feio, com os cabelos e a barba descuidados, com chifres, e corpo de bode da cintura para baixo, enfim, pouco diferente de um fauno ou de um sátiro.
Muitas vezes empunha um cajado e uma flauta de sete tubos que se chama a flauta do , porque se diz que foi ele o inventor, graças metamorfose da ninfa Sirinx em juncos do Ladon.
Viam-no também como o deus dos caçadores; quando ia à caça, mais do que dos animais ferozes era o terror das ninfas, a quem perseguia com os seus ardores amorosos. Está sempre atrás de emboscadas atrás dos rochedos e das moitas; para ele o campo não tem mistérios. Foi por isso que descobriu e revelou, a Júpiter, o esconderijo de Ceres, depois do rapto de Prosérpina.
 foi muitas vezes confundido na literatura latina com Fauno e Silvano. Muitos autores os consideravam como um só divindade com diferentes nomes. As Lupercais eram mesmo celebradas em tríplice honra desses gênios.
Entretanto  é o único de quem se fez alegoria e que foi considerado como um símbolo da Natureza, conforme a significação do seu nome. Dizem os mitólogos que os seus chifres representam os raios do Sol; a vivacidade de sua tez exprime o fulgor do céu; a pele de cabra estrelada que usa sobre o estômago representa as estrelas do firmamento; enfim os seus pés e as suas pernas eriçados de pêlos designam a parte inferior do mundo, - a terra, as árvores e as plantas.
Os seus amores suscitaram-lhe rivais, às vezes perigosos. Um deles, Bóreas, quis arrebatar violentamente a ninfa Pitis, que era a Terra, condoída, metamorfoseou em pinheiro.
Eis a razão porque essa árvore, conservando ainda, os sentimentos da ninfa, coroa  com a sua folhagem, enquanto o sopro do Bóreas excita os seus gemidos.
 também foi amado por Silene, isto é, a Lua ou Diana, que para ir visitá-lo nos vales e nas grutas das montanhas, esquece o belo e terno dormilão Endímion.
Sob o reinado de Tibério a fábula do grande  motivou um acontecimento que interessou vivamente a cidade de Roma e que merece ser contado. "No mar Egeu, diz Plutarco, estando uma tarde o navio do piloto Tamo nas imediações de certas ilhas, o vento cessou de repente. Todas as pessoas a bordo estavam bem acordadas, muitas mesmo passavam o tempo bebendo umas com as outras, quando ouviram de súbito uma voz que vinha das ilhas e que chamava Tamo.
Tamo deixou que o chamassem duas vezes sem responder, mas à terceira respondeu. A voz então ordenou-lhe que, ao chegar a um certo lugar, gritasse que o grande  tinha morrido. Não houve ninguém a bordo que não ficasse tomado de terror e de espanto. Deliberou-se se Tamo devia obedecer à voz e Tamo concluiu que, se quando chegassem à paragem indicada, houvesse bastante vento para passar adiante, não era preciso dizer nada; mas que se aí uma calmaria os detivesse, era necessário desempenhar-se da ordem recebida.
Ficou surpreendido da calma que reinava nesse lugar, e imediatamente começou gritar a plenos pulmões: 'O grande Pã morreu!' Apenas cessou de gritar, que todos ouviram de todos os lados queixas e gemidos, como os de muitas pessoas surpresas e aflitas por essa notícia.
Os que estavam no navio foram testemunhas dessa estranha aventura; e o ruído em pouco tempo se espalhou em Roma. O imperador Tibério quis ver a Tamo; viu-o, interrogou, reuniu os sábios para deles saber quem era esse grande Pã, e se chegou à conclusão de que era filho de Mercúrio e de Penélope."
Outros mitólogos, interpretando este fato, preferiram ver nele o fim do antigo mundo romano e o advento de uma sociedade nova.
Fonte: www.mundodosfilosofos.com.br

Physalis, Cremilde, Sidónia e outras mulheres.



