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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

CHAROLA ORIENTAL - SANTA BÁRBARA DE NEXE 2013


O RELIGIOSO E O PROFANO - O Algarve e as tradições do Dia de Reis


Janeiro 7th, 2013

***

O dia de Reis é um dia de grande importância dentro da tradição cristã, sendo que em alguns países ainda se celebra neste dia a festa mais importante do Natal. Nesta data, 6 de Janeiro, assinalasse essencialmente a chegada dos três Reis magos a Belém, a oferta dos presentes ao Menino e a retirada por outro caminho.

Outrora, nas zonas marítimas e urbanas do Algarve, eram dadas nesta noite, a de Reis, as prendas de Natal. Como não havia o hábito de se darem brinquedos, as crianças recebiam uma laranja, castanhas ou uma libra de chocolate.

A ceia era semelhante à do Natal e da mesma faziam parte empanadilhas, filhós, bolinhós, fatias douradas com açúcar e canela.

As famílias mais abastadas comiam, nessa noite, sete frutas diferentes: pinhões, nozes, romãs, tangerinas, laranjas, figos e passas. Em algumas zonas era comum o costume das sete romãs, que se haviam guardado para a noite de Reis.

No Barrocal algarvio, assim como em várias zonas do país, era costume deitar três bagos de romã ao fogo, para que este se mantivesse aceso durante o ano; três bagos de romã na bolsa do dinheiro, para que ele não faltasse; três bagos de romã dentro da bolsa do pão ou no saco da farinha, para que não faltasse o pão ao longo do ano.

Na véspera de Reis, depois da ceia, realizava-se o chamado cortejo dos Reis Magos. Três homens trajados de Reis e montados em cavalos, enfeitados com flores de papel, acompanhados por um pequeno séquito, percorriam as ruas das aldeias ou cidades. Cantavam à porta de pessoas abastadas ou amigas. Distribuíam prendas às crianças , ao longo do percurso. Hoje praticamente desaparecido, este costume foi muito popular em Querença, Tavira e Olhão, nas primeiras décadas do século XX.

Um desses cantares, conhecido em toda a serra de Loulé, Tavira e São Brás de Alportel chamava-se “Quem são os três cavaleiros”:



1

Quem são os três cavaleiros,

Ai que fazem

Ai que fazem sombra no mari;

São os três do Oriente,

Ai que Jasus,

Ai que Jasus querem achari.



2

Não procuram por pousada,

Nem por quem

Nem por quem na possa dar;

Procuram por Deus Menino,

Ai onde é

Ai onde é que O vão achar?



3

Foram-n’O achari em Roma,

Ai revestido

Ai revestido num altari;

Missa nova quer dizer,

Ai missa nova

Ai missa nova quer cantari.



4

São João ajuda à missa,

Ai São Pedro

Ai São Pedro muda o missali;

Com dez mil almas à roda.

Ai todas elas

Ai todas elas p’ra comungari.



5

Sua mãe era pediri

Ai seu pai

Ai seu pai era rogari,

Filho meu salvai as almas

Ai levai-as,

Ai levai-as p’ra bom lugari.



6

Trazemos por devoção,

Ai não cantari

Ai não cantari mais qu’é dado,

Venha-nos dar a esmola

Ai em louvor

Ai em louvor de Deus Sagrado.


Este cantar foi recolhido de Filipa de Sousa Faísca, natural de Querença, Loulé, em 1998.

Com o passar do tempo foram surgindo as charolas, grupos principalmente constituídos por mulheres, que trajando de forma tradicional ou mais moderna, cantavam de porta em porta na noite de Reis. O chamado “canto velho” foi sendo substituído pelo “canto novo” bastante mais jocoso, virado mesmo para a chacota. Foram também introduzidos novos instrumentos como os de sopro, a pandeireta e as castanholas que tornavam o “canto novo” muito mais popular e alegre. 

Tipicamente associado a esta data está o bolo-rei, cujas primeiras notícias só surgem  século XIV. Esse bolo tinha uma moeda (um feijão ou uma ervilha) e era aclamado rei ou rainha quem a recebesse e depois oferecia o jantar. O bolo também se repartia. Introduzido em Portugal por Baltasar Rodrigues Castanheiro, sabe-se que por volta de 1870 era vendido na Cafetaria Nacional, em Lisboa.

E pronto aqui ficam alguns dados  do que era, e em alguns aspectos continua ser, a celebração do dia de Reis no Algarve.



Nota:

1. Informação retirada da obra “Natal no Algarve: Raízes Medievais” do Padre José da Cunha Duarte.


MARAFAÇÕES DE UMA lOULETANA

O Paladino da Poesia Algarvia – Joaquim Magalhães



O Paladino da Poesia Algarvia – Joaquim Magalhães 


José Carlos Vilhena Mesquita - AGOSTO 2009

Procurando estabelecer um paralelismo comparativo entre a erudição e a generosidade intelectual, a bondade espiritual e a lisura de carácter, cheguei à triste conclusão que são atributos que muito raramente ornam a figura humana. Como raro é também caminharem juntos o percurso da vida numa só pessoa. Dei-me ao trabalho de procurar nos meus arquivos da cultura algarvia as personalidades que melhor preenchessem essas qualidades e virtudes. Confesso que entre os que possuíram essas virtudes e mais se assemelham entre si foram João de Deus e Joaquim Magalhães. A principal diferença entre ambos reside na distância cronológica e na confinação geográfica das suas acções cívicas. Um viveu e desenvolveu os seus principais projectos culturais em Lisboa e o outro quedou-se pela província, curiosamente a de que era originário o “poeta das crianças”.

