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domingo, 4 de novembro de 2012

CARTA Á ALEMANHA



Senhora  Merkel, Chanceler da Alemanha


Venho pedir-lhe, por ocasião da visita que em breve nos fará, para levar consigo na partida uma breve mensagem aos seus concidadãos. Eis o que gostava que lhes transmitisse:

  • Sabemos que na década passada os vossos governos vos disseram que tinham de abrir mão de parte dos salários para preservar o futuro do vosso Estado Social. Disseram-vos, e vocês acreditaram, que se prescindissem de uma pequena parte do rendimento presente vos tornaríeis “mais competitivos” e que, dessa forma, o vosso país poderia obter uma poupança capaz de sustentar as vossas pensões e os direitos sociais dos vossos filhos no futuro.
  • Sabemos que a década passada não foi fácil para vós e que o vosso país se tornou desde então menos bonito e mais desigual. Sabemos também que o objetivo pretendido foi conseguido. Que a Alemanha se tornou «mais competitiva», exportou muito, importou menos e mais barato, conseguiu grandes excedentes da balança de pagamentos e acumulou poupança nos vossos bancos.
  • Nós sabemos, mas vocês talvez não saibam, porque isso não vos é dito pelos vossos dirigentes, que esse dinheiro acumulado nos vossos bancos, foi por eles aplicado, à falta de melhor alternativa, em empréstimos a baixo juro aos bancos do sul da Europa, entre os quais os bancos portugueses, e por eles emprestado de novo com muita publicidade e matreirice a famílias do sul cujos salários também não cresciam por aí além, mas que desejavam ter casa, carro e um modo de vida parecido com o vosso.
  • As nossas economias sujeitas à concorrência criada pela globalização que tanto convinha às vossas empresas exportadoras cresciam pouco. Mas o crédito que os vossos bancos nos ofereciam, por intermédio dos nossos, lá ia permitindo que as nossas famílias tivessem acesso a bens de consumo, muitos deles com origem nas vossas empresas exportadoras. Durante algum tempo este estado de coisas parecia ser bom para todos.
  • Quando em 2008 todas as bolhas começaram a estoirar, os vossos bancos descobriram que não podiam continuar a arriscar tanto e cortaram o crédito aos bancos do sul e mesmo aos Estados. Se a União Europeia não tivesse decidido que nenhum banco podia abrir falência, responsabilizando os Estados pelas dívidas bancárias, teríamos assistido a uma razia quer dos bancos endividados, quer dos bancos credores. Mas a UE decidiu que os governos iam «resgatar» os bancos e que depois ela própria, com o BCE e o FMI, «resgatariam» os Estados. Foi desta forma que os vossos bancos, que haviam emprestado a juros baixos para lá de todos os critérios de prudência, se salvaram eles próprios da falência. Foi assim que eles conseguiram continuar a cobrar os juros dos empréstimos e a obter a sua amortização. Doutra forma, teriam falido. Talvez vocês não saibam, mas os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal são na realidade uma dívida imposta aos povos destes países para «resgatar» os vossos bancos.
  • Talvez vocês não saibam também que até agora, os vossos Estados, todos vós como contribuintes, não gastaram um euro que fosse nos «resgates» à Grécia, à Irlanda e Portugal. Até agora o vosso governo concedeu garantias a um fundo europeu que emite dívida a taxas quase nulas para emprestar a 3% ou 4% aos países «resgatados».
  • Talvez vocês não saibam que em breve este estado de coisas se pode vir a alterar. A austeridade imposta em troca de empréstimos está a arrasar os países «resgatados». Em breve, estes países, chegarão ao ponto em que terão de suspender o serviço da dívida. Nessa hora, haverá perdas, perdas pesadas para todos, contribuintes alemães incluídos.
  • Talvez vocês não saibam, mas no final, todo o esforço que haveis feito na década passada para tornar a Alemanha «competitiva» e excedentária se pode esfumar num ápice. Afinal os vossos excedentes, são os nossos défices, os créditos dos vossos bancos são as nossas dívidas. Os vossos dirigentes deviam saber que uma economia é um sistema e que a economia do euro não é exceção. Quando as partes procuram obter vantagens à custa umas das outras, o resultado para o conjunto e cada uma delas não pode deixar de ser desastroso.
  • Talvez vocês não saibam, mas os vossos dirigentes andam a enganar-vos há muito tempo.
Perdoe-me senhora Merkel se entre uma e outra palavra deixei transparecer amargura em excesso. É que não sou capaz de o esconder: o espetáculo de uns povos contra outros é para mim insuportável, sobretudo quando afinal todos eles se debatem com um problema que é comum – o da finança que governa com governos ao serviço de 1% da população, como o seu e o nosso. À memória ocorrem-me tragédias passadas que deviam ser impensáveis. Concordará comigo pelo menos num ponto: é preciso evitar esses inomináveis regressos ao passado.

José Maria Castro Caldas 

A importância da greve dos estivadores.