a Physalis(1) crescia no vaso de barro. anunciava, em floração de invernos,  o fruto próximo.  de árvore em árvore,  de galho em galho, um bando de pássaros negros abanava as manhãs num chilreio de ignomínias formando uma barreira contra o avanço da tempestade. num trapézio de ensaiar vaidades, subiam de tom, alteavam-se. dispersavam-se, porém,  e depois a chuva retomava o seu curso, espessando a claridade, que, no óbvio, diminuía francamente a visibilidade - o rio era então uma linha leitosa, esbatida contra as margens, contra o cinza matriz do céu.  Sidónia encostou-se à ombreira da casa, embrulhada num robe azul-marinho desbotado como as memórias, e que, àquela hora da manhã, já alta, por sinal, quase meio-dia,  ainda lhe aconchegava o corpo escanzelados de magro. era assim, nos últimos tempos.  sem ocupação conhecida,  e sem projecto de vida, sem quem a olhasse além dos olhos migalhados dos pássaros negros, os tais que povoavam os campos metafóricos da vida,  cada dia se aprontava mais tarde, e, por mais que se tentasse convencer de necessárias ablações, era-lhe, inequívoca,  a urgência reclusa dos espelhos dos olhos. das pupilas, das meninas dos olhos, razão de sua existência. ou não. Sidónia tinha alma de pássaro e estava morta – teria sido talvez por isso que quando os rios se juntaram em forma de cruz, no mouchão fronteiriço, as mulheres sangraram pela primeira vez, e as lezírias foram searas maduras. dizia, para quem a sabia ouvir, da democracia das águas, de como lavavam uns e outros sem atentarem às origens.  lavavan tudo, menos a má língua. 

numa manhã de atrevimento, atreveu-se. olhou de frente o céu, ele mesmo a atrever-se contra o espessamento da chuva, cada vez mais próxima. era a hora de partir.  deitou mão a alguns pertences, colocou a capucha de burel a agasalhar-se nos ombros ossudos, subiu-a ao peito,  determinada,  e  contra o queixo, o mais que pode. resguardada assim do frio da invernia rigorosa, saiu para a rua, sem destino concreto. os passos, firmes, igualmente determinados, chão do seu próprio chão,  encaminharam-na para o palácio da sua meninice. mediu diferenças, se as havia, afinou a esquadria. nada mudara, apenas envelhecera. o bulevar permanecia intacto, o lago dos peixes vermelhos ladeado de árvores,  as laranjeiras em fila indiana formavam uma espécie de praça forte contra a rudeza dos dias;  e que dizer do o ar dali, macio, ungento, a vedar-lhe golpes na própria casca?  aspirou forte.  isso, Sidónia, tu podes, tu consegues. um passo em frente, dois atrás, um de novo, agora…
talvez devesse dar-se ouvidos – reconsiderar o que a movia além dos passos, do verdete dos caminhos. talvez sim, quem sabe? 

