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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012



O Silva das vacas



Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:



"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."



Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.

Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo "sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!



Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!!

Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.

A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado.

Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.



Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

Madeira reteve ilegalmente mais de 18 milhões de euros

Madeira reteve ilegalmente mais de 18 milhões de euros

O Tribunal de Contas considerou que, entre 2004 e 2011, o Governo Regional da Madeira reteve ilegalmente mais de 18 milhões de euros de parte de receitas cobradas pelos cartórios e conservatórias na região que eram consignadas ao Estado.

Esta é uma das conclusões do relatório de uma auditoria realizada pela Secção Regional da Madeira do TC à Direção Regional da Administração da Justiça (DRAJ) que foi orientada para a análise das receitas cobradas pelos serviços externos, hoje tornado público e visou controlar pela primeira vez a atividade deste departamento do executivo madeirense.
"De 2004 a 2011 a Secretaria Regional do Plano e Finanças (SRPF) reteve ilegalmente uma parte das receitas consignadas ao Estado (...) que foram cobradas pelos cartórios e conservatórias dependentes da DRAJ, no montante global de 18.129.933,69 euros, com a justificação de a Região ter receitas a receber do Estado que ainda não tinham sido transferidas e que aguardavam (...) certificação por parte das Autoridades Nacionais", pode ler-se no documento.
Aponta também que "por força da abertura ilegal de créditos especiais nos orçamentos de 2009, 2010 e 2011 (e bem assim da alteração das regras de contabilização das receitas geradas pelos serviços externos da DRAJ) a receita orçamental registada nas contas da Região desses anos, na rubrica "taxas diversas' (...) encontra-se sobreavaliada".
Em sede de contraditório, o Secretário Regional do Plano e Finanças, Ventura Garcês, declarou "discordar da apreciação feita", argumentando que as "receitas em questão são efetivamente da Região (...) e são atribuídas a título de compensação pelas competências asseguradas pelo Ministério da Justiça traduzem de igual modo o pagamento de um serviço prestado por uma entidade externa ao Governo Regional".
Nesta análise, o TC considerou que o sistema de controlo interno da DRAJ, na área dos serviços externos, "é deficiente, sobretudo ao nível da arrecadação das receitas e do seu controlo".
Na avaliação, o TC aponta também a inexistência de um "sistema de controlo central dos movimentos, dos saldos e das contas bancárias utilizadas pelos serviços externos".
"Apesar da colaboração manifestada pelos responsáveis e dirigentes contactados", o TC censura algumas "condicionantes que obstaram ao normal desenvolvimento dos trabalhos da auditoria", entre as quais "falhas na disponibilização de documentação pertinente para a ação de fiscalização, por parte da DRAJ, nomeadamente despachos e circulares informativas".
No relatório, o TC informa que, em 2011, deu entrada na Tesouraria do Governo Regional um montante superior a 5,7 milhões de euros resultantes das receitas líquidas cobradas por estes serviços.
O TC recomenda que a Direção Regional do Tesouro "cumpra a obrigação de entrega (de preferência mensalmente) ao Governo Central 30% da receita emolumentar ilíquida cobrada" pelos serviços externos.
Ainda no capítulo das recomendações sugere que o Governo Regional diligencie, no âmbito do Grupo de Trabalho com o Estado, a forma de regularização das importâncias em atraso e que a SRPF "promova a alteração da forma de contabilização da parcela das receitas pertencentes aos serviços do Estado atendendo à sua natureza e que acautele a forma de integração nas contas regionais das mesmas".
Insta autoridades regionais que implementem um sistema de controlo central dos movimentos, dos saldos e das contas bancárias utilizadas pelos serviços externos, visto que havia conservatórias com mais do que uma conta bancária destinada ao depósito das receitas de um mesmo tipo de registo, e que algumas das contas bancárias não só não foram movimentadas durante o ano 2011, como os respetivos saldos não foram transferidos para a Conta do Governo Regional no final do ano".
Diário Digital/Lusa

VIDEO - os sacanas não terão a última palavra


os sacanas não terão a última palavra




OS PINTORES PORTUGUESES E O 25 DE ABRIL - EPHEMERA



«Portugal à venda»: o «acontecimento» do ano

Se fosse um letreiro, teria o número de telefone do Governo e da troika. Primeiras privatizações foram fáceis, mas as restantes não são pêra doce


A fotografia deste artigo é do penúltimo dia de 2011. Não de 2012. Mas a assinatura do contrato para a compra da EDP pelos chineses da China Three Gorges foi mesmo o pontapé de saída para um ano marcado pelo processo de privatização dessa e de outras jóias da coroa. Portugal à venda como acontecimento nacional do ano? Nem mais. Um ano depois é a TAP que encerra este balanço. Um único candidato, oferta a preço de saldo - dizem alguns - e o negócio mesmo assim não vingou.

Certo é que o plano de privatizações do Governo, a mando da troika, é para continuar, esvaziando o controlo do Estado sobre outras empresas importantes, como a REN, ANA, RTP, CTT e a CGD, esta ainda como hipótese.

A EDP passou definitivamente para as mãos dos chineses só em maio. Foi o maior investimento chinês na Europa no segundo trimestre. O negócio, de 2,7 mil milhões de euros, fez com que, pela primeira vez, a China investisse mais no Velho Continente do que os europeus lá.

Ainda no final de maio, foi a vez de a REN ficar, também, sob controlo chinês (State Grid), mas não só. Os árabes da Oman Oil entraram igualmente na compra de 40% da empresa por 592 milhões de euros.