"É já uma prática comum. As greves dos portuários normalmente têm uma adesão de 100%. Normalmente a adesão é total e esta não foge à regra", afirmou o dirigente sindical à Agência Lusa, no primeiro dia de uma greve que se prolonga até quarta-feira, 31 de outubro (da imprensa). Os trabalhadores portuários e, entre estes, os estivadores em particular, encontram-se na primeira linha da luta travada pelo proletariado contra as medidas de austeridade e contra os planos da burguesia em fazer andar a história para trás. Os estivadores lutam contra o plano, já acordado entre o governo e alguns sindicatos da UGT, que visa reduzir os custos do trabalho em 30%, proceder a despedimentos e, mais do que isso, fazer retroceder os estivadores a situação em que se encontravam na década dos anos 50 ou 60 do século passado, uma situação de trabalho escravo, sem quaisquer direitos: quando os estivadores se acumulavam à entrada dos portos na chegada dos barcos e vinha depois o capataz escolhê-los um a um, pela cara, pela amizade, pela submissão e negociava o preço da estiva, paga na hora e no final de cada jorna; jornas de 12 ou mais horas, a qualquer hora do dia, da noite, da madrugado, assegurando “o bom funcionamento da economia”.


Esclarecimento dos estivadores para desmontar as falsidades em relação à sua luta:


«Estivadores de Portugal: A importância da nossa greve (Esclarecimento)

Todos os dias os Portugueses são bombardeados com notícias sobre a greve nos portos cuja verdade fica perdida nos critérios editoriais da comunicação social.

Desde há largas semanas, os Estivadores estão em greve e durante este percurso têm desenvolvido variadas formas de luta. Actualmente, a “greve” dos Estivadores cinge-se aos sábados, domingos e feriados e dias úteis entre as 17 e as 08 do dia seguinte. Ou seja, cada estivador trabalha, afinal, o que trabalha cada português que ainda não está no desemprego: 8 horas por dia, 40 horas por semana.

Sabia que o ritmo de trabalho de um estivador chega a 16 e até 24 horas por dia?

Sabia que nos portos se trabalha 24 horas por dia, 362 dias por ano?

Sabia que Portugal é dos poucos países da Europa onde os profissionais da estiva não têm direito a reforma antecipada por profissão de desgaste rápido?

Sabia que o trabalho na estiva é hoje extremamente especializado requerendo uma formação profissional exigente e sofisticada?

Sabia que devido aos equipamentos pesados envolvidos nas operações a nossa atividade, atualmente, não suporta amadorismos que conduzem, frequentemente, a acidentes mortais ou incapacitantes?

As empresas em vez de exigirem uma requisição civil dos Estivadores deveriam exigir o cumprimento da Lei aprovada em 1993 por um governo Cavaco Silva.

Porque, se os Estivadores “merecem” uma requisição civil, então porque não exigir que essa requisição se estenda a todos os Portugueses que ainda conseguem trabalhar um turno normal de trabalho e transformamos este País num campo de trabalhos forçados?

Com os Estivadores a trabalhar um turno normal de trabalho interessa responder a outra pergunta. Como é que havendo, neste momento, portos mais ou menos amigos a trabalhar, esta nossa “greve” provoca o bloqueio económico do País e entope as exportações redentoras?

Pura e simplesmente porque as empresas do sector não querem admitir para os seus quadros as largas dezenas de jovens profissionais de que o mundo da estiva necessita. E o País jovem desempregado anseia.

Mas então é “só” por isto que os Estivadores estão em “greve” tão prolongada? Não. Ao longo dos anos as greves nos nossos portos têm-se sucedido por esta mesma razão. As empresas do sector apenas têm admitido novos Estivadores profissionais na sequência de greves de Estivadores.

Mas os Estivadores não se esquecem que já foram todos precários até 1979 e recusam voltar mais a esses tempos de escravatura, de indignidade e de miséria.

Acontece que as empresas monopolistas do sector portuário, estão a tentar aproveitar a passagem, esperamos que fugaz, de um governo com cartilha ultraliberal assumida, para lhes encomendar uma lei conveniente que acabe com a segurança no emprego, as nossas condições dignas e a organização sindical.

Para isso, este governo fez um acordo perverso com pseudo-organizações sindicais que representam, quando muito, 15% dos Estivadores nacionais — simulando um acordo nacional — e incendiando os portos onde trabalham os restantes 85% dos Estivadores. Com total menosprezo pelos prejuízos para a economia nacional que sabia ir provocar.

Em resumo, este governo assinou um acordo com os “amigos” de Leixões onde nas últimas duas décadas o sindicato aceitou, para os respetivos associados, uma diminuição salarial de cerca de um terço e o retalhamento do seu âmbito de atividade em clara violação da lei em vigor.

Assim, desde 1993, as empresas portuárias no porto de Lisboa admitiram cerca de 200 novos Estivadores efetivos enquanto, em Leixões, e no mesmo período, as empresas locais que pertencem aos mesmos grupos económicos das de Lisboa, admitiram o total de ZERO novos Estivadores efetivos.

Como se não bastasse a estes “sindicalistas” terem alienado o futuro dos seus sócios e respetivos filhos, bem como da restante juventude local, pretendiam agora, através deste acordo indigno, alienar as hipóteses de muitos jovens portugueses encontrarem no sector portuário uma alternativa para o desemprego, a precariedade, a miséria, a dependência e a emigração forçada.