igual a sempre, a profusão de folhas e de cores formava com o barro e a bosta dos animais passantes, uma pasta onde se enterrava, prazeirosa, um emplastre calmante a que se dava,  maçarica, esperançosa de que, numa outra vida, alciónica, quiçá, fosse luz além da barra. um dia, quando seguia a bordo para a ilha, o mestre Carlos falara-lhe dos maçariços, "almas-de-mestre", guias,   as estrelas mais brilhantes das Plêiades, segundo o próprio.
e  não era isso que a minava? pólipos alciónicos? como cogumelos, a proliferar nas vísceras... tudo se conjugava, afinal... conversa de merda...  quanto tempo lhe restava? querer alienar o tempo, dissera-lhe, era pois, uma impossibilidade - ele deixa sempre marcas. por isso o remédio,  se é que existe, está em não haver remédio;  enfrentar a besta pelos cornos de forma  austera e ríspida.  as bestas não reconhecem outra linguagem, Sidónia.  o doce já não resolve, sabes? por essas e por outras é que este país está como está, cravejado de diamantes em pano roto. fazes parte da "não pandilha" e resistes, ou, pelo contrário,  optas por chorar por dentro como as grutas, criatura? 
ainda te resta a escolha, o livre arbítrio…
um passo em frente, dois atrás; recorrente  o ditado americano "hell hath no fury like a woman scorned" fustigava-lhe o rosto. tantas as formas de traição e tamanha a sua passividade... ultrajante o frio que a fustigava de vitupérios e injúrias. seria bruxa, pois. que fosse!
_
saiu sem rumo. havia dias,  vários, e  que a Cremilde  seguramente  pareciam   meses,  que perdera a vontade de se mimar, de se cuidar, de ser quem fora, ou cuidara  ser,  até então.  só a espaços, cada vez mais abetesgados e raros,  é que, e  por efeito dos tachos e as panelas, dos cheiros  das compotas fumegantes, ou das sopas, todos eles  fortes e revigorantes, sempre diferentes e feitos a olho, sem medida,  sem regra pelas suas próprias mãos intuitivas, as imagens do futuro se lhe revelavam,  vaporíferas. surgiam-lhe ora  recortadas e  figurativas, ora exactas em geometrias bruxuleantes, contra as paredes.  em ambos os casos despertavam-na para um sentimento a que chamava, plagiando sabe-se lá quem,  de "saudades de futuro". ainda  assim,  conservam-na  numa espécie de banho-maria. 
nesses momentos inalava  profundamente  a vida nas coisas breves, consciente de que   havia, algures, instalada num lugar distante, uma espécie de metanóia que a penitenciava em clausura e a mantinha prisioneira sem pulseira electrónica, sem apelo, sem agravo, na face oculta das coisas e se transformava na expressão corriqueira do seu sentir.  e havia, constatava,  vidente, alhures,  um tanque,  piscina olímpica,  de lágrimas não choradas, que, como um vento ronceiro, lhe impunha a mudança no pensamento...
 talvez devesse pôr-se em causa - reconsiderar o que a movia, além da cor. do imediato do seu mundo de folhas amareladas, dos silêncios e dos uivos dos cães, que, em ablação, a entristeciam, talvez devesse. mas não...
foi mais ou menos por essa altura que se avistaram em espelho. Cremilde baixou os olhos. Sidónia, pelo contrário, não tinha nada a perder, olhou-a bem de frente. nunca se soube de que falaram, mas o que quer que fosse, durou horas, prolongou-se além do inimaginável. o gelo da noite, como farpas, chispavas-lhe os olhos. na calada, Sidónia, envolta em burel,  uivou e era loba, embrenhada na floresta,
Cremilde retornou os passos. na cesta de vime carregava  as laranjas de todos os pomares que nunca haviam sido enxertados, bravos como ela mesma.  sem pressas, abriu um a um cada fruto, retirou-lhes os caroços, colocou-os a salvo, prestativos os sabia em pectina, cola natural e  consistente. e o quanto necessitava dela para realinhar os cacos - a vida era-me de vidro e partiu-se, disse. quanto às laranjas laminou-as em juliana, cobriu-as com água, macerou-as de forma demorada. no fim trancou as portadas.
um luz súbita rasgava o ventre da terra, o leito era-lhe desconforto e ansiedade.
soprou o dia, a noite e a madrugada. por fim, na manhã já alta, banhou-se, aprimorou as vestes, enrolou o cabelo na nuca, colocou a rede e as travessas. teria perto de cem anos. abeirou-se da cozinha, rigorosa nos seus próprios preceitos e princípios, inflexível consigo mesma, retomou a feitura dos dias de laranja amarga...

NOITE.DE.MEL


O crime de ser português

por BAPTISTA-BASTOSHoje
Dizer-se, de Pedro Passos Coelho, que é muito corajoso traduz, unicamente, uma interpretação do homem e da sua circunstância: não traz mal ao mundo, e somente compromete o autor ou os autores da afirmação. Mas a "circunstância" é bem mais pesada e cruel do que a amável frase parece querer significar. Ortega discreteou, em lições proferidas em Lisboa, sobre os factos colaterais por ela obrigados, talvez para explicar a natureza das suas próprias opções. A coragem não é mensurável; porém, a coragem de quem é martirizado adquire uma dimensão mais significativa do que aquela dos dispensados de mau passadio.
Reconhecendo a experiência de uma sociedade como a nossa, em que os conflitos não param de surgir, em extensão cada vez mais fatídica, as vozes de protesto contra esse comportamento, dito "corajoso", assumem a configuração de requisitórios. À lista juntam-se, agora, os nomes de Adriano Moreira, de recato e sensatez reconhecidos, e de Alfredo José de Sousa, provedor de Justiça, cujas funções tem exercido com extrema prudência. O que leva homens como estes a resistir à tentação irresponsável do silêncio é, creio, o apelo à consciência moral. E a noção dos perigos iminentes corridos pela pátria, já coberta de vexames e desfeitas desde que a "coragem" se tornou num veículo de hipocrisia e de dissolvência.
A situação tornou-se insustentável. À dissipação do horizonte secular da esperança sucedeu-se um tempo sombrio, sem promessas nem sonhos. Estamos rodeados de economistas muito sábios, mas que têm reduzido o humano a gélidas equações, como se o poder fosse uma substância e não uma relação de identidade. A vida existe, com particulares qualidades éticas, para lá do discurso subjectivo do "mercado", que desleixa esses valores. Talvez seja oportuno gritar: "Não é só economia, estúpido!"
"Para viver, toda a Terra; para morrer, Portugal." Escreveu o padre António Vieira, moldando o País a uma demonstração de aflitos. Raramente fomos felizes, e a nossa literatura é um desfile de grandes angústias. Porém, sempre obtivemos uma certa independência, caracterizada por compromissos políticos e sociais. Desta vez, o ciclo é mais pesado e trágico. Constitui a expulsão de um todo: físico, espiritual, cultural e moral, como se poderosa amnésia se houvesse abatido nesses modos de entidade. Ser português, para estes senhores da "nova" ideologia, tornou-se num quase pecado que terá de ser punido com rude severidade. É isso que está em causa: a modificação radical do que somos, em nome de uma "normalização" que nos torne iguais aos outros e a todos. Um mundo tenebroso e negro, no qual a dança das culturas e das diversidades é absolutamente proibida. Um mundo dirigido por um poder distante e inacessível. Eis o que se nos propõe.