Existindo, como creio, uma geopolítica da cultura, protegida pelo poder político, favoritista e centralizador, não admira pois que João de Deus se tenha alcandorado ao areópago das figuras nacionais, apontado como elemento definidor duma cultura e educador de gerações. As suas qualidades foram reconhecidas e o seu génio imortalizado. O Dr. Joaquim Magalhães embora mais humilde e menos ambicioso que o autor da Cartilha, nunca poderia guindar-se a altos voos porque destas terras de lendas e feitiços nunca se apartou. Em todo o caso viveram duas realidades político-culturais absolutamente diferenciadas, em dimensões cronológicas muito distantes, pelo que qualquer comparação entre ambos é sempre passível de incongruências e anacronismos. 
No Algarve dos meados do século a vida cultural era incipiente, escassa e quase episódica. O regime vigente também não permitia grandes veleidades, pois encarava os intelectuais como subversivos e potenciais adversários. E quantas vezes o Dr. Joaquim Magalhães não sentiu a impossibilidade de ir mais longe, vendo-se coagido a silenciar as suas opiniões sobre a situação sociocultural em que o país vivia. Por vezes a mais elementar crítica de âmbito literário, quando dita em público, podia ser entendida como perniciosa e desafecta ao regime. Talvez para evitar mais sacrifícios e perseguições - até porque como professor estava sob a alçada do Estado - decidiu refrear as opiniões políticas, evitando confrontar-se com os esbirros do salazarismo. Provavelmente por isso, chegou mesmo a dar a impressão que pactuava com o regime, mas toda a gente sabia que o Dr. Magalhães era um indefectível democrata, cuja bondade de carácter não era capaz de estabelecer diferenças nem distinções entre bons e maus concidadãos.
Pela admiração que me merecia esse generoso amigo, senti um indescritível desgosto no passado dia 16 de Outubro de 1999 quando recebi a triste notícia do seu falecimento. Eram cinco horas da tarde quando um telefonema frio e repentino anunciava: Morreu o Dr. Magalhães. Senti um calafrio, um aperto sufocante no coração que me paralisou a voz. O meu ilustre conterrâneo, indefectível amigo e companheiro nas lides culturais algarvias, partia para sempre. Não sofreu, foi de repente, faleceu serenamente - confidenciou um seu familiar. Virou-se para o outro lado da vida, diria certamente o nosso comum amigo Pinheiro e Rosa, que tinha para a morte uma explicação de transitoriedade, uma espécie de mutação material para um estado de graça absolutamente espiritual, que pessoalmente prefiro qualificar como a prova da nossa impermanência existencial. A sua provecta idade, noventa anos acabados de concluir em Maio, não parecia ter-lhe diminuído a ânsia e viver. Bem pelo contrário, mostrava-se esperançado em romper o século e penetrar no novo milénio. Esta meta cronológica, carregada de fortes implicações psicológicas, sentia-a como uma barreira que desejava vencer. Todavia, uma recente intervenção cirúrgica ao esófago precarizara-lhe a saúde, agravada naturalmente pelo peso da idade. Vi-o definhar neste último verão. Notei-lhe uma grande quebra física, perdendo peso de uma forma irreversível, que o impossibilitou de andar e até de falar com o vigor a que nos havia acostumado. Senti-lhe o fim. Mas apesar de se temer o pior, mas nunca se está preparado para receber e aceitar a morte de um amigo.
Em boa verdade pode dizer-se que o Dr. Joaquim Magalhães foi uma personalidade ímpar e uma figura tutelar da cultura algarvia. Creio mesmo que terá sido o último de uma plêiade de intelectuais que marcaram profundamente a vivência cultural no Algarve. Alguns deles tive a honra de conhecer, como foi o caso do Dr. Mário Lyster Franco, o museólogo José António Pinheiro e Rosa, os publicistas Maurício Serafim Monteiro, Antero Nobre, Abílio Gouveia e Aníbal Guerreiro, os historiadores Alberto Iria, Garcia Domingues e Mariana Santos, os jurisconsultos Rita da Palma, Júlio Carrapato e Neves Anacleto, os poetas João Bráz e Leonel Neves, o escritor Vicente Campinas e o artista Manuel dos Santos Cabanas, além de outros que a memória atraiçoa.