Se aceitássemos o que nos querem impor, dois terços dos atuais Estivadores profissionais iriam engrossar as filas do desemprego. A que propósito, quando nos querem hoje a trabalhar 16 e mais horas por dia? É pela dignidade da nossa profissão que estamos em luta.



Os Estivadores de Lisboa, Setúbal, Figueira da Foz, Aveiro, Sines, Viana do Castelo, Caniçal — Estivadores do Portugal todo, porque não? — lutam por um futuro digno para os Portugueses. Por isso gritamos bem alto. E não nos calam!»


Por www.estivadeportugal.blogspot.com

O olhar clínico de Michael Freeman

Michael Freeman é um autor britânico, fotógrafo e jornalista. Em 1978 lançou "Atenas", o seu primeiro livro que deu-lhe o crédito como fotógrafo, e que acabou publicado na Revista Time como uma série chamada grandes cidades do mundo. Este foi seguido por três outros livros: "Guardiões da Fronteira Noroeste: Os Pathans""Wayfarers da Floresta Thai: O Akha" e "Povos Selvagens". A fotografia de Freeman é um bálsamo para os olhos dos que gostam de imagens do cotidiano dos povos do mundo. Uma verdadeira viagem pela Natureza Humana. 







































Post(s) á beira mar



POUCO SE FALOU, OU FALA SOBRE ISTO...PORQUÊ !?

Crisvidro desliga último forno de cristalaria manual na Marinha Grande

Agostinho Pereira e Alice Vieira fundaram a Crisvidro há 14 anos (fotografia: Joaquim Dâmaso)
E mais de 260 anos volvidos, há um capítulo que se fecha. O último forno manual na Marinha Grande foi desligado dia 28, na Crisvidro, e com ele a tradição da cristalaria de sopro no concelho, inaugurada em 1748, na Real Fábrica de Vidros. Resta em laboração semiauto

mática a Crisal – do grupo norte-americano Libbey – e as indústrias de embalagem BA Vidro, Santos Barosa e Gallovidro, esta de capitais espanhóis. Empregam 1.500 pessoas e geram negócios superiores a 200 milhões de euros anuais.
Na Crisvidro, com 42 trabalhadores e peças sopradas à cana, a realidade era outra. A empresa vinha faturando 80 mil euros por mês, mas só de gás natural e oxigénio para alimentar o forno pagava 50 mil.
“Já não conseguia suportar os custos energéticos”, explica Alice Vieira, que fundou a atividade com o marido, Agostinho Pereira. Desde 2011, a fatura do gás disparou. Cerca de metade correspondia atualmente a impostos, taxas e tarifas.
A situação motivou Alice Vieira a escrever ao Governo. Res­pondeu-lhe o secretário de Estado da Energia, prometendo averiguar. Uma semana depois, Henrique Gomes demitia-se por não conseguir reduzir as rendas da EDP e de outros operadores.
Nos últimos meses, a quebra de encomendas facilitou o desequilíbrio de contas na Crisvidro. Especialista em tulipas para iluminação, sobretudo artigos de grandes dimensões, a empresa escoava 90% da produção em Espanha, país cuja economia atravessa também um ciclo muito negativo.
Foi justamente um sócio espanhol, entretanto desvinculado, que em 2009 apoiou o investimento nas atuais instalações, que já foram da Marividros e da Vitroibérica. Ambas cessaram atividade e esse deve ser agora o destino da Crisvidro, reconhece Alice Vieira.
“Não conseguimos competir, não temos preço”, lamenta, apontando a concorrência asiática e do leste europeu. Não há dívidas ao Estado nem pagamentos atrasados, podendo a venda do edifício, equipamentos e stock servir para suprir indemnizações e outros compromissos.
Desde 1992, fecharam 20 fábricas de cristalaria na Marinha Grande. Etelvina Rosa, do Sindicato Vidreiro, aponta “os custos energéticos” como a principal causa da desagregação do sector. Na opinião do presidente da Câmara, Álvaro Pereira, o preço da energia reflete “os monopólios que mandam neste país, com prejuízo para as PME”.

Notas do meu rodapé:Os cinco pecados capitais da governação portuguesa



Os cinco pecados capitais da governação portuguesa

Durante a vigência dos governos constitucionais, Portugal cometeu cinco grandes erros estratégicos, que agora está a pagar caro. O primeiro foi a precipitada negociação da adesão à então CEE, muito marcada, para consumo interno, por motivações políticas, o que levou a que tivessem sido ignorados alguns aspetos económicos do desenvolvimento sustentado do país. Na altura, as pessoas interrogavam-se, com um certo alarme e espanto, como era possível receber-se compensações financeiras para abater barcos de pesca e arrancar videiras e oliveiras. Ao aceitar-se a exclusão de Portugal da PAC (Política Agrícola Comum) estava a condenar-se à morte o setor primário da economia portuguesa, ao mesmo tempo que se avançava com o falacioso argumento de que seria mais rentável importar alimentos, do que produzi-los. De uma penada, a Espanha, a França e a Itália, os países com maiores potencialidades agrícolas no espaço europeu, conquistaram dez milhões de consumidores.