Na íntegra: mensagem de Cavaco ao Parlamento sobre as freguesias

PÚBLICO

Tendo promulgado, para ser publicado como lei, o Decreto da Assembleia da República nº 110/XII – “Reorganização Administrativa do Território das Freguesias”, entendi dirigir a essa Assembleia, no uso da faculdade prevista na alínea d) do artigo 133º da Constituição, a seguinte mensagem:

Esta lei procede a uma profunda alteração da composição territorial das freguesias, sem paralelo no nosso País nos últimos 150 anos. Surge em cumprimento do disposto na Lei nº 22/2012, de 30 de maio, que estipula a reorganização administrativa do território das freguesias e na sequência do compromisso assumido pelo Governo português no Memorando de Entendimento Sobre as Condicionalidades de Política Económica, assinado em 17 de maio de 2011, de proceder a uma redução significativa das autarquias locais para entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral.

Teve-se ainda presente que a criação, extinção e modificação das autarquias locais é matéria de reserva absoluta de competência legislativa da Assembleia da República.

As alterações agora consagradas no presente diploma e nos respectivos anexos, e a criação de novas freguesias, quer por agregação quer por alteração dos limites territoriais, têm implicações em mais de duas centenas de municípios e reduzem em mais de mil o número de freguesias.

Em face desta alteração profunda no ordenamento territorial do País, com implicações aos mais diversos níveis - e, designadamente, na organização do processo eleitoral -, considero que deverão ser tomadas, com a maior premência, todas as medidas políticas, legislativas e administrativas de modo a que as eleições para as autarquias locais, que irão ter lugar entre Setembro e Outubro deste ano, decorram em condições de normalidade e transparência democráticas, assegurando quer o exercício do direito de voto e de elegibilidade dos cidadãos nos termos previstos na lei, quer a total autenticidade dos resultados eleitorais.

Neste contexto, importa ter presente que, para além da representação política e do serviço público de proximidade que prestam, as freguesias são as unidades administrativas nucleares em que está alicerçada a organização territorial do recenseamento eleitoral.

É, assim, imperioso que a adaptação do recenseamento eleitoral à reorganização administrativa agora aprovada se realize atempadamente e que os cidadãos eleitores disponham, em tempo útil, de informação referente à freguesia onde votam e ao respectivo número de eleitor, de modo a que não se repitam problemas verificados num passado recente, nomeadamente nas eleições presidenciais.

Por outro lado, devem ser tomados em consideração os prazos estipulados pela Lei Orgânica nº1/2001, de 14 de agosto, em particular o disposto no nº 2 do seu artigo 12º, que determina o seguinte: “Para as eleições gerais o número de mandatos de cada órgão autárquico será definido de acordo com os resultados do recenseamento eleitoral, obtidos através da base de dados central do recenseamento eleitoral e publicados pelo Ministério da Administração Interna no Diário da República com a antecedência de 120 dias relativamente ao termo do mandato.”

Refira-se ainda que as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia têm competências próprias na organização do ato eleitoral e que o seu apoio a esse processo, num momento em que a configuração das unidades eleitorais sofre alterações profundas, reveste-se de importância acrescida.

Tendo em conta os pontos atrás referidos, e outros que o Parlamento, o Governo e a Administração venham a considerar relevantes e merecedores de especial atenção, reitero o meu entendimento de que devem ser tomadas todas as medidas adequadas a assegurar a boa organização do processo eleitoral, garantindo, assim, o exercício dos direitos constitucionalmente consagrados e o cumprimento pleno das regras democráticas.

Palácio de Belém, 16 de Janeiro de 2013