Vender a bem, a mal... ou nem isso

Se as primeiras privatizações foram fáceis - as empresas energéticas eram altamente apetecíveis - vender as que têm pouco mercado ou estão em aperto financeiro, não se tem revelado pêra doce. A não venda da TAP a Gérman Efromovich, cuja oferta tinha sido de apenas 35 milhões, é prova disso.

O economista Eugénio Rosa, que defendeu uma tese de doutoramento sobre grupos económicos, não assinou o manifesto das 55 personalidades contra a venda da TAP e da ANA, mas sublinhou à Agência Financeira que está «absolutamente de acordo» com ele.

Diz «não» à alienação de empresas estratégicas, como «os principais grupos financeirosportugueses, EDP, GALP, REN, PT, CIMPOR, ANA, TAP, etc.». Enumera as razões: «O Estado perde um importante instrumento de promoção do crescimento e do desenvolvimento do país, e de apoio à competividade das empresas portuguesas, sejam públicas ou privadas».

Depois, aponta, «naturalmente ninguém tem a ingenuidade de pensar que as duas empresas estatais chinesas que se apropriaram da EDP e REN» estão «preocupadas com o crescimento económico de Portugal e com os portugueses; estão interessadas é em utilizá-las como instrumentos dos seus objetivos e estratégias à escala global».

Outro motivo para condenar as intenções do Governo é o facto de, assim, se perder «uma importante fonte de financiamento do Orçamento do Estado. Os elevados lucros dessas empresas são apropriados por grupos estrangeiros (só os lucros da EDP superam mil milhões/ano) que depois os transferem para o exterior não pagando impostos sobre dividendos em Portugal».

Opinião contrária tem o conselheiro de Estado e presidente da SIBS. Vítor Bento defendeu já publicamente a «inevitabilidade» das privatizações. Perante a situação em que o país se encontra, entende que são necessárias para pagar a dívida.

Eugénio Rosa contrapõe: «Um Estado que sai da economia é um Estado fraco que estará sempre totalmente dependente e submisso aos grupos económicos», o que é «extremamente grave». E alienar as empresas que «geram maior riqueza agrava o problema do défice e da dívida».

Daí que, no fundo, seja «uma parte importante do país e do seu futuro que está a ser vendida e o seu controlo entregue a grupos económicos estrangeiros para quem os interesses nacionais não contam nada. Dramaticamente este é um Governo para quem o interesse e a dignidade nacionais parecem não existir».

Para além de chineses e árabes, também há um dedo (vários até) cada vez mais pesado(s) dos angolanos nas empresas nacionais, de que Isabel dos Santos é o principal rosto, com participações na ZON e BPI. Mas essa é outra história. Na esfera pública, e se Portugal fosse um boneco, certamente teria um sorriso de olhos em bico em 2012.

refutação ao tempo

Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

Meu Dilecto: 

É verdade que, por vezes, sou tocado por funesta tristeza. E penso que a minha prosa devia, talvez, ser levada para paragens mais alegres. Mas a época é pesada e trágica, não gosto do que vejo e sinto, e, mesmo com o apoio dos meus eventuais merecimentos, soçobro na melancolia. As forças que me confrontam possuem, actualmente um poder ilustrativo do meu descontentamento e das minhas decepções. Mas não desisto. Venho de longe, do desafio de todas as lutas, dos escombros de todas as derrotas e do recomeço de todos os combates. Sei que a frase comporta, em si, algo de bravata, porém as coisas foram assim, e o riso dos enfatuados possui algo de indecoroso.

Meu Dilecto:

A prova de que estes, os de agora, não venceram, ao contrário do que julgam e proclamam, é a sanha persecutória com que agem. Tentam apagar os nossos símbolos, desprezar o nosso património moral, passar ao lado dos nossos castelos, escarnecer das nossas bandeiras. A história do que têm feito resulta num rasto de sangue, de miséria e de afronta à condição humana. "As direitas sempre se uniram para o mal", escreveu Maurice Merleau-Ponty (Humanisme et Terreur), que temos a obrigação de recuperar do silêncio e das sombras com que o envolveram. A desilusão que o grande filósofo sofreu, posteriormente, não obriga a que o projectemos no limbo. E essa desilusão possui algo de trágico porque configura parte das nossas decepções actuais. Não vale a pena chorar no leite derramado, dizem. Mas calar as incertezas do conflito e a decência de uma luta constantemente desigual constituiria a abdicação da nossa ética. Ter passado é conter lastro, haver história, retribuir ao tempo o que o tempo nos prometeu. Estes biltres que nos governam nada respeitam, nem, sobretudo, o papel dos sentimentos e das emoções, esvaziando de sentido o princípio democrático, para o preencher com negócios, com a adulteração do conceito de «legalidade» substituindo-o por um autoritarismo fascista.

Meu Dilecto:

Quando um primeiro-ministro, este, diz que os reformados já receberam mais do que as verbas por eles descontadas, a frase deixa de constituir uma questão semântica para configurar a mais desprezível vilania. Este homem não é digno de nos representar, em circunstância alguma. Mas ele vai passar, deixando um traço de ignomínia e uma soma de vergonhas morais, a começar pelas suas mentiras, continuando pela sua frondosa incompetência e terminando na leviandade dos juízos. É um subalterno. A voz não lhe pertence, as ideias são de outros.

Meu Dilecto:

O que esta gente nos trouxe de miséria, de descrença, de desapontamento, de fome de ser e de angústia de não podermos estar, comporta um peso, uma culpa inaudita na nossa história recente. Contudo, estamos aqui, para o que der e vier. Até já!