O segundo erro, que remonta à era cavaquista, assenta primordialmente na ausência de um Plano Geral de Desenvolvimento Estratégico, que privilegiasse o crescimento na base do aumento da produtividade (a taxa de produtividade cresceu, mas não acompanhou o ritmo de crescimento da dos principais parceiros comerciais) e que se centrasse, de uma forma planeada e rigorosamente controlada na aplicação dos Fundos Europeus. Foi uma década de regabofe e de desperdício. A economia cresceu, mas foi, essencialmente à custa de fatores exógenos.

O terceiro erro, que remonta à era guterrista, diz respeito à entrada do euro. No dia em que a nova moeda começou a circular, o setor exportador da economia portuguesa, de repente, perdeu em competitividade um valor percentual idêntico ao valor percentual acrescentado à nova moeda adotada. Portugal fez a figura daquela criança que veste o casaco do pai. O euro era uma moeda demasiado grande, em valor, em relação ao nível da produtividade da sua economia. Também aquele slogan, a querer sobrevalorizar as vantagens de pertencer ao “pelotão da frente”, veio a revelar-se falacioso e enganador, pois todos os indicadores macroeconómicos (défice, dívida, exportações) começaram a degradar-se, após a adesão à moeda única. Portugal pensou como aquele ciclista, que, não tendo treinado regular e eficientemente, inicia a corrida, colando-se ao pelotão da frente, julgando assim, ingenuamente, que esse pelotão, através de um efeito sinérgico, iria puxar por ele. É claro que o ciclista acaba por descolar, porque as pernas não aguentaram. E Portugal não aguentou a pedalada da moeda única, como agora amargamente está a ser demonstrado.

O quarto erro reporta à era socrática, a que alguns, em tom pejorativo, chamam socretina. Se Portugal, em 2008, tivesse moeda própria, a desvalorização da moeda teria evitado grande parte do endividamento e a subsequente campanha especulativa, desencadeada pelo capital financeiro internacional, através das agências de rating. O aumento das exportações, por esta via, permitiria saldos positivos na balança comercial e na balança de pagamentos, que sustentariam a dívida pública e o seu serviço.

Se não tivesse faltado visão na análise e rapidez na tomada de decisões, quando, em 2008, o mundo acordou para a derrocada dos bancos dos EUA, Portugal teria sido subtraído aos enormes e humilhantes sacrifícios, que estão, hoje, a ser-lhe impostos. Foi esse o momento em que se deveria ter questionado a nossa presença no seleto clube do euro e de ter feito uma reforma profunda do Estado, no sentido de aumentar a sua eficácia e de lhe reduzir os custos, e isto sem pôr em risco a qualidade do nível de serviços que presta ao cidadão, principalmente nos pilares sociais. Compreende-se que era uma tarefa difícil, e que só uma liderança forte e prestigiada poderia encetar, o que não era o caso.

Toda a gente pensava que a crise era passageira. O pensamento dominante, inquinado por preconceitos ideológicos, dizia que a crise era conjuntural, quando já se percebia que ela era estrutural, sistémica, endémica, contagiosa e duradoura. Em 2008 e 2009, ninguém pensou que Portugal iria chegar a 2012 à beira de um grande precipício. Jean Monnet, um dos fundadores da CEE, disse que as pessoas só compreendem a crise, quando levam com ela na cabeça. E quando se chega a esse ponto, já é tarde demais, digo eu.

O quinto erro, o da assinatura do Memorando da Troika, que a União Europeia insistentemente sugeria (impunha) e a direita indígena desejava, foi uma autêntica tragédia. O acordo foi imposto sem qualquer contraproposta. De joelhos, assumindo o papel de mendigo, quatro figurantes da alta política, com o beneplácito de um quinto figurante, o Presidente da República, assinaram o Tratado da Traição ou o Tratado da Vergonha. Um governo patriótico teria exigido um prazo muito mais alargado para reduzir o défice orçamental, sob a ameaça de que, em alternativa, se declararia o não pagamento da dívida e a saída do euro, ameaça esta que provocaria um ataque de pânico a Angela Merkel, ao ponto de a levar a urinar-se pelas pernas abaixo. Ainda hoje, se Portugal, Espanha, Itália e a Grécia se concertassem neste propósito, a Kaiser, também conhecida pela Hitler de saias, teria uma descomunal diarreia durante mais de um ano. E o motivo não seria para menos. É que a saída destes países da zona euro acarretaria, até 2020, perdas para a economia mundial no valor de 17 biliões de euros. Só a Alemanha, em relação a um colapso da Grécia e de Portugal, perderia, durante aquele mesmo período, 225 mil milhões de euros. E é esta fragilidade dos países credores, que deve ser explorada com inteligência e sentido de oportunidade pelos países do sul da Europa, o que exigiria governos patrióticos, não submetidos aos interesses do capitalismo financeiro.