Guardo do meu querido amigo Dr. Joaquim Magalhães as mais gratas recordações, nomeadamente os seus conselhos e ensinamentos, que nunca recusava a quem quer que fosse. Aliás, a sua principal característica era a generosidade. A sua grandeza humana definia-se em duas palavras: bondade e benevolência. É nesse sentido que se tornam mais entendíveis as palavras da escritora Lídia Jorge, quando na homenagem realizada na Livraria Odisseia afirmou: «O Dr. Joaquim Magalhães criou no Algarve uma autêntica família cultural e espiritual... era um homem bom de grande capacidade de envolvimento humano». Como teve a honra de aos catorze anos de idade ter sido sua aluna, recorda-se que «O Dr. Joaquim Magalhães ensinou-nos a saber ler que o silêncio das palavras é uma coisa muito importante... Aprendi com ele o fundamental para a minha vida».
É raríssimo ver-se hoje alguém da sua estirpe, mostrando-se desprendido e desinteressado nas coisas de que poderia beneficiar. E como poderia ter ido longe este homem se fosse um pouco mais ambicioso e não vivesse quase em exclusivo para os outros. Não era esse o seu feitio. Recusou sempre o exercício do poder, apenas aceitando o cargo de Reitor do Liceu de Faro, por ser essa a vontade dos seus colegas. Por isso costumava dizer com alguma ironia que «quem não vive para servir, não serve para viver», sendo inclusivamente esse o seu lema de vida. Esta máxima identifica claramente um homem desprendido de quaisquer vaidades, sem pretensões para ser mais do que um educador e um provocador de ideias e um descobridor de talentos. Mas não só. A sua afabilidade granjeava-lhe amizades tanto à esquerda como à direita, suscitando através da cultura uma convivência pluridimensionada, geradora de consensos e de tolerâncias. A lisura de carácter, que tanto o caracterizava, é uma das razões que me leva a considerá-lo como um paradigma do intelectualismo moderno, inspirado nos sublimes valores do classicismo florentino.
Acresce dizer também que, não obstante ser muito conhecida a sua máxima de vida (quem não vive para servir, não serve para viver), muitas vezes apregoou em público que se considerava um “algarvio nascido no Porto”, razão pela qual adoptou do seu conterrâneo Infante D. Henrique a divisa “talante de bem fazer” (talant de bien faire) para caracterizar a sua conduta sociocultural. Foi sobretudo essa vontade de fazer bem aos outros, usando largamente da paciência e da tolerância, para não ofender a ignorância nem a incompetência dos muitos que dele se cercavam, que obteve a aura de homem singular. Andarilho das ruas de Faro, visitava quase diariamente as sedes dos jornais, as livrarias e os escritórios de alguns amigos. Fazia-o como um ritual, em breves passagens à laia de “visita de médico”. Era só para dar de vaia, comentava em jeito de graça, e partia depois dos cumprimentos habituais. No seu passeio matinal era geralmente abordado por imensas pessoas. Escutava pacientemente quem o interpelava e nunca ouvi dizer que tivesse uma palavra, um comentário reprovador ou depreciativo para quem quer que fosse. Também não gostava de dar opiniões, porque receava que isso pudesse vir a causar dissabores ou a indispô-lo com alguém. Preferia agir como um autêntico diplomata - nem sim, nem não. Contudo, para que a conversa não azedasse tinha logo uma laracha para comparar à situação ou uma anedota para amenizar o clima de crispação. Ouvindo maus dizeres contra tanta gente, nunca foi capaz de “trazer e levar” as intriguinhas que adornam e fertilizam a nossa mesquinha sociedade. Posso afirmar, com pleno conhecimento de causa, que levei algum tempo até aceitar do Dr. Magalhães este silêncio, qual voto de confessionário, que o impedia de revelar as maledicências que lhe confidenciavam aqui e ali. Tinha uma “calma freudiana” que lhe refreava o ânimo e impedia de exteriorizar as emoções ofensivas. Foi então que me disse uma quadra de António Aleixo que nunca esquecerei:

Que importa perder a vida

Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida
Não deixa de ser Razão.

A benemerência que espalhou foi de carácter espiritual, já que de ordem material não lhe era possível. Aliás, uma das queixas que lhe ouvi várias vezes prendia-se com a sua escassa reforma, nada consentânea com a sua especialização profissional, que noutros tempos era exigentíssima. Apesar disso, a Dr.ª Maria Aliete Galhoz afirmou, na homenagem acima referida, que o Dr. Magalhães após ter sido seu professor soube que as dificuldades económicas colocavam em causa a continuidade dos seus estudos na Universidade, pelo que de uma forma mecenática se ofereceu para lhe pagar as propinas, o que não chegou a ser necessário. Este gesto identifica bem o homem que ele era, as salutares preocupações que tinha com o sucesso dos seus alunos. Mesmo sabendo-se das suas dificuldades económicas, já que um professor ganhava pouco para as funções sociais que desempenhava. Por outro lado, o Dr. Joaquim Magalhães não prescindia das despesas inerentes a um intelectual, ou seja, comprava diariamente jornais e adquiria de livros, por mais dispendiosos que fossem.

Tínhamos em comum algo que nos unia profundamente: nascêramos ambos na mesma rua, a trinta passos de distância, como ele costumava dizer. Distanciavam-nos, porém, 46 anos de diferença. Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, de seu nome completo, nasceu na freguesia da Sé, na cidade do Porto a 3 de Maio de 1909, razão pela qual se intitulava como um “irmão mais velho da República”. Aprendeu as primeiras letras na escola primária de Massarelos, na cidade Invicta, transferindo-se pouco depois para São Martinho de Sande, no Marco de Canaveses, terra de origem dos seus ascendentes. Estudou depois no Colégio Francês e no Liceu Rodrigues de Freitas, ambos no Porto, em cuja Faculdade de Letras se licenciaria em Filologia Românica, com dezasseis valores, no ano de 1930. No ano seguinte iniciou o estágio pedagógico no Liceu Normal de Coimbra, relativo ao 2.º grupo nas disciplinas de Português e Francês. Foram dois anos extenuantes e de certo modo injustos, pois que durante o estágio não se recebia salário. Por isso, foi trabalhar na Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, no Colégio de S. Luís, em Espinho e no Internato de Sernache do Bom Jardim.
Em 1933 foi aprovado com dezassete valores no Exame de Estado no Liceu Normal Pedro Nunes em Lisboa. Ainda antes de ser colocado, no ano lectivo de 1933-34, no Liceu de Faro como professor agregado, O primeiro contacto com Faro durou apenas um ano, já que em 1934-35 concorreu para professor efectivo sendo colocado no Liceu Jaime Moniz, no Funchal. No ano seguinte tomava posse no Liceu de Faro como professor efectivo de Português e Francês, tendo até exercido funções de Director de Classe, Director de Ciclo, Vice-Reitor e Reitor entre 1968 e 1974, com a particularidade de não ter sido saneado com o «25 de Abril». Pelo contrário, merecendo a confiança dos colegas e das novas instituições teve a honra de ser o primeiro Presidente do Conselho de Gestão Democrática do Liceu de Faro. Durante esses quase quarenta anos de docência foi por diversas vezes requisitado para elaborar os pontos nacionais de exame da disciplina de Francês, assim era solicitado para aprovar os livros escolares da mesma língua e de Português.
Ao longo desses quarenta anos de docência deixou fortes marcas no espírito dos seus jovens alunos, que na sua maioria guardam dele as mais gratas recordações. Nesse aspecto parecem-me, mais uma vez, dignas de memória as palavras, aliás, bastante elucidativas, da escritora Lídia Jorge quando a esse respeito afirmou: «Para além do pensamento aberto ao mundo, ele [Dr. Joaquim Magalhães] faz parte de uma espécie de tendência de escola libertária, os únicos textos pedagógicos, didácticos de que eu me lembro e a que ele se referia nas aulas eram os textos de Rousseau. Dizia-nos que cada homem tem um saber dentro de si, tem é de o descobrir, foi a essa perspectiva que o Prof. Joaquim Magalhães foi capaz de se associar com um temperamento que estava perfeitamente coadunado para esse tipo de escola libertária. Por isso nós acabamos por ser tocados por ele.»[1]
Também o seu ex-aluno e reputado poeta, Gastão Cruz, corrobora as influências deixadas pelo antigo mestre, salientando que o Dr. Joaquim Magalhães foi «uma pessoa que soube estimular os alunos no sentido de um aperfeiçoamento cultural. Era um homem que demonstrava aos seus alunos e não só, uma claridade, uma abertura de espírito e um grande estímulo para todos os que conviviam com ele.»[2]
A sua acção pedagógica foi notável, sendo ainda hoje lembrado como um professor que não preparava as lições como a maioria dos seus colegas, pois fazia da aula um acto de criação. Mas não foi só na sala de aula que o seu talento se evidenciava, pois que durante dezoito anos preparou as récitas de teatro dos finalistas do Liceu, cabendo-lhe a encenação de obras de autores consagrados como Garrett, Gil Vicente, Camilo, António José da Silva (O Judeu), Ramada Curto, Júlio Dinis e Moliére. Alguns dos seus antigos alunos ficavam bastante surpreendidos com a forma como o Dr. Magalhães se dedicava ao teatro, explicando as cenas e imaginando as emoções do autor quando as escreveu. Ainda recentemente, na sua última homenagem pública realizada na Livraria Odisseia no dia 9 de Outubro, a Prof. Doutora Teresa Rita Lopes e a Prof. Aliete Galhoz, recordavam com saudade alguns desses momentos em que a criatividade e a sensibilidade artística do Dr. Magalhães conseguiam fazer dos ensaios verdadeiras homenagens à arte de Talma.