Alpendre da lua

União Europeia não tem remédio ou arranjo – não é reformável

Contradições, rivalidade e concertação
por Pedro Guerreiro
 
 
"A agenda e as autênticas condições leoninas (e sem contrapartidas) colocadas pelo grande capital alemão alimentam as desconfianças e ansiedades dos seus parceiros, nomeadamente do grande capital francês, que, no turbilhão, não quer perder o pé – recorde-se que a Espanha é um dos primeiros parceiros comerciais da França. "


Pelas suas implicações e consequências, o acompanhamento da actual situação do processo de integração capitalista europeu – a União Europeia – e das perspectivas que vão sendo delineadas para o seu futuro próximo exigem uma acrescida e necessária atenção.

No actual momento, que se caracteriza pela continuação e mesmo acentuação da crise na União Europeia, emergem com renovado vigor as contradições, os conflitos de interesses e a desconfiança entre as suas principais potências, embora não colocando em causa o seu compromisso de classe.

Sucedem-se as declarações que evidenciam a existência de diferenças quanto aos objectivos imediatos a alcançar, ao real conteúdo e alcance, à ordenação e ritmos de concretização e até à participação ou não nas fases – já em concretização ou ainda em gestação – que visam o aprofundamento da integração capitalista, como acontece, por exemplo, com o denominado «tratado orçamental» (mecanismo de domínio económico e político) ou a dita «união bancária» (um mecanismo de «supervisão», para quem, por quem e para quê?).

Trata-se de discordâncias que decorrem das diferentes dificuldades e interesses que se disputam entre os grandes grupos económico-financeiros da Alemanha, da França e da Grã-Bretanha, mas que, ao mesmo tempo, não impedem o seu entendimento quando se trata de impor os seus concertados intuitos e agenda aos restantes países que integram a União Europeia, como acontece relativamente ao Quadro financeiro da UE após 2013.

Assim se poderá compreender melhor o debate em torno da criação do «núcleo duro», que resultaria do pretendido aprofundamento da União Económica e Monetária e, consequente, reconfiguração da Zona Euro.

O grande capital alemão continua a procurar gerir a crise como uma oportunidade para reforçar o seu domínio económico e político na União Europeia, estabelecendo para tal as condições e termos da nova etapa da integração capitalista que se anuncia.

Nova etapa que, a ser concretizada, representaria o estabelecimento de mecanismos que garantiriam o completo controlo das economias dos países da sua «periferia», a partir da criação de novos instrumentos ou da adaptação e reforço dos já existentes na União Europeia, como a reafirmada ambição de impor o poder de veto sobre os orçamentos nacionais por parte da futura «estrutura» da Zona Euro, feita à medida das pretensões de domínio do grande capital alemão.

A agenda e as autênticas condições leoninas (e sem contrapartidas) colocadas pelo grande capital alemão alimentam as desconfianças e ansiedades dos seus parceiros, nomeadamente do grande capital francês, que, no turbilhão, não quer perder o pé – recorde-se que a Espanha é um dos primeiros parceiros comerciais da França.

No entanto, uns e outros, cavalgam na criação das condições para a continuação do refinanciamento do capital financeiro – nomeadamente da Alemanha e da França – à custa da intensificação da exploração e da degradação das condições de vida dos trabalhadores, exigindo e impondo a aplicação das falsas «medidas de controlo do défice e do endividamento público» e das ditas «reformas estruturais», através das quais saqueiam e acumulam colossais meios financeiros.

A União Europeia não tem remédio ou arranjo – não é reformável. Prenhe de contradições, cada novo passo na integração capitalista europeia representará acrescidos e reforçados ataques aos direitos dos trabalhadores e à soberania dos povos, pois, como a realidade aí está a demonstrar, é da sua natureza e propósito ser um instrumento de domínio das grandes potências e dos grandes grupos económicos e financeiras.

 
 
Fonte: Avante

BAPTISTA-BASTOS

Este homem é perigoso

por BAPTISTA-BASTOS
Pedro Passos Coelho gosta de dizer coisas. Já se sabe. Poucas vezes, porém, as diz acertadas. Há, neste homem envelhecido, acabrunhado e notoriamente consumido, a revelação subjacente de que se envolveu num labirinto cujo término ignora. As políticas que desenvolve, com desvios, evasivas, recuos, imperfeições, criam desesperos, angústias e perplexidades. Completamente desorientado com o rumo dos acontecimentos que não domina, descobriu, nas jornadas parlamentares do PSD-CDS, o verbo "refundar", e originou não só o pasmo nas suas hostes como a perturbação nas de António José Seguro.
Marcelo Rebelo de Sousa explicou a natureza do erro e a dimensão do tolejo político. Passos, incisivo e fatal, declarou que a "refundação" do protocolo de ajustamento com a troika nada tinha a ver com "renegociação"; é outra coisa. Mas não explicou a natureza das suas elucubrações. Os participantes nas jornadas saíram em silêncio, entreolhando-se, porém, com a farpa da dúvida cravada no ânimo. "Ele parece lelé da cuca", disse alguém.
Estamos entregues às insuficiências de um homem que baralha tudo e que presume enganar os outros com atropelos semânticos. O nosso cansaço advém de já termos compreendido que a inépcia de Passos Coelho não é uma escolha entre contradições, sim um processo mental complicado, pela obstinação no erro e pela recusa em o admitir.
Alguém de recta consciência e no perfeito domínio das faculdades elementares pode apoiar e sustentar o representante de uma ideologia que, sem pudor, já se não esconde nem sequer se dissimula? A sociedade, transversalmente, critica, execra e até expele, com insultos nunca vistos e ouvidos, este Executivo; e o dr. Cavaco (também objecto de escárnio e maldizer) cala-se, admitindo a redução da democracia ao funcionamento processual. O descalabro associa-se à pouca vergonha.
O poder já não dispõe de suporte legítimo porque espezinhou as delegações sociais, políticas e morais que lhe foram atribuídas. Ainda não há muito se dizia que um "governo celerado" era o que desdenhava da própria qualidade das pertenças mútuas. Os conflitos de valores inultrapassáveis, que dilaceram a nação e nos transformam em títeres de uma experiência maléfica, irão resultar em que confrontos imprevisíveis? A responsabilidade do caos só pode ser atribuída ao dr. Cavaco. Já lhe dissemos que não queremos esta gentalha. Então? Por muitíssimo menos, Jorge Sampaio escorraçou Pedro Santana Lopes.
A "refundação" do protocolo de ajustamento não é uma falácia: corresponde a uma manobra sórdida, que repõe a questão do poder e da liberdade, entre a pluralidade das escolhas e os ínvios atalhos da "inevitabilidade." Atentemos nas evidências: Pedro Passos Coelho não é aquele sujeito afável que se apresentou aos costumes. É perigoso, e cada vez mais, quando se lhe avizinham as tormentas.

Vergonha foi a palavra mais escrita no Facebook de Passos Coelho



 (Foto: Nuno Ferreira Santos)
 Uma equipa de investigadores portugueses analisou mais de 51 mil comentários deixados na página do primeiro-ministro, após a mensagem que Passos Coelho escreveu aos portugueses na noite de 8 de Setembro. Há quem veja os comentários como uma “manifestação online” ou “uma catarse”. Mas aqui também pode estar um retrato da sociedade de hoje

“Vergonha”, “pobre” e “coragem” foram as três palavras mais repetidas nos comentários escritos no Facebook de Passos Coelho num intervalo de nove dias. Nesse intervalo de tempo, entre 8 de Setembro (dia da publicação da mensagem) e 17 de Setembro (dois dias depois das manifestações de dia 15, que reuniram dezenas de milhares de portugueses nas ruas), foram escritos 51.566 comentários em reacção à mensagem que o primeiro-ministro assinou como “Pedro” e no qual disse ter feito “um dos discursos mais ingratos quem um primeiro-ministro pode fazer”. Até hoje já foram quase 78 mil comentários a essa mensagem que se seguiu ao anúncio da intenção de aumentar as contribuições dos trabalhadores para a Segurança Social. A medida acabou por não avançar depois de muitas críticas e de uma reunião do Conselho de Estado em que o Governo foi convidado a explicar-se. Já os comentários no Facebook continuaram a crescer. Uma equipa de investigadores, no âmbito de um projecto em jornalismo computacional, extraiu as reacções e fez uma lista com as 50 palavras mais repetidas.

Com base nessas palavras, foi desenhada uma “nuvem” dinâmica, na qual os vários termos surgem dentro de bolhas com um tamanho maior ou menor, consoante o número de ocorrências da palavra. Quanto mais vezes foi escrita, maior é o tamanho da bolha. “Sacrifício”, “mentiroso”, “desemprego”, “pior” ou “fome” estão dentro das maiores bolhas; “merda”, “poleiro”, “lata”, “equidade”, “cambada” ou “democracia” nas mais pequenas.

Para ver o gráfico, numa página separada clique aqui
Mentiroso!! E sabe do q estou a falar! Antes de ser governo dizia categoricamente que NÃO! E nós, os que nao podem fugir, vamos a continuar a abanar com a cabeça e deixá-los dizer SIM?!??!
como Pai e Cidadão devia ter maisrespeito...eu queria ver se tivesse o ordenado que muita gente tem, se colocava comida na mesa....isto vai merecer uma revolução............
ai, quem lá pôs esse inútil, o primeiro mais estúpido, já alguém disse, piorque o sokras, é que devia pagá-las, mas a seita é grande e o pote chega a muitos, é verdade ...
Que tal demitir-se??? Está é à espera que haja uma revolução. Quem paga é o pequeno. Chulos, ladrões.
Estou muito feliz, por ter um amigo como tu, nao fiques triste os meus 18% para a seguranca social fazem de mim uma pessoa muito + alegre.

2710 comentários/hora, 9 Sep 21:00


Catarse ou retrato?
A análise passou por duas fases. “A extracção de comentários recorreu à Graph API do Facebook, que disponibiliza métodos para recolher posts públicos e os respectivos comentários”, explica Eduarda Mendes Rodrigue, professora no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e investigadora do projecto REACTION, que desenvolveu o trabalho. Depois foi aplicado um léxico de sentimento, desenvolvido no âmbito do mesmo projecto. “É possível visualizar a polaridade de cada expressão de sentimento no léxico, premindo o botão do rato sobre cada uma das bolhas”, explica Paula Carvalho, linguista e investigadora do INESC-ID. “A cor verde está associada aos termos classificados como positivos e a vermelha aos termos classificados como negativos. Não se procedeu a qualquer análise sintáctica ou semântica, pelo que as expressões podem não veicular sentimento ou veicular um sentimento diferente daquele que têm no léxico”.