Como agente promotor da cultura a sua acção na sociedade farense foi a todos os títulos exemplar. Merece especial menção a sua participação na fundação da Alliance Française, de que foi o último presidente. Pertenceu com Lionel de Roulet e o Dr. Fernandes Lopes, ao grupo fundador do Círculo Cultural Camões, que durante a guerra se haveria de transformar no Círculo Cultural do Algarve, ao qual presidiu desde 1943 até 1970. Importa acrescentar que o Círculo foi uma espécie de bolsa de resistência intelectual ao fascismo, ali se realizando várias exposições, conferências, colóquios e até cursos intensivos sobre assuntos que não agradavam à situação política. Inclusivamente alguns dos conferencistas e prelectores eram claramente desafectos ao regime salazarista, o que originava constantes visitas dos agentes da PIDE. Além de desagradável a situação chegava por vezes a ser atemorizante, pois podia ocasionar a detenção do palestrante e o encerramento do Círculo.
Apesar da sua honorabilidade o próprio Dr. Joaquim Magalhães chegou a temer pela sua segurança, quando numa das suas acostumadas palestras literárias encarou na assistência com um agente da polícia secreta. O caso não passou de um susto, com uma certa graça, que o Dr. Magalhães descreveu nos seguintes termos: «Fui passar férias e encontrei na casa do meu avô, em Marco de Canavezes, um livro de poemas de Olindo Cabral, abade de Jazende. Achei interessante para apresentar uma conferência. Quando já estava quase no fim vi na sala um PIDE que já conhecia por ter lá ido fazer apreensões de livros. Fiquei perturbado a pensar o que é que ele quereria. No fim da conferência ele aproximou-se de mim e disse que estava curioso em saber quem tinha sido o abade de Jazende porque ele era natural daquela freguesia. Foi uma grande surpresa saber que um agente da repressão podia também ter curiosidade literária.».[3]
Fundou igualmente o Cine Clube de Faro e o Conservatório Regional do Algarve, a cujo Conselho Administrativo presidiu durante catorze anos. Estas foram as instituições a que mais se dedicou. Porém, outras houve que igualmente beneficiaram do seu esforço como a Misericórdia de Faro, de que foi Vice-Provedor e Provedor, a Mutualidade Popular de que foi Presidente, a Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes Mentais em Faro, e a Câmara Corporativa a que foi Procurador entre 1973-74 em representação das Associações de Socorros Mútuos ao Sul do Tejo. Pertenceu a certos organismos autárquicos de carácter consultivo, como foi o caso do Conselho Municipal de Faro, da Comissão Municipal de Turismo e da Comissão de Arte e Arqueologia de Faro. Julgo também que terá sido um dos primeiros membros do Rotary Clube de Faro, da Cruz Vermelha e de tantas outras associações locais e regionais.
Importa referir que não obstante a sua reconhecida independência política, o certo é que o Dr. Joaquim Magalhães aceitou tomar parte nas comissões distritais eleitorais das candidaturas de Norton de Matos e do general Humberto Delgado. Recentemente foi mandatário regional da segunda candidatura do Dr. Mário Soares à presidência da república, para a qual, como se sabe seria eleito por esmagadora maioria.
Em reconhecimento da sua dedicação à cidade de Faro, às instituições culturais e ao associativismo filantrópico, foi agraciado pela autarquia com as medalhas de Grau Ouro da Câmara Municipal de Faro e Grau Prata da Câmara Municipal de Tavira, culminando em 1995 com a atribuição da Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Porém a mais digna e a mais sentida homenagem pública que se lhe prestou em vida ocorreu em 16 de Setembro de 1991, quando foi atribuído o seu nome à Escola C+S n.º 2 de Faro, que hoje ostenta orgulhosamente a designação de Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Dr. Joaquim Magalhães. Essa foi justamente a mais coerente e perpectualizante homenagem da sua longa e nobre existência.
Estreou-se na imprensa algarvia nos meados da década de trinta tornando-se logo num assíduo e respeitável colaborador, a ponto de lhe ter pertencido durante trinta anos a secção «Sete Dias da Semana» no semanário farense O Algarve, do qual viria mesmo a ser Director entre 1981 e 1983. Colaborou também na Voz de Loulé, no Correio do Sul (Faro), no Povo Algarvio (Tavira), noJornal do Algarve (V. R. St.º António), nos órgãos estudantis do Liceu de Faro, etc, etc.
Pronunciou largas dezenas de conferências no Algarve, Funchal, Setúbal, Lisboa e Porto, concitando sempre numerosas audiências. A forma como teatralizava a palavra, aliada a uma dicção cristalina, ao estilo coimbrão, proporcionou-lhe a justa fama de orador. Onde quer que fosse palestrar era certo e sabido que tinha a sala cheia. A sua coroa de glória, fruto do seu bom coração, surgiu nos anos quarenta quando deu atenção a um simples cauteleiro que nas ruas de Faro apregoava a “sorte grande”, bonificando os seus clientes com quadras populares a que só um espírito superior como o do Dr. Magalhães sabia dar valor. Esse simples cauteleiro era o poeta António Aleixo, figura popular e de parcas posses, a que a sociedade burguesa dava pouca importância. Era quase analfabeto, porém o Dr. Magalhães soube ver nele um verdadeiro filósofo, que escutou e apoiou, fazendo-se orgulhosamente seu “secretário”.