São várias as leituras possíveis de fazer a partir destes resultados: desde a simples constatação sobre o peso e significado de cada palavra, até à análise mais alargada sobre o que podem dizer da sociedade de hoje. Procurámos juntar outras opiniões a este trabalho, como a de Mário Soares, José Gil, Eduardo Lourenço ou Mário de Carvalho que, por falta de disponibilidade, não responderam.

Na opinião de António Costa Pinto, politólogo, é “perfeitamente possível” fazer um retrato da sociedade a partir daqui. “Vergonha, pobre e desemprego são dos núcleos mais fortes: o desemprego a aumentar e o cenário de pobreza. É uma sociedade que sente esse empobrecimento e a ameaça do desemprego”.

A palavra “vergonha”, defende o politólogo, tanto é usada como crítica (como é evidenciado na expressão “falta de vergonha”), como para dizer “eu estou com vergonha”. Ligados a esta palavra, diz Costa Pinto, estão outros elementos como a “mentira”, lembrando a “contradição entre a campanha eleitoral e a prática governamental”.

O que diz um escritor?
Do ponto de vista de um escritor – dado que escolhe, conjuga e articula palavras diariamente no seu trabalho – há algo a dizer sobre a dimensão e peso dos termos mais repetidos. “Creio que, nestes comentários a Passos Coelho, a palavra ‘vergonha’ deve ter sido antecedida com frequência pelas palavras ‘falta de’”, comenta José Luís Peixoto, destacando que a acção de Pedro Passos Coelho deu origem a vários tipos de vergonha.

“Vergonha por terem votado nele, vergonha do tipo de políticos que continuamos a considerar com perfil para governarem este país ou, também, aquela vergonha que se sente em lugar dos outros, a chamada ‘vergonha alheia’”. Mas há ainda a utilização de substantivos que correspondem a valores essenciais, como coragem, segurança, dignidade, justiça, respeito, diz o escritor. “Sinto que, neste momento, a maioria dos portugueses, muito provavelmente uma grande parte daqueles que se abstêm eleição após eleição, estão a reflectir sobre a própria raiz de toda esta situação e, ao fazê-lo, tocam aquilo que é a essência de qualquer discussão, de qualquer reflexão: os valores”.

A opinião de João Duarte, CEO da agência de comunicação YoungNetwork, é diferente. “Acho que não dá para fazer um retrato da sociedade. É um desfasamento da realidade porque o perfil das pessoas que estão no Facebook é uma amostra que não reflecte os dez milhões de portugueses”.

O que a política inspira
Já de um ponto de vista psicológico, há quem veja nestas palavras “as preocupações e emoções relacionadas com o que foi anunciado: a ideia do sofrimento e dos sacrifícios só para alguns. Fala-se em ‘equidade’ por essa razão: pela falta de equidade”, comenta Isabel Menezes, psicóloga e docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) “É curiosa também a referência à “coragem”, tanto pela positiva como pela negativa. Em geral, é um discurso emocionalmente carregado, mas é isso que a política inspira”. Para quem estuda a participação política através dos novos media, estes foram comentários “espontâneos, honestos e imediatos”. Cláudia Lamy, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL), destaca a personalização feita à volta do primeiro-ministro. “As pessoas utilizaram aquele perfil para irem directamente a quem personifica o Governo. É um desabafo, é dizer à pessoa o que se pensa dela. Funciona como uma catarse, que não é conseguida através de outros meios”.

Um diálogo ilusório
Deixar um comentário directamente na página do primeiro-ministro transmite uma sensação de capacidade de expressão, intervenção e participação políticas. “Nas redes sociais, as pessoas sentem-se muito escutadas. É algo diferente de assinar uma petição”, comenta Isabel Menezes. “A maior parte das pessoas sente um diálogo, que é ilusório, mas tem feedback com o que as outras pessoas comentam. Isso dá um sentido de eficácia e leva a dizer: ‘eu posso fazer alguma diferença com a minha acção’”.

A necessidade de um feedback a essa iniciativa é defendida por Sam Gosling, psicólogo e professor na Universidade do Texas em Austin, que tem desenvolvido estudos sobre a personalidade e comportamento dos utilizadores das redes sociais. “As pessoas podem acreditar num sistema [político], mesmo que o resultado não favoreça os seus interesses, se acharem que esse sistema é justo. Por isso, sistemas transparentes que não pareçam favorecer uns em detrimento de outros podem conseguir apoio da comunidade. É claro que isto não funciona se quem comenta se sente ignorado”, disse ao PÚBLICO, por email. Quanto ao feedback, Sam Gosling diz que pode ser uma simples resposta, “a publicação no Facebook de um resumo dos comentários e uma resposta geral” ou uma mudança política.

João Duarte foca o mesmo ponto: a importância da interactividade quando se está a falar da gestão de uma página no Facebook. “É claro que não é o primeiro-ministro que gere a página, mas as redes sociais ainda são usadas como se fosse mass media, sem preocupação com a interactividade”, refere. “Claro que não é possível responder um por um, mas pode haver uma reacção. Pode haver um feedback explicativo”.

O que vale a democracia tecnológica?
Mesmo sem resposta, a emoção é um catalisador da mobilização, lembra Isabel Menezes, associando-se também a uma sensação de poder individual. “Uma das diferenças significativas do impacto das redes sociais e da democratização da comunicação é o aumento da participação”, comenta António Costa Pinto. Essa participação é um sinal positivo, destaca o politólogo, sobretudo tendo em conta que Portugal tem um dos índices mais baixos de participação cívica e política, quando comparado com outros países europeus, de acordo com dados da European Social Survey. “A democracia tecnológica aumentou os canais de mobilização da sociedade”, conclui.

Como foi sublinhado pelo CEO da YoungNetwork, e referido pelos outros especialistas, é preciso não esquecer que só uma parte da população usa internet e, em particular, as redes sociais. E, segundo dados do relatório de 2012 do Observatório da Comunicação (A Internet em Portugal), 43 por cento dos agregados domésticos, em 2011, não tinham acesso à internet. Dos internautas, 73.4% usam as redes sociais; e, dentro desse universo, 97.3% usam o Facebook.“Estas são pessoas informadas e que participam, embora nem todas as pessoas que têm perfil no Facebook participem”, descreve João Duarte. Há pessoas de todas as idades ainda que o intervalo dos 15 aos 40 anos englobe os utilizadores mais activos. Também Isabel Menezes sublinha um aumento da participação cívica e política dos jovens, “contrariando o discurso e a ideia de que temos um problema com os jovens e a sua ligação à Política”. A investigadora explica que “o que há é um declínio das formas convencionais de participação política”.

António Costa Pinto lembra que a iniciativa de deixar um comentário já significa algum capital social e margem de activismo. “Essa pessoa tem uma maior probabilidade de participar numa manifestação”. Uma das opiniões é a de que esta foi uma manifestação online, em oposição à manifestação física (offline) do dia 15 de Setembro. O que têm em comum? Muitas das palavras escritas no Facebook coincidem com as dos cartazes da manifestação nas ruas ou as que se ouvem numa conversa de café. E de diferente? A ausência de contacto físico, como sublinha Isabel Menezes; e a capacidade de cada um “ter a sua voz própria” no Facebook, na opinião de Cláudia Lamy.

José Luís Peixoto sublinha a “impotência” que pode ser sentida quando as pessoas começam a reflectir sobre a raiz da situação actual. “Daí a presença de uma família de palavras que, creio, está muito menos representada neste contexto do que nas conversas quotidianas dos portugueses”, afirma. “Talvez a razão seja o formalismo e a boa educação que mantemos na escrita. Refiro-me a palavras como: merda, cambada, chulo, gatuno, palhaço, entre outras. Em Portugal, a falta de hábito faz com que exista um certo choque quando se vê esse tipo de palavras escritas. Já no que toca a dizê-las, não há qualquer tipo de pudor”.

A mensagem foi um risco, não um erro
Pensar que a mensagem de Passos Coelho, ao ser publicada no Facebook, foi na verdade dirigida só aos utilizadores das redes sociais é um erro, afirma o CEO da YoungNetwork. “A mensagem passa para os mass media. Aliás, muitas das coisas passam das redes sociais para os mass media”. É aí que se dá o maior impulso na difusão da mensagem.

Os comentários foram negativos na sua maioria, algo difícil de evitar não pela forma ou tom da mensagem escrita no Facebook, defende João Duarte, mas pelo teor do anúncio que tinha sido feito pelo primeiro-ministro. “Esta mensagem no Facebook usa um tipo de discurso e proximidade que não fazem sentido. Mas esse é um erro menor. O principal erro era a mensagem de fundo”.

Mas quando se gere a página de um político no Facebook há regras a seguir. “Primeiro, tem de haver um objectivo. Segundo, é preciso saber qual a estratégia ou o plano para atingir esse objectivo. Terceiro, saber qual o tipo de mensagem que se escreve. Quarto, saber o que é que se diz e o que é não se pode dizer”, diz João Duarte.

Se foi um erro publicar esta mensagem? “Não foi um erro, foi um risco”, responde António Costa Pinto. “Assim permite-se à cidadania a expressão da sua opinião”. Cláudia Lamy acrescenta que vale a pena o risco. “Nem que seja pelo simbólico da presença e pela ideia da proximidade”.

Da visualização desta nuvem fazem parte outras componentes. É mostrado o contexto de utilização de cada palavra, através de exemplos de comentários de utilizadores com perfis públicos. E é também apresentada uma linha temporal que permite perceber as várias ondas de reacção e a evolução do fluxo de comentários, tanto nos dias que se seguiram à publicação da mensagem, como após a manifestação do dia 15. Esta análise resulta da colaboração de equipas da Universidade Técnica de Lisboa (INESC-ID), da Universidade do Porto (FEUP e LIACC), do Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ), dos Labs Sapo (UP e Picoas) e do PÚBLICO, no âmbito do projecto REACTION, apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), ao abrigo do programa UTAustin-Portugal.