Não há nenhum milionário

Que seja feliz como eu:
Tenho como secretário
Um professor do Liceu.
O tal Aleixo, o poeta,
Que dizem ser de Loulé,
É uma figura incompleta
Sem o Magalhães ao pé.
Essa prova de humildade chegou mesmo a ser criticada no tempo, visto ser indício de um certo bolchevismo, perigoso e desafecto ao regime vigente. Mas o Dr. Joaquim Magalhães não ligou importância e prosseguiu o seu trabalho de compilar, e certamente corrigir (senão mesmo melhorar), as quadras do Aleixo que deu à estampa num pequeno livro intituladoQuando Começo a Cantar, editado em 1943 pelo Círculo Cultural do Algarve. E foi logo um sucesso, já que o autor com a venda do mesmo apurou cerca de vinte e cinco contos, que o ajudaram a combater a tuberculose que infelizmente o haveria de vitimar. Apesar de Tóssan haver incentivado o poeta Aleixo, no Sanatório dos Covões, em Coimbra, a escrever e publicar os Autos da Vida e da Morte e do Curandeiro, divulgando assim o seu talento junto da academia coimbrã, o que certo é que pertenceu ao Dr. Magalhães a humildade e a generosidade de resgatar o simples cauteleiro do anonimato a que estava condenado, fazendo dele um poeta de renome e prestígio nacional. A bem dizer quem “fez” o poeta Aleixo foi o Dr. Joaquim Magalhães, a quem aliás dedicou o seu primeiro livro, intituladoRomance do Poeta Aleixo, editado em 1959.
Para além de tudo isto, merece especial destaque o facto de haver pertencido ao grupo de intelectuais que liderou o movimento literário da «Presença», ao lado de Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, José Régio, Miguel Torga e Adolfo Casais Monteiro. Os “presencistas” foram os grandes difusores do Modernismo em Portugal, contra o academismo e o jornalismo ronceiro, favoráveis a uma literatura viva, sendo por isso os herdeiros naturais do movimento do Orpheu. O Dr. Joaquim Magalhães colaborou com o grupo, carteou-se com a maioria dos seus impulsionadores, e quando no início da década passada se fez em Faro uma exposição sobre o movimento da Presença, o Dr. David Mourão Ferreira teve a hombridade de apontar, destacar e enaltecer a figura do Dr. Joaquim Magalhães como um dos últimos resistentes do movimento da Presença.
Por fim, importa salientar a sua faceta de “pai dos poetas”, como ficou conhecido após ter lançado António Aleixo. Neste rincão de poesia e viveiro de poetas, que é o Algarve, poucos foram os que não se acercaram do Dr. Magalhães pedindo-lhe que apadrinhasse a sua estreia literária com um prefácio ou umas simples palavras de abertura, que pudessem dar a entender que as suas obras tinham préstimo e os seus autores sobejo talento. Nunca negou essa paterna bênção, como também nunca soube dizer não a ninguém. Nem mesmo quando sabia que dificilmente conseguiria gerir os seus compromissos. Escreveu prefácios, apresentou livros e fez palestras sobre poesia popular em todo o Algarve, tornando-se no intelectual mais conhecido da região. Fez parte de júris em Jogos Florais e concursos literários, dando com a sua presença muita da credibilidade e do prestígio que faltava à maioria desses certames. 
No âmbito da crítica literária escreveu dezenas de apreciações não só relativas às obras que acabavam de ver a luz da estampa como também sobre autores da moderna literatura portuguesa. Acima de tudo importa acrescentar que foi talvez o único intelectual que neste país teve a ousadia de descrer e, diria mesmo, desacreditar a poesia de António Ramos Rosa. Nada tinha a objectar contra o abstraccionismo poético, que não raras vezes até lhe agradava, mas incomodava-se com o pseudo-intelectualismo daqueles que, fazendo versos que ninguém entendia, passavam por ser mais inteligentes do que os outros poetas. Da poesia de Ramos Rosa dizia mesmo que se tratava de prosa às escadinhas ou texto retalhado no açougue dos cenáculos lisboetas.
A sua obra poderia ter sido vastíssima se em vida se tivesse preocupado em reunir em livro o melhor e a maior parte do que escrevia. Por isso, acaba por ser considerada escassa. Em boa verdade serviu a cultura sem dela se servir. Não obstante publicou os seguintes trabalhos:

O Romance do Poeta Aleixo, 1959.

Perfil literário de Teixeira Gomes, 1960.
Aventura Poética de Emiliano da Costa, 1962.
Ao Encontro de António Aleixo, 1977.
João de Deus, esse desconhecido, 1995.
Pretérito Imperfeito - Quadras e Lírica, 1996.
Cartas Sem Código Postal, 1999.

Não é uma numerosa e farta lista de obras, como certamente sugere e pressupõe o seu grande prestígio intelectual. Mas as suas preocupações científicas foram quase sempre ultrapassadas pela inimitável missão pedagógica a que votou toda a sua vida. Não gozou da disponibilidade necessária para se dedicar à investigação por inteiro, deixando-se absorver pela divulgação, quer através de centenas de artigos nos jornais, quer através das inúmeras conferências pronunciadas em quase todo o país. Nunca foi capaz de se furtar ou simplesmente recusar as solicitações que lhe eram dirigidas, sobejando-lhe pouco tempo livre para se ocupar na investigação literária. Tinha disso consciência pois numa quadra, ao jeito aleixiano, retratou assim a situação:


Cada um é como é,

e, por isso, eu sou assim,
dei todo o meu tempo aos outros,
fiquei sem tempo para mim.

Para encerrar esta já longa notícia biográfica, não posso deixar passar em claro a nossa convivência particular e a amizade cimentada ao longo de vinte anos. Lembro-me que estivemos juntos em várias iniciativas e que convivíamos diariamente na delegação do «Diário de Notícias», em Faro, onde fui colaborador regional desde 1981 a 1989. Era um regalo ouvi-lo recordar certos autores consagrados com quem privara, e, sobretudo, ouvi-lo comentar as obras que acabavam de surgir nos escaparates, às quais dava sempre grande atenção. Era aliás um inveterado cliente da Livraria do Diário de Notícias, situada na Rua Vasco da Gama, nos baixos da Secretaria de Estado da Cultura. Recordo-me que o Prof. Tomás Ribas quase sempre descia à Livraria pelas onze da manhã, hora da visita do Dr. Magalhães, sendo deliciosas de humor e de chiste político as análises que ambos faziam sobre as mais diversas situações. O Tomás Ribas tinha um humor sardónico, a que nada nem ninguém escapava, e com isso se divertia imenso o pobre do Dr. Magalhães, que sempre foi muito comedido nas suas apreciações, sobretudo quando relativas ao talento e capacidades das pessoas. Eram duas personalidades ímpares na sociedade farense da década de oitenta e tanto a Livraria como a Redacção do Diário de Notícias eram um ponto de passagem e de reunião diária da intelectualidade local e até mesmo do Algarve inteiro. Chegou a ser um ponto de referência para a convivência cultural, que hoje se perdeu e se desactivou completamente. Por ali passavam regularmente o Prof. Pinheiro e Rosa, o Antero Nobre, o Prof. Doutor Gomes Guerreiro, que era o Reitor da Universidade do Algarve, a Dr.ª Mariana Machado Santos, o Dr. Fernandes Mascarenhas, o Dr. Elviro da Rocha Gomes, e esporadicamente o Tóssan, Casimiro de Brito, Carlos Albino e sua esposa Lídia Jorge, o bibliófilo Tavares Simões, o Dr. Tello Queirós, etc.

Pertencemos juntos à Direcção da Associação da Imprensa Regional do Algarve (AIRA), fundada pelo não menos saudoso amigo Antero Nobre. Estive, igualmente, com ambos na fundação da ADEIPA – Associação para a Defesa do Património de Faro, infelizmente já extinta. Participei, ao seu lado, na criação da Universidade para a Terceira Idade, onde leccionei gratuitamente nos dois primeiros anos de existência. Estivemos juntos em júris de Jogos Florais e em várias homenagens onde pronunciamos conferências lado a lado. Recordo-me de um caso exemplar; aconteceu a 15-6-1996, nas Comemorações do 3.º Centenário da Freguesia de Olhão, no âmbito das quais se homenageou nessa data a obra científica do Dr. Alberto Iria, um dos mais ilustres historiadores deste século e certamente uma das mais gradas figuras nascidas naquela vila piscatória. Quem abriu a cerimónia foi o Antero Nobre que nos apresentou como palestrantes, tocando ao Dr. Magalhães o elogio do Autor e a mim o elogio da Obra. Encontrava-se ao nosso lado um enorme retrato do Dr. Alberto Iria, e lembro-me da forma magistral como o Dr. Magalhães se lhe dirigiu, numa espécie de diálogo vivo, por vezes quente e arrebatador, que nos fez rir e chorar, numa mesclagem de sentimentos e emoções como só ele era capaz de suscitar. A numerosa assistência, representativa das principais autoridades políticas e culturais da região, ficou profundamente extasiada com o seu talento de orador, que ao teatralizar um monólogo como homenageado recentemente desaparecido, parecia dar a entender que ele estava ali entre nós. Nunca vi nada parecido e só um homem de grande talento como o Dr. Magalhães é que era capaz de encenar um diálogo tão realista e emocionante.
Ainda recentemente, durante a apresentação na do seu último livro editado pela Câmara de Tavira, fizemos projectos para o futuro, nomeadamente o encerramento das comemorações centenárias de António Aleixo por intermédio da AJEA, o que infelizmente já não realizaremos em respeito pela sua memória. Em todo o caso não quero terminar esta sentida evocação de homenagem pela perda de um grande amigo, sem afirmar que o Dr. Joaquim Magalhães deixa na memória de todos quantos com ele privaram a mais profunda saudade. Sinto, tal como o Algarve, uma impagável dívida de gratidão.
No cemitério de Loulé repousa no sono eterno, e quase ao lado de António Aleixo, aquele que foi considerado como o “pai dos poetas” do Algarve.
Perdemos um homem bom, que se algum erro cometeu na vida esse foi certamente o de ser generoso numa terra de ingratos.

Algarve - História e Cultura

Em Portugal, enquanto se corta no Ensino e na Saúde, perdoa-se aos acionistas da PT 270 milhões de euros que deviam pagar ao fisco


    Em Portugal, enquanto se corta no Ensino e na Saúde, perdoa-se aos acionistas da PT 270 milhões de euros que deviam pagar ao fisco, gastam-se 5 a 7 mil
    milhões de euros só para safar um banco (BPN), que depois se vende por 40 milhões, gastam-se mais 450 milhões para “salvar” o BPP (ou alguns dos seus accionistas)
    que acabou por fechar deixando os depositantes mais crédulos de bolsos vazios. Retiram-se mil milhões de euros ao SNS, mas pretendeu-se dar 800 milhões
    de euros às grandes empresas, cortando a taxa social única (TSU) que os trabalhadores teriam de compensar. A Caixa Geral de Depósitos, que gastou dinheiro
    no socorro ao BPP e ao BPN (que o estado tem de repor), há pouco recapitalizada com fundos da “ajuda” da troika, corta os empréstimos aos cidadãos e às
    pequenas e médias empresas mas financia os Mellos em centenas de milhões de euros para completarem a aquisição da Brisa (os mesmos Mellos que continuam
    a investir nas Parcerias Público-Privadas da Saúde ocupando o vazio criado com o sub-financiamento do SNS). 


Alberto João Jardim – Mas que raio... ...


O inenarrável e inaudito Alberto João Jardim, passou do homem que afirmou, nos finais da década de 70 do século passado, «Os militares já não são o que eram. Os militares efeminaram-se», para o estadista digno de altos encómios militares, ministrados em dose altamente concentrada, ou seja, na forma de uma medalha militar da Cruz de S. Jorge.
“Prestígio”, ”pragmatismo”, “patriotismo”, e a melhor de todas para mim, ser um homem de honra e de uma só palavra"… foram algumas das fantásticas qualidades merecedoras de medalha, na opinião do general das não sei quantas.
Sobre a trágica anedota que dirige a Madeira há décadas... nada a acrescentar.
Já sobre o que raio de coisa ruim terá contaminado o vinho que servem ao senhor general... confesso a minha grande, enorme...   vasta curiosidade!

CONCENTRAÇÃO DE SOLIDARIEDADE JUNTO AO ESTABELECIMENTO PRISIONAL DE LISBOA (8 DE JANEIRO DE 2013)



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 EPHEMERA

aqui há gato !!!!


Presidente do hospital de São João podia prescindir de mil funcionários

António Ferreira conseguia cortar recursos humanos em 20% se tivesse os restantes profissionais em dedicação exclusiva e se pudesse pagar incentivos.
O hospital tem mais de 5600 trabalhadores PAULO RICCA

O presidente do hospital de São João, no Porto, considera que o estabelecimento poderia prescindir de mais de mil profissionais com a mudança de alguma regras, como os restantes trabalhadores passarem a trabalhar em regime de exclusividade e com contratos de 40 horas semanais.
António Ferreira, que falava no programa “Olhos nos Olhos” na TVI24, adiantou que o hospital de São João conta com 5600 trabalhadores e defendeu que com outra liberdade de abordagem poderia reduzir este número em pelo menos mil pessoas. “Se tivéssemos pessoas em dedicação exclusiva, todos com horários de 40 horas semanais, totalmente motivadas e dedicadas ao hospital, creio que seguramente poderíamos fazer mais do que o que fazemos com menos 20% das pessoas”, explicou.
Contudo, o médico insistiu que tal só seria possível se pudesse passar a recompensar os ganhos de produtividade dando “incentivos de acordo com qualidade e da quantidade produzida”. “Temos um problema de produtividade do Serviço Nacional de Saúde. É preciso um sistema que garanta produtividade com qualidade. Há várias mudanças que proponho: uma é a ideia de exclusividade, a outra é de avaliação do que se faz e a implementação de políticas de reconhecimento ou incentivo. Podemos discriminar as pessoas pelo trabalho e qualidade do que fazem”, reiterou António Ferreira.
O responsável afirmou que “há muito dinheiro que é gasto com gente que não é produtiva, em fornecimentos externos, na realização de exames externos” – verbas que poderia compensar com a dedicação exclusiva.
O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte acusou o presidente do Hospital S. João de querer “desestabilizar” e “criar pânico” entre os funcionários, ao admitir uma redução de 20% de pessoal. Carla Ferreira, do sindicato, considerou que as declarações de António Ferreira foram “insensatas” e “irresponsáveis”. “O Hospital de S. João funcionaria melhor sem um presidente do conselho de administração profícuo em declarações insensatas. As suas afirmações são bombásticas o suficiente para fazer furor na TV, mas, principalmente, são uma machadada na estabilidade necessária ao funcionamento do SNS”, considerou a dirigente.
Carla Ferreira entende que com as declarações que prestou, o presidente do “S. João” pretende “lançar a confusão e o pânico nos trabalhadores”. “São de uma enorme irresponsabilidade, dado que António Ferreira não esclarece se pretende dispensar médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar ou quaisquer outros trabalhadores”.
“Lembramos que o Hospital S. João não é uma fábrica. E se numa fábrica um parafuso sai torto, faz-se outro. Num hospital, um erro paga-se com a saúde do doente. No Hospital de S. João já há trabalhadores, como os assistentes operacionais, que trabalham em turnos de 12 horas sem qualquer compensação. Era importante saber se está na cabeça de António Ferreira alargar ainda mais o horário destes trabalhadores e por isso desafiamos a que esclareça com rigor o conteúdo das suas afirmações”, acrescentou.
No final de Dezembro António Ferreira, também à TVI, já tinha feito declarações que geraram polémica a propósito da produtividade dos cirurgiões da sua unidade. O responsável avançou com a média de uma cirurgia por semana por cada cirurgião, para ilustrar a tese que desde há muito defende: a de que é possível reduzir ineficiências no Serviço Nacional de Saúde, aproveitando melhor os recursos humanos. Por isso, destacou o facto de a taxa de absentismo na unidade ser de “11%” e adiantou que pelo menos 30 dos cirurgiões da unidade não fizeram uma única cirurgia este ano.
Para demonstrar que o problema não será exclusivo desta unidade hospitalar, foi mais longe, fazendo uma conta simples. Pegou no número de cirurgiões especialistas (3854), no total de cirurgias convencionais, excluindo as feitas em ambulatório (mais de 196 mil em 2010) e dividiu tudo por 46 semanas. Conclusão: em todo o país, em média, cada cirurgião fará uma cirurgia por semana.
Contas que foram desde logo mal recebidas pelo bastonário da Ordem dos Médicos, pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia, pelo presidente do Colégio da Especialidade de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos, pela Federação Nacional dos Médicos e pelo Sindicato Independente dos Médicos, que asseguraram que os números não podem ser vistos desta forma nem totalmente atribuídos aos cirurgiões, já que para a realização de uma cirurgia têm também de estar disponíveis outros profissionais, como anestesistas e enfermeiros, assim como tem de haver vagas para recobro e internamento
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